Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Como foi feito

Personagens difíceis

Personagens difíceis

Na semana passada publiquei um texto da Cristina sobre sua busca fracassada por uma grávida que tivesse DST e topasse dar entrevista.

Ela contava que seguiu a cartilha, mas deu com os burros n´água.

Fiquei de pedir a LARISSA GUIMARÃES, repórter da Sucursal de Brasília, que contasse como conseguiu encontrar uma personagem. E vai aí, então, a resposta:

É fácil ir às ruas e achar alguém que reclame do preço dos alimentos. Também não é complicado procurar alguém que fale sobre como educar os filhos. Agora, encontrar uma mulher grávida com sífilis, e que queira falar sobre isso, não é muito simples.

Na última sexta-feira, me deparei com essa tarefa: achar uma grávida com DST para ilustrar minha matéria. Nesse tipo de situação, quanto menor for a distância entre o repórter e o personagem, maiores são as chances de dar certo, acho. Se há muitos intermediários _assessoria de imprensa, diretora do hospital etc_, o personagem se inibe e não se anima a falar. Então, logo que cheguei na Redação, entrei em contato com as assessorias de cinco hospitais públicos aqui de Brasília. Pedi para falar direto com as equipes de enfermagem. Lá pela quarta tentativa, consegui contato com a enfermeira-chefe de um hospital. Ela trata direto com as grávidas e sabe as particularidades de cada caso.

Tentei explicar o máximo possível. Comecei pedindo "ajuda para uma matéria", e não "um personagem". Falei que era uma pesquisa sobre DST e Aids e tentei puxar um bate-papo mesmo. Perguntei como era o cotidiano no hospital, se chegavam muitos casos, se ela achava importante o jornal publicar matérias sobre isso e informar as pessoas. Depois dessa aproximação, disse à enfermeira que seria ótimo mostrar um caso real. Deixei claro que não iríamos expor a grávida _não haveria nome ou qualquer outro dado que a identificasse.

De cabeça, ela lembrava de um caso de uma gestante com sífilis. Pedi que ela desse uma olhada nas fichas dos pacientes do serviço pré-natal, e a enfermeira encontrou mais um caso no perfil que eu procurava. Ela telefonou para as duas grávidas e perguntou se elas topariam falar comigo. Pedi que ela explicasse para as duas mães de uma forma bem clara, bem didática.

No início da tarde, o marido de uma das grávidas me ligou. Disse que ele e mulher haviam recebido o telefonema da enfermeira. O marido gostou da idéia de mostrar a experiência deles (desde que assegurado o anonimato, claro), mas a grávida estava com medo de falar e queria distância.

Perguntei para o marido da gestante se eu poderia bater um papo com ela. Só conversar. Se mesmo assim ela não topasse falar, sem problemas. Ele deu sinal verde.

Logo que C.S. atendeu, percebi que ela estava bastante constrangida. Tentei conversar com naturalidade _perguntei sobre o bebê, se ela estava sentindo enjôos, como estava suportando o calor e a baixa umidade aqui em Brasília. Aos poucos, fomos conversando e nos entendendo. Acho que o fato de eu ser mulher ajudou também a criar uma proximidade.

Depois de uns 15 minutos, ela disse que podia participar da matéria. Pedi para fazer uma foto só da barriga dela, mas aí C.S. quase desligou o telefone. Falei: "Ok, sem fotos, vamos conversar mais". Daí para frente ela se soltou mais, e eu fui avançando também. "Usa camisinha?"  "Teve outros namorados?" Perguntei (quase) tudo o que eu queria.

Em casos mais complicados, como esse da grávida com DST, acho que a abordagem é mais importante do que telefonar para muitos lugares. É melhor gastar mais tempo conversando do que fazer vários contatos rápidos. Existe o fator sorte também. Às vezes, fazemos várias tentativas, por diversos meios, mas o personagem não aparece. É do jogo. Procurar personagem dá trabalho, mas acho que "tempera" a matéria. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h18

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Tiros n´água - como não encontrar um personagem

Tiros n´água - como não encontrar um personagem


Fabio Schivartche/Folha Imagem

Esta seção "Como foi feito", como o próprio nome diz, serve para meus colegas contarem como fizeram isso ou aquilo.

Mas hoje ela será uma anti-seção em que a CRISTINA MORENO de CASTRO relata como não conseguiu cumprir sua pauta (embora tenha tentado vários caminhos possíveis):

"Às vezes uma pauta surge de um caso inusitado que aconteceu com aquele nosso amigo e ele nos contou na mesa do bar.

Às vezes uma pessoa qualquer vive algo que merece um foco nela, que faz com que ela mereça um perfil, ou que seja ponto de partida para uma reportagem de fôlego.
 
Por exemplo, quando eu estava no comecinho do treinamento, descobri o Vagaroso, primo de ex-piloto de fórmula 1 que mereceu um foco em Cotidiano só pelo sobrenome diferente.
 
Mas também tem o inverso: a pauta bacana, surgida de outros lugares, que fica melhor ilustrada com um personagem. Aí o jornalista tem que fazer o caminho contrário: tentar descobrir alguém que já tenha passado por aquilo que é descrito na reportagem, para mostrar ao leitor que, olha só, isso acontece mesmo, e Fulano vai nos contar como foi com ele.
 
Eu nunca tive muita dificuldade de encontrar personagens.

Às vezes, dependendo da matéria, até uma boa vasculhada no Orkut nos faz esbarrar com figuras interessantíssimas, com muita história para contar. Geralmente o amigo do tio do colega também já passou por aquilo que queremos descrever. Se você coleciona amigos "de bar", já está a meio caminho de ter sempre um personagem à disposição para algumas matérias.
 
É por isso que, ontem, ajudando o pessoal de Cotidiano, fiquei tranqüila quando o pauteiro me pediu para encontrar personagens que ilustrassem uma reportagem que foi feita em Brasília.
 
Três horas de tentativa malsucedida depois, comecei a ficar preocupada. Sugiro que leiam a matéria para entender por que essa personagem era mais difícil que a média.

Não é em toda esquina que encontramos grávidas com doenças sexualmente transmissíveis. Até porque uma DST não é como um chapéu desengonçado, em que todo mundo repara: a gente só fica sabendo se alguém se dispuser a nos contar. E é uma dessas coisas íntimas que nem todos se dispõem a contar para um jornalista, se é que me entendem.
 
O resultado é que liguei para:

  • nove ONGs que trabalham com gestantes e com saúde da mulher,
  • para três centros de atendimento a aidéticos,
  • três postos de saúde,
  • a Federação Nacional dos Ginecologistas e Obstetras,
  • outros quatro ginecologistas,
  • uns cinco hospitais com maternidade,
  • a Secretaria Muncipal de Saúde (que me ajudaria via hospitais, clínicas e postos públicos),
  • amigos que talvez conhecessem alguém,
  • pastorais
  • etc.

Também conversei com um repórter de saúde de Cotidiano, para pedir contatos a ele, que foram todos usados. Tudo em vão.
 
E, nesse caso específico, todos me disseram que não valia a pena ir diretamente para os postos de saúde porque, por se tratar de uma questão delicada, eu dificilmente encontraria alguém disposto a me receber.
 
Terminei meu dia bastante frustrada por não ter conseguido nem sequer uma personagem. Contei isso para minha editora em Cotidiano. E ela perguntou: "Cris, se você fosse uma grávida com DST, toparia dar uma entrevista sobre isso?". Definitivamente, não. (Apesar de que o pessoal da sucursal de Brasília encontrou alguém que topou).

Mas, então, não seria o caso de deixar certas matérias sem essa figura ilustrativa do personagem?

Quais matérias comportam personagens e em quais eles não fazem nenhuma diferença para a compreensão de um assunto pelo leitor? Haveria três tipos de situações:

  • em que o personagem é a figura central,
  • em que ele é um acessório ilustrativo
  • e uma terceira, em que ele não deveria existir?

Voltei para casa com essas dúvidas. E, ao ler hoje a matéria pronta, fiquei com a impressão de que saber que C.S., 27, nunca teve nenhum homem em sua vida além do marido e contraiu sífilis não mudou em nada o meu dia."

Vou ver se o pessoal de Brasília pode fazer a continuação desse post e contar como eles conseguiram. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h27

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O lide era outro

O lide era outro

A única maneira de realmente aprender jornalismo é a experiência.

Mas é possível acelerar e/ou suavizar esse aprendizado juntando duas coisas à prática: estudo e reflexão.

Quando a gente lê um bom texto, é útil relê-lo tentando entender por que afinal gostamos tanto dele (como ensina Janio de Freitas, num post da semana passada).

Se uma história chama a nossa atenção, vale a pena entender de onde o repórter tirou a idéia e como a colocou de pé.

As lições que a gente tira disso não são diretamente aplicáveis na nossa rotina: cada reportagem vai ter seus problemas e a peça de um quebra-cabeça não encaixa perfeitamente em outro.

Mas elas nos alertam para possibilidades em que não havíamos pensado. Aumentam nosso repertório de soluções.

É o caso de uma ótima sacada de meu colega ITALO NOGUEIRA, que publicou na sexta passada a matéria "Mãe investiga morte de filho e "condena" PMs".

A história era ótima: uma mulher que refez o trabalho da polícia e chegou a estudar direito para obter provas que levassem à condenação os suspeitos pela morte de seu filho. Mas por que só o Ítalo contou? De onde apareceu a pauta? Pensei em algumas hipóteses:

  • era um caso que ele acompanhava de perto - e aqui o segredo seria a disciplina: anotar na agenda e organizar-se para ir atualizando sempre as informações
  • uma fonte havia passado a informação - a lição aqui seria cultivar direito as fontes, para que elas lembrem-se de você quando tiverem uma boa história
  • só ele notou algo que era lateral à noticia, mas tinha muito mais impacto - isso acontece quando a gente desliga o piloto-automático e mantém a curiosidade e a observação ligados o tempo todo

O Italo conta, então, como foi:

A trajetória dela é bastante conhecida aqui no Rio, mas não lembro de algum jornal ter publicada toda a história dela, detalhadamente como foi a investigação etc...

Eu mantenho algum contato regular com ONGs que trabalham com família vítimas da violência e inclusive já havia conversado com a Márcia em outra matéria (não como personagem, mas ela contou o caso de forma resumida).
 
Eu recebi um e-mail avisando sobre o julgamento dos PMs e achei que era um ótimo gancho para contar essa história com início-meio-fim, já que ali sairia o resultado da investigação dela, se foi bem feita ou não. Acho uma história muito interessante, mas são várias as mães que buscam justiça pelo filho. O diferencial dessa história seria a condenação que ela conseguiu.
 
Acredito que outros repórteres tenham recebido o mesmo e-mail, mas acho que não se interessaram pela história.
 
Na realidade, a primeira versão da matéria tinha um foco diferente, embora o corpo do texto fosse igual. Abri tentando mostrar que nem todo registro de auto de resistência era uma morte em confronto. E a partir daí contava o caso dela, de forma parecida como foi publicada. O jornal preferiu que me focasse pura e simplesmente na história dela, sem pensar na parte de "política pública". Depois do resultado, achei uma mudança acertadíssima. Nenhum texto é só meu, já que passa pela mão de alguns editores, mas esse especialmente contou muito com a intervenção dos chefes, e acho que para melhor.
 
Na verdade não foi nenhuma apuração emocionante, mas acho que é boa para mostrar que o lide nem sempre é o fato de ontem ["PMs são condenados por morte de jovem"], mas a história como um todo. Cabe ao repórter encaixar as duas peças e vendê-la bem para a chefia.

LAURA CAPRIGLIONE e a pauta que só ela viu
Foco é bom, mas mantenha a visão periférica
No rádio, repórter olha para o lado
Outros jornalistas contam como fizeram seu trabalho na seção "Como foi feito"

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h19

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Se o que a fonte fala é grego pra você

Se o que a fonte fala é grego pra você

E pode ser grego para ela também.

É a pedreira que geralmente cabe aos enviados especiais a lugares em que se fala parsi, russo, chinês ou uma das centenas de idiomas africanos.

A saída é um intérprete, com as dificuldades que isso traz.

Minha leitora Ivy, de São Paulo, queria saber como é que se trabalha com um "intermediário". E quem responde é meu colega IGOR GIELOW, que falou justamente sobre o assunto na semana de palestras:

Ivy - Como fazer as perguntas para o intérprete? Tem horas que é difícil se expressar em português, como é se expressar numa língua que não se domina?

Igor Gielow - Bem, você tem que ter domínio da língua na qual vai falar com o intérprete, seja inglês, espanhol ou javanês. Sem isso, não poderá pareceber eventuais problemas. Logicamente, às vezes o inglês do sujeito é tão ruim que você corre algum risco de perder algo na tradução, mas é do jogo.

Ivy - É possível confiar no intérprete? O Igor tem alguma dica de como saber se o intérprete está falando a verdade ou não?

IG - Aí é só no dia-a-dia. Você consegue às vezes perceber por exemplo uma longa explicação ser resumida a uma ou duas palavras. Isso geralmente é problema.

Ivy - Como o Igor acha os intérpretes? São jornalistas, pessoas que já lidavam com comunicação?

IG - Depende. Em lugares conflagrados, o mais comum é um jornalista local se apresentar como tradutor e "fixer", ou seja, o cara que te ajuda com tudo (transporte, contatos etc.). É o mais prático. Inevitavelmente eles habitam lobbies de hotel, um sempre irá te achar. Em outros lugares, como na Rússia, o contato foi por conhecidos uma vez; Poderia ter sido feito via embaixada, por exemplo.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h25

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O clássico de um caçador

O clássico de um caçador

Era o primeiro governo civil depois da ditadura e os jornais ainda testavam que liberdade teriam para noticiar corrupção.

Meu mestre JANIO de FREITAS juntou as peças que mostravam jogo de cartas marcadas em obra bilionária ligando o Maranhã a Brasília --a chamada ferrovia Norte-Sul.

Se o jornal publica, porém, dá o alarme para que o governo aborte a concorrência.

Como fazer para dar o furo sem assustar a lebre? Janio e o publisher da Folha, Octavio Frias de Oliveira, acharam uma forma que virou um clássico no jornalismo brasileiro --e que foi adaptada hoje pela Folha Online, em reportagem sobre obra do metrô.

Amantes da investigação podem ler o próprio autor contando como foi o episódio neste texto, encontrado pelo Marcelo Soares.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h28

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Como um repórter foi mordomo de João Gilberto...

Como um repórter foi mordomo de João Gilberto...

...e se organizou para contar a história no dia seguinte.

Luciana Whitaker/Folha Imagem
Repórter relata em detalhes a noite em que foi mordomo do músico João Gilberto em show de 1992

Meu colega PLINIO FRAGA, comandante interino da Sucursal do Rio, publicou hoje um relato de como foi mordomo de João Gilberto no show do cantor e Tom Jobim, no Rio, em 1992.

Pedi pra ele contar mais para o blog: como ele guardou os detalhes? Anotava no guardanapo? Levou um gravador escondido? Quando sentou para escrever? Como saiu a matéria que escreveu na época? Havia uma pauta, afinal? Ou era só ir lá e observar? Houve repercussão?

E ele atendeu ao meu pedido:

Lembre que estamos falando de 1992. Aqueles gravadores com fita pequena (hoje comuns em secretária eletrônica) eram de importação raríssima e os gravadores acho que nem existiam. Os gravadores pequenos à época eram do tamanho de uma K-7. Não havia como levar um.

Então, anotava num bloquinho que conservava no bolso da calça. Mas eu também não podia anotar na frente dos outros. Anotava quando estava sozinho. Durante o show, foi fácil escrever porque estava na coxia, ficava tudo escuro. Ninguém repararia.

O pior momento, nesse quesito, foi no camarim. Estávamos eu, João Gilberto e o empresário dele. Os dois sentados no sofá e eu em pé. Quando ele foi para o palco testar o som, eu anotei o máximo que pude, ainda meio bobo de ouvir o João Gilberto tocando de tão perto.
 
A pauta não era fechada porque não sabíamos o quanto daria certo _por exemplo, tentamos fazer a mesma coisa no show de São Paulo, alguns dias depois, mas o João Gilberto não usou o camarim. Chegou do carro e foi direto para o palco.

A orientação era "tenta lá e não faça nenhuma besteira que atrapalhe o show".
 
Quando saiu no jornal, ninguém entendia muito como podia haver aspas do João Gilberto na minha matéria. E não dava para explicar.

Sei que quando chegou aos ouvidos do editor de cultura de um jornal do Rio que havia um repórter da Folha no camarim, ele colocou todo mundo de alguma forma envolvido na produção na geladeira (não dava nenhuma linha de eventos que eles estivessem envolvidos) em represália.

Com o correr do tempo, essa história se espalhou entre os jornalistas. Gerou até uma pauta no antigo site No. sobre esforços para entrevistar João Gilberto.

Eu achava que não era ético abrir os bastidores dessa cobertura, mas a história começou a ser contada em parte, muitas vezes com incorreções, em blogs na internet. Resolvemos então colocar as coisas no jornal, para que o leitor, digamos, comum tivesse acesso a informações que circulavam entre jornalistas. Depois de 16 anos, os rastros dos que ajudaram na reportagem sumiram na poeira do tempo. Minha preocupação foi não prejudicar ninguém.
 
Alguns momentos engraçados:
 
1) quando me apresentei ao chefe dos serviços de garçom do Teatro Municipal, ele se surpreendeu com minha juventude (tinha 24 anos), mas a aceitou em nome da "esquisitice" afamada do cantor. Foi tão solícito que, depois do show, me deu de presente seu abridor de garrafas, com o qual trabalhava havia uma dezena de anos _perdi esse abridor em alguma das minhas mudanças;
 
2) quando o João Gilberto foi se encontrar com o Tom Jobim, no camarim dele, ao lado, não fazia muito sentido eu ir atrás. Mas fui, porque não podia perder o encontro. Ninguém me perguntou nada, mas não tinha por que estar ali, se fosse só o mordomo.
 
3) quando o show começou, estava preocupado mesmo é se João Gilberto resolvesse pedir um copo d’água. Caberia a mim, cruzar todo o palco do Municipal, carregando uma bandeja com um jarro e um copo _com a mão esquerda!!!_, me postar ao seu lado e servir com a mão direita. Vários coisas me passavam na cabeça: se eu tropeçar quando entrar no palco? Se eu não suportar o peso da bandeja com a mão esquerda? Se alguém me reconhecer e denunciar a fraude de que não sou mordomo? Eu me arrependia de não ter recusado a pauta da chefia, descartando totalmente a possibilidade de ser mordomo pela minha dificuldade motora, por eu ser totalmente atabalhoado. Pensando nisso e anotando tudo o que podia, não me mexia no meu cantinho na coxia. Quando parte da torre de luz é derrubada e o estrondo assusta até o João, um dos jornalistas da Folha no Municipal comentou: "O Plínio derrubou alguma coisa!" Mas desta vez o mordomo não era o culpado.

Na seção Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h30

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Vídeo explica as eleições americanas

Vídeo explica as eleições americanas

Meu leitor Renan manda esta boa dica de site que tem como missão ser didático.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h12

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Um repórter premiado pode ter começado como você

Um repórter premiado pode ter começado como você

Esta é para fechar a série de entrevistas com o RAPHAEL GOMIDE (na verdade, duas entrevistas, uma longa que dividi em três e outra mais curtinha pra falar sobre o caso dos repórteres de "O Dia" --links para as outras estão no pé deste post).

Neste trecho, Raphael fala um pouco de sua carreira. Escolhi o assunto porque sabia que lá atrás estavam duas seleções para o programa de treinamento. Na primeira, ele não passou. Como não passaram outros candidatos na semana passada, que devem ter ficado muito chateados. Mas nenhum argumento pode ser melhor para consolá-los que olhar para o excelente trabalho do Raphael, trabalho premiado, inclusive: não passar numa seleção não é veredito sobre nossa capacidade nem sobre nosso futuro. É só o resultado daquela seleção.

Na segunda ele passaria, mas perguntei a ele se não preferia começar direto a trabalhar em Esporte. Ele quis. O jornal ganhou um ótimo repórter e eu perdi a chance de dizer "Foi meu trainee!".  Mas tudo bem, não dou o braço a torcer: "Foi meu semi-trainee", ou "Fui eu quem viu primeiro"

Um último comentário antes de deixá-los com a entrevista: esta história do menino morto numa operação atrapalhada da PM carioca mostra como Raphael estava certíssimo em querer investigar, lá no treinamento, por que essa é a polícia que mais mata e mais morre no Brasil, não acham?

Novo em Folha - Conta pra gente como você começou como jornalista.

Raphael Gomide - Comecei numa rádio, a Brasil/LBV, cobrindo esporte. Estava no quinto período. Houve uma prova para o Lance! e fui chamado para fazer um caderno especial, o "Lance escola", para escolas municipais. Também fazia frilas lá.
 
Novo em Folha - Se não estou enganada, você chegou à Folha numa seleção do programa de treinamento. Não foi incluído na turma do curso, mas começou em seguida a trabalhar para Esporte --algo que costuma acontecer com freqüência nas seleções. Falo desse assunto porque muita gente fica preocupada quando não é chamada num concurso ou não passa numa prova, e sempre procuro mostrar que há utras opções, outras formas de começar a trabalhar. Você pode contar um pouco como foi?

RG - Fiz a prova e participei da semana de palestras, mas estava muito cru, mesmo. Não passei, mas minha ficha veio para o Rio e comecei a fazer frilas aqui. Depois participei de outra seleção e apareceu a opção de fazer o treinamento ou começar a trabalhar em Esporte.
 
Escolhi Esporte. Fiquei dois meses, vim para a sucursal do Rio como contratado, fiquei um ano e fui demitido.
 
Novo em Folha - Por quê?

RG - Houve um corte grande, era a época da crise dos jornais. Eu não estava formado ainda, era o menos experiente, não tinha família para sustentar. Era quem tinha que sair, mesmo. Havia dois repórteres de Esporte, decidiram cortar um. Eu foi a "gordura".
 
Novo em Folha - Você ficou preocupado?

RG - Fiquei muito aflito. Achava que estava no melhor lugar para trabalhar, tinha um salário razoável, achava que ia melhorar, sempre fui confiante, e de repente estava desempregado. Eu dava aula de inglês e continuei dando aulas, mas foi um baque. Você leva um susto.
 
Novo em Folha - e o que você fez?

RG - Em um mês tive quatro convites. Vinte dias depois de demitido, estava já trabalhando no "JB".
 
Novo em Folha - mas você mandou currículos? Avisou os amigos que tinha saído da Folha?

RG - Não. Mas o Beraba [Marcelo Beraba, hoje diretor da sucursal fluminense do "Estado", à época na Folha] falou com o MAG [Marcos Augusto Gonçalves, hoje editor da Ilustrada, à época diretor do "Lance!"] e, como eu era de esporte, conversei com ele, com Globoesporte.com, a Efe. Mas na Efe era uma vaga de tradução.
 
Aí o Plínio [Fraga, hoje diretor-adjunto da sucursal do Rio da Folha, à época editor de Política do "JB"] me chamou. 

Novo em Folha - Você foi cobrir política?

RG - Sim, já estava meio cansado de esporte. Fiquei no "JB" um ano e dois meses.
 
Novo em Folha - Por que saiu?

RG - O jornal estava muito sem estrutura, e me chamaram para o "Estado".
 
Novo em Folha - Para cobrir o quê?

RG - Cidades. Na época houve os atentados à sede do governo, uma rebelião grande em Bangu 1, onde mataram sei caras. Caí nesse bololô, trabalhando pra caramba. Não dominava essa cobertura e não era o que eu gostava de fazer, essa cobertura do dia-a-dia.
 
Cinco meses depois me chamaram para "O Dia". Eu tinha preconceito contra "O Dia", achava que era um jornal popular. Já tinha trabalhado na Folha, no Estadão, no JB, e ia para "O Dia"?
 
Mas era uma proposta irrecusável, um aumento de 60% e um cargo de repórter especial.

Novo em Folha - E o que achou?

RG - Foi um período maravilhoso. Cobria política, o noticiário cresceu muito, fomos muito bem na cobertura do propinoduto, pegando o viés do dinheiro mandado para o exterior. Também fizemos uma ótima cobertura da Assembléia.

Novo em Folha - qual a reportagem que mais gostou de fazer?

RG - Uma reportagem sobre trabalho escravo no Pará. Fiquei 12 dias lá. Ganhei dois prêmios [O prêmio internacional de direitos humanos da Anistia Internacional e menção honrosa no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, no RS].
 
Novo em Folha - Achava que "O Dia" era um jornal mais local. Mandaram você para o Pará?

RG - No meu primeiro dia, apresentei a pauta e a resposta foi: "Não tem trabalho escravo no Rio, não?" (risos). Pensei "ih, estou ferrado!" (risos).
 
Mas seis meses depois, quando já tinha conquistado espaço, me mandaram para o Pará.
 
Novo em Folha - De onde surgiu a pauta? Alguém te deu uma dica?

RG - Tive a idéia lendo um livro sobre uma entidade direitos humanos.
 
Ficamos lá 12 dias e a matéria saiu muito bem, com fotos muito bonitas do Léo Correia.
 
Teve para mim uma repercussão parecida com a dessa reportagem sobre a PM. Muita gente ligando, comentando.
 
Foi um período muito bom para mim, ganhei oito prêmios mensais. Mas depois caiu o espaço para política, mudou a direção.
 
Novo em Folha - foi quando você foi para os Estados Unidos? Como você soube da bolsa do WPI

RG - Estava muito desestimulado. Tive seis matérias embargadas por pressões políticas no período de um mês. Não podia falar mal de um monte de gente, do presidente da Assembléia, do prefeito, do Lula, do Lindberg Farias (prefeito de Nova Iguaçu).
 
Sempre quis fazer mestrado na Inglaterra. Vi esse programa, achei o mais adequado, e, tendo ganhado o prêmio da Anistia Internacional, foi mais fácil ser selecionado. Foi ótimo. Abriu muitas portas.
 
Novo em Folha - Esse programa é muito legal, não é? Abriu portas para quê?

RG - Para várias coisas, até para a profissão e para ser selecionado em outros cursos de jornalismo. Uma coisa vai ajudando a outra. O cara vê que você é interessado, quer aprender, se aprimora.
 
E eu quero mesmo, eu me esmero, quero aprender essas coisas todas.
 
Novo em Folha - Você se demitiu do "Dia"?

RG - Não, fiz questão de mandar matérias, colunas, fiz um blog (http://raphaelgomide.blogspot.com/). Mandei propostas de pauta, matérias, mas não deram bola. Vi desinteresse, me senti desestimulado.
 
Novo em Folha - Você tinha compromisso de ficar lá quando voltasse?

RG - Não, não houve essa conversa. Quando voltei a Folha me chamou e eu fui.
 
Novo em Folha - para cobrir o quê?

RG - Política e matérias legais, mas de tudo um pouco. Em sucursal você tem que fazer de tudo. Não fui para cobrir segurança.
 
Novo em Folha - Qual seu projeto profissional? Quer continuar como repórter ou pensa em outras atividades?

RG - Quero ser repórter. Quero ser repórter especial, fazer só matéria especial, o que é impossível pra mim no momento (risos). Também faço o dia-a-dia, é preciso fazer de tudo.
 
Novo em Folha - e a reportagem no dia-a-dia acrescenta alguma coisa?

RG - Não tenho dúvida, claro que sim. A do acordo para devolução das armas [que deu a ele o prêmio Embratel] foi no dia-a-dia, assim como outras premiadas.
 
Na Redação você perde contato com a realidade. Na rua, vê coisas que chamam a atenção e dão pauta.

Novo em Folha - Acha que a cobertura de polícia no Rio é perigosa?

RG - É realmente perigoso. Operação da polícia vai ter tiroteio e, se você estiver na confusão, você é alvo.
 
Ultimamente tem havido também roubos de equipamento de jornalistas, intimidação.
 
Um colega foi pego numa reportagemm, puseram o fuzil na boca dele.
 
Se estiver sozinho, é um risco maior ainda. O ideal é fazer contatos em situações que não sejam de conflito e entrar com gente conhecida nas favelas.
 
Jornalista entrar em favela hoje é bem arriscado.
 
Eu não cubro o dia-a-dia, violência, tiroteio, não sou repórter de polícia, mas, se tiver que cobrir uma operação, só vou de colete à prova de balas.
 
Tem gente que diz que é frescura, mas tenho certeza de que protege mais do que não usar nada.
 
Defendo o uso de toda proteção possível.

Novo em Folha - uma jornalista que respeito muito, aí do Rio, com cargo de chefia, defende que não se entre nos morros em hipótese alguma. Você concorda?

RG - Durante tiroteio eu não entro. O risco de entrar não vale a pena. A reportagem tem que estar lá, mas não entrar com a polícia. Tem repórter que vai dentro do carro da polícia, mas acho temerário.
 
Mesmo do ponto de vista editorial, não vale a pena. Depois do tiroteio dá para apurar, não precisa estar junto.

Raphael conta seu método de trabalho
Raphael conta os bastidores da apuração da matéria sobre a PM
Raphael
indica livros sobre segurança
Raphael Gomide fala sobre
os limites da infiltração
Na seção
Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 23h38

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Método de trabalho

Método de trabalho

Quando entrevistei o repórter RAPHAEL GOMIDE sobre a matéria que ele fez no treinamento da PM do Rio, aproveitei para pedir que ele contasse como organiza normalmente seu trabalho:

Novo em Folha - Você já tinha feito reportagens "participativas", como esta?

Raphael Gomide - Uma que foi muito legal no JB, mais breve e bem menos complicada, foi chamada "O preço de um projeto em Brasília".
 
Era uma reunião de donos de agências de correios franqueadas. Estava prestes a vencer a concessão e ia ter a reunião no auditório do Barrashoppíng, para os concessionários juntarem dinheiro pra pagar a deputados federais pra manter o projeto.
Era uma reunião com mais de 200 pessoas, aberta para donos de agências. Fui, entrei, ninguém me perguntou nada. Eles falavam abertamente. Gravei tudo com o gravador dentro da bolsa.
 
Novo em Folha - Você sabia que a reunião seria para isso?

RG - Sim, eu sempre tive paciência de ouvir os malucos que ligam para a Redação. Uma mulher ligou e me contou da reunião. Acreditei e fui conferir.
 
Houve outras matérias que surgiram da minha paciência de atender ao telefone e ouvir.

Teve outra em que fiz um mês de curso preparatório para a prova da OAB, avisado por amigos meus do direito, segundo quem dois cursos davam as questões da prova no Rio. Vi que a prova de Direito Internacional tinha exatamente as quatro questões que o professor disse que cairiam, e algumas na de Penal. Em outro curso, a professora ensinava como colar na prova e recomendava a compra de um Código preparado com cola. Mas comecei a apruração na Folha e terminei no JB (com autorização da Folha), e o jornal achou que poderia render processo e não quis a matéria, que estava pronta.

Novo em Folha - Você tem publicado muitas boas reportagens na área de segurança, várias delas exclusivas. Há quanto tempo cobre essa área? Você decidiu se especializar em segurança? Ou foi decorrência do dia-a-dia? Como você se prepara para fazer essa cobertura? Com leitura? Procurando novas fontes? É possível se preparar ou só a experiência propicia aprendizado? 

RG - Sempre me interessei pelo tema. Aqui na sucursal, vim para fazer matérias interessantes, diferentes. Fui convidado porque era repórter especial no "O Dia".
 
Também vim cobrir política, área em que estava há algum tempo.
 
Fui vendo que sucursal tem dificuldades. Por não estar na sede, está longe do centro de decisão, de quem decide espaço e destaque.
 
Eu cobria política e ouvia que sucursal era cemitério de jornalista de política. Quando não tem eleição, precisa ter outro caminho, outro foco.
 
Sempre me interessei por polícia. Quer dizer, não pela cobertura do dia-a-dia, policial, mas por segurança, de uma forma mais ampla.
 
Comecei a fazer matérias, a ler livros, estudos, estatísticas, achei que poderia ter uma análise mais aprofundada.
 
Tentei sair do dia a dia, tento pegar alguns assuntos e fazer matérias mais extensas, como a do Bope (Tropa de elite do Rio mata 5 pessoas a cada 6 que prende http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1011200729.htm, que saiu junto com Major do bope ironiza morte de seqüestrador do 174 http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u344131.shtml), com dados concretos que pudessem sair da mesmice.
 
Novo em Folha - Para fazer esse tipo de matéria, precisa ter fonte, né? Por exemplo aquele furo que você deu de que houve acordo com os traficantes para devolver armas. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u124242.shtml)
 
RG - Eu tinha fontes na área militar, pela qual sempre me interessei. Em outras coberturas, fui criando fontes na área militar.
 
No Rio há muitos repórteres de polícia que são experientíssimos, mas a polícia não sabia de nada [naquele caso]. Quem sabia era o Exército.
 
E havia uma pessoa que confiava em mim e, naquela situação, estava no centro do furacão. Então ele falou tudo. Eu conhecia a pessoa certa, na hora certa, no local certo. Depois confirmei com outras fontes, vi documentos, tinha um detalhamento, uma apuração que segurava a matéria.
 
Novo em Folha - E qual a importância das fontes na hora de descobrir matérias?

RG - Muita coisa eu faço a partir de idéias minhas, e não de dicas passadas por fontes. Acho que não tenho tantas fontes assim, teria que ter muito mais.

Novo em Folha - Quando me contou sobre sua matéria de milícias, você disse que foi levado por uma fonte que havia entrevistado dois anos antes. Como é que você manteve contato com ela? É uma coisa que você sempre faz, de manter contato com as fontes?

RG - É. Esta fonte tinha trabalhado em gabinete parlamentar, era assessor de um políticio, e tinha contatos em vários lugares diferentes, no submundo, na polícia, na igreja universal, em milícia. Era alguém que eu sempre contatava quando tinha uma pauta, para me ajudar a entender um assunto ou achar outras fontes.

Novo em Folha - Qual é seu método de apuração? Como você constrói uma matéria?

RG - Quando tenho uma idéia, faço uma pesquisa sobre o assunto, vejo o que foi publicado, estudo o tema, falo com pessoas.
 
Novo em Folha - Você quer dizer que fala com elas ainda na pesquisa, antes da apuração, certo?

RG - Sim, ainda não tenho matéria. Pergunto o que elas sabem disso, como abordar o assunto. Onde consigo informação? Como acessar? Se tenho uma hipótese, peço ajuda aos pesquisadores de qual a melhor forma de levantar informação. Se der para fazer por amostragem, o que seria justificável? 

Novo em Folha - Você disse que estudou direito...

RG - Estudei direito um ano e meio na Uerj. Foi minha primeira opção. É a melhor faculdade de direito no Rio e é muito voltada para advocacia pública. Tenho amigos promotores, procuradores.
 
Novo em Folha - O Gaspari sempre diz que algumas das nossas melhores fontes são nossos colegas, quem a gente conhece na juventude, na universidade, que depois se tornam fontes.

RG - Claro, eu falo muito com esses amigos para me orientar, e também como fontes de informação.
 
Em outros casos eu vou lá e pergunto [diretamente à instituição, como no caso do Bope]. Peço a informação. Se você faz uma matéria equilibrada, baseada em fatos, mesmo que ela não seja favorável à fonte/personagem a tendência é ela te respeitar, te receber, te atender.
 
Novo em Folha - Você se preocupa em documentar a apuração?

RG - Tento sempre ter documento. Não tenho medo de ler processos, eu leio os processos, peço orientação para gente experiente. Estou acostumado a lidar com documentos, tento ter dados oficiais, estatísticas.
 
Novo em Folha - Você grava suas entrevistas?

RG - Gravo. Tudo. Até por telefone.
 

Novo em Folha - Há quem defenda que o gravador intimida a fonte. O que você acha disso?

RG - Parto do princípio de que, se a conversa é minha, não preciso avisar que estou gravando. O entrevistado sabe que sou jornalista e que é uma entrevista. Gravar é uma segurança para mim e para ele.
 
Pessoalmente também gravo. Se percebo que a fonte se assusta com o gravador, ponho ele sob o bloco, só para não ficar ostensivo.
 
Novo em Folha - Você sempre quis ser repórter?

RG - Não. Sempre tive atração por jornalismo, mas fiz todos os vestibulares para direito.
 
Novo em Folha - Se arrependeu da troca?

RG - Nunca. Todos meus amigos do direito ganham mais que eu, já começaram ganhando mais. Mas o que me encanta é ser repórter, me apaixona, eu adoro fazer isso.
 
Tem várias frustrações, mas quando faço uma matéria como essa é a melhor coisa que tem.

Raphael conta os bastidores da apuração da matéria sobre a PM
Raphael indica livros sobre segurança
Raphael Gomide fala sobre os limites da infiltração
Na seção
Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h46

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Bastidores de um repórter não identificado

Bastidores de um repórter não identificado

O repórter RAPHAEL GOMIDE conta como surgiu a pauta sobre o treinamento da polícia fluminense, a que mais mata e mais morre no país, e como foi o dia-a-dia da apuração.

Novo em Folha - Como você teve a idéia de fazer essa reportagem?

Raphael Gomide - Sempre quis fazer uma matéria em que acompanhasse a primeira semana de treinamento de fuzileiros navais, mais pelo militarismo, pela pressão que imaginava existir nesse ambiente. Mas não podia, por já ter ultrapassado o limite de idade. Cheguei a pedir para a Marinha para acompanhar como jornalista, mas não tive autorização.

Novo em Folha - Sua pauta é um exemplo de história que não poderia ser feita se você se declarasse repórter. Como foi essa decisão?

RG - Havia lido o livro do Celso Castro, diretor CPDOc, chamado "O Espírito Militar". Ele é filho de oficial do Exército e acompanhou durante muitos meses a Aman (Academia Militar das Agulhas Negras). Achei superinteressante, mas ele foi lá como pesquisador, antropólogo; era sempre um diferente numa escola de formação de oficiais.
 
O resultado foi excelente, mas havia sempre esse aspecto de as fontes estarem falando com alguém de fora, embora ele fosse filho de oficial.
 
Eu queria mostrar a formação de PMs a partir da base da pirâmide, sendo um deles, para evitar os filtros maiores: alguém não permitir as entrevistas, ou mesmo a autocensura ao dar uma entrevista. Se fosse como jornalista, haveria tantos filtros que não conseguiria apurar o que apurei.
 
Novo em Folha - Mesmo assim, imagino que não tenha sido simples decidir publicar informações sobre colegas que não sabiam que você estava fazendo uma reportagem. Que cuidados você tomou?

RG - Tinha muita preocupação em não publicar foto e nome dos colegas de curso. No seminário de jornalismo investigativo de que participei no Equador levei este projeto e debatemos sobre isso. A conclusão foi que deveria tomar cuidado para não parecer uma traição aos colegas e também para a segurança deles.
 
Percebi o medo que eles tinham de aparecer como polícia, poderia colocar muitos deles em risco.
 
Não quis pôr o nome de ninguém também porque o que realmente importava era a história. Queria mostrar a polícia como instituição, não tanto os personagens em si.
 
Novo em Folha - Você tinha uma hipótese quando pensou nessa cobertura? 

RG - Não era exatamente uma hipótese. Tinha perguntas. Por causa da exacerbação da violência no Rio, queria entender onde começava isso, porque é a polícia carioca a que mais mata e mais morre no país. Quem é o jovem que quer ser policial e por que esse desejo? Já chega lá querendo matar? É para ganhar dinheiro com propina?
 
Um episódio que me marcou foi quando um motorista que me levava a uma pauta disse que estava fazendo concurso para a Polícia Civil. Comentei que o salário era baixo e ele respondeu: "O salário a gente ganha na rua". Retruquei: "Pô, depois reclama do policial que te extorque na rua. Mas você vai tirar dinheiro do cidadão que tá errado ou do bandido para não prendê-lo". Aquilo me chamou a atenção. Queria entender se todo mundo já entrava assim na PM.
 
Novo em Folha - Quando foi isso?

RG - Isso aconteceu há dois anos e meio, estava no jornal "O Dia" ainda.

Novo em Folha - A BBC fez uma reportagem parecida com a sua (http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/magazine/3210614.stm). Você já conhecia esse trabalho?

RG - Quando estava começando a preparar minha matéria, alguém comentou comigo sobre essa matéria. Procurei, não encontrei e acabei me esquecendo. Já estava bem avançado na minha apuração. Depois que a matéria saiu, vi repercussões sobre o vídeo, sobre o fato de o repórter ter sido preso e depois solto.
 
Novo em Folha - Como era a apuração, no dia-a-dia?

RG - Enquanto eu estava no treinamento, escrevia tudo. Não gravei nada, deliberadamente, tinha medo que alguém visse.
 
Durante a seleção, todo momento que eu tinha usava para anotar num papel. Não usava o bloquinho, ia anotando em pedaços de papel.
 
Já no treinamento, Comprei um caderno e anotava tudo durante as aulas e o que lembrava das aulas externas, práticas. Quando chegava em casa, exausto, sabia que tinha que escever a quente, para não esquecer. Se dava, fazia à noite, ou nos finais de semana. Escrevi 50 folhas de Word. Depois editei para a reportagem.
 
Novo em Folha - No texto você relata de forma detalhada e transparente como preparou a reportagem. Você não usou identidade falsa nem mentiu sobre o emprego. Usou o nome da Empresa Folha da Manhã na ficha. A reportagem também é assinada. No entanto, sua foto com a farda, publicada no Mais!, está alterada digitalmente. Esses aspectos todos me fazem pensar na sua segurança, nem tanto durante a apuração, mas depois de publicado o texto. Você chegou a refletir sobre assinar ou não a reportagem? Teve algum receio de retaliação?

RG - Não pensei em deixar de assinar, não.

Novo em Folha - E por que sua foto foi alterada? 

RG - Resolvemos alterá-la digitalmente por uma questão de segurança. Era difícil saber qual seria a reação das pessoas.
 
Novo em Folha - Você achava que estava correndo risco?

RG - Sim, mas um risco controlado. Minha família tinha medo. Eu tinha noção do risco, mas achava que era controlado, porque já havia definido não mostrar nomes nem fotos e fazer uma análise da instituição como um todo. Alguns poderiam ficar incomodados, mas não a ponto de ameaçar a minha vida.
 
Novo em Folha - Mas então por que não publicar sua foto?

RG - Porque não sabia como seria a repercussão. Achei que alguns poderiam incitar a reação dos colegas e poderia ser mal recebido de dentro da corporação. Eu tenho a visão de um jornalista, mas um policial poderia tomar a matéria como algo pessoal, ou, por amor à corporação, se ofender.
 
Tinha medo não [tanto] dos meus colegas, que me conheciam, mas de uma outra pessoa desavisada que pudesse ter uma reação individual, isolada. Com minha foto no jornal, com o jornal na mão, seria mais fácil difundir algum tipo de reação.
 
Novo em Folha - Mas achei seu relato muito equilibrado. Você mostra discursos variados, tanto da parte dos instrutores quanto da parte dos alunos. Parece muito correto que você tenha deixado claro, na descrição e no relato, que não há diversidade de ideologias e caráter. Mas, como leitora, senti falta de uma conclusão, para além do relato.  Depois de um mês convivendo diariamente com os personagens, qual foi a sua impressão? Embora haja discursos discordantes, o que incentiva a violência é predominante? Ou é desviante? Os exemplos que você dá de alunos que querem ser corruptos são exceções? Raridades? Mais comuns do que você esperava? Ou são maioria?

RG - Minha avaliação é que há um germe que já vem antes e há de fato uma tolerância quanto ao abuso da violência já durante a formação dos policiais. Talvez não no discurso oficial, mas a formação é bastante irregular. Eles dão o discurso oficial, mas dizem "você sabe que na rua é assim". Dizem qual deve ser a atitude correta, mas acabam legitimando quando descrevem a situação na rua.
 
Novo em Folha - E isso acontece com todos os professores?

RG - São vários que falam, é a maioria. Isso é o discurso extra-oficial, mas muito forte.
 
Novo em Folha - Você chegou a pensar em fazer um texto mais subjetivo? Mais conclusivo?

RG - Optei por não fazer uma conclusão. Os fatos vão levando para um caminho, que é mais aberto do que seria uma conclusão. É interessante que cada pessoa entende de uma forma. Recebi cumprimentos de dois coronéis, meus colegas PMs todos adoraram a matéria.
 
Muita gente elogiou justamente esse equilíbrio, porque relatei os fatos sem tomar partido. Um promotor que foi oficial da PM disse que foi a primeira vez que viu uma matéria sobre a polícia que não fazia julgamentos.
 
Achei que seria mais correto e mais jornalístico não fazer uma conclusão.

Novo em Folha - Não pensou talvez em dar uma conclusão baseada em fatos, do tipo "de cada 10, 8 diziam tal coisa"?

RG - Tentei fazer equilibrado, embora ache que relato mais pontos negativos que positivos --que refletiriam proporcionalmente as opiniões dos colegas e minhas impressões. Posso não ter sido tão claro, mas seria difícil retratar isso sem ser de forma subjetiva. Sseria difícil mensurar quantidades de opiniões ouvidas no período.
 
Novo em Folha - E você teve medo em algum momento?

RG - Só agora, com a visita da polícia a meu prédio.
 
Novo em Folha - Nem uma vez durante a apuração?

RG - O pior momento foi quando foram em casa antes de começar o curso. Quando voltei de viagem e o porteiro me disse que policiais haviam perguntado por mim e que ele havia dito que eu era jornalista, pensei se valeria mesmo a pena seguir em frente. Porque é muita invasão na minha vida pessoal, na vida da minha família.
 
Agora tudo parece um mar de flores. Mas foi muito desgastante. Durante o período da seleção, estava fazendo matéria todo dia e a seleção ao mesmo tempo. É um desgaste físico e psicológico muito grande.
 
Os policiais foram na minha casa, na minha vizinhança, sabia que todo mundo ia estranhar.E não podia contar para ninguém o que estava fazendo, para que outros não tivessem que mentir.
 
Naquele momento fiquei preocupado, mas não tive medo. Tinha medo da reação dos meus colegas, se iam me ver como um traidor, e da reação da corporação, não institucionalmente, mas dos integrantes.
 
Ainda bem que fui em frente, porque a parte da seleção já foi muito rica, mas muito mais rico foi o período que fiquei lá.
 
Novo em Folha - E esses policiais que foram fazer a pesquisa social e ouviram do seu porteiro que você era jornalista não se deram conta?

RG - É que a Folha aqui no Rio é menos conhecida. Se fosse "O Globo" eles iam se tocar, mas aqui no Rio, PM que trabalha no centro de recrutamento não sabe o que é a Folha.
 
Novo em Folha - Nem mesmo com o porteiro dizendo que você era um repórter famoso (risos)?

RG - Claro que tive sorte. Quando o porteiro me contou, achei que daria tudo errado.

Novo em Folha - Quando você contou a seus colegas que era jornalista?

RG - Liguei para os colegas na véspera, no sábado à noite. Para os colegas mais próximos e as principais lideranças, para que não se sentissem traídos. Seria ruim se eles só vissem o jornal no dia seguinte, sem aviso.
 
Por sorte, um deles estava de serviço. Ele pôs o celular no viva-voz para os outros ouvirem; os caras adoraram. Um deles falou "você nunca me enganou!!".
 
Novo em Folha - Você até conta na matéria que, durante o treinamento, eles diziam que você iria para a P2 (serviço de inteligência da PM), não é?

RG - Vários falaram "o que você tá fazendo aqui?", achavam que eu não combinava com o tipo de aluno.
 
Novo em Folha - então a reação dos colegas de curso não foi ruim.

RG - A recepção deles foi muito boa. Um candidato me escreveu dizendo que espera que, depois da reportagem, as condições melhoram. Pela minha experiência, é difícil que isso aconteça. Mas, se puder muder, claro que eu ficaria satisfeito.
 
Novo em Folha - e não houve nenhuma ameaça?

RG - Não, nada. O que aconteceu foi desagradável, os caras que não identificaram que eu era jornalista na época da seleção foram na minha casa de novo para dar um recado, para mostrar que era a PM, para intimidar
 
Foi desagradável, mas não foi um risco.

Novo em Folha - Na retranca do "outro lado", vc diz que, quando pediu entrevista à PM, não mencionou a participação no treinamento. Por quê? 

RG - As perguntas que fiz eram sobre formação e a polícia em geral. Mandei dia 12 de março. Pedi por telefone, mas mandaram enviar por e-mail. Do dia 12 ao dia 30, eu ligava todo dia para pedir respostas. No final já nem me atendiam. Mandavam recado.
 
Novo em Folha - E quando você avisou que estava fazendo uma matéria sobre o treinamento?

RG - Voltei de férias, liguei de novo e avisei da matéria. Avisei que era uma matéria extensa sobre a formação dos PMs e gostaria de fazer uma entrevista com a corporação. Não disse que tinha participado do treinamento, porque queria falar isso durante a entrevista.
 
Ligava para lá duas vezes por dia.
 
Novo em Folha - E que resposta tinha?

RG - Não davam resposta nenhuma. Por sorte apareceu uma matéria com o secretário de Segurança. Eu fui e contei sobre a matéria, disse que precisava falar com a PM, contei que eles não me recebiam. Ele respondeu que iam falar comigo, que a PM falaria comigo. Mas não falou.

Raphael Gomide fala sobre os limites da infiltração
Na seção Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h28

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Limites da infiltração

Limites da infiltração

No dia 19 de maio, a Folha publicou uma longa reportagem de meu colega RAPHAEL GOMIDE, que participou do treinamento de policiais militares no Rio, sem se identificar como jornalista.

Logo depois, fiz uma também longa entrevista com ele, sobre os bastidores da apuração, seu método de trabalho e sua carreira como jornalista.

E me enrolei tanto para editá-la que acabou acontecendo a tragédia com os repórteres do "O Dia" (lembram-se de nossas conversas sobre o trabalho que dá editar uma entrevista? E olha que eu nem usei o gravador, em!? Entrevistei por telefone e fui escrevendo conforme ele respondia).

Pois bem, encurtando a história, achei que não dava pra publicar a conversa anterior sem tratar também desse caso, já que ambas as reportagens eram "infiltrações" --embora infinitamente diferentes. Achei que era fundamental deixar clara essa diferença.

Vou começar pelo final, então: 

Novo em Folha - Quando eu te entrevistei logo depois da sua matéria sobre o curso de formação dos PMs, ainda não havia acontecido o caso do "O Dia". Nós até comentamos os riscos de fazer reportagens em favelas, você falou sobre o perigo de entrar junto com a polícia, mas nem chegamos a cogitar a idéia de se infiltrar num lugar como esse. Quando o caso do "O Dia" foi divulgado, você fez alguma relação com a sua experiência?

Raphael Gomide - Fiz, direto.

NF - Mas não porque achou que poderia ter acontecido a mesma coisa com você, né?

RG - Não, porque eu estava dentro de uma instituição do Estado. Em último caso eu poderia recorrer às instituições, ao Estado. Eu tinha algum tipo de proteção num mundo que respeita as leis.

É diferente das favelas, que são zonas de exclusão constitucional. Quem manda ali é o tráfico ou a milícia.

Novo em Folha - Ou seja, na hora de avaliar se é ou não o caso de fazer uma reportagem "infiltrado", sem se identificar, é preciso pensar também nisso: se há Estado constituído naquele lugar ou não.

RG - Sim, a segurança do repórter é o ponto inicial, o ponto número 1. Eu nunca teria feito uma reportagem como a do "O Dia"; 99% dos repórteres que conheço não teriam feito.

Todo mundo aqui no Rio tem noção de que hoje em dia não é possivel fazer esse tipo de reportagem em favela.

Como as circunstâncias todas da reportagem do "Dia" não foram esclarecidas, não houve transparência, não se sabe o que aconteceu. Mas, em princípio, não poderia ter sido feita.

É curioso, assim que eu publiquei a matéria da PM, falaram pra mim: "A próxima vai ser numa milícia!". Respondi: "Deus me livre! A milícia é igual ao tráfico. É pedir pra morrer!".

Poucos dias depois houve esse episódio.

Novo em Folha - Você já cobriu guerra?

RG - O máximo que eu fiz foi no Haiti. (leia aqui)

Novo em Folha - Mas chegou a passar perigo?

RG - Houve uma operação grande, mas sem troca de tiros. Eram 800 militares justamente quando tomaram o último reduto das gangues. Mas elas já sabiam e já tinham ido embora.

Antes disso, no Haiti, houve muito tiro. Eu usava capacete e colete à prova de bala o tempo todo.

Novo em Folha - Outra diferença é que você estava identificado como repórter, não é?

RG - Justamente. Não existe isso de jornalista infiltrado em favela. Todo mundo conhece o caso Tim Lopes. Depois da morte do Tim Lopes, houve um grande debate nos jornais sobre segurança e os jornais passaram a adotar medidas de segurança.

É preciso estar claramente identificado ao entrar em favela.

Por exemplo já fiz matérias sobre a milícia, mas me identifiquei como jornalista, fui levado por um cara de dentro e disse pro chefe da milícia que o ele falasse eu ia escrever. Ele pediu offs, mas sabia que era uma entrevista.

É preciso sempre falar claramente: sou jornalista, estou fazendo reportagem. Não dá pra entrar simplesmente na favela.

Raphael conta os bastidores da reportagem

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h58

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Quatro dias de homem-cavalo

Quatro dias de homem-cavalo

Rodrigo Marcondes/Folha Imagem

O repórter Gustavo Fioratti puxa
uma carroça pelas ruas de SP

Se vamos fazer uma reportagem sobre um grupo de pessoas, os caminhos clássicos são:

  • pesquisar sobre eles
  • observá-los
  • entrevistá-los
  • ouvir pessoas que os estudem

Meu colega GUSTAVO FIORATTI tomou outro caminho para descrever a vida dos carroceiros em São Paulo. Durante quatro dias, viveu como um deles: catou papel no lixo, puxou o carrinho no meio do trânsito, dormiu em albergue e terminou um dia sem levantar o suficiente para comer [o texto está on-line só para assinantes, mas é possível ter uma idéia de como foi neste post].

Esse tipo de reportagem "participativa" tem características diferentes das observativas:

  • a experiência do repórter passa a ser notícia: mesmo que não haja novidade, o relato da experiência vivida pelo repórter e suas impressões têm força suficiente para merecer a publicação. Repórteres são olhos e ouvidos dos leitores. A matéria se justifica porque está levando o leitor a um lugar que ele não conhecia.
  • justamente por isso, ela respalda a visão subjetiva: quando entrevistamos alguém que diz "os carros quase nos atropelam", temos que atribuir essa declaração e, com isso, ela ganha status de versão, não de informação. Num relato em primeira pessoa, se a notícia é a experiência do repórter, sua visão ganha status de fato, não mais de versão. Quando o repórter conta que quase foi atropelado, embora sua sensação seja idêntica à daquele entrevistado, no relato isso é uma informação.

Nesta entrevista, Gustavo, 30, jornalista formado pela Cáper Líbero que sempre foi e acha que sempre será repórter, conta sua experiência:

Novo em Folha - De quem foi a idéia da pauta?

Gustavo Fioratti - Foi da editora Eliane Trindade. Ela me consultou há dois meses, perguntou se eu toparia passar três dias puxando uma carroça por SP. Eu topei na hora. É o tipo de trabalho que me levou a escolher essa profissão. A sugestão de dormir em albergue, recolhendo lixo e vendendo o material no fim do dia, foi um complemento meu à idéia da Eliane. Achei que seria importante para chegar ainda mais perto do ambiente que envolve os carroceiros.   

NF - Em algum momento você hesitou?

GF - Conforme o dia da minha saída foi se aproximando, eu fui sentindo uma espécie de frio na barriga. Fiquei com um pouco de medo. Mas fui convicto.  
 
NF - Havia alguma hipótese na pauta? Havia algo que esperava encontrar ou mostrar? Ou quis simplesmente contar como é estar na pele dos carroceiros?

GF - Havia a hipótese de que eles passam apuros no trânsito e de que carregam muito peso, além de outras hipóteses específicas. Algumas ficaram de pé, outras não. Eu achava, por exemplo, que, nas ruas, os carroceiros me receberiam com alguma hostilidade, o que não aconteceu em nenhum momento. A tese era de que havia demarcação territorial; do tipo, "as ruas tais e tais são minhas e ninguém tasca". O que eu encontrei foi justamente o contrário. Carroceiros trocando informações, ajudando uns aos outros, dividindo espaços.
   
NF - Você saiu da experiência com alguma conclusão?
Na sua introdução, a impressão é que sim, ficou: Vários carroceiros dizem que estão no ramo por opção. Dá dinheiro e não há chefia. Posso atestar o prazer de navegar sem bússola, mesmo nos dias em que o mar não está para peixe. E há várias outras coisas gratificantes costurando a malha que os envolve. Mas a palavra 'opção' eu recusaria.
Mas a conclusão da sua reportagem dá a impressão de que não: Desta experiência fica este relato, um testemunho de quem sobreviveu a 72 horas na pele de um homem-cavalo. Um trabalho movido a suor e esperança, em meio ao lixo e ao asfalto, contando com a camaradagem de homens e mulheres que me receberam como um igual
Fiquei curiosa pra saber a sua resposta...

GF - Minha conclusão está melhor retratada no box [on-line, para assinantes], o espaço que me foi dado para expressá-la. Acho que puxar carroça no meio de tanto carro, enfrentar o ar poluído durante um dia inteiro bem na boca dos escapamentos, mexer no lixo alheio etc., tudo isso é resultado de vários fatores, culturais, sociais, econômicos, políticos.

Se vários carroceiros dizem que optaram por essa atividade, eu diria que a palavra opção não faz muito sentido.

Vejo mais como uma espécie de fenômeno: está todo mundo de olho em materiais recicláveis, que de fato ganharam muito valor nos últimos tempos. Quem alimenta esse tipo de trabalho, quem dá suporte para a multiplicação dos carroceiros pelas ruas, são os compradores de materiais recicláveis, ou seja, a própria indústria.

Para eles, é muito vantajoso, afinal, carroceiros não dão despesas trabalhistas para ninguém. Os acidentados também não têm vínculo com nenhuma empresa ou grupo. Os que envelhecem, também não. E por aí vai.      
 
NF - Por que os carroceiros foram os personagens escolhidos? O que o fez querer mostrar a vida dos carroceiros, e não de qualquer outro grupo urbano de SP, excluído ou não?

GF - Foram escolhidos porque estão cada vez mais presentes nas ruas de SP. Porque são prova de que as questões relacionadas ao meio ambiente também fazem parte de um grande mercadão. E porque simbolizam esse peso que os pobres têm de levar no lombo, literamente.  
 
NF - Por que optou por estar na pele deles, e não outra forma mais comum de reportagem, como entrevistá-los, recolher depoimentos deles, ouvir pessoas que trabalhem com eles em cooperativas ou que os estudem na academia?

GF - Eu já havia escrito sobre eles em outras matérias. Já vi outras reportagens feitas à moda tradicional em vários veículos. Acho que os dois tipos de trabalho são importantes, mas um deles já havia sido (bem) feito e explorado, pela própria Folha, inclusive.

NF - Que vantagens e desvantagens há, na sua opinião e pela experiência concreta que vc teve, nesse tipo de apuração "participativa" em relação às tradicionais?

GF - A vantagem de estar na pele de um deles é a aproximação. Tanto para o jornalista que vive a experiência quanto para quem lê a reportagem final.

Ninguém nunca havia identificado, por exemplo, um ponto na cidade em que carroceiros podem, com grande chance, sofrer um acidente. Eu senti na pele o medo de passar pelo viaduto que liga a avenida Pacaembu à Marquês de São Vicente. Fiquei com uma impressão muito forte de que eu próprio sofreria esse acidente, no momento em que passei por lá. Eu vi os carros chegando muito perto, desvidando da carroça quase em cima.

Sobre as desvantagens agora: eu gostaria muito de ter citado o nome de vários carroceiros "entrevistados" por mim. E gostaria de ter contado muito mais sobre eles, o que só seria possível, eticamente falando, se eu tivesse me identificado como jornalista.  
 
NF - Dá para ver, pelo seu relato, que a experiência envolveu riscos --principalmente o de ser atropelado, como você relata. Houve outros perigos que não couberam no texto? Outras experiências mais difíceis que queira contar?

GF - Os riscos foram os do trânsito, basicamente. Mas ser "desmascarado", no albergue, também acho que poderia render conseqüências. Houve um momento em que eu estava fazendo fotos, com a câmera oculta, debaixo de um cobertor. Só que a câmera que eu usei tinha algum dispositivo que ligava automaticamento o flash em locais mais escuros. Eu me certifiquei de que o flash estava desligado, e mesmo assim ele disparou. Suei frio, no momento. Mas fiz cara de paisagem e ninguém notou.
 
NF - O fotógrafo te acompanhava todo o tempo? A presença dele, de alguma forma, o deixava mais tranqüilo? Havia tomado alguma outra medida de segurança --do tipo combinar chamadas telefônicas com alguém?

GF - O fotógrafo só me encontrou no final da reportagem, um encontro de uma hora, no último dia. Eu fiquei o tempo todo sozinho. Levei meu celular por segurança. E só.

Mas sinceramente não acho que corri tantos riscos assim, senão por causa do trânsito. Engraçado que teve até um amigo meu que me aconselhou a levar uma faca escondida. Obviamente não levei nada. Nem canivete. Não creio que seja um mundo assim tããão perigoso como as pessoas pintam ou imaginam, ainda que pareça ser bem menos seguro do que minha casa ou os lugares que eu freqüento.   
 
NF - Você diz no seu texto que, no terceiro dia, estava se acostumando com a vida de carroceiro. Pode explicar melhor como foi isso?

GF - Em primeiro lugar, suas pernas se acostumam com a atividade. Experimentei isso no terceiro dia de trabalho (ou o quarto dia puxando a carroça, uma vez que no primeiro dia eu não recolhi lixo). Enfim, no terceiro dia de trabalho, não fiquei tão cansado quanto no primeiro. Acho que todo mundo que inicia uma espécie de atividade física sente algo semelhante. Uma progressão.

Outra coisa importante: eu já não sentia muito mais nojo de pegar as coisas no lixo. Isso me marcou, porque percebi que estamos todos aptos a muita coisa, ao desconforto mais ultrajante. Não somos tão débeis como imaginamos. 

Rodrigo Marcondes/Folha Imagem

 
NF - Uma das qualidades da sua reportagem é que é possível enxergar os carroceiros sem maniqueísmo, sem pré-julgamentos. Principalmente quando você relata a pausa para o cigarro, conta um pouco da vida de alguns, reproduz seus pensamentos. Foi algo em que você precisou pensar --esse equilíbrio no retrato, sem ser condescendente nem preconceituoso? Ou foi algo natural?

GF - A palavra retrato, nesse caso, diz tudo. Quando fazemos o retrato de alguém, não podemos escapar de determinado resultado. Não é como pintar ou desenhar algo que vem da sua imaginação. Acho que, se há essa qualidade na reportagem, foi algo natural, sim. Não me esforcei para que isso acontecesse. Mesmo porque nunca enxerguei os carroceiros como pessoas boas ou más. Ainda assim, reconheço que simpatizo com a figura de quem move montanhas (de lixo) para conseguir levar uma vida minimamente decente. E acho que isso está lá na matéria.
 
NF - Você saiu assim como entrou, sem se identificar nem avisar às pessoas que estava fazendo uma reportagem?

GF - Entrei e saí sem me identificar como repórter sim.

NF - Por quê?

GF - Para viver o que eles vivem, para receber o mesmo tratamento da população, de assistentes sociais e dos próprios "colegas", não havia outra opção. O tratamento dentro do albergue seria outro se eu me identificasse como jornalista. Talvez o albergue estivesse mais limpo, no dia. Não sei.

NF - Que conseqüências, na sua opinião, há em se revelar como repórter ou em esconder a identidade?

GF - Essa é de fato uma questão ética importante, e para mim foi uma questão bastante difícil de ser trabalhada. Para assumir esse "disfarce", eu consultei vários outros jornalistas, mais experientes do que eu, entre eles a minha editora, recolhendo opiniões sobre os limites, conseqüências e cuidados que eu deveria tomar ao escrever sobre aqueles que se abriram comigo.

O que escrevi na matéria foi o que a minha consciência permitiu, e nesse caso acho que a minha única medida, de fato, foi o meu próprio julgamento.

Também fiz questão de avisar aos responsáveis do albergue de que publicaríamos uma matéria sobre ele, antes da publicação. 
 
NF - Algo que me impressionou na sua experiência foi você ter trabalhado um dia inteiro para conseguir o dinheiro de uma refeição. Como é com os outros carroceiros? Eles conseguem juntar algum dinheiro? Como eles conseguem o dinheiro para comprar as carroças?

GF - Muitos ganham por dia o que eu ganhei mesmo. São os carroceiros mais velhos, que não agüentam carregar muito peso nem andar muito. Os mais jovens têm fôlego para fazer até R$ 30, R$ 40 por dia, conforme alguns relatos. O importante é ter os tais pontos fixos que eu cito na matéria. É fechar acordo com uma papelaria, um supermercado, um lojista. Assim, você não precisa andar muito.

Eles conseguem juntar dinheiro com o próprio trabalhando, comendo em lugares mais baratos ou cozinhando em casa e nos albergues.

Para comprar uma carroça, é com o dinheiro de recicláveis mesmo. Dá para fazer o mesmo trabalho sem carroça, o que é muito mais difícil, claro. Latinhas de alumínio rendem bem, são leves e podem ser carregadas em sacos, por exemplo.

Montar uma carroça com sucatas é uma outra saída. Dá para comprar ou ganhar uma peça aqui e outra lá. Muitos carroceiros montam suas próprias carroças, depois, conforme ganham dinheiro, trocam por uma melhor. E assim por diante.   
 
NF - Outra impressão forte que tive do seu relato foi a de que a única saída para os carroceiros é não depender dos atravessadores, ou seja, formar uma cooperativa. Você relata que há pessoas tentando organizar os catadores do albergue para se cooperarem. Por que você acha que eles continuam desorganizados?

GF - Eu não diria "única saída". Eles trabalham e conseguem viver com o dinheiro que juntam. Mas, sem os atravessadores, com certeza, conseguiriam muito mais.

Por que eles não se organizam? Acho que porque eles não têm instrução para se organizarem. Muitos não sabem lidar com documentos, alguns são analfabetos. Para formar uma cooperativa, também é necessário espaço físico e de instrumentos, como balança, caçambas etc. Investimento, portanto. O volume de material recolhido é sempre muito grande.


 
NF - Fazer essa reportagem mudou de alguma forma seu jeito de ser ou de trabalhar?

GF - Não sei responder direito. De verdade. A única coisa que eu sei é que esse é um tipo de trabalho muito envolvente e que, como qualquer experiência envolvente, ele traz alguma espécie de modificação, sim. Só não sei muito bem identificar o que é.

Fora isso, tem um amadurecimento profissional, às vezes relacionados a técnicas, às vezes puramente espiritual.
 
NF - Fiquei imaginando que você tinha muito mais histórias para contar. Se tivesse escrito o dobro, eu teria lido o dobro. Foi difícil editar? Como você fez? Escreveu um texto maior e cortou? Deu para outro cortar? Quanto tempo levou para escrever?

GF - Escrevi exatamente o dobro. A editora Eliane Trindade cortou, e acho que ficou legal.

Mas, de fato, ficou muita coisa de fora. Não teve jeito. Detalhes pitorescos e fatos completos até.

Acho que uma das coisas que mais me marcou, que estava no texto original, foi um menino de 15 anos que vivia no albergue com a mãe e com a avó e sabia muito sobre a Segunda Guerra Mundial. Decidimos cortar esse personagem pelo simples fato de que ele não era carroceiro.  
 
NF - Você já havia feito outras reportagens como essa?

GF - Algumas semelhantes. A primeira é uma viagem que eu fiz para Buenos Aires de carro. Saiu um caderno inteiro em Turismo. [on-line, para assinantes]. A outra foi uma noite que eu passei com um grupo punk que se chama Vicio Punk, no dia em que aconteceu um espancamento atribuido justamente a esse grupo. Saiu na Revista também. [on-line, para assinantes]

NF - Você sempre quis trabalhar em revista?

GF - Não queria trabalhar especificamente em revista. Mas sempre me interessei por "reportagens-mergulhos" e acho que uma revista dá a oportunidade de fazer isso periodicamente.

NF - Tem outros planos profissionais?

GF - Não sou de fazer muitos planos, mas já tenho alguns projetos de reportagens grandes como esta em mente, sim.

NF - Há alguma coisa relevante que acha que me esqueci de perguntar?

GF - Acho importante dizer que não cheguei nem perto de sentir que eu era um deles de fato. Trabalhar por três dias como carroceiro nem de longe te faz um carroceiro. Foi apenas uma ferramenta para identificar problemas, montar um retrato bacana e diferente, aproximar-se.

Olha que engraçado: no último dia, eu estava parado numa fila de carros, voltando para a Folha, o sinal fechado. Eu estava distraído naquele momento. Ou por conta do cansaço ou simplesmente porque eu tinha acabado aquela parte do trabalho e estava mais relaxado.

E nesse momento um homem passou pedindo moedas, carro por carro. Automaticamente, eu enfiei a mão no bolso, para tirar uma moeda de dez centavos que fosse. Me dei conta do absurdo que seria dar a moeda só quando ele passou por mim, sem dizer nada, em direção ao carro seguinte. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h25

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Atirador solitário

Atirador solitário

O Thiago é um leitor do meu blog que, há muitos meses, me perguntou como oferecer um free-lancer para uma revista.

Dei umas dicas, ele foi atrás e teve sua matéria publicada. Depois topou com um caso espinhoso, complicado até para quem tem a retaguarda de um veículo, quanto mais para um frila.

Mas não se intimidou, foi atrás e, neste mês, o resultado (ou parte dele) saiu na revista "Placar": a notícia de que a PF investiga o Cruzeiro por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal.

Achei que valia muito a pena entrevistá-lo para o blog não só para contar os bastidores da apuração, mas porque o Thiago tem uma situação parecida com a de muitos leitores: sem emprego, batalha para conseguir lugar num veículo, por enquanto sem sucesso. Também, como outros leitores que já escreveram aqui, é formado em RTV, e isso o atrapalha na hora de tentar uma vaga.

Na conversa abaixo, ele dá dicas valiosas:

Novo em Folha - Como surgiu a pauta? Uma fonte te passou? Você esbarrou no assunto numa outra apuração? Teve um palpite e foi atrás?

Thiago Braga Duarte - Por incrível que pareça, tive um palpite. Estava de “férias” em Belo Horizonte e comecei a ouvir um zum-zum-zum sobre o Cruzeiro. Nada que não fosse novo afinal, sempre pipocavam casos suspeitos envolvendo seus administradores. Casos esses que, apesar de serem suspeitos, nunca deram em nada, é bom frisar. Mas resolvi ver se esse dava alguma coisa. Com o tempo descobri que a PF estava investigando o clube.
 
NF - Você estava trabalhando como frila quando começou a apurar a pauta. Como fez para vendê-la para a "Placar"? Já tinha segurança de que haveria notícia? Vendeu uma pauta concreta ou uma promessa? Mandou por e-mail? Por telefone? Foi lá pessoalmente?

TB - Continuo só como free-lancer. Não tenho emprego fixo, o que é um problema.

Na época, eu tinha acabado de fazer a minha primeira pauta para Placar. E estava à procura de novas pautas. Quando eu resolvi ir atrás dessa história, tinha certeza de que Placar se interessaria, até pelo histórico da revista. No início dos anos 80, eles publicaram uma extensa matéria sobre a máfia da Loteria Esportiva.

Nesse quesito de achar uma publicação que se interessasse pela história, foi fácil.

Não tinha segurança de que haveria a matéria. Fui apurando, uma coisa puxando a outra, mas nada de concreto. Até que cheguei ao inquérito da PF. E aí tinha a notícia. Os meus contatos com Placar eram por e-mail. Não os conhecia pessoalmente.
 
NF - Pensou em algum formato especial, por se tratar de revista?

TB - Não pensei em nenhum formato especial. Minha preocupação sempre foi tentar obter um “caso” concreto.

NF - Já conhecia alguém na revista? Ou foi com a cara e a coragem?

TB - Fui com a cara e a coragem. Só conhecia o pessoal de ver na televisão e depois fui me correspondendo com eles por e-mail.
 
NF - Qual foi a recepção que teve? Foi fácil entrar em contato? Aceitaram de cara ou teve que insistir?

TB - Foi fácil entrar em contato. Peguei o e-mail do redator-chefe da revista e enviei algumas coisas que eu fazia na época. Depois, sugeri uma pauta para eles e me pediram para fazer. Aí viajei para BH e pensei nessa pauta. E eles concordaram.
 
NF - Sua reportagem envolve irregularidades e suspeitas que sempre podem dar problemas para o jornalista e a publicação. Como você e a revista trataram disso?

TB - Com muito cuidado. Como você disse, são suspeitas de irregularidades. Pode parecer clichê, mas é verdade: não estou aqui para julgar ninguém, só para relatar os fatos. Deparei-me com coisas que, em um primeiro momento, pareciam graves. Consultando especialistas, vi que eram normais.
 
NF - Você tinha documentos quando começou a apurar? Se não tinha, quando e como conseguiu documentos?

TB - Não tinha documentos antes. Com o tempo consegui alguns. A maioria só serviu para eu me inserir na história, saber o que tinha acontecido anteriormente.
 
NF - Já tinha feito reportagens com esse grau de responsabilidade antes?

TB - Nunca havia feito nada parecido.

NF - Que impacto isso teve na hora de entrevistar as fontes? Como fazer para que elas confiassem em você?

A responsabilidade é grande. Pensei nisso o tempo todo. Eu não poderia ser leviano para acusar pessoas sem provas e correr o risco de arruinar a vida destas pessoas. Por pior que elas possam ser. Não é uma coisa que me faria sentir bem.

Na hora de conversar com as fontes, vi que havia muito revanchismo. E tinha que colocar isso de lado. Algumas fontes só foram confiar em mim quando eu passei a me antecipar a elas, conseguindo coisas que elas nem sabiam que existiam.

NF - Você me contou que tinha pouca experiência nesse tipo de apuração. Como driblou essa inexperiência?

TB - Ainda me acho inexperiente. Ontem mesmo tive uma idéia daquelas “como não pensei nisso antes?”. Para driblar essa inexperiência, tive que falar com quem entende do assunto. Procurei, com a sua ajuda, pessoas que já passaram por isso. E todas as dicas foram importantes.

Outra coisa, por maior que seja essa inexperiência, a vivência no assunto –-o futebol-– me ajudou muito. É uma coisa que sempre foi prioridade para mim. E que eu leio bastante. Então, às vezes, esse conhecimento diminuiu a distância da relação que existia entre mim e as fontes.

Um exemplo fictício: há uma suspeita de irregularidade em uma transação de um jogador. E você já chega e diz: “Ah, sei, esse jogador foi vendido por x, para o time y, no ano tal”. A fonte vai se surpreender com a sua memória e sua rapidez. Geralmente essas pessoas não têm os detalhes guardados na cabeça. Com isso você ganha duas vezes: ganha a confiança dela e mostra experiência no assunto.
 
NF - Na lista da Abraji, você escreveu que uma das dificuldades é que os investigados têm forte influência e intimidavam as fontes. Pode relatar algum caso?

TB - O que eu ouvia é que “ninguém falaria comigo”. Não acreditava, até que passei a ligar para as pessoas. E quase ninguém falou comigo! A maioria está desacreditada, acham que não há mais nada a fazer. E por isso não fala. Esquece que pode ajudar.

NF - Como fazer para driblar essa pressão?

TB - Acho que não sou capaz de dar dica nenhuma para ninguém. Mas o que essa apuração me ensinou, e eu passo adiante, é o seguinte: em casos como esse, no qual as investigações estão "blindadas" pelos investigados, sempre terá uma pessoa que foi "passada para trás", que fazia parte do negócio e foi deixada em segundo plano. E essa pessoa, com um pouco de persuasão, pode falar com você. Conseguir provas será complicado, mas ela vai te dar o caminho das pedras.

NF - Você foi ameaçado ou sofreu alguma outra intimidação?

TB - Não, em nenhum momento. Ainda bem!

NF - Jornalismo esportivo sempre foi sua área? Conte um pouco do que você já fez como jornalista.

TB - Sempre! Costumo dizer que eu me preparo desde quando era criança, quando anotava nos cadernos –-para o desespero da minha mãe, já que assim, os cadernos escolares duravam muito menos tempo-– as escalações dos times que passavam na televisão.

Fui, por 2 anos e meio, produtor de rádio. E tinha que produzir material para programa diário de esporte. De segunda a sexta, o programa tinha uma hora de duração. Nos finais de semana, nove horas! Lógico que tem o pré e o pós-jogo. Mas não era raro ter que produzir material para um sábado em que só havia um jogo na grade. Então, nesses dias, entre jogo e os programas de pré-jogo e pós-jogo, restavam 5 horas de programação para produzir. Lógico que eu não fazia sozinho. Mas era complicado para produzir tanto material.

NF - Você é formado em RTV, não é? Isso te atrapalha? Como driblar? Pensa em fazer jornalismo?

TB - Sim, fiz RTV, e isso atrapalha, sim. Bastante, eu diria. Como driblar? Ainda estou à procura da resposta. Fazendo frilas é uma delas.

Se você tem conhecimento do assunto, não há nada que impeça você de escrever sobre ele.

Já fui “limado” de várias entrevistas por causa da minha formação. É uma pena. Sei que posso realizar um ótimo trabalho como repórter.

Quando estava na rádio, tinha verdadeiro pavor de reportagem. Sou extremamente tímido. Mas com a vivência como produtor, essa timidez – pelo menos a profissional – foi pelos ares. Eu tinha que ligar e convencer as pessoas a falarem ao vivo, no ar, naquele exato momento. Tudo era para ontem. E eu não trabalhava na Jovem Pan, Bandeirantes, CBN ou Globo. Trabalhei na Tupi AM e na Rádio Capital. Ou seja, era duas vezes mais difícil!

Estou inclinado a fazer uma extensão em Jornalismo Esportivo. Só não fiz ainda por não saber se só essa extensão resolverá meu problema. Ou se, mesmo assim, terei que fazer um complemento para o jornalismo.

NF - Que dicas você dá para quem, como você, é frila e precisa conseguir trabalho?

TB - Para fazer frilas tem que conhecer ao assunto em questão. E ser bem informado para pensar no que ninguém pensou. Essa é a melhor maneira de fazer frilas: ver aquilo que ninguém viu. Mesmo que já tenha sido noticiado, você pode ter um olhar diferente e descobrir algo com que ninguém se importou.
 
NF - Qual foi a repercussão da reportagem em relação às fontes?

TB - Até agora nenhuma reação deles.
 
NF - E em relação a leitores e colegas jornalistas?

TB - Torcedores do Cruzeiro entraram em contato comigo me elogiando e dizendo que, apesar de gostarem do clube, apóiam reportagens como essas, por saberem que há algo “estranho” na administração do clube.

Todos me elogiaram, mesmo que não haja nada na matéria conclusivo. Elogiaram pela estrutura da matéria e pela apuração. E insistiram para que eu não desista de continuar procurando novas coisas.

Leitor formado em RTV pergunta como lidar com isso numa entrevista de emprego

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h55

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Na linha de tiro

Na linha de tiro

A fotojornalista Adriana Franciosi, que teve a felicidade e a infelicidade de flagrar uma execução nas ruas de Porto Alegre, conta o que viu, o que sentiu e o que pensou naquele momento.

É um relato muito legal para vermos como é muitas vezes ambígua essa nossa profissão. Em geral é notícia o que é ruim. Flagrar algo horrendo é um gol, do ponto de vista profissional. Mas isso não nos impede de lamentar o horror, sentir pânico, tentar resolver uma situação da qual nem temos culpa --mas pela qual nos sentimos coletivamente responsáveis-- e achar que devemos explicações pelo bom trabalho que fizemos:

     Eu sou a Adriana Franciosi, repórter-fotográfica do jornal Zero Hora de Porto Alegre. Fui eu que fotografei a fuga do jovem que acabara de executar duas pessoas. Li tua entrevista com o Moisés, meu querido colega, por quem tenho o maior respeito e admiração. Te escrevo apenas para deixar claro a alguns dos teus leitores como foi que procedemos diante de uma situação de horror e pânico absolutos.

     Eu estava com o motorista, aguardando o Moisés em frente a uma ONG que atende a crianças da Vila Cruzeiro, quando ouvi os disparos. Naquele momento não soube identificar de onde vinham. Olhei para frente do carro e vi três caras a mais ou menos meia quadra observando o crime.

     No mesmo instante, o motorista observava pelo retrovisor do carro e me avisou que os tiros vinham detrás. Foi tudo muito, mas muito rápido...só deu tempo de virar, erguer a câmera e fazer um disparo. Gritei para o motorista: "sai daqui", porque vi o matador com a arma na mão sair em disparada na direção do nosso carro. Tudo isso em segundos...o motorista arrancou e só pude perceber o barulho dos pneus do carro.

     Imediatamente pedi socorro pelo rádio de comunicação interna do carro. Dei o endereço para que chamassem imediatamente socorro, pois havia dois corpos no local. Além disso, o nosso repórter estava lá dentro da casa da ONG, que é cercada. Mesmo assim, nâo sabia como ele estava. Eu e o motorista estávamos na linha de tiro. Foi pânico total. Logo que avistei uma viatura passando com a sirene ligada deduzi que ela estava indo ao local.

      Pedi ao motorista que a seguisse. Voltei ao local e vi uma pequena multidão reunida. Em meio a eles vi o Moisés. Um tremendo alívio me veio naquele instante por ele estar bem.

     Agora, com o distanciamento necessário dos fatos, vejo que tomei a atitude correta ao sair dali. Certo que não fiz a melhor foto, mas creio que preservar a integridade física, tanto minha como do motorista, é mais importante. Isso talvez responda aos comentários do teu blog.

   Sempre leio o teu blog. E, há anos atrás, fiz aqui na RBS um curso similar chamado Jornalismo Aplicado. Tenho recebido todo o respaldo dos meus editores de Zero Hora. Por vezes penso que  desejaria nâo ter visto o horror que vi. O jornal tem sido muito cuidadoso comigo, embora não possamos viver com medo. Sigo agora para cobrir as eleições no Paraguai. Vida de repórter-fotográfico é isso aí.

Bom trabalho, Adriana!         

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Três formas diferentes de tratar uma mesma pauta fotográfica
   
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