Um repórter na crise de Honduras

Fotos: Fabiano Maisonnave/Folha Imagem
O repórter FABIANO MAISONNAVE acompanha a crise em Honduras desde quando ela estourou, com a expulsão de Manuel Zelaya em 28 de junho. E já está na Embaixada Brasileira desde o dia 25 de setembro, ou quatro dias após a chegada do presidente deposto ao território brasileiro.
A cobertura da crise em Honduras é de matar de inveja qualquer jornalista, porque reúne todos os principais ingredientes de uma boa notícia: surpresa, imprevisbilidade, tensão, disputas políticas, acirramento, desentendimentos diplomáticos, um golpe que remonta a acontecimentos históricos recentes no continente e a inusitada participação do Brasil no caso.
Por tudo isso, achei que uma entrevista com o repórter da Folha seria ótimo para este blog.
Ele está lá com outros nove jornalistas, mas apenas mais um de veículo brasileiro (Grupo RBS). E me respondeu às seguintes perguntas por e-mail:
Novo em Folha - Você mencionou em matérias e no blog que bloqueadores de celular te impedem de acessar a internet e fazer ligações normalmente. Além disso, sofreu furtos e passa por diversas dificuldades técnicas e de conforto no trabalho. Já havia trabalhado em situação parecida? Como está fazendo para driblar essas dificuldades e seguir enviando pelo menos dois textos diários da embaixada?
Fabiano Maisonnave - A situação é inédita para todo mundo que está aqui dentro. O confinamento proporciona duas vantagens incríveis: neste momento, Zelaya, obviamente, está no centro da notícia. Em geral, isso o tornaria quase inacessível, mas o fato de estar encerrado na casa com apenas dez jornalistas facilita muito.
Além disso, o ambiente é de uma grande riqueza jornalística: uma embaixada brasileira sitiada militarmente há vários dias com um presidente deposto acompanhado por dezenas de pessoas.
A riqueza de material deixa em segundo plano as dificuldades do dia, como comer e dormir bem ou conseguir uma boa conexão de internet. Sem contar o fuso horário, com três horas a menos que o Brasil. Há um pouco de sacrifício, mas não é o importante.
NF - Você disse no blog que poderia sair da embaixada quando quisesse, mas, se saísse, conseguiria retornar sem problemas? Já havia passado por cobertura com esse grau de tensão?
FM - Se saísse, não teria garantias de voltar, por isso decidimos ficar. Algumas vezes é tenso, mas já vivi momentos piores. Entre 2002 e 2003, sofri duas ameaças de morte, quando era correspondente em Campo Grande (MS).
NF - Você toma alguma medida de segurança? Chegou a ter medo de uma possível invasão da embaixada?
FM - A minha avaliação é que a embaixada nunca esteve a ponto de ser invadida. O cerco visa mais uma pressão psicológica, mas acabou favorecendo Zelaya – concordo com o chavão de que, em política, o melhor papel é o da vítima. Com tantos policiais e militares, acho que estou num dos lugares mais seguros do mundo.
NF - Como conseguiu entrar na embaixada? Foi fácil? Havia quantos jornalistas lá quando entrou?
FM - Entrei por meio de contatos no governo interino, realizados quando vim aqui pela primeira vez e fiquei por 40 dias. Havia dez jornalistas, dois da AP, um da Reuters, um da AFP, uma repórter de uma TV salvadorenha, três da Telesur, um da rádio Globo hondurenha e um do site "Democracy Now".

NF - Os dez jornalistas que estão na embaixada se ajudam de algum modo? Como evitar que os concorrentes da RBS e da Globo interfiram em seu trabalho, ou que vocês formem um "pool" involuntário?
FM - Há uma clara divisão aqui: os jornalistas da rádio Globo e do "Democracy Now" acabaram se transformando em assessores de Zelaya, são engajados e inclusive dormem separados de nós. O outro grupo faz tudo junto: come, dorme, conversa e joga Monopoly. A minha grande ajuda tem sido via Telesur, via Adriana Sivori. E a ANA FLOR me mandou tanta coisa no sábado que posso ficar aqui por mais um mês!
A casa é grande o suficiente para que eu não tenha de trabalhar ao lado do Rodrigo, da RBS. A Globo só ficou umas poucas horas aqui.
NF - Como é o contato dos jornalistas com as outras pessoas da casa? E com o Zelaya? Você também sente dificuldades de conseguir informações importantes para sua matéria, apesar da proximidade com os personagens-chave?
FM - O contato é às vezes muito tenso. Uma vez, a mulher de Zelaya, Xiomara, quis a minha saída da casa, mas isso é uma longa história. Zelaya, apesar de três anos e meio como presidente, entende muito pouco qual é o papel da imprensa, e os seus assessores, menos ainda. Num dia, reclamou de uma foto da AP e pediu "apoio e colaboração" aos que estávamos na casa. Mas ele fala conosco sempre quando pedimos.
CLIQUE AQUI para ver um relato de tensão vivida pelo Fabiano hoje.
NF - Como fazia para apurar as outras questões de Honduras, estando confinado dentro da embaixada e antes de a ANA FLOR chegar? Vocês dois conseguem se comunicar satisfatoriamente para combinar pautas e trocar informações?
FM - A apuração era muito difícil, ligava para colegas do lado de fora e algumas fontes, mas a ligação quase sempre se cortava. Um recurso importante era o envio de despachos de agências desde a Redação. Não temos TV; rádio, só ouvi uma vez.
Com a chegada da Ana Flor, a cobertura melhorou muito, estamos sempre em contato por telefone ou e-mail.
NF - Você está há vários dias confinado com um grupo que representa apenas um dos lados da crise. Como fazer para se manter isento e não deixar que a política contamine seu olhar sobre os fatos?
FM - Dá para acompanhar razoavelmente o que acontece dos dois lados. A proximidade aumenta o grau de intimidação, mas não de empatia, pelo menos no meu caso. Zelaya e seus seguidores acham que jornalismo é uma forma de propaganda partidária, tem de ser abertamente a favor ou contra. Mas a imprensa hondurenha é mais ou menos assim mesmo.
Por isso, é uma vantagem cobrir dentro de uma embaixada do Brasil. Se Zelaya estivesse na embaixada de outro país, seria muito mais complicado, acho que eu já teria sido expulso. Ou nem teria entrado.

NF - Você também já escreveu sobre a rotina dos visitantes da embaixada. Como é a sua rotina? Você também precisa colaborar com a organização da casa?
FM - A minha rotina é: acordar (ser acordado é mais correto) lá pelas 5h30, ouvir um pouco de música para relaxar, depois guardar os colchões com os colegas, tomar café da manhã (geralmente, café e Gatorade quente com biscoito) e trabalhar. A comida vem uma vez por dia para nós, de forma que o almoço vira janta. Ou, quando atrasa, a janta vira almoço. Nós, jornalistas, procuramos cuidar da nossa sala, mas é impossível, é meio que um corredor.
Uma das minhas funções informais é de "assistente de chancelaria": muitas vezes, sou a ponte entre os hondurenhos e os jornalistas e o Lineu de Paula, o diplomata brasileiro de plantão aqui. Isso inclui até pedir o banheiro emprestado.
NF - E como você se organiza para pensar nas pautas e executá-las? Recebeu orientação do jornal para trazer o máximo de observação para os textos? Como é se colocar como personagem de um texto (por exemplo, ao dizer que teve a toalha furtada)?
FM - As pautas dependem muito do dia, principalmente no começo, havia muita imprevisibilidade. Claro, uma das prioridades é contar como se vive aqui dentro, havia muita curiosidade no início, principalmente sobre a situação da embaixada.
Sobre ser personagem, não estou gostando, mas foi inevitável nesta cobertura. Costumo dizer que prefiro ficar atrás, e não na frente das câmeras. "Virar notícia" é bastante incômodo para um jornalista e, quase sempre, não é um bom sinal.
NF - Você disse no blog que não gosta de blogs nem de blogueiros e ainda está tateando nesse novo mundo virtual. Ficou surpreso com a quantidade e o teor dos comentários? Os leitores te ajudaram de alguma forma – com o feedback, as críticas, sugestões de pautas etc? O que está achando desse novo mundo, em que você recebe toda a repercussão de seu trabalho em cima da hora?
FM - Fiquei surpreendido com o feedback. Acho que tive mais comentários nestes dias do que recebi cartas em oito anos de Folha. Há muitos comentários excelentes, que ajudam muito, muito a nortear a cobertura, e também tem gente bastante raivosa. Não sabia que era assim, confesso que nunca enviei nenhum comentário sequer a um blog.
Mas estou gostando deste bravo mundo novo, está sendo bastante pedagógico. Infelizmente, a minha conexão é muito precária, e o ritmo de trabalho não ajuda.
E admito que leio dois blogs frequentemente: o do Sergio Leo e o do Juca Kfouri.
NF - Você pensa em seguir com o blog quando voltar para Caracas, ou em outras coberturas? Acha possível conciliar as reportagens para o jornal e os complementos (com textos, fotos e vídeos) no blog?
FM - Ainda não decidi, mas acho que não. O problema em Caracas é que tudo é muito polarizado, e o blog é basicamente opinativo.
Estou perdendo muito tempo para um post, mas acho que é por causa da conexão precária e da inexperiência.
NF - O que você acha melhor nesta cobertura? Que tipo de preparação algum repórter tem que ter para estar no seu lugar?
FM - O melhor é a história, uma situação inédita que, de quebra, envolve o Brasil. Sobre a preparação, não sei dizer. Curiosidade e sorte, talvez. E falar espanhol.
NF - Pode dividir com a gente alguma história inusitada ou engraçada ou curiosa que tenha acontecido com você aí?
FM - Há muitas histórias, como a da menina que está guardando seu tênis estropiado para doar ao futuro Museu da Resistência. Outro dia, fomos acordados às 6h por um grupo de mariachis escoltado por soldados, uma cena felliniana (era a comemoração do Dia do Soldado). Mas acho que muita história morrerá aqui dentro da casa, já foi criada uma ética interna difícil de explicar para quem está fora.
Bom, e descobri que o Zelaya pinta o bigode. Proximidade demais dá nisso.
Bastidores da cobertura
No meio da novela dos reféns