Ayrton Vignolla/Folha Imagem

Meu recém-trainee CHICO FELITTI levou um chá de cadeira de Madonna.
Sim, a vida do repórter tem desses momentos frustrantes, em que se trabalha muito, em condições péssimas, para não produzir nada.
Antes de deixá-los com o relato sempre bem-humorado do Chico, aproveito pra amarrar essa história com as dos fotógrafos que acompanharam o caso Eloá (leia aqui). As duas nos lembram de que
NO PLANTÃO, NÃO VÁ DE CALÇAS CURTAS
Ou seja, prepare-se como quem vai para o deserto.
Calor? Comida? Água? Banheiro? Não espere nada disso fácil ou perto quando for destacado para seguir alguém ou acompanhar um caso quente.
Porque, mesmo que haja uma padaria ali do lado, nesse tipo de cobertura você terá que estar atento e pronto pra sair correndo.
Leve um kit de sobrevivência. Cada um saberá fazer o seu, mas o que me ocorre agora é:
- rádio FM com fones de ouvido (ou celular com rádio)
- celular carregado (se sua empresa tiver recursos, leve um extra)
- capucha (aquelas capas de chuva descartáveis, bem leves)
- água
- biscoito ou barra de cereal ou qualquer coisa que não pese muito e tenha calorias
- um casaco que não seja pesado (no verão, claro, não precisa, mas ele pode servir de almofada)
- filtro solar (quem já passou o dia num plantão vai me dar razão. Aliás, a última foto deste post sobre as bolsas e mochilas dos trainees já explica tudo)
- lenço de papel (substitui também o papel-higiênico)
Já para o problema do banheiro, não tenho nenhuma solução fácil. Só consigo pensar em "beba e coma o mínimo necessário"... Será que algum leitor achou uma fórmula mágica pra essa carência? Se achou, mande.
E, agora, deixo vocês com o Chico:
A vaga para ficar de "carrapato" da Madonna durante sua passagem por São Paulo pareceu um prato cheíssimo quando me candidatei a fazer o freelance. E mais apetitosa ainda quando avisaram que eu seria mesmo o "sombra" dos dias brasileiros da artista.
Lembrei que, da última vez que passou pelo Brasil, 15 anos atrás, a loura arrastou um monte de gente para a porta do seu hotel, na rua Augusta. Na época, teve até um bando de doidos que ficaram sem roupa pra prestar homenagem à (então) loucona. Quatro dias de fãs pelados e ensandecidos. O trabalho parecia ser ótimo!
Só que ela fez 50 anos e mudou. E o público, aparentemente, também.
Notícia "acidental"
No fim, os quatro dias entraram para a lista de coisas mais chatas que já fiz na vida. A equação traumática foi soma de dois fatores bem simples: o esquema de segurança dela parece ter dado aula para o Mossad (serviço de inteligência de Israel) de competente e não tinha uma única alma desesperada de fã no aguardo de um aceno. Ne-nhum.
Ok, minto: no primeiro dia de espreita paulistana, quinta-feira, o total de tietes chegou a... Cinco. Ou um terço do número de jornalistas ali. Fantástico, né? Ainda mais levando em conta que os dois primeiros mal sabiam o que estavam fazendo por lá. Tinham sido "laçados" por repórteres entediados ao serem encontrados no quarteirão do hotel usando camisetas da turnê "Sticky and Sweet".
Notícia "acidental" que não passou de coincidência: os caras estavam indo conhecer a ponte estaiada (que fica a 200 m do hotel), sem fazer a mínima idéia de que a cantora estava hospedada ali. Para os veículos mais desesperado, valeu a regra de que, se não tem fã de verdade, vão os perdidos mesmo.
Mais do mesmo
Na sexta-feira, a jornada de espera foi de 11 horas, com direito à tríade frio/fome/aperto. Não tinha banheiro no fim de mundo. A única opção de alimentação perto da torre de marfim em que ela subiu era a lanchonete de uma loja de materiais de construção --e ainda era preciso atravessar, correndo, uma avenida de seis faixas. Para piorar, começou a chover assim que anoiteceu, bateu um vento ártico vindo da marginal Pinheiros, transformando os jornalistas subitamente em mendigos que tentavam se abrigrar embaixo de arbustos.
No sábado e domingo, basicamente a mesma coisa. Nada de Madonna; nada dos filhos de Madonna (Lourdes Maria, Rocco e David Banda, decorei em algum momento de tédio); nada do carro de Madonna. Nada, a não ser um pouco mais de agasalhos na mochila, uma caixa de barras de cereal a menos na despensa e mais um charco no toró que alagou a região horas antes do último show, no domingo.
Cama redonda
Ao agradecer o público pela turnê que terminava com aquele show, a garota material soltou para a platéia do Morumbi, no domingo: "Vocês estão todos na minha cama, todos os 50 mil".
Ah, sim todos os 50 mil estão na cama da suíte presidencial, mas os jornalistas não podem chegar ao lobby do hotel nem pra se proteger da chuva em cântaros. Valeu, Madonna!
Passa de novo daqui a 20 anos, sim?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h57
Minha colega CRISTINA MORENO de CASTRO fala da montanha-russa do jornalismo:
Todo ofício tem seus ossos, segundo reza a lenda. Já descobri vários esqueletos no meu ofício anterior, mas no Jornalismo (que teimo em escrever com maiúscula) ainda estou aprendendo.
Um deles, talvez o maior, me ocorreu esta semana. E já deve ter ocorrido com todos vocês que me lêem - se ainda não, logo chegará seu dia.
Resumindo: uma pauta aparentemente muito boa caiu em meu colo há três semanas. Antes de vendê-la aos editores, fiz uma pré-apuração. Como era sobre um assunto que não domino, e que envolvia algum conhecimento jurídico, tive que falar com várias pessoas, imprimir documentos, estudar artigos e leis.
Ao longo da apuração, a pauta se transformou em algo bem maior, aquele novelo que vai sendo desenrolado nas entrevistas. Chamei um colega para me ajudar no trabalho, que envolveu uma checagem de lei em cada uma das unidades da Federação. Finalmente, falei com o editor. A esta altura, animadíssima. Ele aprovou.
Toda essa apuração foi sendo feita ao longo de três semanas, nos intervalos de matérias para o dia, ou nos dias mais tranqüilos.
Até que, ontem, ao fazer a entrevista que encerraria meu trabalho de apuração, o entrevistado derrubou a notícia. E foi taxativo nisso.
Todos os dias, por uma razão ou outra, as pautas podem cair. Mas é triste quando o próprio processo de apuração derruba sua pauta, inda mais quando isso acontece depois de três semanas.
De tudo, fica alguma lição. A minha costuma ser otimista: neste caso, guardo para mim que nenhuma apuração é em vão. Que aprendi muito com minha pauta e que todo o material acumulado ainda poderá virar uma reportagem em um momento mais oportuno.
Assim, o osso ainda pode virar carne. E o ofício segue sendo o mais divertido do mundo :)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h51