Programa de Treinamento

Novo em Folha

 

Como foi feito

Como é feita a home da Folha.com

 
 

Como é feita a home da Folha.com

  O leitor Rafael, de São Paulo, perguntou no post de ontem como é a edição da home da Folha.com.

Pedi à CAMILA MARQUES BRAGA, Secretária-assistente Digital, para nos contar. Vejam só o que ela diz:

 

"A Folha.com é editada por cinco pessoas -- além do homeiro da madrugada. Tanto manchete, como subs, fotos e chamadas -- não apenas as do alto, mas todas da home -- são discutidas. Uma a uma, a cada nova notícia que entra, a equipe debate onde e como colocar, de que forma editar (vale chamar com foto? damos no rotate? Isso impacta a vida de quantas pessoas? Tem apelo?). Costumamos dizer que "fechamos" dezenas de Primeiras Páginas todos os dias, a tensão é sempre essa. 

O tempo limite é variado. Se a notícia tem atualizações, claro que mudamos, quantas vezes forem necessárias. Isso é desejável para que o leitor que acessou o site de manhã, ou horas antes, encontre algo novo oferecido para clicar. Porém, se publicamos um caso que acabou, ou uma história bacana, mas sem atualizações, podemos deixar a chamada ali mais tempo, sem problemas. Fugimos de qualquer regra fixa, hermética, de que uma notícia fica "velha" a cada uma hora, por exemplo. Cada caso é um caso, sempre!

Apesar de as editorias possuírem seus editores e adjuntos, também faz parte das obrigações dos editores da home zelar pela qualidade do conteúdo, orientar as equipes, coordenar as prioridades.

Então, sim, cada equipe tem seus braços. Hoje, na Redação, todos produzem para todas as plataformas (papel, web, TV, tablets, etc.), mas há profissionais cujo foco é a internet. São essas pessoas que editam um texto de um repórter na rua, por exemplo, colocam dentro dele a fotografia e os links necessários, contextualizam um caso importante. Ou que produzem e apuram assim que acontece uma tragédia, ou morte, ou notícia inesperada.

Há equipes maiores e menores. Quando aparece uma notícia de Ciência, por exemplo, mas não tem mais ninguém na Redação em determinado horário, pedimos para alguém da própria home ou de uma equipe maior -- como Cotidiano) cuidar do assunto e publicar o texto. O que importa é termos o conteúdo e a notícia no ar."

 


 

O que você quer saber sobre jornalismo

Só para lembrar, existe no blog uma série muito legal de vídeos em que os jornalistas respondem a dúvidas de nossos leitores sobre o trabalho do dia a dia. Veja um exemplo aqui , com o colunista Xico Sá (no pé do post há uma lista de outros vídeos).

Na seção "Como foi feito" você também encontra vários posts sobre bastidores do jornalismo.

E tem também esta série muito legal de vídeos bem curtos em que vários jornalistas experientes falam sobre uma característica importante para quem quer seguir na profissão.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h34

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Dicas para quem vai cobrir algo tão polarizado como a discussão da PM na USP

 
 

Dicas para quem vai cobrir algo tão polarizado como a discussão da PM na USP

 

 Estou cobrindo os episódios na USP desde a sexta-feira seguinte ao confronto entre alunos e policiais, no estacionamento da FFLCH.

Ou, para ser mais exata, desde o dia seguinte ao assassinato do estudante da FEA, Felipe Paiva, em maio.

Se tem uma coisa que aprendi nessa cobertura é que há que se ter muito cuidado quando lidamos com um assunto que gera tamanha polarização, dentro e fora do campus.

E estou aqui, de pé desde as 4h30 de hoje, e sem conseguir me desligar do assunto do dia, tentando pensar num post para o blog com as dicas, a partir do que aprendi.

Vou tentar jorrar as coisas que me ocorrerem agora, e a gente abre para os outros que participaram da cobertura colocarem mais dicas nos comentários (ou os que não participaram colocarem suas dúvidas pontuais):

1- A mais importante: você tem uma opinião pessoal sobre o assunto polarizado em questão (e é normal que tenha)? Legal, mas você precisa ouvir todo mundo e registrar o que têm a dizer. O reitor, o governador, a PM, o DCE, os outros grupos de estudantes, os sindicalistas, os professores de várias áreas etc. Só assim você terá o quadro geral. Pode até fazer com que mude sua opinião pessoal (aconteceu muitas vezes comigo).

2- Eles não querem falar contigo? Registre a recusa (a PM se recusou a falar conosco por muito tempo, o reitor também, os caras que invadiram a reitoria têm sido hostis com a imprensa desde o início). E insista. Distribua seu telefone aos que te parecerem mais confiáveis, para que te passem informações. Pegue os telefones de TODOS, sem exceção. Não se importe de ligar para eles 10 vezes por dia, você está fazendo seu trabalho. E argumente de forma desapaixonada sobre a polêmica em si, mas não há problema em argumentar sobre o papel do jornalismo, se você for paciente o suficiente para isso.

(Comigo, isso abriu portas.

No sábado da semana passada, logo após a ocupação de um prédio da FFLCH, fui com o carro identificado do jornal para lá e fui recebida com desprezo pela turma que estava no local. Um dos caras perguntou: "Quantas mentiras você publicou hoje?". Rebati: "Você leu o jornal de hoje?" Ele: "Não." "Estou com ele aqui, quer ler?" E assim se formou uma rodinha de estudantes para ler e, aos poucos, começaram a admitir que a matéria, que é diferente de um panfleto e portanto não fala só o que querem ouvir, estava bastante equilibrada.

Dei o exemplo acima para rebater cada um dos que vieram para cima de mim com hostilidade. E foi assim que consegui ouvir as histórias que eu precisava para captar o quadro geral.

Sempre que falei com professores ou outros representantes que quiseram comentar o conflito, fiz questão de enviar um e-mail em seguida, com cópia da matéria publicada --como, aliás, costumo fazer sempre. Nenhum reclamou de nenhuma aspa "manipulada" nem nada nesse sentido, como é comum eu ouvir nos discursos antiimprensa. Todos voltaram a falar comigo até o fim, quando foi necessário ouvi-los.

Sempre me identifiquei claramente. Sou repórter da Folha. Por outro lado, não gosto de usar crachá. Isso vai de cada um, mas acho que mais tem me ajudado do que atrapalhado, inclusive nesta cobertura. Vai ser pano pra outro post no futuro...)

3- Seus olhos são sua ferramenta mais importante, assim como os ouvidos. Você pode ouvir a versão oficial da PM e ouvir a versão contestadora dos alunos, mas nada supera sua observação. Você estava lá das 5h às 13h e sabe que seus olhos não viram agressões de nenhuma parte. Depois você pode ouvir relatos, que vão complementar o que você observou, e podem ser provados de outras maneiras (com vídeos, por exemplo), mas seus olhos são um testemunho importante e você é repórter por isso.

4- Evite adjetivos. Descreva. Um jornalista me perguntou agora no Twitter se achei o título desta matéria tendencioso. Fui eu que passei as informações da matéria por telefone, mas não dei o título. Não vi problemas no título escolhido, ele foi preciso e até teve o cuidado de não dizer que as pichações foram necessariamente feitas pelos estudantes, embora as mensagens contenham os discursos embutidos entre os invasores. Mas não os vimos pichando, vimos só o resultado após a saída deles. E, sim, meus olhos viram "bagunça" e "pichação" (que não são adjetivos, são dados concretos). No relato do podcast, descrevi melhor essas coisas: o que diziam as pichações, onde foram feitas, que tipo de bagunça havia. E as fotos, que enviei pelo celular, comprovaram a observação.

5- É muito importante trabalhar em equipe. Para eu enviar o podcast, contei com a edição da equipe de multimídia da Folha. Para enviar as fotos, passei pela equipe de fotografia, para legendá-las etc. Cada relato foi passado, desde a madrugada, para os colegas da Folha.com -- que, aliás, cruzavam com as informações passadas pelo colega que estava no DP etc. O retorno eu dei ao pauteiro, que já pôde começar a pensar, com a editora, a edição do dia, os infográficos etc. Depois, passei minhas informações a outro colega que foi me render, à tarde, e ele deve estar lá até agora. Se alguém visse algo dado por alguma TV ou site, que ainda não tínhamos, me ligava para eu checar. Etc.

6- Você viu sete coqueteis molotov, três galões de cinco litros com gasolina e seis caixas de rojões. Mas você não viu onde estavam, nem como foram achados. Na matéria, portanto: a polícia mostra os artefatos X, Y e Z que diz ter encontrado em uma sala do prédio. Se vai ouvir os estudantes, eles vão dizer que a polícia plantou essas armas no local. Não têm provas, tampouco. Atribua a eles essa acusação. Não tome partido, o leitor que tire suas próprias conclusões dos fatos. Você não trabalha pra ninguém ali, nem precisa agradar a ninguém. Pelo contrário, sou da opinião que o bom jornalismo é o que desagrada a todos, porque se aproxima mais das verdades e menos das opiniões e paixões de cada grupo. Respeite todo mundo e exija o respeito ao seu trabalho.

7- Por fim:

  • seja mais inteligente que eu, e durma mais cedo na véspera.
  • Tenha um motorista mais solidário que o que me levou, que fique com você até o final da parte mais tensa, em vez de te abandonar no meio de um monte de policiais armados.
  •  Leve uma garrafinha de água, para não pegar insolação.
  • Passe protetor solar! (Estou igual a um camarão.)
  • Já pense em como será a estrutura do seu texto, já tenha sugestões ao editor de como pode entrar cada informação, porque isso vai agilizar ao chegar à Redação.

Não sei até que ponto tudo isso foi útil, mas foi o que me passou pela cabeça agora. A última dica: eu sei que é difícil desligar e não querer toda hora dar F5 nos sites para ver o que está rolando. Mas às vezes é preciso. Tchau!

 


Nosso blogbudsman Roberto Takata Jóia acrescenta mais uma dica: desconfie dos números. Ele sugere a leitura deste post, que põe em questão as declarações sobre o efeito da PM na queda da criminalidade na USP.

 

 

Escrito por Cris às 20h41

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Diário de dois repórteres na Líbia

 
 

Diário de dois repórteres na Líbia

A babá Shweyga Mullah, em foto de APU GOMES

  Uma das maiores sacadas da cobertura que Mundo vem fazendo sobre a revolta na Líbia foi a seção "Diário de Trípoli", assinada pelos enviados SAMY ADGHIRNI e APU GOMES desde o dia 26 (salvo engano, o quarto dia em que estavam lá).

A cobertura inteira deles tem sido especial, com relatos exclusivos e muitas histórias fantásticas que só eles encontraram (de cabeça, lembro do diplomata que largou a carreira pra pegar em armas e lutar com os rebeldes, do jatinho particular com lençóis de seda que era usado por Gaddafi, dos falsos "mercenários" africanos acuados pelos rebeldes, da babá de netos do ditador que teve o corpo queimado com água fervente porque não quis bater na criança e tantas outras pérolas).

Mas o "Diário" tem um diferencial que agrada principalmente pessoas como nós, que adoramos o jornalismo: saber das dificuldades por trás daquela cobertura, de como estão sendo feitos os trabalhos e do clima geral da cidade.

Acho que esse "making of" deveria existir em toda grande cobertura como esta!

Pra quem não viu (e é assinante), clique aí:

Escrito por Cris às 20h45

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O trânsito atrapalha a apuração?

 
 

O trânsito atrapalha a apuração?

  A leitora Martha perguntou neste post:

"numa cidade como SP, de trânsito lento, como vcs avaliam as pautas, o que vale ir para a rua e o que será feito por telefone da redação. O quanto o trânsito influencia nesse julgamento? E quanto tempo vcs perdem em deslocamento? Vcs levam notebok e mandam as matérias do local ou voltam para a redação?"

Olha, eu acho que o trânsito influencia pouco na decisão da escolha pela forma de apuração em si. Algumas matérias podem ser facilmente apuradas por telefone. Noutras, é indispensável ir até o local para ver o que está acontecendo, dar dimensões aos fatos, falar com personagens etc. Por exemplo, no caso do deslizamento no morro da Mata Virgem, era indispensável que alguém fosse ao local para falar com os moradores, mas foi perfeitamente possível apurar outras informações complementares sobre o acidente da Redação, como dois colegas fizeram e mostrei no outro post.

Agora, se é indispensável ir até um local e o trânsito está atravancado e está perto da hora do fechamento, o que fazer? Uma opção é essa que você falou: levar o notebook para passar as coisas do local. Que eu me lembre, nunca fiz isso em Cotidiano (mas o pessoal de Esporte, por exemplo, faz direto). E há outras duas opções: passar todas as informações para algum redator transformar num texto ou escrever um texto com começo, meio e fim e ditar para alguém por telefone. Isso é feito desde que o mundo é mundo, com a diferença que antes os jornalistas tinham que correr atrás de um orelhão para ditar o texto, se achasse que não daria tempo de chegar para escrever.

Hoje mesmo tive que ficar um tempo de plantão numa delegacia que não é exatamente longe da Redação, mas separada por uma Nove de Julho bem engarrafada. Para agilizar, pedi à minha colega FABIANA REWALD, que estava pegando meus retornos, para acessar minha agenda no Excel e me passar uns telefones úteis para eu ir apurando pelo celular. Como eu não teria tempo de chegar à Redação para o primeiro fechamento (às 20h), escrevi no bloquinho e ditei pra ela escrever a notinha. Depois voltei pra Redação e aumentei o tamanho do texto para o segundo fechamento (às 23h).

O importante é tentarmos uma forma de contornar o problema do trânsito para que ele afete o mínimo possível a qualidade da informação. A vantagem de trabalhar numa Redação é que estamos sempre em equipe e podemos contar com o apoio dos colegas do online, da foto, do fechamento, com outros repórteres...

Escrito por Cris às 00h00

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um dia corrido

 
 

Um dia corrido

  Cheguei ao jornal às 10h30 e a perspectiva até então era de fechar uma especial tranquila, reescrever o texto de outra que deve ir pra domingo e continuar tocando outra especial em fase de pré-pré-apuração. Havia também uma pautinha me aguardando, que já fui checar e acabei derrubando, porque não era nada daquilo.

Voltei de novo para a Redação umas 11h50 e logo vimos na TV as imagens do deslizamento que ocorreu em uma favela na divisa de São Paulo com Diadema. Às 12h15, saí para lá, parando antes no carrinho de comida para comprar um misto-frio, já que eu não almoçaria tão cedo.

Cheguei ao local por volta de 13h, por um lado da rua diferente de onde estava a muvuca de repórteres. Ruim, porque perdi a gravação do que o secretário falou para todos. Bom, porque falei com algumas pessoas com que ninguém mais falou, que tinham histórias boas, como a Gerlaine.

Lá pelas 14h, meu colega JOSÉ BENEDITO DA SILVA chegou pelo outro lado da rua, e pegou o fim da fala do secretário. Eu já estava lá para me encontrar com ele. Ele ouviu o coronel da Defesa Civil, eu ouvi o tenente-coronel dos Bombeiros, ele ouviu um líder local, eu ouvi o avô do garotinho que morreu soterrado: ficamos dali por diante no mesmo quarteirão, mas sempre separados, ouvindo pessoas diferentes.

Da Redação, o EVANDRO SPINELLI e o EDUARDO GERAQUE ouviam a prefeitura, a Sehab, a Defesa Civil e especialistas para falar sobre o que pode ter causado o desabamento. A PATRÍCIA GOMES colhia as informações deles e nossas, por telefone, para montar aquela arte super caprichada que acompanhou a matéria. Os colegas do online também ouviam todo mundo para soltar as várias notícias que saíram durante a tarde. A MELINA, do podcast, ligou pedindo a gravação de um áudio contando o que estava acontecendo e dando o clima do local.

E fomos dando retornos ao CONRADO CORSALETTI, editor-adjunto de Cotidiano -- pelo menos até a bateria do meu celular ir pro brejo, umas 18h30. Cheguei à Redação pouco antes das 19h e comecei a bater o abre e as duas retrancas de personagens, depois de comprar mais um sanduíche. O Zé chegou um pouco depois e complementou as três retrancas.

Depois, pra edição São Paulo, pudemos sentar rapidinho com a editora, DENISE CHIARATO, para ver o que poderia ser melhorado com calma. Por exemplo, juntei informações que a FABIANA CAMBRICOLI, do Agora, havia conseguido sobre uma das vítimas. Saí do jornal às 22h -- o Zé ainda continuava lá.

Esse é o exemplo de um dia típico de cobertura de cidades a quente e de como a rotina pode ser quebrada pelos eventos mais surpreendentes (e geralmente trágicos). E hoje tem suíte!

 

Querem saber como foi determinada cobertura ou apuração de alguma matéria específica? Perguntem e a gente tenta ouvir o repórter que participou Bem humorado

Escrito por Cris às 09h53

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A cobertura da Parada Gay

 
 

A cobertura da Parada Gay

 Acabo de voltar da Parada Gay e tenho que dizer a vocês: todas aquelas dicas que dei no post de ontem foram muito úteis, viu? Tirando o gravador, que não precisei usar, o resto valeu muito a pena, inclusive os telefones anotados, os celulares com bateria, o tênis (utilíssimo, porque fiquei em pé por cerca de sete horas), a troca de ideias com os outros envolvidos na cobertura etc.

Uma das coisas mais legais, que fiz pela primeira vez na vida, foi fotografar coisas com o celular e enviar as fotos por mensagem para o email do pessoal que estava cobrindo na Redação. Isso foi especialmente útil porque os repórteres-fotográficos ficaram livres, fazendo imagens mais poéticas, e não estavam nos acompanhando. Portanto, as imagens que eu fiz acabaram ajudando a ilustrar o que eu já sabia que entraria no texto. E a resolução de 3,2 MP até que quebrou um bom galho, viu? Pela primeira vez, vi fotinhos que eu fiz ajudando a ilustrar a cobertura do online, e gostei muito disso Muito feliz

Teve esta dos skinheads, esta do trio da paz, esta dele também, esta do lixo na rua e esta do beijo no quarda-chuva, que aparece de vez em quando (acima).

E vou falar uma coisa: não foi nada impossível anotar as observações e relatos e fazer e enviar as fotos, viu? Dá pra conciliar.

Outras coisas foram importantes para a cobertura de hoje, que eu acrescentaria à lista de ontem:

  • Guarda-chuva ou capa de chuva
  • Lápis, porque caneta falha quando o papel está úmido
  • Bolsa grande, pra guardar os folhetos e panfletos que serão usados pra matéria
  • Um casaco teria ido bem (fui só com camisa de manga comprida e passei frio)
  • Tampão de ouvido, pros momentos mais críticos (estou surdinha da silva)
No mais, a cobertura só deu certo porque havia uma boa equipe trabalhando em conjunto, em várias frentes: os repórteres na rua desde cedo até o final, o pessoal apurando na Folha.com as coisas que podem ser verificadas pelo telefone, o pessoal recebendo as fotos e as editando e soltando no ar, o pessoal que consolidou os retornos pelo telefone em textos inteligíveis, o pessoal que fez a edição e fechamento. E todos se comunicando o tempo todo, para montar o quebra-cabeças.

Escrito por Cris às 19h49

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O furo pode estar em uma notinha de revista

 
 

O furo pode estar em uma notinha de revista

 Tenho o privilégio de me sentar ao lado do RICARDO GALLO e estava ouvindo dele agora como chegou a uma história superlegal que ele emplacou no ano passado, que foi manchete do jornal.

A matéria mostrava um golpe aplicado por um instituto, que se dizia representante do MEC, e que premiava as 150 "melhores" escolas do Brasil – apenas depois que elas desembolsavam R$ 2.000 pelo "prêmio".

(É como se eu pagasse R$ 2.000 para a Folha dizer por aí que sou a melhor repórter do jornal: mistura de autoengano com picaretagem Bem humorado)

Mas o legal é como ele chegou a esse furo.

Estava passando fim de semana na casa dos pais, em Mogi das Cruzes, quando resolveu folhear uma revista local, de condomínio.

Na revista, viu uma matéria levantando a bola de uma escola da cidade, que se apresentava como uma das melhores do país, premiada por um instituto obscuro que se dizia parceiro do MEC.

E aí ele deu o primeiro passo para fazer a reportagem: desconfiou.

Por ter ficado desconfiado, resolveu fuçar na internet: que escola era aquela (irrelevante), que prêmio era aquele (suspeito), quem era o representante da instituição. Chegou a um nome e, nessa primeira fuçada, viu que o sujeito, que se dizia representante de Fernando Haddad, não tinha nenhum vínculo com o MEC (o que depois ele pôde confirmar oficialmente com o ministério). O próprio site do prêmio já listava escolas dos mil cantos do país, com toda a pinta de fajutas.

A desconfiança dele era uma pré-pauta. Ao fuçar e descobrir esses outros elementos, ele viu que tinha uma pauta na manga. Ao apresentá-la na reunião de segunda e começar a investigar mais a fundo (entrevistando o dono do tal prêmio, o MEC e as escolas premiadas), ele fechou a matéria.

Fica como exemplo pra gente de que as pautas podem estar nos lugares mais insuspeitos e podem cair no nosso colo (se estivermos com olhar atento) até no fim de semana de folga no interior Bem humorado

***

E atenção: querem saber de onde surgiu uma determinada matéria? Como o repórter teve um insight, ou foi informado* de determinada história? Como foi feita uma edição? Têm alguma curiosidade específica sobre alguma reportagem? Perguntem aqui no blog e a gente vai correr atrás do repórter ou editor para tentar responder!

* É claro que nem sempre vai ser possível, quando for preciso preservar a fonte.

Escrito por Cris às 16h08

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Leve o bloquinho pra casa!

 
 

Leve o bloquinho pra casa!

 

Lembram da série Proncovô? Então, já faz incríveis nove meses que ela tentou começar, quando saí do Treinamento para Cotidiano, e até hoje continuo apanhando em coisas básicas e aprendendo a cada dia um negócio novo.

No primeiro capítulo daquela série eu falei da reunião de pauta de segunda-feira. E de como é péssimo chegar nela sem nenhuma sugestão.

Hoje reparei no bloquinho do colega EVANDRO SPINELLI, que estava sentado ao lado. Sem brincadeira: tinha ali uns 20 tópicos diferentes de ideias para pautas! surpreso

E é muito comum acontecer isso, de o pessoal fera levar 500 ideias legais, muitas das quais capazes de virar capa de várias edições.

Essa sempre foi uma das minhas maiores dificuldades, talvez por eu ser uma pessoa meio dispersa, mas acho que venho aprendendo. Não é mais tão comum acontecer como naquele primeiro dia e como nessa ótima charge do Savage Chickens que ilustra o post Muito feliz

Na semana retrasada aprendi uma coisa muito básica, que tem a ver com aquilo que eu falei no post de sábado: aprendi a levar o bloquinho para casa.

Por duas razões principais:

1- Às vezes você está em casa, crente que vai chegar no dia seguinte na hora de sempre, às 10h30, para um dia normal, e alguém te liga perto de meia-noite para dizer que houve um assassinato dentro do campus da USP e você precisa estar lá às 7h para o protesto dos alunos. Você revira sua casa em busca de PAPEL e descobre que todos os cadernos que você já teve na vida em algum momento foram levados para a Redação em situações idênticas a esta. Encontra umas cinco folhas avulsas de fichário, dobra essas folhas, e faz toda a reportagem do primeiro dia anotada nelas. As pessoas desconfiam de você, porque um repórter da Folha costuma andar de bloquinho, e, o pior: você escreve num redemoinho sem qualquer organização que depois é difícil de ser colocado em ordem cronológica. (Felizmente o celular do jornal que está com você tem gravador e pelo menos na coletiva você não dá vexame.)

2- Às vezes você volta, mas deixa a Redação funcionando, com os redatores e editores tendo que fechar sua matéria. Às vezes eles têm dúvidas, ou querem acrescentar um personagem que você entrevistou, checar uma frase dita por um especialista etc. Muitas vezes as dúvidas se resolvem com nossa memória, depois de um dia inteiro apurando aquilo. Mas nem sempre. Outro dia minha colega DANIELA MERCIER ligou pedindo mais personagens dentre os alunos da USP que ouvi para falar sobre segurança. Eu ouvi 150 alunos (sem exagero, embora a maioria tenha sido só para uma enquete rápida), então não ia conseguir me lembrar, de cabeça, do nome, idade e curso de um aluno e ainda lembrar o que ele disse! Mas quem disse que eu estava com o bloquinho? E o pior é que a Dani tentou entender meus garranchos lá, mas alguns hieroglifos só são entendidos por quem faz a anotação apressada, né -- ainda mais se feitos em cinco folhas avulsas de fichário Com vergonha

Sem contar a razão básica de você receber um telefonema ou ver algo na rua que mereça registro e o bloquinho quebrar um belo galho nessas horas.

É o que eu falo: às vezes demoramos nove meses para aprender as coisas mais banais. Mas o importante é aprendermos um dia, né Com sono

E vocês? O que custaram a aprender recentemente? Vou pôr algumas experiências contadas nos comentários no próximo post Bem humorado

 

Escrito por Cris às 21h24

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Como Mundo cobriu a morte de Bin Laden

 
 

Como Mundo cobriu a morte de Bin Laden

O editor de Mundo, FÁBIO ZANINI, traz um relato quentíssimo e superemocionante de como foi o fechamento da edição de domingo, que teve manchete trocada às pressas para contar o relato mais importante do dia. É raro quando o leitor consegue se surpreender com o jornal que recebe, mesmo com tanta TV e site competindo na entrega da informação. Esse foi um dos momentos em que isso aconteceu e é por isso que vale muito ler como foi produzido:

"O repórter Luis Kawaguti não é exatamente do tipo brincalhão, mas eu jurava que ele estava de sacanagem quando meu celular tocou no domingo por volta das 23h30. Até porque ele, atônito de nervosismo, falava dando risada. "Chefe, desculpa o horário, mas é sério (risos). As agências estão dando que mataram Bin Laden (mais risos). O Obama vai anunciar daqui a pouco". Liguei a TV na CNN na hora e lá estava informação. Meu dia de trabalho acabava de ganhar uma prorrogação.

Eu havia chegado em casa duas horas antes, após o plantão dominical (ele, no segundo horário, ficou mais um pouco). Jantei, vi TV e havia acabado de colocar o celular no modo silencioso, como sempre faço antes de dormir (nunca mais farei). E eis que o aparelho piscou, ainda na minha mão, com telefonema dele. Por alguns segundos eu só teria sabido da principal notícia do ano no dia seguinte.

Havia um problema: era perto da meia-noite, e a notícia precisava entrar no jornal com algum destaque. Era possível fazer uma troca urgente à 0h30. Por telefone, dei algumas instruções de como mexer na edição, troquei de roupa e voei para a Folha. Cheguei às 0h15, dez minutos de casa (em Perdizes) até a Folha, um percurso que costumo percorrer no dobro deste tempo. Gitânio Fortes, na Primeira Página, estava ao telefone com Sergio Davila. Suas instruções: era preciso dar foto, fazer uma Arte localizando o ataque, trocar a capa do caderno (antes era a beatificação do papa) e mandar Andrea Murta, correspondente em Washington, para a frente da Casa Branca. Lá, uma mutlidão ensandecida comemorava caprichando no ufanismo.

A essa hora, grande parte do jornal já rodou, e só entra na edição algo realmente histórico _como era o caso, evidentemente. Conseguimos negociar com a gráfica um pouco mais de prazo. Até a 1h30, ou seja, mais uma hora. Com tanta coisa para fazer e apenas dois pares de braços trabalhando, uma hora passa voando.

No dia seguinte, nova operação de guerra. Equipe toda convocada para as 10h (muitos entram no começo da tarde). Reforços de outras editorias chegam. Uma parte é deslocada para uma espécie de "editoria paralela", para cuidar somente do "Mundo não-Bin Laden" (que continua gerando notícia). O restante se dedica a um caderno especial de seis páginas. As ideias mudam hora a hora, ao sabor dos acontecimentos, das prioridades etc. O que no começo do dia era um abre de página ao final do dia pode virar um parágrafo no meio de outro texto.

Nesse tipo de cobertura, as versões são a maior dificuldade. Apenas uma fonte (o governo americano) oferece informações de difícil checagem independente. Muitas vezes, a narrativa é perfeita demais para um roteiro pré-traçado: como a versão de que Bin Laden se escondeu atrás de uma mulher pouco antes de ser alvejado, no que seria um último ato de covardia, depois desmentido pela própria Casa Branca.

O tempo passa rápido. Escrevo às 23h40, exatamente um dia após o fatídico telefonema de Kawaguti. Preciso ir embora e recobrar alguma força para o que deve ser uma nova batalha amanhã. Daqui a 24 horas, o mundo pode novamente estar bem diferente."

Escrito por Cris às 00h22

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Vira, vira, vira...

 
 

Vira, vira, vira...

Duas trainees contaram no blog Turma 51 como foi a cobertura da Virada Cultural.

A Patrícia Britto aprendeu, por exemplo, a importância dos mapas.

E a Fernanda Reis descobriu que às vezes um jejum é inevitável Muito feliz

Escrito por Cris às 11h09

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Quando publicar fotos fortes no jornal

 
 

Quando publicar fotos fortes no jornal

  A leitora Heloísa havia perguntado por que a Folha optou por publicar a foto de Wellington Oliveira morto na escada, que saiu em página interna de Cotidiano.

Ela argumenta: "Acho que não há nenhum elemento na foto que justifique sua publicação – se tivesse algum elemento significativo que desse alguma explicação extra sobre a história, acho que até poderia ser válido. Mas mostrar a foto do assassino morto por mostrar, não vejo muita relevância."

Pedi ao editor de Fotografia, MARCO AURÉLIO CANÔNICO, para dizer como foi tomada a decisão. Ele respondeu o seguinte:

"Entendo o desconforto da leitora com a foto, certamente ela não foi a única, e esse tipo de questionamento sobre publicar ou não uma foto daquelas sempre surge aqui na Redação em ocasiões como essa.
 
Acho que a decisão de publicar a foto foi acertada – e cabe notar que ela não foi publicada de forma escandalosa: não está na Primeira Página, não está na capa de Cotidiano, não está no topo da página nem sequer é a maior foto da página em que aparece [veja abaixo a diagramação da página]. Essa razoável discrição mostra consciência do impacto que a imagem poderia causar nos leitores.
 
E a foto tinha informações importantes que justificavam sua publicação, por exemplo: 1) apesar de ser tecnicamente ruim, ela mostra o assassino como ele estava no momento do crime – não apenas suas feições (o rosto dele só era conhecido por fotos antigas), mas as roupas e os equipamentos (como as luvas e o cinturão onde carregava munição) que estava usando; 2) ela permite ao leitor visualizar a cena final da tragédia, onde o assassino morreu e como seu corpo ficou, acrescentando informações visuais ao relato conhecido (de que o assassino foi atingido por um tiro do policial e, após isso, se matou com um tiro); 3) em conjunção com os vídeos divulgados, ela permite saber que o corpo do assassino foi mexido após sua morte – na foto, ele está de bruços, nos vídeos, de barriga para cima.
 
Em suma, é uma imagem muito forte, mas que tem informações que, na minha visão, justificam sua publicação (não por acaso a maior parte da imprensa publicou a foto). De resto, vale lembrar que a Folha não tem o hábito de publicar fotos chocantes, e nunca o faz de forma leviana ou impensada – nas raras vezes em que elas aparecem no jornal, como nesse caso, é porque há motivos jornalísticos que justificam sua publicação. Mas nunca é uma decisão simples, e a reação do leitor é sempre levada em conta.
 
Por fim, como editor de Fotografia, me desculpo pelo incômodo causado na leitora pela imagem. Eu também gostaria que ela e todo o noticiário relativo a ela nunca tivessem existido."

Escrito por Cris às 20h34

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

As megacoberturas

 
 

As megacoberturas

  (Primeiro eu queria pedir desculpas pelo sumiço recorde, mas é que esses últimos dias foram muuuuito intensos).

Não é todo dia que acontecem megacoberturas, daquelas que mobilizam uma ou mais editorias inteeeeeiras e fazem o jornal todo ficar em alerta sobre o assunto.

A última, antes de ontem, foi quando o tsunami varreu o Japão.

As revoltas árabes, por terem se dissolvido ao longo de vários dias, tiveram um impacto menor (penso eu, que nunca pisei na editoria de Mundo).

Em Cotidiano, não me lembro de ter participado de outra como ontem. O mais perto que cheguei disso foi quando a linha vermelha do metrô deu uma pane por várias horas e o Guto, pauteiro da editoria, saiu ligando para todos chegarem mais cedo, para fazerem um caderno que ficou quase especialmente focado no problema do metrô.

Outras coberturas mega foram o apagão generalizado no país e o desapareciento do avião da Air France, que aconteceram quando eu já estava no jornal, mas não estava em Cotidiano.

Portanto, ontem foi minha estreia nesse tipo de cobertura. E é muito diferente do dia-a-dia, muito mesmo. As energias ficam todas concentradas naquele assunto. A preocupação de todos gira em torno disso. Você deixa de almoçar e trabalha até mais tarde, mas não percebe. Você fica ligadíssimo na internet e na TV, vendo a cobertura de todos, mas ainda quer descobrir algo que ninguém achou (como se fosse possível) ou pensar numa abordagem que ninguém pensou.

Por exemplo, você quer descobrir o quanto antes os nomes das vítimas. E não é para ser sensacionalista, não é uma coisa gratuita. É porque esse tipo de tragédia precisa ser humanizada. Aquelas pessoas não são números, são vidas perdidas, que têm nomes, preferências, histórias e, ainda mais importante, dezenas de outras pessoas que as amam e ficaram para trás. Cabe a nós, os contadores de histórias, cavar tudo isso e apresentar aos leitores. Fazer com que sintam a gravidade do que ocorreu.

E também, obviamente, tentar descobrir quem é o Wellington, o causador de todo o desespero. O que levaria alguém a tomar a atitude dele. É a pergunta que não cala, na cabeça de todos os leitores, as autoridades, as famílias e de qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade e que não estava em outro planeta durante o evento.

Ficamos imersos naquilo. Não é sempre que chego em casa e ainda fico pensando no trabalho; geralmente aperto o botão "off" ou pelo menos o "stand by". Mas ontem isso foi impossível, até porque esse era o assunto de todas as rodinhas, inclusive na minha casa. Portanto, aconteceu aquelas raridades: antes de dormir, às 23h e tanto, ainda fiquei vendo emails e scraps e outras coisas que eu tinha tentado fazer durante o dia, e fiquei enviando para os editores por e-mail. Ao acordar, hoje, a primeira coisa que fiz foi mandar todo o apanhado para o pauteiro.

E estou falando em primeira pessoa, mas representando todos os colegas que participaram da cobertura. Imagino como deveria estar no Rio, com as pessoas divididas em equipe, correndo atrás das histórias in loco. Sentindo aquele drama todo, aquela tensão. Cercado de trocentos colegas de outros veículos, do país inteiro. Ninguém teve botão "off" pra apertar depois.

Esse tipo de megacobertura é um desafio para quem participa dela. Piorado, porque invariavelmente diz respeito a grandes tragédias. Mas diz respeito, também, ao espírito do jornalismo. Ao fazer noticioso, pautado pelo calor dos eventos, com hora para fechar e num trabalho absolutamente em equipe.

Se alguém tiver alguma curiosidade sobre como foi a cobertura ontem, pergunte aí, que a gente tenta responder ou procurar quem possa responder.

Escrito por Cris às 19h06

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Os bastidores da cobertura do Oscar

 
 

Os bastidores da cobertura do Oscar

 FERNANDA EZABELLA contou no blog Pelo Mundo como foi sua cobertura do Oscar.

CLIQUEM AQUI para ler.

 

A cobertura do Oscar 2010, em vídeo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 23h29

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Como foi a rotina do Samy na cobertura do Egito

 
 

Como foi a rotina do Samy na cobertura do Egito

 

  Sei que a bola da vez é a Líbia, mas pedi ao SAMY ADGHIRNI, 31, para contar como se preparou e como foi sua rotina na cobertura de dez dias de protestos no Egito, que culminaram na queda do ditador Mubarak.

O relato dele é muito legal! Bem humorado

Aproveitem:

Novo em Folha - Como foi o convite para ir ao Egito? Você topou sem pensar duas vezes?

Samy Adghirni - A primeira opção natural do jornal era mandar o MARCELO NINIO, correspondente em Jerusalém e grande conhecedor da região. Mas ele estava em férias no Rio, com assuntos pessoais a tratar. Me ofereci para ir assim que soube que ele não viajaria. O jornal topou imediatamente. Ajudou o fato de eu já ter boa experiência em coberturas no Oriente Médio e ser familiarizado com a língua árabe.  

NF - Já tinha feito coberturas lá? O que esperava encontrar?

SA - Eu havia feito coberturas em vários países do Oriente Médio (Iraque, Irã, Síria, Israel, Turquia, faixa de Gaza, Cisjordânia, Iêmen e Jordânia), mas nunca no Egito. Sabia que encontraria dificuldades logísticas, como internet cortada pelo governo e dificuldade de me locomover por causa das barragens militares. Antes de viajar passei horas estudando a fundo a situação política, social e econômica do país. Acionei alguns contatos de conhecidos e torci para que pudesse encontrá-los por lá. Não se pode ir muito além disso. Em vez de projetar cenários, prefiro me preparar para o imponderável. Além disso, uma cobertura nunca é igual à outra, mesmo num mesmo país. Estive duas vezes no Iraque, por exemplo, e as coberturas não poderiam ter sido mais diferentes uma da outra.  

NF - Quanto tempo depois de feito o convite você chegou a Cairo? Teve dificuldades de entrar?

SA - Passaram-se menos de 48 horas entre o momento em que levantei a mão para ir ao Egito e a ida ao aeroporto de Guarulhos. Por conhecer o Oriente Médio, sabia que deveria evitar me apresentar como jornalista na entrada, principalmente numa situação de conflito em um país com regime ditatorial. Passei a fronteira com visto de turista. Por precaução eu havia jogado fora todos os meus cartões de visita e retirado o adesivo de imprensa do laptop. Ajuda o fato de repórteres de mídia impressa não precisarem carregar equipamentos muitos vistosos. Colegas de TV e fotógrafos tiveram mais dificuldade na chegada ao Cairo. 

NF - Foi fácil conseguir aquele hotel bem no meio do olho do furacão, onde ocorriam os protestos? Estava cheio de jornalistas de outros países?

SA - A Folha tem uma equipe especializada em preparar os mais variados aspectos logísticos das viagens de seus repórteres. Saí de São Paulo com uma quantia razoável de dólares e um voucher de reserva de hotel – por coincidência era o Hilton Ramses, o mais próximo da praça Tahrir onde quase tudo aconteceu, o mesmo que hospedou quase toda a mídia internacional. Havia repórteres de dezenas de veículos de todos os continentes americanos, ingleses, franceses, iranianos, paquistaneses, sauditas, mexicanos, argentinos etc. O contato com colegas de outros países é um dos aspectos mais legais dessas grandes coberturas.

NF - Como foi sua rotina lá?

SA - Fiquei dez dias, cada um bem diferente do outro. Houve momentos extremamente perigosos, nos quais trabalhar se tornava algo secundário diante do esforço para escapar ileso. Essa cobertura foi peculiar, pois a obrigação de produzir boas matérias tinha de ser constantemente ajustada à necessidade de sobrevivência. Sempre que eu avaliava que as condições de segurança permitiam, corria para a rua para acompanhar acontecimentos no campo e fazer entrevistas. Houve também períodos mais tranquilos, nos quais foi possível ter boas noites de sono e jantar com colegas de outros veículos num ambiente descontraído.

NF - Você descia para o meio da multidão para entrevistar o pessoal? Dos dois lados da briga?

SA - Cobrir uma revolução in loco supõe acima de tudo falar com cidadãos prós e contras, autoridades, acadêmicos, religiosos, políticos, artistas etc. Falei com vários simpatizantes do regime antes de eles se tornaram de repente muito hostis a jornalistas estrangeiros. Mas os protagonistas da revolução eram, obviamente, os manifestantes oposicionistas, quase sempre amáveis e dispostos a falar com a imprensa.

NF - Quais os maiores riscos que enfrentou?

SA - Os momentos mais tensos ocorreram quando eu estive na linha de frente dos combates de rua entre manifestantes anti e pró-regime. Choviam pedras e coquetéis molotov por todos os lados, em meio a uma correria e empurra empurra assustadores. Havia dezenas de feridos ensanguentados à minha volta. Outro momento perigoso foi quando o táxi em que eu me encontrava com dois colegas brasileiros foi cercado por milicianos pró-Mubarak, que chegaram abrindo as portas e batendo na lataria com facões. Depois eles subiram no capô do carro e pediram carona até outra rua. Um dos colegas ficou em pânico e começou a gritar, o que poderia ter tornado as coisas muito mais difíceis. Felizmente foi só um susto. O episódio da invasão do meu quarto pela polícia e funcionários do hotel foi desagradável e preocupante, mas não senti que havia perigo de eu ser agredido naquele momento. 

NF - Chegou a um ponto de ficar tão arriscado que você teve que cobrir de dentro do hotel ou pensar em outras formas de proteção? Tipo quais?

SA - Quando sentimos que a situação de segurança estava ficando insustentável no hotel Hilton, nos mudamos (dois colegas brasileiros, dois estrangeiros e eu) imediatamente para o Intercontinental, distante do centro e, portanto, muito mais seguro. Instantes após nossa saída, o Hilton foi invadido por simpatizantes do governo enfurecidos. Houve pânico e destruição. No Intercontinental tínhamos conforto e segurança, mas só podíamos acompanhar os acontecimentos pela TV e pela internet, àquela altura já normalizada. Só tínhamos uma escolha a fazer: ir até ao aeroporto e embarcar no primeiro voo para fora do Egito ou ficar e seguir trabalhando, o que significava voltar para algum hotel mais próximo do centro. Dos cinco jornalistas abrigados no Intercontinental, três foram embora. Um colega brasileiro e eu decidimos ficar. No dia seguinte, nos mudamos para o Sheraton. 

NF - Quantas horas por dia você trabalhava? Como era o acesso à internet, para enviar todos aqueles textos imensos que você mandava por dia?

SA - Difícil contar as horas trabalhadas, já que todas as atividades diárias numa cobertura dessas giram em torno da produção de matérias e do contato com São Paulo. Mas é claro que o corpo pedia momentos de repouso, e é fundamental levar isso em conta. Já adoeci sozinho em reportagens no exterior, e sei como é importante não descuidar da saúde se alimentar direito, não comer verduras e laticínios, só tomar água engarrafada, dormir corretamente etc. A internet foi reativada no meu quarto dia no Egito. Antes disso batia os textos no laptop e ditava por telefone. Tudo ficou muito mais fácil quando a internet voltou a funcionar, com sinal excelente diga-se de passagem. 

NF - Como era a definição da pauta e era fácil falar com a Redação para pensar na edição do dia?

SA - O telefone celular que comprei na chegada funcionou muito bem. Estava em contato permanente com São Paulo. Mas era difícil montar uma pauta diária, já que a dinâmica dos acontecimentos mudava sem parar. A prioridade era o factual em torno dos protestos. Mesmo assim, eu precisava achar assuntos originais, personagens, histórias, novos enfoques e dimensões. Fazer uma cobertura in loco supõe produzir sempre que possível matérias diferenciadas, com clima, cor local e até uma certa subjetividade na visão e no relato. É o que justifica uma viagem dessas.  

NF - Você ainda tinha que gravar os podcasts. Como fazia para achar tempo para tanta coisa?

SA - Os podcasts foram gravados de improviso, no fogo da ação. A coisa na minha volta era tão intensa que bastava olhar e descrever o que estava acontecendo, com um mínimo de cuidado no relato. Não exigiu grande esforço.

NF - Além da questão da segurança e da internet, você passou por outros apertos, tipo falta de comida, ou algum tipo de privação pessoal?

SA - Felizmente, não. Mas quando a crise se agravou nas ruas, imaginei que poderia logo logo faltar dinheiro. Passei então a pagar quase tudo com meu cartão de crédito pessoal, para não me desfazer dos dólares. Foi uma boa aposta diante da escassez de cash que veio em seguida. O jornal, obviamente, me ressarciu dos gastos feitos com dinheiro pessoal.

NF - Por que foi sua cobertura mais arriscada até hoje, como você escreveu? A mais ameaçadora?

SA - No últimos anos passei por várias situações perigosas, principalmente em Gaza e no Triângulo Sunita, nome dado a uma inóspita região no interior do Iraque. Mas até então eu nunca havia sido tomado como alvo, como inimigo a ser combatido. O regime de Mubarak orquestrou uma clara campanha de perseguição a estrangeiros, principalmente jornalistas, acusados de ser parte de um complô oposicionista.

NF - Chegou a ter momentos em que você pensou que o melhor era atender ao apelo da sua mãe e voltar para o Brasil?

SA - A ideia de pegar as coisas e correr para o aeroporto sempre esteve presente. É uma opção natural num cenário de conflito. O jornal deixou claro a cada dia de cobertura que apoiaria qualquer decisão minha. Mas a última coisa que eu queria fazer era ir embora. Sabia que estava presenciando um momento histórico e que era um privilégio e uma tremenda responsabilidade como jornalista poder relatar tudo aquilo aos leitores. Claro que o medo existia, mas eu tinha muita fé de que a decisão certa era ficar. Isso dito, admito que minha situação era um pouco mais fácil que a de muitos colegas ocidentais, já que fisicamente passo com facilidade por egípcio e entendo o árabe local embora compreenda e fale muito melhor o dialeto árabe do Magrebe.

NF - E agora que você saiu de lá, foi a pedido seu ou o jornal achou melhor colocar alguém pra te render? O que pensou ao sair?

SA - Ninguém poderia prever o desfecho. O jornal e eu avaliamos que a cobertura seria longa, continuando por dias e talvez semanas. Meu editor me disse que o MARCELO NINIO havia retomado o trabalho e que estava disposto a me render quando eu quisesse. Eu estava fisicamente e emocionalmente desgastado, e pedi para ir embora numa quarta. Marcelo chegou um dia antes. Passei contatos e dicas e deixei com ele pautas encaminhadas que eu não pude fazer. No trajeto de volta ao Brasil, eu ainda estava com adrenalina e pensamentos a mil. Dormi mal no avião, acordando várias vezes com imagens da violência que presenciei de tão perto. Dois dias depois, estava almoçando com familiares e amigos quando vi na TV que Mubarak tinha caído. Fiquei com aperto no coração por não ter ficado para o final da festa. Mas prevalece o sentimento de ter vivido algo extraordinário, dos pontos de vista jornalístico e humano. A revolução egípcia foi linda. Nunca vi tanta gente diferente unida em torno do mesmo ideal. As pessoas estavam eufóricas e convictas de que conseguiriam derrubar o ditador. A tensão era fora da praça Tahrir. Dentro havia um clima incrível de gentileza e respeito. Como disse o grande escritor egípcio Alaa Al Aswany, que entrevistei no Cairo, revoluções são românticas, tornam as pessoas melhores.

 

Escrito por Cris às 20h06

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O dia em que caí da bicicleta pra fazer uma matéria

 
 

O dia em que caí da bicicleta pra fazer uma matéria

  Ontem eu estava de plantão e fui escalada para testar o segundo dia da nova ciclofaixa de São Paulo. Já fiquei com um friozinho na barriga desde sexta, quando soube da pauta, porque fazia anos que não andava de bicicleta. Nem lembro quando foi a última vez. Ah, e nunca tinha andado de bicicleta no meio da rua.

Que mané subir em morro de tráfico no Rio, o quê! A pauta da ciclofaixa seria, pra mim, uma verdadeira aventura Alegre

Preparei uma bolsinha pequena para ficar fácil de andar com ela na bicicleta (não tenho pochete) e pus dentro dela um bloquinho minúsculo, dobrável, daqueles que a gente usa pra anotar recado de telefone, um lápis e um apontador (verão como foi uma escolha sábia), um miniprotetor solar, a carteira e o celular. O bloco da Folha era grande demais e ficou de fora.

Arranjei uma bicicleta e um capacete emprestados e lá fui eu pro Parque do Povo, ao meio-dia.

A primeira coisa que fiz foi conversar com outros ciclistas, pra pegar informações e, ao mesmo tempo, saber o que eles achavam da ciclovia, para colocar na matéria. Um deles me ajudou a ajustar a marcha da bicicleta (dêem um desconto: nunca tive bicicleta com marcha) e o capacete.

Entrei no parque toda feliz até perceber a primeira gafe: aquela era a pista para pedestres, a dos ciclistas ficava logo ao lado. Fui para lá, andei meio em ziguezague, desacostumada com a coisa toda, e cheguei, desengonçadamente, do outro lado do parque.

Lá encontrei um grupo e mais uma vez fui pegar informações. Descobri que eles tinham idade entre 12 e 53 anos e nem eram praticantes de ciclismo, e isso me animou. Mesmo assim, saí de lá passando, sem querer, em cima de um canteiro, o que arrancou algumas risadas deles.

Pior foi logo depois que atravessei a rua: fiz a curva, vi o poste, o poste foi se aproximando, pensei "vou cair, vou cair", freei, e... caí. Foi uma queda estranha, meio prevista, em câmera lenta, uma coisa toda atrapalhada. Provavelmente foi engraçadíssimo assistir àquela cena, mas os ciclistas que passaram por mim foram respeitosos e riram só internamente.

Joelho imundo e ralado

Bem, depois daquilo eu fui, aos poucos, pegando o jeito. Uns 500 metros adiante, meu capacete caiu pra trás e a cordinha dele quase me enforcou, então resolvi tirá-lo. Depois meus óculos insistiam em tombar pra ponta do nariz e eu tinha medo de tirar uma mão para consertá-los, então desenvolvi uma técnica de movimentos faciais muito complexa, que os colocava de volta.

Fui indo assim, toda pimpona, até chegar à reta final. Tive que dar uma paradinhas no meio do caminho, pra anotar as coisas no bloquinho minúsculo que eu dobrava e que já estava todo suado (ainda bem que levei lápis, porque caneta não pega em papel úmido), ou pra subir a pé nas duas partes mais íngremes, porque aí era exigir demais do meu amadorismo ciclístico Bem humorado

Quando cheguei no carro, acho que o motorista se assustou e, mais tarde, até desatou a rir sozinho. Eu parecia uma moleca: short e blusa do Galo suadíssimos, a cara vermelhona, o cabeloabsolutamente descabelado, as mãos cheias de calos, o joelho ralado, a perna e os braços imundos. Uma lindeza Muito feliz

Três fotos para verem que não estou mentindo:

Penteado novo ;)

Mas sem dúvida foi a apuração mais divertida que já fiz! E rendeu um relato bem fiel de toda a coisa, vejam só (e principalmente AQUI, mas vi que três de quatro leitores comentaram que meu relato não foi jornalístico... Em dúvida).

Escrito por Cris às 09h24

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, por Cristina Moreno de Castro e pelos participantes do treinamento e pela Redação.

BUSCA NO BLOG


Treinamento Folha
RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.