Um dos aprendizados do JOSÉ tem a ver com o vídeo que ele fez (acima) e que já está no ar:
Por JOSÉ ORENSTEIN:
Hoje aprendi que existe sorte.
Mas aprendi, na prática, que é preciso estar preparado para ela.
Primeiro, eu liguei para a PF para uma apuração despretensiosa. O delegado que me atendeu não podia me ajudar no que eu queria, mas, quando estávamos quase desligando ele disse: "É, mas eu acabei de fazer uma apreensão de drogas aqui no aeroporto". Ele acabou me passando o furo, e eu perguntei tudo que podia. Foi legal essa sensação de ter sorte.
Logo depois fui contar para LÍGIA (sempre ultra-empolgada) que adorou, mas emendou na pergunta: "Você gravou?" (nessa hora ficou piscando na minha cabeça o alerta da Ana Estela de que era preciso gravar tudo). Não... não tinha gravado, porque afinal eu tinha ligado pro delegado só pra tirar um dúvida.
No fim deu certo, consegui escrever a matéria e, pelo menos até agora, ninguém desmentiu a história. Mas de agora em diante gravo tudo. Aprendi.
Segundo, fui fazer a pauta multidimídia – um tanto despretensiosa também – sobre a inauguração de uma exposição. Estava achando legal, eu ia lá fazer umas imagens bacanas, entrevistar pessoas na rua etc (créditos ao Pedro pela ideia de ir lá).
Eis que quando chego lá, encontro o próprio artista Nelson Leirner – e também o curador. O artista me concedeu uma entrevista bem informal, e eu filmando tudo. Melhor ainda, concordou em visitar a exposição ao meu lado comentando as obras. Fiquei feliz com o resultado.
Mas acho que eu teria aproveitado melhor a sorte se eu tivesse lido mais e me informado mais sobre o artista antes da exposição. Durante a entrevista senti falta de ser capaz de fazer perguntas melhores e mais profundas.
Aprendi por fim que o dia fica mais longo quando a sorte vem. Mais sorte = mais trabalho. Mas mais legal.
Os trainees foram estimulados a pensar no que aprenderam durante suas últimas tarefas, tanto na Folha Online como na confecção de seus vídeos. Hoje tem um monte de aprendizados que se tornaram ótimas dicas:
Por ESTELITA CARAZZAI:
NA FOLHA ONLINE:
1. Pra começar, aprendi que no Online os fatos te atropelam, a vida te atropela, os Erramos te atropelam e você deixa qualquer coisa que não tenha a ver com o trabalho imediato para depois (que é o que eu estou fazendo agora).
2. Por mais que seja tudo em cima da hora, a cobertura online requer planejamento. Se você se organiza, fica muito mais fácil colocar os links no pé da matéria (o Coti tem links e tags preparados para determinados temas), fazer a contextualização da notícia, achar as fontes daquela notícia, acompanhar um determinado tema pra saber o que está rolando e não levar furo, fazer sua ronda de sites concorrentes etc.
3. Quando você sai da redação, é fundamental ter os telefones mais importantes do caso ou da sua área de cobertura no bloquinho ou na agenda – pra contextualizar a matéria, pra repercutir o que acabou de acontecer, pra pedir um dado que você sabe que existe mas não tem à mão na hora (e normalmente você precisa mandar a matéria na hora, então, é bom MESMO ter isso tudo). Acompanhei um repórter de Brasil ontem na cobertura do mensalão. Ele precisava do número do processo pra conseguir o telefone do advogado de um dos réus. Foi um empenho pra ele conseguir tudo só com os contatos de alguns coleguinhas no celular.
4. Às vezes me sentia dividida entre o "publique logo" e o "aprofunde a cobertura". Essa é uma dúvida que se mantém. Quando vale a pena ligar para mais fontes e dar uma notícia mais completinha, e quando vale publicar logo, pra dar a informação principal, e ponto? Não tenho opinião formada. Por mim, faria sempre mais completinha, mas não sei se esse é o objetivo do online.
5. Todo repórter de online inevitavelmente vai falar palavrão de vez em quando. Faz bem para liberar o estresse
NO MULTIMÍDIA:
1. A Flip não capta bem o som de entrevistas. É preciso chegar bem pertinho do entrevistado. Descobri que se você olha diretamente pras pessoas e demonstra interesse no que elas estão falando, em vez de ficar prestando atenção se a imagem está bem enquadrada, elas não se incomodam com a câmera e agem naturalmente. Fica bem bom no vídeo.
2. É imprescindível fazer boas imagens pra cobrir os offs – especialmente aqueles em que você vai falar dos entrevistados. Esqueci completamente disso no primeiro dia em que fiz o vídeo, porque estava compenetrada em achar bons personagens e boas histórias que não pudessem ser contadas no papel/no texto – como havia recomendado o Adam, do NYT. Esqueci que a Folha Online trabalha com outro formato de vídeo. Foi graças às "falcatruas" do editor de imagem que a matéria conseguiu ir pro ar (alongar um take e outro, achar umas fotos pra complementar etc.).
3. Duas cabeças pensam melhor que uma. Hoje me escalei pra fazer uma matéria com a Flávia, e ela fez imagens muito boas que eu nunca pensaria em fazer. Também lembrou da autorização para menores (que eu esqueceria completamente, o que impediria a matéria de ir para o ar). Além disso, a gente conseguiu fazer as entrevistas *E* as imagens para cobrir o off ao mesmo tempo.
O post sobre dicas de entrevistas, lá embaixo (por sinal, meio subaproveitado pro vocês, assim como o manual de fotógrafos), rendeu dois relatos que me fizeram refletir – até porque em um deles eu discordei da Ana na resposta.
O primeiro foi de uma jornalista, a leitora Marcelle, que disse:
"É normal o entrevistado, antes de aceitar dar a entrevista, pedir um currículo detalhado do entrevistador? Me senti um pouco ofendida com esta situação e não sei o que fazer. Pensei em recusar o trabalho por causa disso, mas também não acho juste perder uma oportunidade."
O segundo foi de uma fonte, o leitor Ramiro, que disse:
"Um jornalista de uma empresa X entrou em contato por telefone pedindo informações sobre determinado assunto. Fiquei inseguro pois não a conhecia e também não sabia como tinha chegado ao meu nome. Qual a regra (ética) para um entrevistado reagir a uma situação destas? Pedir para enviar um email?"
Temos um conflito aí, porque a jornalista não quer ter que enviar todo o ser currículo para ser avaliado pelo entrevistado, mas o entrevistado (em outra situação, tá gente?) não queria passar informações valiosas a alguém que se diz jornalista mas que ele não conhece.
Já que a gente andou falando um bocado sobre frilas aqui no blog, acho que vale tocar num assunto que nunca é demais repetir:
mantenha-se em contato com seus colegas, crie também uma agenda de ex-colegas que trabalharam com você, porque eles poderão ser fundamentais nas horas de aperto.
Como o jornalismo é uma profissão cheia de altos e baixos e, ao mesmo tempo, cheia de oportunidades, é importante manter o que meu pai chama de "rede de solidariedade". Em outras palavras: ter os contatos de seus pares, conhecer suas habilidades e, quando você precisar dessas habilidades para seu trabalho, lembrar-se delas.
Para quem quer viver como freelancer, isso é quase uma regra de sobrevivência.
"Não esqueça seus contatos... e, com sorte, eles não te esquecerão.
Assim que eu soube que estava desempregado, comecei a fazer com que meus amigos, parentes e conhecidos soubessem da minha nova situação – e minha disposição para fazer qualquer coisa.
Mas não parei por aí. Sempre fui bom em manter contato com as pessoas, pelo menos algumas de cada último lugar onde trabalhei, e mesmo quando não há nenhuma oferta de emprego imediatamente disponível, o apoio moral que recebi delas tem sido ótimo.
Há pessoas em que eu poderia pensar de imediato, com quem eu tive ótimas relações profissionais e que eu sabia que não só seriam solidárias à minha situação, mas que também eram bem conectadas.
Elas não vão necessariamente me trazer empregos numa bandeja, mas o importante é que já lidaram comigo em um nível profissional e conhecem meu trabalho o suficiente para me indicar onde for possível."
Mas tem jornalista por aí, principalmente naquelas paragens, que já está usando a ferramenta para escrever verdadeiras crônicas (picadinhas, mas coesas).
Ele fala da sua carreira na New Yorker, da qual guarda um pouquinho de amargura, embora diga que não.
Conta que o escritório da revista é assustador: "Todo mundo sussurra. Não exatamente como numa biblioteca; é mais como estar em um quarto de hospital em que alguém está morrendo. Como se alguém estivesse morrendo e todo mundo se sentisse um pouco culpado por isso."
Apesar disso, ele recheia sua experiência com pequenas pérolas que merecem ser lidas.
Por exemplo, conselhos de Tom Wolfe e Samuel Johnson:
"Tom Wolfe está certo quando exorta os jovens escritores a ignorar o velho conselho de "escrever sobre o que você sabe" e, em vez disso, escrever sobre o que você não sabe. Se você precisa conhecer alguma coisa do nada, ele argumenta, você não carrega preconceitos preguiçosos." (Fantástica, né! ).
Ou: "Leia o que você escreveu e, quando você encontrar uma passagem que você acha especialmente boa, apague-a".
Outra pílula significativa:
"Como todo escritor sabe, o editor quase nunca sugere histórias. Pensar em idéias para histórias é o trabalho real; pesquisar e escrever sobre elas é a parte fácil."
Enfim, o camarada que não levou o twitter a sério lá em cima deste post perdeu uma crônica cheia de boas histórias e reflexões sobre o mundo do jornalismo. Você pode lê-la AQUI
A leitora Cristiane deu uma dica bem legal: uma página da BBC que tem vários jogos, lições, vídeos e outras ferramentas para aprender inglês, geralmente usando vocabulário de jornal.
O joguinho de que ela mais gostou foi o Beat the keeper (acima), em que você completa as frases em inglês fazendo gols.
"Amacie" o entrevistado. Jogue conversa fora, relaxe, para ele ver que você não morde (muito )
Manter silêncio após a resposta pode estimular o entrevistado a ir além da primeira resposta óbvia
Com políticos, especialistas (principalmente ao vivo) insista no "e daí?"(why should we care?). Obriga-os a serem explícitos
Não é preciso ser rude ou agressivo para fazer perguntas duras. Seja educado e tranquilo. O efeito é melhor
Para desmontar entrevistado que despeja estatística, torne-a mais compreensível ("dá para fazer o que com isso?"). US$ 180 milhões, por exemplo, é só US$ 1 por brasileiro
Se você não vai fazer pingue-pongue ou entrevista longa, mas pinçar boas frases, marque no bloco o tempo das boas frases
Para entrevistados que escorregam, vá refazendo a questão de formas diferentes até que ele responda. Refraseie, reformule (nem sempre adianta)
Se o entrevistado é inexperiente, ponha-se no lugar dele: explique o que está fazendo, ouça as histórias dele, ganhe a confiança
Não desminta o sujeito na primeira mentira. Deixe ele contar um monte antes
Hoje o caderno de Informática da Folha deu várias dicas muito boas para quem quer escolher a máquina, aproveitar os melhores recursos para fotografar diferentes tipos de situações/cenários, fazer compras com melhor custo-benefício etc. Assinantes lêem aqui.
Isso me deu a ideia de pedir a alguns fotógrafos da Folha para também darem dicas de como escolher a melhor câmera, mas desta vez dirigidas àqueles que têm interesse em trabalhar como repórteres fotográficos.
O RAFAEL ANDRADE, da sucursal do Rio, dono dessa linda foto que ilustra o post, fez um verdadeiro manual para quem quer seguir os passos dele. [Outra dica é visitar o blog dele, que tem informações sobre as coberturas que ele fez e outras que deram errado].
Dividi em tópicos e aí está:
Boas câmeras
Indicar câmera é sempre complicado. Acho que comprando ou Nikon ou Canon você está bem equipado.
A Nikon em geral é mais cara, mas no segmento amador tem mais qualidade que a Canon em lentes mais baratas.
E isso às vezes pode ser uma ótima ajuda para quem está começando. Você consegue comprar lentes com mais qualidade com um preço mais em conta.
Por outro lado, todos os grandes jornais do brasil adotaram Canon. Se você for fazer frilas na Folha, no "Estado" ou no "Globo", e tiver equipamento da mesma marca, pode pegar emprestado lentes maiores, que você não precisa ter, para fazer algumas pautas mais específicas – como futebol, em que uma lente grande é fundamental.
A câmera tem que trocar de lente
Para fotojornalismo só há uma opção viável: comprar uma máquina SLR. Máquinas Paralax e com lente fixa em geral não são indicadas, pois em fotojornalismo todo dia você está clicando algo diferente.
Então ter uma câmera que te permita trocar lentes é fundamental.
Lentes essenciais
O básico do trabalho em jornal te pede duas lentes. Uma grande angular meia tele, como uma 28-70, e uma tele maior 70-200 já dão conta da maior parte das pautas.
Não precisa ser das mais luminosas, mas diria que, no dia-a-dia, trabalhamos em situações de péssimas condições de luz. Então uma lente com abertura f/4 é uma opção não tão cara, mas que quebra o galho. Além disso, as máquinas mais novas são capazes de trabalhar com ISO mais alto, ou seja, em situações de luz mais baixa, com mais qualidade.
Sobre o flash
Hoje em dia recomendaria também que você tivesse mais de um flash, ou então um cabo, ou transmissor, que te permita tirar o flash de cima da máquina. Isso ajuda muito nas pautas de retrato, pois permite posicionar melhor a luz, fugir de reflexos, bem como iluminar melhor o fotografado.
[É o recurso que ele usou na foto acima, um belo exemplo de retrato]
Acessórios
Acho mais interessante investir em coisas que melhoram as pautas simples, principalmente os retratos – como, por exemplo, acessórios para o flash, um rebatedor, um transmissor de flash, ou mesmo um cabo –, do que comprar lentes acima de 200mm.
Em geral, quando você começa a frilar em jornal você pega muitos retratos para fazer, e uma lente 300mm, por exemplo, que custa uma nota preta, adianta muito pouco em uma situação comum de quem está começando.
Por outro lado, um transmissor ou mesmo um segundo flash custam em torno de metade do preço de uma lente como essa, às vezes menos, e você usa muito. E à medida que usa, quer mais soluções para seu pequeno arsenal de equipamentos.
Cartões de memória indicados
Compre cartões de memória bons. Não adianta nada empatar dinheiro em uma Ferrari (ok, num Uno Mile), que vai te fazer ganhar dinheiro, e colocar um kit gás ou gasolina batizada
Compre mais de um cartão, se possível três, de boa capacidade – a partir de 2GB –, e trabalhe sempre com a máxima capacidade da máquina.
Recomendo apenas três marcas: Sandisk, Lexar e Kingston.
Não adianta fazer uma linda foto e depois descobrir que o arquivo dela é de baixa qualidade. A gente fotografa para ver as fotos bem publicadas e de preferência grandes.
Não importa que o jornal diga que não precisa de arquivos enormes – guarde-os para você, e transforme os grandes arquivos em menores em um programa de edição para enviar para o jornal.
Programas de edição
Não se preocupe em ser jockey de mouse e ter o último Photoshop instalado.
Há bons programas de edição e tratamento mais baratos que o Photoshop CS4 – como o Lightroom da Adobe, que estamos usando agora no jornal.
O Adobe Photoshop Lightroom é muito mais em conta que um Photoshop, mais intuitivo e mais prático.
Transmissão das fotos
Lembre-se: um laptop e uma placa de transmissão fazem com que você consiga transmitir suas fotos em quase qualquer ponto do Brasil.
Enquanto um desktop ótimo só vai dar a chance de você sentar a bunda na cadeira em casa.
Dicas de sites
Sobre câmeras, recomendo o site http://www.dpreview.com/, em inglês, de um cara chamado Roger Gailbraith que é tarado por testar coisas. Ele costuma fazer testes estranhos, como usar seis marcas diferentes de cartões de memória e dizer qual é o mais rápido em seis máquinas diferentes.
Tem também os sites da Canon e da Nikon, que dão informações sobre todos os modelos de máquina em produção atualmente.
O site da B&H tem quase tudo que é fabricado em fotografia à venda. É ótimo para se informar sobre os preços lá fora e avaliar quanto você pode gastar para comprar aqui seu equipamento.
As melhores dicas: observe, imagine, estude
Fora isso, a única boa dica que eu posso dar é: fotografe muito e observe atentamente o que o jornal em que você quer frilar ou trabalhar publica.
Faça muita engenharia reversa das fotos. Tente imaginar como o fotógrafo que fez aquela foto chegou àquela foto. Que luz, qual a direção, que lente, que enquadramento.
Quando fiquei desempregado há uns anos, após sair de um estágio em jornal grande, passei um ano como assistente em um estúdio. Todo dia eu lia o jornal que me dispensou e via cada foto que era publicada. E fazia exatamente isso: estudava cada foto, principalmente as ruins, para criar um repertório na minha cabeça de soluções para situações jornalísticas. Isso ajuda muito todos os dias.
Saber três formas de fazer uma foto em geral te leva a três fotos diferentes e três chances de fazer alguns editores, um repórter e um diagramador sorrirem.
Tente sobretudo entender por que o jornal publicou aquela foto na primeira página e aquela que você achou tão mais legal apenas dentro do caderno.
Pense editorialmente, pense nas fotos que você faz e pergunte a quem trabalha como faz cada coisa. Bons profissionais em geral são muito acessíveis. Com calma e curiosidade você pode aprender muito.
Nunca subestime o fotojornalismo ou a importância do que você fotografa.
Para fechar, eu queria dar um exemplo recente do frila Yuri Gonzaga, que, conhecendo o tipo de foto que a Folha publica, procurou o jornal anteontem e conseguiu emplacar a foto principal da capa de ontem. Ele usa uma Canon 30D com lente 50mm 1.8.
E o Cleinaldo Simões deu a dica de um livro sobre o mesmo assunto lá na lista da Abraji:
"'Movendo-se num mundo de manchetes, de esforços de reportagens, de (Internet) e de microfones, é muito fácil a um jovem jornalista perder a correta perspectiva. Pode tornar-se um cínico. É mesmo muito fácil tornar-se um presunçoso. É muito fácil, ainda, esquecer que, seja qual for a sua habilidade de escrever e de falar, o repórter é um comunicador, um catalisador, um intermediário entre as fontes de informação e o vasto público de leitores e de ouvintes. Isto não pode ser esquecido. Senão, você incorrerá em sérios equívocos e erros'
No hyperlink vocês podem encontrar por R$ 7,50 no sebo virtual. Quem gosta de terapia do pó, ele já pode ser encontrado em alguns dos melhores sebos da cidade de S. Paulo.
No último dia 4 de abril, o gaúcho Rodrigo Cavalheiro, pediu demissão do portal do jornal El País, em Madri, onde trabalhava desde janeiro, no dia 5 comprou umas botas, no dia 6 disse adeus à namorada, no dia 7 comprou uma mochila e um laptop pequeno e no dia 8 deixou a cidade de carona rumo a uma aventura que tem todos os ingredientes para se tornar memorável: está percorrendo a África de Norte a Sul, por terra (de carona, ônibus e táxi), com a intenção de montar uma grande reportagem sobre o continente que pela primeira vez vai sediar um Mundial de futebol.
Começa assim a entrevista que o boletim reservado "Jornalistas&Companhia" fez com Cavalheiro. Para ler, clique aqui.
E você, o que faria com o prêmio?
Para acompanhar outros aventureiros na África: Candongueiro, de meu ex-trainee João Fellet, e Pé na África, de meu colega FÁBIO ZANINI
Há outros cobras: Endrigo Chiri Braz (Editora Trip), Rodrigo Flores (UOL), Eugênio Trivinho (PUCSP) e Marco Chiaretti (estadao.com.br). [Mas a Ligia, pra mim, ainda é a top!! )
Nesta quinta (28), às 17h, no auditório da Escola de Comunicações e Artes da USP, João Batista Natali e Lourival Sant'Anna vão falar de suas experiências cobrindo o mundo.
O fotógrafo freelancer Danfung Dennis, que já estampou suas imagens no New York Times e na Newsweek, escreveu um artigo que expressa muitas das atuais dúvidas dos jornalistas, especialmente dos freelancers.
Ele acredita que os frilas são os primeiros a sentir o impacto da suposta crise dos jornais e revistas impressos.
Para sobreviver no atual mercado midiático, ele precisou se adaptar a um modelo de multiplataformas, facilitado por novas tecnologias:
"Vou retornar ao Afeganistão esta semana para trabalhar nesse novo modelo. (...) Vou fazer fotografias e vídeos, editar e produzir tudo no meu macbook, passar para as plataformas da web, do iphone e do podcast, transmitir via satélite para meu site e atualizar meu RSS feed, twitter, facebook, vimeo e blog".
É tarefa pra caramba!
Ele conta que postou em seu site uma prévia de seu trabalho há algumas noites e teve mais de 5.000 acessos nas primeiras 24 horas!
Mas sua angústia é a seguinte: "Como sobreviver e ganhar dinheiro com esse modelo de videojornalismo integrado à rede se se espera que o conteúdo da internet seja gratuito independentemente de ser bom ou original?"
É o conflito de um repórter fotográfico tão acostumado a cobrir conflitos mundo afora...
O que vocês acham? Há resposta para essa pergunta de Dennis?
Como diz meu colega e amigo EDUARDO KNAPP, que me mandou a gracinha abaixo, é uma foto para lembrar quem foi na viagem...
Mas, pra saber, só com legenda, né?
ADENDO NO FINAL DO DIA: com o comentário de minha leitora Marina, logo abaixo, me dei conta que fui apressada em troçar da foto.
Marina conta que é possível reconhecer as pessoas pelos olhos. Eu, na minha enorme ignorância sobre a cultura muçulmana, é que achei que seria impossível.
Peço desculpas a todos os meus leitores pelo erro. Este eu não cometo mais.
(Não estou entrando no mérito do uso do véu. Só estou mostrando como a ignorância nos leva a erros bobos.)
Todos os congressos da Abraji foram ótimos, mas nenhum teve uma programação tão forte quanto a deste ano, nem uma organização tão promissora.
É talvez o evento de aperfeiçoamento profissional mais abrangente do país, vai trazer nomes importantes do Brasil e de fora e tem uma boa mistura de palestras (curtas, para abrir janelas), oficinas (mais longas, para adquirir técnicas) e troca de experiências.
Quem é jornalista, quer ser, tem dúvidas sobre se quer ser ou gosta do assunto não deveria perder.
[Quem lê o blog faz tempo sabe que sou da diretoria da Abraji. É um trabalho voluntário. Não ganho nada "promovendo" o congresso. Acredito realmente que é um evento de formação importante, e o deste ano será melhor que "nunca antes neste país" =)]
É mais voltado para diagramação de revistas mesmo, mas tem muita coisa legal para quem se interessa pelo mundo da diagramação (e também da infografia, ilustração, fotografia e webdesign, porque é um blog de toda a equipe de arte da revista).
Uma das coisas mais legais é o post semanal sobre a escolha e produção das capas da revista – como este vídeo que pus aí em cima.
Há muuuuuito tempo, meu leitor M. me escreveu para dizer que nunca conseguia falar com as fontes. E agora vou poder responder na especial companhia de meu mestre CLOVIS ROSSI. Veja o problema de M.:
Estava cobrindo algumas coisas e tive absoluta dificuldade em competir com os grandes veículos. Aliás, não houve competição alguma, risos. Eles simplesmente fizeram tudo aquilo que não consegui fazer.
Mas o fato curioso é que eu estava com tudo pronto para fazer as matérias que eu mesmo tinha pautado, mas encontrei uma grande dificuldade em apurar as pautas. Isso porque quase que a totalidade das pessoas que tentei contatar não queria falar com a minha revistae comigo. A revista é pequena, eu sei, mas é especializada bem na áreas deles, pô.
O pessoal do governo dizia que não tinha tempo, que estava em reuniões, e minutos depois eu lia declarações daqueles mesmos na Folha, Estado, Globo, Valor etc. O mesmo acontecia com o povo das associações. Desculpas e mais desculpas. Acabei falando com pessoal acadêmico que é sempre mais solícito.
Pergunto: é tão mais complicado ser pequeno? Ou simplesmente o problema são as boas fontes que não gostam de falar com os pequenos?
O que o M. nem imagina é que isso também acontece com quem tem nome e está em veículos grandes, como contou CLÓVIS ROSSI na aula que deu na USP na última sexta.
Como, o Rossi encontra dificuldades para falar com alguém?
Não aqui, no Brasil, mas pelo mundo afora, de onde ele faz muitas de suas reportagens.
E qual é ótima dica do Rossi para conseguir ser ouvido?
No caso de meu colega M., esse papel de "apresentador" pode ser cumprido por um colega de um veículo conhecido ou até mesmo por uma das fontes acadêmicas às quais ele têm acesso.
Aqui, mais algumas sugestões que eu tinha dado para o M. na época:
tente o acesso direto. Aqui no blog a gente já contou a história do Paulo Totti, jornalista superconsagrado do Valor. Ele não conseguia falar com o Temporão de jeito nenhum através da assessoria. O jeito que conseguiu foi procurar no google, achar um e-mail pessoal e escrever direto...Quando eu queria entrevistar o Covas, também só consegui assim: fiz um trainee levar uma cartinha e entregar na mão dele. A carta contava que seu secretário de comunicação estava me barrando. Deu certo.
não desista; insista.Elvira Lobato chega a ligar 17 vezes para uma fonte no mesmo dia (foi a fonte que me contou, hehehe).
se o caminho direto não vingar, tente atalhos. Por exemplo, não há fontes suas que sejam próximas deles? Elas não poderiam interceder por você? Ou funcionários de segundo escalão do ministério que vc já conheça melhor?
secretárias valem ouro. Insistindo com elas, às vezes, dá certo. Muitas delas são influentes, podem passar um recado ou deixar vc falar direto com o ministro sem passar pela assessoria.
contorne a falta de tempo. Se a desculpa para não te receber for falta de tempo proponha fazer a entrevista durante deslocamentos da fonte. Quando eles estiverem indo de um lugar para o outro, por exemplo, vc vai no carro e fala com eles. (aqui em SP, com o trânsito ruim como é, dá para fazer não uma , mas uma série de entrevistas)
Outra opção é ver se algum amigo seu é amigo do assessor e pode fazer uma embaixada...
‘Para conseguir começar, ele foi viver sozinho numa ilha e se matou com um tiro.’
Início de um conto de Robert Coover citado por Tom Wolfe em "Radical chique e o novo jornalismo" (Companhia das Letras, 245 págs.): leia mais no Desculpe a Poeira.
As qualidades do bom jornalista variam muito, mas quem põe o pé na rua --repórteres e fotógrafos-- tem que ter uma fundamental: manha, esperteza, malícia.
Meu colega JAIRO MARQUES conta hoje em seu blog uma excelente história de como nosso chapa LUIZ MURAUSKAS (o Luizão) criou um clima que permitiu ao Jairo fazer uma entrevista espinhosa.
Eles têm bons argumentos e contribuíram com a minha reflexão, mas também me mostraram que eu devo ter me explicado mal.
Vejam: NÃO estou fazendo uma matéria, nem cravando que o Controlar funciona. Estou contando o que aconteceu comigo no dia em que fiz a inspeção e dizendo que isso me fez pensar sobre se é possível e desejável para um jornal fazer reportagem sobre o que funciona --e, se for, como fazer para não parecer que é matéria comprada (um leitor do blog chegou a escrever que eu fui comprada pra fazer o post... ).
Como diz meu pai, se não entenderam o que você disse, a culpa é sua que explicou mal. Vou tentar de novo:
a função principal do jornal é FISCALIZAR os agentes públicos e não falar bem deles
um serviço funcionar é obrigação. Em tese não é, portanto, notícia
mas talvez o leitor goste de saber também que em tal e tal lugar as coisas funcionam. Isso pode ajudá-lo a tomar decisões
se a afirmativa acima for verdadeira, minha pergunta é: existe alguma forma de publicar matérias também sobre o que funciona? E minha resposta, depois de quebrar um pouco a cabeça, é: sim, desde que respeitando algumas premissas:
que o veículo tenha uma rotina de checar todos os serviços, o que justificaria que publicasse todos os resultados de sua apuração, independentemente de quais fossem. Se você checa sempre, não é estranho ou arbitrário que uma ou outra matéria mostre algo positivo
obviamente, que a checagem seja feita com cuidado. Não dá pra dizer que algo funciona baseado em dez minutos de observação.
Nessa última frase foi que eu descobri algo que ficou faltando na minha reflexão anterior:
se 90% do serviço funciona, mas 10% dão errado, esses 10% é que são notícia. Se for 1% errado, esse 1% é a notícia. Sempre.
ou seja, pra dizer que algo funciona, é preciso estar muito seguro
Criticar, portanto, é bem mais fácil, como eu já tinha escrito lá embaixo.
E, por falar em boas entrevistas, finalmente vou tocar num assunto que estou adiando há uma semana por problemas operacionais (internet de casa = carroça ).
Ésobre a sabatina que a Folha fez com o Ronaldo na sexta-feira 15 (aqui, para assinantes). Quatro jornalistas muito experientes fizeram as perguntas para o jogador: CLÓVIS ROSSI, XICO SÁ, JUCA KFOURI e MÔNICA BERGAMO.
Mas foi ela que fez as perguntas mais duras, mais desconfortáveis, que arrancaram mais protestos da platéia, mais piadas dos colegas e até levaram o Ronaldo a brincar que estava com "medo" em certo momento.
Ela perguntou, por exemplo, quanto ele pesava, qual era seu patrimônio, como justificava o episódio com os travestis e se votaria em um candidato do Lula.
Com isso, é claro, conseguiu respostas sensacionais _como a crítica do jogador a Ricardo Teixeira.
Além de ter sido uma sabatina divertida, com várias doses de humor, foi também uma aula de jornalismo. [Quem não viu tem que clicar aí em cima e assistir ao vídeo, que vale a pena.]
Por isso, e para a gente aprender como foi feito e como se faz entrevistas desse tipo, fiz algumas perguntas à MÔNICA BERGAMO:
Novo em Folha - Você fez as perguntas mais duras, mais difíceis e mais delicadas de toda a sabatina, a ponto de o Ronaldo soltar um "Que medo da Mônica!" em certo momento. Como e por que fez a escolha por essas perguntas?
Mônica Bergamo - A Folha tinha o entendimento de que o Ronaldo não é apenas um grande jogador, mas um personagem mundial que extrapola os estádios de futebol. E, como responsável por uma coluna de variedades, acompanho de perto a vida. Os namoros, os casamentos, as brigas com o Ricardo Teixeira. Fomos os primeiros a publicar, depois da Copa de 2006, que Teixeira afirmava aos quatro cantos que ele jamais voltaria a jogar na seleção. Fiz essa pergunta ao Ronaldo e ele então, na resposta, acusou o Ricardo de duplo caráter. Enfim, acompanhando vários aspectos da vida dele longe da bola, era natural que eu fizesse essas perguntas.
NF - Você já leva uma lista de perguntas que faz questão de fazer ou aproveitou as oportunidades de ganchos para se dirigir ao Ronaldo?
MB - Eu levo uma lista de assuntos que considero obrigatórios e vou aproveitando as oportunidades para colocar os temas. Mas muitos surgem na hora.
NF - Apesar de o público ter protestado muitas vezes durante suas perguntas (ex.: do travesti, do patrimônio e do candidato do Lula), você se manteve calma e bem humorada, prosseguindo nas perguntas com firmeza, até o fim. Como você consegue? Como se sentiu naquelas horas dos protestos?
MB - Eu acho perfeitamente natural que o público proteste e acho que a nossa obrigação é não perder jamais o bom humor e a elegância já que estamos ali representando a Folha.
NF - Aliás, o que achou da reação do público, que só protestou durante suas perguntas? Já havia passado por situação parecida? Quando?
MB - Sim, em várias sabatinas. Quando entrevistamos o ministro Gilmar Mendes, do STF, foi assim também. Muitas pessoas que se inscreveram para a sabatina eram admiradoras do ministro e reclamavam em voz alta quando ele era questionado mais duramente. Nas sabatinas com políticos, em períodos eleitorais, isso também ocorreu. Mas os entrevistados entendem perfeitamente que esta é justamente a função da sabatina e que as perguntas mais difíceis geram, muitas vezes, as respostas mais brilhantes.
NF - Você já participou de várias sabatinas com figuras muito mais polêmicas _ Paulo Maluf, Gilmar Mendes, Marta Suplicy, Geraldo Alckmin, Sarney, Ciro Gomes etc_ embora menos idolatradas. Em todas elas você escolheu fazer as perguntas mais delicadas, como fez com o Ronaldo? Qual dessas sabatinas foi a mais difícil de participar?
MB - Eu acho que qualquer jornalista tem "coceira", quando encontra uma autoridade, para fazer a ela as melhores perguntas, que arranquem do entrevistado respostas reveladoras a respeito dos assuntos sobre os quais os leitores têm maior curiosidade. Nem sempre as pessoas estão dispostas a responder. Mas, na sabatina, elas estão inteiramente à disposição, o que é maravilhoso para qualquer repórter. Acho que a sabatina mais difícil foi a do presidente Lula, na eleição de 2006. Os assuntos eram muito espinhosos e também muito complexos _economia, política, desenvolvimento, corrupção, telecomunicações. Antes fazer a sabatina, com ele e também com o Geraldo Alckmin, tomei uma "aula" com um grande economista. Reuni números históricos de programas sociais, investimentos, salário, renda, crescimento, para que pudesse contrapor dados a respostas que considerasse genéricas ou mal explicadas.
NF - Como se preparar para uma sabatina? É mais difícil participar de uma sabatina do que de uma coletiva ou de uma entrevista particular? No que elas mais se diferem?
MB - Acho que já respondi alguma coisa na pergunta anterior. Mas eu me preparo lendo muito sobre o entrevistado e sobre os temas a ele relacionados. Acho que a sabatina é difícil porque é ao vivo, com plateia, muitas vezes até uma torcida. Por outro lado, a pessoa está ali disposta a responder e os resultados são sempre muito bons.
O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.
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