Num dos pontos do post abaixo, falamos que os especialistas que consultamos nunca são isentos e deveríamos colocar na matéria quais são suas posições históricas, para quais entidades trabalham, qual o perfil dessas entidades etc.
Isso ajudaria o leitor a perceber se há pluralidade no veículo que lê e a partir de qual ponto de vista aquele especialista analisa o fato.
Ou seja, é a mais pura informação.
Minha amiga Rachel Soares deu a dica para um post do Leonardo Sakamoto em seu blog, há uns dois meses. Falou do mesmo assunto, mas com outra abordagem.
Ele acha que há algumas fontes que são sempre procuradas pelos jornais. Seja porque atendem melhor os jornalistas, seja porque são considerados papas daquele assunto etc.
O problema disso é que, além de as análises ficarem cada vez mais parecidas e os jornais pouco plurais, o leitor nunca sabe qual a trajetória daquele especialista e por que ele é sempre consultado. O máximo que colocamos é que fulano é doutor em alguma coisa, ou que dá aulas em tal universidade.
Mas alguns são filiados a partidos políticos, outros dão consultoria a algum setor, outros são tradicionalmente de esquerda ou de direita, outros são ligados à igreja etc. E o leitor nunca é informado de nada disso.
Um trecho:
"Quando você escolhe um entrevistado e não outro está fazendo uma opção, racional ou não, por isso a importância de ouvir a maior diversidade de fontes possível sobre determinado tema. Fazer uma análise ou uma crítica tomando partido não é o problema, desde que não se engane o leitor, fazendo-o acreditar que aquilo é imparcial.
Infelizmente, muitos veículos ou jornalistas que se dizem imparciais, optam sistematicamente por determinadas fontes, sabendo como será a análise de determinado fato. Parece até que procuram o especialista para que legitime um ponto de vista. Ou têm preguiça de ir além e fugir da agenda da redação, refrescando suas matérias com análises diferentes."
Partindo daí, ele criou uma lista dos especialistas mais consultados pelos veículos.
É importante dizer que muitos especialistas são, realmente, papas num assunto, e é muito importante ouvir o que têm a dizer. A ressalva é só para que tentemos buscar fontes diferentes, e, ao consultá-las, explicitar quem são, realmente.
Quais outras pessoas podem entrar nessa categoria? Vamos montar nossa própria lista?
Ela mostrou dez exemplos de reportagens de jornais estrangeiros (NYT, Financial Times e Wall Street Journal) que continham alguns destes recursos de contextualização:
Localizar a notícia no histórico de posições do protagonista
Localizar a notícia no espectro de posições sobre o tema
Localizar a notícia segundo antecedentes históricos
Interpretar circunstâncias e indicar a importância da notícia (ineditismo, potencial de mudar paradigmas, jurisprudência etc)
Expor possíveis conseqüências e desdobramentos do fato
Uma coisa todos os dez textos tinham em comum: tratavam de hard news, de notícias acontecidas na véspera mesmo, que não deram ao repórter a chance de apurar por um longo tempo.
Ela quis mostrar, com isso, que a correria do jornal não pode ser desculpa para não se fazer um texto contextualizado e analítico, como devem ser os textos de jornais impressos. Que dá pra fazer, dá.
Nos textos que ela escolheu (com links), há ainda outros recursos importantes:
Aqui, em vez de dizer que Obama "era muito próximo do pastor", expressão vaguíssima usada por alguns veículos, os repórteres apontaram fatos concretos que demonstravam isso ao leitor. Por exemplo, que o pastor celebrou o casamento de Obama e batizou suas duas filhas.
O jornal opta, nesse caso, por evitar adjetivos e juízos de valor, como "radical" (radical em relação a quê?). Prefere falar objetivamente e deixar que o leitor tire suas próprias conclusões.
Nesta matéria, a Claudia aproveitou para mostrar uma prática muito comum nos EUA e pouco usada aqui: ao citar um especialista, mostrar que eles não são neutros, também têm interesses e posições.
No Brasil, temos a mania de fazer justamente o contrário: ouvimos vários analistas (que nunca são neutros, claro) e não destacamos suas posições, não os localizamos, como se fossem uma entidade plenamente isenta. (O problema pode ser a falta de espaço...). Vou falar disso em outro post.
Nesta matéria, o repórter evita trazer um amontoado de declarações de uma coletiva que já ocorreu na véspera e provavelmente tinha repercutido nos meios eletrônicos. Em vez disso, interpretou as conseqüências e analisou o debate. Boa dica: fuja do diz-que-diz e do blá-blá-blá, muito comum em cadernos de política.
Aqui, numa notícia de aquisição de um grupo por outro, o Wall Street Journal optou por, primeiro, mostrar tanto as implicações no mundo dos negócios quanto na geopolítica (trata-se de empresas chinesa e suíça). Só depois, falou quanto custou o negócio e os outros dados técnicos da compra, que costumam estar em nossos lides.
Dica do leitor Roberto Takata: a "Nature" produziu um suplemento especial só sobre jornalismo científico, com a vantagem de ter vários links para outros artigos da revista sobre o mesmo assunto.
O José Roberto de Toledo, coordenador da Abraji, criou um blog.
Como alguém que trabalha com técnicas de reportagem com auxílio do computador (RAC) e jornalismo investigativo há tanto tempo, ele terá muitas preciosidades para dividir com a gente.
Além disso, colocou a lista das dez empreiteiras que mais receberam dinheiro do governo federal no ano passado (e como fazer para rankeá-las), esmiuçou os números distorcidos que a Secretaria Estadual da Saúde de SP divulgou (chamando a atenção para o necessário olhar crítico) e sugeriu que tratássemos de colecionar CPFs e CNPJs para futuras investigações (mostrando algumas formas de encontrá-los na internet).
Apesar de se dizer briguenta, Eliane Brum, repórter especial da "Época", fala baixinho, bem devagar, com a voz frágil.
E ela começou a palestra sobre a "extraordinária vida comum", no Congresso da Abraji, dizendo que o repórter deveria ir à rua em busca da fragilidade e da delicadeza dos outros.
Para ilustrar sua posição, a repórter leu, para uma sala sem lugares vazios, um monte de crônicas e reportagens que escreveu desde os tempos de "Zero Hora". Falou, por exemplo, da incrível galinha detida em atitude suspeita.
Permeando essas histórias, ela soltou alguns pensamentos que achei muito interessantes e anotei para compartilhar com vocês:
Nós, jornalistas, construimos um documento diário, um relato da nossa vida contemporânea, da nossa sociedade. Se fazemos de forma mal feita, preguiçosa, reduzimos nosso lugar no mundo e, de forma criminosa, deixamos para a posteridade uma história distante da realidade.
Nós reproduzimos uma das visões de mundo, uma das verdades. Determinamos quem deve ser visto e quem não deve. Com isso, a mídia, através de nós, mantém desigualdades. Não podemos ser ingênuos.
Um repórter deve aprender a olhar e a escutar. Inclusive os "desacontecimentos" e os anônimos.
Cada vez mais se faz matéria por telefone ou e-mail. É preciso resistir à pressão do chefe. Ir para a rua é a melhor coisa para um repórter.
O real é complexo e temos a obrigação de reproduzir essa complexidade, com todas as suas palavras – mas também com os gestos, os silêncios, os cheiros, as cores, as texturas. Se entrevistamos por telefone, podemos reproduzir só as palavras, só as aspas. Com isso, reduzimos o mundo.
É preciso anotar tudo o que está acontecendo durante a entrevista – não só as palavras – para reconstruir toda a complexidade depois. As pessoas falam também com o corpo.
Mais importante que saber perguntar é saber escutar a resposta. O pior repórter é o que termina a frase pela pessoa, interrompe para completar ou porque acha que a pessoa não está dizendo o que ele quer ouvir. "Tenho aprendido a perguntar cada vez menos e ouvir cada vez mais." A pergunta já impõe nossa narrativa, dá uma linha. Temos que deixar a pessoa começar pelo que ela acha que é o começo e deixar contar o que quer contar.
É preciso respeitar a palavra exata. A escolha que o entrevistado faz de cada palavra já é, por si só, informação importante.
O espanto é o melhor da nossa profissão. "Sou pautada pela obrigação de olhar e estar aberta para o espanto."
Nunca resistam a rodinhas de pessoas. Cheguem lá pra ver de que se trata. Deve ser pauta.
Repórter não pode nem ser blasé, nem burocrático. Na rua, quem manda no repórter é ele mesmo.
É preciso saber brigar e argumentar com o editor.
Para escrever um texto prazeroso, não basta vomitar palavras. É preciso apurar, cuidar da precisão, da mesma forma que em qualquer texto jornalístico. Para escrever "fazia sol", ela entrevistou cinco pessoas, pedindo que descrevessem o tempo na hora do acontecimento, e ainda consultou três meteorologistas.
Converse com o fotógrafo que te acompanha na pauta, troque idéias, acompanhe até o fim o trabalho dele.
Temos a obrigação de proteger nossos entrevistados. A maioria não tem noção de como a vida vai mudar depois que a matéria for publicada.
É bom já chegar com o bloquinho, ser o mais transparente possível durante as entrevistas, e gravar todas as conversas.
(A ESTELITA CARAZZAI também vai falar desta palestra em outro post, aguardem.)
ANDRÉ DESENSO conta como foi a palestra "Direito de acesso a informações públicas e Mapa de Acesso", no Congresso da Abraji:
"FERNANDO RODRIGUES, da Folha, e Ivana Moreira, do "Estado", falaram sobre os avanços conquistados pelo jornalismo e pela sociedade em geral na questão da transparência no acesso a informações de órgãos públicos.
Eles lembraram que a Constituição Federal prevê, em seu artigo 5º, que "todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade". O problema é que a lei que estabeleceria o prazo ainda não existe, e só com muito esforço um projeto entrou em discussão no Congresso.
Mas enquanto o Brasil não tem um marco legal, os jornalistas mostraram como fazem para conseguir essas informações.
FERNANDO RODRIGUES contou como foi pedir à Justiça as declarações de bens dos candidatos a cargos públicos, projeto que acabou resultando no site Políticos do Brasil e forçou os tribunais a divulgarem os dados espontaneamente. Ele disse que é importante solicitar as informações de uma forma "oficial", pois desse modo o seu destinatário é obrigado a responder a solicitação, mesmo que seja para negar. No site do Fórum de Direito de Acesso, que reúne informações sobre o assunto, é possível baixar um modelo.
Ivana, que faz parte da diretoria da Abraji, mostrou as pesquisas que a associação faz para mensurar como anda a transparência no Brasil. Em 2007 foi feita a primeira pesquisa, que testou a transparência dos três Poderes no âmbito dos governos estaduais. Foi solicitado formalmente informações que deveriam ser de domínio público, como os valores das diárias de hotel pagas para integrantes do Poder Executivo. O resultado: dos 120 órgãos contatados, 54,2% não forneceram os dados, 40% responderam de forma incompleta e apenas 5,8% forneceram tudo o que foi pedido. Veja mais informações sobre essas pesquisas e todos os documentos do Fórum de Acesso."
A dica do dia de hoje é principalmente para quem trabalha em rádio, embora também possa ser útil para quem produz vídeos (inclusive nas redações), ou para diversos outros tipos de trabalhos.
Tomei conhecimento destas duas pérolas nesta semana:
1. Não sabe como pronunciar Mahmoud Ahmadinejad e tem que falar o nome dele para uma reportagem sobre os conflitos no Irã?
Ou um americano dizendo Ike Turner. E assim por diante.
Também é possível comparar diferentes sotaques, como de um canadense, um britânico e um australiano, por exemplo. Ou de um português e um brasileiro.
Enfim, a pretensão deles é cobrir todas as pronúncias de todas as palavras do mundo, inclusive os nomes próprios. Claro que vão fazendo isso aos poucos, mas já registram 311.538 palavras, 226.607 pronúncias (mais de 19 mil em português) e 220 idiomas!
2. Imagine que você tem que criar um vídeo de uma reportagem que fez e pretende colocar no site do seu jornal. Dependendo do tipo do vídeo, mesmo o jornalístico, é bom ter uma trilha sonora.
Se você produz reportagens especiais em série para uma rádio, também é fundamental criar vinhetas.
Mas, para não ter que passar pela amolação de pedir liberação de direitos aos músicos, você pode recorrer à livraria de músicas gratuitas do site FreePlay.
O mais legal é que é possível escolher pelo gênero musical, pelo nome do CD, mas também pela sensação que a música desperta (dramática, agressiva, sombria, alegre, intensa, erótica, triste etc).
Outra palestra a que assisti no Congresso da Abraji foi "As melhores técnicas de investigação nos EUA", com Joe Bergantino e Mark Horvit.
Oito coisas que aprendi com eles:
1. O fundo do Pulitzer Center financia repórteres que querem fazer cobertura internacional, têm uma boa pauta de reportagem, mas não têm dinheiro Foi o caso de uma jornalista aposentada, dona de loja de móveis, que pôde fazer uma reportagem, de grande repercussão, sobre trabalhadores chineses.
2. Quer ter acesso a algum documento público? Tente. Sem tentar, você nunca vai conseguir. Mas conheça bem as leis que garantem seu direito de acesso a informações públicas, para saber argumentar. (Nos EUA, uma ligação ou SMS feitas de telefone pago com dinheiro público são consideradas documento público ).
3. Pegue dados e olhe para eles de novas formas, analise-os com cuidado. Eles podem se tornar uma pauta muito mais abrangente e totalmente diferente. (Sobre isso, vale ler ESTE POST).
4. Seja criativo. eles dão como exemplo o Politifact, que é um jeito criativo de fazer uma velha pauta: acompanhar cumprimento de promessas de campanha com um "obâmetro" e testar a verdade do que é dito pelos políticos. (Ele está entre as ferramentas inspiradoras que eu pus NESTE POST).
5. Eles deram exemplos de jornais pequenos, sem recursos, de cidades muito pequenas, que fizeram investigações profundas. Ou seja: é possível fazer jornalismo investigativo mesmo sem estar no Washington Post.
6. Um dos exemplos que eles deram de grande reportagem veio do esforço do repórter de acompanhar de perto um assunto por várias semanas. E eles advertiram: jornalistas se cansam das pautas e eles mesmos querem mudar, não necessariamente coincidindo com o interesse do leitor. Se você não deixa a história morrer e continua martelando, sem desistir, tem boas chances de conseguir grandes resultados.
7. Falaram também do crowdsourcing: o site TPM postou um enorme documento do governo e pediu aos leitores para ler e mandar as informações que estavam lá, para que os jornalistas continuassem a apuração. Assim contornaram o problema do furo, da falta de tempo, mas não prejudicaram a apuração. Isso é mais rápido, envolve a audiência (que costuma gostar e trazer bons resultados), possibilita uma equipe de repórteres que não existiria. MAS é preciso checar tudo, claro.
8. Simplesmente divulgar uma informação vazada não é jornalismo investigativo, mesmo que seja informação importante, grande furo etc. Jornalismo investigativo é o trabalho autônomo do repórter, apurando sempre, checando o que há por trás (inclusive dessa informação vazada), vendo as implicações todas etc.
Continuando os posts sobre o Congresso da Abraji, conto agora como foi a palestra "Amazônia: problemas, políticas públicas e fontes de informação", com Sérgio Abranches (CBN).
Ele permeou a conversa com as curiosidades sobre o lugar, além de ter dado várias dicas importantes para quem quer ser jornalista da Amazônia.
Vocês vão notar que há pauta de sobra ainda pouco investigada, mas não é fácil cobrir a Amazônia.
O que aprendi com Abranches:
Curiosidades
O único jeito de rastrear gado na Amazônia é implantando chip no gado; brincos são descontrolados ou distorcidos.
O gado na Amazônia não dá dinheiro, então apelam para o narcotráfico.
Com o aumento da fiscalização dos aviões do tráfico, eles passaram a transportar pelos rios, trazendo graves implicações para a população ribeirinha.
Há muito tráfico de animais lá, mas agora os mesmos traficantes também passaram a levar drogas.
A malha viária clandestina, que dá para serralherias ou carvoarias, também é imensa.
A Amazônia é ecologicamente mais importante para o Brasil que para o planeta como um todo.
Há "rios voadores" na Amazônia que afetam muito o clima. O desmatamento faz com que aumentem, inundem, até secarem.
O dinheiro dado para a Zona Franca de Manaus produzir seus aparelhos de barbear e outras mercadorias é suficiente para construir um grande centro biotecnológico.
Dicas para jornalistas
Há muito boas fontes na Amazônia, mas é preciso ter tempo para conquistar sua confiança e tirar o máximo delas.
Use ONGs confiáveis como fontes, mas cheque tudo depois, como faz com qualquer fonte: não existem lados bons ou maus.
Enfrente os mitos da Amazônia com boa apuração.
Funcionários de baixa hierarquia muitas vezes têm informações mais valiosas e estão mais dispostos que os chefes que sempre falam com a imprensa.
Crie expertise: a união entre a ciência e a expedição.
Ou seja: tem que viajar e ver tudo de perto, mas também é preciso falar com cientistas e ler artigos científicos para entender bem.
É fundamental entender a dinâmica da destruição da Amazônia: os nexos, as conexões políticas, os financiadores, as grandes empresas por trás.
Toda vez que a gente puxa o fio da meada, encontra uma grande empresa por trás de um problema, interessada em manter o sistema de degradação da Amazônia.
Explore isso como possibilidade de pauta.
Lá só tem cavalo grande. Quem realmente desmata ou financia são os poderosos (Estado e empresas grandes, como a Vale). Não adianta só pegar os madeireiros, tem que apurar os compradores finais.
Programação: economia regional, urbana e ambiental, políticas internacionais, macroeconomia para o pleno emprego, indicadores econômicos etc, sempre por profissionais do Ipea
Eu ainda vou fazer vários exercícios sobre o Contas Abertas e o Siafi, como disse num post aí embaixo. Minha idéia é fazer um post bem abrangente sobre as ferramentas que existem por aí.
Enquanto isso, e para não deixar o assunto envelhecer, coloco abaixo as dicas que pus no Twitter, agora traduzidas
Sobre as ferramentas
O Siafi é um banco de dados oficial com todos os gastos (previstos, empenhados e executados) da União. Um mar de pautas, portanto.
Mas ele tem acesso restrito a alguns funcionários públicos: jornalista não pode se esbaldar ali.
A solução dos jornalistas é buscar algumas das informações do Siafi disponíveis em outros sites, como o da Câmara, do Senado (Siga Brasil, o mais completo), do STN e do Contas Abertas.
Também tem o portal da Transparência, com vários dados e aberto aos cidadãos (mais superficiais e menos detalhados, por isso).
O Siga Brasil é o mais completo, mas o menos amigável. Para saber usá-lo, é preciso fazer curso de 20h que eles oferecem.
O do Contas Abertas é prático, mas só pessoas cadastradas têm acesso a tudo. Para ganhar acesso, é preciso fazer curso (como este da Abraji).
Alguns dados do Contas Abertas são atualizados de um dia para o outro. Outros, até duas vezes por semana.
No BD do Contas Abertas, dá para pesquisar por unidade administrativa (órgão, Estado...), função, área, programa, natureza da despesa...
Estados como Pará, Rio e São Paulo têm o Siafem, integrado ao Siafi. Outros Estados possuem sites específicos de divulgação.
O bom de usar dados do Siafi e Siafem (e demais fontes públicas) é que são incontestáveis e fonte de pautas diárias.
O jornalista deixa de depender das informações que o governo QUER passar.
Sobre a utilidade
Volte seu olhar para o orçamento, mesmo em pautas insuspeitas. Por exemplo, quando um avião cai, não se prenda apenas ao drama humano, mas também ao investimento reservado para o setor e em como foi aplicado.
Você vai encontrar pérolas escondidas no orçamento, diferentes do lugar-comum. Pautas sem fim.
Orçamento não é bicho-papão. Não precisa decorá-lo, só saber como é ordenado e saber consultá-lo. Como você precisa fazer com o diário oficial.
A idéia é pegar os dados e compará-los de toda forma possível: com outros municípios parecidos, com o total de municípios do Estado etc
Mas quando você começa a investigar dados sem ter uma hipótese prévia (pré-pauta), vai dar com a cara contra a parede muitas vezes. Paciência.
O que não pode é torturar os números, torcer a realidade e tentar provar uma tese. Se não deu certo, refaça a pauta, tente outros caminhos.
É importante saber bem a diferença entre valor orçado, empenhado, liquidado e pago. Para não cair em enrolação oficial e se prevenir contra a ingenuidade.
O empenhado é a reserva do orçamento; o liquidado é depois do serviço já prestado; o pago que costuma interessar ao jornalista mesmo.
Analisando orçamento do PAC/2008: R$ 17 bi empenhados, R$ 3,8 bi pagos (2008), R$ 7,5 bi pagos (do orçamento de anos anteriores, que ficaram "a pagar"), R$ 18,1 bi ainda a pagar no orçamento 2008.
Reportagem justa tem que dizer que governo pagou os R$ 3,8 bilhões do ano + os R$ 7,5 bi de restos a pagar de orçamentos anteriores acumulados.
Jornalista esperto nota que o governo lança PAC com 10 mil obras, mas, ao mostrar as concluídas, contabiliza só 2 mil. Olho neles!
Contas Abertas viu que são 10 mil e que só 3% concluíram. A fonte? Os livrinhos da própria Casa Civil. Pauta: saem de novo em 15 dias.
Vejam a primeira frase da matéria principal da Folha de hoje:
"Em mais uma tentativa de dar resposta à crise que enfrenta com uma série de acusações desde que assumiu o Senado, o presidente José Sarney (PMDB-AP) surpreendeu ontem seus colegas e determinou a anulação dos 663 atos secretos da Casa."
Se eu contei certo, e excluindo o parêntesis com a sigla, a sentença tem 39 palavras.
Para o manual de jornalismo da Reuters, esse excesso de palavras torna o texto pouco fluido e ruim.
Ele diz:
"Conte as palavras de sua primeira frase - Se houver mais que 25, comece a ficar nervoso. Se houver mais que 30, fique muito nervoso. Quando chegar às 40, é hora de quebrar a frase em duas e pontuá-la. Se chegar às 50, você definitivamente foi longe demais".
Ele também dá várias outras dicas para dar melhor fluidez ao texto: escrever voltando-se para o público-leitor, cuidar melhor dos dois primeiros parágrafos, fazer um título forte, pensar quais são as dez palavras essenciais para seu texto etc.
O manual segue com dicas para fotos, vídeos, um guia de estilos e vocabulário (imeeenso), regras de esportes, dicas de investimentos, dicas jurídicas, reportagens para internet, sobre pessoas, como lidar com stringers etc etc etc.
Enfim, é melhor ler que resumir: CLIQUE AQUI. Ah, a dica foi da leitora Rosangela
Uma ressalva: as palavras em português podem ser menores e o jeito de contar palavras não necessariamente é igual ao que a Reuters adotou em seu manual em inglês.
O manual da Folha, por exemplo, só diz que:
parágrafo
– Deve conter apenas uma idéia ou raciocínio completo.
Evite parágrafos longos.
O ideal é que eles tenhamde 7 a 12 linhas justificadas.
Mas acho que o importante é a idéia geral dos dois manuais, de que o texto deve ser fluido e claro.
Som e Imagem - Palestras gratuitas para jornalistas
Amanhã vai ter a palestra "Documentário e Roteiro", com a professora de construção de roteiro Claudia Pucci e o documentarista Davi Khamis.
No dia 22 de julho, a palestra é sobre criação de multimídia e animação 3D em jogos para a Web, com os professores de design Carlos Eduardo e Claudio Bueno.
No dia 29 de julho, a palestra é sobre fotografia digital, com o fotógrafo José Henrique Lorca e o diretor de fotografia em cinema e vídeo Fernando Nunes.
Todas abertas ao público e gratuitas.
Sempre às quartas, de 18h30 às 19h30.
Local: Campus Profº Francisco Gracioso/Auditório Philip Kotler da ESPM - Rua Dr. Álvaro Alvim, 123, Vila Mariana, São Paulo.
A Newsweek concorda que "ninguém precisa de outra lista de melhores", mas acha que precisamos, "em um mundo de pouco e precioso tempo para ler (e pensar), de saber quais livros – novos ou velhos, de ficção ou não-ficção – abrem uma janela para os tempos em que vivemos, seja porque lidam diretamente com as questões de hoje, ou simplesmente por nos ajudarem a enxergar nós mesmos de um modo novo e surpreendente".
A idéia deles me parece muito legal e, entre os selecionados, há Mark Twain, Philip K. Dick, Faulkner, Mary Shelley e outros tantos.
Eles explicam direitinho o motivo da escolha de cada um na lista completa, que pode ser lida AQUI.
Não custa lembrar que, como fazedores de jornais, também construimos uma crônica da vida atual e pretendemos fazer com que os leitores se reconheçam nesse relato, mas também agreguem surpresas e novidades a seu modo de enxergar o mundo.
(Sobre isso eu vou falar em novo post, quando relembrar a palestra da Eliane Brum no Congresso da Abraji.)
Ainda no calor da repressão aos jornalistas durante as mobilizações no Irã, Roger Cohen publicou um artigo no New York Times defendendo a responsabilidade real de um jornalista.
Trecho:
"Uma verdade básica está-se perdendo: para ser um jornalista é preciso dar testemunhos.
O resto não passa de adorno.
Dar testemunhos significa estar lá – e isso não vem de graça.
Nenhuma ferramenta de busca te dá o cheiro de um crime, o tremor no ar, os olhos se remoendo por dentro, a cadência de um grito."
Hoje coloco a continuação das dicas de Mallon, agora sobre a conversa crucial que os frilas têm que ter com os editores para conseguirem emplacar as matérias. Para escrever sobre isso, ela conversou com um monte de editores e percebeu que o telefonema faz muita diferença quando o editor não tem muita certeza se vai ou não contratar aquele frila.
Algumas, muito boas:
Antes do telefonema
Pesquise sobre seu alvo. Descubra o que o veículo publica, como é seu editor e qual o melhor dia e horário para telefonar.
Escreva sua frase de abertura e ensaie a fala, mas fale naturalmente.
Escreva as informações mais importantes, inclusive seu número de telefone.
Deixe sua idéia de pauta bem na sua frente.
Seja claro sobre o resultado que você quer saber.
Visualize a pessoa para quem você vai ligar como alguém pronta para e à espera de sua ligação.
Pense em quais são as perguntas que o editor provavelmente vai te fazer. Quais perguntas você odiaria que ele fizesse? Prepare-se!
Pergunte a si mesmo: por que essa pessoa diria "sim" para mim?
Durante o telefonema
Fique de pé, para se sentir mais confiante.
Verifique se está falando com a pessoa certa.
Seja breve e dê sinais de que pretende ser.
Seja amigável e educado. Diga o nome do editor como ele disse (se a Daniela se apresentar como Daniela, não a chame de Dani)
Escute mais, fale menos.
Estabeleça o deadline e os próximos passos que vocês dois precisam tomar.
Depois do telefonema
Anote tudo: nome, telefone, grau de intimidade, tudo o que possa te ajudar para o próximo telefonema.
Retorne a ligação quando tiver dito que o faria.
Anote o que você aprendeu desse telefonema, sobre você mesmo e sobre a pessoa com quem falou.
Escreva o que pretende fazer de forma diferente na próxima vez.
Lembre-se de que todo "não" coloca você mais próximo de um "sim".
A ESTELITA CARAZZAI (inspiradíssima) mandou outra sugestão de post, desta vez uma charge da The Week:
Apresentador: "Bem-vindos de volta à nossa cobertura de 24 horas, sem intervalos, contínua e redundante sobre tudo a respeito de Michael Jackson. A seguir: mais conjecturas sem fundamento que vendemos como notícias"
Tela: "Sétimo dia: Jackson ainda morto..."
Jornal: "Repressão no Irã - governo silencia repórteres da imprensa"
A ESTELITA CARAZZAI também esteve no Congresso da Abraji e nos conta o que aprendeu em uma das palestras:
"A palestra sobre 'Como montar seu banco de dados', no congresso da Abraji, parecia ser uma das menos promissoras do evento – ao menos pra mim. Durante o treinamento, fomos instruídos dezenas de vezes sobre como montar bancos de dados, inclusive pelo Elio Gaspari, o 'papa' do gênero no jornalismo brasileiro.
Mas que boa surpresa foi descobrir, durante a palestra, o programa Evernote. Indicado pelo José Roberto de Toledo, o Evernote é de uma praticidade incrível: de tão leve, ele pode rodar de um pendrive; armazena textos, páginas da web, PDFs, arquivos de áudio e imagens; é possível acessá-lo online, no computador do trabalho, no laptop e até num iPhone; e ele ainda sincroniza automaticamente pela internet os arquivos colocados em seu banco de dados para todos os computadores que você utiliza.
E sim, é de graça. Falta alguma coisa?
Estou usando o programa há dois dias, e já armazenei uma infinidade de documentos. Entre umas das genialidades do Evernote está uma extensão (que funciona no Firefox e também no Internet Explorer) que copia, com um clique, uma página da web para o seu banco de dados – que, só pra lembrar, é acessível no modo offline. É o fim do "copia e cola", que me tomava tanto tempo anteriormente.
Outra das vantagens (e essa é sensacional) é que a busca do Evernote reconhece e localiza palavras em imagens. Se você tira uma foto de um documento público, por exemplo, e a armazena no Evernote, você pode buscar uma determinada palavra, impressa naquela foto, que ele acha. É incrível.
Os arquivos armazenados no programa podem ser classificados por tags e por pastas. É fácil de encontrar algo depois. E, se você não encontrar, sempre existe a ferramenta de busca.
Enfim, recomendo fortemente.
PS: Nunca é demais lembrar da importância de um banco de dados para nós, jornalistas. O Toledo pontuou bem, na palestra, que o banco de dados é uma ferramenta de grande utilidade para que possamos dar contexto às nossas matérias.
Quem é mesmo esse novo presidente da Câmara? Vou lá no Banco de Dados para ver o que há a respeito dele. Quando foi diagnosticado o primeiro caso da gripe A no país? De novo, recorro ao banco de dados. E assim, vou agregando o histórico, o contexto do acontecimento à minha reportagem; criando nexos informativos para facilitar a vida do meu leitor.
Claro que o banco de dados só vai facilitar o trabalho do jornalista depois de algumas dezenas de registros. Mas o esforço vale a pena. Que o diga Elio Gaspari, detentor de dois bancos de dados com cerca de 70 mil registros cada _responsáveis pelo incrível número de informações nos livros sobre a ditadura que ele escreveu."
A FAAP oferece cursos gratuitos de economia, com duração de 20 semanas.
Os cursos são nas segundas-feiras, entre 9h e 12h, e começa no dia 3 de agosto.
As inscrições terminam no dia 15, quarta agora, às 18h.
Para se inscrever, o candidato deve enviar ficha de inscrição preenchida, carta de apresentação do veículo onde trabalha, currículo e foto 3x4 para a rua Ceará, 84, CEP 01243-010, aos cuidados de Suelen Rodrigues, Fabiana Dourado ou Viviane Laubé.
Para trabalhos em língua espanhola ou portuguesa, publicados entre 1/9/2008 e 31/8/2009 na imprensa, rádio, TV ou internet.
Os trabalhos devem ser enviados na sede da Agência Efe em Madri, ou em sucursais da Efe nos países participantes (inclusive Brasil), até 30 de setembro.
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