Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

É possível ser isento na cobertura do Oriente Médio?

Esse é um tema que tem tudo a ver com o que a gente faz em jornalismo, em qualquer editoria, em qualquer veículo.

Haver disputa (esportiva, política, econômica, social, até cultural) é um dos ingredientes fortes de uma notícia.

E, quando há disputa, dá para fazer uma cobertura equilibrada?

A Folha Online colocou no ar uma enquete deste blog sobre o assunto. Dê a sua opinião (clique aqui para responder).


CHORO AO VIVO

Meu colega TARIQ SALEH mostra este vídeo de um canal de notícias árabe, em que a apresentadora vai dar as notícias e entram as imagens do primeiro dia do bombardeio à Gaza. Ela não consegue conter as lágrimas e começa a chorar... e vai levando até o fim. 

Diz Tariq: "Não sei dizer se ela tem origem palestina, mas o canal é de algum país do Golfo".  


COMPARE VOCÊ MESMO

Minha colega CLAUDIA ANTUNES, editora de Mundo, está aqui comigo de plantão e aproveitou pra falar um pouco sobre como é a cobertura em Israel.

Ela prometeu escrever um posto sobre isso, já que acaba de voltar de lá e conversou com muita gente.

Enquanto isso, faça você também o exercício que ela me propôs: compare a cobertura de dois jornais israelenses, o Haaretz e o Jerusalem Post.

Também pode ser interessante ler esta matéria da Folha Online sobre os vetos de Israel ao trabalho da imprensa.


O PODER DA ANÁLISE

É em momentos como este que textos analíticos são hiperimportantes.

Quem tiver lido um bom artigo sobre o assunto pode mandar a sugestão, que eu acrescento neste post.

Começo com este artigo do "The Independent" que mostra como o conflito atende a interesses políticos de vários lados [na Folha, só para assinantes, mas aberto para todos (em inglês) no site do jornal britânico].

Meu leitor Ivo sugere a leitura deste artigo do "New York Times" sobre o Hamas.

Artigo do "Washington Post", traduzido pelo Estado, comenta a proposta de paz do bloco árabe. (em inglês, para quem preferir)

Editorial de hoje do "El País" lamenta o conflito e reprova Israel

Editorial da Folha no começo do conflito pedia cessar-fogo


 

OUTROS POSTS SOBRE ORIENTE MÉDIO
Onde está a verdade? - fotos mostram lados de uma história
Agruras de uma cobertura sem energia elétrica
Tariq conta
como virou correspondente internacional no Oriente Médio
Perigo todos os dias - como é trabalhar em regiões de conflito

OUTROS POSTS SOBRE ISENÇÃO
Tariq Saleh fala sobre
como driblar as convicções numa cobertura 
Passion victims - como o envolvimento com o assunto me fez errar
Zen budismo na reportagem - exercício de distanciamento

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h12

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Quando a fonte ameaça

(Colaboraram neste post minhas colegas Natalie Consani e Cris Castro; meu professor Marcelo Soares; o Estácio, de Aracaju; Mário, de Eunápolis (BA); Hanuska, Cris, Carol, Renato e Roberto, de SP; Manoella, de Hamburgo (Alemanha); Vincius, de Natal; Julio, Beatriz e Amanda, de Santos; professor Lobão, de Macapá; Leonardo, de Londrina; Bianca, de Brasília; Everton, de Pelotas)

Uma leitora do blog se viu em apuros ao tentar obter o outro lado de um motorista, talvez embriagado, suspeito de atropelar e matar um garoto (para conhecer a história em detalhes, clique aqui).

O caso dela levanta quatro questões:

  1. o que fazer quando a fonte pede que sua declaração não seja publicada
  2. o que fazer quando o outro lado não quer falar
  3. como agir quando a fonte te ameaça
  4. como tratar suspeitos em matérias sobre crimes

Falo primeiro de forma geral sobre cada um deles e, depois, comento especificamente este caso.

ESQUEÇA O QUE EU DISSE

Isso de o entrevistado pedir pra não publicar o que ele falou acontece esporadicamente. Nesses casos, vale lembrar que:

  • não existe off a posteriori. Se a pessoa sabia que você era jornalista e o estava entrevistando, o repórter tem direito de usar as declarações (leia mais sobre a questão do off neste post). Mas:
  • se você não gravou (como no caso da nossa leitora), fica difícil provar depois que ele realmente disse aquilo. O Marcelo, no entanto, lembra que, sobre a questão do medo de processo, saiu uma decisão recente no TJ-MT segundo a qual, se o meio de comunicação noticiou o acidente e o sujeito realmente estava envolvido nele, não há dano moral.
  • mesmo que você tenha gravado, é sempre o caso de ponderar as razões do arrependimento. Se o que ele quer suprimir não é fundamental para sua matéria, ou se o motivo é forte o suficiente, pode valer a pena atender ao pedido
  • se você gravou a conversa, vale a pena também avaliar com o editor se não é o caso de, além de publicar a declaração, registrar o pedido de que ela não fosse publicada

QUEM SAI PERDENDO É ELE

Seria de imaginar que todo acusado tem interesse em ter sua versão publicada, certo? Mas a gente sabe que nem sempre é assim, e por vários motivos –inclusive o de poder depois mandar uma carta para o jornal, que acaba sendo publicada em lugar nobre...

De qualquer forma, o dever do repórter é tentar ouvi-lo:

se não está conseguindo que ele fale com você

  •  fale com advogados, amigos, gente da família que conheça seu trabalho como repórter e possa deixar o entrevistado mais tranquilo
  • se for tentar um intermediário, dê a eles seus telefones e peça que entreguem à fonte. Isso é mais fácil que convencê-los a dar o telefone da fonte.
  • Se o suspeito prestou depoimento à polícia, pode ser que o delegado comente o que ele disse. Inquéritos policiais não são informação pública, mas não custa tentar. Não se esqueça de atribuir à polícia
  • Se ele deu declarações para rádio, TV ou outras publicações, reproduza um trecho, mas sempre atribua à fonte
  • Para ler mais sobre como tratar fontes resistentes, clique aqui

Se a fonte o atendeu, mas não quer dar declarações

  • Não discuta, é perda de tempo. Reconheça as razões dele, mas apresente as suas –e tente convencê-lo de que as suas são melhores
  • Use um tom ameno. Em vez de ameaçá-lo com “Se você não falar vamos publicar tudo contra você” explique o que é a matéria e por que é importante ouvi-lo. Deixe claro que o objetivo é dar a ele a chance de se defender
  • Mesmo que ele se recuse, ignore e insista. Diga “Só esta pergunta, então”, e pergunte. Se ele responder, faça outra. Siga assim até que não seja mais possível prosseguir.
  • Se nada disso funcionar, sempre deixe claro no seu texto que o suspeito foi procurado e não encontrado, ou que ele se recusou a dar declarações.
  • Outras dicas para quando a fonte não quer falar.

IMPORTANTE: o objetivo dessas dicas todas é levar ao leitor uma informação correta e completa e não amolar ou "enganar" o entrevistado --mas, também, não poupá-lo seja por que motivo for (simpatia, intimidação etc.). Nosso compromisso é sempre com o leitor.

FONTES “PERIGOSAS”

Nunca subestime uma ameaça de fontes encurraladas, mesmo que elas não pareçam perigosas –como a mulher do acusado do nosso exemplo.

Se a fonte diz que só fala pessoalmente, mas deixa a entender que pode agredi-lo:

  • avalie se a informação que você quer obter é realmente necessária
  • tente convencê-la a vir até o jornal
  • marque um encontro num lugar público e, de preferência, vá acompanhado
  • nunca enfrente uma situação de risco sem conversar antes com seu editor e avaliar prós e contras
  • se não se sentir preparado para enfrentar uma situação de risco, converse com seu editor. Isso faz parte da profissão e a maioria das chefias será compreensiva (para ler mais sobre “o direito de ter medo”, clique aqui.)
  • quando for o caso, publique as ameaças e intimidações (neste post, o repórter ANTONIO GOIS, da Sucursal do Rio, conta um caso em que as ameaças foram pulbicadas). 

JORNALISTA NÃO É POLÍCIA (NEM JUIZ)

Assim como os cachorros do Magri, jornalista também é ser humano. Isso quer dizer que a gente se emociona, faz julgamentos morais, se envolve com os fatos e tira nossas próprias conclusões.

Por isso mesmo é que é preciso fazer esforços constantes de distanciamento. Como eu disse aqui outro dia, fazer um exercício de zen-budismo. Por mais culpado que pareça alguém, se você não viu o crime, não suponha nada. Apure, levante dados, recolha versões e, sempre que não puder bancar algo, atribua a informação a quem a deu. Sempre que estiver cobrindo um caso que envolve a Justiça, faça esta check list.

E NO CASO DA “INFORMADINHA”?

Apesar de ter muitos detalhes sobre o caso, dar uma opinião sobre ele é sempre arbitrário.

Uma coisa é dar palpites de longe, sem responsabilidade alguma. Outra é ter que tomar decisões a quente, a poucas horas do fechamento.

Além disso, como notou meu professor ROGÉRIO GENTILE, editor de Cotidiano, falta uma informação importante neste caso: o que foi, afinal, que o motorista disse em sua defesa? Suas explicações fazem sentido? Acrescentam informação que não tínhamos? Permitem que haja um grau razoável de dúvida sobre o que aconteceu?

Dito isso, vamos aos palpites:

Depois de falar muito, o motorista pediu que nada fosse publicado. Atendo?

Sem gravar, como era o caso dela, não publicaria. Ainda mais tendo em vista que o interesse em dar sua versão é dele.

Se eu tivesse gravado, talvez publicasse a versão dele e a volta atrás depois da pergunta sobre a bebida.

O que eu publico sobre o outro lado?

Se vamos atender ao pedido dele, precisamos pelo menos colocar no texto que “Contatado por telefone em sua casa, Fulano não quis falar sobre o assunto”.

Se tivermos outras versões –advogado, delegado--, podemos usá-las à guiza de outro lado.

A mulher diz pra eu ir até lá se quiser ficar “informadinha”. Vou?

Não. Dificilmente ir até lá acrescentaria informação relevante. Não vale o risco.

Publico a foto?

Acho que é bom tomar cuidado para não expor demais quem, por enquanto, é só suspeito. Isso inclui atribuir todas as acusações, ouvir o outro lado com isenção, publicá-lo com destaque e refletir sobre se vale a pena identificar o suspeito.

Eu sempre pendo mais para não dar nome e foto, mas neste caso seria complicado, pois pareceria que estávamos sucumbindo totalmente à intimidação.

Um cuidado importante: por vários motivos –o fato de o garoto ser vizinho da repórter, a grosseria da mulher, a garrafa de bebida etc.--, é fácil deixar nossos sentimentos se manifestarem durante a cobertura.

Redobrar a atenção é fundamental.

Dependendo do grau de envolvimento com a vítima, talvez fosse melhor até passar a história para outro repórter.


TRÊS OUTROS CASOS REAIS

Minhas colegas NATALIE CONSANI e CRISTINA MORENO DE CASTRO contam suas experiências em situações aprecidas com às da minha leiotra:

Natalie: "Tive de convencer um candidato a vereador, acusado de vários crimes, a falar sobre isso. Ele e a mulher -- com quem falei primeiro -- também ficaram mega-assustados e chegaram a jogar uma conversinha ameaçadora, sugerindo que poderiam me processar. insisti muito, mas sempre por telefone, e expliquei várias vezes que o que eu queria, na verdade, era dar a versão deles. Quando percebi que não teria mesmo jeito, me saí com o tradicional e frustrante "ele não quis comentar". "

Cris: "Tenho dois casos. Num deles, o motorista apresentou vários indícios de embriaguez: dirigiu costurando, fugiu da polícia por 15 km, uma garrafa de vodca foi achada em seu carro. Mas eu não estava lá e essa era a versão da polícia, devidamente registrada na reportagem. Ao procurar o motorista (que teve o azar de ser um fiscal de trânsito) para ouvir sua versão, ele se recusou a falar. Registrei a recusa na matéria, mas, para evitar que a história ficasse manca, coloquei trecho de entrevista que ele havia dado a uma TV em que dava sua versão ("Ao jornal tal, ele disse tal coisa"). Foi o máximo que pude fazer para contemplá-lo na matéria, depois que ele se mostrou irredutível.

Na outra situação, também envolvendo um motorista, consegui convencê-lo de que era importante registrar sua versão na matéria e esta versão acabou mudando completamente a abordagem final. Mas não podemos obrigar a pessoa a falar. Se ela não quer, seja por qual motivo for, só cabe a nós registrar na matéria "foi contactado, tantas vezes, por tais meios, em tais circunstâncias, e se recusou, alegando tal motivo". De preferência, evitando juízos de valor, já que, como já discutimos várias vezes neste blog, não cabe a nós julgar ninguém. E aí entra de novo a discussão sobre necessidade de se divulgar fotos de "suspeitos", "acusados" e afins... Quem se interessar pela discussão, vale ler um post aqui do blog"

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 23h12

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Internet e impressos

Meu colega LUIS FERRARI me mostra pesquisa recente do Pew Research, instituto que acompanha há muitos anos a relação entre mídia e público, que deu resultado interessante: a internet superou pela primeira vez os jornais como fonte de notícia nos EUA (40% X 35%).

É importante lembrar que foi ano de campanha e, nestas eleições, a internet jogou papel importante.

Dentre os menores de 30 anos, também há notícia: quase 60% dizem que a rede é sua principal fonte de informação e a internet, nessa faixa etária, empatou com a televisão:

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h28

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Mercado de capitais e fundos

 
 

Mercado de capitais e fundos

Começa dia 20/1 em São Paulo curso da Anbid para jornalistas sobre mercado de capitaise e fundos.

Informações: marcelo.billi@maquina.inf.br

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h54

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Cursos | PermalinkPermalink #

2008 em charges

Para nossa campanha de mais humor no jornalismo, a Folha deu hoje uma página de charges. Para prolongar a graça, vamos publicar uma por dia.

Post mais recente sobre humor no jornalismo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h12

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Agruras dos repórteres em Gaza

Na Folha e no Globo de hoje, relatos sobre a vida de um correspondente de guerra.

No Globo, Renata Malques fala sobre as condições precárias de cobertura em Gaza:

Na Folha, Marcelo Ninio conta a briga dos jornalistas para tentar entrar na região do conflito:

Jornalistas obtêm na Justiça direito de entrar em Gaza

DO ENVIADO A SDEROT

Em mais um estágio de uma longa disputa jurídica, a Suprema Corte de Israel recomendou ontem ao governo que autorize o acesso da imprensa estrangeira à faixa de Gaza, proibido desde o inicio da ofensiva militar. Concentrados na fronteira, dezenas de frustrados jornalistas de todo o mundo esperam a decisão, enquanto são forçados a acompanhar os acontecimentos de longe.

"A Suprema Corte deu um prazo ao governo até as 10h de hoje (6h de Brasília) para permitir acesso limitado da imprensa internacional à faixa de Gaza", informou um comunicado da Associação de Imprensa Estrangeira (AIE) de Israel.
A pequena cidade israelense de Sderot, de pouco mais de 20 mil habitantes, tornou-se base da imprensa internacional e foco crescente de ansiedade e revolta dos jornalistas. Cada ministro que chega é bombardeado de perguntas sobre a proibição e desconfianças sobre a liberdade de expressão no país que se orgulha de ser a única democracia do Oriente Médio.

"A liberdade da imprensa é importante para o senhor?", indagou repórter da TV holandesa ao ministro dos Transportes, Shaul Mofaz. Surpreso, Mofaz disse que sim, mas completou: "O sucesso da ofensiva está em primeiro lugar".

Não é a primeira vez que os jornalistas vão ao Supremo em Israel para ganhar acesso a Gaza. Os primeiros recursos foram de israelenses, que nunca tiveram nenhuma vitória. Agora a batalha se estendeu aos estrangeiros, que desconfiam de uma manobra, sob o pretexto dos riscos à segurança, para impedir a cobertura em Gaza.

"É um assunto delicado, pois não nos interessa entrar em confronto com o Exército em uma zona de guerra. Mas espero que o governo atenda ao pedido do Supremo", disse à Folha a secretária-executiva da AIE, Glenys Sugarman. (MN)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h26

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Nossos cães de guarda

O trio fofo da foto acima é uma homenagem a três colegas meus aqui da Folha: EVANDRO SPINELLI, CONRADO CORSALETTE e ALENCAR IZIDORO.

E também a três repórteres do Estadão: Diego Zanchetta, Eduardo Reina e Rodrigo Brancatelli.

Por uma (feliz) coincidência, nos dois jornais, uma trinca de repórter cumpriu um dos mais importantes papéis que um jornalista pode ter: o de cão de guarda. E, como mostram meus amigos holandeses ali da foto, pra isso não precisa ter cara de rottweiler nem agir como pitbull.

O Estado mostrou em que pé estão obras prometidas pela gestão Kassab.

 

A Folha levantou todas as promessas feitas por Serra e Kassab há quatro anos e foi checar se elas foram cumpridas.

Como nosso novo tema é multimídia (sim, vocês vão enjoar de me ouvir falar nisso), vale chamar a atenção para as boas artes, que melhoram muito a leitura da matéria.

Outro bom exemplo do uso de várias plataformas é avisar, no jornal impresso, que o leitor encontra uma a uma das 161 promessas e seu andamento na internet --que, afinal, é o lugar certo para isso. (para ver, clique aqui e role a página)


Essa matéria é um bom exemplo de como não depender de versões oficiais ou de levantamentos feitos por outros --ONGs, universidades, centros de pesquisa--, por mais "bem intencionados" que sejam (além de ter tudo a ver com o que os leitores esperam dos jornais, como mostra a matéria da CJR --clique para ler o post).

O Spinelli já havia dado dicas neste blog justamente sobre esse assunto: como fazer seu próprio banco de dados para não ficar na mão dos assessores de imprensa (leia aqui).

Pedi a ele que contasse como foi feita esta matéria:

Novo em Folha - Achei curioso que os dois jornais tenham dado matérias tão semelhantes...

Evandro Spinelli - Acho que, em final de mandato, balanço da gestão é mais ou menos óbvio. Por isso é que o Estadão deu também. Mas eles pegaram um gancho diferente, obras e projetos começados e não concluídos. Nós fomos às promessas de 2004, diferente deles.

NF - Você já teve a idéia de fazer este balanço durante a campanha eleitoral e foi juntando as promessas e acompanhando ao longo desses anos? Ou a idéia foi recente e você foi buscar as promessas restropectivamente?

ES - Eu não cobri a campanha de 2004, não estava em São Paulo na época. Mas, desde que vim para cá, passei a procurar uma cópia do programa de governo do Serra. Uma ex-colega da Folha tinha e me deu. Guardei. Sabia que alguma hora eu ia usar. Na apresentação das pautas especiais para o fim de ano, sugeri publicarmos o plano de governo de 2004 e mostrar o que foi feito e o que não foi. Idéia aceita, comecei a correr atrás.

A primeira tarefa, bem chata, foi digitar o plano de governo do Serra inteirinho. Eu teria de mandar a lista para a prefeitura e, depois, publicar tudo. Era necessário digitar.

Feito isso, fui ponto por ponto anotando todos os que eu tinha certeza que ele tinha cumprido.

NF - Você tem um banco de dados próprio para esse tipo de acompanhamento?

ES - Como acompanho a administração, além de cobrir diariamente a agenda do prefeito, muito do que foi feito nesse período eu já sabia. Ouvir discurso do prefeito todo dia tem lá suas vantagens. Mas eu não podia ter certeza se não faltava alguma coisa. Aí, peguei a lista do que eu não sabia se tinha sido feito e comecei a pesquisar. Foram quase três semanas fuçando o site da prefeitura, todos os releases do período, pesquisando no Diário Oficial da Cidade e conversando com secretários e assessores (sem nunca abrir minha pauta, claro).

Quando a lista estava quase pronta (havia dúvida ainda em uns 15 ou 20 itens), imprimi e levei para o prefeito. Fui a uma cerimônia que eu sabia que não teria cobertura de imprensa, disse pessoalmente ao prefeito o que eu estava fazendo e entreguei a relação na mão do assessor de imprensa. Pedi que eles contestassem a avaliação, item por item. Deixei claro que estávamos abertos a mudar nossa avaliação sobre projetos que tivessem sido feitos, mas estavam anotados ali como descumpridos.

A partir daí, a cada três ou quatro dias eu cobrava a resposta, que nunca veio. No antepenúltimo dia de mandato, o prefeito deu uma entrevista coletiva para fazer um balanço do mandato. Sem que eles pedissem, eu mesmo mudei a avaliação de alguns itens (estavam anotados como descumpridos e o prefeito, sem querer, me convenceu do contrário). Caiu de 56% de promessas descumpridas para 54%.

 A partir de agora, eu tenho o banco de dados dos dois mandatos do Kassab (o do segundo mandato eu baixei do site da campanha e não vou precisar digitar). Cada vez que uma promessa for cumprida, vou lançar. No final de quatro anos vou perder menos tempo nesse processo todo.  


Um trecho da matéria que tem tudo a ver com nosso trabalho jornalístico:

(...)

Para cientistas políticos, na prática, não há relação entre a retórica da eleição e a realidade administrativa. "Programa de governo é, antes de tudo, uma peça de campanha e, portanto, peça retórica", diz Fernando Azevedo, professor da Universidade Federal de São Carlos.

Carlos Melo, professor do Ibmec-SP, tem a mesma opinião. "Qual é o custo de não cumprir? Qual é a penalidade? O eleitor se lembra das promessas feitas? Há um mecanismo legal que o obrigue a cumprir?"

Para ele, sem punições os políticos se sentem desobrigados de fazer o que prometeram. "A culpa não está exatamente nos políticos, mas na sociedade, que não cobra as promessas, não acompanha seu cumprimento e não estabelece sanções", afirma.

Nossos cães de guarda foram lá e cobrararm!!


 

Outro bom exemplo de levantamento próprio
Para não depender da boa vontade da assessoria
Evandro Spinelli dá dicas para obter informações
Paulo Totti caça um ministro
Marcos Côrtes explica como age o assessor de órgão público
Sandra Muraki fala sobre assessoria de empresas privadas
Rui Santos dá dicas para melhorar a relação entre repórteres e assessores

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h21

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Como foi feito | PermalinkPermalink #

Rolagem da dívida

Não me esqueci, juro, que devo comentários sobre:

Conforme for dando tempo, neste plantão de fim de ano, vou pagando a dívida, OK?

Feliz ano novo!, são os votos do meu alce animado (se você ainda não o conhece, veja-o aqui).

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h18

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

As fotos do NYT

Minha colega CRISTINA MORENO DE CASTRO, que adora retrospectivas, sugere aos colegas que vejam este site do "New York Times" com a crônica de 2008 contada por fotos.

Não compartilho do gosto dela (deve ser velhice... quando mais nova, adorava retrospectivas. Hoje elas me enfadam. Deve haver uma explicação psicológica para isso...). Mas achei o exemplo ótimo para nosso próximo tema de estudo: multimídia --ou, na verdade, as diferentes maneiras de contar uma história e quais a melhores maneiras para cada tipo de história.

Também acho uma boa oportunidade pra pensarmos em o que faz de uma foto uma boa foto jornalística. Vejam a seleção do NYT e reflitam: em quais das fotos você realmente pára para olhar? O que será que ela tem de especial para atrair o espectador?

Eu, pessoalmente, adoro as fotos que mostram algo que só elas poderiam mostrar: um instante congelado, um detalhe realçado, algo que, num vídeo, se perderia.

Num exemplo bem prosaico, esta foto abaixo:

Veja outro exemplo, este aqui da Folha, mesmo, fotografado por Jorge Araújo, de crianças brincando numa escola em Parauapebas:

 Ou este, da Associated Press, que capta o momento exato em que explodem bombas de gás (clique aqui para ver a legenda e o contexto do dia):

 

Ou, pra terminar, a natureza esplêndida em todo seu horror:


Voltando ao tema multimídia, alguns detalhes são fundamentais para um projeto como o dessa retrospectiva fotográfica funcionar bem. Neste caso, seria insuportável passar por ele sem o índice que fica no pé da galeria:


OUTROS POSTS SOBRE FOTO

Detalhes que ficam escondidos
Nem tudo é intencional numa foto
30 horas numa cobertura fotográfica - o caso eloá
Como começar no fotojornalismo
Corte joga fora a notícia (outro exemplo numa foto de Hugo Chávez)
Fotos horrendas e seu papel
Antifoto - como o contraste realça a informação
Como se decide a publicação de fotos trágicas
Imagens e equilíbrio editorial
Cor afeta informação da foto - o ataque do tigre
Como foi feito: três edições de uma mesma imagem

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h34

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Feliz ano novo

Não é seu computador que está com problemas. É que minha câmera é tão primária que não gravou o som do meu alce saxofonista, presente de fim de ano da Marina, uma estudante  mezzo brasileira mezzo americana que nos visitou na Folha.

Usem a imaginação e escolham a música de que mais gostarem para acompanhar minha mensagem de ano novo. De preferência uma bem animada.

Feliz ano novo para todos! Obrigada pela companhia!

[E, se quiser, depois me conte: que música você "ouviu" para acompanhar meu alce?]

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h08

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Jornalismo explicativo


Imagem do Flickr de Jander Minesso

A revista da Universidade Columbia, uma das principais escolas de comunicação dos EUA, publicou um artigo excelente sobre o que está acontecendo na relação entre os jornais (de qualquer meio) e seu público.

É longo, mas vale a pena (e, afinal, é feriado, não é, gente?). [clique aqui para ler]

Ele parte de uma pesquisa bem recente que mostra que o público jovem gostaria de ler notícias mais aprofundadas, mas não consegue achá-las no caos informativo dos nossos tempos.

Como a maior parte dos produtores de informação está engajada numa corrida para publicar "mais" e "mais rápido", o resultado é que eles aumentam seu próprio problema, dão tiros nos pés.

Quem for velho o suficiente para ter assistido ao seriado do Tarzan deve pensar naqueles que caíam na areia movediça: quanto mais se agitavam, mais afundavam e aceleravam sua própria morte.

O público precisa realmente, argumenta a revista, é de alguém que condense e traduza a overdose informativa.

Como exemplo, eles citam um programa produzido em parceria pela rádio pública de Chicago e a rádio pública nacional dos EUA sobre a crise global: elogiado por ouvintes e pela crítica de mída em geral (dá para ouvir neste site ou para ler, em PDF, a transcrição do programa).

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h18

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Jiboia invade assembleia, para aeroporto e atrasa voo

Há erros de ortografia nessa frase? Não para quem trabalha na mídia ou com documentos oficiais, escreve minha colega NATALIE CONSANI, que resumiu, para os leitores do blog, as principais orientações da professora da Folha, THAIS NICOLETI:

A partir de 2009, a reforma ortográfica, acertada entre o Brasil e os outros sete países de Língua Portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste), está valendo para esses dois segmentos e modifica principalmente acentuação e uso de hífen, além de trazer de volta ao alfabeto as letras "k", "y" e "w".

Em geral, as mudanças não afetam muitas palavras do dia-a-dia (alguém já ouviu falar em sotopor? Ou usa com frequência o verbo redarguir?), mas há mudanças significativas em outras que usamos muito, como essas da (absurda) frase. Algumas mudanças que podem dar trabalho:

1-Caem os acentos dos ditongos abertos (ei, eu, oi) nas paroxítonas como ideia, assembleia, jiboia. Mas ficam nas oxítonas - herói, pastéis, chapéu - e nos monosílabos tônicos - céu, mói (de moer), rói (de roer).

2- Não se acentuam mais as letras "i" e "u" de hiatos, se forem antecedidos de ditongo, como nas palavras feiura, baiuca e bocaiuva.

3- Desaparece o circunflexo nas letras dobradas, tais como acontece em voo, enjoo, eles veem, eles creem. Mas continuam valendo nas conjugações do verbos "ter" e "vir" e derivados - eles vêm, ele mantém, eles intervêm).

4- Cai o acento que diferenciava algumas palavras de preposições, como "para" (3ª pessoa do presente do indicativo do verbo parar, que levava agudo para diferenciar da preposição para).

5- Hífens: há mudanças significativas, com regras e diversas exceções; separei algumas:

-a) prefixos e falsos prefixos terminados em vogais (agro, extra, contra, infra, mini, tri, micro, mega): usa-se hífen quando a primeira letra da segunda palavra for vogal igual à que termina o prefixo ou quando começada por "h", tais como micro-ondas e sobre-humano.

- Quando a segunda palavra começa com "r" ou "s", duplica-se essa letra.

-b) prefixos terminados em "b" recebem hífen sempre que o segundo elemento começar com "b", "h" ou "r" (sub-hepático)

-c) os prefixos pré, pós, pró (tônicos) recebem hífen sempre (cheque pré-datado, campanha pró-aborto).

- Mas se forem átonos (pre, pos, pro), aglutinam-se ao segundo elemento (prejulgamento, proativo, preexistente, preestabelecido).

6- Cai o trema, exceto de nomes próprios (Müller) e palavras derivadas deles (mülleriano).

Já há livros e gramáticas disponíveis sobre o novo acordo. O "Escrevendo pela nova ortografia", do Instituto Antônio Houaiss, publicado pela Houaiss e pela Publifolha, por exemplo, traz a íntegra do acordo, com todas a modificações.

A professora da Folha, Thais Nicoleti, que organizou a apostila da qual tirei a maioria das informações, recomenda a brochura "O que muda com o novo acordo ortográfico", do professor Evanildo Bechara.

Apesar de passar a valer para a mídia a partir de 2009, o acordo vai ser implementado aos poucos: a partir de 2010 no ensino público e até 2012 para todas as séries.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h59

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Mutirão on-line

Meu colega SERGIO DÁVILA me conta deste projeto do Huffignton Post, em que editores do blog coordenavam o trabalho de centenas de voluntários durante a cobertura da campanha eleitoral.

Eu tinha ficado em dúvida sobre como eles poderiam garantir a isenção e a correção das informações, já que não conheciam bem seus voluntários e estavam trabalhando com um tema em que credibilidade é fundamental.

Sérgio me explica que eles fazem uma pré-seleção dos voluntários (geralmente estudantes de jornalismo ou recém-formados) e os colocam para trabalhar sob coordenação de um editor tarimbado.

Um dos voluntários, por exemplo, fez a transcrição de todas as entrevistas coletivas da campanha, o que ajudava muito o resto da imprensa.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h48

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Primeira página sem manchete

Meu leitor Mário ficou intrigado com a primeira página da Folha nesta sexta que passou:

"Achei muito estranho", diz o Mário, "por nunca ter visto isso em jornal algum. Como eu acho que não foi por descuido, gostaria de saber se cc pode me explicar como funciona isso".

É realmente raro que a Folha saia sem manchete, mas não é a primeira vez.

Isso pode acontecer por alguns motivos:

  1. há dias tão parados que nada do que aconteceu merece ser manchete
  2. até há matérias frias que segurariam uma manchete, mas, por ser um dia "morno", o editor da primeira página prefere fazer um desenho diferente

Meu palpite é que, nessa sexta, a capa se enquadra no segundo motivo.

Embora haja realmente dias em que nada relevante acontecente, o jornal procura deixar preparadas reportagens que garantam o alto da primeira página.

Se vocês notarem, algumas das chamadas dessa capa são reportagens "frias" (feitas com antecedência e que poderiam tanto sair hoje como anteontem ou na semana que vem) e, na minha opinião, pelo menos duas delas poderiam segurar uma manchete --em duas colunas, que seja, mas ainda manchete.

Aliás, bom pretexto pra tranformar este post num exercício.

As chamadas na sexta-feira eram estas aqui embaixo. Alguma delas, na sua opinião, seguraria uma manchete? Qual delas?

  1. Homem vestido de Papai Noel mata seis nos EUA

  2. Acidentes nas rodovias de São
    Paulo matam 15 em dois dias

  3. Em Israel, alas disputam para
    ter influência sobre Obama

  4. Teles planejam investir R$ 19 bi
    em celulares no próximo ano

  5. Financeira da General Motors
    vira banco para receber ajuda

  6. Governo Lula tem o seu pior ano na Câmara desde 2003

  7. Bolsas e cotas pouco alteram
    acesso de negro à universidade

  8. Mundo pode ir à ruína com crise, afirma papa

  9. Perda da posse de patente é criticada por pesquisador

Meu comentário

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h43

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha de S.Paulo. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.