[Colaboraram neste post um verdadeiro time de futebol de BH --Gustavo, Tt, Larissa, Luiz Antonio, Guilherme, Tiago, Luiza, Filipe, Sulamara e Cedê--, o Everton, de Pelotas; Pedro, de Taubaté; Cris, Renato, Marcelo, Giovanna, Natalie, Mauricio e Amanda, de São Paulo; Gabriela, de Curitiba; Amanda, de Santos; Mauro, de Cachoeira, e Tomás, de Porto Alegre]

Há uns 15 anos, entrevistei o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado sobre seu projeto naquela época: retratar os grandes deslocamentos de população, provocados por guerras, pela fome, pela vontade de melhorar de vida.
Numa das respostas, ele classificou de engano insistir na reforma agrária num momento em que escala era fundamental para a sobrevivência dos produtores rurais.
Estava tudo gravado --tenho as fitas até hoje--, não há qualquer dúvida sobre quem é o autor da frase nem sobre seu conteúdo.
Mas, pouco tempo depois, o próprio Salgado fez um trabalho sobre os sem-terra brasileiros e "abraçou" a causa.
Imaginem que esquizofrênico seria escrever num texto que Salgado condena a reforma agrária, ainda que ele a tenha condenado um dia.
Nossas velhas perguntinhas básicas --quem, o que, como, quando, onde, por quê e para quê-- não valem só para o lide, mas para entrevistas também. A palavra chave aqui é "contexto", principalmente quando usar na matéria uma opinião e não uma informação.
Não é impossível "reciclar" uma declaração, mas é algo a ser feito com critério. E não é só porque um entrevistado pode ter mudado de idéia, como no exemplo radical que eu cito mas também porque, quando a gente fala com um jornalista, tem como horizonte uma reportagem específica.
Nossas idéias não são bloquinhos de lego que se podem montar e desmontar ao sabor da vontade. Elas são parte de um quebra-cabeça exclusivo. É ali que cabem. Tentar forçar a pecinha em outro quebra-cabeça terá dois possíveis efeitos: entortará a peça ou o brinquedo.
Vai depender muito --como disseram meus leitores nos comentários-- do assunto, de quando foi a entrevista "velha", de quem é a fonte e de quão diferente é o tema da nova matéria. De qualquer modo, sempre convém, pela ordem:
- ouvir a fonte de novo --até porque ela pode dizer algo ainda mais interessante
- se não a encontrar, pensar se é informação realmente necessária a declaração de tal pessoa --ou se não dá para substituí-la por outro entrevistado
- se for necessária, deixar bem claro, no texto, que a frase foi dita em outro contexto: "Em entrevista concedida há dois meses, ao comentar o assunto tal, disse que..."
Outro cuidado, como lembram meus leitores, é verificar se a fonte ainda tem o mesmo cargo, a mesma idade, o mesmo sobrenome (mulheres ainda mudam o nome quando casam????).
Por fim, como lembra o Mauricio, espremendo bem as "sobras" de entrevista sempre sobra um caldinho: um box de uma reportagem, um infográfico, uma nota ou até o fio condutor de uma pauta.
Outro cuidado importante é avisar ao editor. Nunca diga para seus chefes que uma entrevista velha é recente. Esse tipo de mentira pode levar a demissão, como aconteceu no "Jornal da Tarde" (leia aqui).
[Se quiser ler mais sobre cuidados com as fontes, clique neste post.]
Lista de discussões
É um ótimo instrumento para achar personagens, telefones de fontes, trocar dicas e assim por diante.
Mas, se quer usar numa matéria o que as pessoas escrevem lá, o melhor é deixar isso claro numa mensagem: "Estou fazendo uma reportagem sobre tal assunto. Quem puder me dar entrevista, escreva".
Já se a idéia de pauta surgiu justamente da discussão na lista, convém escrever diretamente para elas e consultá-las, por dois motivos: a) é difícil comprovar a identidade de quem escreve na internet; b) ver uma frase sua numa matéria sem ter sido consultado dá aquela sensação chata de marido traído que é o último a saber.
Como disse um leitor, você pode fazer um resumo das opiniões, sem citar nomes. Mas seria uma informação mais fraca, porque não é representativa de nada.
Aliás, é bom refletir sobre isso, como lembra outro leitor: os participantes da lista são especialmente envolvidos com o assunto? Têm um conhecimento especial sobre ele? Por que vamos reproduzir o que eles dizem?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h53
por CRISTINA MORENO de CASTRO:
Em setembro assisti a uma palestra promovida pela Folha para o pessoal de Cotidiano. Palestrante: Maurício Zanoide de Moraes, advogado, professor da USP, especialista em direito processual penal, dono de uma tese que trata da presunção de inocência. E o que esse cara tem a ver conosco, jornalistas? Eu diria que tudo, especialmente se trabalhamos com jornalismo policial. Ele nos contou um caso de um sujeito que foi preso "em flagrante" (no caso específico, por puro preconceito dos policiais), ficou na cadeia por um ano e quatro meses e, provada sua inocência, só então foi libertado. Quantos desses existem? Está quente no noticiário a condenação de três rapazes num caso que tem inúmeras idas e vindas, supostas confissões e denúncias de tortura.
Quantos desses existem? A reflexão levantada por Moraes foi a seguinte: os jornais devem estampar as fotos de pessoas "presas em flagrante" ou "confessas"? E seus nomes, devem ser divulgados? Ele defende que não, pelo menos até que a investigação já tenha terminado e haja uma acusação formal. Mas entramos aí num conflito: o jornalismo parte do pressuposto do máximo de informações e da publicidade dessas informações. Da exposição dos dados. Da identificação. Um dos colegas ressaltou: "Temos critérios de noticiabilidade. Temos que dar o quem, que, onde, como, quando e por quê". Além disso, a maioria dos crimes só interessa aos jornais quando está quente –-ou seja, muito antes de a tal acusação ter sido formalizada. (O que nos leva a outra discussão: por que esses casos não são reaquecidos no momento dos julgamentos?). Como conciliar o interesse jornalístico com a tese do advogado, que acha possível divulgar fatos sem identificar os envolvidos? Acho que ninguém tem respostas prontas para uma questão tão complexa. Mas me lembrei de três momentos vividos durante o treinamento. 1- Fizemos um exercício de edição de texto que envolvia um idoso e uma menor de idade supostamente violentada dentro de um avião. Muitos de nós cortamos várias informações, mas deixamos o nome do idoso. A Ana provocou: qual é a relevância desse nome para o leitor que mora a 200 km do personagem e nunca o viu mais gordo? Por outro lado, por que destruir a vida dele diante de todos os seus conhecidos se ele pode ser inocente? Não basta dizer "idoso de tantos anos é acusado de molestar mocinha de 12"? Isso não é suficientemente informativo? 2- Num outro exercício, escrevemos um texto sobre um suspeito que havia sido condenado pelo crime. Imaginamos, depois, que ele conseguiu comprovar sua inocência. Se já soubéssemos disso de antemão, teríamos mudado algo em nossa reportagem inicial? Não seria bom ter sempre em mente essa possibilidade (a da inocência)? 3- No auge do caso (ou espetáculo?) Isabella, fiz plantão na cadeia onde estava sua madrasta. Repórteres atiçavam as presas para responderem se tinham raiva da moça. Se ela for inocente, como devia estar se sentindo naquele momento? Aliás, e se ela não for inocente? Os repórteres têm o direito de (pré)julgá-la? Acho que a intenção de Moraes era, antes de qualquer coisa, nos lembrar que lidamos com seres humanos. E que temos que, a todo momento, tal qual um advogado de defesa, partir do princípio de que fulano, envolvido num crime, pode ser inocente. Mesmo que tudo indique que não. Mesmo que a gente viva numa sociedade e numa cultura que sempre aponta os dedos para a cara dos outros, partindo do princípio de que todos são culpados. Eu não sei como poderíamos resolver o conflito aparente entre os critérios de noticiabilidade e a presunção da inocência. Principalmente quando os envolvidos forem figuras públicas. Mas concordo com o palestrante que os atenuantes "disse a polícia", "suposto assassino" e "suspeito" não diminuem os prejuízos causados por uma fotografia da pessoa no camburão. O que vocês acham?
Not guilty - mais casos de culpados que eram inocentes
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h46

Vamos supor que você se mudou de cidade e quer fazer um novo corte de cabelo.
Não vai entrar em qualquer salão, certo?
A não ser que seja muito desencanado, você vai procurar alguém que:
- já corte o cabelo de alguém que você conhece e em quem você confia
- seja indicado por seu antigo cabeleireiro
É mais ou menos o que acontece com editores e free-lancers. Um editor que precisa contratar um frila vai confiar em quem? Provavelmente, em alguém que um de seus repórteres já conhece. Ou num frila que seja "recomendado" por outro jornal --ou seja, que tenha trabalho pra mostrar, feito para bons veículos.
Isso responde um pouco à questão de minha leitora S., que viajou para a Espanha e queria saber como contatar publicações e agências de notícias: "Como fazer com que eles confiem em alguém que nunca viram?".
- a forma mais certeira seria ser apresentado por um jornalista da empresa
- a segunda melhor opção seria ser apresentado por um bom veículo do Brasil
- uma terceira opção é telefonar e marcar uma conversa para se apresentar. Como a própria pergunta diz, se a gente é "alguém que ele nunca viu", sempre fica mais difícil. É por isso que a maioria dos processos de seleção inclui uma entrevista: para conhecer pessoalmente o candidato, "vê-lo", saber como ele é
- outro dia uma moça que faz frilas para a Folha me contou como conheceu os editores: entrevistou-os para um trabalho. Essa também é uma excelente forma de se apresentar, fazer-se conhecer, não só pessoalmente como profissionalmente
Dicas para fazer frilas fora do país Como ter contatos ajuda no exterior Uma repórter conta como viveu de frilas fora do Brasil
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h28
Prometo pagar hoje duas dívidas com vocês:

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h54

O hilário (mas sério!) depoimento que CHICO FELITTI faz abaixo me lembra uma parábola que adoro: a do escorpião que pegava carona com o sapo.
Leia a história do Chico, que eu conto a anedota no pé:
“Por que você não pega uma prainha, paulista estressado?”, me recomendou com uma sucessão de “xizes” a assessora de imprensa de órgão público num momento em que eu estava abismado.
Ela tinha acabado de avisar que a entrevista marcada há uma semana atrasaria em uma hora e meia porque... ela saía de viagem no dia seguinte e precisava comprar dólares antes que a casa de câmbio fechasse. Defendeu ainda que aquele era seu primeiro dia de férias e que “em estado de exceção” estava ali, trabalhando.
Fiquei fulo. Primeiro pelo preconceito explícito e segundo por ela ter misturado assunto profissional com pessoal e me deixar numa posição absolutamente desconfortável. Os colegas fluminenses talvez possam esclarecer se ela disse isso porque sou tão moreno quanto o bigato da goiaba ou se foi para mandar meu sotaque anasalado passear, mesmo.
Com a chave da informação
Fato é que comecei a discutir, acabamos caindo na peleja do bairrismo bobo e a conversa não foi nada agradável. Depois de cinco minutos, o mal-estar reinava no ar e eu nem sabia mais se haveria entrevista. A moça era a única ponte com alguém com quem precisava falar, e eu pus tudo a perder por uma questão de agenda –-admito que tinha tempo suficiente para esperar, só estava ansioso por não ter o controle da situação.
No fim, respirei fundo e tentei aproveitar o recreio inesperado. Em vez de me estirar na areia de Ipanema, encarei um almoço tardio no estádio do Fluminense. Além de me divertir, arranjei umas lembrancinhas para a DESIREÊ ANTONIO e para a CATARINA NAKASHIMA, as boleiras da turma.
Voltei de barriga cheia e cabeça fria, esperei por mais 20 minutos, pedi desculpas à assessora pelo atrito e tocamos em frente. A entrevista ficou boa.
No trajeto para o hotel, um taxista sangue-bom deu o conselho: “Não adianta agir como se você estivesse em casa, porque não está”. Ele tinha toda razão. Num lugar que você não conhece bem e onde não tem outras fontes, não é muito producente brigar com quem está te guiando. É uma situação parecida com a dos “Surfistas Prateados”, de que a Ana falou há alguns posts, só que de fragilidade ainda maior, pelo período pequeno que passará no lugar a que te enviaram.
Aprendi que fazer como os romanos, quando em Roma, facilita o trabalho e ainda retarda o surgimento da inevitável úlcera. Vale ter paciência –-e tempo-– extra. Esse taxista poderia dar aula na faculdade de jornalismo.
O sapo e o escorpião
Como diz o Chico, se você depende do sapo para atravessar o rio, não faça como o escorpião. Controle seu impulso agressivo, ou vão os dois para o fundo do rio.
(Ah, vocês não conhecem a história, não é? Dá para ler aqui. A "moral" dela, claro, é bem diferente do uso que eu fiz da imagem neste post. Mas também é ótima, principalmente quando a gente quer assumir o papel de bonzinho e jogar a culpa no malvado).
Por outro lado, há formas de driblar a "assessor-dependência". Veja neste post.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h42
Você que é ou foi repórter já deve ter sentido o mesmo que a NATALIA PAIVA descreve abaixo.
O exercício dela ontem era passar o dia apurando uma reportagem na Agência Folha. O relato:
Aprendi que é preciso lidar com as inseguranças. Fiz uma matéria de 24cm sobre o desenrolar do caso de uma garota morta em Curitiba, no último sábado.
Conversei longamente com o delegado, que tinha revelações sobre o caso. Tinha preparado perguntas previamente, digitei tudo o que ele falou, gravei tudo.
Mas, quando o fechador me perguntou se eu "tinha certeza" em relação a determinadas informações, vacilei. Dá um medo do caramba, porque você está lidando com a vida das pessoas, né? Tem de ter cuidado demais.
Meu leitor Vinicius me lembra de algo bem importante: se não tiver certeza, não fique com medo ou vergonha de admitir. Seja claro: "Até agora eu tinha, mas vou checar de novo". E cheque. Assim, você e seu editor podem ficar tranquilos.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h11
Vai parecer brincadeira --cabra cega, talvez?--, mas infelizmente, não é.
Minha trainee GISELE LOBATO precisa obter uma informação bastante simples sobre o uniforme da Polícia Militar de Minas Gerais.
Para isso, desde ontem, já teve que ligar para DEZ departamentos, e nada!
Acompanhem:
-
Liguei para a Sala de Imprensa, que me mandou ligar no dia seguinte para o Departamento X, já que 19/11 é Dia da Bandeira e a maioria dos funcionários tinha ido embora ao meio-dia.
-
No dia seguinte (Dia da Consciência Negra em algumas cidades, mas não em Belo Horizonte), ligo para o Departamento X, que me mandou ligar para o Departamento Y, que me encaminhou de volta à Sala de Imprensa.
-
A Sala de Imprensa decidiu, então, que o lugar para onde eu deveria telefonar era a Diretoria de Apoio Logístico, que me passou o telefone da Seção de Fardamento. Eu deveria falar "com qualquer sargento que atendesse". Parecia ter chegado ao local que procurava, mas não: "Aqui é o fim da linha. Se você quer saber sobre mudança no uniforme, tem que ligar para a Sala de Imprensa e pedir para falar no Comando Geral".
-
Liguei para a Sala de Imprensa pela terceira vez. A voz feminina queria me mandar de volta à Diretoria de Apoio Logístico, mas acabou passando o telefone do Comando Geral. Lá, me informaram que o capitão responsável pelas mudanças não estava. Me passam mais um telefone: o da Diretoria de Apoio Logístico, onde eu deveria encontrar a outra responsável pela mudança no uniforme. "A capitão está viajando. Não deve chegar antes do fim do expediente. Ligue amanhã, mas durante à tarde. Ela não trabalha de manhã".
MATHEUS MAGENTA também passou por empurra-empurra semelhante ontem:
É difícil encontrar o responsável pelos postes de São Paulo.
Tudo bem que a informação não entrou no texto, como outras bem mais importantes, mas decidi ir atrás do responsável pelos tais postes, numa pauta sobre artistas que pintam calçadas, muros e postes no Butantã. Subprefeitura: "Não, não é com a gente. Liga pra Ilume". (Ilume é o departamento de iluminação pública.)
Ilume: "Não, não é com a gente. Liga pra Eletropaulo".
Eletropaulo: "Então, os postes são de nossa responsabilidade, MAS (sempre ele!) isso é com a prefeitura por causa da Lei Cidade Limpa".
Foi aí que eu desisti e vi que era uma informação desnecessária.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h05

O jornalismo on-line tem dessas novidades: o furo se mede em minutos.
Quando a Folha Online colocou no ar a notícia acima, com o balanço da Petrobras, meu ex-trainee PH Rodrigues, hoje repórter da TV Brasil no Rio, reparou logo: foi às 18h57, antes da coletiva da empresa começar, minutos antes de a Bolsa de Nova York fechar...
Como bom repórter, claro que o que PH queria era saber como é que os jornalistas da FOL conseguiram isso. YGOR SALLES não conta o segredo, mas aproveita o gancho pra mostrar que as decisões não são fáceis quando envolver a cobertura de balanços:
Ana, realmente não poderia dizer como obtive o resultado trimestral da Petrobras antes de todo mundo --afinal de contas, a fonte deve ser sempre protegida.
Mas essa questão do balanço antecipado esbarra em dois assuntos importantes para os jornalistas de economia. A primeira é a importância dos balanços para a cobertura de economia --e como é difícil analisá-los-- e também sobre a divulgação antecipada de informações de empresas com ações negociadas em Bolsa.
O balanço é a radiografia do desempenho de uma empresa ao longo de um determinado período --elas são obrigadas a divulgar seus resultados trimestralmente. A importância desse evento reside no fato da ‘caixa-preta‘ delas serem abertas naquele momento. É a oportunidade de saber como a produção dela se desenvolveu, se vendeu ou lucrou mais ou menos que a concorrência, como prevê que será sua atividade nos meses seguintes etc.
A premissa inicial é que uma empresa com capital aberto não deve negar informações para os acionistas. Até porque, em última instância, eles são seus donos. A missão do jornalista aqui, portanto, é acompanhar de perto e tirar o máximo de informação possível nas divulgações e destrinchar todos os dados que ficam disponíveis.
Só que não é uma tarefa fácil. Como saber o que de todos aqueles números é importante? Conhecer um pouco do setor da empresa a ser analisada é importante, mas não é suficiente. É preciso também ter noção básica de contabilidade. Tanto que diversas entidades --não citarei aqui para não ser injusto de esquecer alguma-- dão cursos para jornalistas apenas para ensinar isso. No meu caso a tarefa fica um pouco mais fácil, pois tive aulas de contabilidade no segundo grau (além de jornalista, sou formado em processamento da dados).
Nestes tempos de crise, por exemplo, uma das coisas mais importantes nos balanços era a previsão para o quarto trimestre e para 2009 --o que é chamado de guidance. Afinal de contas, uma previsão menor ou a redução de investimentos dão sinais de como ela vai enfrentar os próximos meses, que prometem ser difíceis.
Mas o que mais chamou a atenção na história da divulgação do resultado na Petrobras é como uma informação tão importante pôde cair em minhas mãos antes do anúncio "oficial", que é feito através da entidade que regula as empresas de capital aberto, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
A preocupação com dados divulgados de forma privilegiada é válida. Uma pessoa com uma informação tão importante como essa poderia se aproveitar e negociar em Bolsa, antevendo qual será o movimento que a ação da empresa terá após a divulgação. Trata-se de uma atividade ilegal.
Há uma longa discussão entre jornalistas e CVM a esse respeito. Recentemente o órgão restringiu a atuação de nossa categoria nessa cobertura, alegando que pode haver conflito de interesse --ou seja, que o jornalista poderia se aproveitar da informação e, antes de divulgá-la, negociar em Bolsa.
A posição da categoria --e, claro, a minha também-- é a contrária. A função do jornalista é exatamente fazer a informação que está em círculos restritos ser conhecida do grande público, o que obviamente inclui os acionistas. Não vou dizer que alguns jornalistas não atuam também como insiders (nome dado a quem usa a informação privilegiada). Mas essa é uma atitude ilícita que a própria CVM, com seus instrumentos de controle, deve coibir --como faria, aliás, com todos os demais investidores. E não restringindo nossa atuação, consagrada na Constituição Federal.
Assim sendo, não teria motivo algum para não divulgar o dado antes de sair na CVM. Não obtive o dado de forma ilegal nem comprei ações da Petrobras no dia, então não tive nenhum impedimento. Para a felicidade dos nossos leitores e a irritação da concorrência.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h09
A frase é do nosso professor José Roberto de Toledo (se não me engano, ele atribui a alguém, que ouviu de alguém, que ouviu de alguém. Quem souber o autor original me avise, por favor). E é a pura verdade. Vejam título e lide de dois textos escritos dentro da mesma empresa (o grupo Folha), no mesmo dia, tendo como base o mesmo relatório:
TEXTO 1
São Paulo perde participação no PIB brasileiro entre 2002 e 2006
Da Folha Online, no Rio
O Estado de São Paulo, principal economia do país, perdeu espaço dentro do PIB (Produto Interno Bruto) nacional entre 2002 e 2006. Em 2002, a economia paulista representava 34,6% do total, e em 2006, a participação caiu para 33,9%. O dado de 2006 não foi o pior no período --em 2004, a economia paulista chegou a representar 33,1%.
TEXTO 2
PIB de São Paulo cresce no mesmo ritmo nacional e ganha mais peso no país
Da Sucursal do Rio
Após perder peso no PIB do país, São Paulo se beneficiou do crescimento da economia e retomou espaço em 2005 e 2006, quando sua participação ficou em 33,9%. Em 2004, havia recuado para 33,1%. Em 2006, o PIB paulista cresceu 4%, no mesmo ritmo do brasileiro, segundo o IBGE.
Afinal, analisando o resultado recém-divulgado, de 2006, o peso do PIB de São Paulo caiu, subiu ou ficou o mesmo?
As três coisas!! Depende de com que se compara. Se for com 2002, caiu. Se for com 2004, subiu. Se for com 2005, ficou na mesma.
É por isso que fica muito estranho colocar num título fatos que usam comparações com anos diferentes sem deixar isso claro [era um exercício do fim de semana. Se não tinha visto, clique aqui]. A Folha Online deixou claro qual era a comparação. Mas a Folha usou a evolução de 2005 a 2006 para dizer que SP cresceu no mesmo ritmo e depois comparou com 2004 para dizer que aumentou, sem explicitar os dois critérios, o que gerou a confusão:
Será que dá para uma coisa, qualquer uma, crescer no mesmo ritmo que o total e, ao mesmo tempo, aumentar sua participação?
Não dá. Se o nariz de uma pessoa crescer no mesmo ritmo que seu rosto, ela não vai parecer mais nariguda. Isso só acontece se o nariz crescer mais rápido.
Se dois elementos aumentam ou diminuem na mesma proporção, a proporção entre eles se mantém a mesma.
Tá chata essa conversa? A melhor coisa nessas horas é usar exemplos concretos. Aliás, usá-los também melhora muito esse tipo de texto e ajuda o leitor a entender a numeralha.
Vamos testar?
Vamos dizer que em 2005 o piso do Brasil era R$ 100 e o de São Paulo, R$ 30. Isso quer dizer que o peso de São Paulo no país é 30% (30 dividido por 100). Os dois cresceram no mesmo ritmo --já que é fantasia, mesmo, vamos usar 10%, pra felicidade geral da nação. Em 2006, então, o Brasil passou a R$ 110 e São Paulo, a R$ 33. Qual é o peso de São Paulo agora? É 33 dividido por 110, que dá 30%.
QUEM FOI QUE DISSE?
Graças à ajuda do blogbudsman Takata e de uma superamiga, acabei me lembrando de que já tinha escrito sobre a autoria da tal frase sobre os números torturados, num post bem antigo (enganado pelos números):
BEM TORTURADOS...
Foi bom para eu me lembrar de sugerir para vocês a leitura deste excelente trabalho do Marcelo Leite, a reportagem " Números selecionados ajudam discurso". O supercompetente Marcelo mostra como o presidente escolheu a dedo dados que contam uma parte da história e deixou os outros de lado.
É como diz meu amigo José Roberto de Toledo, que por sua vez ouviu de Delfim Netto, que atribui a frase a "um prêmio Nobel":
"Bem torturados, os números revelam qualquer coisa."
Toledo até tentou achar o autor da idéia, mas não conseguiu ligá-la a prêmio Nobel algum. A única pessoa que encontrou reivindicando autoria foi um jornalista norte-americano chamado Gregg Easterbrook: "Torture numbers and they'll confess to anything".
Como os números enganam - o caso da Fuvest Números têm que ser comparados - rankings É muito ou pouco? Não basta ser oficial - números oficiais estranhos Não é porque tem números que é verdade: desconfie sempre
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h34

Minha leitora Georgia, de São Paulo, tem duas perguntas bem boas:
Ocorreu-me um impasse que acho que pode interessar aos outros colegas que também se iniciam na carreira de jornalista. Estou escrevendo uma matéria sobre um tema polêmico. Faço parte de uma lista de discussão sobre o tema que escreverei. Na lista, todos estão dandos suas opiniões. Posso citar alguma dessas opiniões na minha matéria? O ideal seria perguntar antes, certo?
Outra coisa: uma entrevista feita há alguns meses, pode ser reutilizada em outra matéria? Pergunto porque tenho um trecho de uma entrevista que seria interessante para essa mesma matéria. Você acha que devo entrar em contato novamente com o entrevistado?
Querem opinar?
Meus comentários
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h04
Minha leitora Marina me mandou um caso engraçado de erro de tradução, que vou dividir com vocês abaixo.
Antes disso, porém, achei que valia a pena comentar como ela descobriu o erro, porque isso tem muito a ver com atitude jornalística.
Ela estava lendo uma notícia traduzida do inglês num site e estranhou uma expressão. Foi verificar no original e viu que não só a tradução estava errada como havia informação fora do contexto, o que mudava o sentido do que havia ocorrido.
Num processo tão simples, ela pôs em prática o básico da nossa profissão:
- leu com atenção, preocupada com o conteúdo
- teve senso crítico
- teve curiosidade em relação ao que parecia estranho
- teve disciplina para ir checar no original
- aproveitou para olhar o texto todo e não só o ponto que tinha ido checar
Agora, ao erro:
Sou repórter de uma editora que publica revistas voltadas para o setor moveleiro (tanto indústrias como varejo e decoração) e, por conta disso, tenho vários google alerts com termos como "varejista de móveis" no meu e-mail. Hoje recebi um de uma matéria de um jornal, falando da repercusão da inauguração de uma loja numa favela --foi publicado um texto sobre o assunto no "Financial Times".
Segundo a reportagem, que fazia referência à do FT, "centenas de pessoas na frente da loja dançam, pulam e abanam as armas como se não existisse amanhã".
Achei estranho e fui conferir no site do FT. A frase original era "the several hundred people in front of the store dancing, jumping and waving their arms as if there is no -tomorrow".
Ou seja, alguém traduziu ARMS como ARMAS, e não como BRAÇOS, o que dá um sentido totalmente diferente à frase. Outro fato interessante é que a matéria do FT diz que as pessoas estavam dançando por conta do show do Exaltasamba, que estava sendo realizado por causa da inauguração. Pela matéria traduzida, parece que as pessoas estavam dançando simplesmente pela abertura de uma loja.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h07
Meu leitor Rondinelli, de Cachoeiro do Itapemirim (ES), me manda o link
de uma entrevista bem legal feita por ele com o veterano Sérgio Garschagen
("Jornal de Brasília", "O Globo" e "Gazeta Mercantil").
Há vários trechos interessantes _alguns instrutivos, outros hilários, como o
do dia em que ele perdeu uma entrevista com o então todo-poderoso Golbery do
Couto e Silva (chefe da Casa Civil no governo Geisel, nos anos 70) porque um
fotógrafo fez um erro gritante de concordância.
Outra coisa a notar é como o repórter adapta a entrevista ao veículo: como é
um jornal local, ele procura os pontos de contato entre o entrevistado e a
cidade.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h53
Matemática? Socorro!
É um clichê, mas minha experiência nos últimos dez anos confirma que 99% dos jornalistas têm horror (ou, melhor ainda, pavor) de matemática.
Mas este exercício não vai doer.
Só de olhar pro título abaixo, sem nem ler a matéria, já dá para perceber que alguma coisa está fora da ordem? Saiu na Folha de ontem.
PIB de São Paulo cresce no mesmo ritmo nacional e ganha mais peso no país
Pensem um pouco antes de ler a matéria [este link é para a versão da Folha Online, aberta a todos. Se for assinante, compare com a versão da Folha, para ter idéia de como os mesmos números podem ser lidos de forma diferente].
Meu comentário
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h01
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