Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Como foi feito

Como foi a cobertura do apagão na Folha

 
 

    Como prometido, vamos publicar agora uma série de vídeos com jornalistas que participaram da cobertura do apagão, ontem à noite. Editores, repórteres e produtores de Cotidiano, Fotografia, Arte, Agência Folha mostram como experiência, entusiasmo agilidade e trabalho em equipe dão resultado.


O editor de Cotidiano, ROGÉRIO GENTILE, conta que já estava em casa, dando a edição do dia por encerrada, quando foi avisado e voltou às pressas para a Redação, para ajudar a produzir e editar o caderno de hoje – que foi quase um especial sobre o blecaute.

Ele conta que a participação da editoria de fotografia foi fundamental para o resultado final: "Os fotógrafos funcionaram como um radar, e nos informaram rapidamente que o problema tinha uma dimensão muito maior do que a que imaginávamos".

Ele fala ainda do que achou que poderia ter sido melhor e de sua sensação ao sair do jornal só às 2h40:

O secretário-assistente de Redação da Folha, RICARDO MELO, conta como foi a decisão de trocar a manchete do jornal, já na edição nacional, enquanto ainda estava na impressora. A manchete antiga, que era "Avanço social é menor em áreas desmatadas", virou "Apagão atinge 7 Estados e DF" – que, na edição São Paulo, fechada mais tarde, foi ampliada para "Apagão atinge 9 Estados e DF": 

FÁBIO MARRA, editor de Arte, conta que não deu tempo nem de criar rascunhos para as infografias, tamanha a correria:

"Capitã da equipe de radares" (na boa definição de Rogério Gentile, logo acima), a editora de Fotografia da Folha, CARLA ROMERO, conta que a foto escolhida para a capa não era sua favorita, mas, no geral, achou que as escolhas foram boas e o trabalho da equipe foi bem feito.

Exceto por uma coisa, que ela relata no meio do vídeo: Bem humorado 

O coordenador da Agência Folha já tinha ido embora e MAURO ALBANO, editor-assistente, estava com apenas dois repórteres quando o apagão ocorreu. Acordou os correspondentes pelo Brasil afora e, junta, a equipe relatou os episódios fora de São Paulo. Descobriram, inclusive, que o número de Estados afetados pelo blecaute era bem maior que o que o governo divulgava naquele momento:

JULIA MONTEIRO estava fechando as artes e teve que tomar a decisão, com a equipe, de fazer a capa preta, impactante (e bonita) como saiu:

O redator de Cotidiano RODRIGO FIUME ajudou a coordenar a produção e edição e teve que cortar e diminuir textos do dia para caber o novo material sobre o apagão:

A repórter especial LAURA CAPRIGLIONE, que foi à Paulista ver como estava lá, diz que encontrou muita gente se divertindo com o blecaute:

O repórter GUSTAVO HENNEMANN, da Agência Folha, acha que o melhor lugar em que poderia estar durante o apagão era apurando, na Redação – apesar da fome!  surpreso

MÁRCIO DINIZ, editor de Homepage da Folha Online, conta que os repórteres online tiveram que trabalhar no escuro. Convencido E mesmo assim a equipe conseguiu dar a notícia antes dos concorrentes:

[A música que abre os vídeos é "Black Night", do Deep Purple.]

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h08

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A cobertura dos 20 anos de queda do Muro de Berlim

 
 

A cobertura dos 20 anos de queda do Muro de Berlim

Leonardo Wen/Folha Imagem

  A correspondente da Folha em Genebra, LUCIANA COELHO, que foi enviada especial à Alemanha para fazer a cobertura dos 20 anos de queda do Muro de Berlim, divide com a gente como foram os preparativos para o especial. As dicas que ela dá são úteis para vários outros tipos de coberturas:

"Acabo hoje, meio exausta porém empolgada, 11 dias de cobertura na Alemanha para mostrar como está o país 20 anos após a queda do Muro de Berlim. A Ana sabe que eu sou fã do blog, então é aqui no Novo em Folha que eu queria encerrar minha "missão" com uma contribuiçãozinha.
 
Jornalista não é fã de efeméride, embora algumas sejam inevitáveis. No meu caso, havia um porquê pessoal: eu tinha 11 anos em 1989. A Queda do Muro é a minha primeira lembrança de um evento que eu percebi importante (é claro que eu não entendia conceitos como "multipolaridade", mas, filha de professora de história, eu tinha uma vaga ideia de que aquela festa que eu via na TV ia mudar o mundo de algum jeito, e acho que foi mais ou menos aí que eu comecei a achar que jornalismo era uma profissão bacana). Era natural que 20 anos depois, eu já jornalista, quisesse ver no que aquela festa tinha dado.
 
Mas como fazer uma cobertura de um tema óbvio, que você sabe que todo mundo vai dar, mas que não tem uma pauta clara? Eu não falo alemão. Eu nunca havia ido a Berlim nem ao lado oriental do país, só ao sul da Alemanha. E os colegas mais experientes, que vivenciaram a Guerra Fria com consciência, sairiam na vantagem.
 
Só ia dar certo se eu me planejasse.
 
1) Escolha um foco
Como eu sou interessada pelo assunto e consumo muita notícia, tinha uma noção desde o início da história que queria contar: que a Alemanha, passados 20 anos, continuava dividida. Mas no começo era mais uma impressão, e sair com teses apressadas nunca é saudável. Eu precisava saber mais.
 
2) Estude e consulte quem sabe mais
Reli capítulos do "Pós-Guerra" do Tony Judt e procurei material da imprensa europeia, pois a profundidade da cobertura deles é maior (até por estarem diretamente envolvidos). Faltava ainda eu saber se minha impressão estava correta (imagine chegar lá e descobrir que não, ia dar muito mais trabalho!). Então, uns dois meses antes, comecei a conversar com amigos que vivem ou viveram na Alemanha e a telefonar para alguns historiadores que conhecia. Também conversei com um jornalista da Reuters que cobriu a transição econômica no Leste Europeu.
 
Sabia que para contar a história que eu queria, precisava ir à "Alemanha Oriental". Mas aonde? Das leituras e breves conversas com os editores, achava que dois casos interessantes eram os de Leipzig e Dresden, pela importância secular das cidades; por elas terem tido papel na abertura e por serem pólos econômicos no Leste. Dresden também me interessava pelas turbulências econômicas recentes. Os historiadores me detalharam episódios, os amigos me disseram que minha impressão se confirmava _embora eu tenha ouvido que o ângulo não era exatamente novo na Alemanha, o que me deixou esperta para tentar tratar do tema com o máximo de dados atuais possível. Pronto, eu tinha um roteiro de viagem.
 
3) Defina a abordagem
O tempo não me permitiria fazer uma cobertura ao mesmo tempo ampla e profunda. Optei pela amplitude do que seria minha "fotografia" da Alemanha reunificada em vez de mergulhar nos aspectos históricos. Eu queria olhar para frente, não para trás. Minha experiência de dedição ajudou a definir os temas principais dentro da proposta mais ampla: efeitos das divergências econômicas; falta de representação política do Leste; nostalgia pela antiga Alemanha Oriental; o destino da antiga Stasi e as histórias de Dresden e Leipzig.
 
4) Marque tudo com antecedência, mas não lote sua agenda
Resolvido isso, propus a pauta à Folha. O jornal acabou aprovando apenas uma semana antes da viagem. Como correspondente, minha rotina é apertada, mas me forcei a abrir um espaço para marcar o máximo de entrevistas possível de antemão. Algumas foram confirmadas logo, outras, eu viajei sem ter a certeza. Tomei o cuidado de deixar tempo livre e não fazer uma "agenda de dentista" (um compromisso por hora, sabe?) para poder caçar coisas por lá e criar planos B para o que desse errado. E não dá para fazer a pauta toda a distância. Você precisa ter um esqueleto, mas boa parte da cobertura será de ideias que você só terá em campo. (Surgiu assim, por exemplo, a matéria da falta de ensino sobre a Alemanha Oriental na escola). E, se puder fazer contato com gente do lugar antes, faça.
 
5) Invista no seu ponto forte
Precisava dar um sabor especial a algo que estaria em todos os jornais, considerando minhas limitações. O negócio era investir no que eu sei fazer melhor _talvez algum editor meu discorde, mas eu acho que meu forte é ouvir gente e dar uma cara "humana" para a reportagem. E, claro, caprichar no texto. Numa cobertura comum, em que dificilmente haverá furos, a qualidade da narrativa é essencial.
 
6) Cubra seus pontos fracos
Já disse como fiz para suprir minhas defasagens de conhecimento histórico e de visitas ao país. Para o alemão, contatei em Berlim um amigo que fala a língua para o caso de eu precisar ouvir alguém que não falasse inglês. Às vezes, mesmo em um país "fácil" como a Alemanha, falar a língua faz diferença para se virar na rua. No fim, a maioria dos meus entrevistados falava inglês (para conversar com um ex-líder de protestos em Dresden, meio em inglês meio em alemão, contei com a ajuda de um estudante brasileiro (!) que encontrei no saguão do hotel. Para entrevistar um curador de museu em Dresden, com a de um colega que contara antes).
 
7) Não tenha preguiça e mantenha a antena ativa
Mesmo com todo o planejamento, nesse tipo de cobertura não dá para fechar os ouvidos mesmo quando você acha que uma pauta já está apurada. Quando você está em campo, a ideia é absorver tudo para processar no texto. E conversar muito, andar muito, prestar muita atenção em tudo. Ainda mais em casos como o meu, que estava produzindo um material que não tinha deadlines diários. O negócio era acordar cedo, dormir tarde e usar todo o "dia útil" para ouvir gente. Escrevia e lia só à noite.
 
8) Diga por que veio
Sempre tenho em mente uma pergunta que o Vaguinaldo Marinheiro, o secretário de redação da Folha, me fazia toda vez que eu ia sugerir uma viagem de um repórter nos três anos em que fui editora-adjunta de Mundo: por que mandar alguém, o que vamos fazer de diferente das agências de notícias? No começo, confesso, achava  a pergunta besta. Oras, um repórter nosso em cena faz diferença sempre. Com o tempo, vi que responder isso nos distancia de um texto pasteurizado de hard news. Por isso, sempre tento trazer o leitor para o meu lado, fazer ele se sentir lá e criar uma identificação. Como? Descrevendo detalhes. É claro que não é para perder a mão nem o foco. Mas algo interessante sobre o local que você notou, um gesto inesperado do entrevistado, uma descrição do que você está vendo, tudo isso deixa o texto mais caloroso.
 
9) Saiba ouvir e observar
Muitas vezes nesta cobertura eu fui entrevistar uma pessoa porque ela podia me falar de um assunto X. No fim, acabava conversando sobre outras coisas, a entrevista ampliava minha visão do assuntou ou rendia falas para outros textos que não aquele em que eu havia encaixado o interessando inicialmente. Acho que isso foi uma sacada legal desta vez, permear os textos com alguns entrevistados iguais. Deu coesão ao material. Também foi observando frases banais na conversa que cheguei à conclusão para o texto principal: comecei a notar que os estereótipos de Leste/Oeste estavam embutidos demais nos meus entrevistados, que vira e mexe soltavam uma frase um pouquinho preconceituosa sobre o outro lado. Não tem nada de animosidade, mas ficou claro que a diferença que eu via não estava só na economia ou na política. Estava na cabeça das pessoas.
 
10) Cuidado com a redundância
Onze dias falando de Muro de Berlim, 13 textos, 2 infográficos. Era fácil eu me repetir. Ou repetir os outros. Tive o cuidado de conversar com os editores dos dois cadernos em que saiu o material, Mundo e o Mais!, sobre o que mais eles publicariam. Depois, com tudo pronto, reli tudo na sequência. Não satisfeita, pedi para uma amiga que vive na Alemanha fazer o mesmo. E, obviamente, esperei a opinião dos editores. Além disso, porque a geração posterior à minha não vivenciou esse racha no mundo e porque a anterior experimentou isso muito mais que eu, eu não podia ser didática demais nem de menos (batata, ouvi de algumas pessoas que fui demais e de outras que fui de menos). Ah, confesso que teve uma hora em que eu parei de ler a cobertura dos jornais europeus e da concorrência. Olhava só as manchetes para ver se não estava perdendo nada importante ou se não ia dar nada repetido. Algumas pessoas podem reprovar, mas pessoalmente achei que era o único jeito de não perder o foco."

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h58

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O furo do imposto de renda

 
 

O furo do imposto de renda

 

  Na quinta-feira passada um monte de leitores da classe média ficou sabendo que poderia ter sua restituição do imposto de renda atrasada para o ano que vem. Uma medida que afeta diretamente a vida de muita gente porque há quem conte com a restituição para pagar diversas contas, e muitas vezes antecipa esse pagamento por meio de empréstimos bancários.

Quem deu o furo, que colocou o presidente Lula e o ministro Guido Mantega (Fazenda) em saia-justa, foi o repórter da sucursal de Brasília LEONARDO SOUZA.

Ele topou contar para os leitores como foi a apuração, em respostas enviadas por e-mail:

Novo em Folha - Como você descobriu que as restituições do IR estavam sendo atrasadas por ordem do Ministério da Fazenda?

Leonardo Souza - Na terça-feira, publiquei uma reportagem sobre uma operação-piloto da Receita contra fraudes em deduções do IR, praticadas sobretudo pela classe média para aumentar as restituições do imposto.

Um dia antes (segunda-feira), numa conversa com a chefia da sucursal, debatemos possibilidades de suítes para essa matéria. Fui então verificar como estavam as restituições do IR neste ano. Levantei os números e percebi que havia uma queda significativa em relação aos valores de 2008.

Como tenho familiaridade com assuntos da Receita, achei que a queda estava relacionada a decisão de governo (por ter sido muito forte, sem razão técnica aparente para tanto). Liguei para uma fonte do governo e perguntei "off the record" [em inglês, literalmente, fora de registro. No jornalismo, indica que a fonte não quer ser identificada ou não quer que a informação seja publicada] se sabia a razão da queda das restituições. Ele disse que não tinha informação precisa, mas sabia que era ordem vinda do Tesouro. Parti então para uma segunda fonte, que falou a mesma coisa, mas sem dar detalhes relevantes. Acionei então uma terceira fonte da equipe econômica, que tinha participado das discussões sobre o tema. Essa terceira fonte não só sabia toda a história, como dispunha de números e documentos. Tive então a segurança necessária para bancar a matéria, sendo grande parte off.

NF - Quanto tempo você levou desde que recebeu a primeira pista a respeito até a conclusão da reportagem?

LS - Três dias, entre segunda e quarta-feira.

NF - Essa reportagem exigiu muita pesquisa sobre os históricos das restituições, ou este é um assunto que você já acompanha de perto e domina?

LS - Eu acompanho assuntos da Receita de um modo geral já há alguns anos, portanto não tive muita dificuldade para apurar esse caso, principalmente pela ajuda que tive de algumas fontes.

NF - Foi a primeira vez que isso ocorreu ou havia precedentes em governos passados?

LS - Houve discussões sobre essa possibilidade no governo passado e no atual, mas até onde eu sei não chegaram a ser postas em prática da forma como ocorreu agora.

NF - O governo devia saber que uma ordem como essa acabaria sendo descoberta, mas, pela escapada do Augustin e da assessoria de imprensa, você teve a impressão de que eles achavam que tudo passaria em brancas nuvens?

LS - Não dá para saber ao certo. Minha impressão é que eles se fingiram de morto, apostando que ninguém perceberia.

NF - Em algum momento da apuração ou da repercussão houve algum tipo de pressão por parte de alguém do governo para deixar pra lá?

LS - Não houve nenhum tipo de pressão. Nenhum tipo de tentativa de interferência

NF - Como na primeira matéria você não conseguiu confirmação de ninguém do governo, ela ficou toda respaldada por fontes off. Quando você sente que pode confiar em uma fonte a ponto de assumir toda uma matéria a partir do off dela? 

LS - Normalmente a gente não banca matéria off com só uma fonte (nesse caso foram três). Mas quando o repórter conhece a fonte há muitos anos, quando o interlocutor domina o assunto ou participa diretamente das decisões sobre o tema abordado, é possível publicar uma informação com base em uma só fonte. Não há fórmula precisa, depende do assunto, da fonte, se há documentos para embasar o off... São muitas variáveis que têm de ser levadas em consideração pelo repórter.

NF - Você vem cobrindo essa área do governo há muito tempo? Você acha que um repórter inexperiente, que recebesse essa pista de bandeja, conseguiria apurar a história toda sozinho?

LS - Todo repórter novo sempre pode dar bons furos e deve persegui-los (dois exemplos, FELIPE SELIGMAN e LUCAS FERRAZ. O primeiro deu um importante furo neste ano sobre doações de imobiliárias para políticos, driblando a lei em vigor. O segundo deu vários furos sobre os gastos de membros do governo com cartões corporativos. Citei só dois exemplos que lembro de cabeça).

Nesse caso específico das restituições do IR, a experiência de alguns anos de cobertura de Receita foi importante. De duas formas: captar os sinais dados pelos números (a queda acentuada não tinha aparente explicação técnica, logo deveria ser decisão de governo) e ter fontes para checar e obter informações para embasar a matéria. Talvez um repórter mais novo tivesse um pouco mais de dificuldade para apurar a história, mas não quer dizer que não pudesse colocá-la no jornal.

A Folha incentiva e valoriza a busca pelo furo. Bancar uma reportagem off como essa não é uma atitude isolada do repórter, mas de todo o jornal. Publicar como manchete, mesmo sendo um assunto de grande incômodo para o governo, um desgaste para a imagem do Ministério da Fazenda e do Palácio do Planalto, é uma decisão de valorizar o furo.

As matérias que mencionei do Felipe e do Lucas tiveram chamadas assinadas na primeira página. Ou seja, a experiência ajuda, é importante, mas o empenho do repórter em trazer matérias exclusivas para o jornal é o fator preponderante.

NF - Como você se prepara para cobrir administração pública?

LS - Antes de cobrir a administração pública, fui repórter de economia por muitos anos. Fiz cursos de matemática financeira, Bolsa de Valores, contabilidade e até um MBA incompleto em finanças, entre outros. A base do conhecimento em economia me ajuda muito nessa área de investigação, pois me facilita interpretar números, entender operações financeiras usadas para desvio e lavagem de dinheiro e, acima de tudo, para conversar com fontes de perfil mais técnico.

NF - Quais cursos ou outras formas de preparação você recomenda ao repórter que pretende investigar os meandros da administração pública em Brasília?

LS - Considero muito útil para quem quer investigar a administração pública ter conhecimentos de economia. O primeiro caminho é desenvolver o hábito de ler os cadernos de economia (a começar por Dinheiro). Livros e cursos são também muito importantes.

NF - Você já havia feito uma reportagem que afetasse a tantos leitores ao mesmo tempo, um furo de tamanhas dimensões? Pode comentar experiências anteriores de furos que você deu?

LS - Considero esse furo importante não só pela repercussão que teve nos outros veículos de comunicação, mas por ser um tema que diz respeito à grande maioria dos nossos leitores. Um assunto fácil de ser compreendido por boa parte de população.

Há ainda outro tipo de furo, que, além de mobilizar o leitorado, tem também um impacto institucional.

Foi o caso da entrevista que eu e a ANDREZA MATAIS fizemos com a Lina Vieira, a ex-secretária da Receita Federal, em que ela relatou que a ministra Dilma Rousseff a tinha chamado para uma reunião no Planalto e pedido a agilização de auditoria do fisco nos negócios da família de José Sarney.

Ou as matérias que eu e a MARTA SALOMON fizemos no ano passado sobre o dossiê montado na Casa Civil com gastos pessoais do ex-presidente FHC. Apesar de a primeira reportagem sobre o assunto não ter sido da Folha (foi da "Veja"), foi um de nossos furos que provocou a abertura de inquérito pela PF – conseguimos uma cópia digital de um arquivo da Casa Civil, provando que o dossiê foi de fato montado dentro do Planalto pela equipe da ministra Dilma.

Ainda em 2008, publiquei matérias exclusivas sobre notas frias e empresas fantasmas contratadas pela campanha de José Serra à Presidência em 2002. O governador também teve que dar explicações sobre o caso.

Neste ano, eu e o ADRIANO CEOLIN fizemos a reportagem sobre a casa do Agaciel Maia que ele escondeu da Justiça colocando-a no nome de um irmão. Essa matéria, sobre um personagem desconhecido do público, causou a queda de Agaciel da direção-geral do Senado (onde estava fazia 14 anos) e serviu como estopim para toda a crise do Senado.

É difícil dizer qual matéria foi mais importante. 


Adendo de quinta: foi graças ao furo do Leonardo que hoje (uma semana depois da publicação, portanto) podemos ler a seguinte manchete: "Governo recua e diz que vai restituir IR em 2009". Como bem disse o repórter, é difícil saber qual de seus trabalhos teve impacto maior, mas certamente este provocou um resultado de grandes dimensões e que afeta muita gente Jóia

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h16

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Um repórter na crise de Honduras

 
 

Um repórter na crise de Honduras

Fotos: Fabiano Maisonnave/Folha Imagem

  O repórter FABIANO MAISONNAVE acompanha a crise em Honduras desde quando ela estourou, com a expulsão de Manuel Zelaya em 28 de junho. E já está na Embaixada Brasileira desde o dia 25 de setembro, ou quatro dias após a chegada do presidente deposto ao território brasileiro.

A cobertura da crise em Honduras é de matar de inveja qualquer jornalista, porque reúne todos os principais ingredientes de uma boa notícia: surpresa, imprevisbilidade, tensão, disputas políticas, acirramento, desentendimentos diplomáticos, um golpe que remonta a acontecimentos históricos recentes no continente e a inusitada participação do Brasil no caso.

Por tudo isso, achei que uma entrevista com o repórter da Folha seria ótimo para este blog. Bem humorado Ele está lá com outros nove jornalistas, mas apenas mais um de veículo brasileiro (Grupo RBS). E me respondeu às seguintes perguntas por e-mail:

Novo em Folha - Você mencionou em matérias e no blog que bloqueadores de celular te impedem de acessar a internet e fazer ligações normalmente. Além disso, sofreu furtos e passa por diversas dificuldades técnicas e de conforto no trabalho. Já havia trabalhado em situação parecida? Como está fazendo para driblar essas dificuldades e seguir enviando pelo menos dois textos diários da embaixada?

Fabiano Maisonnave - A situação é inédita para todo mundo que está aqui dentro. O confinamento proporciona duas vantagens incríveis: neste momento, Zelaya, obviamente, está no centro da notícia. Em geral, isso o tornaria quase inacessível, mas o fato de estar encerrado na casa com apenas dez jornalistas facilita muito. 

Além disso, o ambiente é de uma grande riqueza jornalística: uma embaixada brasileira sitiada militarmente há vários dias com um presidente deposto acompanhado por dezenas de pessoas. 

A riqueza de material deixa em segundo plano as dificuldades do dia, como comer e dormir bem ou conseguir uma boa conexão de internet. Sem contar o fuso horário, com três horas a menos que o Brasil. Há um pouco de sacrifício, mas não é o importante.

NF - Você disse no blog que poderia sair da  embaixada quando quisesse, mas, se saísse, conseguiria retornar sem problemas? Já havia passado por cobertura com esse grau de tensão?

FM - Se saísse, não teria garantias de voltar, por isso decidimos ficar. Algumas vezes é tenso, mas já vivi momentos piores. Entre 2002 e 2003, sofri duas ameaças de morte, quando era correspondente em Campo Grande (MS).

NF - Você toma alguma medida de segurança? Chegou a ter medo de uma possível invasão da  embaixada?

FM - A minha avaliação é que a embaixada nunca esteve a ponto de ser invadida. O cerco visa mais uma pressão psicológica, mas acabou favorecendo Zelaya – concordo com o chavão de que, em política, o melhor papel é o da vítima. Com tantopoliciais e militares, acho que estou num dos lugares mais seguros do mundo.

NF - Como conseguiu entrar na embaixada? Foi fácil? Havia quantos jornalistas lá quando entrou?

FM - Entrei por meio de contatos no governo interino, realizados quando vim aqui pela primeira vez e fiquei por 40 dias. Havia dez jornalistas, dois da AP, um da Reuters, um da AFP, uma repórter de uma TV salvadorenha, três da Telesur, um da rádio Globo hondurenha e um do site "Democracy Now".

 

NF - Os dez jornalistas que estão na  embaixada se ajudam de algum modo? Como evitar que os concorrentes da RBS e da Globo interfiram em seu trabalho, ou que vocês formem um "pool" involuntário? 

FM - Há uma clara divisão aqui: os jornalistas da rádio Globo e do "Democracy Now" acabaram se transformando em assessores de Zelaya, são engajados e inclusive dormem separados de nós. O outro grupo faz tudo junto: come, dorme, conversa e joga Monopoly. A minha grande ajuda tem sido via Telesur, via Adriana Sivori. E a ANA FLOR me mandou tanta coisa no sábado que posso ficar aqui por mais um mês!

A casa é grande o suficiente para que eu não tenha de trabalhar ao lado do Rodrigo, da RBS. A Globo só ficou umas poucas horas aqui. 

NF - Como é o contato dos jornalistas com as outras pessoas da casa? E com o Zelaya? Você também sente dificuldades de conseguir informações importantes para sua matéria, apesar da proximidade com os personagens-chave?

FM - O contato é às vezes muito tenso. Uma vez, a mulher de Zelaya, Xiomara, quis a minha saída da casa, mas isso é uma longa história. Zelaya, apesar de três anos e meio como presidente, entende muito pouco qual é o papel da imprensa, e os seus assessores, menos ainda. Num dia, reclamou de uma foto da AP e pediu "apoio e colaboração" aos que estávamos na casa. Mas ele fala conosco sempre quando pedimos.

CLIQUE AQUI para ver um relato de tensão vivida pelo Fabiano hoje.

NF - Como fazia para apurar as outras questões de Honduras, estando confinado dentro da  embaixada e antes de a ANA FLOR chegar? Vocês dois conseguem se comunicar satisfatoriamente para combinar pautas e trocar informações?

FM - A apuração era muito difícil, ligava para colegas do lado de fora e algumas fontes, mas a ligação quase sempre se cortava. Um recurso importante era o envio de despachos de agências desde a Redação. Não temos TVrádio, só ouvi uma vez. 

Com a chegada da Ana Flor, a cobertura melhorou muito, estamos sempre em contato por telefone ou e-mail.

NF - Você está há vários dias confinado com um grupo que representa apenas um dos lados da crise. Como fazer para se manter isento e não deixar que a política contamine seu olhar sobre os fatos?

FM - Dá para acompanhar razoavelmente o que acontece dos dois lados. A proximidade aumenta o grau de intimidação, mas não de empatia, pelo menos no meu caso. Zelaya e seus seguidores acham que jornalismo é uma forma de propaganda partidária, tem de ser abertamente a favor ou contra. Mas a imprensa hondurenha é mais ou menos assim mesmo.

Por isso, é uma vantagem cobrir dentro de uma embaixada do Brasil. Se Zelaya estivesse na embaixada de outro país, seria muito mais complicado, acho que eu já teria sido expulso. Ou nem teria entrado.

 

NF - Você também já escreveu sobre a rotina dos visitantes da embaixada. Como é a sua rotina? Você também precisa colaborar com a organização da casa?

FM - A minha rotina é: acordar (ser acordado é mais correto) lá pelas 5h30, ouvir um pouco de música para relaxar, depois guardar os colchões com os colegas, tomar café da manhã (geralmente, café e Gatorade quente com biscoito) e trabalhar. A comida vem uma vez por dia para nós, de forma que o almoço vira janta. Ou, quando atrasa, a janta vira almoço. Nós, jornalistas, procuramos cuidar da nossa sala, mas é impossível, é meio que um corredor.

Uma das minhas funções informais é de "assistente de chancelaria": muitas vezes, sou a ponte entre os hondurenhos e os jornalistas e o Lineu de Paula, o diplomata brasileiro de plantão aqui. Isso inclui até pedir o banheiro emprestado.

NF - E como você se organiza para pensar nas pautas e executá-las? Recebeu orientação do jornal para trazer o máximo de observação para os textos? Como é se colocar como personagem de um texto (por exemplo, ao dizer que teve a toalha furtada)? 

FM - As pautas dependem muito do dia, principalmente no começo, havia muita imprevisibilidade. Claro, uma das prioridades é contar como se vive aqui dentro, havia muita curiosidade no início, principalmente sobre a situação da embaixada.

Sobre ser personagem, não estou gostando, mas foi inevitável nesta cobertura. Costumo dizer que prefiro ficar atrás, e não na frente das câmeras. "Virar notícia" é bastante incômodo para um jornalista e, quase sempre, não é um bom sinal.

NF - Você disse no blog que não gosta de blogs nem de blogueiros e ainda está tateando nesse novo mundo virtual. Ficou surpreso com a quantidade e o teor dos comentários? Os leitores te ajudaram de alguma forma – com o feedback, as críticas, sugestões de pautas etc? O que está achando desse novo mundo, em que você recebe toda a repercussão de seu trabalho em cima da hora?

FM - Fiquei surpreendido com o feedback. Acho que tive mais comentários nestes dias do que recebi cartas em oito anos de Folha. Há muitos comentários excelentes, que ajudam muito, muito a nortear a cobertura, e também tem gente bastante raivosa. Não sabia que era assim, confesso que nunca enviei nenhum comentário sequer a um blog. 

Mas estou gostando deste bravo mundo novo, está sendo bastante pedagógico. Infelizmente, a minha conexão é muito precária, e o ritmo de trabalho não ajuda.

E admito que leio dois blogs frequentemente: o do Sergio Leo e o do Juca Kfouri.

NF - Você pensa em seguir com o blog quando voltar para Caracas, ou em outras coberturas? Acha possível conciliar as reportagens para o jornal e os complementos (com textos, fotos e vídeos) no blog?

FM - Ainda não decidi, mas acho que não. O problema em Caracas é que tudo é muito polarizado, e o blog é basicamente opinativo.

Estou perdendo muito tempo para um post, mas acho que é por causa da conexão precária e da inexperiência. 

NF - O que você acha melhor nesta cobertura? Que tipo de preparação algum repórter tem que ter para estar no seu lugar?

FM - O melhor é a história, uma situação inédita que, de quebra, envolve o Brasil. Sobre a preparação, não sei dizer. Curiosidade e sorte, talvez. E falar espanhol.

NF - Pode dividir com a gente alguma história inusitada ou engraçada ou curiosa que tenha acontecido com você aí?

FM - Há muitas histórias, como a da menina que está guardando seu tênis estropiado para doar ao futuro Museu da Resistência. Outro dia, fomos acordados às 6h por um grupo de mariachis escoltado por soldados, uma cena felliniana (era a comemoração do Dia do Soldado). Mas acho que muita história morrerá aqui dentro da casa, já foi criada uma ética interna difícil de explicar para quem está fora.

Bom, e descobri que o Zelaya pinta o bigode. Proximidade demais dá nisso.

Bastidores da cobertura

No meio da novela dos reféns

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h20

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Olhe ao redor e cave um furo

 
 

Olhe ao redor e cave um furo

A trainee MARIANA VERSOLATO conta como conseguiu dar seu primeiro furo, depois de um mês de treinamento. São dicas preciosas para quem subestima o poder da observação:

  "Hoje foi um dia bem especial pra mim: faz um mês que estamos no Programa de Treinamento e a primeira página da Folha tinha chamadas para duas matérias minhas. Uma é a matéria de capa de Equilíbrio e a outra é um furo (meu primeiro!) de que o Metrô vai ter cinemas, minimuseus de futebol e até pianos para recitais.

Tudo começou quando eu estava voltando pra casa na terça à noite e reparei que havia várias televisões na plataforma e placas com informações em inglês na estação Paraíso. Fiquei curiosa pra saber desde quando aquelas novidades estavam ali e perguntei a um funcionário, que me disse que não fazia muito tempo. No mesmo instante pensei que poderia oferecer isso como pauta no dia seguinte, já que seria nossa escala e eu ficaria em Cotidiano.
 
Antes disso, pesquisei se já havia saído alguma coisa do tipo na Folha ou nos concorrentes. Então ofereci a pauta pro JOSÉ BENEDITO, pauteiro de Cotidiano, que gostou bastante da ideia e disse pra eu ir atrás de mais informações e já marcar o fotógrafo pra tarde. Enquanto isso, conversei com a assessora de imprensa do Metrô, que me disse que ninguém tinha noticiado as mudanças porque eles ainda não tinham feito anúncio e estavam realizando as mudanças aos poucos, de forma silenciosa, já que a Paraíso ainda é um modelo de teste. O engraçado é que ela me perguntou como eu tinha ficado sabendo – "reparando, ué!".  
 
Depois descobrimos que a notícia era muito maior. O pauteiro pediu pro repórter JOSÉ ERNESTO CREDENDIO me ajudar (já que ele tem bem mais experiência do que eu), que resolveu entrar no site do metrô pra ver no edital de licitação quanto o Metrô tinha gastado com as TVs e a nova sinalização. Foi aí que vimos que as mudanças incluíam muito mais do que a sinalização em inglês. Então a matéria cresceu e virou capa de Cotidiano da edição nacional – ela também seria capa da edição São Paulo, mas surgiu uma notícia mais importante (a de que o Kassab vai cortar uma refeição nas creches).
 
Resultado: de uma observação que poderia ser banal, saiu um furo e uma foto na primeira página Alegre Aprendi que um detalhe pode render muito mais história do que ele aparenta e que devemos estar atentos a tudo, sempre.
(Ah, uma mania que eu tenho: às vezes, quando vejo alguma coisa e estou com o celular à mão, escrevo a ideia numa mensagem e salvo como rascunho) Jóia
Outra coisa legal que também aprendi é ir além (como foi o Zé Ernesto, ao checar as licitações) e não depender só de assessoria. Eles não me avisaram das outras novidades mesmo quando eu os procurei para saber mais notícias das placas. E a própria assessora disse que, antes da divulgação oficial, estava mesmo esperando alguém reparar e ir atrás..."

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h46

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Que agenda estranha - como a observação leva à pauta

 
 

Que agenda estranha - como a observação leva à pauta

 

Por falar em "de onde vêm os bebês (pautas)" (assunto ali de baixo), minha ex-trainee Leila Swann conta hoje n' "O Globo" --onde é repórter-- como teve a ideia de mostrar as discrepâncias e erros das agendas dos ministros (leia aqui).

A Folha havia feito pauta semelhante no dia 18 (aqui) e os trainees haviam comentado que era um ótimo exemplo de pauta que surge do noticiário quente e da sacada do repórter.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h49

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Dois anos retratando a Cracolândia

 
 

Dois anos retratando a Cracolândia

  A gente não vê todos os dias uma foto como esta na capa do jornal. É uma foto nada corriqueira, grave, importante, triste, e, ao mesmo tempo, de alguma forma, bonita. Foi tirada pelo repórter-fotográfico APU GOMES e estampou a Folha da última sexta-feira, quando as operações da prefeitura na Cracolândia chamavam mais atenção do que o impedimento dos ônibus fretados.

APU GOMES tem apenas 25 anos, mas trabalha há sete como fotógrafo. É mineiro de Caratinga e veio para São Paulo aos 6 anos. Quando era motoboy numa agência de publicidade, foi incentivado por um fotógrafo a investir em seu olhar sobre as cenas do cotidiano da cidade e não parou desde então. Fez seu primeiro trabalho para a Folha em 2006, na cobertura dos shows do U2 e dos Stones, continuou durante os ataques do PCC e, em 2007, foi contratado para fazer a cobertura da madrugada.

Desde aquele ano, Apu fotografa a Cracolândia, que fica aqui perto do jornal. Por isso, já conhece bem a região. Em resposta ao pedido da NATALIE CONSANI num post recente, sobre como ele conseguiu essa foto de sexta, Apu deu a seguinte entrevista para o blog:

Novo em Folha - Você já tinha feito fotos na Cracolândia alguma vez?

Apu Gomes - Sim, venho fotografando a Cracolândia desde 2007, quando decidi iniciar um projeto pessoal de documentação da região, onde faço fotos, tento conversar com os usuários do crack. Durante a madrugada a situação não mudou nada desde quando comecei a documentar a área até a sexta-feira da semana passada.

NF - Qual a maior dificuldade de fotografar numa região, por si só degradada, e com tantas pessoas viciadas e em grupo?

AP - As dificuldades são inúmeras. A presença da polícia não é constante na região e, na maioria das vezes, estamos apenas eu, os usuários e os traficantes – sendo que vários usuários também traficam a droga e servem de olheiros para alertar os outros sobre a presença da polícia e algumas vezes do fotógrafo.

NF - Você se aproximou dos personagens para conversar com eles, pegar seus dados, ouvi-los e entendê-los para fazer fotos como esta que estampou a capa do jornal? Ou ficou mais distante e usou lentes para se aproximar?

AG - Sim, me aproximei. Sempre tento me aproximar ao máximo dos personagens e fotografar com lentes grande angular. Acho que com lentes tele-objetivas você não consegue captar a expressão das pessoas, e acaba perdendo a referência dos detalhes. Com tele-objetivas acho que você não consegue mergulhar na história. Eu tento me aproximar das pessoas que me dão abertura para uma
aproximação de uma maneira que elas não se sintam invadidas, porque ali estou lidando com o lado paranóico delas, e isso é complicado.

No caso, a menina chamada Carol, de 16 anos, que saiu na capa do jornal, e o Robson, 28 (seu "amigo droga", como ela se referiu ao companheiro que estava com ela), eu estava caminhando a pé e me aproximei devagar e tranquilamente, comecei a conversar com eles até conseguir a confiança de ambos para fotografá-los.

NF - Você e o repórter de texto ficaram sozinhos com os viciados e longe da polícia, para fazer uma matéria com o teor daquela dos "espanta-moscas", certo? Isso pode ter facilitado a aproximação e o trabalho? Mas havia algum risco?

AG -
Nós fomos abordados pela Policia Militar apenas uma vez durante a madrugada para saber o que estávamos fazendo por lá. Após a saída da PM continuamos a incursão sozinhos pela Cracolândia.
Sempre há risco, que é teoricamente calculado, mas faço este trabalho na região há dois anos, por isso atingi este grau de aproximação com os usuários.

NF - Quando chegou na Cracolândia, você já tinha em mente a foto que queria? Já estava atrás daquela foto que saiu na capa?

AG -
Não, eu conheço muito bem o tema que fui pautado naquela noite, o que facilitou o trabalho, mas não tinha a foto em mente.

NF -  Além de assinar as fotos, você assina o texto junto com o James Cimino. Como foi sua colaboração com o texto? Você já tinha feito isso antes?

AG -
Por estar mais habituado com o ambiente, colaborei conversando com os usuários e passando as informações a ele. Já colaborei em outras matérias ajudando na apuração, repasse de informações etc.

NF - Você já tinha feito fotos em lugares ou situações semelhantes? Pode nos contar como foi?

AG -
Sim, fotografei usuários de drogas injetáveis na zona leste de São Paulo junto com colaboradores de um extinto programa de redução de danos da prefeitura de São Paulo, em 2005. Nós visitamos diversos pontos de drogas onde os voluntários distribuíam seringas descartáveis para os usuários e traficantes. Mas não me aprofundei como no caso da Cracolândia.

NF - No que esta pauta se difere de outros trabalhos que você já fez?

AG - Como repórter fotográfico posso dizer que a nossa profissão permite e dá o privilégio de aprender com cada pauta. Todas têm o seu diferencial, independentemente do grau de importância, mas posso dizer que aprendo e amadureço profissionalmente e como pessoa com todas elas. Esta pauta em especial me colocou em contato com a degradação de vidas. Nesses dois anos de documentação da região, muitas vezes encontrei pessoas do começo do meu trabalho e pude ver todo o processo de autodestruição delas pela droga.


Aproveito para recomendar a crônica de Ruy Castro, publicada hoje, sobre o problema do crack.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h31

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Correspondente nas ruas de Teerã

 
 

Correspondente nas ruas de Teerã

  O correspondente da Folha RAUL JUSTE LORES esteve no Teerã entre 11 e 18 de junho para cobrir os protestos que ocorreram depois das eleições.

Ele fez, ao todo, 20 matérias (para o impresso) sobre tudo o que envolvia aquelas manifestações: política, religião, direitos das mulheres, a revolução islâmica, populismo e os protestos propriamente ditos.

O repórter esteve lá, no meio da confusão que deixou alguns mortos e vários gravemente feridos, até que o governo iraniano decidiu, no dia 16, cancelar os vistos de todos os jornalistas estrangeiros e divulgar a seguinte mensagem pouco ameaçadora: "Se você for encontrado em qualquer lugar público com seu visto de jornalista, você pode ser preso" Insatisfeito

 

Depois disso, coube a Lores deixar o país e voltar para a China, onde é correspondente. E encerrar sua cobertura com um texto magistral, em primeira pessoa, sobre o fim de sua jornada lá e o destino dos iranianos que ficavam.

Fiz algumas perguntas a ele, por e-mail, para a gente descobrir como foi a experiência, que teve direito a momentos de angústia, desespero e pauladas dos policiais:

 

Novo em Folha - Quantas vezes você já foi enviado para coberturas no Irã?

Raul Juste Lores - Esta foi minha segunda vez no Irã, estive dez dias em fevereiro para cobrir o aniversário da vitória da Revolução Islâmica.

NF - Como suas visitas anteriores ao país puderam te ajudar na atual cobertura?

RJL - A visita anterior foi fundamental para fazer uma boa agenda. No atual caos, quando todo mundo está morto de medo para falar, o que te salva são os contatos anteriores, as pessoas que se lembram de mim. Especialmente porque havia 650 jornalistas estrangeiros em Teerã para cobrir a eleição. Conseguir exclusivas com essa concorrência toda seria impossível se eu não tivesse alguns telefones úteis.

 

NF - Quais as principais dificuldades de trabalhar em um país em situação tão tensa e quais precauções você precisou tomar?

RJL - Na verdade, eu não tomei precaução nenhuma. Até porque cobri o primeiro grande protesto, que passou na frente do meu hotel, e fui seguindo. Não tinha ideia do que aconteceria. O protesto era tão silencioso, tão pacífico, mais da metade dos manifestantes era formada por mulheres que eu, trouxa, achei que não terminaria no boxe que eu vi. Foi nessa vez que apanhei (pouco) dos cassetetes dos policiais. O pior foi ver centenas de pessoas correndo, se empurrando, desesperadas, fugindo da polícia.

 

Meu medo de tropeçar e ser esmagado pela multidão foi o maior pânico que já senti na vida. Todas as grandes avenidas de Teerã têm canaletas bastante largas por onde se escoa a água que derrete da neve das montanhas que cercam a cidade. Além da corrida e da multidão se derrubando, tive que pular por sobre a bendita canaleta umas duas vezes, sempre com medo de cair e quebrar a perna. Fui péssimo esportista na infância, mas com medo a gente faz milagre.

(Continua abaixo)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h31

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Correspondente nas ruas do Teerã - final

 
 

Correspondente nas ruas do Teerã - final

NF - No caso do Irã, ainda houve um problema a mais, que foi a expulsão de jornalistas estrangeiros depois de alguns dias de cobertura. Qual foi sua reação ao saber que seu laptop e celular não funcionavam e que se via em meio a um país em "guerra" cujo governo não te queria lá? Chegou a sentir medo?

 

RJL - Medo nenhum nos últimos dias; desespero por imaginar que a violência continuava em todas as partes e eu não tinha nem como ligar para conhecidos e saber o que estava acontecendo, ou saber o que se dizia na internet. As horas em que fiquei ilhado no hotel foram de angústia. Meu intérprete me desertou e não falo persa...

 

NF - As contribuições da população nas redes sociais e por meio da internet te ajudaram em sua cobertura? Facilitam seu trabalho?

 

RJL - Usei muito pouco a internet enquanto pude estar na rua em Teerã. Não tenho blackberry aborrecido , então só checava a internet ao voltar ao hotel.

 

NF - Você sabe de outros repórteres que decidiram enfrentar a decisão do governo e permanecer no Irã? Afinal, ainda há fotógrafos de agências e alguns de texto que continuam enviando material de lá, certo? Havia condições de segurança para que eles ficassem?

 

RJL - Na verdade o governo expulsou os "enviados especiais", mas jornalistas estrangeiros que moram no Irã ou meios que têm escritórios por lá puderam ficar. A princípio... Depois, os correspondentes da BBC e da Al-Arabiya acabaram sendo expulsos também.

 

NF - Uma outra situação em que você não era bem-vindo pelas autoridades locais foi quando foi cobrir o terremoto em uma pequena província chinesa. Sua experiência anterior pode se comparar de alguma forma com a do Irã? Pôde te ajudar, para saber como deveria agir?

 

RJL - Apesar de ditaduras e bastante repressivas, os chineses e os iranianos não poderiam ser mais diferentes, o que transforma a cobertura. Os iranianos estão loucos para falar, dos fundamentalistas aos reformistas, são muito calorosos de cara e você acaba virando novidade, já que o país recebe poucos turistas estrangeiros e tem poucos correspondentes por lá. Como o governo não vive lá seu momento de maior popularidade, até no caos do Bazar as pessoas queriam dar entrevista. Só depois da violência barra-pesada que as pessoas começaram a pedir que eu não citasse os seus nomes.

 

Já na China, o governo não fala com você, a hierarquia é quase absoluta e é muito difícil que um chinês critique o governo, seja em on ou off. Como há 800 correspondentes estrangeiros em Pequim, jornalistas americanos e britânicos são os únicos que o governo dá alguma bola. Empresários não dão entrevistas porque não querem chamar a atenção do Partido e o povo comum sempre tem medo de falar, depois de décadas de expurgos e vigilância onde qualquer vizinho pode te dedurar. A desconfiança contra a imprensa ocidental, depois de décadas de propaganda do regime contra "o Ocidente", é enorme. Ah, e os chineses ADORAM o seu governo. Então qualquer reportagem mais crítica sofre de ausência de fontes... Ou você acaba recorrendo aos suspeitos de sempre.

 

Novo em Folha - Acha mais difícil ser correspondente eventual no Irã ou ser correspondente fixo na China?

RJL - Na minha curta experiência, trabalhar no Irã, mesmo sendo enviado especial, é mais "fácil" do que ser correspondente na China.

 

 

Fotos: Raul Juste Lores (jun/09)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h30

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Sabatina com o Ronaldo

 
 

Sabatina com o Ronaldo

 

   Cris falando: 

E, por falar em boas entrevistas, finalmente vou tocar num assunto que estou adiando há uma semana por problemas operacionais (internet de casa = carroça Muito feliz).

Ésobre a sabatina que a Folha fez com o Ronaldo na sexta-feira 15 (aqui, para assinantes). Quatro jornalistas muito experientes fizeram as perguntas para o jogador: CLÓVIS ROSSI, XICO SÁ, JUCA KFOURI e MÔNICA BERGAMO.

Mas foi ela que fez as perguntas mais duras, mais desconfortáveis, que arrancaram mais protestos da platéia, mais piadas dos colegas e até levaram o Ronaldo a brincar que estava com "medo" em certo momento.

Ela perguntou, por exemplo, quanto ele pesava, qual era seu patrimônio, como justificava o episódio com os travestis e se votaria em um candidato do Lula.

Com isso, é claro, conseguiu respostas sensacionais _como a crítica do jogador a Ricardo Teixeira.

Além de ter sido uma sabatina divertida, com várias doses de humor, foi também uma aula de jornalismo. [Quem não viu tem que clicar aí em cima e assistir ao vídeo, que vale a pena.]

Por isso, e para a gente aprender como foi feito e como se faz entrevistas desse tipo, fiz algumas perguntas à MÔNICA BERGAMO:

Novo em Folha - Você fez as perguntas mais duras, mais difíceis e mais delicadas de toda a sabatina, a ponto de o Ronaldo soltar um "Que medo da Mônica!" em certo momento. Como e por que fez a escolha por essas perguntas?

Mônica Bergamo - A Folha tinha o entendimento de que o Ronaldo não é apenas um grande jogador, mas um personagem mundial que extrapola os estádios de futebol. E, como responsável por uma coluna de variedades, acompanho de perto a vida. Os namoros, os casamentos, as brigas com o Ricardo Teixeira. Fomos os primeiros a publicar, depois da Copa de 2006, que Teixeira afirmava aos quatro cantos que ele jamais voltaria a jogar na seleção. Fiz essa pergunta ao Ronaldo e ele então, na resposta, acusou o Ricardo de duplo caráter. Enfim, acompanhando vários aspectos da vida dele longe da bola, era natural que eu fizesse essas perguntas.
 
NF - Você já leva uma lista de perguntas que faz questão de fazer ou aproveitou as oportunidades de ganchos para se dirigir ao Ronaldo?
 
MB - Eu levo uma lista de assuntos que considero obrigatórios e vou aproveitando as oportunidades para colocar os temas. Mas muitos surgem na hora.
 
NF - Apesar de o público ter protestado muitas vezes durante suas perguntas (ex.: do travesti, do patrimônio e do candidato do Lula), você se manteve calma e bem humorada, prosseguindo nas perguntas com firmeza, até o fim. Como você consegue? Como se sentiu naquelas horas dos protestos?
 
MB - Eu acho perfeitamente natural que o público proteste e acho que a nossa obrigação é não perder jamais o bom humor e a elegância já que estamos ali representando a Folha.
 
NF - Aliás, o que achou da reação do público, que só protestou durante suas perguntas? Já havia passado por situação parecida? Quando? 
 
MB - Sim, em várias sabatinas. Quando entrevistamos o ministro Gilmar Mendes, do STF, foi assim também. Muitas pessoas que se inscreveram para a sabatina eram admiradoras do ministro e reclamavam em voz alta quando ele era questionado mais duramente. Nas sabatinas com políticos, em períodos eleitorais, isso também ocorreu. Mas os entrevistados entendem perfeitamente que esta é justamente a função da sabatina e que as perguntas mais difíceis geram, muitas vezes, as respostas mais brilhantes.
 
NF - Você já participou de várias sabatinas com figuras muito mais polêmicas _ Paulo Maluf, Gilmar Mendes, Marta Suplicy, Geraldo Alckmin, Sarney, Ciro Gomes etc_ embora menos idolatradas. Em todas elas você escolheu fazer as perguntas mais delicadas, como fez com o Ronaldo? Qual dessas sabatinas foi a mais difícil de participar? 
 
MB - Eu acho que qualquer jornalista tem "coceira", quando encontra uma autoridade, para fazer a ela as melhores perguntas, que arranquem do entrevistado respostas reveladoras a respeito dos assuntos sobre os quais os leitores têm maior curiosidade. Nem sempre as pessoas estão dispostas a responder. Mas, na sabatina, elas estão inteiramente à disposição, o que é maravilhoso para qualquer repórter. Acho que a sabatina mais difícil foi a do presidente Lula, na eleição de 2006. Os assuntos eram muito espinhosos e também muito complexos _economia, política, desenvolvimento, corrupção, telecomunicações. Antes fazer a sabatina, com ele e também com o Geraldo Alckmin, tomei uma "aula" com um grande economista. Reuni números históricos de programas sociais, investimentos, salário, renda, crescimento, para que pudesse contrapor dados a respostas que considerasse genéricas ou mal explicadas.
 
NF - Como se preparar para uma sabatina? É mais difícil participar de uma sabatina do que de uma coletiva ou de uma entrevista particular? No que elas mais se diferem? 
 
MB - Acho que já respondi alguma coisa na pergunta anterior. Mas eu me preparo lendo muito sobre o entrevistado e sobre os temas a ele relacionados. Acho que a sabatina é difícil porque é ao vivo, com plateia, muitas vezes até uma torcida. Por outro lado, a pessoa está ali disposta a responder e os resultados são sempre muito bons.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h40

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Homens no gelo

 
 

Homens no gelo

 

Toni Pires/Folha Imagem

Mar de gelo na Antártida

 

 

"Inevitável não se surpreender com a edição exclusiva da revista sobre a Antártida. Dado seu exótico conteúdo -não é todo o dia que jornalistas brasileiros têm oportunidade de trabalhar sob condições tão excepcionais de temperatura-, a publicação pode resultar em um post interessante para o blog", escreveu meu leitor Fred há algumas semanas.
 
Ele propunha uma "entrevistinha" com MARCELO LEITE contando os bastidores da apuração, como a que eu havia feito com meu colega RAPHAEL GOMIDE  após a publicação da reportagem "O Infiltrado".

-- Ótima ideia, Fred! Você não quer fazer a entrevista e eu publico?

Proposta aceita, segue um relato detalhado e abrangente, que vai das técnicas jornalísticas usadas pelo repórter às dificuldades e curiosidades da viagem. (Fred recomenda também o site da expedição é muito legal. É possível navegar pelas terras geladas de Patriot Hills por meio de um joguinho, com fotos e informações, conduzido pelo líder da expedição, Jefferson Simões. Ainda por cima é educativo).

 

por FRED RAPOSO, para o Novo em Folha

Como surgiu a idéia de fazer a reportagem?

Marcelo Leite: Em outubro (do ano passado), aconteceu em São Paulo uma reunião do Proantar (Programa Antártico Brasileiro) para jornalistas, promovida pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Fui meio de curioso, mais para pegar material para a coluna no Caderno Mais. Lá conheci o Jefferson Cardia Simões, acho que o primeiro glaciólogo brasileiro, da UFRGS. Fiquei sabendo que ele estava organizando expedição para o interior da Antártida, onde já tinha larga experiência. Imediatamente percebi que tinha oportunidade jornalística para reportagem. Me apresentei e, meio que de brincadeira, falei: “E aí, você toparia levar um velhinho jornalista nesta história?” (risos). Deu uma louca e propus (a viagem para o jornal).

(continua abaixo)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h30

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Homens no gelo - parte 2

(continuação)

Mesmo sabendo que o investimento seria grande?

ML: Sabia que custava caro, porque peguei as informações básicas ali com ele. A passagem de avião de Punta Arenas, no Chile, para Patriot Hills, na Antártida, é muito cara. Eles iriam no fim de novembro e só voltariam no início de janeiro. Propus para a direção do jornal que fossemos por duas semanas. Era uma das possibilidades, pois havia janelas nos vôos da ALE que a gente podia se encaixar. Para a minha surpresa, (o projeto) foi orçado e aprovado. Eu achava que era caro demais e que o jornal não toparia. Acho que todo mundo que se envolveu na decisão percebeu que tinha uma oportunidade única ali, por ser a primeira expedição brasileira, autônoma, para o interior do continente. Em geral, o Brasil faz pesquisa na península Antártica, que é na periferia.

 

Qual era o diferencial de fazer a viagem, em termos jornalísticos?

ML: Faltam mais matérias narrativas no jornalismo científico, contando como é feita a ciência na prática. A gente fala muito dos resultados e pouco de como ela é feita. Expedições e trabalho de campo são um excelente filão de reportagem para jornalismo científico, que é mal aproveitado. Principalmente se você vai a uma reunião dessa e fica sabendo que tem uma primeira expedição brasileira, pioneira desse gênero, que vai acampar no gelo durante dois meses.

Ou seja, era uma oportunidade única.

ML: Para se ter idéia, a empresa ALE leva no máximo 270 pessoas por temporada para a Antártida. Percebi no ato que (a viagem) tinha enorme apelo jornalístico e resolvi apostar nisso, mesmo sabendo que a chance era pequena (de aprovação da pauta). Para nós, jornalistas, às vezes falta um pouco essa ousadia de propôr. A gente parte do princípio que “isso aí não vai rolar” ou que “não vai dar pé”. Você tem que confiar no seu taco. Você propõe 20 (pautas) e aprova uma.

Como foi a negociação da viagem com os pesquisadores? Teve algum impedimento?

ML: Foi supertranquila. O Jefferson tem uma boa percepção e é bem sensível quanto à divulgação científica. Ele mesmo investe em blogs e o grupo dele tinha um esquema montado de divulgação. Ele só me avisou que a Globo também tinha interesse. Ficamos um pouquinho preocupados com a Globo fazer algum material forte antes. A gente sabia que ia demorar para circular a revista. Do início das férias até o fim do Carnaval era ruim de sair com esse material, pois pode não ter a mesma leitura de uma situação normal. Mas não preocupou tanto porque não era concorrente direto.

Então a Folha não tinha exclusividade na matéria?

ML: A exclusividade para a imprensa escrita estava mais ou menos garantida. Ele disse que tinha um pessoal da Globo pensando em ir, mas que depois acabou desistindo. Ele não me deu exclusividade. Não é que ele tenha dito para mim: “Se você for, vai só você”. Ele falou: “Olha, ninguém me procurou”. Mas obviamente pedi que me avisasse se alguém mais o procurasse, porque isso mudava toda a equação.

Que argumentos você usou para convencer a Folha?

ML: Na Folha não teve nem negociação, eles aprovaram de cara. Acho que demorou uma semana. Foi uma questão de entrar na pauta da reunião da direção. O gasto mais pesado era o investimento na passagem, e a empresa deu desconto por ser parte de uma expedição científica. Mesmo assim era um orçamento caro. A partir daí, o que precisou gastar se gastou. Foi uma decisão estratégica.

Qual conhecimento sobre a Antártida já tinha antes de viajar?

ML: Fazia talvez uns dez anos desde que li o último livro. Mas já tinha lido relatos do (Roald) Amundsen e do (Ernest) Shackleton, coisas históricas. Também escrevi uma matéria sobre dois malucos que atravessaram a Antártida a pé, na década de 90.

como se preparou para a viagem?

ML: Tive que providenciar uma série de exames médicos. Isso tomou bastante tempo. Em paralelo, ainda sem conseguir ler muito, fui montando uma pequena biblioteca para levar comigo. Comecei a procurar uns livros em casa, encomendei outros pela Amazon, importei um guia Lonely Plantet da Antártida, pedi emprestado para o Claudio Angelo (editor de Ciência) o livro “The Coldest March”, da Susan Solomon.

Além da consulta nos livros, pesquisou outras fontes, conduziu entrevistas?

ML: A primeira coisa que fiz foi pedir para o próprio Jefferson mandar sugestões de leitura. Ele enviou relatórios de pesquisas, artigos, material de divulgação de comitês científico sobre a Antártida, coisas dele mesmo. Fui imprimindo e guardando tudo dentro de uma pasta que comprei. Organizei toda a parte burocrática, como e-mails que troquei com ele, com o pessoal da empresa, os contratos da empresa.

Por que tomou essas precauções?

ML: Sabia que tinha que estar com tudo isso a mão pois não tinha garantia que estaria on-line lá. Para piorar, em novembro, estava finalizando o manuscrito de um livro que tinha que entregar, além de outras coisas pendentes, como deixar colunas prontas. Estava juntando material, mas lendo pouco. Conversei com o Jefferson preocupado em coordenar essa parte logísitca. O investimento maior inicial foi nisso, embora tivesse planos de fazer mil entrevistas.

Antes de sair do Brasil você tinha uma hipótese sobre o que focaria na reportagem?

ML: Há muita discusssão no meio científico sobre papel da Antártida na mudança climática global, como o derretimento de geleiras. Sabia que seria por aí e também que o forte seria contar como é a vida lá. O que é estar em um acampamento, fazer pesquisas. Por ser (assunto) desconhecido, a curiosidade do leitor inevitavelmente colaria em torno disso.

 

Você já saiu do Brasil sabendo mais ou menos o tamanho que a revista teria?

ML: O tamanho exato (68 páginas), não, só que seria uma revista e não caderno especial. Havia uma proposta genérica de fazer algo com um padrão de qualidade "Natural Geographic", não muito mais que isso.
 

Na matéria de abertura (“No Coração da Antártida”), você faz um relato em primeira pessoa, quase como se fosse em um diário. Por que optou por relatar a experiência dessa maneira?

ML: Essa é uma coisa curiosa. Sabia que o relato seria desse tipo, mas não necessariamente em primeira pessoa. Na primeira versão da matéria, eu usava um pouco a primeira (pessoa) do plural, porque a idéia era contar a narrativa do ponto de vista meu e do Toni (repórter fotográfico). Fiz umas três ou quatro versões da matéria, que passaram pelas sugestões e comentários do Claudio Angelo e da Marília Scalzo, que foram os editores principais. Uma das sugestões foi abandonar a primeira do plural, que não estava funcionando, pois enfraquecia de alguma maneira o testemunho, e partir para a primeira do singular. Era um relato mais pessoal. O processo de edição foi minucioso. Tem que mexer muito no texto, coisa que jornalista não gosta muito de fazer. Você reduz um pouco o amor próprio e aceita ponderações de gente inteligente, como são esses editores.

O que foi mais trabalhoso nessa edição?

ML: Foi lidar com a quantidade de material. Eu tinha um caderno espiral de 100 folhas quase cheio de entrevistas feitas lá. Além de uma caderneta de bolso, que levei pois sabia que não seria muito simples fazer anotações em campo, também com mais 100 páginas preenchidas. Juntei isso aos e-mails no computador, à pasta com papéis, aos mapas e livros que comprei, aos artigos científicos que o Claudio Angelo me passou e aos sites de internet.

Quanto tempo demorou a edição?

 ML: Em meados de janeiro, comecei a trabalhar nisso. E comecei a escrever no começo de fevereiro. Então, por pelo menos três semanas li esse material, fiz outras anotações e tentei esquematizar uma proposta de matérias, enquanto participava de reuniões na Folha. A gente teve umas três reuniões com o grupo que se envolveria ali, da arte final, da fotografia e do texto e os editores. Essa preparação tomou quase um mês, isso depois da viagem. Escrever deu muito trabalho.

- Houve uma preocupação em "traduzir" os termos científicos?
ML - Sempre há.
 
- Você se comunicou com a redação da Antártida, seja para passar informações ou para receber instruções?

ML;Sim. Tínhamos comprado 500 minutos de telefone de satélite (Iridium), com a idéia de enviar matérias, posts para blog, podcasts e fotos. Na prática, gastamos muito tempo enviando fotos, porque a taxa de transmissão era baixa. Mandei menos matérias e posts do que gostaria, as quais você pode ver aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/nocoracaodaantartida/.

 (continua abaixo)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h19

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Homens no gelo - parte 3

(continuação)

Como você esquematizou o texto?

ML: As reportagens típicas que faço para a Folha raramente ultrapassam 5 mil, 6 mil caracteres. Com o hábito, você escreve meio sem pensar conscientemente em estrutura, que já tem mais ou menos uma cara. Numa matéria maior, de 30 mil, 40 mil caracteres, se não esquematizar antes de onde você quer sair, por onde quer passar e aonde quer chegar, fica difícil chegar a uma coisa que tenha pé e cabeça. A escrita é mais lenta, a narrativa dá muito mais trabalho de fazer e refazer. Entreguei umas três ou quatro versões para os editores. Só que eu fiz mais de uma versão minha, caseira. Fazia, não gostrava, refazia, mostrava para a minha mulher. Ela dava uns palpites, eu refazia.

Durante esse tempo não corria risco de o jornal levar um furo?

ML: Risco de furo no sentido estrito do termo não, pois só eu tinha ido e a expedição já havia terminado. Eu saí de Patriot dia 9 de janeiro e o Jefferson e sua equipe, no dia 14. Alguém podia entrevistá-lo, fazer uma matéria longuíssima. Havia esse risco. Mas o testemunho em primeira pessoa e a exclusividade da presença no local, só a gente tinha e ninguém tirava. Mas havia esse receio sim, então tomei muitos cuidados.

Que tipo de cuidados?

ML: Não falava com ninguém sobre o que planejávamos fazer. Eu não falei com ninguém fora da Folha. Talvez só para a minha mulher. Não queria que a coisa circulasse por aí. Poderia dar ideia de algum concorrente sair na frente com uma revista, ainda que inferior a nossa em extensão, profundidade ou proximidade com o evento jornalistico. Mas tira o brilho: “Ah, a nossa está melhor, mas a deles saiu antes”. Mas não cheguei a ficar muito preocupado, só tomei esses cuidados. O acesso que a gente teve ninguém mais poderia ter.

Como era a apuração no dia-a-dia na Antártida?

ML: De início me preocupei em registrar tudo, aquela avalanche de impressões e de sensações corporais e o registro do cotidiano propriamente dito, especialmente das conversas que rolavam entre os pesquisadores. Daí a importância desse diariozinho na caderneta. Você fica quase o tempo todo com alguém, então tinha sempre uma conversa rolando em volta, seja na cozinha ou no módulo azul, os dois pontos de encontros principais. Comecei a fazer algumas entrevistas, principalmente, com o Jefferson. Mas nos primeiros dias nada muito intrusivo. Estava funcionando mais como uma esponja do que como microfone. Ou seja, absorvendo os elementos novos, desde as sensações fisiológicas, como frio e fome, até anotações sobre paisagem, aspectos da neve, do gelo, do céu, do sol que não se põe. Até porque eu estava muito ocupado em me adaptar, não ficar doente.

Passado o baque inicial, como era sua rotina?

 ML: A partir de um certo ponto a gente começou a participar das atividades, sair com os pesquisadores. Mais ou menos no meio da minha estada, comecei a marcar entrevistas particulares com os oito membros da expedição. Ficava até duas horas conversando em profundidade tanto sobre o estudo como sobre a biografia de cada um. À exceção de uma coisinha aqui e outra ali, acabei usando pouco disso, porque na hora de redigir vi que não tinha espaço. A rotina era essa, sair a campo quando o tempo permitia.

 Vocês chegaram com alguns dias de atraso a Antártida.

 ML: Ficamos dez dias em Punta Arenas, aguardando as condições meteorológicas melhorarem para o vôo, e perdemos alguns dos trabalhos de campo lá. Na principal escavação, a 250 quilômetros dali, numa região chamada Monte Johns, os pesquisadores voltaram dois dias antes de a gente chegar. Essa parte nós perdemos. É um pouco das contingências antárticas, você está o tempo todo à mercê da tecnologia.

 Mas mesmo assim a Folha noticiou essa expedição ao Monte Johns.

 ML: Estava com dificuldades para falar com eles de Punta Arenas por telefone de satélite, mas mesmo assim procurei acompanhar. Na volta, me socorri de um relato escrito que o próprio Jefferson fez do período em Monte Johns, de revistas, entrevistas e do material que fui coletando. A segunda reportagem, que fala do “Maior deserto do mundo”, é quase toda caucada nessa expedição em Monte Johns na qual eu não estava presente. Aí já não é mais um relato em primeira pessoa, mas em terceira, porque não tinha mais caráter de testemunho. Ele mandou um texto que falava dia por dia o que tinha acontecido, como temperaturas, dificuldades com equipamento de perfuração.

  Por se tratar de relatos de terceiros, surgiram dúvidas?

 ML: À medida que fui escrevendo, surgiram discrepâncias. Coisas que achava que tinha entendido de um jeito, eu lia de outro no relato dele. Aí mandava um e-mail: “Olha, Jefferson, não estou entendendo. Afinal, no quarto dia teve nevasca ou não teve?”. Verificação de informação o tempo todo. Até fiz uma coisa que muito jornalista não gosta, e que eu não tenho problema nenhum. Enviei e-mail final, quando ficaram prontas as matérias, com trechos que achava que podia ter incompreensão ou mal-entendido da minha parte, especialmente em questões técnicas, de ciência, de pesquisa, com dados de temperatura, densidade de gelo. Foram uns dez parágrafos, dizendo: “Olha, dá uma olhada, veja se não cometi nenhuma impropriedade”. É grande a chance de um mal-entendido especialmente quando você está morrendo de frio, anotando com a mão dura, com o raciocínio lento.

 Em que momentos sentiu maior dificuldade?

 ML: Na hora de anotar as entrevistas era meio penoso. A escrita não fluía com a mesma rapidez que em condições normais de temperatura e pressão. Eu não confiava inteiramente nas minhas anotações, especialmente quando eles descreviam coisas complexas. Abusei muito da paciência do Jefferson e do Francisco Eliseu Aquino, o Chico Geleira. Devo ter mandado dezenas de e-mails para checar informações.

 O que o motivava a voltar aos pesquisadores para rechecar informação?

 ML: Não tem condição de fazer uma revista dessa e depois publicar meia dúzia de erratas. Aliás, podem surgir erros, não vou dizer que não tem erro. Saiu até um pequeno erro, que nem era de uma matéria minha, que a gente comete. Certamente deve ter um ou outro nas minhas matérias apesar de todo o esforço de verificação e de checagem. Sempre acaba passando alguma coisinha.

 Mas este método reduz bastante a chance de saírem erros.

 ML: Tem que fazer isso. Especialmente em jornalismo científico. Eu não glaciologista, não sou meteorologista, não sou climatologista. Posso ter ganho alguma familiaridade (com o assunto) ao longo dessas três décadas de jornalismo científico. Mas não é o bastante para impedir que cometa erros, eventualmente até graves. Tem que ter checagem, checagem, checagem. Não tem segredo.

  Mas você não mandava o texto inteiro.

 ML: Não, até porque não queria criar oportunidade para o cara interferir na interpretação e na formulação do estilo da reportagem. Eu confio no próprio taco, mas não vou até o ponto de confiar em tudo que eu faço. Depois de muitos anos de jornalismo científico, foi enorme a quantidade de vezes que entendi errado alguma coisa. E, várias vezes, ao tomar precaução de verificar a informação antes de publicá-la, me salvou de uma série de deslizes. Sempre que percebo que tem uma pequena dúvida que possa pairar na minha compreensão da coisa, tomo cuidade de verificar de alguma maneira. Seja entrando em contato com a fonte ou por meio de uma pesquisa.

E os pesquisadores recomendaram alguma mudança em termos de informação?

ML: Sim. As datas, por exemplo. Sempre que você conversa com as pessoas, durante uma entrevista, o cara fala uma data, mas pode estar enganado. O Chico Geleira, que era um pouco braço direito do Jefferson, tinha uma caderneta onde anotava tudo, diariamente e várias vezes ao dia. Era uma espécie de diário de bordo. Chequei dados com ele e descobri que anotara uma série de informações erradas, como o dia em que eles saíram de Punta Arenas para Antártida ou o dia em que voltaram. Umas coisas de precisão eu mudei, sim, na matéria, graças a esse trabalho de checagem com eles.

(continua abaixo)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h16

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Homens no gelo - parte final

(continuação)

Você teve que se adaptar ao horário dos pesquisadores?

 ML: Por uma questão de disciplina e organização pessoal, mantive meus horários de sono. Raramente deitei depois de meia-noite ou acordei depois de 10h, embora aqui no Brasil acorde muito mais cedo que isso. Seguia o horário chileno, como todo mundo. Sou uma pessoa que funciona com rotina, que é um elemento estruturante importante da minha vida.

 Como foi trabalhar o tempo todo com sol, dormir com luz?

 ML: Por dentro da barraca de dormir era bem claro. Não fazia mais nada lá, porque era apertada e desconfortávfel, não tinha onde encostar. Ficava mais no módulo azul, que era onde tinha o computador e o telefone de satélite, na cozinha, que era o ponto de encontro social, ou estava em campo, onde não ficava muito tempo por causa do frio. O período mais longo que a gente ficou em campo deve ter dado umas cinco ou seis horas, no máximo.

 Quanto tempo demorou para se adaptar ao clima e como isso influiu no seu trabalho?

 ML: Eu diria que os dois primeiros dias. Mas, longe de serem perdidos, pois absorvi muita coisa neste período, de sensações mais intensas. Me ocorreram um monte de idéias, escrevi  muito, mas o esforço físico era grande. Achei que ia pegar uma dor de garganta, tomei remédios, dormi mal, senti frio. Também não me adaptei ao casaco de penas de ganso, que era muito volumoso e quente. Resolvi experimentar um outro casaco, de GoreTex, impermeável, bom para barrar o vento, menos quente e acolchoado. Mas essa adaptação demora um pouco e os dois primeiros dias foram consumidos com esse tipo de coisa.

 Você comentou no seu blog que, apesar de toda a preparação, "nenhum dos referenciais que carregava tinha muito uso". Isto ocorreu com frequência? Pode citar um exemplo e explicar como contornou o problema?

 ML: Nada deu muito errado. Eu já tinha uma série de informações que ajudaram a me prevenir. Quando me referi a não estar preparado, era mais do ponto de vista subjetivo. Após ler sobre as dificuldades, o frio, a neve e a paisagem, você forma uma imagem mental, que é pobre demais perto do que encontra lá. Percebe que não está preparado para a quantidade de novidade e de informação, sensorial e intelectual, que recebe. Você pode ler “n” descrições, mas quando chega lá é outra coisa. É concreto, enquanto a descrição que você leu, por mais que seja bem feita, é abstrata, diferente da experiência vivida. Como jornalista, você se esforça para, ao descrever, dar vida e concretude a essas coisas. Mas tenho noção, até porque vivi a experiência oposta, de que a descrição e o relato sempre ficam aquém da experiência real.

 Você sentiu essa supresa também da parte dos cientistas brasileiros?

 ML: Eles ficavam horas discutindo os assuntos na cozinha, durante a confecção e o consumo da comida, e depois também em campo. Às vezes não chegavam a nenhuma grande conclusão. Mas o importante é o simples fato de presenciar esse debate, como é a cabeça dos cientistas. Eles são, como os jornalistas, apaixonados pela surpresa, pelo novo, por aquilo que falta explicar. Ser o primeiro a relatar e o primeiro a explicar. Essa é a paixão do cientista e de certo modo do jornalista também, com as devidas diferenças e guardadas as devidas proporções. Há uma empatia muito forte. Às vezes há problema e atrito também, mas não foi o caso.

 Como era, para eles, ter um jornalista por perto?

 ML: Evidentemente eles estavam muito contentes de ter, em primeiro lugar, um órgão de imprensa interessado o bastante para fazer um investimento em dinheiro, e de tempo e interesse da parte minha e do Toni. Afinal, nessa brincadeira foi um mês de distanciamento da minha vida familiar e profissional normal. Ficou tudo parado. O blog ficou parado, faltei o natal e o ano novo da minha família.

 Quais equipamentos levou consigo? Tinha acesso a internet?

 ML: Levei livros, um computador da Folha, uma bateria sobressalente, que nem cheguei a usar, um gravador digital pessoal, um gravador de pilha cassete da Folha e um óculos reserva. Levei papelada da burocracia, e-mails trocados, tirei cópia de tudo, embora tivesse no computador. Tinha uma pasta no computador do escritório em casa onde guardei um monte de coisa, de imagens a documentos. Aí fiz o espelho disso tudo no computador da Folha. Estava bem calçado também em termos de medicamento. Levei uma pequena farmácia da qual usei só os anti-inflamatórios por causa da dor de garganta.

 Usou gravador?

ML: Usei só o digital para gravar as entrevistas pessoais com os oito pesquisadores. Normalmente uso pouco gravador, pois acho que dá uma esfriada na conversa. Procuro anotar tão discretamente quanto possível para ter menos interferência na fala.

  A ida a campo alterou de alguma forma sua percepção sobre a ameaça do aquecimento global e seus efeitos no derretimento das calotas polares ?

 ML: Não muito, pois estava no interior. Este efeito é melhor percebido em plataformas de gelo em fragmentação. Não conheci o litoral da Antártida. Só vi icebergs e o mar congelado do alto do avião. Na verdade, teve uma questão que só depois se tornou mais clara para mim. O mau tempo que experimentamos durante três dias de nevasca, na Antártida, e que nos impediu de chegar lá, quando estávamos em Punta Arenas, aparentemente pode ter relação com mudanças de padrões climáticos. Estão ocorrendo algumas transformações nos mares de Bellinghausen e Amundsen, sob cuja influência aquela região para onde fui está. Foi a única experiência mais direta com essa questão.

 Em maio do ano passado, o ministro Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia) classificou a pesquisa feita pelo Brasil na Antártida, até aquele momento, de "superficial". Não pensou em ouvi-lo para a reportagem?

 ML: Não me lembrava dessa declaração e dessa entrevista, embora tivesse informação da superficialidade por outras fontes. De alguma maneira isto está presente nas nossas matérias. Não me ocorreu que seria necessário fazer entrevista com o ministro para fazer essa avaliação. Até porque, naquela reunião de outubro, alguma coisa foi comentada neste sentido e estava presente ali o secretário executivo do MCT.

 Como surgiu a pauta de turismo?

 ML: Sabia que iam turistas para Antártida, mas achei que só de navio. Fui tomando conhecimento ao cruzar com pessoas que iam para lá de Punta Arenas. Era uma turma de quase 50 pessoas que estava há dez dias ilhada, esperando a hora de ir para a Antártida. Tinha de tudo, desde montanhista e aventureiro até o prefeito de Praga. Vi oportunidade de escrever sobre isso, do ponto de vista do serviço. Logo nas primeiras reuniões de pauta, já sugeri a matéria de turismo. Voltei com essa ideia de contar que existe esse modo de chegar lá, ao menos para pessoas ricas, com vontade de investir dinheiro em turismo de aventura.

 O fato de o Toni já ter ido ao continente facilitou de alguma forma o trabalho?

 ML: Ele já tinha experiência de fotografar no frio. Certamente é sempre melhor estar com pessoas que já têm experiência. Funcionou muito bem a química entre a gente. Ele é um jornalista excepcional e um grande companheiro. O Toni fez um trabalho de captar não só paisagem ou o cotidiano dos pesquisadores, mas elementos e detalhes (da paisagem) que, numa foto panorâmica, não se revelam de imediato.


Para assinantes, dá para ler o que saiu no dia 22/3 na Folha, mas sem as fotos e infográficos: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/antartida/inde22032009.htm.
 
A Folha Online montou uma página especial com o material prévio: http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/nocoracaodaantartida/

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h13

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Laura e a saga dos cisnes-negros

 
 

Laura e saga dos cisnes-negros

 

Joel Silva/Folha Imagem

Atendendo a pedidos de leitores que se apaixonaram pela história dos cisnes da Aclimação (e esta), entrevistei a repórter Laura Capriglione (que uma leitora sugeriu que fosse promovida a colunista da Folha Riso) para ela nos contar um pouco de como foi essa apuração específica e todas as outras que incorporaram seu estilo próprio de narrar.

Sugiro que quem não tenha lido, leia agora; as matérias estão abertas na Folha Online.

Novo em Folha - Como você construiu esse lide cheio de detalhes? Chegou a presenciar o momento em que os cisnes observavam a vazão d’água?

Laura Capriglione - Isso aí é o relato de uma frequentadora que eu citei na matéria [Romilda Queiroz]. E tinha outra mulher junto, que o André Caramante entrevistou no dia anterior, que viu exatamente a mesma cena. Eu achei essa cena tão chocante, tão impressionante os cisnes no meio da coisa e os peixes em volta pulando, que eu achei que o lide devia ser isso.

Novo em Folha - Quando você vai para um lugar assim, fazer esse tipo de pauta, você gosta de procurar aspas legais?

LC - Não precisa muito procurar, porque as pessoas falam. Nesta matéria nem tinha aspas tão bacanas. O que eu estava mais interessada mesmo era na descrição que as pessoas faziam e que papel cada um desempenhava na história.

Novo em Folha - Mas você tenta procurar bons personagens, ou prefere observar e construir seu texto em discurso indireto?

LC - Na verdade, eu cheguei lá 11 horas da manhã. Chegaram as autoridades e eu estava lá nas entrevistas todas que eles deram no local. E aí tinha aquele cisne lá no meio, que era um ímã pra atenção das pessoas. Elas ficavam preocupadas, tanto que eu estava ali entrevistando essas personalidades e o assunto era o tal do cisne _se está atolado, se não está, se vai morrer de fome... Comecei a prestar atenção no cisne. O que eu quis fazer foi uma matéria contando o que foi o investimento de horas daquelas pessoas que não entendem nada de bicho para tentar resgatar um cisne que na verdade era uma metonímia do lago, era aquele serzinho no meio do lago. Achei que era uma boa coisa contar os papéis que cada um desempenhava ali. Fora que eu acho que, numa cidade que é famosa por ser indiferente à vida, uma cidade em que a solidariedade a gente não acredita muito que exista, de repente com aquele monte de gente mobilizada pra salvar peixe e ave... foi emocionante. Essa história não é uma história do cisne, é daquelas pessoas tentando salvar uma vida.

Novo em Folha - Você foi lá já com a intenção de cobrir um foco específico ou para cobrir tudo?

LC - O Conrado [Corsalette] chegou muito cedinho lá, umas 6h, para acompanhar a abertura do parque. Quando o Kassab chegou, já era a minha vez de render o Conrado. Mas aí passei esse material para o Conrado e fiz o específico.

Novo em Folha - Quando você vai se pautar ou ser pautada, já escolhe essas matérias com esse enfoque?

LC - Eu cheguei na redação e propus passar aquela parte para o Conrado porque achei que isso [o específico] seria um bom diferencial do jornal, uma coisa que tem um olhar mais cuidadoso em cima de um fenômeno. Eles concordaram _se o [Rogério] Gentile, meu editor, não tivesse concordado, eu faria de outra maneira_ e por isso foi feito assim.

Novo em Folha - Dentro do texto tem expressões totalmente anticonvencionais, como o "óóóóóó uníssono" e "paulistano que é bom não sabe nada de natureza": você acha que isso cabe em qualquer matéria, pode ser feito por qualquer repórter?

LC - Não cabe em todo tipo de matéria. Essa era uma matéria de comportamento, necessariamente muito mais impressionista, quase que de descrição do que estava acontecendo. Obviamente não foi todo mundo que falou "óóóóóó", não era todo mundo que estava envolvido com o resgate daquele cisne, não é todo paulistano que não entende nada de natureza. Mas é quase como se você fizesse um retrato impressionista: você pega as cores mais fortes e faz um quadro com pinceladas rápidas. Mas se você precisa fazer uma matéria sobre uma concorrência que foi fraudada, não pode fazer um retrato impressionista, tem que fazer o menos impressionista e o mais detalhista possível.

Novo em Folha - E o que você pensa dos lides convencionais?

LC - O lide quem-que-quando-como-porquê é uma boa receita básica, mas não é a única de lide. Por exemplo, em revista, em que eles lidam com períodos mais largos, o lide é aquela coisa que captura a atenção do leitor. Não necessariamente responde a essas perguntas básicas, mas tem como função principal fazer com que o leitor entre na matéria. Eu acho que esse lide [da matéria dos cisnes] serve um pouco para esse fim, capturar um pouco a atenção, mostrar o cisne no meio daquele lago que estava morrendo, e contar uma história. Não é um lide convencional, mas é jornalisticamente plausível e bom, eu acho.

Novo em Folha - Como que você começou a desenvolver esse seu estilo de "pintar um quadro", quando percebeu que tinha esse talento especial?

LC - Não é um talento, não. Em texto de revista se usa muito isso, porque você precisa fazer muita descrição. Os jornais têm um jeito mais rápido de contar história; o jornal não tem muito tempo, nem espaço e muitas vezes nem interesse em fazer descrições de situações. É um outro jeito de você contar uma história: um fato a partir da forma como outras pessoas viram esse fato. Essa matéria do cisne é exatamente isso: como as pessoas viram aquilo. A forma como as pessoas veem uma cena não é objetiva, mas acaba integrando à objetividade que envolve esse fato. Um fato é aquilo que acontece e mais todas as interpretações sobre ele, não é isso? Quando você agrega ao material jornalístico como as pessoas viram, como reagiram, o que sentiram, você enriquece com uma dimensão a mais na descrição do acontecido. E isso as revistas fazem muito. Como eu trabalhei na Veja durante muito tempo, eu tive que aprender isso. E tem que entrevistar muitas pessoas.

Novo em Folha - Com quantas pessoas você conversou pra fazer essa matéria?

LC - Eu passei o dia inteiro conversando com as pessoas, o dia inteiro perguntando, falando, tentando ver. Acho que falei com mais de 30 pessoas. Cheguei às 11h e saí de lá umas 17h. Falei com funcionários, frequentadores, voluntários no resgate do cisne. Não tem "a" fonte, como nas matérias convencionais. Tem que ouvir um mooooonte de gente. E tem que prestar atenção no cara que fica quieto também.

Novo em Folha - Mas tem uma estratégia para achar bons personagens, como essa mulher que fica picando o miolo de pão?

LC - Não, tem que observar mesmo. Por exemplo, deixei de fora um personagem que se ajoelhou na entrada do parque quando começou a chover e ficou lá até a chuva passar. Eu deixei ele de fora, porque ele estava muito posando pra foto. Estava muito "performando" e eu não queria isso. Procurei personagens mais interessantes. O músico que eu citei não estava atuando, estava lá sensibilizado com a história.

Novo em Folha - Para lembrar disso tudo na hora de construir o texto, você usa as anotações, ou apela para a memória?

LC - Sabe o que eu tenho feito cada vez mais? Vou sempre com uma câmera. Quando eu vejo alguma coisa muito interessante ou que tem muitas dimensões ou muitos detalhes, eu sempre fotografo. Isso, quando eu vou escrever, me ajuda a lembrar e fazer descrições mais completas. Por exemplo, tinha lá tilápia, cascudo, e tinha o tal do mussum. Eu ia esquecer do tal do mussum, um peixe que parece uma cobrinha. Para não esquecer, fotografei. Eu anoto, mas às vezes a anotação não me chama tanto a atenção.

Novo em Folha - Há quanto tempo você já faz isso?

LC - De uns três anos pra cá eu tenho feito isso, ajuda muito a lembrar.

Novo em Folha - Já teve matéria que não teria saído sem uma foto, em que a foto foi essencial?

LC - Sabe que teve?, mas agora eu não vou lembrar....

Novo em Folha - Mas sua intenção inicial não foi publicar a foto no jornal, como aconteceu [ela saiu na capa]?

LC - Não, de jeito nenhum, nem pensei nisso. Como eu focalizei muito essa história do cisne, a [editoria de] fotografia tinha um material muito grande do vertedouro, do lago seco, mas do resgate do cisne eles tinham pouco material. Eu faço essas fotos mais para me armar na hora das descrições, esse é o espírito pra mim. O texto pode ser uma boa fotografia também, uma fotografia em movimento. Se a gente conseguir fazer o texto, em algumas oportunidades, como uma fotografia em movimento, agregamos informação para o leitor.


Aproveito este post para me despedir do blog. Continuarei contribuindo sempre que puder, como costumo fazer, mas agora com menos frequência que durante as últimas três semanas, já que não estarei mais aqui na editoria de Treinamento. Espero que tenham gostado da contribuição tanto quanto eu adorei participar Alegre

(CRIS)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h26

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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