Rossi mata nossa curiosidade sobre as providências de segurança tomadas pelos dois, sobre os "fixers" que eles contratam no local, sobre ser brasileiro no Afeganistão, e, principalmente (no meu caso), sobre cobrir uma guerra sendo mulher.
Mulheres que têm a mesma vontade que eu, vejam o que Florencia responde:
"A mulher continua sendo bastante visada, mesmo depois de quase oito anos de fim do regime do Taleban. Mas ao mesmo tempo o fato de ser mulher abre portas que talvez sejam mais difíceis para os homens, como a aproximação das mulheres afegãs. Elas são muito curiosas e tentam se aproximar. No dia da eleição, por exemplo, eu estava numa zona eleitoral entrevistando as pessoas que tinham ido votar e uma mulher de burca tomou a iniciativa de se aproximar de mim para conversar, quando geralmente elas são mais arredias."
Ela dá uma dica preciosa:
"Aqui nessa parte do mundo mulher que cruza o olhar com um homem está se insinuando. Já levei muita passada de mão na perna na Índia quando andava nas ruas porque eu não sabia disso. Até que aprendi o truque de colocar óculos escuros. Eles não sabem se você esta olhando para eles ou não. E no meu caso, sendo jornalista, eu tenho que olhar as pessoas, observar os mínimos detalhes. Não dá para abaixar a cabeça, abaixar o olhar o tempo todo."
Cada tipo de cobertura exige um tipo de preparação diferente. Quando é uma grande cobertura que já estava prevista com alguma antecedência, é preciso se preparar ao máximo, lendo, pesquisando, pensando.
Antes de cobrir o "showneral" de Michael Jackson, por exemplo, Dávila ficou uma semana pensando em qual seria sua abordagem, em como fugir do óbvio, em qual poderia ser o lide. Ele diz que tem sempre essa preocupação de pensar.
Antes de ir para uma cobertura de guerra ou do furacão Katrina, a preparação exigida é muito maior que antes de cobrir uma visita do Lula a Washington, por exemplo.
Algumas dicas para quem for enviado especial a uma guerra:
·Pesquise e leia tudo o que for possível sobre o país, conflitos, guerras, coberturas em guerras etc.
·Leia principalmente livros, que escondem os aspectos menos óbvios do assunto que você vai cobrir.
·Fale com quem já fez cobertura parecida, busque dicas ou sugestões. Não tenha vergonha ou orgulho de buscar ajuda, mesmo se o cara for de outro veículo (nesse caso, sem entregar a pauta, claro!).
·Determine qual equipamento será necessário e brigue por esse equipamento. Ex.: celular por satélite, vacina, colete com placa de cerâmica etc.
·Cuide-se: repórter é para contar história, não para virar história e morrer.
É claro que às vezes as pautas se impõem e simplesmente não dá tempo de se preparar. Isso aconteceu com o Dávila no 11 de setembro, quando ele foi acordado com as informações de que um avião tinha caído.
Nessas horas, vale a pena usar do improviso e da criatividade ao seu favor: sem poder se deslocar de carro na região interditada de Nova York, SÉRGIO DÁVILA comprou um patinete (idêntico a este que ilustra o post) para agilizar sua cobertura. O veículo foi batizado de "folhamóvel"
Antes ele tinha dito como era importante atentar para os detalhes e ter um olhar diferenciado. Aqui, Dávila chama a atenção para a relevância das pautas.
Não basta fugir do óbvio só pelo fugir do óbvio. Dar o detalhe só pelo detalhe, só porque é pitoresco ou supostamente engraçado.
Ele fala de uma praga dos seus tempos de faculdade que foi batizada de "jornalismo do pipoqueiro". Todos os professores diziam que, em vez de procurar só as fontes oficiais e os grandes especialistas, os jornalistas deveriam entrevistar o pipoqueiro da rua.
"Mas em 99% das vezes, o pipoqueiro não vai ter nada de interessante para falar, além do preço da pipoca. A menos que uma bomba tenha caído bem em cima do carrinho de pipoca".
Não é que as ditas "pessoas comuns" não tenham coisas importantes para dizer – pelo contrário. Mas elas não podem ser ouvidas aleatoriamente. É preciso que o olhar se volte para o que for relevante, interessante, contextualizado e analítico. Aí, sim, ele vai fazer a diferença com razão de ser.
Dávila deu quatro exemplos de coberturas em que ele conseguiu conciliar essas duas coisas (originalidade + relevância):
Ao cobrir o 11 de setembro, andando nos escombros, sentiu um cheiro adocicado no ar. Mais tarde, percebeu que era nada menos que cheiro de churrasco. Pôde escrever uma matéria em primeira pessoa, que teve a seguinte chamada de capa: "Um cheiro embrulha o estômago". Foi um detalhe que outros correspondentes não perceberam e deram ao leitor a imagem da tragédia. O interesse era tão justificável que foi uma das matérias de maior repercussão da carreira do repórter.
Ainda no 11 de setembro, Dávila percebeu que os bombeiros, depois de sete dias de busca, começaram a se esconder e fingir de mortos para que os cachorros os encontrassem. É que os cães, treinados para achar corpos, estavam ficando estressados por não terem encontrado nenhum. Foi outra matéria importante e, de forma curiosa, informava nas entrelinhas o que realmente interessava: não havia sobreviventes.
Na Guerra do Iraque, percebeu que havia vários carros Passat andando pelas ruas de Bagdá, e que eram conhecidos como "brazíli" ("brasileiro"). Uma observação que nenhum correspondente de fora notaria e que, depois de apurada, levou a uma reportagem que mostrava que o Iraque trocava Passats por petróleo e era, assim, o maior parceiro comercial do Brasil, por um ano, durante o "milagre econômico" – ou seja, aproximando aquele distante país dos nossos leitores.
Nas eleições de Obama, a situação com maior hipercobertura da carreira de Dávila, com veículos do mundo inteiro, inclusive todos os principais do Brasil, ele encontrou outro jeito de sair do óbvio. Quando Obama ainda era apenas um dos aspirantes dos democratas, quando a Hillary tinha muito mais chance de ser a candidata, quando nem se sabia ainda quem seria o candidato republicano, ele percebeu que Obama tinha força para ganhar e pediu para passar um dia no QG dos voluntários da campanha. Descreveu um clima festivo que nenhum outro veículo tinha descrito até então.
Lembrando que a cobertura de Dávila e Juca Varella (repórter fotográfico) no Iraque – os únicos brasileiros lá – rendeu à Folha um Prêmio Esso.
A recém-trainee ESTELITA CARAZZAI, que hoje trabalha na Agência Folha, passou por uma situação diferente e queria saber o que vocês fariam no lugar dela:
"Liguei para uma coordenadora de um curso avaliado como um dos piores do país. Ela me justificou a avaliação dizendo que o corpo docente era mal preparado, porque a maioria dos professores era formada na própria faculdade e que o nível era muito baixo. Uma boa aspas, portanto.
Aí a mulher me ligou umas duas horas depois dizendo que havia se arrependido dessa declaração, e que preferia que ela não fosse publicada, porque ela não havia conversado com os professores ainda etc.
Eu tirei porque acho que ela tem esse direito e porque o pessoal aqui achou que nem era tão relevante, mas ela não deixou de falar, né? Tá gravado e tudo. Enfim, o que fazer? Devo tirar ou não devo? O entrevistado tem o direito de retificar o que disse? Qual a melhor forma de resolver isso?"
Há quase um mês () eu prometi dividir com vocês um monte de coisas que aprendi com o repórter SÉRGIO DÁVILA. Acabei postando só duas lições. Agora acabei de editar o vídeo do seminário e pude relembrar de outras, que finalmente coloco aqui.
Ele falou um pouco de como é o trabalho do correspondente no exterior – por natureza, generalista.
O repórter tem que estar ligado em tudo o que acontece naquele país e tem que fazer todas as coberturas para todas as editorias – reportagens diárias e especiais de fim de semana. É por isso que ele diz que o correspondente é uma espécie de microcosmo do jornal.
Estando em Washington, ele tem a concorrência de trocentos veículos locais (que têm a preferência do governo americano), de quase todos os principais veículos brasileiros e dos veículos dos principais países do mundo (a maioria dos quais também tem preferência em relação ao Brasil).
Ou seja, tudo o que ele cobre é hipercoberto, e ao longo de todo o dia sai um mar de informações sobre aquele assunto que está em pauta.
Nesse ambiente, como se diferenciar? Como se destacar dos concorrentes? Como trazer algo original para o leitor?
Ele diz que o olhar brasileiro, por si só, já o diferencia dos veículos americanos. E só com um olhar único, crítico, analítico, atento aos detalhes, bom e contador de histórias ele pode se diferenciar dos concorrentes brasileiros.
Para isso, é importante ter em mente duas coisas:
Sempre (sempre!) é possível achar novas abordagens, novas histórias, coisas que jamais foram ditas. Não caia no conto do "aparentemente tudo já foi dito" – ou fie-se nele, mas respeitando o "aparentemente"
Não pressuponha que seus leitores já sabem daquilo. Quantos estiveram no Iraque? Quantos viram as Torres Gêmeas caindo? Quantos estiveram no QG da campanha do Obama? Você é repórter para isso: para descrever, com seu olhar, aquilo que seus leitores talvez jamais possam ver de perto.
Os jornalistas e ex-trainees da Folha MAURÍCIO HORTA e WILLIAN VIEIRA partiram para uma viagem por mais de 15 países da Ásia que deve durar até janeiro de 2010.
Antes disso, fizeram uma escala por São Francisco (), o que garantiu uma economia de mais de US$ 1.000, e uma descanso pela cidade mais hippie do planeta.
Agora a aventura começa pra valer, já em Nova Déli, depois de várias horas de sono em aeroportos e com direito a dente arrancado sem anestesia ().
Vocês podem acompanhar o blog que eles criaram em seu Google Reader, como eu já estou fazendo. Se bem conheço os dois (mais o Horta), esperem por muita observação jornalística, textos saborosos e sufocos garantidos, em inglês e português.
Em fevereiro, a Ana fez um tutorial explicando como as pessoas podem dar os primeiros passos no Twitter. Tem as fotos de todas as telas e é bem didático.
Hoje acrescentei algumas coisinhas, respondendo às principais perguntas que os leitores enviaram de dúvidas que o tutorial não havia respondido.
A dica é da colega FLÁVIA MARTIN para fotos sensacionais publicadas pelo blog The Big Picture, do jornal Boston Globe, que ilustram um incêndio na Califórnia. O fogo é amigo do fotógrafo, né:
Um leitor da Ana escreveu um e-mail, há algum tempo, com o seguinte diagnóstico do jornalismo e dúvida sobre se deveria mudar de área. O que vocês acham?
"Estou no 6° semestre de jornalismo e procurei essa área porque eu sempre me simpatizei com jornalismo. Durante o primeiro ano da faculdade foi só alegria. Mas o tempo passou e eu, apesar de gostar muito dessa profissão, hoje me arrependo bastante de ter começado. Ou melhor, de não ter feito outro curso.
Percebi que para ser jornalista é preciso mais do que um diploma, afinal na prática é necessário que o candidato a trabalhar em um jornal tenha uma boa cultura geral, fale pelo menos o inglês, e talvez o espanhol. Se tiver o domínio de outras línguas melhor ainda. As técnicas de captação, edição e difusão de material informativo não exigem 4 anos para aprender, além do mais a maior parte dos cursos, ao menos os que eu conheci, não conseguem dialogar com o mercado e deixam a desejar, tanto no que diz respeito à teoria quanto à prática do jornalismo.
Os baixos salários também incomodam um pouco, pois, para pessoas que vêm de baixo e precisam investir em sua formação, fica dificil suprir todas essas necessidades culturais que um jornalista tem.
Outro fato que me causa desgosto com a profissão é a falta de união e respeito entre colegas dentro de algumas redações. Há um ano eu trabalho como estagiário dentro de uma "grande" emissora de TV da capital, e a forma como os colegas veem quem está começando, seja ele formado ou estagiário, é bastante complicada.
Cada vez mais eu penso que a nossa classe só consegue ser coesa em um pensamento, que na minha opinião é errôneo. A falta de trabalho, ou a necessidade de segurar o seu emprego a qualquer custo.
Bem, agora vem a grande dúvida. De uns tempos pra cá, tenho pensado em fazer direito, mas isso é só depois de eu me formar. (Pretendo fazer direito para não depender do jornalismo e levá-lo como hobbie, ou pelo menos poder garantir uma estabilidade e assim conseguir fazer jornalismo sem me preocupar com empregos ou colegas.)"
Uma informação mal checada é ruim para o leitor (ponto). Dependendo da informação, pode causar constragimentos e outras graves conseqüências para os envolvidos na matéria. Em caso de morte, por exemplo.
Se nada disso nos estimula o suficiente para buscar o máximo de verificação dos fatos, podemos falar do pior para o jornalista: um erro grave pode levar a demissões
É de um caso com essas três combinações que o leitor Marcelo falou com a Ana, há algum tempo:
"Um menino desapareceu na semana passada aqui na França e, depois de alguns casos semelhantes nesse verão – com fins trágicos –, as pessoas estavam esperando pelo pior.
Eu estava vendo TV e a repórter da TF1, emissora privada, Florence Schaal, pediu para entrar no ar. O âncora teve apenas a informação de que o caso do menino desaparecido tinha novidades. A correspondente no local, Schaal, ia entrar no ar ao vivo um minuto antes de o jornal das 20h acabar.
Tenho que dizer que a repórter tem bastante experiência, ela era correspondente na Rússia no momento dos reféns na escola de Beslan.
O âncora dá a deixa, ela entra com ar consternado e dá a noticia que "infelizmente o menino foi encontrado e sem vida". O jornal acaba em seco, clima de se cortar com a faca.
Quinze minutos, nem meia hora depois, durante um outro programa, uma notícia de rodapé diz que o menino foi encontrado são e salvo e já estava com a família."
É claro que errar é humano. A repórter certamente não tirou isso da cabeça dela: alguma fonte em quem ela confiava – um bombeiro, por exemplo – deu a informação errada. Na pressa de dar a exclusiva, ela provavelmente não checou com outras fontes e soltou o erro no ar.
A família deve ter ficado consternada (na hora), mas a repórter, sem emprego, talvez tenha se dado muito pior.
Por isso, talvez valha a pena deixar um bilhetinho com o título deste post sempre à vista. Ou, para ser menos dramático, colar o bordão do Treinamento: "Não chute, cheque"
O professor Gustavo Romano explica em seu blog qual é a diferença (sutil, mas de conseqüências importantes) entre "metade mais um" e "mais da metade":
"Temos 81 senadores no Senado Federal (3 por unidade federativa: 26 estados mais o Distrito Federal).
Se calcularmos usando 'metade mais um' Metade mais um dos senadores , seria 81/2 + 1 = 40,5 + 1 = 41,5. Como nao ha 41,5 senadores, o primeiro numero redondo acima seria 42 senadores.
Se calcularmos usando 'mais da metade' Metade mais um dos senadores , seria 81/2 = 40,5.. Como nao ha 40,5 senadores, o primeiro numero redondo acima sao 41 senadores.
Em outras palavras, dependendo da expressao que usarmos, aumentamos o numero de votos de 41 para 42. O correto sao 41 votos e nao 42 votos para a aprovacao por maioria absoluta. O correto eh 'mais da metade'. Nunca 'metade mais um'."
Ele exemplifica com um erro que saiu na Folha. Leia AQUI.
Ontem o correspondente em Belo Horizonte BRENO COSTA veio mostrar aos trainees qual é seu método para se organizar na construção da pauta, na apuração e na preparação do texto.
Coloco, abaixo, alguns dos tópicos – que podem ser belos guias de conduta, especialmente a quem não é muito organizado:
Sempre que encontrar uma pauta, pense sobre ela:
O que você pretende com ela?
Que tipo de benefício ela pode trazer ao leitor?
Quem pode ser prejudicado pela reportagem?
Vale a pena seguir adiante?
O que sua reportagem precisa conter?
Números e documentos podem ajudar a embasar sua reportagem. Declarações bem fundamentadas também podem enriquecer a informação. Contextualização é fundamental. Busque tudo isso, e também outros detalhes que possam agregar informação, personagens que possam exemplificar o problema e sua própria observação do fato (ir ao local, experimentar a situação etc). Faça perguntas a si mesmo que preencham cada uma dessas lacunas.
A apuração é a tentativa de responder a todas essas perguntas iniciais e as outras que aparecerem no caminho. E pesquisar, buscar dados na internet (RAC), puxar de uma informação outra também relevante (carretel).
Por fim, prepare seu texto:
Coloque as declarações e informações dentro de categorias
Liste aqueles detalhes que não podem ficar de fora do seu texto
Crie um esqueleto do texto antes de escrever, com os pontos em seqüência.
O Breno acrescentou o seguinte: "É importante PENSAR na pauta antes de iniciar a apuração dela. O objetivo é mapear tudo o que você terá que apurar e, com isso, ganhar em organização e em tempo. Obviamente, cada um pode desenvolver seu próprio método. Isso aí é só um exemplo específico."
Já falamos isto aqui algumas vezes: um repórter tem que estar o dia inteiro antenado, aberto às várias pautas que às vezes caem do céu.
Dá trabalho, mas as idéias abrem espaços e fazem valer a pena.
Esse nariz-de-cera foi pra introduzir a resposta que o VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO deu à leitora Rejane, de Brasília, que queria saber:
"Vocês podiam conversar com o Vinicius Galvão para saber se nessa materia de hoje, de Cotidiano, ele viu a confusão por acaso e reportou ou ele foi para reportar sobre a empresa mesmo."
Vejam a resposta dele:
"Foi a sorte de estar no lugar certo na hora certa. Eu era um dos passageiros do voo. Ouvi a confusão e, com o instinto de repórter, fui saber do que se tratava. Entrevistei diversos passageiros, embora só fosse preciso entrar dois na reportagem, e ouvi também os comissários a bordo. Já em São Paulo, da Redação, procurei a Gol, a Anac, o Sindicato dos Aeronautas e o Procon. Foi isso. A matéria repercutiu bastante. Hoje CBN, Band, Globo, Record, todo mundo foi atrás da história."
Ele poderia ter virado pro lado e dormido, já que estava numa viagem pessoal, que nada tinha a ver com o trabalho. Mas teria perdido uma baita pauta.
Para quem não é assinante Folha ou UOL, dá pra ler uma versão resumida AQUI ou AQUI.
No domingo o leitor Ricardo, de São Paulo, perguntou como é a rotina de trabalho dos articulistas da Folha, que têm escrito cada vez mais análises para enriquecer as reportagens.
Foi o HELIO SCHWARTSMAN quem respondeu:
"Chego ao jornal no comecinho da tarde e discuto a pauta do dia com o secretário-assistente de redação. Às vezes, o tema do comentário está claríssimo, pedindo para ser chutado. Na maioria dos dias, porém, não é assim. Uma troca de ideias com os pauteiros das principais editorias também ajuda. Mais raramente, eu mesmo venho com a ideia. Aí preciso convencer alguém a preparar a reportagem ou fazê-la eu mesmo. Nesses casos, às vezes tento reunir análise e reportagem num texto único. É uma área em que ainda estamos ensaiando.
Quanto às diferenças entre análise, comentário e artigo opinativo, acho que a maioria fica frequentemente em dúvida. Creio que tipos puros sejam muito difíceis de encontrar. Nem sei se é possível fazer uma análise em que entre zero de opinião. A inversa também vale. Um bom texto opinativo deve estar ancorado em análises sólidas. Acho que o importante aqui é não ultrapassar os limites do bom senso. Seria estranho colocar um artigo totalmente editorializado no meio das páginas de noticiário.
Atualmente, a equipe de articulistas somos eu e o MARCO CHIARETTI."
O Caio, de São Paulo, disse que "vale deixar claro para os entrevistados, logo no início da conversa, que outras pessoas serão ouvidas e, por uma questão de espaço, nem todas poderão ser citadas na matéria".
O Ricardo, de São Paulo, deu a mesma dica do Caio, "para evitar constrangimentos". E sugeriu que, em último caso, explique que a "culpa" é do editor.
O Danilo, de São Paulo, deu outra boa dica: pegar os contatos do entrevistado e enviar os links quando a matéria sair é uma gentileza e forma de sustentar a relação com a fonte. Concorda com o Caio que nunca se deve prometer que a entrevista será usada.
A Márcia, de Recife, usa o contato da fonte para se antecipar o quanto antes e avisar que não vai mesmo sair ("me antecipo mandando um e-mail me desculpando, falo de escolha editorial e espaço, e que espero contar com ela em outra ocasião"). Ela acrescenta que a experiência faz com que ela tenha mais noção de espaço e evite as "sobras".
A ESTELITA CARAZZAI e o Roberto Takata sugeriram estender pro online do veículo.
O Everton, de Pelotas, sugeriu aproveitar a fonte em possíveis desdobramentos, e avisá-la disso.
O leitor Pablo, de Belo Horizonte, lembrou que ouvir muitas fontes é muito importante, mesmo que nem todas entrem na matéria. A reportagem fica mais acurada e o repórter ainda pode conseguir novas pautas durante as conversas.
E a Ana mostra que os leitores estão todos no caminho certo:
nunca prometer publicação
se a fonte perguntar quando sai e você já souber que não é seguro que a história dela vai sair, explicar: está previsto pra tal dia, mas no jornal a gente nunca tem certeza, porque às vezes o espaço é pequeno e parte do que a gente apurou acaba não saindo
tentar usar a internet pra publicar o material que sobrou
se não houver outro recurso, fazer o quê? escrever ou ligar e dizer "olha, obrigada pela ajuda, mas acabaram tendo que cortar meu texto". Para a personagem, sempre vai ser chato não sair no jornal, mas é ainda mais chato não receber nem uma explicação pra isso
Começa amanhã uma programação imperdível pra quem gosta de filme sobre jornalistas (especialmente os jornalistas de filmes, que são mesmo tão mais legais! ).
Todas as terças, até 24 de novembro, sempre às 19h30, o Espaço Unibanco de Cinema (rua Augusta, 1.475) vai exibir 12 desses filmes de graça.
Quem teve a idéia foi o ombudsman da Folha, CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA, que sempre sugere filmes e livros em suas colunas e que acha que eles vão ajudar a fomentar a reflexão sobre o trabalho jornalístico. O ciclo é pra comemorar os 20 anos da instituição do ombudsman no Brasil, por meio da Folha.
A lista de filmes está NESTE CLIQUE. Cidadão Kane é o de amanhã, quando também haverá um debate com o ombudsman e SÉRGIO RIZZO, crítico de cinema da Folha.
A trainee ANDRESSA TAFFAREL, catarinense e "parente distante" do goleiro, também participou da cobertura do jogo de ontem e relata agora para os leitores do blog. Ela fez um verdadeiro manual, vejam só:
"Ontem acompanhei os repórteres de Esporte CAROLINA ARAÚJO, RENAN CACIOLI e RODRIGO BUENO no jogo São Paulo x Palmeiras, no Morumbi, para entender como é a cobertura de futebol. Adoro muitos esportes e futebol é um deles. Já tinha ido ao estádio antes, mas como torcedora. Acompanhar um jogo de futebol como jornalista é muito diferente. Bem, vou listar algumas coisinhas e comentá-las separadamente, acho que fica mais fácil.
Sobre o Morumbi:
é muito estranho ver aquele estádio no meio de um monte de casas chiques! hehehe
não gostei da sala de imprensa. O lugar é claustrofóbico e frio (sim, levem casacos!). Você só vê os jogadores e o nível mais baixo da torcida – na maioria, os camarotes. A geral mesmo, arquibancada, só pela TV. Uma sensação estranha. Às vezes nem parecia que eu estava no estádio.
dá pra subir até a arquibancada e ver o jogo de lá. O Renan fez isso ontem, porque ele queria acompanhar as reações do Muricy Ramalho, técnico do Palmeiras, e lá do alto era melhor. As cabines ficam de um lado e os bancos de reservas, do outro. Com os jogadores correndo na frente, não dá pra ver muita coisa.
Sobre a cobertura:
chegamos no estádio às 13h15 – o jogo começava às 16h.
antes do jogo, o Renan ficou circulando pelo lado de fora. Acompanhou a chegada dos times e a movimentação da torcida. Eu e o Guilherme vimos o time do Palmeiras chegando. Quando o Vágner Love chegou, já tínhamos voltado pra cabine
a Carol ficou o tempo todo na cabine. Antes do jogo ela dá uma olhada nos sites esportivos, inclusive as páginas oficiais dos times, e não tira o fone de ouvido. A Folha não pode entrar no campo, então todas as declarações de jogadores e da comissão técnica são ouvidas pelo rádio.
o Bueno também acompanha o twitter. A rádio Eldorado/ESPN, por exemplo, vai tuitando todas as novidades, até a escalação - mas isso também dá pra ver no placar eletrônico do estádio.
durante o jogo os repórteres vão anotando algumas coisas, confirmando informações e até escrevendo a matéria. Como ontem a partida terminava às 18h, e o jornal fecha a edição nacional às 20h30, o pessoal podia escrever depois que a partida terminasse. Nas quartas-feiras o texto é enviado quando o juíz dá o apito final (essa correria eu conto quando for a um jogo no meio da semana).
antes da partida começar os editores já mandam o tamanho das retrancas, mas são os repórteres que combinam a divisão das matérias. No fim todos se ajudam, por isso os textos sobre o jogo de ontem são assinados pelos três.
O que aprendi:
tive uns minutos de deslumbramento quando cheguei ao estádio, mas logo a gente lembra que foi trabalhar e começa a olhar pra tudo, procurando uma pauta.
cobrir o jogo me fez esquecer que futebol também é uma festa. Prestei tanta atenção nas informações jornalísticas da partida que até esquecia do som da torcida, dos lances bonitos... até esqueci de torcer! (Não torço pra nenhum dos dois times, mas tinha a minha preferência )
é preciso pensar rápido nas matérias, quais jogadores ou aspectos da partida serão destaques. O tempo passa voando!
ligue o rádio quando chegar e só desligue ao sair. Ouvir o jogo pelo rádio é indispensável! (Considero essa a dica mais importante!)
TV na cabine de imprensa é uma boa ajuda. Mesmo se não houver replay, dá pra acompanhar o lance, por causa do delay. Ontem tinha uma diferença de 3 a 4 segundos.
não é tão difícil fazer os textos sobre os destaques, mas acho que vou penar pra fazer o relato do jogo.
O treinamento tem um exercício opcional, aos domingos e noites de quarta, para os trainees que gostam de futebol: acompanhar os jogos com os repórteres de Esporte. Nesta 48ª turma, quatro trainees estão credenciados para isso e ficaram de trazer ao blogs suas experiências. Hoje é a vez do GUILHERME CHAMMAS, que foi ver o zero-a-zero do São Paulo (seu time) com o Palmeiras:
"Foi a primeira vez que entrei no estádio do Morumbi por um acesso diferente da rampa que leva às arquibancadas. Só que, apesar do meu time estar em campo, não fui torcer, mas sim acompanhar como é feita a cobertura jornalística de uma partida de futebol.
Confesso que, de início, fiquei um pouco deslumbrado com a situação: trombar com colegas famosos, ter livre acesso às dependências do estádio e sentir no pescoço o peso de um crachá escrito "imprensa" foram situações novas para mim.
Mas não demorou muito para me acostumar. No jornalismo esportivo o tempo corre rápido. Foi o que percebi ao acompanhar o jogo da quase claustrofóbica sala de imprensa do estádio, da qual não se enxerga as arquibancadas. Ouvir o jogo pelo rádio (fundamental), acompanhar replays pela TV e tomar nota dos lances da partida são fatos que me fizeram esquecer que meu time estava em campo.
No final, ao ver o processo de produção dos colegas que cobriram o jogo, descobri que o jornalista esportivo tem que ser mais ágil que os atletas. O tempo é muito curto para compilar a enorme quantidade de informações levantadas e escrever a matéria.
Melhor não comentar sobre a partida. Deu até sono no segundo tempo. E ir ao estádio para ver um 0 a 0 não é bom nem quando se está em um exercício de treinamento, realizando um sonho de infância."
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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