O repórter Walt Bogdanich, do New York Times, deu uma boa entrevista ao Reynolds Center for Business Journalism sobre como ele cava pautas e convence as fontes a falar. Confira:
Pautas
"Se você ler seu próprio jornal, vai encontrar todo tipo de deixas na reportagem que o repórter original não teve tempo de ir atrás."
Segundo ele, essas pautas geralmente não empolgam de caa os editores. "Elas costumam estar em algum canto obscuro", diz, acrescentando que geralmente são assuntos de que não se está falando num dado momento.
(Você pode olhar esses assuntos de dois jeitos: 1. "ninguém quer saber disso"; 2. só você percebeu, então pode ser um furo em potencial.)
Fontes
"Todo mundo tem um motivo pra falar com você. Você precisa sacar qual é esse motivo."
(Geralmente, é alguém que está descontente com a situação. Quanto mais próximo dela, mais informação ele tem.)
E quando é a hora de ir atrás das fontes? Segundo Bogdanich, é logo no começo do projeto. Mas como evitar queimar a pauta?
"Seja honesto, mas não seja muito específico", disse ele. Se você abrir muito a sua pauta logo no começo, pode ser acusado de desonestidade caso a pauta evolua em outra direção - o que é bastante comum.
Um benefício disso é que os contatos iniciais podem trazer declarações em on que mais tarde podem ser reveladas como falsas. E isso lá é bom? Pra ele, é.
“Eles podem se enforcar com suas próprias palavras", disse.
Olho no sistema
Este é um ponto importante. Sempre que aparece algum escândalo de corrupção, o foco fica num caso só ou numa pessoa. Mas geralmente há todo um sistema de incentivos e ralos que permite que casos assim aconteçam. E geralmente também não é um caso só: vários casos aproveitam esse ralo.
Nas palavras de Bogdanich: "olho na cesta, não na maçã".
"Nunca é culpa de uma pessoa só", diz ele, lembrando que entender por que alguém fez alguma coisa errada é tão importante quanto o que foi feito de errado.
O congresso da Abraji vai ter uma palestra muito útil para quem cobre crimes e no mínimo curiosa para quem é apenas fã de seriados tipo CSI: "DNA, o avanço das investigações policiais".
Segundo o programa, um representante da empresa Life Technologies apresentará as novas técnicas de investigação policial com DNA aplicadas nos EUA e um representante do Center on Media, Crime and Justice (vinculado à Universidade da Cidade de Nova York) falará do preparo necessário para jornalistas policiais do século 21.
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Se você não cobre polícia mas é curioso por investigações policiais, lê bem em inglês e curte quadrinhos, recomendo o livro "The Forensic Files of Batman".
Doug Moench, que escreveu boas histórias do Batman nos anos 80, mergulhou em livros de medicina legal e escreveu este livro como se fosse um diário do Homem-Morcego. Com casos fictícios, mas com técnicas e macetes reais, Moench guia o Batman através de vários aspectos do crime. O capítulo mais intrigante, pra mim, é um em que o herói tenta descobrir quanto tempo um cadáver ficou no rio antes de ser resgatado.
Foi mais ou menos isso o que o Washington Post pediu hoje aos seus leitores.
O jornal obteve 24 mil e-mails de Sarah Palin, a ex-candidata a vice-presidente. Ela foi governadora do Alasca, e por isso repórteres dos EUA solicitaram acesso às mensagens que ela enviou e recebeu entre o início de 2007 e setembro de 2008, quando passou a se dedicar à campanha presidencial. Para isso, usaram o Freedom of Information Act - a lei que regulamenta o acesso de qualquer cidadão a informações públicas desde 1966.
O chefe do Judiciário do Alasca concedeu o pedido, declarando que as mensagens eram de interesse público e portanto deveriam ser entregues. Elas chegam às mãos do Post amanhã.
Deve ter coisa boa aí. O problema: como é que mesmo uma redação do tamanho da do Washington Post vai conseguir ler 24 mil emails?
Uma possibilidade é fazer como o New York Times e o Guadian fizeram no caso do Wikileaks e cobrir aos poucos, conforme o detentor vai revelando.
A forma encontrada pelo Post para isso foi abrir uma seleção para convidar apenas 100 leitores, que trabalharão em grupos pequenos para ler as mensagens. O resultado disso deve aparecer nos próximos dias.
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E aqui no Brasil?
Imaginem a sucursal da Folha em Brasília conseguir acesso ao acervo dos e-mails do Palocci, pra pegar um caso recente. Lindo, né?
Só que por ora isso ainda é ficção científica por aqui.
O Senado ainda está enrolando para aprovar a lei de acesso a informações públicas. Então, imagino que meus netos talvez tenham acesso aos emails do presidente.
Na Suécia, que tem lei de acesso desde 1766, os e-mails de autoridades são considerados documentos públicos desde 1998.
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A propósito, não se enganem: a moça da foto é apenas a comediante Tina Fey fazendo papel de Sarah Palin.
Na semana passada, falei aqui no blog sobre como os jornalistas dos EUA usaram recursos digitais pra cobrir os desastres causados por um tornado.
Você sabe que, no Brasil, as chuvas têm data marcada para pegar os governos de surpresa, no inverno e no verão. Exatamente por isso, cobrir desastres causados por fatores ambientais é cada vez mais importante.
O professor Carlos Eduardo Lins da Silva enviou ontem um manual da ONU para a cobertura de desastres (baixe o PDF, em inglês).
Segundo o manual, o primeiro cuidado é não tratar esses casos como "desastres naturais" (como os governos adoram fazer).
É fato que ninguém controla a violência das intempéries, mas também é fato que o diferencial entre um transtorno e um desastre costuma ser o preparo dos governos no meio do caminho para reduzir os riscos.
O Editors Weblog tem apenas um reparo: o manual da ONU é excelente na questão estrutural, de compreender causas e fatores, mas não trata de como lidar com a tragédia humana nessas horas.
Para melhorar sua cobertura desse aspecto, eu recomendaria a área de desastres do Dart Center for Journalism and Trauma. Eles são especializadíssimos nisso. No ano passado, tive a honra de dar apoio a uma palestra do Bruce Shapiro sobre o assunto, no congresso da Abraji.
A fotógrafa brasileira Adriana Zehbrauskas é uma das três fotojornalistas cujo trabalho é mostrado no documentário "Beyond Assignment", produzido pelo Knight Center for International Media, da Universidade de Miami. Ela, Gali Tibbon e Mariella Furrer trabalham em lugares complicados: México, Israel e África do Sul, respectivamente.
A estreia do documentário ocorrerá durante uma oficina de fotojornalismo em Buenos Aires, agora em julho (as inscrições ainda estão abertas). Adriana será uma das ministrantes. Se você tem interesse em fotojornalismo, vale muito a pena: essa oficina acontece a cada ano num país diferente.
Poucas coisas no mundo são tão maçantes (e por vezes frustrantes) quanto ler textos de leis. O palavreado pomposo. Aqueles símbolos que parecem cobrinhas brigando e indicam parágrafo. Incisos. Remissões. No entanto, é exatamente esse gongorismo que esconde as piores pegadinhas incluídas na lei por nossos caríssimos representantes. É preciso ler com lupa. Só praticando é que se pega o jeito.
O professor Gustavo Romano agora começou a postar vídeos didáticos em seu blog, o Para Entender Direito. E o primeiro deles é justamente sobre como ler uma lei:
Você já tem seu próprio negócio digital no jornalismo e pensa em melhorá-lo?
Se pensa, o Poynter Institute está oferecendo de graça, em agosto, um seminário presencial nos Estados Unidos sobre o assunto. Se você for um dos selecionados, só precisará pagar suas despesas com a viagem. A hospedagem é por conta do seminário.
A inscrição é até dia 15 de junho, e você pode conhecer mais detalhes sobre o seminário neste site.
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