
Da série de charges de 2008 (veja a anterior aqui)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 23h44
Ótima dica de minha colega DANI ARRAIS: digite sua frase e este site corrige para as novas regras.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 23h03

É o título de um conto de Conan Doyle que propus como exercício no ano passado (!! tá, foi em 25 de dezembro, mas mesmo assim é ano passado, certo?).
Na história, um homem descobre que estava sendo envenado por sua estonteante mulher. Ao confrontá-la, encontra uma carta de amor escrita por um amigo do casal, novo amante de sua mulher.
Segue-se então este trecho, que é crucial para o desenlace da história (descontem eventuais falhas de estilo, pois fiz uma tradução despretensiosa):
Mason era um homem em um milhão, um filósofo, um intelectual, com uma ampla e generosa solidariedade. Por um instante, sua alma submergiu em amargura. Naquele curto espaço de tempo, ele poderia ter assassinado sua mulher e Campbell e abraçado sua própria morte com a mente serena de um homem que cumpriu um dever. Mas, enquanto caminhava pela sala, foi sendo dominado por pensamentos mais leves. Como poderia culpar Campbell? Ele conhecia o poderoso encanto desta nykger. Não era apenas sua beleza extraordinária. Ela tinha um poder único de atrair os homens, capturar sua consciência, dominar sua intimidade e estimulá-lo em direção à ambição e até à virtude.
Foi só então que ele percebeu a esperteza mortal de suas artimanhas. Ele lembrou-se de como havia, ele memso, caído nelas. Ela estava sozinha --ou assim fez crer-- e ele pôde esposá-la. Mas suponha que ela estivesse compromissada. Suponha que ela fosse casada. E suponha que, ainda assim, ela houvesse se apoderado de sua alma da forma como fez. Ele teria se detido? Seria capaz de se retirar sem satisfazer seus desejos? Estava inclinado a admitir que não. Por que, então, deveria guardar tanto rancor de seu pobre amigo que caíra nos mesmos encantos? Foram pena e empatia que o preencheram quando pensou em Campbell.
E ela? Lá está ela recostada sobre o sofá, pobre borboleta ferida, seus sonhos destroçados, sua trama fracassada, seu futuro sombrio. Envenenadora como era, também ela fez seu coração se enternecer. Ele sabia algo de sua história. Sabia como ela havia sido mimada desde o nascimento, sem rédeas, orientação ou controle, conquistando qualquer coisa que quisesse graças a sua esperteza, sua beleza e seus encantos. Jamais conhecera obstáculos. E agora alguém vinha interromper seu caminho, e ela loucamente tentara removê-lo. Mas, se desejara removê-lo, não era isso um sinal de que ele deixara a desejar? De que não fora capaz de trazer paz à mente dela e alegria a seu coração? Ele era muito centrado e contido para aquela natureza tão solar e volátil. Ele era do norte, ela do sul, atraídos fortemente pela lei dos opostos, mas cuja união permanente era impossível. Ele deveria ter percebido e entendido isso. Era seu dever assumir a responsabilidade. Seu coração se abrandou por ela como o faria por uma criança pequena em apuros.
Por algum tempo ele caminhara em silêncio pela sala, mandíbulas cerradas, mãos crispadas até que suas unhas deixassem marcas nas palmas. Subitamente, ele se sentou ao lado dela e tomou a mão gelada e inerte. Um pensamento cruzou seu cérebro: "seria generosidade ou fraqueza?". A pergunta ressoou em seu ouvido, tomou forma ante seus olhos, chegou a imaginar que ela se materializava e todos podiam vê-la em todas as suas letras.
Havia sido um luta dura, mas ele havia vencido.
"Escolha entre nós dois, querida", disse ele. "Se está realmente decidida que Campbell pode fazê-la feliz como marido, não serei um obstáculo."
No final do conto, aparece um novo personagem:
Havia uma força estranha em ação na sala do pavor. Um terceiro homem estava lá, embora nenhum dos envolvidos na crise de seu drama particular tivessem tido tempo para pensar nele. (...) No canto mais distante do pequeno grupo, esgueirando-se de encontro à parede, uma sinistra figura viperina, silenciosa e imóvel --a não ser por um movimento nervoso da mão direita. (...)
Poucos parágrafos depois, o misterioso personagem se revela:
O estranho levantou-se, pálido e sério.
Subitamente os três notaram sua presença. Fixaram-no com uma pergunta ansiosa nos olhos. Ele respondeu com um olhar frio, triste, com algo de mestre em seu sacrifício.
"Como foi?", perguntaram os três ao mesmo tempo.
"Horrível", ele respondeu. "Horrível! Vamos refilmar tudo amanhã."
Como trama, é meio bobo esse final. Mas, para nosso exercício, é excelente. Se essa história toda era um filme, tinha como ter ficado bom? Releiam aquele trecho do início do post, que é o ponto de virada do drama. Como transmitir aquelas informações com imagem? É possível? Difícil, não acham? Pensamentos são ótimos para texto, mas prestam-se mal para imagens. Num filme ou numa matéria em vídeo, pensamentos aparecem como palavras --alguém falando, uma voz over, o narrador--, ou seja, é ainda o texto que prevalece. Isso vale pra quando formos pensar numa pauta para TV ou num vídeo para internet: sua matéria ficará melhor se puder mostrar algo, em vez de contar ou refletir.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h33
Quando cheguei para trabalhar no sábado dia 3 de janeiro, a manchete do jornal de domingo era o atraso nas obras da transposição do rio São Francisco (a FOL faz aqui um resumo da matéria).
No começo da tarde, começou a ficar claro que algo diferente acontecia na fronteira da faixa de Gaza: tanques se amontoavam, talvez começasse a investida por terra. A história do rio, com sua bela fotografia, foi para o pé da página.
Sérgio Lima/Folha Imagem

O agricultor Joaquim Ferreira Neto, 91, de Salgueiro (PE)
Ao anoitecer começou mesmo o ataque terrestre. A página foi toda redesenhada para que Gaza ocupasse o alto, e o que era manchete virou uma chamada sem foto "abaixo da dobra" (jargão de jornal para o que sai na metade inferior da página e, portanto, não é visto quando o jornal está dobrado na banca).

Mudanças assim não são frequentes, mas sem bem normais em jornalismo. Poderia até acontecer que a transposição do rio nem saísse mais na primeira página, e mesmo assim não seria estranho.
Notícias --salvo raríssimas exceções-- têm valor relativo: uma história ganha ou perde importância dependendo que que mais aconteceu naquele dia.
COMO SE ESCOLHE UMA MANCHETE
Lembrei-me desta história porque vou pagar hoje uma dívida bem velha: a do exercício sobre a capa da Folha que, nos feriados de Natal, saiu sem manchete (veja aqui).
Antes de contar o que eu escolheria para título principal daquele dia, é bom pensarmos sobre o que é manchete num jornal, porque essa é uma escolha diferente da que é feita em cada editoria. Lá nos cadernos, os editores olham todas as histórias disponíveis naquele dia e refletem sobre qual é mais importante, tem mais impacto, é mais grave (clique aqui para ver alguns critérios de hierarquização das notícias).
A capa do jornal tem uma diferença: ela faz um papel de vitrine e cumpre também uma função institucional.
Como é vitrine, ela precisa mostrar ao leitor um leque variado de assuntos, e é por isso que dá espaço a notícias mais leves ou mais frias, aos cadernos semanais --turismo, suplemento infantil, informática-- em detrimento de fatos quentes e mais "relevantes".
Como é institucional, nem tudo serve para ser manchete. A escolha do título principal tem a ver com o perfil do jornal, com sua imagem. Nos principais jornais do país, um crime pode ser a capa do caderno Cidades e ocupar várias páginas --como o caso Eloá, por exemplo--, mas só excepcionalmente será manchete. E, em dias fracos, sem notícia, a tendência será dar o alto da capa para matérias de política ou economia --por causa do peso institucional-- que, em outras circunstâncias, nem estariam na primeira página.
MINHAS ESCOLHAS PARA A CAPA SEM MANCHETE
Dentre as opções que tínhamos, há duas que classicamente renderiam manchete e seriam minhas escolhas --como vocês já sabem, não quer dizer que seja a resposta certa do nosso exercício; se houvesse "resposta certa", os jornais teriam que ser todos iguais, ou um estaria certo e os outros errados. Nesse tipo de exercício, o que importa é a reflexão que fazemos e os argumentos que usamos. Vou dizer para vocês, então, quais seriam meus argumentos em cada caso:
Homem vestido de Papai Noel mata seis nos EUA - é um dos exemplos que citei acima de história que não é a principal na editoria (Mundo, no caso), mas ganha espaço na capa por ser um crime inusitado. Até poderia ser manchete, mas num jornal local da cidade em que foi o crime
Acidentes nas rodovias de São
Paulo matam 15 em dois dias - como era época de feriado, o assunto ganha interesse. Mas, mesmo na edição São Paulo, não tem força suficiente para ser manchete, a não ser que a causa dos acidentes fosse algo inédito ou muito importante
Em Israel, alas disputam para
ter influência sobre Obama - não há fato quente nem tem impacto imediato
Teles planejam investir R$ 19 bi
em celulares no próximo ano - o assunto é certamente relevante, principalmente num contexto de crise econômica. Notem que é a chamada que teve mais destaque naquela primeira página sem manchete (saiu no alto, do lado direito). Isso signfica que foi considerada a notícia mais importante na comparação com as outras. Não seria minha manchete porque se refere a planos, apenas, e não a fatos. Poderia ser manchete num jornal econômico --Valor, Gazeta Mercantil, DCI--, se não houver algo mais concreto. Poderia ser manchete também no jornal de uma cidade que seria diretamente beneficiada pelos investimentos
Financeira da General Motors
vira banco para receber ajuda - outra história relevante, ganha mais destaque no contexto da crise. A vantagem dela em relação à de cima é que há fato e não só promessas. Mas tem alcance limitado demais para ser manchete.
Governo Lula tem o seu pior ano na Câmara desde 2003 - esta seria uma das minhas opções. É um balanço e, por isso, é fria: tanto faz se será publicada hoje, amanhã ou depois. Mas faz um retrato relevante do panorama político, é abrangente --afeta o desempenho do governo federal-- e cumpre o critério "institucional"
Bolsas e cotas pouco alteram
acesso de negro à universidade - minha outra opção. Também é um balanço, como a de cima, mas trata de assunto relevante, abrangente e --na minha opinião-- interessante
Mundo pode ir à ruína com crise, afirma papa - para uma declaração virar manchete, tem que ser algo muito forte. Mais que isso, o autor de declaração tem que ter o poder de mudar algo e sua declaração precisa indicar isso. Mesmo sendo Natal, uma declaração do papa não rende manchete, a não ser que ele fizesse uma revelação bombástica
Perda da posse de patente é criticada por pesquisador - além de também se tratar de declaração, é restrito demais para ser manchete
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h40
Minha leitora Priscila, de BH, comenta a notícia de que o governo francês tenta ajudar os jornais:
Agora há pouco li no Le Monde uma notícia que me chamou muito a atenção. O Sarkozy anunciou hoje um plano de ajuda de 600 milhões de euros aos jornais franceses (com mais detalhes aqui).
As medidas vão desde redução nos custos de impressão até criação de estratégias para melhorar a distribuição dos jornais. De todas as medidas anunciadas, a que achei mais interessante é a que prevê a assinatura gratuita de um jornal durante um ano para os jovens de 18 anos.
Provavelmente uma forma de incentivar a leitura de jornais nessa parcela da população.
Não conheço as relações entre jornais e governo na França e, por isso mesmo, acho que não é o caso de sair levantando suspeitas sobre essas medidas, pelo menos a princípio. Vejo isso como um reconhecimento da importância da imprensa por parte do governo francês (o que me chamou atenção foi justamente uma iniciativa desse tipo partir do Estado) e imagino que os jornais possam receber essa ajuda sem necessariamente ferir sua independência. Estou sendo muito ingênua?
Em tese, a ajuda pode criar sim um constrangimento ou certa dependência. Mas há outras forças neste jogo, dentre elas o julgamento do leitor. A otícia é realmente interessante e dá muito pano para a manga. O Alec também comentou no blog dele.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h31
Uma das formas de aprender jornalismo é estudando reportagens excelentes.
Obviamente isso não faz de ninguém um repórter --é preciso praticar muito, ganhar fontes, ganhar malícia, errar bastante até chegar lá.
Mas ler trabalhos exemplares dá repertório --e, se mais que ler, a gente "estudar", mesmo, pensando no que foi feito, quem foi ouvido, que informações foram priorizadas, como foi escrito o texto etc.--, maior o resultado.
Portanto, quem tiver tempo livre no final de semana pode se divertir com as reportagens que ganharam o prêmio Philip Meyer: Marcelo Soares traz a lista no blog dele.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h17

Povo, estou fora do jornal hoje. Mas no final de semana estarei de plantão e prometo pagar velhas dívidas e atualizar direitinho o blog.
Ah, e também vou liberar os coments à noite, por isso comentem à vontade. Não se sintam abandonados porque, como diz o cartazinho ali em cima, eu volta JÁ!
=)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h56
Eu quis chorar quando li a notícia "Música perdida de Mozart é tocada pela primeira vez", cliquei no link e... achei só um texto.
Nem vou propor como exercício, porque a resposta é tão óbvia que não valeria a pena.
Se a notícia é sobre música e está on-line, tem que ter o áudio junto, não acham? Ou pelo menos um link que ajude o leitor a ouvir.
Portanto, se você ficou curioso, eu te ajudo: a BBC traz o trecho sonoro. Tem que ver um anúncio antes, mas quem se importa?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h31
Humor não cai bem só nos tablóides ou jornais populares, não (Zé Simão, o mais lido colunista da Folha, que o diga...). O "New York Times" tem um blog só de humor, o Laugh Lines, que na edição mais recente tirou sarro da posse de Obama (confira aqui em inglês).
Meu leitor Renan, que me deu a sugestão, traduziu várias tiradas no blog dele (não consegui descobrir como fazer para dar o link do post específico, por isso, entre no blog geral e procure pela data: 21/1).
Minhas favoritas foram as mesmas que o Renan me mandou na mensagem dele. Estas duas:
Todas as redes de TV estavam cobrindo a posse. Menos a Fox. Ela ainda estava fazendo a recontagem dos votos.
*.*
O dia estava tão frio ontem, tão frio em Washington, que parecia a posse de Hillary Clinton.
Por falar em humor, veio a guerra em Gaza, parei de publicar as charges de 2008 e nunca mais voltei. Coisa feia, né?
Vai aqui a segunda delas, então (para ver a primeira, clique aqui):

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h11

Dia desses eu comparei a personalidade de Obama na tomada de decisões à de um bom editor.
Hoje, pra dar marteladas no cravo e na ferradura, indico para vocês a excelente coluna do Al Tompkins que analisa "os lides" dos discursos presidenciais --e explica porque o de Obama demorou pra esquentar. [Agradeço à Fabiana, de Recife, que me chamou a atenção para o texto.]
É engraçada a definição de Tompkins para o começo do discurso do novo presidente: é o lide Fred Flinstones, que fica derrapando no mesmo lugar até finalmente partir.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h39
Qual seria seu lide? E seu título?
Meu recém-trainee MATHEUS MAGENTA está na reportagem de cidades da Folha Online e escreve para contar das dúvidas que aparecem quando a gente põe a mão na massa.
Que tal vocês se colocarem no lugar dele e pensarem no que fariam?
Achei que seria interessante compartilhar um pouco da rotina do online. Estou trabalhando lá desde o dia 15 de dezembro e o primeiro dilema já apareceu em dois exemplos que seguem abaixo.
1- Na quarta-feira (14), precisei fazer uma nota sobre o trânsito de São Paulo no momento. Liguei para a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e ouvi de um acidente na marginal Tietê. Um motociclista ficou ferido ao bater num carro, que capotou logo em seguida. O acidente interditou uma das faixas. Num raro momento em que eu tive para pensar no título, fiquei em dúvida sobre o que colocar: o ferido ou a interdição na faixa que causava lentidão no local? O resultado está aqui. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u489924.shtml)
2- Por volta da mesma hora do acidente , uma ciclista morreu atropelada na avenida Paulista. O título da nota foi "Ciclista morre atropelada na Paulista; CET interdita parte da via" (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u489962.shtml), com um lide falando primeiro do congestionamento causado por um atropelamento e depois mais especificamente do corpo da ciclista atropelada por um ônibus por volta das 11h50.
Recebemos vários e-mails de leitores indignados com a hierarquia de informações nesta nota. Como poderíamos dar mais importância a um congestionamento do que a uma pessoa que morreu?, perguntavam os leitores.
Fiquei me questionando que estaria certo e até agora não encontrei a resposta.
O que tem mais valor jornalístico? O congestionamento na marginal (a coisa mais normal do trânsito paulistano)? Uma ciclista morta, mesmo que morra um ciclista a cada cinco dias em São Paulo? O tráfego lento na avenida Paulista? Um motoqueiro ferido?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h30

O Marcelo completa seu excelente trabalho e explica, passo a passo, como fazer uma estimativa precisa e confiável --sem sair da sua cadeira-- do número de pessoas que cabe em determinado local. Confira aqui.
Ele aplica o método para o réveillon na Paulista e, adivinhem? Para caber os 2 milhões alardeados pela prefeitura, só se fosse em quatro ou cinco camadas, uns por cima dos outros (veja aqui).
Marcelo lembra ainda aquilo que importa muito numa cobertura crítica: alguém ganha dinheiro inflando as populações. Nós, jornalistas, queremos ajudá-los a lucrar? Não, certo?
(Para ler sobre o que fazer em coberturas que envolvem contagem de público, clique aqui)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h43
Tem vontade de aprender algo, mas está sem dinheiro ou não acha um bom curso? Há casos em que é possível fazer isso sozinho e de graça.
Foi o que fez meu leitor Davi, de Campinas, que queria estudar mais sobre jornalismo e web 2.0:
Montei um curso para mim. Não tinha nada de especial para fazer nas férias e resolvi estudar um assunto que me interessa há vários anos: o jornalismo multimídia e a web 2.0.
Peguei textos de grandes autoridades no assunto, como o americano Mark Briggs, que escreveu "Jornalismo 2.0", e Shayne Bowman e Chris Willis autores da obra "We Media". Resolvi pesquisar e ler esse conteúdo porque tive um pouco na Facamp, mas achei muito rápido.
Sei que a maioria das faculdades não incorpora o jornalismo multimída às suas grades curriculares, então segue uma dica para os curiosos.
Os textos mostram porque a junção de internet e jornalismo é tão importante hoje e o será no futuro. Apresentam a linguagem. Fazem discussões e propõem exercícios de adequação de textos de impresso para a web. E vão além ao apresentar o que muda na maneira de fazer jornalismo.
Isso é um pouco do que os livros abaixo nos oferecem. Eles foram colocados por seus autores nos seus sites e blogs e a maioria tem versão em espanhol. Abaixo os livros:
- We Media - http://www.hypergene.net/wemedia/espanol.php
- Jornalismo 2.0 - http://knightcenter.utexas.edu/Periodismo_20.pdf
- Web Deasign Aplicado ao Jornalismo - http://www.tede.ufsc.br/teses/PEPS5037.pdf
- Jornalismo digital de terceira geração - www.labcom.ubi.pt
- Planeta Web 2.0 - http://www.planetaweb2.net/
Depois do curso particular, Davi fez um blog para pôr em prática o que aprendeu. Confiram: www.ativozero.blogspot.com
O blogbudsman Takata lembra também: o MIT tem um Open Courseware - ocw.mit.edu
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h36
Os cuidados que um jornalista deve ter mudam quando ele trabalha na web 2.0?
Há quem ache que sim. É o caso de Robert Niles, do Centro Knight de Mídia Digital, que defende pelo menos três mudanças neste artigo recente. Faço só um resumo abaixo, mas é importante ler os argumentos detalhados para tirar conclusões:
- Regra antiga: Não cubra um assunto no qual está pessoalmente envolvido X Nova regra: Deixe claro para os leitores qual é seu envolvimento e como ele afetou sua cobertura (vale lembrar, que, no mundo digital, há mais confusão entre o que é cobertura e opinião, o que é pessoal, subjetivo, e o que não é)
-
Regra antiga: Dê todos os lados de uma história, sem tomar partido X Nova regra: Descubra qual dos lados têm razão e ajude seu leitor a navegar na enchente de versões
-
Regra antiga: Redação e publicidade são departamentos separados X Nova regra: Na internet, a mesma pessoa pode ser jornalista e vendedor de anúncios: o importante é deixar bem clara qual a diferença entre as duas coisas
"A INDÚSTRIA DOS JORNAIS ACABOU"
Foi o que disse o diretor do "El País" ao anunciar a unificação das Redações impressa e on-line (matéria do jornal espanhol aqui e comentário de meu colega ALEC DUARTE aqui).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h32
"Consegue receber muita informação e tomar boas decisões.
Sabe que cometerá erros.
Mas também sabe que é preciso fazer o melhor possível, tomar decisões difíceis e seguir adiante."
Frase de John Podesta, copresidente da equipe de transição da Presidência americana, sobre o novo presidente dos EUA, Barack Obama.
(Na matéria do "New York Times", o assessor de Obama fala sobre seu jeito de decidir. Para ler no original, clique aqui; a Folha publica versão em português para assinantes.)
Alguém quer saber como a Redação da Folha acompanhou o discurso de Obama? Provavelmente, sim, já que dois jornalistas estrangeiros vieram ontem até aqui para fazer relatos. Um japonês e um americano, Seth Kugel, ex-colunista do "New York Times" e hoje correspondente do "Global Post".
Se você também quer saber, o post que Seth escreveu está aqui. Em inglês, mas ainda mais legível que o relato em japonês, certo?
Vale, com exercício, notar alguns recursos de narrativa que ele usa, principalmente a descrição --em alguns pontos, detalhada-- e alternativas de sujeito (em vez das pessoas, por exemplo, os olhos). Um trecho:
As might be expected from those with a newspaper to publish, not all eyes in newsroom were glued to the television at 3 p.m. Brasilia time, when the speech was due to start. About three-quarters of the televisions around the rest of the newsroom were mostly tuned to CNN, the sports desk being the most apathetic. (Hey, there's soccer to watch, you know.)
But many watched via close-captioned internet feeds, and a crowd of about 15 gathered around Cristina Fibe's desk in the culture section of the newsroom, to take in the spectacle on her 14-inch LG television.

Foto tirada por Seth Kugel na Ilustrada mostra a cena que ele descreve no blog
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h27
Eu ia escrever um post sobre as "estimativas" de público e como escapar delas, mas meu prof Marcelo Soares já fez isso por mim. Não percam, não percam mesmo!, o post dele com dicas de como apurar de forma correta quantas pessoas participaram de um megaevento (passseata, protesto ou, no caso de hoje, a posse de Obama).
Faltou então tocar num ponto que veio da cobertura do templo desmoronado da Renascer:
é claro que é nossa obrigação de repórter ouvir a estimativa dos organizadores e de outras possíveis fontes. Mas publicá-las acriticamente é ficar no meio do caminho.
Vale lembrar aquela pergunta básica em coberturas de tragédias: "Como é que você sabe?".
Fulano diz que eram 80 pessoas? Como ele sabe? Ele estava lá? Contou? Há catraca? Baseado em que ele diz que foram 80?
No incidente do Cambuci, já estavam confirmados sete mortos e 96 feridos, e líderes da igreja diziam que havia menos de cem pessoas dentro do templo. Aí tem que tocar o alarme, certo? É óbvio que a estimativa é furada.
Procedimentos básicos, então, quando é preciso estimar número de pessoas:
- Quando for possível, o ideal é contar (ou medir, como ensina o Marcelo no blog dele, linkado ali em cima).
- Quando é preciso acreditar nos outros, pergunte sempre "Como você sabe?"
- Se há versões muito discrepantes, a pergunta acima é ainda mais importante: um deles (ou todos) tem menos condições de explicar de onde saiu aquele número. E aí é bom contar isso para o leitor
- Tente recolher estimativas de quem estava realmente lá, faça a média e explique isso ao leitor
- Sempre é importante saber quantos cabiam no local. No caso do templo era mais fácil, pois havia uma lotação conhecida. Em espaços amplos, é preciso conhecer a área do local (o Marcelo também explica isso). Com a capacidade máxima, fica mais fácil avaliar quais números fazem sentido
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h36
Diretor do "Nouvelob"
A dica é do Ricardo Lombardi, neste post: entrevista do "El País" com Jean Daniel, fundador da revista francesa Le Nouvel Observateur
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h21

Este post é uma homenagem a Bob May, o ator por trás do adorável robô de "Perdidos no Espaço". Foi fazer companhia ao dr. Smith, que na certa já sentia sua falta.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h55
Não estamos nos EUA, mas é interessante ver como Al Tompkins desdobra, em sua coluna do Poynter, sugestões de pauta para a posse de Obama amanhã.
E algumas delas são perfeitamente aplicáveis no Brasil. Um exemplo: será que já começaram a registrar pequenos bebês Obaminhas por aqui??
Aliás, eu já dei esta dica aqui, mas não custa repetir: quem vive de propor pautas (quase todos nós, certo?) deveria assinar a newsletter do Al Tompkins. É raro o dia em que não se aproveite uma ideia dele.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h22

O Vinicius, vocês se lembram, estava com uns números sobre cesta básica para fazer uma matéria em seu jornal, em Natal. (se você não leu o post, encontra aqui).
Ele fez a coisa certa com os dados: parou para pensar neles, em vez de desembestar a escrever qualquer coisa.
Só para lembrar, sempre que vamos fazer reportagem que envolve números, convém descobrir:
- qual foi a metodologia da pesquisa? Ou seja, o que os dados revelam exatamente? É sempre bom explicar na matéria: "o índice se refere ao preço de tal e tal coisa, coletado em tal e tal lugar no período tal"]
- houve mudança recente de metodologia? Isso é importante para saber se dá para estabelecer algumas comparações, que seguem abaixo:
- está aumentando ou diminuindo em relação ao mês anterior?
- está aumentando ou diminuindo em relação ao mesmo período do ano anterior? (há dados que são sazonais: sorvete, por exemplo, vende mais no verão. Então, para dizer se dezembro foi bom para os fabricantes, é preciso comparar com dezembro do ano anterior).
- é recorde (positivo ou negativo)? é o maior ou o menor desde quando? (neste caso, convém dizer quando os dados começaram a ser computados)
- só faça as comparações, claro, se a metodologia for a mesma. Se não for, esclareça: "não dá pra dizer se piorou ou melhorou porque a metodologia mudou".
Alguns dados também permitem que a gente pergunte:
- quanto representa do total?
- essa participação no total está aumentando ou diminuindo?
- quanto representa por habitante? (isso ajuda em comparações com outras cidades, desde que tenham portes parecidos)
No caso do Vinicius, havia ainda uma comparação a fazer:
- é o maior ou menor do país?
- é o maior ou menor da região?
Vinicius tinha duas possibilidades:
- a cesta de Natal era a sexta mais barata, dentre as pesquisadas no país
- era também a mais cara da região Nordeste
Qual é mais notícia?
Se for para escolher dentre as duas, é a segunda, porque dá para comparar melhor a realidade de cidades de uma mesma região.
Mas também por outro motivo: o leitor do Vinicius está pagando mais caro que os de outros Estados. Isso interessa diretamente a ele. E aí o fundamental é responder à pergunta "por quê?". Há algum produto que subiu muito mais que o normal? Há algo de errado na distribuição destes alimentos no Estado? O que a "dona de casa" --que era o alvo do Vinicius-- pode fazer a respeito, pra não pagar mais caro?
BOAS E MÁS
Nem sempre a má notícia é mais notícia que a boa: em Ciência, por exemplo, quase sempre a notícia é boa.
Já em Esporte, ela é quase sempre boa e má ao mesmo tempo, até quando o jogo termina empatado. Vai depender, claro, de para quem você torce.
Mas, quando se trata de política pública (incluída aqui a economia, por mais liberais que sejamos), a má notícia costuma valer mais, porque:
- é importante que o leitor saiba que algo de errado está acontecendo
- é um fato que alguém gostaria de ocultar, e é dever do jornalista revelar
Não sou contra publicarmos uma ação "positiva" de um governo, principalmente quando isso for serviço: o leitor precisa saber que há um novo hospital, que a estrada por que ele passa será duplicada ou que acabou a burocracia para se aposentar.
Mas é bom lembrar: fazer direito é obrigação das figuras públicas. O jornalista deve sempre se perguntar:
- para realizar isso, o que foi deixado de lado? (orçamento tem limite; se uma área foi priorizada, outra foi sacrificada)
- quanto custou? o preço é justo? houve concorrência lícita?
- a quem beneficia a medida (ou obra)?
- e, fundamental: funciona mesmo?
- mas funciona mesmo? Ou seja, volte lá uns meses depois. Na inauguração, tudo parece lindo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h43
Pesquisa e reportagem
Excelente história no blog do Marcelo Soares sobre como uma boa pesquisa em banco de dados rende ótima reportagem.
E para quem quer estudar mais ou se aperfeiçoar no uso de dados: não perca as indicações que ficam no menu da direita.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h27
A questão é de minha leitora Vanessa, de Curitiba, e eu divido com vocês porque é um dilema interessante, que pode se colocar no nosso cotidiano.
Minha intenção não é trazer discussão sobre o conflito em Gaza (nada contra debates sobre tal tema, só não é o objetivo deste blog), mas refletir sobre casos em que, ao vivo --ou seja, sem muita chance de controle pelos jornalistas--, a emoção supreende.
Eu mesma ainda não tive tempo de ver o vídeo, por isso não sei responder à pergunta dela. Mas lanço a dúvida para vocês:
O jornal "Independent" publicou recentemente uma matéria sobre um médico palestino que narrou ao vivo, para uma TV israelense, a morte de três filhas dele por um bombardeio do exército israelense (para ler a matéria, clique aqui). Ele costumava ser fonte para o programa sobre como estavam as coisas por lá, já que os jornalistas tinham acesso limitadíssimo à região. O link com o programa ao vivo e o desespero do homem e dos âncoras está no YouTube.
Após um tempo, o âncora acaba saindo do ar para poder continuar falando com o palestino.
Do ponto de vista ético, foi correto evidenciar a dor desse pai no ar?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h07
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