Um serviço ao leitor que mereceu um prêmio
A matéria acima, publicada no "Agora" do dia 8/3/2009, ganhou o Prêmio Folha de Jornalismo 2009, na categoria serviço.
Os repórteres JULIANA COLOMBO e JUCA GUIMARÃES percorreram todos os 27 postos do INSS em São Paulo e registraram os problemas encontrados em cada um deles. Na verdade, fizeram um verdadeiro raio-X do atendimento aos aposentados na capital, colocando os endereços, o tempo que demoraram para serem atendidos, os horários de funcionamentos das agências, os problemas encontrados e os diferenciais. Dividiram tudo por regiões e montaram uma arte gigantesca, que certamente facilitou a vida de vários leitores.
Conversei com a repórter Juliana sobre a produção desse trabalho premiado. Ela tem 27 anos e esteve por um ano no "Agora", onde também recebeu um prêmio da Abecip por uma guia da casa própria que fez. Antes, trabalhou na revista Serafina, da Folha, e estudou em Londres.
Novo em Folha - Como foi a ideia da pauta?
Juliana Colombo - O "Agora" tem cada vez mais investido em pautas que demandam mais apuração, naquelas em que o repórter fica dias fuçando, são as chamadas especiais. O dia-a-dia da cobertura de Previdência Social, carro-chefe do jornal, nos permitia ir a alguns postos do INSS eventualmente, para checar, por exemplo, na prática, se a aposentadoria por idade em 30 minutos estava ocorrendo de maneira correta. Pois bem, foi numa dessas reuniões de especiais que eu tive a ideia de fazer um raio-x de TODOS os postos do INSS na capital. Iria olhar desde instalações, até perguntas-chave aos servidores, para saber se eles estavam a par de instruções normativas recentes, etc.
NF - Vocês fizeram algum planejamento, para dar conta de tantos postos?
JC - Bem, os postos abrem das 7h às 17h, então eu tinha duas semanas livres do dia para tentar ir a todos. Digo tentar porque eu não interferi no andamento, ou seja, como não sou idosa, ficava esperando na fila com senha comum, não preferencial, o que, às vezes, me tomava três a quatro horas em cada posto. Assim, tinha dia que conseguia ir a cinco postos de uma vez. Em outros, a apenas dois.
NF - Você e o Juca se dividiram de alguma forma?
JC - O colega Juca, feríssima no assunto, me ajudou quando foi fazer algumas outras pautas em determinados postos, onde ele acompanhava alguns casos. Ele aproveitou e colheu as informações necessárias para esta pauta. A visão dele é muito apurada, ele cobre há muito tempo o assunto e trocamos muitas figurinhas. Aliás, ele que me deu o toque de que essa matéria poderia valer o prêmio Folha! Ele é um grande jornalista, e grande parte do que aprendi de Previdência devo a ele.
NF - Houve dificuldades práticas? Seguranças tentando impedir a apuração de vocês etc?
JC - Sim, várias. Primeiro estranharam por que eu, de 27 anos, estava numa fila do INSS. Não fomos identificados como jornalistas, fomos como segurados normais da Previdência. Ninguém sabia que estavamos a trabalho. Levamos mochilas com metais para ver se as portas apitavam e detectamos que a maioria nem funcionava. Ou seja, um desperdício de dinheiro público, já que as portas foram colocadas a fim de evitar que algum segurado descontente tentasse algo contra os médicos peritos. Muitas vezes, esses médicos suspendem o auxílio-doença do segurado e ele tem de voltar a trabalhar. Na visão de muitos deles, não estão aptos ao retorno, por isso foi preciso colocar as portas; já houve casos de mortes de peritos. Mas a maioria não funciona, não apita e foram poucos os postos que pediram para revistar a minha mala ou colocar os pertences em uma bandeja.
Outra dificuldade foi a espera. Há fila para a senha, depois fila para o atendimento. E, se você não tem hora marcada, fica muito tempo no posto. É preciso reconhecer que o atendimento 135 e o pela internet facilitaram muito a vida do segurado, que pode agendar suas perícias e atendimento por esses canais. Mas muitos idosos preferem ir direto, com toda a sua documentação.
NF - Que tipo de retorno você recebeu depois?
JC - O ministro da Previdência, José Pimentel, mandou email parabenizando a reportagem. Logo após visitar os postos, mandei um relatório sobre tudo o que vi para a gerência do INSS em São Paulo e em Brasília. Isso foi crucial, trata-se do "outro lado". Questionei por que os detectores de metal não funcionavam, por que havia postos com banheiros em manutenção há meses, etc. Segundo o ministro, a matéria foi impressa por todas as gerências mencionadas para que sanassem os problemas apontados. Leitores também mandaram cartas e emails. Isso porque a gente deu o horário de funcionamento dos postos, o que cada um oferece e as condições em que se encontravam. Ou seja, poupou muito esforço para muitos deles.
NF - Você gostava de fazer matérias de serviço, que muitas vezes são o "patinho feio" para os jornalistas? Quais outras bacanas como esta você fez?
JC - Gostava e muito! São mais "braçais", mas o resultado, com o leitor, é sensacional. Principalmente em um jornal popular como o "Agora". Temos de facilitar a vida dele, dar tudo "mastigado". Por exemplo, resultado de reunião do Copom, a gente tinha de fazer as contas e ver o quanto a prestação da geladeira do leitor ia ficar mais baixa ou alta, sabe, explicar, na prática, o que as decisões econômicas e políticas significam e impactam na vida dele. Gostava muito de fazer reportagens sobre habitação.
Outra que me lembro, muito polêmica também, foi quando entrevistei pessoas na fila da Cohab, em São Paulo. O programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, tinha acabado de ser anunciado e, quando se fala em casa própria, as pessoas ficam desesperadas. Você está lidando com sonho. E como, pelo programa, as famílias que ganham até 3 salarios mínimos tinham de se cadastrar, formavam-se filas imensas na porta da Cohab.
Fiz também liquidações de início de ano, como a tradicional do Magazine Luiza, em que as pessoas também ficavam na fila para as promoções, na madrugada. Cada história.... E aí, aproveitávamos para dar um serviço bacana, como, por exemplo, dizer para o leitor não se endividar, procurar juntar durante todo o ano para pagar tudo à vista, nessas ocasiões. Assim não gasta mais do que pode e não acaba com suas finanças.
NF - Acha que esta foi uma das mais importantes que você fez?
JC - Sem dúvida, foi uma das que tiveram mais impacto. Afetou muita gente. E eu não podia mais voltar aos postos, porque muitos servidores já me reconheciam. Se eu tinha falado bem daquele posto, ótimo, era bem recebida. Mas, se não, olhavam feio e até reclamavam, falando que o jornal é sensacionalista. Como repórter, foi muito bacana fazer, pé na rua, contato com as pessoas, ouvindo cada história sofrida e, de alguma forma, modificando o cenário a minha volta...


Por falar em perguntas embaraçosas, acabo de ver uma entrevista com o filósofo Bertrand Russel --já entrado em anos-- na qual a entrevistadora faz a seguinte pergunta:





