Já que o Ramiro quer polêmica, vou trazer uma grande discussão que está sendo travada nos meios de comunicação dos EUA e que a Lanna nos mostrou. Para se ter uma idéia, o blog Lens, do New York Times, está até agora com 650 comentários no post que levanta o debate. Aliás, sintam-se à vontade para repetir o recorde aqui
Diz o Lens que a repórter fotográfica Julie Jacobson, da Associated Press, viu o soldado acima com vida e, logo depois, viu o momento em que ele foi atingido e socorrido pelos colegas.
As cenas são explícitas e tocam num tema muito caro à sociedade americana, que é a morte dos jovens soldados depois de oito anos de conflitos no Afeganistão.
Para piorar, o pai do soldado que aparece na foto disse que não autorizava a AP a distribuir as fotos, porque isso desonraria a memória de seu filho. Vários veículos de comunicação concordaram com ele e não publicaram a foto.
A AP defendeu seu direito de distribuir as imagens da seguinte forma:
"É claro que consideramos a angústia da família. É claro que valorizamos o sacrifício que ele fez por seu país. Ao mesmo tempo, há uma justificativa para se mostrar os efeitos reais desta guerra. (...)
Para nós, o valor dessa imagem é o de mostrar a complexidade, o sacrifício e a brutalidade da guerra."
Uma editora do New York Times, que concorda com a AP, disse o seguinte:
"A foto é digna de notícia e contém uma interpretação sensível do evento. Não é gratuitamente explícita. Isso é o que acontece numa guerra: as pessoas são mortalmente feridas e seus camaradas correm para socorrê-las."
A repórter que tirou a foto também se justificou longamente. E perguntou:
Não é por isso que estamos aqui? Para documentar, para hoje e para a história, os eventos desta guerra? [Leia tudo AQUI]
Vocês concordam? O que fariam se fossem editores de fotografia e pudessem escolher essa foto para publicar?
O Ramiro estava sentindo falta de umas polêmicas no blog e nos trouxe esta:
"E quando um assunto é impotantíssimo e NÃO existe fonte de informação??
Exemplo atual: PRÉ-SAL.
A) Site da ANP defasado e sem profundidade;
B) IBP (Instituto brasileiro de Petróleo) repete as informações da Petrobras com uma análise da visão privada.
C) PETROBRAS - Possui um ótimo site, mas não é independente.
Repare que as reportagens sobre o tema parecem "um cachorro correndo atrás do rabo". Repetem e esquentam notícias uns dos outros.
Pergunta de 1 milhão de dólares: O que fazer?"
Os exemplos que ele dá são de sites e os jornalistas não podem se respaldar em informação de site para fazer notícia. Mas o importante é o raciocínio usado por ele: se há poucos especialistas num assunto, se uma notícia é tão nova que os conhecimentos a respeito dela são limitadíssimos, e se o jornalista não quer se tornar refém só das versões vendidas pelos órgãos oficiais, o que pode ser feito?
A leitora Paula, de Curitiba, escreveu um comentário (há muito tempo) sobre uma situação pela qual havia acabado de passar.
Acho que serve de exercício para nós:
"Acabei de passar por uma saia justa. Hoje liguei para uma assessora, solicitando entrevista com um professor da universidade que ela atende. Expliquei o meu tema e ela me disse que deveria ligar para uma professora em determinado horário (a entrevista seria feita por telefone). Uns 15 minutos antes da entrevista, meu editor disse que a pauta caiu, que era para ir atrás de outras informações, para outra matéria. Imediatamente liguei para a assessora e expliquei a situação. Ela disse que desmarcaria a entrevista, e tentaria agendar outra, com outro professor, sobre meu novo tema. Logo ela me ligou, dando as novas coordenadas.
Mas aproveitou para me dar uma bronca: disse que a professora que seria entrevistada ficou super braba, pois perdeu seu tempo pesquisando sobre o assunto que seria abordado. Eu realmente não tive como prever que a pauta ia cair. Será que eu deveria ter ligado diretamente para a professora, e pedido desculpas? Como agir em uma situação dessas?"
A leitora Hulda, de Brasília, queria dicas para quem quer se especializar em saúde. Perguntei à repórter especial CLÁUDIA COLLUCCI, que disse o seguinte:
"O primeiro passo é ler muito sobre o assunto (jornais, revistas, periódicos internacionais).
Uma especialização na área da saúde também sempre ajuda. Fiz a minha, um mestrado em história da ciência (PUC-SP), com foco na história da medicina.
Atualmente, há diversos tipos de especialização em saúde (de doutorado em divulgação científica, na Unicamp, a lactus sensus na USP em jornalismo de saúde).
Hospitais como o Albert Einstein, Sírio Libanês e o A.C.Camargo também sempre realizam cursos de atualização para jornalistas de saúde. No caso do Einstein, muitas vezes há vagas para universitários que pretendam seguir nesta área.
Enfim, jornalismo em saúde é hoje uma área bastante valorizada, mas, assim como as outras, é fundamental o profissional estar bem atualizado e ter senso crítico muito aguçado porque é um setor notadamente marcado por conflitos de interesse."
Há algum tempo atrás a leitora Mônica perguntou à Ana:
"O lide de um texto pode ser uma frase de alguém que eu entrevistei? Ou é melhor encaixá-la em outras partes do texto e fazer o lide de maneira tradicional?"
Ela também tinha dúvida se é sempre necessário fazer lides com as cinco perguntas clássicas (que, quem, quando, onde e como).
Vejam o que a Ana respondeu:
Pode, sim, mas eu prefiro usar esse recurso só quando a frase é realmente muito boa, muito forte, muito inteligente ou resume de forma magistral o que o texto vai dizer a seguir.
Parto do princípio de que o lide é a informação mais importante. Se a declaração da fonte for aquilo que queremos comunicar em primeiro lugar, ela pode estar no lide sem problemas. E, se for uma frase boa, pode vir entre aspas.
O que eu prefiro nunca fazer é escrever como se fosse fato algo que é a afirmação de alguém. Por exemplo, algo assim:
A qualidade das escolas particulares paulistas está caindo. Esta é a opinião da educadora Fulana de Tal, que falou ontem no congresso de educação, na Universidade XYZ.
A solução para isso é deixar claro que se trata de uma opinião de alguém:
A qualidade das escolas particulares paulistas está caindo, na avaliação da educadora Fulana de Tal. Ela falou ontem no congresso de educação...
Se a frase é boa, você pode fazer assim:
"Ganhar a eleição foi como nascer de novo." Dez quilos mais magro e após 22 horas sem dormir, foi assim que Fulano começou seu discurso.
Na mesma linha do que nos disse VINICIUS TORRES FREIRE recentemente, Marcelo Soares fez um post bem legal mostrando como devemos desconfiar sempre dos números. Mesmo as estatísticas feitas por institutos como o Ipea devem ser checadas e ponderadas.
Coloco aqui com atraso, porque me perdi em toneladas de idéias de posts, mas nunca é tarde para refletir:
Tem muita gente que termina o curso de jornalismo e fica meio sem chão, sem saber como pode entrar em contato com os veículos e oferecer o trabalho que está doido para fazer.
Cada veículo tem seu processo seletivo, seus pré-requisitos, suas vagas.
Para ajudar os recém-formados, vamos postar como funciona em cada um dos principais veículos, começando hoje pelo Grupo Abril. Espero que ajude
Conversei com Edward Pimenta, responsável pelo Treinamento Editorial do Grupo Abril, que me explicou ponto a ponto (OBS. de quinta: conversei também com a Valeria Vironda, gerente de atração e desenvolvimento do Grupo Abril, que corrigiu uma informação e acrescentou outras. Agora está mais completo):
O banco de currículos fica aberto durante todo o ano para cadastramento.
Os processos seletivos são executados por consultorias de Recrutamento e Seleção contratadas pela Abril e usam o banco de dados da editora.
As vagas são abertas ao longo de todo o ano, mas há uma concentração maior de abertura de vagas em março e em outubro, porque muitas pessoas se formam nos finais de semestre.
Os candidatos passam inicialmente por provas de português e raciocínio lógico (eliminatórias) e inglês (classificatórias), seguidas por dinâmica e redação (ambas eliminatórias) e, se aprovados, por entrevistas na área.
Não há um número fixo de vagas; elas surgem de acordo com as demandas das Redações.
O candidato precisa estar no curso de jornalismo, e faltar até dois anos para que se forme.
Recebe uma bolsa de cerca de R$ 817,35 ou R$ 937,86, dependendo do ano na faculdade, para 30 horas semanais.
Não há restrição para idade.
Para fazer o Curso Abril de Jornalismo
Cadastre-se no site do Curso Abril durante o período de inscrições, em agosto e setembro.
Os trabalhos enviados no cadastro serão avaliados e, em seguida, algumas pessoas serão selecionadas em entrevistas pessoais.
Em dezembro, a lista de convocados é divulgada.
O curso acontece em janeiro e fevereiro.
Agora não é preciso ser formado em jornalismo.
É preciso ter terminado a graduação em até um ano, ou estar no último ano do curso de graduação.
Cerca de 55 pessoas são selecionadas (metade para trabalhar em texto, uns 35% para trabalhar como design gráfico e o restante distribuído em fotografia, mídias digitais e vídeo).
O curso não tem remuneração.
Se tiver vagas, o trainee continua no Grupo Abril depois do curso (cerca de 40% ficam e cerca de cem ex-trainees trabalham atualmente no Grupo Abril).
Quem passou pelo Curso Abril tem preferência em vagas dentro da empresa.
Para tentar vagas como frila/contratado
Todas as vagas são publicadas no www.abril.com.br/trabalheconosco, a não ser que sejam pessoas contratadas diretamente do Curso Abril. Isto vale para posições efetivas e para estágio.
Não há concurso, mas são realizados processos seletivos de acordo com cada tipo de vaga (que podem ser uma prova, análise de portfólio etc).
Se seu currículo, cadastrado no banco de currículos, atender ao perfil da vaga, você pode ser chamado para uma entrevista.
Lembrando que o banco de currículos está sempre aberto e pode ser sempre consultado, se surgir demanda de alguma Redação.
As Redações são autônomas e podem preferir convidar quem já foi pré-recomendado, em vez de olhar no banco de currículos, mas todos são submetidos aos processos seletivos apropriados.
Ainda não há uma posição corporativa sobre a exigência do diploma, fica a critério de cada editor.
Uma banda quer escolher um nome. Ele pode vir de uma tirinha do Garfield, como o Pato Fu, ou ter outras explicações aleatórias, como Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii, Kid Abelha, ou tantas outras com que já nos acostumamos, mas que, se pararmos pra pensar, têm nomes bem "exóticos"
Mas a banda escolhe o nome "Móveis Coloniais de Acaju" e, para explicá-lo, já que em todas as entrevistas as pessoas querem saber a origem do nome, a banda inventa uma história de uma revolta do século 19 no Tocantins.
Cria um fato, portanto.
O problema não é terem criado o fato, mas que, a cada repetição da história para a mídia, esse fato foi propagado trocentas vezes, e o trote ganhou força, e a brincadeira "virou" verdade.
A Folha foi uma das que comprou a versão. "O Globo" também. A "Veja" foi mais desconfiada. A "Época" também caiu no trote, mas depois se redimiu e tentou checar a informação. Falou com os integrantes da banda, com historiadores e, por fim, descobriu a brincadeira e fez uma matéria a respeito. O que levou a banda a desmentir a história que estava em seu site oficial e aproveitar a reportagem a seu favor.
Esse é um caso inocente, sem maiores conseqüências. Mas a falta de checagem pode levar ao descrédito dos veículos de informação.
Inventar histórias, mesmo as verossímeis, é fácil demais. Com a internet, fica ainda mais fácil. Mas uma das funções do jornalismo é separar as invencionices dos fatos, ou pelo menos não ajudar a divulgá-las.
Fica como uma pequena lição para nós: quando não checamos direito as informações, e apenas nos limitamos a repetir tudo o que chega até nós, corremos o risco de cair num trote e servir de piada para os outros rirem
Na sexta-feira retrasada a Ana contou que os trainees enfrentaram a chuva, o frio e o vento (ô dó) pra buscar pautas nas ruas de São Paulo. Pedi que contassem no blog como foi a experiência e o FELIPE CARUSO divide agora com vocês:
"A proposta do exercício era simples e interessante. Os trainees, divididos em seis duplas, deveriam procurar pautas na rua. Fomos enviados a diferentes áreas da cidade, cabendo ao Guilherme Chammas e a mim a região da praça da Sé. Nossa dupla tinha uma vantagem: era constituída por um paulistano e um carioca, ou seja, um conhecia bem a cidade e outro trazia o olhar do turista, vendo novidade em tudo.
Quando se vai para rua sem um foco específico é fácil se perder. No começo, prestávamos atenção em muitas possibilidades, mas só conseguíamos pensar em pautas batidas ou que não se sustentavam.
Passamos a nos concentrar na observação e daí surgiram duas pautas condizentes com o olhar lançado por cada um de nós. Chammas se lembrou de umas reportagens sobre uma operação da polícia que prendeu 19 pessoas envolvidas no esquema de venda de atestados médicos no centro de São Paulo. Fomos apurar e descobrimos que continua fácil comprá-los.
Logo depois, percebi que os garis que varriam as praças usavam uma vassoura de palha, feita com folhas de palmeiras. Perguntei a eles e descobri que a empresa responsável havia acabado de proibir o uso da vassoura. (Esse exercício virou pauta, que virou matéria publicada na última sexta).
Parecia que se você conversasse com qualquer pessoa por mais de cinco minutos encontraria outra pauta. Voltamos para a redação com a sensação de que as notícias acontecem o tempo todo o em todos os lugares e de que jornalista tem que ser jornalista 24 horas por dia. Foi bom viver e confirmar a velha máxima de que lugar de repórter é na rua.
Ao final de nossa empreitada, presenciamos um grupo de pessoas fazendo uma apresentação de dança e teatro, como uma forma de intervenção artística urbana no Pátio do Colégio. Era o momento perfeito para o repórter multimídia sacar a sua câmera flip, fazer imagens da apresentação e umas entrevistas no final. Exatamente aquela câmera flip que tinha ficado na redação."
CLIQUE AQUI para ver uma lista de sites recomendados por Mark Briggs, autor do Journalism 2.0, que tratam da revolução da mídia digital, das novas habilidades que os jornalistas precisam ter, de notícias gerais para jornalistas online.
O Poynter publicou um artigo que achei bem interessante, usando a reforma de saúde dos Estados Unidos como exemplo (podemos trocar pelo acordo entre Brasil e França, por exemplo, para ficarmos na nossa realidade).
Matt Thompson defende que os jornais deveriam publicar quatro peças-chave do noticiário, mas geralmente só registram uma: o que acabou de acontecer.
Assim, jornais estão recheados dos últimos fatos da véspera, das últimas declarações, dos últimos desdobramentos. Mas nem só de fatos recentes é feito o jornalismo.
Para o autor, três outras peças-chave costumam ser deixadas de lado, para prejuízo do leitor:
Os fatos de longa duração, ou contextos históricos das notícias de ontem
Como os fatos chegaram ao conhecimento dos jornalistas, ou bastidores das notícias
Os fatos que ainda desconhecemos, ou o que ainda precisa ser esclarecido
Achei esta última especialmente boa, porque é uma forma de antecipação dos fatos, de levantamento de questões que ainda precisam ser perseguidas pelos jornalistas.
Complementando o post abaixo, CLIQUE AQUI para ver o guia com seis dicas que o jornalista Adam Westbrook criou para quem quer aprimorar suas habilidades multimídia.
A professora Mindy McAdams, da Universidade da Flórida, fez um guia para os repórteres que querem melhorar seu desempenho multimídia.
O guia, de 42 páginas, reúne 15 posts publicados em seu blog. Pode ser baixado em PDF.
Eis os tópicos resumidíssimos:
Leia blogs e use RSS
Crie seu blog
Compre um gravador e aprenda a usá-lo
Comece a editar áudios
Escute podcasts
Poste uma entrevista em podcast em seu blog
Aprenda a tirar fotos decentemente
Aprenda a editar suas fotos (cortá-las, melhorar seu contraste etc)
Coloque fotos em seu blog
Aprenda a usar Soundslides (ou similar, que permita criar slides com som)
Conte uma boa história com imagens e som
Aprenda a filmar
Aprenda a editar seu vídeo
Publique seu vídeo em seu blog
Mantenha e atualize suas habilidades
Como podem ver, não é nenhum bicho de sete cabeças. E para quem acha que é, ela explica bem didaticamente como fazer cada uma dessas coisas. Vale a pena ler. (Os trainees vão ler isso em breve.)
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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