Com direito a vídeo no Youtube (escolhi o mais legal pra ilustrar este post).
Newspapermen - Pete Seeger (1940)
Jimmy Brown, the Newsboy - Flatt & Scruggs (1957)
Daily News - Tom Paxton (1964)
Ballad of a Thin Man - Bob Dylan (1965)
Yesterday's Papers - Rolling Stones (1967)
News of the World - The Jam (1977)
Sunday Papers - Joe Jackson (1978)
It Says Here - Billy Bragg (1985)
Newspapers - Stan Ridgway (1989)
A Letter to the New York Post - Public Enemy (1991)
(Tudo bem que não é sobre jornal, mas só de começar com "I read the news today, oh boy", eu acho que "Day in the life", dos Beatles, deveria constar. No mínimo uma menção a "Paperback Writer" )
Vocês conhecem outras músicas para jornalistas, brasileiras ou gringas?
Boas as dicas de todos!
O leitor Eduardo respondeu pelo Twitter: "samba+jornais: Moro na roça iaiá/Nunca morei na cidade/Compro o jornal de manhã/Pra saber das novidades".
O jornalista Abhik Sen, que foi editor de multimídia da Bloomberg e acha que "não há nenhuma organização de mídia que não esteja pensando em multiplataformas" e que "todo mundo terá que ser um jornalista multimidiático de alguma forma", deu dicas a estudantes de jornalismo da City University:
Planejar é fundamental: "Pense como sua história será melhor contada e que tipo de interatividade você quer oferecer"
Seja criativo: "Você deve fazer o que os outros fizeram, mas também o que eles não conseguem fazer; seja original e diferente tanto do jornal quanto da TV, de forma complementar"
Não pense só nos fatos, mas também no tempero: "Você precisa capturar coisas que dêem vida ao seu vídeo. Elas podem parecer inúteis na fase da produção, mas serão interessantes na mesa de edição"
Menos é mais: "Cinco minutos são uma eternidade no tempo do noticiário. A maioria dos vídeos nem terá esse tempo todo de duração"
Sempre filme ação e emoção: "Você precisa de mobilidade ou algum elemento dinâmico. Não precisa ser alguém lutando na guerra, pode ser os olhos de alguém mirando de um lado para o outro"
Desenvolva habilidades além do jornalismo convencional ou trabalhe com alguém que as tenha
Mantenha todo o conjunto em mente: a parte do áudio e do vídeo
"Quanto mais cedo você se familiarizar com a gramática da multimídia, mais fácil e melhor será para você".
Você pode escolher seis portinhas: sala dos escândalos, cronologia dos escândalos, operações da PF, arquitetura da corrupção, CPI da Petrobras e Galeria Edemar Cid Ferreira.
Também tem livraria, loja (máquina de lavar dinheiro com capacidade para 4 kg de dólares está à venda), sala multimídia, "em exibição" e, claro, a pizzaria!
Se não serve como fonte, esse projeto do Diário do Comércio serve com certeza como um lembrete organizado dos tantos casos que já tivemos que cobrir e que, na maior parte das vezes, ainda não foram resolvidos.
É daqueles pra jornalista pôr no Favoritos: tem todos os telefones de todos os órgãos, secretarias, agências reguladoras, gabinetes (etc) dos três poderes em todo o país.
Acho que só cobrir tiroteio é tarefa mais delicada --para um repórter-- que ouvir parentes de alguém que morreu.
Com a vantagem, para as guerras e missões perigosas, de ser algo prestigiado, emocionante. Já entrevistar sofredores não passa de ser constrangedor (mas deveria passar, se a gente parasse de vestir a carapuça errada, como argumento mais pra frente).
Aqui neste blog, uma dezena de repórteres já comentou como é chato --apesar de necessário-- e deu dicas de como reduzir o incômodo. Incômodo tanto para quem pergunta como para quem responde, diga-se.
Mas não tenho muita paciência pra essa gente que acusa jornalistas de serem hienas e urubus, como fizeram leitores no blog do Mauricio Stycer.
Por que, afinal, ouvir família e amigos das vítimas?
Porque as pessoas importam. Se um avião de controle remoto cair vazio, quem liga? A notícia é que ali havia gente cuja vida acabou abruptamente --a delicada coluna de ontem do Ruy Castro abre uma janela interessante sobre isso (aqui, na íntegra, para assinantes. Reproduzo abaixo os dois últimos parágrafos, mas tentem lê-la toda, que vale a pena):
(...) fragmentos dessas mensagens costumam ser encontradas em destroços de aviões caídos em terra. É por esses retalhos calcinados que nos damos conta de que o drama pessoal de cada vítima de um acidente aéreo é maior do que a fria estatística da soma dos mortos no mesmo acidente.
Na tragédia do voo AF 447, comovemo-nos com o casal rumo à lua-de-mel em Paris e com o alemão que iria tratar dos papéis para se casar com uma brasileira. Mas havia também empresários, professores e executivos, que viajavam a negócios, a estudos ou para receber prêmios -enfim, para um luminoso futuro próximo. E outros cujas histórias pessoais, talvez riquíssimas, nunca chegaremos a conhecer.
2. Porque os parentes podem querer falar. Afinal, essa é uma forma de registrar --e perpetuar-- essas "histórias pessoais talvez riquíssimas". Vejam estas fotos na Folha de hoje. Os parentes levaram as fotos de suas vítimas. Querem mostrá-las. Talvez queiram falar sobre elas. Por que recusar-lhes a chance? O que custa perguntar? O máximo que pode acontecer é o pai (mãe, irmão, filhos, amigos) dizerem não --e aí a gente respeita e ponto final.
A questão não é "se", mas "como"
Como já ensinaram muitos colegas nos posts abaixo, o que importa nessas horas é a gente respeitar as pessoas. Mas atenção: respeitar tanto seu direito de calar quanto o de falar.
tente contatar primeiro os que parecem menos abalados
desculpe-se por abordá-los naquele momento. Mostre-se solidário. Pergunte se eles gostariam de falar naquele momento.
respeite negativas, mas deixe um telefone ou e-mail para o caso de eles quererem falar noutro momento
menos é mais. Pergunte menos e ouça mais. Respeite o tempo e os silêncios do entrevistado, tenha calma e compostura
e mais estas dicas todas que a Cris resumiu anteontem
REPÓRTERES E FOTÓGRAFOS FALAM SOBRE ESSES OSSOS (DUROS DE ROER) DO OFÍCIO
A Folha está com três concursos abertos e recebi um e-mail dizendo mais ou menos assim: "Estou desempregado já há vários meses e com vários problemas na família, preciso muito deste emprego, estou tentando fazer frilas, mas não está sendo suficiente...".
Não há muitas regras do que funciona numa seleção, mas sobre o que não dá certo eu tenho algumas certezas. Uma delas: introduções desse tipo são tiros no pé.
Entendo que as pessoas se desesperem quando tentam achar trabalho e não conseguem --e torço pra que o moço acima resolva logo suas dificuldades.
Mas o editor, por mais que se condoa, vai escolher o candidato que ele acha que tem mais a dar, não o que mais está precisando do emprego.
Por maior que seja a ansiedade, não suplique. Ofereça. Mostre quais são as suas qualidade e por que o jornal sairia ganhando se o chamasse para os testes.
OUTROS POSTS PARA QUEM PROCURA TRABALHO Não entre em pânico Dicas de organização para quem quer ser frila Faça contatos e use-os em seu favor No pé deste post, outros links já listados --inclusive uma lista de sites que oferecem vagas Mais dois sites que oferecem vagas aqui
PARA ACOMPANHAR VAGAS NO TWITTER
Para quem está no twitter, dois perfis que sempre avisam sobre vagas são @alfredo_costa e @link_zero
Se você não está no twitter, gostaria de entrar, mas acha complicado, leia o tutorial que eu fiz e descubra como é fácil
Continuando a série de posts sobre os bastidores da cobertura do avião desaparecido, publico agora o relato de JORGE SOUFEN JUNIOR, pauteiro de Cidades no "Agora", jornal que deu a capa acima na edição de ontem.
O depoimento dele é excelente para entender como muda a dinâmica de uma redação diante de acontecimentos jornalísticos com tamanha dimensão, como é preciso se organizar ainda mais para que o trabalho de toda a equipe funcione melhor e qual a função do pauteiro. Ficou legal mesmo, vejam só:
"OS PRIMEIROS PASSOS
Na segunda-feira pela manhã, quando cheguei ao jornal, às 8h, o repórter que entra às 7h já me falou que as tevês estavam bombando o caso do avião desaparecido. Apesar de a gente ser um jornal, em primeiro lugar, paulistano, e, em segundo lugar, paulista, já sabia que o caso de comoção internacional, como ocorrera em tragédias semelhantes, ficaria a cargo da editoria de Cidades/Polícia, da qual sou pauteiro.
Minutos depois eu recebi um telefonema do secretário de redação, que já estava a caminho do jornal, com o qual conversei sobre o assunto e sobre os primeiros direcionamentos da apuração. Liguei, ainda, para o editor, para colocá-lo a par de tudo até então e discutir mais direcionamentos.
A primeira coisa que fizemos foi mandar um repórter com fotógrafo para o posto da Air France no aeroporto de Guarulhos – o que foi uma bola dentro, já que dois parentes foram procurar informações por lá.
A equipe, como de praxe em coberturas do tipo, foi ampliada. Dos nove repórteres da editoria, sete foram deslocados para cobrir a tragédia, e tivemos reforço de quatro repórteres (das editorias de Vencer, Show, Trabalho e Grana). Editores de outras editorias foram deslocados para fechar páginas sobre a tragédia. A Secretaria de Redação supervisionou toda a cobertura.
A PAUTA E A APURAÇÃO
Na pauta, abri um tópico especial sobre a tragédia, que foi dividido em dois: REPORTARIADO, com os temas gerais e o nome dos repórteres que vão cobri-los (exemplo: INVESTIGAÇÃO: Aline + Adriana; BUSCAS: Bruno; DRAMA DAS FAMÍLIAS: Lívia + Gilberto + Camila) e PAUTAS (as pautas efetivas da tragédia, incluindo o nome de quem vai atrás de cada uma).
Também incluo, na pauta, ARTES sobre o assunto, geralmente centralizadas em um só repórter.
A comunicação com a editoria de fotos é constante para que o editor saiba o que está acontecendo. Fotos previstas também são incluídas na pauta.
Montamos uma equipe especial de ronda, uma para checar atualizações na televisão e outra para checar atualizações na internet, em rádios e em agências. Cada uma das equipes salva as atualizações em um arquivo específico na rede para que todos tenham acesso às novidades. Se a notícia é importante, o responsável tem a obrigação de passar para frente para o pauteiro ou para o editor.
Com isso, conseguimos montar um esquema legal de atualizações. Assim, quando surge algo novo, determinado repórter já sabe que tem que correr atrás (exemplo: se a Aeronáutica diz que achou destroços, o repórter que cobre buscas já sabe que é ele quem deve ir atrás dessa novidade).
Durante o dia, muita coisa muda. A Secretaria de Redação faz novos pedidos, o editor dá novos direcionamentos e os repórteres sugerem outras opções de apuração. Às 14h há a reunião de passagem, na qual o pauteiro, após o primeiro retorno dos repórteres, discute a pauta com o editor _onde novos ajustes são feitos. Por volta das 15h, o pauteiro já começa a pensar nas apurações do amanhã (a pré-pauta), e quase "não existe mais" para a pauta do dia (os retornos passam a ser dados para o editor ou seus outros auxiliares).
Casos de polícia e de cidades ficaram com coberturas menores (duas páginas no primeiro e no segundo dia). Ainda assim, mantivemos dois repórteres na segunda-feira e três na terça-feira para ir atrás desses casos. Obviamente, a seleção dessas histórias de cidades e polícia fica mais criteriosa, já que sabemos que histórias menores não vão entrar mesmo na edição.
A seção "Torpedos", inaugurada no mês passado (uma página inteira, mais leve, com textos menores e várias fotos, com notícias-relâmpago de São Paulo, do Brasil e do mundo, de responsabilidade da nossa editoria), não foi publicada nesses dois primeiros dias, excepcionalmente, por causa da cobertura da tragédia.
OUTRAS QUESTÕES
Sobre o diferencial de cobertura, a única saída é atirar para todos os lados possíveis. Ligar para especialistas, fontes, fazer contato constante com órgãos do governo. Às vezes, é possível conseguir algo diferente no meio de uma entrevista por telefone, em uma zapeada em comunidades do Orkut ou no quinto parágrafo de uma notícia de um site de notícias de um jornal regional da República Tcheca (tá bom, exagerei, vai). Porém, as coberturas vêm sendo bem parecidas.
Nosso foco, como jornal popular, é ser didático e dar atenção ao drama/história das famílias/vítimas, entre outras questões importantes. Por isso, as artes e as retrancas sobre personagens foram bem exploradas.
O intercâmbio de informações e textos entre Agora, Folha Online e Folha sempre existiu. Apesar de tentarmos ter, na medida do possível, uma apuração independente sobre a tragédia, a Folha tem mais meios de conseguir chegar às informações, com correspondentes e sucursais, por exemplo. Por isso, utilizamos vários textos produzidos pela reportagem da Folha, e também pela Folha Online. O contrário também ocorre, principalmente em relação a questões onde somos mais "especialistas", como ir atrás de personagens.
Estou na pauta da editoria há dois meses e é a primeira vez que participo, como pauteiro, de uma cobertura como essa. No último acidente, o da TAM, eu ainda trabalhava como repórter na Folha Ribeirão, então cobri muito por cima o caso. De qualquer forma, percebo que, como o fato não aconteceu no território de São Paulo, a cobertura, pelo menos a do Agora, dependeu muito mais do telefone e da internet do que de sair na rua. Essa foi, na minha visão, a grande diferença de outras tragédias ocorridas (exemplo: teto da Renascer que caiu, ataques do PCC em 2006, acidente da TAM).
ARCO E FLECHA
Para resumir o papel do pauteiro, principalmente nessa cobertura especial, vou me apropriar de (e transportar para o meio jornalístico) uma alusão comumente usada para comparar o papel dos pais para com os filhos. O pauteiro seria um arqueiro, e os repórteres, suas flechas. O arqueiro escolhe uma flecha específica para cada lugar que precisa atingir. Tira a flecha da aljava, a coloca no arco, puxa a corda, dá a direção e solta! Apesar de mirar com carinho, o arqueiro não consegue prever o ponto exato do impacto. Quando é lançada, a flecha pode enfrentar vento, chuva, neblina e outros obstáculos, e com certeza vai mudar a sua direção. Mas, se o arqueiro for bom, a flecha sempre vai acertar algum alvo importante.
Queria aproveitar a oportunidade para elogiar toda a equipe que participou da cobertura (principalmente os repórteres), que vem vencendo a difícil semana com ânimo, humor, dedicação e, acima de tudo, competência."
RAFAEL ANDRADE era o único repórter-fotográfico da Folha no aeroporto do Rio fazendo a cobertura do primeiro dia da tragédia do avião. O trabalho dele na segunda-feira rendeu a foto da capa do jornal de ontem, que vocês vêem acima. Como na última vez em que escreveu para o blog – e construiu um verdadeiro manual –, ele divide várias experiências dessa cobertura com vocês:
"SOZINHO PELA MELHOR FOTO
Aqui no Rio fui o único fotógrafo da Folha trabalhando no aeroporto segunda-feira. Numa situação como essa é que você tem mais idéia de como trabalhar sozinho é complicado. Em primeiro lugar porque foto não se recupera. Perdeu, compra-se. Mas ninguém quer trabalhar 12 horas e perder a primeira página para uma agência internacional ou para outros jornais. E isso sempre é um risco real considerando-se que a política da Folha é de não privilegiar o material feito pelos fotógrafos da casa, mas sim a melhor foto. O que obviamente não acontece sem muitos desapontamentos de todos.
NÃO DÁ PARA TER TODAS AS FOTOS
Nesse cenário, trabalhando sozinho, vendo uma quantidade inacreditável de equipes – tanto de TV, quanto de outros jornais, sites, agências de notícias –, correndo contra o tempo e sabendo que todo mundo produzirá imagens que o jornal poderá utilizar, você pode pirar. Pode ficar muito nervoso e cometer erros de que depois você se arrependerá. Não é possível fazer todas as fotos, estar em todos os lugares. Então a primeira coisa é ficar calmo e entender que não dá para ter tudo.
CRIAR FOCO PARA CRIAR FOTO
A segunda coisa que você tem de fazer é tentar pensar o que é o assunto. No caso desses dois dias, considerando que o acidente aconteceu fora do país e que o avião apenas saiu do aeroporto em que eu estava, o assunto eram os parentes das vítimas e sua relação com o que aconteceu. Simplificando: a foto que eu precisava fazer era dos parentes das vítimas mostrando sua emoção com a perda. No mundo encantado do jornalismo, se esperava uma cena: uma quantidade grande de pessoas chorando, algo que remetesse ao vôo da Air France. Claro, essa foto é fácil de idealizar, difícil de realizar.
PREPARAÇÃO
Por volta das 7h30 a redação me ligou de São Paulo avisando o que tinha acontecido. No rádio, a caminho do aeroporto, já tínhamos a informação de que o guichê da Air France estava vazio e que as pessoas estavam sendo encaminhadas para uma sala especial, à qual obviamente não teríamos acesso. Ou seja, eu sabia, antes de chegar ao aeroporto, que a foto que eu precisava fazer só seria conseguida quando as pessoas estivesssem chegando ao aeroporto e quando fossem encaminhadas à tal sala. O que significava não apenas uma restrição bem braba para fotografar, mas também o dobro da dificuldade de algo que por si só já é bem difícil: fotografar a dor de um semelhante.
DETESTADOS FOTÓGRAFOS
Muita gente fala que a câmera isola você de quem você fotografa. Muita gente também acha que fotógrafos conseguem ser invisíveis. E isto bem verdade em algumas situações. Mas em muitas coberturas a câmera te faz inimigo, explorador da dor alheia e mal visto.
No aeroporto se enfrentava não apenas a antipatia e o silêncio dos parentes, mas também a vontade de muitas pessoas atrapalharem o seu trabalho. Vi um dos familiares dar uma "guarda-chuvada" em um fotógrafo. Um segurança quis quebrar a máquina de outro.
URUBU, CHUPA-SANGUE, PAPARAZZI
Não há receita fácil para trabalhar nessas situações. Não há também método simples para viver ouvindo os suaves adjetivos "urubu", "paparazzi", "chupa-sangue." O que eu faço é tentar trabalhar com uma teleobjetiva e não ser muito espalhafatoso. Tento economizar fotos e observar ao máximo para trazer o que é importante e que o jornal vai publicar. Não insisto numa situação muito complicada, a não ser que seja "a" situação.
BUSCANDO SAÍDAS ALTERNATIVAS
Chegando ao aeroporto eu contei pelo menos cinco emissoras de TV, quatro agências internacionais, seis jornais e sites, agências de notícias nacionais e rádios. Todos já estavam lá, tinham mais informação e estavam agindo em bando. Todo mundo estava satisfeito com aquilo ali: era possível cercar os familiares, tentar uma entrevista, mas as fotos simplesmente não aconteciam ali. Era tudo muito frio, muito poluído – muitos jornalistas – e eu não via sinais fortes do que tinha acontecido. Conversando com um colega pensamos em tentar chegar à sala da Infraero andando pelo lado de fora do aeroporto. Eu estava sozinho, tinha que tentar. Fomos a pé, pela rua, carregando o equipamento completo – todo o equipamento pessoal mais uma teleobjetiva longa e o laptop –, até que achamos. O prédio ali estava muito mais vazio, muito mais fácil de trabalhar. Foi lá que fiz a foto que foi para primeira página da Folha de terça e a foto de dentro (abaixo).
DOIS LUGARES AO MESMO TEMPO
O jornal de terça publicou uma foto vertical da Reuters que mostra o check-in de um outro vôo da AirFrance. E nesse momento eu estava no prédio da Infraero, em outro terminal do aeroporto, fazendo o drama dos parentes. Eu sabia que haveria o check-in do vôo, mas nessas horas é necessário pensar: "Qual a foto que mais traduz o momento?" O desespero dos parentes. Então era atrás dessa que eu iria, mesmo sabendo que todas as agências estavam fazendo o check-in. É minimizar o dano quando você sabe que não pode fazer tudo.
Acho que é esse o difencial nessas horas: seu olhar + escolher o que perder + "lidar" [de lide] a foto.
BUSCANDO O LIDE DA FOTO, OU A FOTO-LIDE
Por isso eu sempre tenho de pensar: se há um assunto forte, tento "lidar" ao máximo a foto, valorizando o que é mais básico e simples. Tornar o assunto o mais forte e presente possível de acordo com o que eu vejo. É isso que chamo "lidar" a foto.
A foto da capa de terça é uma das melhores que fiz anteontem e acho que exprime bem a emoção das pessoas envolvidas no acidente.
QUESTÃO DE PERSPECTIVA
Uma última coisa que aprendi com um chefe de reportagem e que acho que vale falar. A gente estava fazendo uma pequena reunião de pauta quando falei que tinha um tiroteio em um morro próximo do jornal e que achava que a gente deveria ir. Isso em plena cobertura do acidente da TAM em São Paulo. Ele me disse: "Cara, o lide está a 400 km daqui."
Quando fui fotografar ontem, essa frase ficava na minha cabeça o tempo todo. Sabia que a foto que os jornais teriam seria do aeroporto, mas que o acidente tinha acontecido a mais de 1.000 km de onde eu estava. Então já fui pensando dessa forma, "fotografa e pensa que o lide está a uma porção de quilômetros daqui". Isso ajuda a tirar o peso dos ombros e ao mesmo tempo te dá perspectiva do que você está vendo. E perspectiva faz você pensar onde deve investir mais. De qualquer forma, aqui no Rio eu sempre me lembro: a Redação está a 400 km, a uma ponte aérea ou a uma boa foto daqui."
Quem conta é a repórter Eliane Brum, em entrevista ao projeto Na Mira do Comunique-se (a íntegra está aqui):
A situação mais inusitada vivida por mim foi fazer a matéria da prisão de uma ave. Ao ligar para o policial de plantão numa delegacia da região metropolitana de Porto Alegre, fiquei sabendo que o movimento estava tão calmo que a única presa era uma galinha. Na hora, a sirene tocou na minha cabeça. Como assim? Uma galinha presa? Chegando à delegacia, vi a galinha que tinha sido encontrada na companhia de um bêbado e de um galo morto. A polícia, naturalmente, liberou o homem e prendeu a galinha. Depois, fiquei sabendo que o bêbado era procurado por homicídio. O caso foi capa do jornal Zero Hora com o seguinte título: "Detida por atitude suspeita".
Alguém pode pensar: é muita sorte topar com uma história dessas. Mas não é só sorte. É interesse e senso jornalístico.
Quer ver outro exemplo? Bem no tal dia em que a galinha foi pro xadrez era Dia Nacional das Aves! Santa coincidência. Mas se o repórter não for atrás dessas associações --ou não estiver esperto para elas-- vai com certeza deixá-las passar.
Complementando o post abaixo sobre como entrevistar alguém que acabou de perder um querido, coloco agora as cinco experiências de RODRIGO RUSSO em seu dia na editoria Cotidiano:
"Aproveitando o momento de pausa para o fechamento da edição nacional, divido com os leitores do blog minha experiência sobre como é cobrir famílias dos desaparecidos no voo.
Número um: as dicas falam em procurar pessoas mais afastadas, mas, nos meus dois casos, elas não existiam pelo telefone que encontrei (lista telefônica faz milagre nessa cobertura). Assim, em um caso falei com um pai, consternado, e, no outro, com um filho (esse ficou em "off the record" mesmo) que parecia irritado. Eu não sei qual dos dois foi pior.
Número dois: dizem por aí que não há perguntas indecentes, mas sim respostas indecentes. Se isso é uma regra, cobrir repercussão de desastres com as famílias envolvidas é a exceção. Como perguntar para alguém: "E aí, dois dias depois, tua mãe está viva? Você tem esperança?" Ou então como reagir a quem diz que sabe que a filha morreu e que não vai nem ao menos ver o corpo? Não tenho resposta, sei que desejei boa sorte e falei que era difícil para todos os envolvidos – inclusive jornalistas.
Número três: há jeito de fazer o serviço. Pensei que não ia dar conta de ligar de novo quando o pessoal pediu mais detalhes sobre a vida da desaparecida: é justo pedir a um pai – para quem você já tinha ligado – para relembrar os fatos da vida da filha, planos de futuro, motivações para a viagem? Eu entendi que não, e busquei outro caminho: pessoas que haviam trabalhado com ela. Deu certo, há maior afastamento emocional, e algumas das informações que ela me passou tinham sido contadas a ela pela própria família. OBS.: mesmo que eu tivesse ligado, o pai não teria atendido – outro jornalista da Folha precisou checar uma informação e isso teve de ser feito com o irmão da desaparecida.
Número quatro: é dureza para nós, jornalistas, fazer o trabalho nesse momento. Mas as histórias de vida e reação da família são as coisas que os leitores mais procuram na cobertura. Faz sentido: 228 pessoas é um número. Dez (ou quantas histórias couberem) histórias de pessoas reais aproximam o leitor do que aconteceu, e despertam nele interesse pela leitura. É como dizia um professor meu da faculdade: o jornalista deve responder ao "legítimo interesse do leitor", e isso não vale só para os casos bacanas.
Número cinco: mesmo na tragédia, há momentos (poucos) de comédia. Precisava ligar para a Itália, e recebi um número errado aqui na redação: gastando o meu curto italiano, contei que era um jornalista brasileiro, que precisava de informações etc. A resposta: e daí que você é jornalista? Vá dormir! E desligou na minha cara. Duas vezes."
ADENDO: Mauricio Stycer fez um post sobre o mesmo assunto (e conta até um caso "engraçado" no final). No blog dele, praticamente todos os leitores que comentam reclamam dos jornalistas
Agora o trainee DANILO BANDEIRA, que participou da cobertura na Folha Online ontem de manhã, conta um pouquinho como foi [os intertítulos são meus]:
"Minha escala me mandou para o Folha Online hoje [ontem], às 9h, no começo da cobertura.
Cada um com sua tarefa - Fiquei responsável por procurar especialistas em aviação e porta-vozes da Air France na França – e minha busca foi um rematado fracasso. Era feriado na França. Locais como a Escola Nacional de Aviação Civil, que poderiam fornecer nomes de pilotos ou especialistas, estavam simplesmente fechados.
Os dois lados do estresse - Alguns clichês sobre coberturas de tragédias são mesmo verdade: as pessoas gritam de um lado pro outro da redação, caçam os nomes das vítimas e ligam pros familiares. Deu pra notar como é difícil conversar com pessoas que acabaram de sofrer uma perda, sob tamanho estresse emocional (eu não conversei).
Correndo atrás do prejuízo - É complicado ser um veículo impresso/online nessas horas. A TV obtém praticamente todas as informações muito antes que os outros veículos e, às vezes, a única alternativa que resta é mesmo "requentar", porque o leitor da FOL também precisa receber a informação e não é obrigado a ficar ligado na TV, embora a tentativa seja sempre de correr atrás do que ninguém deu. Além disso, a falta de informações quanto ao paradeiro do avião não deixou muitas opções além de procurar a lista de passageiros e tentar esboçar breves biografias.
O monopólio da grande cobertura - Outra coisa é que as outras notícias (pelo menos da editoria responsável, Cotidiano, no caso) praticamente param. À tarde fiz uma materiazinha sobre a apreensão de milhares de comprimidos de uma droga nova no Rio Grande do Norte, falei com a Polícia Federal... Escrevi e foi pro ar. Mas foi parar no índice, esmagada entre uma avalanche de notícias sobre o desastre. Imaginem qual não foi a audiência..."
Enquanto boa parte da redação se concentrava na cobertura do avião desaparecido, outra parte cuidava do restante do noticiário. A trainee ESTELITA CARAZZAI estava em Mundo, bem ao lado de Cotidiano, e nos conta o que observou ontem:
"Eu aprendi que também há dias parados na redação. Bem parados.
Assim foi meu dia em Mundo. Primeiro, a queda do avião foi para Coti e arrebatou páginas preciosas de outras editorias – ou seja, havia pouco espaço para o noticiário internacional. Depois, o encontro da OEA, que seria o grande fato do dia, acabou "monopolizado" pelos enviados especiais (Cláudia Antunes e Eduardo Scolese). Sobrou pouca coisa pra fazer da redação – que, por não ter muito espaço, trabalhou pouco hoje [ontem] no material factual.
Fiz pouca coisa além de acompanhar a feitura de uma arte e observar a movimentação frenética da editoria de Cotidiano ao meu lado.
Aliás, isso foi legal: deu pra perceber que a cobertura de um evento dessa magnitude (a queda do avião) é bastante coletiva.
Repórteres e editores discutiam o tempo todo o que de fato aconteceu com o avião, quais eram as possibilidades levantadas pelos especialistas, quem eram as vítimas e o que faziam etc.
Dava para ver que a edição ia sendo resolvida nesses momentos, quando repórteres e editores esclareciam juntos qual era o lide da notícia e quais os buracos que faltavam ser preenchidos.
Um avião desaparece com mais de 200 pessoas e deixa seus parentes e amigos desolados.
Mas cada uma daquelas pessoas que estavam dentro do avião carregam histórias de vida, conquistas, detalhes que as tornam especiais e que merecem ser relatados a todos que acompanham a tragédia.
Tomando o cuidado para não cair no sensacionalismo, o jornalista tem a obrigação de desvendar esse novelo de histórias e trazer ao seu leitor o lado humano daquela tragédia: mostrar que não foram X números desaparecidos, mas X vidas.
É o que vários jornalistas pelo país afora estão fazendo desde ontem, insistentemente.
O problema é que, para fazer isso, é preciso conversar com os mesmos parentes e amigos que estão num momento de enorme dor e aflição, ainda sem saber o que aconteceu direito.
Como?
Reli uma porção de posts que já trataram desse assunto e resumo, abaixo, em tópicos, o que eu aprendi:
Respeite o momento de quem acabou de perder um querido, coloque-se no lugar dele.
Aproxime-se da pessoa que parece estar menos abalada.
Mesmo indignados, revoltados e tristes, os familiares das vítimas querem contar histórias, falar sobre a vida da pessoa que acabaram de perder.
Se ouviu um não, é não mesmo. Não insista demais, tenha bom senso.
Nunca embarque em informações publicadas em sites ou divulgadas nas rádios. Sempre confirme antes. E os familiares são quem tem as informações mais precisas.
Apresente-se, converse antes, explique com jeitinho que você quer é ouvir a história que ele tem para contar.
Depois de apresentar-se, peça perdão por incomodá-lo naquele momento e pergunte se está disposto a conversar.
Seja discreto.
O melhor é sempre conversar com parentes mais "distantes" (primos, amigo da família) para saber um pouco da situação da família, quem era a vítima etc.
Na tarefa do "O que eu aprendi hoje", ANDRÉ MONTEIRO mostra que a cobertura do desaparecimento do avião não foi caótica como ele imaginava e que é possível não só executar as tarefas distribuídas, mas tentar ir além:
"Achava que uma cobertura de queda de avião na Folha Online seria bem caótica. Mas foi o contrário.
Passei algumas horas ajudando Cotidiano, que recebeu o reforço e as atenções de todas as editorias da FOL pela manhã. Cada "soldado" – para usar a expressão que o Feltrin tanto gosta – que chegava recebia uma função (ou várias) e todo mundo se comunicava pra não haver trabalho dobrado. Desse jeito a coisa funcionou bem.
Mas só por ter uma função também não quer dizer que não dava pra procurar coisas "por conta". Estava checando quantos e quais barcos da Marinha participavam das buscas, e descobri, escondido em um release, as coordenadas do local em que o avião apareceu pela última vez no radar.
A manchete do jornal "Extra" da última sexta foi no mínimo inusitada: o número do celular do ministro das cidades, Márcio Fortes.
O site Amanhã no Globo conversou com o editor-chefe do jornal popular para entender a escolha.
"Quando conversamos, ele não desmentiu essa dificuldade e disse que era um ministro acessível para tirar dúvidas da população, colocando seu celular à disposição. Mais tarde, ligamos para sua assessora e informamos que o número seria impresso na edição de sexta. Mas não dissemos que seria manchete, simplesmente por termos a prática de não divulgarmos nossa manchete do dia seguinte."
O post, apesar de incompleto, é saboroso por trazer as experiências de alguém que foi descobrindo uma nova tecnologia sobre a qual não sabia NADA. E foi conseguindo dominá-la pouco a pouco, até que ela mudasse sua visão de jornalismo.
Um trecho que achei ótimo foi o que ela diz que começou a dar valor aos comentários, perceber que o blog é uma espécie de conversa e que os posts não se fecham: um assunto encadeia o outro e é sempre enriquecido e retocado pelos leitores.
"Comecei a perceber que só os jornalistas achavam que eles sempre tinham que terminar suas histórias sozinhos. Nos blogs há colaboração, frequentemente uma história se mantém com um final em aberto. Comecei a pensar por que isso não estava sendo aplicado da mesma forma às notícias."
E foi aí que ela começou a pedir que seus leitores mandassem as perguntas que eles gostariam que ela fizesse a quem estava entrevistando para a apuração do momento.
(Suspeito que isso tudo tem a ver com o post anterior...)
E eu queria saber de vocês: possuem blog? Como utilizam seu blog para melhorar sua atuação como jornalista? Como seus leitores ajudam nesse objetivo?
Tem um pessoal que adora especular sobre o fim dos jornais impressos. Tem até uns que vão além e sentam na arquibancada, compram a pipoca e ficam torcendo para que isso aconteça.
É o que parece ser o caso do Themediaisdying [a mídia está morrendo], no Twitter.
E agora do site Newspaper Death Watch [observatório da morte dos jornais impressos], que existe desde março de 2007, mas só conheci agora, a partir da dica da Desireé.
O site se propõe ser uma "crônica do declínio dos jornais impressos e do renascimento do jornalismo".
Eu sei lá se vai acontecer esse momento fênix e acho que é uma discussão mais para acadêmicos que para jornalistas. Mas me interesso pelas mudanças que estão ocorrendo nas tecnologias e em como elas podem ser usadas para agregar informações aos jornais e enriquecer o modo de produção de notícias.
Sobre isso, um post desse site me chamou a atenção. É sobre o Google Wave, uma nova ferramenta que foi apresentada recentemente (pelo leitor Francisco, no nosso caso), tem lançamento previsto para o final do ano e sobre a qual já se diz que irá remodelar a forma de colher e distribuir informações.
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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