exercício
Viagem ao passado
1932/Folha Imagem

Escolhi essa foto para o nosso exercício diário de legendas porque ela tem uma dificuldade a mais: o contexto não é tão claro para a maioria de nós.
Atenção leitores: a idéia não é adivinhar a legenda, mas pensar sobre o que é fundamental dizer ao leitor e o que não deveria ser escrito, por ser dispensável e redundante.
Todo dia pela manhã o blog publica uma foto para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??; 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?
Não tenha medo de arriscar. Como já dissemos antes, não há certo e errado em jornalismo. O que importa são os argumentos jornalísticos que você usa para justificar suas opções.
Veja aqui exercícios anteriores.

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Antes de falar sobre a legenda, respondo à dúvida do Paulinho: a foto foi mesmo publicada invertida, em 18/9/1932, na primeira página da então "Folha da Noite".
Na época do filme negativo, isso acontecia com alguma freqüência. Mesmo na era digital. Quando fui editora de Fotografia, no começo dos anos 90, escaneávamos negativos (tínhamos uma única câmera digital, de qualidade duvidosa). Mais de uma vez salvamos fotos de serem publicadas invertidas. Com certeza algumas passaram.
Agora, sobre a legenda: o tal jornal de agosto de 1932 só informa uma coisa sobre ela: "AS TROPAS MATOGROSSENSES".
O leitor da época entenderá que são tropas alinhadas às paulistas na força constitucionalista, que se opôs a Getulio Vargas e foi derrotada. Mas nem ele nem nós jamais saberemos ao certo o que aconteceu com o tal caminhão.
Minha pesquisa resultou apenas em descobrir que são soldados da cavalaria no front do rio Paranapanema. Para mim, parece que ele caiu numa vala e os soldados tentam içá-lo. Mas é puro chute.
A foto ilustra um perfil do "tenente Jardim", comandante das tropas matogrossenses, sob a vinheta "Figuras Heróicas do Exército Constitucionalista".
Como curiosidade, reproduzo um trecho, com a grafia original:
Poucos soldados se tornaram tão populares como o tenente Jardim, o bello official goyano que commanda a cavallaria de Matto Grosso.
(...) é também conhecidíssimo pelos adversários, que não perdem vaza de insultal-o, abrigados pelo parapeito das trincheiras.
-- "Tenente Jardim!" -- uivam, raivosos --" Vocês terão que beber comnosco!" --e segue o impropério usual.
O tenente responde com uma gargalhada crystallina, cavalga em piruetas, fugindo aos tiros que o visam, atira com perícia e grita:
-- "Temos aqui um cafezinho de ponta. Aqui vae o assucar em tablettes". E a F.M. despeja a metralha.
O que não dizer na legenda: soldados cercam caminhão.
Seria bom poder explicar o que, afinal, como e por que o caminhão está naquele lugar daquele jeito e o que os soldados fazem ali.
Se o "garboso" tenente Jardim está na foto, infelizmente, jamais saberemos.
P.S. - prometo que as fotos do fim de semana serão mais pop!

B Mathur/Reuters

A dificuldade da foto lá de cima é menos por ela ser de 1932 e mais por não estarmos familiarizados com as circunstâncias da imagem. Vejam por exemplo esta foto aqui, feita hoje, em Nova Delhi, na Índia.
Mostra dançarinos em frente ao Forte Vermelho, comemorando os 150 anos da primeira guerra de independência da Índia contra o Império Britânico.
Mesmo com essas informações básicas, falta contexto para entender direito a foto. Esse prédio que se vislumbra atrás das árvores, o tal Forte Vermelho, por exemplo, tem um significado que pode ser claro para os indianos: basta mencioná-lo e eles imediatamente saberão que é o lugar em que soldados empossaram o imperador indiano em 1957.
Para nós, já não basta mencionar o forte. É preciso uma expicação a mais.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 05h38
Dilúvios paulistanos
Felicio Safadi - 4.dez.1972/Folha Imagem
Essa foto faz parte do nosso exercício diário de legendas.
A idéia não é adivinhar a legenda, mas pensar sobre o que é fundamental dizer ao leitor e o que não deveria ser escrito, por ser dispensável e redundante.
Todo dia pela manhã o blog publica uma foto para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??; 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?
Veja aqui exercícios anteriores.
COMENTÁRIO NO MEIO DO DIA
A foto não animou muito hoje, né?
--Uai, é uma enchente numa rua. O que mais há pra dizer?
Primeiro, o que não dizer. Que "Caminhão e kombis tentam passar por rua alagada" --seria a chamada "legenda para cego".
Quer perguntas fazer? Uma óbvia é "onde?". Fundamental. Indispensável.
O Batista, da Bahia, e o Ricardo fizeram um ótimo raciocínio jornalístico: como a foto é de 72, será que este lugar ainda inunda?
É desse tipo de questionamento que surgem boas pautas.
Respondo: não inunda mais. E escolhi a foto porque ela tem alguma relação com a agenda papal de hoje.
Quem quiser pode tentar adivinhar onde é, mas o que eu espero mesmo são novas perguntas para a legenda!
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Além de onde, outra pergunta que eu faria imediatamente é "quando?". Como leitora, eu gostaria de saber a que horas foi (pra saber se poderia ter acontecido comigo, ou do que escapei...).
Mais algumas: os motoristas conseguiram seguir em frente? A que altura chegou a água?
Minha legenda seria mais ou menos assim: Enchente impede trânsito na av. Pacaembu (na algura da r. Veiga Filho) na tarde de ontem; água chegou a 1 metro de altura
Eu não pensei nas boas perguntas sugeridas por vocês sobre vítmas etc., porque imaginei, erradamente, que, se houvesse vítimas, a foto deveria ser mais dramática.
Agora vejam a que saiu no jornal: "Avenida Pacaembu alaga devido à chuva, que destruiu toda uma favela na zona sul de São Paulo e deixou um morto no Jabaquara".
Por que será que não publicaram a foto da favela destruída, então?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h20
Vai que é sua
Ormuzd Alves - 7.jul.1998/Folha Imagem

Só para lembrar, o exercício é pensar numa legenda para esta foto. Não é "adivinhar" a legenda. Para fazê-la, você precisaria de informações que não aparecem só de olhar para a imagem. O que estou sugerindo é que pensem sobre o que seria fundamental dizer ao leitor e o que não deveria ser escrito, por ser dispensável e redundante.
Todo dia pela manhã vou pôr uma foto no blog para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??; 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?
Veja aqui o exercício de ontem.
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Todo mundo está vendo que o sujeito é um goleiro (está de luvas) pulando para defender. Então isso não precisa ser escrito.
Mas o nome do sujeito deve estar na legenda. Neste caso, nem todo mundo sabe que é o Taffarel. Mas, mesmo que soubesse --que fosse o Pelé, digamos--, o padrão é que a legenda identifique as pessoas.
Minhas perguntas (e a de vários de vocês) são: ele conseguiu defender? Era um momento importante da partida? Ele ter defendido essa bola mudou a história do jogo? Aconteceu algo nessa jogada (por exemplo, ele se machucou, foi expulso, bateu algum recorde, sei lá?)?
Antes de dar a legenda, um aparte: não me canso de me surpreender com a memória e o conhecimento de quem gosta de futebol. Eles sabem datas, nomes, detalhes, tudo de cor. É um verdadeiro fenômeno.
Ricardo e Felipe passaram perto:
Na decisão por pênaltis contra a Holanda, o goleiro Taffarel defende chute de Phillip Cocu, antes de pegar também o pênalti batido por Ronald de Boer e levar a seleção à vitória; com o resultado, o Brasil conquistou o direito de disputar sua sexta final de Copa, em busca de seu quinto título mundial
-- Mas tá muito grande! Uma legenda dessa não cabe no jornal!
Sim, a Renata tem razão. Uma proposta mais curta, então:
Taffarel defende pênalti de Phillip Cocu e ajuda o Brasil a se classificar para sua sexta final de Copa
Vale?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h29
A 1001ª palavra
Fábio Salles - 25.fev.1975/Folha Imagem

Em abril, o leitor Luiz Baleotti me pediu que falasse sobre legendas. Demorei, porque o assunto pede fotos.
Há uns dez dias, o saguão da Folha virou uma miniexposição de algumas das melhores imagens da história do jornal --melhor impossível para nossa conversa.
Começo hoje, então, um exercício diário de legendas. Todo dia pela manhã vou por uma foto no blog para vocês refletirem, e todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale); 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (por isso é a 1001ª palavra).
Na imagem de hoje, o que você vê? Um homem que caminha pela calçada, certo? Então sua legenda jamais poderá ser "Fulano caminha".
E que perguntas você faz?
Uma óbvia: quem é ele? É o pintor Alfredo Volpi.
Quais são as outras perguntas?
Conto quais são as minhas neste mesmo post, no final do dia.
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Vocês levantaram várias perguntas, todas pertinentes.
As primeiras são as clássicas quem, o que, quando, onde, por que, como, para quê.
Com informações sumárias, a legenda ficaria assim: O pintor Alfredo Volpi passeia no Cambuci, São Paulo.
Ela diz "quem, o que e onde", mas diz pouco, não é?
Quando vi essa foto na exposição, minha primeira pergunta foi: qual é a informação? OK, o Volpi está andando na rua, mas "e daí?", que importância tem isso?
Pensei que com certeza a resposta deveria estar no "onde" (esse lugar é especial por algum motivo? há algo a ver com as pichações?) ou, quem sabe, no "por que/para que" (está indo a algum lugar especial?). Talvez até no "como" --alguém perguntou aqui por que ele está curvado, se está triste, se desencantado.
Fui ler a legenda e descobri que, na verdade, o principal estava no "quando":
O pintor Alfredo Volpi passeia perto de sua casa no Cambuci, indiferente à inauguração, naquele mesmo dia, de um grande painel que reproduzia uma obra sua na rua da Consolação
Notem que é uma legenda impossível de fazer se o fotógrafo não ajudar (explicando, por exemplo, que era um passeio, não uma "ida" a algum lugar específico). Também é impossível de ser feita sem que o redator conheça o contexto (palavra-chave, como vimos, em jornalismo).
Ah, alguns de vocês sugeriram legendas para as fotos. Só pra esclarecer, o objetivo aqui não era "acertar" a legenda, pois isso seria impossível só de olhar para a foto. Este exercício propõe principalmente que vocês pensem sobre que informações a legenda deveria ter.
Amanhã cedo tem mais.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h00
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