Uma das coisas mais irritantes na Redação é quando o telefone toca, toca, toca e ninguém atende.
É uma máxima jornalística que, se alguém está chamando, um jornalista quer saber quem é o que ele tem pra dizer.
Jornalista vive disso. De ser curioso, de querer ouvir, de perguntar, de chegar primeiro.
E telefonemas rendem pauta, como a do campineiro voador (contei neste post). Minha colega CRISTINA MORENO DE CASTRO conta um caso parecido:
"Sempre olhei o cartaz do Samuel Wainer, na sala de treinamento, com expectativa de que ele se concretizasse. Dizia o fundador do Última Hora:
"Sempre circulei atento à aparição
do imprevisto, e passei a minha vida
à espera de que algo acontecesse.
Sempre que o telefone tocava
eu corria a atender."
Isso para mim é a alma do jornalismo: viver na expectativa de que algo acontecesse, atenta ao imprevisto que pipoca ao nosso redor.
Numa redação, esse imprevisto pode vir na forma de um telefonema. Geralmente o telefonema de uma fonte, de um amigo, muitas vezes de um assessor de imprensa.
Mas, pela primeira vez, me ocorreu de receber um telefonema de um leitor, o que me parece muito mais interessante.
E o leitor me passou uma pauta excelente, que nunca teria chegado ao meu conhecimento de outra forma.
Às vezes a gente atende o telefone com impaciência, por estarmos mergulhados demais na nossa tarefa do momento. Aliás, tenho esse defeito desde criança: fico irritada quando minha concentração é interrompida bruscamente. Mas um jornalista tem que estar sempre aberto a ouvir o que o leitor, ou qualquer outro, tenha a nos dizer quando se dá ao trabalho de nos telefonar.
Pode ser uma notícia muito melhor que aquela que você já estava apurando há duas semanas, fechado no seu mundinho."
Minha leitora Doralice, que tem um blog sobre como escrever melhor, conta como ela, os bombeiros e dois jornais caíram num trote neste final de semana (aqui).
Sim, de cada dez telefonemas, só um rende.
Mas isso, como já ouvimos da ELVIRA LOBATO, é regra do jornalismo. Quem estiver atrás dos 10% sai ganhando.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h06
Sugestão de leitura de meu leitor Fred:
Na esteira da polêmica sobre o diploma, a Columbia Journalism Review publicou no fim do ano passado esse artigo bastante interessante:
Entitulado The Bigger Tent ("a tenda maior", numa tradução livre), argumenta que o foco da discussão "quem é o jornalista" evoluiu para "o que é jornalismo".
Contrapondo argumentos de colegas e situações ocorridas mundo afora, a jornalista e professora da universidade de Columbia, Ann Cooper, tira a polêmica das redações. Destaco algumas dessas provocações:
- Liberdade de imprensa agora pertence não apenas aos donos das prensas, mas também aos que usam celulares, câmeras de vídeo, blogs e outras tecnologias para apresentar notícias e visões de mundo.
- Chamar o 'Eu Repórter' de jornalista é como dizer que alguém que carrega um bisturi é um 'Eu Cirurgião'. Informação, sem padrões jornalísticos, se chama fofoca.
- Não vamos colocar de lado objetivos e valores do bom jornalismo simplesmente porque há novas maneiras de reportar e apresentar notícias.
- O jornalismo online (como o feito em blogs) será regulado pelo mercado.
Só um pouco mais de lenha para a discussão. :))
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h36
Dada a quantidade de comentários nos dois posts que escrevi nesta semana sobre o diploma (primeiro e segundo), achei que valia a pena arrumar um pouco o que penso sobre o assunto:
- É fato, não opinião, que a faculdade de jornalismo não é imprescindível para formar bons jornalistas. Isso está comprovado, não há como argumentar contra isso:
- dezenas de países com excelente jornalismo não exigem o diploma nem qualquer outro tipo de exame ou comprovação. Se a faculdade fosse realmente fundamental, isso seria impossível, certo?
- no Brasil houve inúmeros exemplos de bom jornalismo --vou só citar o "Jornal do Brasil" e a "Realidade"-- feitos antes da lei da didatura que tornou o diploma obrigatório. Eram feitos por muita gente sem formação universitária em jornalismo. Se fosse fundamental fazer a faculdade, isso seria impossível, certo?
- ainda hoje, há em atuação centenas de jornalistas que não têm o diploma.
- Não sendo imprescindível a graduação em jornalismo, me parece um absurdo obrigar garotos em uma das fases mais produtivas da vida a cursar essa faculdade. Se eles acharem que é no curso de jornalismo que encontrarão a melhor preparação para a profissão que escolheram, ótimo! Ninguém vai impedir as faculdades de existirem. Em países de bom jornalismo sem diploma obrigatório existem excelentes cursos de jornalismo, e saem dos seus bancos ótimos profissionais. Mas isso deve ser uma escolha, não uma obrigação.
Em suma, não sou contra as faculdades de jornalismo. O fim do diploma obrigatório não quer dizer o fim das faculdades.
Meu lema é: liberdade para os aspirantes a jornalismo. Que eles possam escolher a formação que melhor lhes convém. Que fiquem livres das algemas dos cursos de jornalismo. Se escolherem essa faculdade, que seja assim, por escolha, não por obrigação.
Basta ver alguns argumentos pró-diploma para perceber a tristeza:
-
- "se acabar o diploma, outros vão pegar meu emprego" - o argumento admite que outros são capazes de desempenhar funções jornalísticas
- "é injusto! Cursei quatro anos de jornalismo pra nada?" - ou seja, a faculdade não vale nada
- "os donos de jornais são contra diploma porque assim vão pagar menos" - é o contrário. Se os garotos puderem cursar outras faculdades e tiverem mais opções de carreira, não ficarão nas mãos dos donos de jornal que oferecem baixos salários. O que acontece hoje? Há milhares de jornalistas formados --que só podem trabalhar em jornalismo-- disputando pouquíssimas vagas e aceitando o que aparecer pela frente
- "então vamos acabar também com os diplomas de medicina e engenharia" - a comparação é indevida. Medicina e engenharia são ciência, exigem o domínio de um conhecimento científico (são campos em que os fenômenos se repetem). Jornalismo deve ser comparado a história ou administração de empresas, ramos das humanidades. Para fazer pesquisa histórica precisa ter diploma de história? Claro que não. Há muito jornalista lançando livro de história. Para administrar uma empresa tem que ter diploma de administração? Pra ser governador tem que ter cursado administração pública? Ou, como lembrou um leitor nos comentários, para trabalhar com TI tem que ter cursado computação? Pra dirigir um banco tem que ter feito economia? Em atividades intelectuais, o que importa realmente é o caráter e a capacidade intelectual.
Até esta manhã, a maioria (54%) dos que responderam a enquete da Folha Online defendem o diploma obrigatório.
Para vocês não acharem que eu só tenho essa posição porque já estou com "a vaga garantida", nem que todo estudante de jornalismo é egoista e só quer garantir sua boquinha, divido com vocês o post de minha leitora Alexandra, que estuda jornalismo em Brasília e se forma no ano que vem (aqui)
Outra coisa muito legal é que, embora contra a obrigatoriedade, ela fotografou e publicou imagens de manifestantes pelo diploma impedidos de protestar (aqui)
Meu leitor Rafael recomenda a leitura deste artigo para quem quiser conhecer mais argumentos a favor do diploma
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h55
O Nine Inch Nails pode lançar um disco com gente do hip hop?
Faz sentido eles cobrarem US$ 35 pelo dowload das músicas?
E se eles estiverem exigindo que as músicas sejam tocadas só "em um embebed que teria no nome do proprietário das canções"?
Li no blog do Gjol que alguns sites caíram nesta mentira de 1º de abril.
É um bom exemplo de como é preciso entender um pouco de um assunto pra não fazer bobagem, não acham?
Eu, por exemplo, seria capaz de editar, cortar, corrigir e titular uma nota que dissesse:
O grupo americano de rock industrial Nine Inch Nails anunciou em seu site, no dia primeiro de abril, o lançamento de um álbum com participação de inúmeros figurões do pop e do hip hop. O detalhe é que a banda cobrou cerca de $35 pelo download do disco em formato de Windows Media Audio que só pode ser tocado em um embebed com o nome do proprietário das canções.
Mas só sabendo o que é o Nine Inch Nails e que posição o grupo assume sobre direitos autorais pra descobrir a bobagem.
Aprendi no Gjol: seria muito improvável que eles fizessem um disco com gente do pop e do hip hop. E, cartada final, "para uma banda que rompeu com as gravadoras, lançou os seus últimos três discos apenas on-line e gratuitamente", das duas uma: ou a nota acima é uma baita notícia, pelo inusitado, ou só pode ser piada.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h40
A propósito da Hora do Planeta e da dificuldade de fazer a foto do "não-fato" --a falta de luz--, Ricardo Lombardi dá em seu blog link para ótimas fotos do evento.
Com a ressalva: é legal quando há o antes e depois.
É isso. Certas coisas só se percebem por oposição.
Era o caso também desta "antifoto", lembram?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h54
Minha leitora Lanna postou no twitter este link para artigo no Observatório da Imprensa, com dez motivos contra o diploma obrigatório.
Aproveito então para recuperar este post, que remetia a dois artigos sobre o diploma, um a favor e um contra (o contra é de meu amigo Mauricio Tuffani, sempre muito bem embasado).
Na enquete da Folha Online, até a manhã de hoje, a maioria (53%) era a favor da obrigatoriedade.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h08
Por uma falha indesculpável minha, deixei pra muito tarde este aviso superlegal de um prêmio da UFMG para o melhor trote solidário: http://www.ufmg.br/online/arquivos/011497.shtml
Além da campanha "Humor no Jornalismo", está na hora de lançar a campanha "Amor no Trote"
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h27
Minha leitora Sara, que está estudando na Espanha, montou um blog com dicas, exercícios etc. voltados para fotografia.
Para quem quiser conferir, o link é paraguasplateado.blogspot.com
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h50
- a melhor forma de melhorar a qualidade das faculdades de jornalismo é derrubar a obrigatoriedade do diploma. Vão sobreviver as escolas que realmente fizerem a diferença
- se fosse verdade que é necessário diploma para fazer bom jornalismo, o que se fazia no Brasil antes de 1969?
- se fosse verdade que é necessário diploma para fazer bom jornalismo, o que se faz nos EUA? Na Inglaterra? Na França? (pra ficar só em três)
- a falta de diploma não avilta os salários. A Folha paga salários tão altos quanto qualquer jornal, se não mais altos.
- é ridículo dizer que as empresas querem o fim do diploma obrigatório para pagar menos. Não só porque os fatos provam que isso é mentira (ver ponto 4), mas porque o que qualquer empresa quer é ter os melhores profissionais. Os mais competentes. Os mais inteligentes. Os mais bem formados.
Observação importante: não sou contra as escolas de jornalismo. Sou a favor, desde que elas sejam boas. Mas sou a favor também de que o aspirante a jornalista possa dedicar seu precioso tempo a outro tipo de formação, se julgar que é isso que vai deixá-lo mais preparado para fazer um bom trabalho.
Um jornalista precisa fundamentalmente:
- a) entender do assunto que vai cobrir, para não ser usado pelas fontes;
- b) saber levantar informações relevantes que os poderes querem esconder;
- c) transformar as informações numa história articulada e compreensível.
Escolas de jornalismo não resolvem o ponto a.
Poderiam até ajudar muito no b e no c, mas minha experiência mostra que não fazem isso.
Os pontos b e c podem ser aprendidos em cursos de especialização ou até na prática.
Uma frase de Philip Meyer, enviada por meu prof Marcelo Soares:
"O primeiro problema para o jornalismo de precisão no Brasil será superar um sistema muito rígido que é feito para resistir à inovação. A maior barreira que vejo, de minha perspectiva norte-americana, é a lei que exige que os jornalistas sejam formados em escolas de jornalismo. Essa lei dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão."
Ninguém precisa concordar comigo. Este blog estimula o debate e a reflexão.
A FOL colocou no ar uma enquete sobre o tema: http://polls.folha.com.br/poll/0909101/
E antes que alguém pergunte --ou, pior, me "acuse" sem perguntar: sim, eu sou formada em jornalismo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h08
Do meu leitor jurídico Thiago:
Amanhã, o STF deve julgar uma ADPF (ação de descumprimento de preceito fundamental) para discutir a validade da Lei de Imprensa. Se a ação for julgada procedente, a lei perderá a validade por incompatibilidade com a Constituição.
No mesmo dia, será decidida também uma questão fundamental pra vocês: A obrigatoriedade do registro e inscrição junto ao Ministério do Trabalho para o exercício da profissão de jornalista.
Dá pra acompanhar o julgamento ao vivo pela TV Justiça ou pela Rádio Justiça, sendo que as duas transmitem pela internet.
www.tvjustica.jus.br e www.radiojustica.jus.br
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h44
Não é difícil só quando a gente namora alguém com quem tem que trabalhar, como no post do bonitão ali debaixo.
Veja o que conta esta leitora:
Era repórter de geral de um jornal impresso, e meu pai assumiu um cargo de chefia regional numa secretaria municipal.
Chegou a ser entrevistado duas vezes por colegas minhas, nunca por mim, CLARO.
Nunca me contava nada do trabalho e eu tampouco mencionava qualquer cobertura que fazia na área dele. Quando ele queria contar uma história pra minha mae sobre o trabalho, eu ia pro quarto.
Até que um dia nos cruzamos em uma coletiva de imprensa e os assessores descobriram nosso parentesco. Tempos depois, fiz uma matéria sobre denúncia de um leitor na área dele, só que no outro canto da cidade, ou seja, nada a ver com ele. E os assessores de imprensa foram tirar satisfaçao com meu pai, acredita?
Além de começarem a dificultar qualquer informaçao que eu pedi dali pra frente.
Assessores despreparadíssimos, acharam que eu precisava do meu pai para conseguir pautas. E pior, acharam que meu pai, que nem gosta de jornalistas, me daria pautas! Foi lamentável...
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h13

Se você já assistiu Grey´s Anatomy, entende bem a alegoria:
- colegas confinados durante horas a fio no mesmo ambiente tenso de trabalho.
- quando conseguem escapar, se encontram no mesmo bar, do outro lado da rua.
- Resultado: namoram entre si, casam entre si, traem-se entre si.
- E continuam fazendo seu trabalho, com êxitos, erros e inevitáveis interferências da vida pessoal na profissional.
Uma Redação de jornal não é o Seattle Hospital, para o bem (sangue só nas fotos) e para o mal (sem Mc Dreamy andando pelos corredores).
Mas jornalistas também convivem 20 horas por dia e terminam a noite no boteco infecto da calçada em frente, e casam, descasam, recasam, namoram e se odeiam entre si. Com muito menos pimenta --não há por aqui aquele quartinho dos residentes-- e sem tantas falcatruas --como a da amante-aluna que operava no lugar do médico-professor cuja mão não parava de tremer.
O que não quer dizer que seja simples. Sei por experiência própria: fui e sou casada com colega de trabalho.
Pior que isso: meu marido já foi meu chefe (bem depois de ser meu marido). Quer piorar? Ele era o chefe de quase toda a Redação. Portanto não havia escapatória. Nem mudar de cargo eu podia.
Nesse tipo de situação, quanto maior a proximidade, mais esforço é preciso fazer para isolar muito bem os departamentos.
Exemplo concreto: na Folha sou responsável por analisar pedidos de subsídio para cursos. Se ele mandar uma proposta, nem olho. Passo direto para o gerente administrativo.
Ainda assim, sempre que é inescapável uma relação direta de trabalho, a coisa aperta --e o lado pessoal costuma sair perdendo se a gente não tiver muita paciência.
Imaginem como era quando alguma atividade minha tinha se ser avaliada pela Secretaria de Redação (a chefia geral), da qual fazia parte meu marido... Se ele avalia que estou errando, tem que me criticar, à custa de constrangimento e chateação. Tem que esquecer quem eu sou e me tratar como trataria qualquer outro editor. E isso é chato, por mais que seja compreensível.
Em tese, há quatro situações em que o potencial explosivo é maior:
- quando um é chefe do outro
- quando trabalham em jornais concorrentes, principalmente se na mesma função
- quando trabalham em departamentos com "relação de serviço" (por exemplo, fotografia e editoria de cotidiano)
- quando um é assessor de imprensa de área que o outro cobre
Não quer dizer, obviamente, que seja impossível conciliar, nem que afete irremediavelmente a qualidade do trabalho. Se fosse, jornais --e revistas, rádios, TVs, sites-- teriam afundado há muito tempo.
Pedi a colegas com experiências semelhantes que contassem como fazem pra driblar os problemas. As respostas:
1) Um repórter conheceu um casal de repórteres que trabalhava na mesma Redação, em SP, e competia de modo insano. Ele não esclarece o que acabou primeiro, se a competição ou o casamento.
2) Uma assessora de imprensa é casada com um repórter que cobre bem a área que ela divulga --e ele nunca leva adiante seus releases.
3) Uma jornalista foi primeiro subordinada e depois chefe do marido e odiou os dois momentos. Fez o que pode para se livrar da situação (profissional. O casamento persiste até hoje
).
4) Um marido que também foi chefe e subordinado diz que nunca houve qualquer problema de que se lembre.
5) Um jornalista é casado com uma repórter que cobre a mesma área em jornal concorrente. Trabalho é assunto proibido em casa.
6) O marido da repórter é editor, mas de outra área. Como a relação profissional não é direta, ela acha ótimo poder falar de trabalho com ele. Além disso, dá tempo de almoçarem juntos.
7) Um colega conheceu no México, em Guadalajara, um casal formado por colunistas de economia em jornais diários. Eles contaram que era proibido falar de jornalismo e de economia em casa.
9) Um repórter da Folha casado com editora de jornal concorrente faz um esforço danado pra nunca criticar as edições que ela faz
10) Repórter que trabalhou lado a lado com a mulher durante anos diz: "O mais difícil era impedir que a companhia constante nos roubasse o direito de sentir saudade do outro".
11) Um jornalista é casado com assessora de imprensa, mas ele trabalha em área que não interessa aos clientes dela. Mesmo assim, acha a situação delicada: numa conversa sobre o trabalho sempre podem escapar informações que não deveriam chegar ao outro lado
12) Uma colega conta que um conflito meio comum é quando um trabalha num veículo mais "importante" que o outro. Às vezes pode surgir uma invejinha, uma dor de cotovelo mesmo, que atrapalha o relacionamento.
13) Uma repórter é casada há 24 anos com repórter de jornal concorrente e tem duas saídas pra isso: eles evitam ao máximo tanto falar de trabalho em casa quanto cobrir a mesma área
Se você já está achando que é realidade demais para uma segunda-feira (e não vê a hora de chegar a noite para assistir ao episódio de hoje de "Grey´s Anatomy"), pode se divertir com alguns filmes sobre jornalistas, amores e conflitos:
I Love Trouble, com Nick Nolte e Julia Roberts
Broadcast News, com Willian Hurt e Holly Hunter
Ausência de Malícia, com Paul Newman e Sally Field
Pra terminar, minha receita de como evitar aborrecimentos quando os canais se misturam:

Se tiver casos pra contar ou dicas de como sair do enrosco (seja ele qual for), mande!
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h32
Jornalismo digital multimídia
Alberto Cairo, considerado o "papa" (ou quem sabe um dos bispos
) da infografia digital, vai dar aula neste novo master em jornalismo digital multimídia
Já que o assunto é ele, o blog Contra a Clicagem Burra publica um bom texto em que ele analisa recursos e modismos do jornalismo on-line. (na remissão para o blog da Luciana eu não posso colocar um "aqui", senão ela fica brava com a redundância, hahaha)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h21
Não tenho muita paciência pra um certo clima de guerra de torcidas entre jornais impressos e on-line --principalmente entre os "defensores" do on-line, que de alguma forma parecem perversamente felizes a cada nova notícia de crise de um jornal impresso. Como se o fim de um impresso pudesse significar mais força para os on-line, ou mais empregos.
Talvez signifique justamente o inverso. Pelo menos até hoje, é o faturamento dos impressos que segura o funcionamento dos on-line (sem falar na quantidade de reportagens dos impressos que servem de pauta para os outros veículos).
Além disso, nem dá pra dizer que leitores de jornais estejam migrando para a internet.
São os mesmos leitores?
Estão mesmo trocando um pelo outro?
Ou usam cada meio pelo que ele tem de melhor?
Eu, por exemplo, adoro o jornalismo on-line. Acho que ele abre muitas possibilidades de contar histórias e prestar serviço que o impresso não têm. E essas possibilidades vêm da plataforma em que ele está, não "do jornalismo em si". Por exemplo, só dá pra fazer um banco de dados em que o leitor consiga pesquisar rapidamente se a escola do seu bairro é boa num meio digital.
Não entendo por que algumas pessoas se ouriçam tanto quando alguém defende que os veículos impressos possuem, em decorrência da plataforma (ou seja, do papel), qualidades que outros não têm.
Querem um exemplo prático? Noutro dia dei um exercício para os trainees que tinha uma pegadinha. Eram várias informações e eles tinham que fazer o lide (o primeiro parágrafo, com a notícia principal). Havia duas informações relevantes:
a) Cerca de três toneladas de alimentos doados para as vítimas das enchentes que deixaram mais de 78 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas e mataram 135 pessoas em Santa Catarina no ano passado tiveram de ser descartadas pela Prefeitura de Blumenau (a 139 km de Florianópolis)
b) Em Blumenau, o medo de voltar a morar em áreas de risco fez com que lugares considerados seguros, como apartamentos construídos longe de encostas, tivessem valorização de até 50% em relação ao período anterior às chuvas.
Qual era a pegadinha? A primeira informação havia sido um abre de página do jornal alguns dias antes.
Pois na hora do exercício, alguns trainees colocaram no lide a informação velha.
Caramba, será que eles não leem jornal? Que trainees mais desinformados?
Não foi bem isso: nenhum dos trainees que haviam lido o jornal impresso deixou passar aquela matéria. O destaque dado a ela, o peso que ela tinha na diagramação da página, se impôs aos olhos do leitor.
Já os que acompanharam o jornal pela internet --em que as matérias aparecem numa lista de links, sem diferenças relativas evidentes-- não se lembravam dela.
Vejam: era a mesma notícia, com o mesmo tamanho, em duas plataformas diferentes. Mas o efeito que ela teve nos leitores foi diferente.
É um pouco o que diz também o artigo do New York Times que citei no final de semana (aqui): quando o leitor pega o jornal impresso, ele é "obrigado" a olhar as notícias que os editores consideraram relevantes, porque elas estão ali, naquela ordem, com aquele tamanho. Na tela, ele tem muito mais liberdade para ir clicando no que quiser: o poder do editor é menor.
Honestamente, acho que está na hora dos que "torcem contra" os jornais impressos pararem pra pensar a quem interessa o enfraquecimento desses veículos. Vão ver que estão jogando água no moinho de muita gente que quer se livrar do incômodo de ter uma mídia crítica, investigativa e (ainda) poderosa em seu encalço.
PS 1 - algum valor só seu o papel deve ter (ainda). Pelo menos para os anunciantes. Porque se jornalismo fosse tudo igual, não importa a plataforma, por que eles não pagariam no on-line o que pagam nos impressos?
PS 2 - como diz minha leitora Lanna, nos comentários: "Vamos juntar, gente, em vez de dividir!!!!!".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h27
do Globo de hoje:

Outra charge
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h06
Minha trainee ANNA CAROLINA CARDOSO fez no sábado, no clássico SãoPaulo X Palmeiras, sua primeira cobertura de jogo de futebol.
Como ela é perfeccionista, acha que tomou uma goleada.
Já eu, que acho que se aprende muito com as dificuldades, principalmente quando se pensa sobre elas depois, considero que ela já se classificou para a fase seguinte.
Avaliem:
Anna X Futebol
Trainee toma goleada e precisa de bom resultado para se recuperar
Na minha (já quase remota) infância arrozalense, quando alguém começava a chorar no meio de alguma brincadeira, invariavelmente, ouvia a frase: "Quem não sabe brincar não brinca". Ela me surgiu ontem à tarde, no meio da cabine de imprensa do Morumbi, quando Palmeiras e São Paulo entraram em campo no primeiro jogo que tive que cobrir na vida.
Nos idos tempos em que eu jogava bola na rua, quando me machucava e ouvia a tal frase, eu ficava com tanta raiva que simplesmente me retirava do "campo". Mas ali, não dava. A idéia era que a gente agisse como se estivesse cobrindo de verdade, respeitando o tempo para enviar a matéria e tudo. Como eu podia abandonar a pauta?
Foi quando uma coisa que a gente tem ouvido muito, de todo mundo, se materializou na minha frente: se você não sabe do que está falando, a notícia pode pular na sua frente, brilhando e tocando musiquinha, que você não vê. E de futebol, meus caros, eu sabia o fundamental: a bola tem que entrar no gol e não pode encostar na mão. Portanto, não podia ver muito além disso.
Graças a Pedro, que me apresentou a tabela do campeonato, eu cheguei ao estádio com uma conclusão: era melhor que o São Paulo ganhasse porque, então, o Palmeiras deixaria de ser invicto e o lide ficaria mais interessante. Pronto, estava me sentindo o Juca Kfouri.
Mas poucos minutos depois do rapidíssimo gol do Washington, a ficha caiu de uma forma alarmante: eu olhava e olhava de novo para o campo à espera de que acontecesse algo que esclarecesse a jogada - era óbvio que estava faltando alguma coisa! Juro pela minha própria carreira: eu estava esperando pelo replay.
Nisso, a bola já ia rolando. E eu ali, perdida.
Foca, não, companheiros. Naquele mar de lances, regras e números, eu era uma sardinha.
Foi por isso que eu me assustei com sete cartões amarelos e já ia tacando lá pro lide, crente que era uma sacada: "Em jogo repleto de cartões amarelos..." E só não o fiz porque o Pedro deu um toque, disse que era normal. (E é. A média, descobri agora há pouco, é de seis por partida.)
Quando eu quis ir cobrir futebol, por pura curiosidade, não fazia idéia de onde estava me metendo. Futebol é tão complicado quanto economia (ou qualquer outra coisa que seja cheia de variantes e não familiar). Não basta escrever o que acontece, tem que saber o que cada coisa significa, o que cada resultado representa. É preciso ver que o gol do Washington não foi só "caraca, tão rápido!", mas que o colocou a apenas um gol do artilheiro, que é treze anos mais novo e tem gols de pênalti contabilizados _e ele não. Tem que saber que, com mais esses três pontos, o time fica precisando de só mais um para ir para a outra fase. E mais um monte de coisas óbvias para qualquer um que conheça minimamente o assunto.
Quando você não sabe, fica dependendo de que alguém te avise ou acaba pensando que a média é novidade. (Ontem, eu fui salva pelo Pedro e pelos repórteres cascudos que estavam na coletiva e fizeram perguntas que me deram o que escrever na tosca matéria que eu fiz depois.)
Lição do dia: quem não sabe como funciona a brincadeira (quando o jogo é sério) não para de brincar porque chora, mas porque simplesmente não sabe o que fazer nem como fazer. Por outro lado, se você conhece as regras, pode até chorar quando toma um carrinho, mas o "quem não sabe brincar não brinca" ganha outra conotação. E quem sai da brincadeira é o babaca do seu primo, que não sabe que carrinho sem bola é falta absurda.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h34
Há um tempo vinha sendo comum ouvir que "a plataforma não importa; o que importa é o jornalismo". Tanto faz se jornais e revistas impressos sumirem, portanto, já que o jornalismo sobreviverá em outros meios.
Será?
Sei não. E outros que estudam o assunto também parecem não estar tão certos.
Outro dia eu coloquei no blog o link de um estudo da Universidade Princeton, uma das principais dos EUA, que mostrava como o fim do único jornal de uma cidade americana havia afetado --para pior-- a política local.
Poucos dias depois, o "Los Angeles Times" fez matéria com mais gente falando isso (e cita o estudo de Princeton).
Sou contra uma visão simplista que coloca os on-line como algozes do impresso --e como seus substitutos inevitáveis. Acho que ainda há muita mudança em curso e pouco estudo sobre ela.
Nem mesmo que leitores estejam trocando o papel pela tela é possível dizer, porque pesquisas indicam que entre os usuários da rede há um interesse decrescente por informação. Não seria troca, então, mas simples abandono.
Na minha opinião, os impressos, por vários motivos --materialidade física, permanência, edição gráfica, circulação geografica e demograficamente conhecida--, têm um papel de espaço público e de agente político que os on-line não têm (ainda, pelo menos).
E vocês, o que acham?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h45
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