O trainee JEAN-PHILIP STRUCK nos conta o que aprendeu no primeiro dia em que saiu às ruas para filmar (imagens que editaria ontem e hoje):
Na terça-feira de manhã (22/09) eu e o GUILHERME CHAMMAS cobrimos uma pauta curiosa: uma "praia" no rio Tietê.
No dia sem carro e no dia do rio Tietê, uma ONG organizou, por três horas, uma praia improvisada num pequeno canteiro do rio, bem ao lado do trânsito pesado da marginal. Os organizadores queriam chamar a atenção da população para a poluição do rio.
Foi nossa primeira experiência com vídeo no treinamento.
A Flip, a pequena câmera que usamos, capta imagens de boa qualidade e é extremamente fácil de operar, mas tem alguns problemas. O primeiro é o tamanho. Ela é tão pequena que mesmo os menores movimentos fazem as imagens parecer um registro de um terremoto de 9,0 na escala Richter. Quando observamos isso, escolhemos para filmar quem tinha a mão mais firme, não o que tinha mais afinidade com o aparelho. Também decidimos que só uma pessoa ia filmar, já que a "praia" era pequena. Era provável que imagens captadas por duas câmeras ficassem muito parecidas.
Já sabíamos que o áudio da Flip não era grande coisa, então tomamos a precaução de também registrar as entrevistas com o gravador. Na edição, vimos que uma das entrevistas estava inaudível e acabamos sincronizando o som captado pelo gravador com a imagem.
Mesmo assim cometemos erros. Um foi o excesso de imagens panorâmicas. O espaço reservado para a praia era pequeno, mas a paisagem em volta é, apesar da feiúra, muito interessante. A sujeira do rio, os milhares veículos e o cinza das construções mereciam ser registrados, mas a Flip é uma câmera apropriada para imagens mais próximas.
Na edição fizemos uma planilha no Excel com as imagens que seriam aproveitadas. Com descrição, qualidade e trecho a ser usado. Também ajudou muito fazer um esquema da matéria, com indicação do momento de cada entrevista.
Fizemos dez entrevistas na praia. Só três foram aproveitadas no vídeo. Com tanta gente, é fácil confundir os dados de cada pessoa. Aprendi que é importante colocar ao lado dos dados pessoais uma informação descrevendo a pessoa, como "mulher de óculos" ou coisa parecida. Assim é mais fácil de achar a entrevista no vídeo se os dados estiverem desorganizados.
Por fim, aprendi que é sempre bom andar com um lápis. Choveu enquanto gravávamos as imagens. Com a água da chuva, a caneta falhou.
O blog da Clara Torres colocou um "roteiro para um texto enxuto", feito a partir de livros de um professor da Universidade de Columbia.
Há alguns trechos bem interessantes, vejam só:
Pense em impulsionar questionamentos no leitor.
Procure por detalhes reveladores que estão nos relatórios, nos depoimentos: é a oficial de polícia feminina que calça "botas com sola de ferro número 34". A viúva que passa a loção pós-barba do marido morto no travesseiro. Em uma boa história, "um esquizofrênico paranóico não apenas escuta vozes imaginárias, mas as escuta dizerem, 'vá matar um policial.'"
Pense enxuto desde o começo. "Você constrói uma tenda com um tipo de visão, uma catedral com outra". Permanecendo fiel ao tamanho de texto ajuda a descartar informações irrelevantes e a evitar desvios, que até podem interessar ao leitor, mas que consomem um tempo (espaço) valioso (e não disponível).
Murder your darlings. (É uma expressão muito usada por professores e editores nos EUA. Significa basicamente que escritores devem deletar de sua matéria qualquer frase de seu agrado que, enquanto decorativa, pouco contribui pouco para o foco da história.)
Outro dia os jornalistas mostraram, com suas palavras, câmeras e áudios, os lixos não-coletados entulhando as ruas de São Paulo e piorando as enchentes da chuva precoce. Registraram para todo leitor/cidadão que quisesse saber: a prefeitura cortou verba de coleta de lixo; a prefeitura cortou contratos de varrição; garis foram demitidos e os que ficaram queriam entrar em greve.
(Incomodados com o zumbido, os responsáveis pelos cortes com lixo recuaram.)
Mesma coisa aconteceu quando os jornalistas mostraram que as crianças iam ter uma refeição a menos nas creches.
(No dia em que saiu publicado no jornal, e repercutido pelas outras moscas, os responsáveis por essa decisão também recuaram.)
Eis uma das funções dos jornalistas: azucrinar quem detém o bastão. Porque quem está no poder público deve satisfações à opinião pública.
Peço desculpas por estar postando menos, e só bem mais tarde. É que estou ajudando os trainees a editar seus vídeos e isso toma um pouco de tempo. Mas logo retomo a freqüência de antes, ok?
Imagine que você é enviado para Cingapura para cobrir o Grande Prêmio de Fórmula 1.
E que, alguns meses depois, o resultado do GP é posto em dúvida, uma grande farsa é desmascarada, um cara poderoso é expulso da F1 e um brasileiro é o pivô do escândalo.
O que é que você, jornalista precavido que é, faz?
O leitor Daniel Carmona mostrou o que o repórter Felipe Motta, da Jovem Pan, fez: reabriu seus arquivos e escreveu uma análise do "Nelsinho-gate" com base em áudios, vídeos e anotações que ele tinha colhido no ano passado.
Ou seja, com base em fatos, coletados por ele mesmo, únicos.
A lição pra gente é: guarde os registros que faz durante as apurações. Podem ser úteis para enriquecer uma suíte ou desdobramento, para te proteger contra desmentidos, ou para complementar seu grande banco de dados pessoal.
(Com ferramentas como o Evernote, é possível guardar todos os formatos em um único lugar.)
Se o sujeito consegue "vazar" uma informação falsa para uma agência de notícias confiável, são grandes as chances de que um jornal que assina aquela agência reproduza acriticamente a informação.
A solução é só uma: checar tudo, mesmo as informações de agência!
Dando continuidade à nossa série de como dar os primeiros passos no mercado de trabalho, coloco agora o guia que vale para os jornais "O Globo", "Extra", "Expresso" e para trabalhar no site do jornal "O Globo":
Para fazer estágio
Faça as inscrições no banco de estágios (www.boachance.infoglobo.com.br). Esse banco fica aberto a partir de agosto, durante a Mostra PUC, até a primeira quinzena de outubro.
Você não precisa obrigatoriamente de estar no curso de jornalismo, mas precisa ter alguma experiência, estágio ou interesse que demonstre que você pode trabalhar na área.
Precisa estar em curso superior, com formatura prevista para dezembro do ano seguinte (por exemplo, quem faz inscrição hoje tem previsão para dezembro de 2010).
Não há limite de idade.
É feita uma triagem dos currículos e, na segunda quinzena de outubro, os selecionados fazem provas online de português, raciocínio lógico, inglês e conhecimentos gerais.
Destes, 250 são selecionados para uma prova presencial específica com questões de ética, atualidades, redação e tradução do inglês para o português.
30 são aprovados para uma dinâmica de grupo e, por fim, 18 são chamados para uma entrevista.
Há 12 vagas para os aprovados: nove para texto, uma para fotografia, uma para diagramação e uma para arte.
Os estagiários começam em fevereiro e ficam até dezembro, com bolsas de R$ 775,00. O processo acontece, portanto, uma vez por ano.
Não há garantia de continuidade na empresa.
Para se tornar trainee
Os nove melhores estagiários são efetivados nas vagas de trainee, com contrato de um ano (a partir de janeiro) e salário de R$ 1.500.
Para ser trainee, é preciso já estar formado em algum curso superior, não necessariamente de jornalismo.
Não há garantia de continuidade para todos, mas os melhores trainees são efetivados em seguida.
Se não houver vagas no momento, os trainees têm preferência em vagas futuras.
Tanto os estagiários quanto os trainees passam por vários cursos, workshops, palestras e outras atividades que acrescentam à formação dos jornalistas.
Para trabalhar como frila/contratado
Os frilas geralmente são contratados por indicação.
Os melhores trainees muitas vezes são contratados.
Também pode ser feito um recrutamento interno (entre jornalistas que querem mudar de editoria), ou o editor pode indicar alguém para a vaga.
Mas além disso também abrem processo seletivo externo, com as seguintes etapas: triagem de currículos, prova presencial e entrevista.
Para concorrer nessas seleções, cadastre seu currículo no site oglobo.globo.com, no link "trabalhe conosco". Você pode se cadastrar a qualquer momento e as recrutações são feitas ao longo de todo o ano.
As vagas disponíveis também são divulgadas nesse banco de currículos do "Trabalhe conosco".
A experiência exigida varia de acordo com a vaga, mas é preciso estar formado em algum curso superior, não necessariamente em jornalismo.
Não adianta enviar currículos por e-mail se você quiser participar das seleções externas. Cadastre-se apenas no banco de currículos.
Se depender dos comentários, a dúvida de Maria continua, porque ficaram no meio-a-meio: uma parte acha que ela deve investir nos cursos, outra parte acha que ela deve conciliar estágios e cursos.
Tendo a concordar com estes últimos. Mas tudo depende de uma coisa, Maria, que só você vai conseguir julgar: o que está incrementando mais a sua formação.
Não pense apenas em rechear "currículo" com um monte de penduricalhos para a graduação. No mercado de trabalho, o que seus selecionadores vão querer saber é quantas habilidades você possui, qual a sua qualificação geral. Para um jornalista, quanto maior a formação, melhor. E sempre haverá cursos para enriquecer nosso aprendizado, assim como haverá outros estágios que te ofereçam novas tarefas e funções.
Não adianta nada fazer 15 estágios se em todos eles você continuar aprendendo a mesma coisa, ou não aprender nada de novo.
Mas também não adianta se encher de cursos, se eles não acrescentarem nada à sua formação.
Agora, se as duas coisas forem úteis e importantes para você, tente conciliá-las. Durante os quatro anos da minha faculdade, trabalhei e estudei ao mesmo tempo, além de manter um blog e fazer frilas ocasionais. Durante certo período, somei a tudo isso um estágio de quatro horas e a preparação do meu TCC. Quando a gente é jovem e está entusiasmado e cheio de vontade de aprender, tudo fica mais fácil
(OBS.: Este é só mais um pitaco para você juntar a todos os outros, mas não há certos e errados nesta nossa área, tá?)
"People who want security or lack ambition probably should not be in journalism schools these days."
A "ameaça" é do diretor de uma das melhores escolas de jornalismo dos EUA, a Missouri, e está num bem apurado e bem escrito texto do Boston.com sobre como crise econômica e crise da mídia combinadas se abateram sobre a vida dos aspirantes a jornalistas (aqui).
Não arranque ainda seus cabelos: para o bem e para o mal, o Brasil está longe de ser os Estados Unidos. Ainda assim vale ler a reportagem.
[Dica de Ricardo Lombardi, da revista digital diária Desculpe a Poeira]
Outro dia o leitor Arlison pediu um post sobre como hierarquizar as informações de um texto de maneira rápida – dificuldade que o trainee IURI TÔRRES havia descrito.
A Ana respondeu ao comentário com um guia que pode ajudar a todos nós:
"Há alguns procedimentos que ajudam.
O principal é fazer um esquema das informações antes de escrever. Uma vez terminada a apuração, faça a lista das questões principais: quem, o que, como, onde, quando, por quê, para quê. Depois responda à pergunta "e daí?", ou seja, por que o leitor deveria ler a notícia.
Em geral, o texto começa nesta resposta e depois vai respondendo às outras questões principais.
Se você tiver feito um esquema prévio, pode se manter no foco e deprezar tudo o que é lateral ou indiretamente ligado à notícia principal, o que deixa o texto mais claro e faz escrever mais rápido.
Mas o fundamental é mesmo ir organizando o texto num esquema, de preferência desde a pauta e durante toda a apuração.
O que salva tempo na hora de escrever é a clareza sobre qual é a notícia e o que queremos contar."
Outro dia iniciamos a série "primeiros passos", que pretende trazer para o blog o passo-a-passo para entrar nos principais veículos do país.
No final, coloquei vários links com posts que já falaram como se faz para entrar na Folha, mas acho que nenhum deles seguia o formato de guia que a gente quer dar.
Então, aí está:
Estágio
Na Folha, não há estagiários ou programas de estágios.
Treinamento
O Programa de Treinamento em Jornalismo Diário ocorre duas vezes por ano, e cada turma tem duração de quatro meses.
Há cerca de 12 vagas em cada turma de trainees.
As inscrições são feitas até 5 de julho para quem quer se candidatar para as turmas do primeiro semestre do ano seguinte e até 15 de dezembro para as turma do segundo semetre do ano seguinte.
É possível fazer as inscrições em qualquer época do ano, elas estão sempre abertas. Mas, se você fizer no dia 6 de julho, por exemplo, atrasará em um semestre sua concorrência.
Para fazer as inscrições, basta entrar no site www.folha.com.br/treinamento, que também tem várias explicações sobre o programa e a ficha de inscrição.
A primeira etapa de seleção é a análise das cerca de 3.000 fichas de inscrição que chegam por semestre.
Destas, cerca de 300 pessoas são chamadas para a prova fechada de conhecimentos gerais, matemática, português e inglês.
Até cem candidatos são chamados para a terceira etapa: uma prova dissertativa.
Os 40 mais bem classificados, são chamados para a semana de palestras, quando participam de várias atividades (um microtreinamento) e passam por uma entrevista.
Alguns dias ao final da semana, os 12 selecionados são avisados por e-mail.
Você é avisado por e-mail em todas as etapas do processo seletivo, mesmo se não tiver sido aprovado para a próxima etapa.
Não é preciso ser formado ou estar cursando Comunicação Social/Jornalismo, não há exigência de tempo de formatura, nem de idade.
De vez em quando, ocorre o Programa de Treinamento em Jornalismo Gráfico, que já teve nove edições.
Para se inscrever, entre no www.folha.com.br/treinamento e cadastre sua ficha lá. Até 50 candidatos são chamados para testes de conhecimentos gerais, teste prático e entrevista. Cerca de dez viram trainees.
Cadastre a qualquer tempo. As fichas serão analisadas quando houver o treinamento, e isso será devidamente divulgado no jornal e na internet.
Para tentar vagas de frila/contratado
Sempre que abre uma vaga na Folha, é feito um concurso, que pode ser só interno (só para pessoas que já trabalham em alguma editoria e querem mudar de área), só externo, ou os dois. Os concursos em andamento são divulgados em anúncios no jornal e no site www.folha.com.br/trabalhe.
É preciso enviar seu currículo para o email treina@uol.com.br, com um código no campo de assunto. Esse código é específico para cada concurso e está escrito nos anúncios das vagas.
Cada anúncio especifica os pré-requisitos exigidos para a vaga, que costumam incluir boa formação cultural, conhecimento do Manual da Redação da Folha, domínio de inglês e experiência na área, dentre outros. Não é necessário ser formado em Comunicação Social/Jornalismo.
Todos os concursos incluem três etapas: análise do currículo, teste de conhecimentos e banca com três entrevistadores: alguém da Secretaria de Redação, alguém da Editoria de Treinamento e o editor daquele caderno da vaga.
Você é avisado por e-mail em todas as etapas do processo seletivo, mesmo se não tiver sido aprovado para a próxima etapa.
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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