Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Otimismo no reino dos impressos

Para quem está livre no final de semana, discurso de Murdoch sobre o panorama da mídia e sua visão para o futuro. É curto e claro. Quem não quiser ler ainda tem a opção em áudio.

 


 

JORNAIS PUBLICAM

Minha anedota favorita neste artigo, sobre a principal função e arma de um jornal --tornar público:

When I took over the News, The Adelaide Advertiser was the dominant paper in town. Its owners tried to get my mother to sell to them. They sent her a letter basically saying that if she didn't accept their offer, they were going to put the News out of business. We responded by printing their letter on the front page of the News.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h41

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ódio nos blogs

Minha ex-trainee, hoje repórter de Dinheiro, VERENA FORNETTI comenta a onda de comentários raivosos que assaltou o blog do Vinicius de ontem para hoje (se você não acompanhou, pode checar por lá, mas, em resumo, posts dele sobre discurso de Lula desencadearam a revolta):

 
Nesta semana, lendo os comentários raivosos no blog do Vinicius, lembrei de um exercício na oficina da Bia Abramo no ano passado.

Ela pedia para que a gente escrevesse sobre a radicalização da participação dos leitores em blogs com base em dois textos publicados na Folha na época, um do Marcelo Coelho/Identidade em fúria  e outro do Uirá e do Fernando Barros
 
O resultado do exercício tinha o título de "Debate cansado":

A imprensa se alimenta fundamentalmente das controvérsias do público. Deve ser a sociedade dialogando com ela mesma, como disse Arthur Miller. Os termos do diálogo travado hoje nos blogs e colunas de opinião, no entanto, tendem a substituir o debate racional e crítico por um desabafo cansado e inocente.

As manifestações a favor ou contra os assuntos do dia-a-dia reduziram-se ao grito de horror. Na vigorosa polêmica que tomou conta do Painel do Leitor da Folha sobre o roubo do relógio de Luciano Huck, tudo levaria a crer que a sociedade, indignada, finalmente resolveu deixar a apatia e tomar posição, para um lado ou para o outro.

No blog de Josias de Souza, um leitor comenta a notícia de que, nos bastidores, tucanos negociam com petistas a aprovação da CPMF: “E a ptzada defendendo a cpmf com o argumento ‘o que será da saúde desse país sem a cpmf?’ beira o ridículo. Quem lê pensa que a saúde no Brasil está perfeita, né? Como consolo lembro que é melhor ler esse tipo de coisa do que ser analfabeto”.

Apesar da manifestação indignada, o leitor parece ter desistido do debate democrático, que busca a pluralidade de vozes e a coerção do melhor argumento. Esses ficaram para trás. Não é à toa que a mais recente expressão de indignação da elite brasileira foi batizada de “cansei”. Cansei do debate, parecem dizer.

Ao contrário do que se pensa à primeira vista, a indignação e o desabafo não refletem radicalização na política. Transmitem asco e tédio. Se radicalizar é tomar as coisas pela raiz, estamos longe disso. Com essas demonstrações públicas de opinião, as pessoas mostram que desistiram de discutir e não acreditam mais na política.

O que temos com essa estridência nas opiniões é, no máximo, entretenimento: o público se diverte com expressões como alubarbudo, tucanalha, petralha e o nome do novo livro de Diogo Mainardi, “Lula é minha anta”. Quem sente nojo da política finalmente pode se ocupar dela, mas agora com o intuito de fazer graça.

Entretenimento bobo e infantilizado, entretanto, que desqualifica o dissenso e transforma o debatedor em adversário. Bem longe da racionalidade que deveria permear o debate nas sociedades democráticas.

Ao transformar o critério da discussão em quem grita mais alto, o debate fica como a comida fast-food: fornece a sensação de que a fome foi satisfeita e que todos tiveram sua vez, oferecendo, no lugar, conteúdo de pouco valor (nutricional ou crítico).

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h50

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Está difícil escrever hoje. Mas os quatro assuntos dos posts abaixo merecem os comentários de vocês.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h54

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Prática sem emprego

Meu leitor Charles, de São Paulo, conclama voluntários a se embrenhar pelo Brasil e dá outras sugestões de prática para quem está sem emprego:

Com muita inspiração no projeto Rondon, o projeto Bandeira Científica, da USP, ampliou suas áreas de participação e agora inclui jornalismo.

Iniciado em 1957, parou em 1969, voltou em 1998, e abre vagas para profissionais de medicina, odonto, TO, nutrição, fisioterapia, engenharia, agronomia e jornalismo dispostos a prestar serviços durante 10 dias em alguma cidade menos estruturada do interior do Brasil.
 
Aqui vem a parte que interessa ao Novo em Folha --depois do meu marketing. Para quem reclama uma oportunidade ou está desempregado e quer exercitar a pena, oportunidades institucionais existem.
 
Tive a oportunidade de participar de um curso da Oboré ano passado e dez dos estudantes visitaram a Amazônia. Fruto do entendimento do Exército e da Oboré, claro. Mas havia gente da Cásper, do Mack e da USP.

O Exército costuma levar formadores de opinião --jornalistas, radialistas, deputados e ESTUDANTES para conhecer a Amazônia. Motivo: muitas vezes, a farda é a única presença do Estado em regiões longinquas e não há como discutir assuntos de tamanha relevância sem estudar e sem estar lá in loco.

Como resultado, houve uma segunda viagem da Oboré para a Amazônia, um documentário foi produzido com material da primeira imagem e foi exibido no canal Universitário (uma possibilidade para quem curte TV e com mercado em expansão, pois tudo é multimeios hoje) e aconteceu também uma viagem de alunos de relações internacionais da USP e da Unitau.

No começo de novembro, houve um estágio de comunicação social promovido pelo Comando Militar do Sudeste. O primeiro aconteceu em Brasília. Marcelo Tas, Carlos Nascimento, Ricardo Boechat, Reinaldo Azevedo, Ana Paula Padrão e Luciano Faccioli foram alguns dos palestrantes.
 
Meu ponto é que o fato de não ter experiência ou estar desempregado não pode ser desculpa para não exercitar o jornalismo. Atualmente estou fazendo frilas, pois o semestre na faculdade foi infernal. Esses eventos são ótimos para fazer contatos e estabelecer fontes. Requisito mais importante de um repórter, se você me permite o pitaco.

Finalizo dizendo mais uma coisinha só. Estar em contato com governos e outras instituições oficiais não implica jornalismo chapa branca.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h32

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Quem, mesmo?

Para completar a trinca de dúvidas, segue a da Beatriz, de Santos

Ana, vou aproveitar a questão de inexperiência e dúvida de perguntar para acrescentar uma dúvida minha. Fui cobrir a chegada de uma jogadora de futebol feminino no time da cidade. Como sempre acontece com futebol feminino, só havia eu de imprensa. E havia dois senhores que eu imaginava que fossem do clube, mas não fazia idéia de quem eram. Fica chato chegar e perguntar qual a função deles no clube? Devo pedir desculpas pelo desconhecimento?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h24

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um mestre da checagem

"A checagem é um ofício paradoxal: se bem-feito, ele não aparece."

A frase acima, cheia de verdade, é a epigrafe do obituário que a revista Piauí fez para Adam Sun, um mestre da checagem.

Nós do treinamento conhecemos melhor o Adam na aula que ele deu no congresso da Abraji em São Paulo, há dois anos. Como disse JOHANNA NUBLAT, que esteve lá (e foi quem me avisou da morte), a palestra de Adam foi a melhor do congresso.

Meu professor EVANDRO SPINELLI avisa: a palestra está no site da Abraji, em área restrita para sócios (quem não é sócio deveria ficar), mas está também neste link.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h29

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Algo mais a acrescentar?

Ainda vou comentar a dúvida da Natalia e organizar as respostas de vocês, mas vejam esta questão da Gabriela, que é diferente, mas vai na mesma linha:

Ontem eu fui entrevistar o  [era um esportista famoso, mas achamos melhor omitir o nome] e ele foi um pouco grosso quando eu terminei a entrevista e perguntei: "Deseja acrescentar mais alguma coisa?".

A resposta dele foi: "Não sei, você tem mais outra pergunta?".

Aff..

Na sua opinião, é certo fazer isto após a entrevista?

O fotógrafo reparou isto, porque todas as vezes que eu termino uma entrevista eu pergunto se há algo que o entrevistado gostaria de acrescentar. Geralmente os mais falantes gostam de falar, principalmente os atletas, sobre o patrocínio.

Por um lado, quero mostrar que o personagem tem espaço para dizer o que bem quiser, que estou disposta a ouvi-lo.

Mas, por outro, como o fotógrafo disse: "Parece que você não está preparada para a entrevista!".

Complicado né?! Não dormi direito por causa deste dilema, Ana.

Outra dúvida: há pessoas certas para fazer a pergunta? Fica feio demais??? Vou morrer sendo tachada como a repórter do "Mais alguma coisa a acrescentar?"? (rs)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h13

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Para a vovozinha

Todos os comentários foram excelentes em resposta à dúvida da Natalia no post logo abaixo.

Resolvi subir este do Milton, porque é uma história muito divertida (viva o humor no jornalismo!) e porque se passou com um repórter experiente. Mas sugiro que vocês não deixem de ler os coments do post abaixo, que têm outros relatos de gente experiente e são todos muito úteis!

Estava cobrindo um leilão de energia do governo e um jornalista de um grande veículo, durante a coletiva, perguntou ao secretário-executivo do MME como funcionava a sistemática daquele leilão --para registro, entender isso é bem complicado.

O secretário explicou e o repórter não entendeu. O jornalista, então, pediu que o secretário repetisse a explicação. Ele repetiu duas vezes, dando exemplos etc. O repórter ainda não havia entendido.

Eis que então, o jornalista (que era bem experiente) soltou a seguinte proposição: "Secretário, o sr. poderia por gentileza me explicar isso novamente como se o sr. estivesse explicando para a vovó do sr.?".

Todos riram, é claro. O secretário repetiu pela quarta vez a explicação de forma realmente didática e o repórter entendeu tudo.

Isso é ser repórter: não ter medo de perguntar quantas vezes forem necessárias.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h51

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Posso não saber?

Vejam a ótima dúvida da Natalia. Vocês já passaram por isso? O que dizem para ela?
 
Como frequentemente as dúvidas dos outros leitores acabam me ajudando, resolvi dividir uma dúvida com você porque quem sabe pode ajudar outras pessoas também.
 
Eu estou no segundo ano da faculdade e consegui um estágio em uma redação. Na verdade, foi meio sem querer. O fato é que eu acabei ficando e agora "ganhei" a minha primeira pauta para fazer. Eu trabalho para a editoria de meio ambiente e, apesar de não ter a mínima afinidade com o tema, eu acabei gostando e estou aprendendo muita coisa. O assunto da minha matéria é interessante, mas eu não sei absolutamente nada sobre ele.
 
Ok, isso não é necessariamente um problema já que nem sempre a gente sabe tudo sobre a matéria que queremos fazer (se soubéssemos não teria o porquê da matéria, né?). Então, eu fiz o que todo mundo faz, "dei um google". Achei algumas coisas, mas muita informação diferente, então fiquei mais confusa ainda. Fiz uma lista de perguntas e mandei para o meu editor, e ele me disse que não sabe nada além do que eu já sei, que eu vou ter que descobrir na apuração e ensinar para ele.
 
É aí que está a minha dúvida.
 
Uma vez um amigo jornalista me disse que o bom da nossa profissão é que a gente pode não saber nada sobre um assunto, mas não precisa ter vergonha ou medo de perguntar, porque esse é o nosso trabalho. Mas até onde isso é verdade? Por exemplo, nessa minha matéria eu vou ter que falar com gente do governo. E é uma coisa muito nova, ninguém sabe como funciona direito, será que pega mal eu expor isso para o meu entrevistado?
 
Apesar de ser, eu não queria mostrar para a fonte que eu sou inexperiente. Acho que de certa forma isso pode "queimar" a revista, ou seja, o entrevistado não tem obrigação de saber que eu sou estagiária então ele pode pensar "Ah, como assim essa menina cobre meio ambiente e está me fazendo perguntas idiotas".  
 
Enfim, a minha dúvida é essa, até que ponto a gente pode ser ignorante sobre o assunto da matéria que estamos fazendo? E como mostrar isso para o entrevistado sem que ele ache que eu não sei do que estou falando.
 
A gente aprende exaustivamente na faculdade que precisa pesquisar sobre o objeto das nossas reportagens previamente, mas e quando isso não é o suficiente, o que a gente faz?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h37

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Para apurar corrupção

Para apurar corrupção

 A dica é de meu professor Marcelo Soares:

O guia abaixo foi escrito pelo meu amigo Paul “Juanes” Radu, do Centro Romeno de Jornalismo Investigativo. Está em inglês e traz dicas de recursos para cobrir casos de corrupção que envolvem vários países. Vale a pena baixar.

A Digital Guide for Tracking Corruption

… is a “handbook designed to help investigative journalists track corruption across borders.” The free handbook, in PDF format, is published by the Romanian Center for Investigative Journalism and the International Center for Journalists. It is in English and “provides an array of new tools for investigative journalists that will help them give the public a better understanding of regional and global criminal networks,” the Romanian site says. You can download the handbook anonymously, although for whatever reason, when I did so in Firefox, I had to manually add the .pdf extension to the file to read it.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h07

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Sugestão de leitura | PermalinkPermalink #

Bolsa da Fundação Reuters

Bolsa da Fundação Reuters

O Programa de Bolsas de Estudos da Fundação Reuters permite que jornalistas estudem de três a nove meses na Universidade de Oxford, onde poderão perseguir e atingir seus interesses de pesquisa.

Os candidatos devem ter no mínimo cinco anos de experiência e proficiência na língua inglesa. Será dada prioridade aos jornalistas que propuserem projetos de pesquisa dentro das áreas de foco do Instituto Reuters de Estudos em Jornalismo, que incluem política, economia e o futuro do jornalismo.

Inscrições vão até 28 de janeiro de 2009.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h34

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Cursos | PermalinkPermalink #

Reportagens premiadas

Reportagens premiadas

Meu colega RAPHAEL GOMIDE, o segundo da esquerda para a direita nas fotos abaixo, acaba de voltar da França, aonde foi receber o prêmio Lorenzo Natali (que premia trabalhos sobre direitos humanos, democracia e desenvolvimento). O site do prêmio têm as histórias premiadas: é uma boa forma de estudar que informações traz uma boa reportagem.

Na seção "Como foi feito", Raphael contou para o blog detalhes da sua apuração:

Raphael conta os bastidores da apuração da matéria sobre a PM
Raphael
indica livros sobre segurança e fala sobre seu método de trabalho
Raphael Gomide fala sobre
os limites da infiltração

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h25

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Sugestão de leitura | PermalinkPermalink #

De volta ao batente

Para você que foi se divertir no feriado enquanto inundávamos o blog de novos posts, um navegador para facilitar a vida (idéia que copiei do Blog do Vinicius):

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h48

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Passion victims

Hoje é dia de Fuvest. Bom dia pra reconhecer que era aquele tipo de aluno que termina a prova correndo e deixa passar um monte de erro bobo porque quer entregar logo, não pode perder tempo revendo.

Há aí uma qualidade e um defeito óbvios para alguém que ganha a vida como jornalista.

Rapidez, capacidade de resolver, senso prático? Ótimo. Desatenção? Erros? Terrível.

Depois de duas ou três pauladas me dei conta: ou eu fazia um esforço sério para evitar os erros ou alguém ia me espirrar para fora do jornal, não importa quão boas fossem minhas outras aptidões.

Aprendi a reler tudo, rechecar, duvidar, questionar (no pé deste texto há uma lista de posts sobre esses cuidados).

Mas, em meu plantão de domingo passado, escorreguei.

E o motivo foi outra característica de dupla face: a "paixão".

Sou do grupo que acha bom se entusiasmar com as notícias. Há coisa mais chata que vender pauta ou lide para um editor e receber de volta aquele olhar de tédio profundo? Ou mandar um repórter cobrir um supercaso e ele voltar com um relato sem um pingo de empolgação?

Mas é preciso traçar bem a fronteira: é para se apaixonar pela notícia, não pelo assunto em jogo. No primeiro caso, o envolvimento terá como resultado uma edição vibrante, rica, interessante, viva. No segundo, o envolvimento toldará sua capacidade de julgamento e o levará a algum tipo de erro: de hierarquia, de apuração, de equilíbrio ou, até, de informação.

Tudo isso tem a ver com minha bobeada de domingo, mas também com aquele caso da suástica que o Chico contou há dias (clique aqui se você não leu).

Começando do primeiro caso: afinal, onde eu errei? Fui uma "passion victim".

Era sobre futebol, prato cheio pra despertar paixões em quem gosta do assunto. Mais que isso, envolvia o meu "ex-time" (sim, eu troquei de time. Agora torço para a Lusa, para profunda irritação de meu marido, que repete trezentas vezes: "Só mesmo uma mulher ou alguém que não entende nada de futebol pra fazer uma coisa dessas.) Pois era história com meu ex-time e, pior ainda, com o técnico do meu "ex-time", pivô da minha separação esportiva.

A uma hora do fechamento, mudou o desenho da Primeira Página e entraram duas chamadas para colunistas de Esporte: a Soninha e o PVC. Eu já quis logo fazer as duas --lembram-se? Quero fazer tudo, e, de preferência, rápido. O que não é ruim, desde que seja feito com cuidado...

Procurei no diretório pela palavra Soninha e veio um texto que adorei: criticava o técnico! Que alegria! Ainda mais num dia em que ele sofrera uma derrota humilhante! Num segundo mandei a chamada para a página. No dia seguinte, estava lá "o corpo estendido no chão": Erramos. A coluna que eu peguei era da semana anterior (quando, aliás, o time também perdera, e o técnico já merecia as críticas).

Não pensem que é fácil contar isso para vocês. Afinal, pagam meu salário para que eu ensine a trabalhar direito e produzir um jornal correto. Dá vergonha fazer uma bobagem dessas. Mas uma coisa que 20 anos de profissão me mostraram é que chorar o erro publicado ajuda pouco. O jeito é pensar bem sobre as causas e redobrar a guarda para não repetir.

Nesse triste episódio, minha falha foi me deixar empolgar por paixões pessoais, que nada tinham a ver com a notícia. Não foi a pressa --fiz outros nove ou dez textos no dia, todos corretos--, mas a falta de distanciamento profissional.

Outras duas providências básicas teriam evitado o vexame:

  • ter lido direito o caderno de Esporte na semana anterior (eu me lembraria da coluna, se a tivesse lido)
  • ter levado o texto para os colegas da editoria olharem


Mas o que isso tem a ver com a suástica?

Naquele dia, estávamos todos os trainees, eu e o Fabio (meu editor-assistente) numa cidade do interior gaúcho, a convite de uma empresa. Não tínhamos pauta. Estávamos lá para conhecer a fábrica e outros aspectos daquele setor.

Os anfitriões nos levaram para almoçar. Na mesa ao lado, um grupo de 30 homens de outra empresa, todos uniformizados, e duas ou três moças, uma delas com a suástica nas costas.

É óbvio que enxergamos a notícia na hora e ficamos empolgados com ela.

Mas a preocupação era evitar um "incidente diplomático".

Só bem depois, numa conversa com meu colega ROGÉRIO GENTILE, editor de Cotidiano, percebi que havíamos sido mais uma vez vítimas da paixão (neste caso, com sinal inverso).

Deixamos que à nossa empolgação com a notícia se misturassem nossos sentimentos inflamados a respeito do fato em si. Na nossa cabeça, naquele momento, qualquer abordagem a respeito da tatuagem seria necessariamente tensa, conflituosa.

Gentile, um sujeito equilibrado, exemplo de jornalista que é capaz de se animar com a informação mas manter-se frio e distanciado em relação ao fato, me fez ver que não precisaria ser necessariamente assim.

Tarde demais.


Acho que chega de confissões embaraçosas por hoje, não é?


Mantenha a pulga atrás da orelha
Dica rápida do Jairo para errar menos
Como o
erro irrita o leitor
No jornal dos outros não dói -
coleção de erros alheios (que, infelizmente, não justificam os nossos)
Não basta checar -
sites oficiais também erram
Rapidez e segurança - como evitar erros na correria

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h59

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.