O 4º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que aconteceu entre 9 e 11 de julho, rendeu dez posts aqui no blog, escritos pelos trainees da 47ª turma e por mim.
Mais um post da ESTELITA CARAZZAI, agora contando como foi a palestra de Paulo Totti no Congresso da Abraji:
"O veterano jornalista Paulo Totti (ex-Última Hora, ex-Veja, ex-Gazeta Mercantil e atual repórter do Valor) deu dicas preciosas sobre como aprimorar o texto jornalístico, tema de sua palestra no congresso da Abraji.
A principal, a meu ver, é simples, e passa longe de conceitos literários: segundo Totti, a chave para um bom texto jornalístico é a informação. 'Quando se tem informação', diz o jornalista, 'pode-se ser extremamente criativo. Sem apuração, você pode ser um cronista, um ficcionista ou romancista, mas não um jornalista'.
Em compensação, é claro, é obrigação do repórter saber escrever. Como diz Totti, 'se você só apura, é detetive'.
O problema, diz ele, é que os editores de hoje (em sua maioria) não estão preocupados com que os repórteres escrevam bons textos. Quando um editor liga para seu repórter na rua, geralmente o que ele quer saber é: 'Qual é o lide? A que horas você volta? Quantos centímetros vai dar?'.
Ele não pergunta com quem você falou, que detalhes você observou, não sugere uma apuração extra que pode enriquecer o texto. A preocupação dele é outra.
Como resposta à falta de prioridade que tem o bom texto na imprensa hoje, Totti aconselha: 'A única forma de resistir à mediocridade é tentar se impor pela qualidade'. Ou seja: se esforce para ir além do feijão-com-arroz, proponha textos diferentes, esteja preparado para levar muitos 'nãos' do seu editor e continue resistindo, produzindo sempre um bom material jornalístico. Uma hora, você verá, a qualidade do seu trabalho vai se impor às resistências do editor.
Totti avisa, porém: o objetivo do repórter não deve ser agradar o editor. Seja amigo do leitor. É a ele que você tem o dever de agradar, com um texto repleto de informações e prazeroso de se ler.
Uma dica prática, para finalizar: descreva o ambiente. 'O repórter que não observa é um chato, porque só se baseia em aspas. Aí, o leitor te abandona!'."
Aproveitando o post de ontem sobre como os editores e redatores complementam bem o trabalho dos repórteres, trago para o blog o comentário que o leitor João Varella fez há duas semanas:
"Na minha visão, nem sempre bons repórteres dão bons editores. O contrário também e comum, há casos de novatos que têm o feeling para o cargo e deveriam ser içados o quanto antes. Acho que na maioria das redações rola uma coisa meio militar, de tempo de serviço para subir de cargo. Uma bobagem tremenda, convenhamos."
Acho que não é o caso da Folha, porque tem muito editor e editor-assistente relativamente novo por aqui. Mas o João levanta questões interessantes: qual o critério para que um jornalista seja escolhido para o cargo de editor? Todo repórter antigo pode dar em bom editor? Um jornalista com pouca experiência é capaz de arcar com as responsabilidades de um editor?
O que vocês acham? Como é no jornal de vocês – há essa "hierarquia militar" que o João aponta?
Eu estava pesquisando quantas vezes a Ana já falou de títulos aqui no blog.
Foram vários posts, muitos mesmo, mas quase sempre sobre aspectos dos títulos em jornais impressos.
Para variar um pouco, vou falar dos títulos para internet. Achei um post legal, no site Modern Life, com dicas que fazem algum sentido:
Procure usar palavras e expressões atraentes para o maior número de leitores. "Al Jazeera", por exemplo, é muito mais instigante que "Emissora de TV do Qatar".
Faça um resumo de todo o artigo no título. Eles dão bons exemplos: em vez de dizer "Cientistas fazem experimentos de transplantes de células", diga "Cientistas implantam orelha humana nas costas de um rato" (ou o que for).
Proponha uma questão, ou uma opinião travestida de pergunta. Isso funciona bem em web: "Será que o Zune é melhor que o iPod?" funciona mais que "Zune não é muito melhor que iPod".
Use listas para ganhar o interesse dos leitores: em vez de "ótimos filmes lançados no ano passado", experimente "os 10 melhores filmes de 2008".
Como prometido, coloco as impressões de ESTELITA CARAZZAI sobre a palestra da Eliane Brum:
"Fui tomada pela perplexidade quando a repórter especial Eliane Brum, da revista "Época", começou sua palestra no congresso da Abraji. Em meio a palestrantes-jornalistas sempre 'tensos', dominados pelo entusiasmo de grandes investigações e furos nacionais de reportagem, Eliane parecia vir de outro planeta.
Ela conduziu a palestra 'Jornalismo sobre a extraordinária vida comum' lendo, em voz suave e interpretada, histórias de personagens que havia conhecido em sua carreira. Entre uma leitura e outra, lembrava da importância de procurar entender, como repórter, o que dá sentido à vida das pessoas – e colocar isso no papel.
Eliane Brum, definitivamente, tem uma relação diferente com o jornalismo, distante das obsessões dos furos e dos grandes temas nacionais. Ela encara a profissão como uma missão: para ela, ser repórter é um jeito de estar no mundo, e empobrecê-lo é criminoso.
O mais interessante é que não são posturas inconciliáveis com o hard news: saber tratar temas com profundidade, saber ouvir, ter responsabilidade com o que escrevemos é comum (ou deveria ser) tanto a jornalistas como Eliane Brum quanto àquele que cobre o buraco da rua tal."
Já teve a impressão de que um texto que você escreveu saiu publicado de forma muito melhor, mais bem estruturada e inteligível?
Bons redatores e editores fazem toda a diferença para o resultado de uma boa reportagem. Quanto maior o texto, mais visível costuma ser essa diferença.
A Vanity Fair deu um exemplo imperdível: pediu a um editor e aos departamentos de pesquisa e revisão para editarem o discurso de renúncia de Sarah Palin.
O resultado foi um texto muito mais enxuto, com várias amostras de como o original tinha palavras dispensáveis, e com correções de informações.
Se o texto da ex-governadora do Alasca – que devia ter pessoas muito bem pagas para escrever seus discursos – pôde melhorar tanto, imagina como os textos que recebemos nos jornais de cada manhã não poderiam estar bem melhores, se houvesse tempo de editá-los e reeditá-los o máximo possível.
O blog do José Roberto de Toledo, que já indiquei NESTE POST, traz hoje uma dica muito útil sobre o sistema de informações organizacionais do Governo Federal, o Siorg.
Ele explica como achamos os ocupantes de cargos públicos, mesmo sem saber seus nomes.
Também como baixar a lista completa do funcionalismo.
Até chegar ao endereço e telefone de cada um.
CLIQUE AQUI para ler o passo-a-passo. E AQUI para adicionar o Toledol em seu Google Reader. Ele já escreveu 12 posts, geralmente sobre uso de banco de dados e RAC.
Fazia tempo que eu não colocava nenhum humor no jornalismo, né. Este foi dica do ALEC DUARTE
Imaginem como seria a cobertura da mídia se o homem tivesse pisado na Lua não há 40 anos, mas hoje.
Vários tweets superando de longe o dia da morte do Michael Jackson, enquetes online ("Qual seu astronauta favorito?"), cobertura mundial das manifestações nas praças e ruas planeta afora, podcasts ao vivo dos homens no espaço, um show para ninguém botar defeito.
Esta lista foi feita pelo Journalism.co.uk, então trata-se de jornais britânicos no Twitter. Como muitos deles são bons, vale divulgar por aqui. Tem Guardian, Financial Times, Telegraph, Independent, Times, Daily Mirror, Daily Mail e The Sun.
"A maioria dos sites de notícias são bagunças desenhadas de forma pobre, onde as histórias ficam enfiadas em qualquer canto do site sem nenhuma consideração pelo leitor. Aqueles que apenas querem navegar pelas últimas manchetes são obrigados a vaguear num mar de textos indecifráveis."
Meio dramático, mas o que interessa é que eles dão cinco dicas de bons sites de notícias que unem conteúdo com um visual prático:
Gosta de infográficos ou trabalha com isso? Tem Google Reader?
Este post é pra você, então: CLICANDO AQUI, você vai ver uma porção de feeds para sites e blogs sobre infografia, para você acompanhar e se manter sempre atualizado.
Alguns exemplos do que vi enquanto explorava os links:
Agora a FLÁVIA MARTIN fala de outra palestra do Congresso da Abraji:
"Despejar uma porção de números na cara do leitor é receita certa para uma reportagem "solada". O jornalista Claudio Julio Tognolli, repórter especial do site Consultor Jurídico, colaborador de revistas como "Galileu" e "Rolling Stone", e professor da USP e da Fiam-Faam, mostrou no congresso da Abraji sua metodologia que pode ser um caminho para uma matéria mais saborosa.
Tognolli elencou três dimensões principais que toda reportagem, segundo ele, devem ter:
1) Positivista
2) Marxista
3) Fenomenológica
Tognolli pegou uma reportagem que escreveu para a revista "Galileu" sobre a maconha, na qual discutia a liberalização dela, e a fatiou segundo a metodologia.
A primeira dimensão, a positivista, é a tal que contém o "gancho" jornalístico, os números, os dados que contextualizam e dão a dimensão do fenômeno. No caso da história da maconha, Tognolli dava uma entrevista com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, defendendo a liberalização da droga, e também mostrava o dinheiro que circulava da venda, as diferentes cotações da droga pelo Brasil., o número de pessoas que morrem em decorrência da proibição etc.
A segunda, a marxista, mostra as relações de trabalho e de capital de uma atividade de mercado qualquer. No exemplo da maconha, quem era envolvido no tráfico, a hierarquia, a cadeia produtiva e outros quetais.
Já o último é o que traz a bossa a tudo acima. A parte fenomenológica é onde entra a criatividade do repórter para "humanizar" a história, seja por meio de um bom personagem ou, como Tognolli disse gostar de fazer, propondo uma imersão no fenômeno (em outra reportagem para a mesma revista, ele passou dois meses tentanto viver de acordo com os mandamentos bíblicos).
No caso da matéria sobre a liberalização da maconha, Tognolli usou a história de uma ex-aluna dele que havia se transformado na rainha da erva na Califórnia."
Outros posts sobre o 4º Congresso de Jornalismo Investigativo:
Foi uma conversa muito rica sobre o funcionamento da BBC e vários outros tópicos ligados ao jornalismo multimídia.
Separei em tópicos bem resumidos:
1. Estrutura da BBC
Ela não é estatal, é pública. Foi criada nos anos 20. Tem um orçamento fixado a cada dez anos e pago pelos contribuintes britânicos. Isso garante sua independência editorial, que é o que "justifica sua existência".
Possui 2.000 jornalistas no exterior e atua em 33 línguas diferentes.
2. Mundo ideal
Ele acha que, pelo bem da democracia, todos os lugares deveriam ter empresas fortes de comunicação nos três moldes: públicas, estatais e privadas.
3. Redação multimídia
Todo mundo da BBC de Londres é treinado para TV, rádio e online. "Redação 100% multimídia."
Alguns são capazes de ir cobrir uma matéria e, sozinho, fazer os textos, os podcasts e os vídeos. Mas, dependendo da cobertura, vai uma equipe com especialistas em cada área.
4. Dicas para o online
Não só jornais, mas também a TV está perdendo para o online, especialmente na camada de usuários mais jovens.
No online, mais que tudo, é preciso não complicar na hora de escrever: uma frase por parágrafo e uma idéia por frase são o ideal.
Há estimativas que indicam que as pessoas só lêem os quatro primeiros parágrafos dos textos.
Dentre as questões abordadas, uma que nunca falta nas perguntas dos estudantes de jornalismo: é ético usar câmera oculta?
Ele diz que sim, se o interesse público for grande, se houver cuidado com quem está sendo exposto, se houver um plano e se for o último recurso (ou seja, se não for possível fazer a reportagem sem a câmera oculta).
6. Coberturas de risco
Ele disse que há um "time para situações de altos riscos" na BBC, que discute as medidas necessários que o repórter que vai para uma guerra deve tomar.
Antes, o repórter precisa preencher um formulário enorme e burocrático que, por seu turno, o força a pensar e se preocupar sobre sua segurança.
7. Para cobrir internacional/Mundo
É preciso entender o mundo com outros pontos de vista.
"A BBC é a ONU do jornalismo", porque tem jornalistas de várias partes do planeta. Isso ajuda na troca de idéias e de experiências.
Duas dicas pra quem quer cair nessa área: ler de tudo (jornais e revistas de vários países, livros de várias partes do mundo) e viajar muito.
8. Mestrado
Americo fez um mestrado que o ajudou a cobrir internacional. Foi na City University.
Ele conseguiu uma bolsa, na época. Para saber mais a respeito, CLIQUE AQUI.
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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