O furo do imposto de renda

Na quinta-feira passada um monte de leitores da classe média ficou sabendo que poderia ter sua restituição do imposto de renda atrasada para o ano que vem. Uma medida que afeta diretamente a vida de muita gente porque há quem conte com a restituição para pagar diversas contas, e muitas vezes antecipa esse pagamento por meio de empréstimos bancários.
Quem deu o furo, que colocou o presidente Lula e o ministro Guido Mantega (Fazenda) em saia-justa, foi o repórter da sucursal de Brasília LEONARDO SOUZA.
Ele topou contar para os leitores como foi a apuração, em respostas enviadas por e-mail:
Novo em Folha - Como você descobriu que as restituições do IR estavam sendo atrasadas por ordem do Ministério da Fazenda?
Leonardo Souza - Na terça-feira, publiquei uma reportagem sobre uma operação-piloto da Receita contra fraudes em deduções do IR, praticadas sobretudo pela classe média para aumentar as restituições do imposto.
Um dia antes (segunda-feira), numa conversa com a chefia da sucursal, debatemos possibilidades de suítes para essa matéria. Fui então verificar como estavam as restituições do IR neste ano. Levantei os números e percebi que havia uma queda significativa em relação aos valores de 2008.
Como tenho familiaridade com assuntos da Receita, achei que a queda estava relacionada a decisão de governo (por ter sido muito forte, sem razão técnica aparente para tanto). Liguei para uma fonte do governo e perguntei "off the record" [em inglês, literalmente, fora de registro. No jornalismo, indica que a fonte não quer ser identificada ou não quer que a informação seja publicada] se sabia a razão da queda das restituições. Ele disse que não tinha informação precisa, mas sabia que era ordem vinda do Tesouro. Parti então para uma segunda fonte, que falou a mesma coisa, mas sem dar detalhes relevantes. Acionei então uma terceira fonte da equipe econômica, que tinha participado das discussões sobre o tema. Essa terceira fonte não só sabia toda a história, como dispunha de números e documentos. Tive então a segurança necessária para bancar a matéria, sendo grande parte off.
NF - Quanto tempo você levou desde que recebeu a primeira pista a respeito até a conclusão da reportagem?
LS - Três dias, entre segunda e quarta-feira.
NF - Essa reportagem exigiu muita pesquisa sobre os históricos das restituições, ou este é um assunto que você já acompanha de perto e domina?
LS - Eu acompanho assuntos da Receita de um modo geral já há alguns anos, portanto não tive muita dificuldade para apurar esse caso, principalmente pela ajuda que tive de algumas fontes.
NF - Foi a primeira vez que isso ocorreu ou havia precedentes em governos passados?
LS - Houve discussões sobre essa possibilidade no governo passado e no atual, mas até onde eu sei não chegaram a ser postas em prática da forma como ocorreu agora.
NF - O governo devia saber que uma ordem como essa acabaria sendo descoberta, mas, pela escapada do Augustin e da assessoria de imprensa, você teve a impressão de que eles achavam que tudo passaria em brancas nuvens?
LS - Não dá para saber ao certo. Minha impressão é que eles se fingiram de morto, apostando que ninguém perceberia.
NF - Em algum momento da apuração ou da repercussão houve algum tipo de pressão por parte de alguém do governo para deixar pra lá?
LS - Não houve nenhum tipo de pressão. Nenhum tipo de tentativa de interferência
NF - Como na primeira matéria você não conseguiu confirmação de ninguém do governo, ela ficou toda respaldada por fontes off. Quando você sente que pode confiar em uma fonte a ponto de assumir toda uma matéria a partir do off dela?
LS - Normalmente a gente não banca matéria off com só uma fonte (nesse caso foram três). Mas quando o repórter conhece a fonte há muitos anos, quando o interlocutor domina o assunto ou participa diretamente das decisões sobre o tema abordado, é possível publicar uma informação com base em uma só fonte. Não há fórmula precisa, depende do assunto, da fonte, se há documentos para embasar o off... São muitas variáveis que têm de ser levadas em consideração pelo repórter.
NF - Você vem cobrindo essa área do governo há muito tempo? Você acha que um repórter inexperiente, que recebesse essa pista de bandeja, conseguiria apurar a história toda sozinho?
LS - Todo repórter novo sempre pode dar bons furos e deve persegui-los (dois exemplos, FELIPE SELIGMAN e LUCAS FERRAZ. O primeiro deu um importante furo neste ano sobre doações de imobiliárias para políticos, driblando a lei em vigor. O segundo deu vários furos sobre os gastos de membros do governo com cartões corporativos. Citei só dois exemplos que lembro de cabeça).
Nesse caso específico das restituições do IR, a experiência de alguns anos de cobertura de Receita foi importante. De duas formas: captar os sinais dados pelos números (a queda acentuada não tinha aparente explicação técnica, logo deveria ser decisão de governo) e ter fontes para checar e obter informações para embasar a matéria. Talvez um repórter mais novo tivesse um pouco mais de dificuldade para apurar a história, mas não quer dizer que não pudesse colocá-la no jornal.
A Folha incentiva e valoriza a busca pelo furo. Bancar uma reportagem off como essa não é uma atitude isolada do repórter, mas de todo o jornal. Publicar como manchete, mesmo sendo um assunto de grande incômodo para o governo, um desgaste para a imagem do Ministério da Fazenda e do Palácio do Planalto, é uma decisão de valorizar o furo.
As matérias que mencionei do Felipe e do Lucas tiveram chamadas assinadas na primeira página. Ou seja, a experiência ajuda, é importante, mas o empenho do repórter em trazer matérias exclusivas para o jornal é o fator preponderante.
NF - Como você se prepara para cobrir administração pública?
LS - Antes de cobrir a administração pública, fui repórter de economia por muitos anos. Fiz cursos de matemática financeira, Bolsa de Valores, contabilidade e até um MBA incompleto em finanças, entre outros. A base do conhecimento em economia me ajuda muito nessa área de investigação, pois me facilita interpretar números, entender operações financeiras usadas para desvio e lavagem de dinheiro e, acima de tudo, para conversar com fontes de perfil mais técnico.
NF - Quais cursos ou outras formas de preparação você recomenda ao repórter que pretende investigar os meandros da administração pública em Brasília?
LS - Considero muito útil para quem quer investigar a administração pública ter conhecimentos de economia. O primeiro caminho é desenvolver o hábito de ler os cadernos de economia (a começar por Dinheiro). Livros e cursos são também muito importantes.
NF - Você já havia feito uma reportagem que afetasse a tantos leitores ao mesmo tempo, um furo de tamanhas dimensões? Pode comentar experiências anteriores de furos que você deu?
LS - Considero esse furo importante não só pela repercussão que teve nos outros veículos de comunicação, mas por ser um tema que diz respeito à grande maioria dos nossos leitores. Um assunto fácil de ser compreendido por boa parte de população.
Há ainda outro tipo de furo, que, além de mobilizar o leitorado, tem também um impacto institucional.
Foi o caso da entrevista que eu e a ANDREZA MATAIS fizemos com a Lina Vieira, a ex-secretária da Receita Federal, em que ela relatou que a ministra Dilma Rousseff a tinha chamado para uma reunião no Planalto e pedido a agilização de auditoria do fisco nos negócios da família de José Sarney.
Ou as matérias que eu e a MARTA SALOMON fizemos no ano passado sobre o dossiê montado na Casa Civil com gastos pessoais do ex-presidente FHC. Apesar de a primeira reportagem sobre o assunto não ter sido da Folha (foi da "Veja"), foi um de nossos furos que provocou a abertura de inquérito pela PF – conseguimos uma cópia digital de um arquivo da Casa Civil, provando que o dossiê foi de fato montado dentro do Planalto pela equipe da ministra Dilma.
Ainda em 2008, publiquei matérias exclusivas sobre notas frias e empresas fantasmas contratadas pela campanha de José Serra à Presidência em 2002. O governador também teve que dar explicações sobre o caso.
Neste ano, eu e o ADRIANO CEOLIN fizemos a reportagem sobre a casa do Agaciel Maia que ele escondeu da Justiça colocando-a no nome de um irmão. Essa matéria, sobre um personagem desconhecido do público, causou a queda de Agaciel da direção-geral do Senado (onde estava fazia 14 anos) e serviu como estopim para toda a crise do Senado.
É difícil dizer qual matéria foi mais importante.
Adendo de quinta: foi graças ao furo do Leonardo que hoje (uma semana depois da publicação, portanto) podemos ler a seguinte manchete: "Governo recua e diz que vai restituir IR em 2009". Como bem disse o repórter, é difícil saber qual de seus trabalhos teve impacto maior, mas certamente este provocou um resultado de grandes dimensões e que afeta muita gente

Meu leitor M. comenta: "Um dos conselhos que mais ouço dos mais experientes é: "faça e mantenha contatos". Mas, o que é necessariamente manter contato? Mandar parabéns no aniversário, feliz natal e feliz ano novo? Só isso é suficiente? Ainda não consegui entrar no mercado e por isso não me acho um contato muito vantajoso para jornalistas experientes. Como posso reverter isso?











