Vou reproduzir algumas, que acho mais aplicáveis ao texto jornalístico (porque também tem umas tipo "não use gravata enquanto escreve" ou "leia e beba muito" – não quero ninguém demitido por justa causa depois de ler o post ):
Para escrever
Dedicar mais tempo à leitura que à escrita
Abusar do ponto final
Usar material de boa qualidade (bom computador/lápis/caderno/papel)
Escrever sobre tema que domina bem
Cortar palavras
Desconfiar do texto que sua mãe gostou (e só!)
Levar sempre em conta a existência do leitor
Administrar entre redundância e informação, conhecido e desconhecido
Uma por minha conta: ler muito o gênio que ilustra este post!
Ontem, na aula do Marcelo Soares, ele mostrou o que precisa ser feito (e pode, com várias ferramentas gratuitas que há por aí) quando um grupo está tocando um projeto coletivo:
Armazenar, organizar, compartilhar e recuperar informação; coordenar agendas e monitorar tarefas.
Ele foi além: o que precisa ser compartilhado para que o projeto tenha a organização ideal?
E aí ele ofereceu uma lista de idéias, algumas bem curiosas, como a planilha de dúvidas! Vejam só:
Planilha de contatos
Planilha de documentos
Planilha de dúvidas
Perguntas que falta responder no projeto
Planilha de custos
Lista de pautas
Lista de tarefas
Cronologia
Transcrições ou relatórios das entrevistas
O mais bacana é que tudo isso pode ser transportado para qualquer editoria, de qualquer tipo de veículo (grande ou pequeno, já que uma simples ferramenta do Google/similar pode resolver qualquer uma dessas coisas). E a equipe toda sai ganhando, se o maior número possível de informações é compartilhado, pode ser checado por todos e todos podem agregar mais informações.
Que agenda estranha - como a observação leva à pauta
Por falar em "de onde vêm os bebês (pautas)" (assunto ali de baixo), minha ex-trainee Leila Swann conta hoje n' "O Globo" --onde é repórter-- como teve a ideia de mostrar as discrepâncias e erros das agendas dos ministros (leia aqui).
A Folha havia feito pauta semelhante no dia 18 (aqui) e os trainees haviam comentado que era um ótimo exemplo de pauta que surge do noticiário quente e da sacada do repórter.
O tempo do bate-papo foi muito curto e acho que muita gente ficou sem conseguir fazer perguntas.
Todo mundo que quiser mandar perguntas pode escrever por e-mail do blog (novoemfolha.folha@uol.com.br), que eu vou respondendo aqui mesmo.
Ah, e aproveitando: aos leitores gentis que escreveram sobre minha foto na matéria da Folha Online (e aos colegas da Redação que fizeram pilhéria comigo), volto a avisar que adorei os elogios, mas --infelizmente-- o retrato já está 15 anos antigos. Já estou providenciando um mais recente pra que as pessoas consigam me reconhecer na rua (risos).
O exercício dos trainees hoje é ir procurar pautas na rua. (pautas, pra quem é novo por aqui, são ideias para reportagens. Se quiser ter mais detalhes, leia este post).
Pautas vêm de muitos lugares. Alguns:
uma fonte te passa uma novidade (às vezes pode ser também uma assessoria de imprensa)
você anotou na agenda para acompanhar um caso, ligou dois dias antes e colheu a notícia
lendo outras publicações, você vê algo que serve pra sua cidade também (ou para o seu Estado, o seu país)
algo acontece na sua vida ou na de quem é próximo e você percebe que pode ser do interesse do leitor em geral
no noticiário recente, você percebe a oportunidade de uma reportagem que ressalte um personagem, esclareça um ponto obscuro, faça um balanço ou dê um serviço
você vê, ouve, cheira algo e descobre novidades. Você repara nas coisas, e descobre que se algo te chama atenção, deve interessar também ao leitor.
É esta origem de pautas, a das ruas, que os trainees estão explorando hoje.
-- Mas com esse frio? Essa garoa??
É, uai (olhaí, Cris ). Cadê o velho clichê "lugar de jornalista é na rua"?
Estou sendo irônica, mas também estou falando sério: ir pra rua é legal. Às vezes chove. Às vezes faz frio. Tem tumulto. Tem mais risco. Mas a vida lá fora é incomparável.
E olha que eu nem defendo que toda pauta tem que ser feita na rua, não! (já dei minhas razões neste post). Agora, quando a observação é importante, quando faz diferença estar lá, verificar, testar, aí é fundamental sair pra vida.
Mais tarde a Cris convence algum dos novos trainees a contar aqui pra gente como foi a experiência!
Neste outro post há uma explicação sobre o que é o programa de treinamento, cuja 48ª turma começou nesta semana, e um exercício de pauta para você fazer junto com eles.
Hoje à tarde os trainees e eu tivemos uma aula com o professor Marcelo Soares sobre como abusar das várias ferramentas do Google (Docs, Maps, Calendar etc.) para facilitar a vida de quem faz uma apuração (mais ainda daqueles que apuram em grupo, como será o caso dos trainees).
Ele disse muita coisa interessante sobre cada um dos aplicativos, que ainda poderão render novos posts. Mas neste post quero falar de uma dica que ele deu e considerei valiosíssima.
Para aprender de verdade a mexer nesses programas, só fuçando, certo? Sempre fui dessa teoria em relação a qualquer programa de computador, na verdade.
Só que não dá pra perder várias horas da sua apuração e do seu trabalho só fuçando e aprendendo na marra o que você vai precisar pra ontem.
Também não é bom fuçar sem ter a possibilidade de errar à vontade, até que os ponteiros estejam acertados, as pontas estejam aparadas e você realmente tenha conseguido dominar o bicho (off: eis uma coleção de clichês numa mesma frase).
Mas não dá pra errar o tempo todo quando você está trabalhando, né.
Então a dica do Marcelo foi a seguinte: aprenda, primeiro, testando um hobby seu. No caso dele, viciadíssimo pela banda Deep Purple, ele aprendeu a explorar as planilhas do Google Docs armazenando as datas de todos os shows que a banda já fez desde a década de 60. Aprendeu a mexer no Google Maps marcando os lugares onde ocorreu cada show. Aprendeu a mexer no Calendar criando uma agenda com os aniversários de cada membro da banda, ou a data em que cada disco foi lançado.
Enfim, como ele bem disse, é muito mais fácil aprender na hora da diversão -- sem compromisso, e podendo errar à vontade -- do que na hora do vamos-ver, em que você precisa trabalhar de forma mais rápida e eficiente possível para agilizar sua apuração.
Você tem um hobby? O torcedor do Galo pode, por exemplo, registrar num mapa onde ocorreram todos os jogos do Atlético-MG contra outro time. E assim por diante
Como todo hobby, será feito fora da hora de trabalho. Ao chegar no jornal, você já terá dominado da forma mais divertida possível aquilo que precisa saber para as horas "sérias" do dia (e não menos divertidas )
A melhor notícia do dia pra mim: o site que os trainees fizeram na 46ª turma, sobre o AI-5, acaba de ser indicado como um dos cinco finalistas ao prêmio de internet da fundação do García Márquez, a FNPI.
É um dos prêmios mais importantes da América Latina.
O vencedor só vai ser conhecido na cerimônia de premiação, no México, dia 1º de setembro.
Hoje de manhã a Ana continuou a conversa com os trainees sobre pautas. Elegeu a seção "Comida", feita pela repórter JANAINA FIDALGO, como um espaço que, apesar de fixo, é exemplo de noticiário com temperatura e com pautas instigantes.
Os trainees ficaram curiosos para saber como surgiu a pauta de hoje, que ocupa a página 6 da Ilustrada, sobre um projeto que aproxima consumidores e produtores de alimentos e que levou um grupo de pessoas para "plantações" de shiitake (assinantes leem AQUI).
"A de hoje surgiu há mais de dois anos, por incrível que pareça!
Fui um dia conhecer o Friccó – e calhou de ser nessa época em que ele estava recebendo os produtores lá. Fiquei encantada com a ideia do queijo produzido ali, na frente dos clientes. Um tempo depois, entrevistei o Sauro para uma reportagem sobre carne de cavalo e comentei que tinha gostado da ideia do queijo.
Ele contou que tinha um projeto maior, de levar os clientes para conhecer os produtores 'in loco'. Deixei claro meu interesse em fazer uma reportagem sobre isso, mas, à época, ele estava com problemas de saúde e, por isso, avisou que demoraria para tocar o projeto. Ficou combinado, porém, que me avisaria quando fosse fazer.
Acho que foi a pauta mais demorada que eu já fiz, entre a ideia e a realização."
Dá para tirarmos daí que nem toda boa pauta cai em nosso colo: na verdade, a maioria vem com o esforço, a dedicação do repórter, seu relacionamento com as fontes, paciência, a demonstração de interesse por comentários curiosos etc. Outra coisa: esta foi uma exclusiva da Janaina. Só a Folha deu. Então não foi uma assessoria de imprensa de um restaurante chique que distribuiu releases para todos os jornais e levou um grupinho de jornalistas para fazerem a mesma matéria. E esse é um diferencial.
Aí estão, agora em versão multimídia! (Mas não reparem na tremedeira, a câmera-girl tinha tomado muito café )
Os 12 novos trainees da Folha contam um pouco de si: de onde vêm, por que estão aqui, para onde querem ir. As músicas da trilha sonora foram escolhidas a dedo, seguindo o gênero favorito de cada um. As frases de abertura foram escritas por eles em uma breve apresentação que fizeram para os jornalistas da Folha.
Os trainees aparecem em ordem alfabética:
Andressa Taffarel Carolina de Andrade Santos Felipe de Brito Caruso Flávia Florentino Marcondes dos Reis Guilherme Godoy Chammas Iuri de Castro Tôrres Jean-Philip Albert Struck Juliana Vaz de F. M. Batista Marco Rodrigo Miranda Almeida Marcos Grinspum Ferraz Mariana Pinheiro Ciossani Versolato Samia Barbosa
Nessa primeira semana de treinamento, os trainees aprendem o que é pauta e como encontrá-la, fazem mil exercícios para trabalhar essa habilidade de enxergar pautas e conversam muuuito com a Ana a respeito.
Porque não é fácil. Eu acho uma das tarefas mais difíceis no jornalismo. Muitos concordam, acho.
E ainda tem aqueles – raros, deus queira – que nunca acham e preferem inventar. Como um deputado estadual da Amazônia que apresenta um programa de TV policial e é suspeito de encomendar crimes para melhorar sua audiência. Se a história cabeluda se confirmar, será só mais um a morder o cachorro em vez de descobrir um cachorro mordido, como conta o Marcelo Soares. A Ana pôs no blog um caso parecido que aconteceu antes.
Mas os trainees aprendem a fazer pauta real, não fictícia (essa a gente deixa pra ficção, né?). Querem aprender também? Vários posts falaram disso. Alguns:
O ideal é deixar para olhar este site, o Intute, quando estiver com tempo.
É uma coleção sensacional de recursos de pesquisa em diversas áreas. Os caras explicam quais fontes são mais confiáveis que outras, separam as fontes por áreas, ajudam a otimizar a pesquisa pra evitar aquelas horas em vão googlando a esmo.
[já não sei mais de onde veio a dica original. Acho que veio do meu prof ALEC DUARTE, por isso o crédito vai pra ele, justa ou injustamente]
Meu leitor Ramiro pediu, e a Folha Online acatou: vamos fazer um bate-papo sobre o livro na quinta às 17h (saiba mais aqui).
{comentário lateral: aquela foto que eles puseram na chamada pro bate-papo tá bem velhinha. Não tenho mais aquela cabeleira comprida, não. Em compensação, tenho uns dez aninhos a mais... }
Mais de 500 jornalistas se inscreveram num concurso recente para umavaga de repórter na Folha. Essa é uma amostra de como é disputado o mercado da comunicação. Uma das formas de se destacar e passar, pelo menos, pelas primeiras triagens, é fazendo um currículo que destaque, de forma sincera, suas principais habilidades.
Se você já trabalhou ou estagiou em algum lugar, coloque as experiências profissionais antes da graduação – caso contrário, você será visto como um estudante
Tente colocar os mais recentes trabalhos no topo, os mais antigos embaixo. Reserve o topo para sua principal experiência profissional
Dê mais destaque aos cargos mais importantes que você desempenhou. Em vez de dizer "estagiário do veículo X, mais tarde atuando como editor-assistente", faça o contrário
Cuidado com os detalhes, especialmente se a vaga que você quer é de redator. Cheque mil vezes: alguns editores cortam um candidato se virem um único erro em seu currículo – afinal, dali podem vir muito mais erros nos fechamentos diários
Coloque os prêmios que tiver recebido
Se a vaga for para contratação em tempo integral, não dê tanta ênfase aos seus múltiplos trabalhos freelancers: o contratante pode pensar que você tem lealdade dividida, ou que terá que competir por sua atenção.
Mais alguns pontos que podem ajudar
Use critérios jornalísticos na hora de montar seu currículo: comece pelo mais importante/interessante, mantenha o foco, seja completo, preciso e correto e não gaste o tempo de seu leitor inutilmente. Na prática, isso quer dizer o seguinte:
Cada vaga aberta exige competências diferentes. Mesmo que você já tenha um currículo pronto, talvez seja bom alterar a ordem das informações a cada oportunidade. Se é uma vaga para repórter de polícia e você estagiou justamente nessa editoria em algum veículo, dê destaque a essa informação. Mas, se a vaga é para cobrir artes plásticas e você fez um curso de especialização em história da arte --ou dois semestres de arquitetura antes de trocar de curso--, isso é mais relevante que o estágio.
Pelo mesmo motivo, discordo um pouco da primeira dica do Poynter ali em cima. O ideal é refletir sobre qual é seu ponto forte. Se estagiou ou trabalhou em veículos relevantes, que estão diretamente ligados à área em que está tentando a vaga, vale a pena abrir logo com essa informação. Mas a regra não vale sempre. Digamos que está concorrendo para redator de economia, você fez estágio numa boa revista de saúde e trabalha há um ano em assessoria de imprensa. Por outro lado, formou-se numa ótima faculdade e fez recentemente um curso de economia para jornalistas reputado. Vale mais à pena, neste caso, abrir com sua formação e deixar a experiência profissional para um segundo passo.
Se não trabalhou em jornalismo ainda, faça um parágrafo breve contando para o selecionador por que ele deveria chamá-lo para um teste mesmo que você não tenha experiência. Os motivos podem ser vários, cada um saberá o seu. Pode ser porque você se especializou em determinado assunto, porque aprende rápido ou porque se alfabetizou lendo as colunas do cara que seria seu editor se você conseguir aquela vaga
Vale lembrar que é possível ter prática profissional mesmo sem ter tido um emprego (veja aqui e aqui - obs: no pé deste último link há uma lista de links sobre como começar a trabalhar)
Mesmo que esteja precisando muito de trabalho, não suplique. Isso nunca dá certo. (leia mais neste post)
Seja breve e objetivo. Editores têm pouco tempo sobrando e vão agradecer se você os ajudar a poupá-lo.
Não anexe certificados, matérias ou outros textos a não ser que isso seja expressamente requisitado. Se tiver feito reportagens exemplares, premiadas, ou tiver participado de coberturas relevantes (eleições, grandes tragédias, coberturas internacionais), mencione isso e inclua os links.
Revise direito seu currículo. Erros de português são fatais para qualquer candidato a jornalista, não só para quem quer ser redator. Um erro muito comum e horrendo é usar a crase errada nas datas: "de 1989 à 2002". Isso é morte certa.
Parece óbvio, mas nunca se esqueça de colocar e-mail e telefone celular. O selecionador pode precisar marcar um teste para amanhã ou até mesmo pra hoje à tarde, e você precisa garantir que ele consiga encontrá-lo.
Apesar de todas essas dicas, não há receita mágica nem fórmula certa. Tudo vai depender das afinidades e preferências da pessoa que lerá os currículos. Também faz muita diferença se essa primeira triagem for feita por um jornalista ou por um profissional de RH (leia aqui sobre o que um editor leva em conta na hora de selecionar).
Por fim, não se deixe abater se não for chamado.
Quase nunca a recusa se deve a uma falha sua. Ocorre apenas que havia outro candidato cujas qualidades foram mais bem avaliadas pelo selecionador --é o que eu chamo de "efeito Diego Souza" (saiba mais neste post).
Quando for possível, escreva para o editor dizendo que, mesmo sem ter conseguido aquela vaga, você está à disposição caso ele precise de frilas (e, se tiver uma boa pauta, já ofereça).
Persista. Continue investindo em você. Sempre há oportunidades para quem está realmente decidido a fazer um bom trabalho (veja aqui uma boa história real sobre isso).
Achei incrível coincidência que o leitor João Carlos tenha mandado um e-mail 15 minutos antes de a Ana postar (abaixo), para sugerir a mesma reflexão.
Ele acha que o repórter deve estar sempre aberto ao acaso, que pode vir das mais variadas formas: numa conversa com o taxista, numa anotação em livro de biblioteca, num telefonema por engano (este foi o exemplo do João).
O João deu um exemplo bem legal, vivido por seu avô Antonio Lopes, que também era jornalista e exortava os colegas a cumprimentarem seus vizinhos:
"Isso porque ele tentou uma entrevista exclusiva com a cantora Maysa, no auge do sucesso dela, tendo que viajar ao Rio de Janeiro, buscando informações e tentando encontrá-la em diversos locais – não conseguiu.
Alguns dias depois, encontrou Maysa no elevador, às 2h da madrugada, a saber que ela era a moradora de dois andares acima de seu apartamento, num prédio aqui em S.Paulo, na rua Rego Freitas, 501 da Vila Buarque (quando o centro da cidade ainda era um lugar habitável)."
Para fechar, uma frase-de-caminhão: a sorte só vem para quem está aberto a recebê-la.
Jornalista que quer ser repórter sai na frente se gostar de conversa.
Sabe a senhora na fila do banco que puxa papo sobre o problema da vizinha? O tio-avô que sempre conta um caso? O taxista que usa mais a boca que o acelerador?
Acha tudo isso enervante? Está perdendo boas chances de pauta.
Testei com um blog que eu tinha, e só converteu 16 páginas (das mais de mil). Mas é útil para quem está começando um blog agora, por exemplo.
Adendo da leitora Márcia, para quem usa Mozilla Firefox: "Basta ir em https://addons.mozilla.org/en-US/firefox/addon/7528 e baixar o plug-in PDFit. Na página mesmo, você vai em 'Ferramentas' e pede para transformar a página em PDF."
Mais uma dica, do Takata: O PDF995 permite converter qualquer arquivo em pdf - ele é um plugin que se instala como driver de impressora. Basta escolhê-lo na saída de impressão e ele converte o arquivo em pdf. http://www.pdf995.com/ (A versão gratuita apenas abre uma janela de publicidade. Funciona para MS Windows 7, Vista e XP.)
A Confederação Israelita do Brasil e a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação dão o curso “Jornalismo e Oriente Médio”, entre os dias 24 e 28 de agosto, das 11h30 às 13h30, na Estação Brigadeiro da Intercom (av. Brigadeiro Luis Antônio 2050, 3° andar, SP).
O curso é para profissionais ou estudantes de comunicação que, para receber um certificado de participação, deverão ter uma freqüência mínima de quatro palestras.
A recém-trainee ESTELITA CARAZZAI conta dois posts pra baixo como sentiu na pele o peso de ser jornalista num veículo de repercussão.
Esse peso pode assumir várias formas.
Se você faz uma reportagem de serviço, que responde a dúvidas que muitos leitores tinham, é só alegria: chovem mensagens de agradecimento.
É assim também quando você conta uma história legal, divertida, ou um caso de superação.
A coisa complica quando sua reportagem trata de um tema em que há conflitos de interesses.
Um caso concreto: a indústria do amianto.
Amianto é um mineral que, quando inalado --em forma de poeira--, pode provocar câncer, mostram pesquisas.
Grupos ambientalistas e ligados à saúde tentam banir a produção e o uso do material no Brasil --como já fizeram outros países.
Isso tudo é informação já conhecida e já tratada em várias matérias.
O fato é que, no Brasil, ainda há uma mina de amianto. É a única que restou no país, a maior da América Latina, e, a despeito dos esforços contra a substância cancerígena, não dá sinais de fraqueza.
Uma pauta possível, portanto, é mostrar como funciona do ponto de vista econômico e político a última fronteira do amianto no país. Como consegue crescer apesar das restrições --exportando, por exemplo-- e como se arma contra os grupos oponentes --financiando campanhas, patrocinando manifestações, não repassando ao governo dados sobre a saúde de seus funcionários.
Faz parte da matéria mostrar que a cidade em que está a mina depende inteiramente dessa empresa --e que a imensa maioria de seus moradores defende a exploração do mineral. E, ainda que os críticos no local sejam minoria, é fundamental dar voz a eles. E ouvir a empresa.
Mas o fato de ser uma reportagem de economia não a deixa imune a críticas de grupos ambientalistas ou de saúde.
Por quê?
Porque faz parte da luta desses grupos aproveitar as oportunidades que tiverem para passar seu recado.
Dá pra evitar críticas, então, em matérias como essa? Não. Não há vacina 100% eficaz. Mas há cuidados a tomar toda vez que formos cobrir assuntos em que há conflito de interesses (e eles são muito comuns em quase todas as editorias):
estabelecer claramente qual é o objetivo da pauta. Uma matéria sobre a indústria automobilística pode falar sobre o crescimento das vendas ou sobre a participação do setor no aquecimento global. É preciso ter claro qual o foco da apuração. O que é notícia. O que se pretende abordar
estabelecer claramente quais os interesses envolvidos no tema
depois de pronta a matéria, refletir sobre que peso ela dá para as diversas partes envolvidas
O objetivo aqui não é fazer uma reportagem que agrade a todos. Isso é impossível e nem é o objetivo de um jornal.
O que os passos acima procuram fazer é tornar sólidos, resistentes, os argumentos jornalísticos que justificam a publicação de uma matéria, ainda que ela venha a desagradar a gregos, a troianos ou aos dois.
Quanto mais quente um assunto, mais provável é que as críticas venham, mesmo, e de todos os lados.
Se estivermos seguros do que fizemos, basta responder a elas com calma, educação e tranquilidade, usando as respostas que obtivemos nos passos acima.
PS - no caso que eu menciono, da indústria do amianto, acho que as meninas foram superequilibradas tanto na apuração quanto na edição.
Mas julguem por vocês mesmos (as matérias estão aqui) e depois me digam o que acharam.
E um comentário final: por mais chato que seja receber críticas --e algumas são feitas em tom muito duro--, a gente não deve temê-las. Elas nos obrigam a refletir e nos fazem aprender.
Uma das pioneiras da investigação jornalística com recursos de informática, Lise Olsen é entrevistada no blog do Toledo e indica, entre outras coisas legais, quais as novas ferramentas que está usando e que livros vale a pena ler sobre o assunto.
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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