Jornalismo é jornalismo. Se não contiver informação original e acurada, o "literário" não conseguirá salvá-lo.
Ruy Castro, na Folha de hoje [íntegra aqui, para assinantes]
"Concordo muito" com ele.
Texto é apuração. Um bom texto jornalístico é resultado de informação relevante, bem apurada e bem contada.
Bem contar não é usar um monte de palavra bonita e vazia.
É relacionar os fatos, mostrar por que eles importam, dar a eles a vida que realmente têm.
É não esquecer que quem escreve e quem lê somos gente, e por isso é fundamental "humanizar" as matérias (como ensina meu prof MARCELO COELHO). (Humanizar não é botar o infalível e artificial recurso do "personagem". É mostrar que aquela notícia tem a ver com a nossa vida.)
Seja simpático, mas não faz o íntimo, que não cola. É meio constrangedor. A pauta vai sair se for interessante.
Não liga para agradecer, depois que a matéria sair. Fica parecendo que o repórter fez um favor.
Enviar erratas do mesmo release, uma atrás da outra, é feio e pega mal.
Para aumentar as chances de seu cliente aparecer em uma matéria, sugira uma pauta de interesse público e aponte seu cliente ou um pesquisador da empresa dele, por exemplo, como fonte. Parece oportunismo, mas é mais inteligente que apenas falar que o cliente está lançando uma nova linha de produtos.
Tenha bom senso.
Achei muito boas porque facilitam a relação entre assessor e jornalista, que é necessária.
Eu vou sugerir uma coisa mais difícil, inspirada pelo post abaixo: que tal tentar escrever uma história inteira com ATÉ seis palavras? Ela deve ter começo, meio e fim – tem que fazer sentido.
Quando um sujeito que ganhou o prêmio Pulitzer e o Nobel de Literatura dá dicas de como escrever bem, é bom prestar atenção e anotar.
Eis as cinco dicas de Ernest Hemingway:
1. Use frases curtas
Ele já foi desafiado a contar uma história completa usando apenas seis palavras. Conseguiu:
"For sale: baby shoes, never used." (Em português são sete: "À venda: sapatos de bebês, nunca usados.")
2. Comece com parágrafos curtos
3. Use um inglês [português, no nosso caso] vigoroso
(forte, com intenção, paixão, foco)
4. Seja positivo, não negativo
Não exatamente no sentido "alegre" da palavra positivo. O que ele quer dizer é que dizer uma coisa por meio de seu oposto faz com que o leitor tenha que dar voltas para entender o que você realmente quer dizer. Assim, se você disser que tal coisa "não é cara", a palavra "cara" ainda vai martelar na cabeça do leitor, até ele chegar ao significado pretendido, que é "barata".
Em inglês essa dica faz ainda mais sentido, já que vários antônimos são ditos usando a palavra mais o sufixo "less". Assim, "painless" ainda tem a palavra "pain" (dor) distraindo o leitor do verdadeiro significado do texto.
5. Nunca tenha apenas quatro regras
O blogueiro que divulgou as quatro dicas de Hemingway achou que "quatro" não chamaria a atenção. Assim, buscou outro ensinamento do escritor, este confidenciado para F. Scott Fitzgerald:
"Eu escrevo uma página de obra de arte e 91 páginas de lixo. Tento pôr o lixo na lixeira".
Agora um monte de figuras públicas tem seu próprio twitter, blog, orkut, facebook etc. São pelo menos 33 deputados federais, seis estaduais, 16 senadores e um governador, segundo o Politweets. O Vanderlei Luxemburgo anunciou sua demissão primeiro no twitter e no blog. Ministérios, secretarias e times de futebol criaram seu canal na rede.
Por um lado, isso é ótimo: é um caminho direto entre a figura pública e o público. Um canal de comunicação sem intermediários.
Por outro lado, e essa é a questão, esses canais divulgam o que é de SEU interesse, não necessariamente coincidindo com o interesse público.
Não fazem, portanto, jornalismo, porque o interesse público é a premissa do jornalismo.
Quem reflete sobre isso é o colunista da Folha Online Eduardo Vieira da Costa e vale a pena ler AQUI.
O crime ocorreu há 50 anos e os repórteres tiveram que contar com a memória das vítimas. Mas puderam se respaldar em clippings de jornais da época, documentos jurídicos, fotografias de arquivo, mapas – qualquer coisa que emprestasse credibilidade às lembranças.
Vale a pena ler tudo, porque há muito o que aprender com esse pessoal persistente.
[E, por falar em persistência, aguardem alguns posts sobre um trabalho de grande persistência que rendeu um belo furo jornalístico. Devo postar amanhã ou depois (às vezes é bom fazer suspense ).]
Hoje, ainda no embalo da morte de Michael Jackson, o mesmo Justin Kings está dando só dicas para quem cobre entretenimento e celebridades, que ele juntou no marcador #celebtips.
Como ele já soltou MUITA coisa, sugiro que os interessados leiam lá.
Vou colocar só algumas:
Não faça seu entrevistado perder tempo perguntando "Conte-me de que se trata o filme". Todo mundo que leu a sinopse pode responder isso.
Evite perguntar "Como foi trabalhar com fulano?". Há um grande risco de se obter respostas insossas e previsíveis.
Fale como se estivesse falando com qualquer mortal e seja um pouco atrevido. Eles vão relaxar e te dar respostas surpreendentes (tenho minhas dúvidas).
Leia o jornal e as últimas entrevistas online, talvez haja histórias para as quais você precise colher a reação da celebridade (essa vale pra qualquer entrevista, né?).
Humores mudam, mas assista a entrevistas anteriores com a celebridade (YouTube!) para ter uma idéia da personalidade dela, do melhor tom a adotar.
Uma amiga minha descobriu uma história fantástica, um personagem sensacional, investigou, teve acesso a informações exclusivas, trabalhou durante várias semanas e fez uma grande reportagem do assunto.
Apesar de ter resultado num trabalho muito bem realizado, ela teve enormes dificuldades de encontrar um lugar para publicar. Enviou para uma grande revista semanal, que não deu nenhum retorno. Depois mandou para uma revista local e, para sua surpresa (e indignação), a editora disse que "adorou tudo, mas que ia mandar um repórter apurar tudo de novo e fazer a mesma matéria" ().
Deixando um pouco de lado a atitude totalmente irregular dessa editora, que já discutimos em um post recente, quero trazer para este blog uma questão: o que minha amiga pode ter feito de errado?
Se tinha uma grande história e fez uma grande reportagem, por que não conseguiu vender seu peixe?
Nunca venda a reportagem já pronta; venda primeiro a idéia. "O editor vai ter suas próprias idéias do que quer para a matéria. Ele também saberá quanto espaço vai ter disponível e quantos caracteres você poderá escrever" (Talvez esse tenha sido o grande erro da minha amiga).
Leia vários exemplos de matérias do veículo/editoria em que pretende publicar sua reportagem. "Se você quer atingir um alvo, não basta mirar e atirar – faça uma pesquisa primeiro".
Ligue para o veículo e descubra quem é a pessoa ideal para você enviar sua idéia. Não adianta abordar a pessoa errada.
Mande a idéia por e-mail. Descreva sua idéia em poucos parágrafos (uns 600 caracteres) e depois dê alguns detalhes de sua experiência profissional, para eles saberem por que deveriam te contratar para escrever sobre aquele assunto.
Talvez você receba uma resposta em um dia, ou pode receber em semanas, dependendo do veículo e do interesse despertado. Se não receber um retorno, você pode telefonar ou mandar outro email.
Esse trabalho de lançar iscas de pautas se parece com o de enviar releases, porque você precisa enviar constantemente para construir um relacionamento e, de vez em quando, ter uma idéia aceita. Escritores experientes dizem que conseguem vender uma a cada dez sugestões de pautas, então não se desespere se não conseguir emplacar nunca. É normal. É importante insistir.
Siga editores pelo Twitter, para ver o que os interessa e, quem sabe, construir uma relação. É um bom modo de acessar pessoas inacessíveis. Mas evite enviar suas sugestões de pauta pelo Twitter, já que outros poderão lê-las.
"Jornalistas recorrem ao Google com muita freqüência. E há dúzias e talvez centenas de ferramentas de busca que são melhores para tarefas específicas. Por exemplo, o Collecta e o Scoopler.
Mesmo quando os jornalistas só se fiam no Google, eles não exploram todo seu potencial. É preciso usar a opção avançada e dar um foco à sua busca. Usadas de forma criativa, essas ferramentas podem ser extremamente poderosas. Com a prática, podem abrir portas na web que a maioria das pessoas nem sabe que existem.
Mas há muito além das ferramentas de busca. Você pode configurar seu RSS Reader, por exemplo, para receber posts que só tenham termos que te interessem. Pode usar o Yahoo Pipes para filtrar conteúdos de várias fontes. [O Marcelo Soares já falou disso].
Muitos jornalistas falham em explorar completamente o potencial do Firefox. Esse navegador é, de longe, o melhor. Ele te permite escolher uma porção de plug-ins que podem literalmente transformar seu trabalho online."
A leitora Rosangela deu uma bela dica aí embaixo: o Knight Center for Journalism promoverá um curso onlinegratuito e em português de RAC, ministrado pelo José Roberto de Toledo.
Vai acontecer entre 27 de julho e 23 de agosto.
"Os alunos selecionados devem ser jornalistas brasileiros que trabalham em período integral em meios de comunicação impressos, eletrônicos ou online, com no mínimo três anos de experiência jornalística."
Por falar em números, o site 10.000 Words traz vários exemplos de jornais que conseguiram transformar uma tabela insossa em uma arte brilhante – e, mais importante: bastante clara para o leitor.
"Criar um banco de dados bem feito exige um bocado de tempo e esforço, mas, no final, você terá oferecido um serviço incomparável".
Se o post abaixo dizia que o texto deve saber divulgar números de forma compreensível e didática para facilitar o entendimento do leitor, a idéia deste post é que, dependendo do assunto, não basta enfiar mil números num texto corrido, ou divulgar uma tabela indecifrável para o leitor: é preciso apresentá-los de forma inteligente.
Jornalista tem que usar números o tempo todo: só nas matérias de hoje, da Folha, temos números dizendo qual o apoio necessário para manter Sarney em seu cargo, números calculando o reajuste da Bolsa Família, trocentos números no caderno Dinheiro, outros tantos na cobertura da greve da USP, números percentuais regendo a gorjeta dos garçons, um número de ônibus comum a cada oito de ônibus fretados, e assim vai.
Números são informação. Tanto para Dinheiro, como para Brasil, Cotidiano, Esporte, Saúde, Ilustrada, Mundo...
Mas deixam de ser informação se embaralham a leitura, distorcem os fatos, trazem mais confusão do que esclarecimento.
"Para comparar semelhanças entre eventos de localidades diferentes, você sempre deve olhar o número de vezes em que o evento ocorre (quantidade) dividido pelo número de pessoas afetadas pelo evento (população). [Ou seja: não adianta o número absoluto, mas sua proporção dentro de um contexto comparável]
Quando escrevemos a história, queremos apresentar os números de forma mais intuitiva. Melhor do que apresentar o número como 0,01 por cento, é dizer que ele representa cerca de nove pessoas em mil. Assim, os leitores conseguem comparar melhor duas razões.
Sempre é bom trazer os números dentro de um contexto histórico.
Não se enterre nas opiniões preguiçosas: sempre esmiuce as médias até que você saiba o que elas incluem e (tão importante quanto) o que excluem.
Tudo é uma questão de decidir que perguntas fazer aos números e como reportar suas respostas aos leitores."
É o tipo do assunto que afeta diretamente a vida dos leitores e que pode contar com a ajuda do jornalismo-cidadão para ser incrementado.
Uma forma de se fazer isso, agora, é por meio do Blog do Ônibus, criado pelo Ministério Público Estadual.
É uma ferramenta de investigação do ministério, mas também de apuração do jornalista que acompanha a área.
A reportagem de ontem tinha uma retranca sobre o blog: "Nas queixas, que passam de 500, usuários citam linhas em que a oferta de veículos diminuiu e a lotação aumentou."
O blog coleciona relatos como o seguinte:
"Gostaria de chamar a atenção para a linha 177-Y/10, Casa Verde/Pinheiros. Esta linha é servida apenas por microônibus. Nos horários de pico, a linha é muito utilizada por aqueles que vêm do terminal Barra Funda e vão para Pinheiros (pela manhã, principalmente) e vice-versa (entre as 16:00h e 20:00h). Nesses horários, apesar do intervalo de cerca de 7 minutos, os micro-ônibus ficam lotados, muito acima de sua capacidade. Muitas vezes os motoristas e/ou cobradores mandam as pessoas embarcarem pela porta traseira, devido à superlotação, que faz com que a área anterior à catraca fica instransponível. Pior ainda quando os referidos micro-ônibus têm uma única porta dianteira para embarque e desembarque. Sou usuário desta linha há 5 anos; já registrei reclamações com a SPTrans, mas nada se alterou."
Ou seja, é um verdadeiro amontoado de pautas e personagens, para jornalista nenhum botar defeito!
Isso tudo faz parte do novo projeto do YouTube, o site Reporter's Center, que pretende desenvolver a colaboração (já existente) entre os jornalistas-cidadãos (que pegam o celular e filmamprotestos no Irã, embasbacando o mundo) e grandes empresas de notícias, que dão alcance a esses vídeos.
Para nós, jornalistas, é ótima oportunidade de aprender as lições de colegas tão mais experientes de grandes veículos como o NYT, o Washington Post e a Associated Press.
O blog Teaching Online Journalism postou as oito habilidades que todos os jornalistas deveriam ter, de acordo com uma professora australiana.
Ficam como dica para aqueles que ainda não aprenderam todas elas e tinham dúvidas sobre se deveriam investir nesse aprendizado. Não vou numerar, porque não há um ranking de prioridade aí:
Saber blogar e interagir por meio de vários blogs
Ter um entendimento e uso ativo das redes sociais (twitter, rss etc)
Habilidade de contar uma história atraente usando imagens de slide e áudio
Habilidade de filmar, editar e contar histórias em vídeo
Habilidade básica de produzir histórias interativas com Flash
Editar áudios e produzir podcasts
Enviar arquivos com últimas notícias a partir de qualquer lugar
A repórter Luciana Ribeiro conta em seu blog como foi a viagem que fez ao Japão.
Um post bem legal, de 30 de março, mostra o dia-a-dia dos jornalistas no jornal Nikkei, um dos cinco mais importantes do país, com 4,6 milhões de exemplares diários (), em edições matutina e vespertina.
Para se ter uma idéia:
"Trabalhar como repórter na empresa é uma loucura. Dos 1,8 mil jornalistas do Nikkei espalhados pelo mundo, alguns cumprem um horário peculiar: em um dia, trabalham das 20h às 8h da manhã seguinte; em seguida, dormem por duas horas na própria empresa, levantam às 10h e continuam no batente até as 17h, quando vão para casa. No dia seguinte, horário de trabalho normal – das 10h às 18h. No quarto dia, folga e, no quinto, voltarão ao trabalho às 20h. (...)
Tudo isso para fazer um jornal que não para. A edição do final do dia é impressa em três horários – às 12h, às 13h e às 14h. A edição matutina, em quatro – às 23h, às 24h, à 1h e às 2h. Nos intervalos, as outras publicações da empresa são impressas. Os repórteres podem entregar o texto até uma hora antes da rodagem começar. A reunião entre os editores é feita um pouco antes, através de videoconferência entre Osaka e Tóquio."
O leitor Ramiro Gonçalez convidou os leitores deste blog para uma palestra que vai dar hoje, às 19h30, na Livraria Cultura, sobre as causas da crise econômica mundial. É uma palestra gratuita e pode ser interessante a todos que trabalham com jornalismo econômico.
O livro que ele vai lançar e as informações sobre a palestra estão NESTE LINK.
"Quando 22 senadores começaram a trabalhar, em 17 de junho, no primeiro projeto de lei que vai revisar o sistema de saúde, todas as câmeras de veículos de notícia estavam apontadas para eles – menos a do fotógrafo da NPR, que virou sua câmera em direção aos lobistas. Qualquer lei que sair do Congresso vai afetar 1/6 da economia e os investidores se mobilizaram. Nós começamos a identificar os rostos presentes na audiência e queremos continuar fazendo isso."
Uma das fotos é esta que usei para ilustrar o post. Colocando o mouse sobre a cabeça de algumas pessoas, é possível saber quem elas são. Essa moça aí em cima, por exemplo, tem nome, sobrenome, trabalha para a Sociedade Americana de Câncer e gastou US$ 4 milhões no lobby de 2008. Como esta, há outras três fotos e dez rostos já identificados.
Outra coisa legal da iniciativa é que a NPR pede que seus leitores que conseguirem reconhecer mais alguém enviem as informações por e-mail para eles. O famoso "jornalismo colaborativo".
Apesar de a atividade de lobistas não ser regularizada no Brasil (embora exista, por vias tortas), é possível fazer algo semelhante por aqui.
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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