Seria algo excepcional (no sentido de raro, estranho, inesperado) nos jornais brasileiros.
Mas quando o projeto do jornal admite tomada de posição, é normal. Como nesta capa de hoje do francês "Le Figaro", em que a manchete condena a greve da Air France:

[Agradeço a minha ex-trainee JOHANNA NUBLAT, que mandou a dica]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h50
Redações grandes e experientes como a do "Los Angeles Times" e da TV MSNBC --além de blogs-- caíram. Nós teríamos caído também?
Uma pessoa que se apresentou como Martin Eisenstadt, assessor do candidato presidencial John McCain, procurou a TV dizendo ser a fonte de uma reportagem sobre gafe de Sarah Palin: segundo a fofoca, a moça pensava que a África era um país, não um continente.
O âncora da MSNBC afirmou no ar: "Martin Eisenstadt, um assessor político de McCain, veio a público hoje [na segunda] se identificar como fonte [da reportagem da FoxNews]".
Mas o sujeito não existe. É um personagem criado pelos cineastas Eitan Gorlin e David Mirvish, que queriam demonstrar como o controle da informação pelos meios de comunicação é falho.
[Assinante lê a reportagem da Folha aqui; não assinante pode ler a do New York Times, em inglês]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h32
Este post é para chacoalhar um pouco quem acha que só aluno das faculdades de ponta tem chance na vida.
Quem me deu a dica foi meu leitor Willian, que contou nesta semana como fez pra contornar a sensação de que era despreparado para enfrentar a profissão.
Sabe-se lá como, ele conhecia um outro exemplo muito legal: sugeriu que eu falasse com meu colega RICARDO GALLO, repórter e redator de Cotidiano.
Foi o que eu fiz. Espero que a história do Gallo sirva de inspiração e alento pra quem anda inseguro ou desanimado. É um bom prefácio para o final de semana.
Eu fiz jornalismo na Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes. E trabalhar na Folha sempre foi meu sonho --um amigo me chamava, brincando, de "Folhinha", por causa disso. Mas, no último ano do curso, eu nem sequer havia trabalhado na área, o que me dava um certo desespero. Via meus colegas trabalhando com jornalismo e eu, não. Nessa ocasião, 2002, eu estava no UOL, respondendo a e-mails de dúvidas dos assinantes. Foi o emprego que consegui para pagar meus estudos. O meu clique para jogar tudo para o alto e correr atrás do meu objetivo ocorreu numa aula do professor Juarez Xavier. Falo dele porque foi importantíssimo para mim. Ele queria criar um jornal laboratório (na Braz Cubas não existia, acredite) e pediu três voluntários para serem editores. Fui um deles. A partir daí, tudo o que fiz foi para viabilizar minha carreira de jornalista. Primeiro, mudei o meu horário de trabalho. Passei a entrar às 6h e sair ao meio-dia (antes, era das 9h às 15h). À tarde, me dividia entre o jornal laboratório e a cobertura para um site de futebol e, à noite, ia para a faculdade. Trabalhava de graça, mas era uma oportunidade de escrever. Lembro que cobria o União Mogi, um time da terceira divisão. Ia aos treinos com meu gravador, meu caderno, decorava as perguntas. Na primeira entrevista, chamei o técnico de "professor". Os outros jornalistas ficaram me olhando. Foi engraçado rs... Num certo momento, pedi a uma amiga me arrumar um estágio no Mogi News, o jornal em que ela trabalhava. Ela me avisou de um suplemento sobre o dia do meio ambiente, mas disse que era de graça. Tudo bem, pensei. Saía do trabalho, aqui em SP, e ia direto para o jornal. Foi ótimo, porque adorava aquele ambiente de redação... E era minha primeira oportunidade de ter uma matéria assinada em um jornal. Bem, a essa altura eu já estava decidido a sair do UOL. Nem tinha emprego garantido em jornalismo (no MN o frila foi de graça, e só). Mas estava disposto a fazer o sacríficio. Adiantei o pagamento da faculdade, entrei no seguro-desemprego e tinha uma pequena reserva financeira para uns meses. E, em agosto de 2002, saí. Estava no último semestre da faculdade. O curioso foi que, no dia da minha demissão, apareceu outro suplemento de graça no Mogi News. Aceitei. Quando estava na última semana lá, o Diário de Mogi, concorrente, abriu uma vaga para repórter de Esportes. Passei no teste e fiquei menos de uma semana. No terceiro dia, o MN me chamou de volta para um estágio, agora remunerado. Fui porque queria muito trabalhar com um editor que havia sido do Estadão e do Jornal da Tarde, o Luciano Ornelas. Tinha ótimas referências dele e achei que seria o melhor caminho. (Olhando para trás, ter trabalhado num jornal regional foi bem importante, porque permite aprender bastante com uma cobrança menor. E te dá experiência e alguma bagagem para lidar com situações que, seja num veículo de menor ou maior expressão, o jornalista vai ter que enfrentar. De assaltos a banco a buracos de rua). Enfim, com um mês de estágio o dono do jornal me chamou e disse que me contrataria. Achei ótimo, pude cobrir casos regionais importantes, aprendi a melhorar o texto, a cortar excessos, a não usar gerúndios (o Luciano tinha um ótimo texto e me ajudou muitíssimo). Mas o sonho de trabalhar na Folha continuava. Com uns sete meses de MN, comecei e procurar alguma coisa fora. Lembro de uma vaga para cobertura de férias da Folha no Vale do Paraíba. Fui selecionado para a entrevista (você estava na sala, inclusive, Ana rs...), mas não tinha o menor preparo --quando perguntaram que pauta eu faria lá, travei. Já havia me inscrito em dois processos de trainee, mas não cheguei a ser selecionado (meu currículo era bem ruim, admito). Tentei no Estadão também, não deu certo. Fui tentando, tentando, até que a Folha Ribeirão me chamou para um teste para frila fixo -no MN eu era contratado. Lá fui eu. Expliquei para o meu chefe, que me deu um dia de folga. A entrevista era às 9h de uma quinta-feira. Peguei o ônibus de madrugada com uma pasta, dessas de arquiteto, cheia de matérias minhas e uma muda de roupa extra. Sabia que chegaria todo amassado na rodoviária. Por absoluta falta de noção, desembarquei em Ribeirão às 6h. Esperei, tomei banho no banheiro da rodoviária, troquei de roupa e tomei um ônibus até o prédio da Folha. Chegando lá, só eu tinha uma pastinha com matérias. Difícil dizer, mas talvez isso tenha sido uma vantagem. A Eliane e o Zé Dito, editores que ainda estão lá, me entrevistaram. Eu disse que tinha familiaridade com muitos assuntos da Folha Ribeirão porque já havia trabalhado em um jornal regional. Que não me importava em me mudar de semana, em ganhar menos nem em ser frila. (Um tempo depois, o Zé me disse que eles decidiram me contratar porque eu havia sido o candidato que mais demonstrou vontade...) No dia seguinte, me ligaram para dizer que eu havia passado. Meu pai me disse que achava melhor eu não ir, mas que me respeitava se fosse essa a minha decisão. Não me arrependo --hoje ele diz que fiz a escolha certa. Bem, fiquei dois anos na Folha Ribeirão, até dezembro de 2005. Vim para SP, fui repórter de Cotidiano por quase um ano e, desde dezembro de 2006, sou redator da editoria. Para quem está começando, sempre digo para não ter medo de tentar. Para, por mais que soe a auto-ajuda, a acreditar em você. E a caminhar em direção ao seu objetivo, mesmo que haja tropeços.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h46
Contam-se às centenas, nos Estados Unidos, os casos de suspeitos e condenados que acabam inocentados por um exame de DNA. Não sei se há estatísticas no Brasil.
Esse não é um problema só da Justiça. É nosso também. Difícil a reportagem em que a gente está realmente bem informado e bem documentado para cravar que há motivos para um fulano ser suspeito. Mesmo quando há pistas, pode ser só coincidência.
Vejam como começa esta notícia da Folha de ontem:
Exame de DNA inocenta desenhista suspeito de matar menina no PR Polícia dizia que ele era o principal suspeito do crime
DIMITRI DO VALLE DA AGÊNCIA FOLHA, EM CURITIBA
Exame de DNA apontou que o desenhista Jorge Luiz Pedroso Cunha, 52, não matou a estudante Rachel Maria Genofre, 9. Um laudo preliminar do teste foi divulgado ontem pelo Instituto de Criminalística do Paraná. Ele foi detido no domingo e chegou a ser considerado o "principal suspeito" de ter cometido o crime, que aconteceu em Curitiba.
Rachel foi encontrada morta na rodoviária da cidade dentro de uma mala, há uma semana. O desenhista foi preso em um albergue em Itajaí (SC).
O exame também deu negativo para um outro suspeito que havia sido ouvido pela Polícia Civil. O laudo final sairá hoje após a contraprova. Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Paraná, com o resultado do exame, o desenhista e o primeiro suspeito, que não teve o nome revelado, deixam de ser considerados suspeitos. A margem de erro para esse tipo de exame, segundo a secretaria, é de apenas 1%. [assinante lê a íntegra aqui]
Como diz uma ex-trainee minha, a parte que nos cabe nesse labirinto é a velha reflexão do "Damos ou não o nome do suspeito? E a foto?".
Embora os jornais costumem tomar muito mais cuidado quando o suspeito é alguém famoso, acho que essas perguntas aí em cima fazem ainda mais sentido quando o suspeito é uma pessoa comum --que diferença faz, para a notícia, se o fotógrafo se chama Jorge Luis, Paulo Henrique, Carlos Alberto ou João Felipe?
Alguém poderia argumentar: ah, mas os vizinhos dele tem o direito de saber que ele é suspeito de assassinato.
Pois é. É justamente esse o problema. Os vizinhos, os clientes, a família, os amigos, a futura sogra, todos ficaram sabendo que ele era quase um fascínora. Mas agora o DNA mostrou que era engano. E quem vai apagar o estrago?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h00
Economia, política e as eleições de 2010
A FGV-SP vai fazer no dia 24/11, das 9h às 12h, dois painéis gratuitos sobre desafios da cobertura de economia e política.
A idéia de reunir jornalistas e acadêmicos, especialistas em economia e política, para dar um enfoque teórico e prático sobre o papel do jornalismo nessas duas áreas.
Os debates também se propõem a ajudar jornalistas a desenvolver uma visão crítica do processo de transformação econômica, política e social porque passam o Brasil e o mundo inteiro, sobre o qual se dará a sucessão presidencial no país em 2010.
Painel ECONOMIA (das 9:00hs às 10:30hs)
Apresentador: ROLF KUNTZ (O Estado de São Paulo)
Debatedores: Prof. Alkimar Moura (FGV) Jornalista Vinicius Torres Freire (Folha de São Paulo) Jornalista Klaus Kleber (Gazeta Mercantil)
Painel POLÍTICA (das 10:30hs às 12:00hs)
Apresentadora: Jornalista ELIANE CANTANHÊDE (Folha de São Paulo) Jornalista José Marcio Mendonça Jornalista Cesar Felicio (Valor)
Coorde nação: Prof. ANTONIO DAL FABBRO (GVPEC)
DATA: 24 de novembro de 2008
LOCAL: Salão Nobre da FGV - 4º andar
ENDEREÇO: Av. 9 de julho, 2029 Rua Itapeva, 432
INFORMAÇÕES: Renata Cardoso (11 - 3281 3425) e-mail: renata.cardoso@fgv.br
Alberto Morelli (11 - 3281 3558 e cel. 96169596) e-mail: albertomorelli@uol.com.br
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h30
Há palavras que precisam ser banidas de um texto informativo, porque elas encharcam a matéria de imprecisão.
"Algumas", por exemplo. Significa o quê? Duas? 12? 22?
Reparem naquele texto que usei no exercício de anteontem (leia aqui). O que o leitor ganha com a frase "Um temporal ocorrido na noite de segunda-feira (10) destelhou casas e provocou a queda de muros de alguns imóveis em Jundiaí (58 km de São Paulo)."? Não muito, não é?
Às vezes essa imprecisão é sintoma de apuração deficiente. Resolver é simples: basta ligar de novo e pedir números mais precisos, estimativas que seja.
Noutros casos, não existem mesmo cifras, nem de forma aproximada. E aí? Como eliminar o "algumas"?
Outra estratégia para indicar que foram danos limitados seria dizer em que área ocorream: por exemplo, na zona oeste de Jundiaí, ou nos bairros X e Y.
Se nada disso soubermos, o jeito é escrever apenas "destelhou casas e derrubou muros", sem falar em quantidades, mas sem enfiar lá uma palavra que mais incomoda que ajuda.
Outra observação sobre o mesmo texto, mas em outro tema: no parágrafo final, o ideal seria dar a previsão do tempo para os dias seguintes, não acham? Assim o povo de Jundiaí saberia se vinha mais sofrimento pela frente ou se já pode respirar aliviado.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h26
O Novo em Folha adverte: este joguinho pode viciar.
Mas é muito legal para mostrar que coisa estupenda é a lógica.
E como perguntas certas podem levar à informação certa, o que sempre é uma boa reflexão para nós, jornalistas.
[Segundo meu ex-trainee MATHEUS PICHONELLI, que em mostrou o site, ele já acertou o Tião Macalé, o Serginho Malandro, o Eurico Miranda e o Diego Souza, do Palmeiras. E, segundo meu outro ex-trainee KLEBER BONJOAN, que está aqui ao meu lado fazendo um curso de paginação, ele acertou até que o personagem era a filha dele!!]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h24
O depoimento abaixo é de meu leitor Willian. É um bom exemplo de caminho para
vencer o
despreparo de que a gente falava ontem: interessar-se, investir tempo e energia,
arriscar, insistir.
Acabei de ler o seu último post, sobre a formação e a contratação de novos
jornalistas. E como esse assunto me interessa muito, tive logo que comentá-lo.
O problema da formação de profissionais no Brasil não acontece apenas com
jornalistas e acredito que é uma discussão mais ampla. Exemplo disso é a
medicina, que forma um grande número de pessoas inaptas ao exercício
profissional, além de outras áreas, que eu prefiro omitir para não prolongar o
assunto desnecessariamente.
No nosso caso, que não é muito diferente dos outros, o jornalista precisa de
habilidades básicas e uma boa cultura geral para poder se desenvolver na
profissão. Porém o ensino em nosso país é deficitário, principalmente nos
primeiros anos de estudo, que são os mais importantes para uma pessoa
desenvolver alguns dos pré-requisitos necessários para se tornar um bom
profissional (em qualquer área, inclusive o jornalismo).
Com relação à faculdade é complicado é difícil que ela “sozinha” forme um
jornalista, por vários motivos:
1- Cresceu muito o número de escolas de jornalismo no país, e acho que
faltaram critérios para regular o surgimento desses novos cursos.
2- Por causa das deficiências na “formação básica”, as universidades recebem
uma grande quantidade de alunos com dificuldade em participar de forma produtiva
dos debates, ou mesmo de assimilar os conteúdos pertinentes a sua futura área de
atuação. Isso é pior em universidades periféricas, que não têm critérios
rigorosos para avaliar o aluno no vestibular, e aceitam em seu quadro de alunos
pessoas despreparadas para isso.
3- Em muitas instituições de ensino, encontramos professores sem muita
experiência na profissão, e isso contribui muito para a má formação de um
jornalista.
4- Existe um problema cultural, de
não aproveitar as aulas, ir ao bar na sexta-feira e o resto você já
sabe...
Bem, enumerei alguns dos fatores, que para mim, são responsáveis pela
má-formação de novos jornalistas.
Temos que lembrar também que jornalismo é feito de experiência, talento (que
não se aprende na faculdade), e outros fatores individuais.
É complicado debater um assunto como esse, porque ele tem várias “pontas”,
porém acredito que não é a seleção rigorosa das empresas que vai inibir alguém
talentoso de praticar a profissão. Pelo contrário, as seleções são exatamente para garantir a
qualidade do produto e a oportunidade para as pessoas que estão realmente
capacitadas para o exercício do jornalismo.
Acho que ninguém vai gostar de ler um
jornal mal escrito.
Quando entrei no curso de jornalismo, eu já me identificava com a profissão.
Mesmo assim, tinha medo de não gostar. Após algum tempo, a coordenadora do curso
me chamou para fazer estágio na própria faculdade. Não era remunerado, mas aceitei o desafio.
Lembro que na época tinha que trabalhar em um emprego de meio período para pagar
a mensalidade e depois ia para a agência de comunicação da universidade e ficava
para a aula.
Essa experiência durou um semestre, o tempo máximo que eu poderia ficar
lá. Depois fui indicado para uma
emissora de televisão. Aliás, uma grande emissora, isso no segundo ano de
faculdade.
Fui estagiário lá por quase um ano; no início eu deveria carregar fitas,
ajudar os editores no que eles me pedissem. Até aí eu não escrevia nada.
Comecei a pegar os relatórios da escuta
e transformá-los em cabeças de matéria, para treinar o texto mesmo. Fiz amizades e logo fui ajudado por uma
colega que conversou com um dos chefes para eu poder escrever. Ele me deu uma
chance. Na ocasião eu podia fazer off vivo, nota coberta e pequenas
notinhas “secas”, sem imagem.
“Colei” em jornalistas experientes.
Pedia para eles corrigirem meus textos, conversava bastante, observava o
trabalho e pedia dicas. Daí em diante a editora-executiva de um dos
telejornais da casa precisou que eu editasse uma matéria.
Era um VT bem legal tinha passagem, off, sonora.... Ou seja, comecei a
colocar matéria no ar. Depois me mandaram cuidar de links, fiz coordenação,
aprendi bastante, mas saí da casa depois de aproximadamente um ano.
Fui convidado por um amigo da faculdade (ele estava no último ano e eu no
terceiro) a fazer a comunicação da campanha de um vereador. Fizemos jornais de
prestação de contas, folhetos e um vídeo.
Hoje eu estou em uma revista e tenho meus textos publicados
mensalmente.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h57
Marcio Fukuda avisa: o site do Projeto Apuro, de que falei aqui há pouco, está aberto à participação. Basta se cadastrar(http://www.apuro.ufsc.br/cadastro.php).
Se há um ponto em que nós brasileiros estamos muito atrás dos colegas americanos é na participação efetiva em redes de informação.
Jornalistas brasileiros em geral dividem muito pouco o que sabem, ajudam-se muito pouco uns aos outros, têm ciúmes das ferramentas que conhecem, como se o colega ao lado fosse um lobo à espreita para roubar sua vaga.
É pena.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h55
O que fazer com imprecisões?
Faz tempo que não aparece um exercício, né?
Então façam este. Leiam a matéria abaixo, que tem uma imprecisão. Qual é? E como resolver?
Temporal destelha casas e causa queda de muros em Jundiaí (SP) Colaboração para a Folha Online
Um temporal ocorrido na noite de segunda-feira (10) destelhou casas e provocou a queda de muros de alguns imóveis em Jundiaí (58 km de São Paulo). Não há registro de feridos, segundo o Corpo de Bombeiros.
Durante a manhã desta terça, a Defesa Civil percorre pontos da cidade para levantar os danos com moradores. Ainda não há estimativas com relação ao número de atingidos. A maior parte das ocorrências foi registrada das 18h às 23h de ontem.
A previsão do tempo para hoje em Jundiaí é de tempo nublado, com possibilidade de chuva isolada, de acordo com informações do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).
Meu comentário
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h13
Viu o post abaixo, em que editores e professores reclamam da falta de
formação dos novos jornalistas?
Você se sente sem habilidades básicas?
E o que fazer a respeito?
Minha leitora Giovanna, de São Paulo, escreve:
Ao ler a notícia, fiquei um pouco chocada. Mas, preferi pensar um pouco antes
de comentar. Acho mesmo que existam profissionais que não possuem habilidades
básicas. E eu vou até mais adiante no quesito habilidades básica: tem gente que
não consegue construir uma sentença com sentido.
Mas, também, acho que faltam muitas oportunidades para que as pessoas
desenvolvam suas habilidades.
No curso de jornalismo não é possível sair completamente treinado para a
profissão, como acontece em qualquer área. Daí a importância de estagiar e dar
as caras no mercado mesmo antes de se formar. O problema é que as empresas
cobram cada vez mais experiência dos jovens.
Muito do que se aprende nas profissões vem da experiência prática, do
dia-a-dia. Acho que mais do que condenar o ensino, deve-se atentar também para o
método de recrutamento das empresas que, de modo geral, com a pressa típica da
modernidade, condena os recém-formados ao rótulo de eternos
inexperientes.
Ela tem razão, praticar é importantíssimo.
Mas é importante perceber que não é preciso estar num estágio ou num emprego
pra isso. É possível praticar na universidade. O importante é cobrar dos
professores que dêem exercícios, que avaliem os textos, que mandem refazer.
Isso desenvolve o tino jornalístico e a confiança, que contam bastante na
hora de uma entrevista de emprego, além de ir permitindo que o aluno forme
fontes e conheça áreas de cobertura.
Como começar a trabalhar Nem sempre o melhor é começar a trabalhar logo E experiência demais?
Atrapalha? Quem persevera alcança - relato de um candidato
insistente Fui demitido Sites que avisam sobre vagas e estágios
(mais, neste outro post) Como
alguém totalmente sem experiência pode achar espaço num jornal (e, neste post, o que a mesma repórter sentia quando ainda não
tinha tido oportunidades) Como sugerir pautas para conseguir frilas Rádio? TV?
Assessoria? Onde fazer estágio? Para aproveitar as críticas dos
professores Faça
direito seu jornal laboratório Um caso de jornal laboratório levado de forma profissional
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h46
Finalmente consigo pagar minha terceira dívida, esta com a Emanuella, sobre
como ser ao mesmo tempo repórter de cultura e crítico
cultural --isso acontece principalmente em jornais de equipe reduzida, em
que não há críticos especializados e o repórter se vê na responsabilidade de
fazer também a avaliação das obras ou espetáculos que cobre.
O problema é óbvio: o jornalista que fizer uma crítica desfavorável pode
queimar seu filme com aquele que seria fonte importante para sua reportagem
É por isso que a Folha, por exemplo, sempre tentou separar bem as
funções.
Mas e quando for inevitável?
CRÍTICA NÃO É PARA AMADORES
Meu primeiro ponto é que a maioria das pessoas não compreende bem a função da
crítica e confunde com opinião. Daí vem aqueles textos baseados em gostei ou não
gostei, é péssimo ou lindo, sem qualquer argumento, sem contexto, sem que se
contribua para que o leitor entenda melhor a obra.
Leiam, por exemplo, qualquer crítica escrita por MARCELO COELHO, de quem sou
fã de carteirinha. É impossível não terminar o texto sem ter aprendido algo, sem
encontrar ali uma idéia nova, algo que nos faz pensar.
Uma vez Marcelo deu uma aula na USP, no curso que eu ajudo a coordenar, e
falou sobre formas de fazer uma boa crítica: apresentar a obra, colocá-la em seu
tempo e lugar, relacioná-la com as outras, descrevê-la e, então, apresentar os
prós e contras, o que funciona e o que não deu certo.
NÁUFRAGO SEM BÚSSOLA
Dia desses a Ilustrada fez uma provocação: embaralhou todas as cartas e
colocou o crítico de gastronomia para avaliar teatro, o de teatro pra falar de
balé, a de balé pra comentar literatura e assim por diante.
Claro que um dos objetivos era justamente discutir o que faz de um crítico um
crítico. Ou seja, o que lhe dá autoridade para analisar uma obra e, se for o
caso, julgá-la.
Um dos motivos é o conhecimento --histórico e teórico-- da área.
Sem referências, o crítico só consegue descrever
sua vivência pessoal, escreveu Coelho sobre a aventura [assinante lê a
íntegra aqui]. Vejam alguns de seus argumentos:
(...) o resultado dessa experiência
foi menos bizarro do que se poderia pensar. E isso por vários motivos, que revelam tanto as qualidades como os
defeitos do jornalismo praticado na Ilustrada.
Qualidades: escrevendo sobre sua
área, ou fora dela, os críticos do jornal procuram uma linguagem acessível,
muito próxima à da experiência cotidiana do leitor. Desenvolveram muita
habilidade no texto leve e objetivo, que diga sem muita enrolação o que há para
ser visto, ouvido ou "degustado".
Desse modo, desaparece o contraste entre a escrita
especializada e o texto de alguém sem grande conhecimento técnico.
E, como nenhum jornalista gosta de
fazer papel de bobo, há sempre soluções quando se trata de escrever sobre um
assunto pouco familiar. Pode-se, por exemplo, deslocar o foco das atenções: em vez de falar
sobre determinado show, concerto etc., falar sobre a própria vivência
pessoal, destacando a estranheza ou o fascínio de presenciar algum
espetáculo que não faz parte do repertório habitual.
(...) Avaliar um concerto de música
clássica exige um conhecimento técnico que a crítica de um filme, pelo menos em
jornal, dispensa. Pois a linguagem do cinema hollywoodiano, embora possa ser
analisada em profundidade, dirige-se a um público amplo, aspirando a uma
comunicação imediata.
Aí entramos no capítulo dos defeitos.
O problema é que as críticas do jornal,
mesmo quando feitas por pessoas especializadas, tendem a ser curtas demais.
Aproximam-se muitas vezes do gênero da reportagem. Nem sempre há espaço para
fazer três coisas básicas: dizer do que se trata, falar dos prós e falar
dos contras.
(...)É como se, na busca do leitor
comum, estivéssemos diante de um problema insolúvel. Para "trocar em miúdos" uma análise
mais técnica, é preciso muito espaço. Uma palavra do jargão
especializado só pode ser traduzida por muitas palavras da linguagem
comum.
(...) Acaba-se fazendo uma
ginástica para que o acessível
não se torne trivial, e para que o julgamento crítico não se resuma a uma
pontuação mínima de qualidades e defeitos, sobre a qual pesa a suspeita do
arbítrio ou da arrogância.
ALGUMAS PISTAS PARA EVITAR
PROBLEMAS
Pedi ao próprio Marcelo que dissesse como ele acha
que um repórter de cultura pode evitar problemas quando precisa também fazer
críticas. A resposta dele:
É difícil responder de modo satisfatório, porque tenho pouca experiência como
repórter, e também pela razão básica de todo curso de jornalismo, a saber, que
não há conselhos teóricos válidos para
toda e qualquer situação prática concreta...
Digo um pouco o que sinto.
Uma primeira situação é quando você faz a reportagem, ou a entrevista com o
artista, antes de ter visto o filme, a exposição, o espetáculo.
Nesse caso, se depois você tiver de fazer a crítica, acho que não custa
voltar a conversar com o artista, procurando esclarecer alguns pontos ou
simplesmente mandando uma mensagem gentil notificando-o do teor geral da
crítica.
Outra situação é quando você foi fazer a entrevista, por exemplo, depois de
já ter visto a peça ou o filme (essa situação é mais rara, mas pode acontecer);
não custa fazer com que a sua crítica, se já foi escrita, sirva como roteiro
para a entrevista, e que a edição depois dê conta dessa precedência da crítica
sobre a entrevista.
De maneira geral, o certo seria nunca
escrever uma crítica que não pudesse ser lida de viva voz na presença do
artista. Nada pior do que ter espinafrado alguém e depois ter de
encontrá-lo numa situação qualquer e ficar sem jeito.
Mas esse conselho é praticamente impossível de seguir. Eu mesmo escrevi
críticas violentas, que nunca teria coragem de enviar à "vítima". Mas acho que
quem também é repórter deve moderar o tom, o que não significa dourar a pílula.
Significa apenas fazer um texto que se sustente "de homem para homem", se me
perdoa o machismo, diante do criticado.
Agora, tem uma coisa: artistas, diretores de cinema, de teatro, a meu ver
fingem uma grande indignação diante das
críticas que receberam, porque sabem, como os políticos, que isso é uma forma de
pressionar o crítico.
Já me aconteceu com diretores de teatro: antes do espetáculo estrear, eles
são uma seda comigo, e depois que eu escrevi a crítica, eles se mostram
ofendidos mortalmente, para no espetáculo seguinte voltarem a me bajular antes
da estréia. De modo que não é preciso se impressionar com o que eles dirão a seu
respeito.
De resto, eles sabem em geral melhor do que ninguém quando o espetáculo,
o filme, não é bom. Evidentemente, pegarão qualquer errinho factual de sua parte
para desqualificar o seu trabalho.
Mas sou um bocado medroso, e fui mais diplomático com pessoas amigas do que
com desconhecidos. Fiz uma crítica que talvez seja interessante recuperar, sobre
um filme do Hector Babenco, saiu no Guia da Folha [Nota da Ana: já vasculhei o
arquivo, mas ainda não consegui achar o texto pra linkar aqui].
O filme foi pichado em toda parte. Babenco já tinha falado comigo sobre o
filme, contando coisas que me sensibilizaram. O filme eu não achei bom. Escrevi
uma crítica que, digamos, não dizia mentira, mas procurava respeitar ao mesmo
tempo as intenções do coração do Babenco e o meu julgamento do filme. Ele
ficou feliz,eu não traí a minha opinião, mas não sei o que o leitor concluiu de
toda a operação.
Como não achei ainda a crítica sobre "Coração Iluminado", linkei dois
exemplos de textos do Marcelo (infelizmente só para assinantes): um de literatura e outro de cinema. Mas quem gosta do assunto talvez ganhe
muito lendo, por exemplo, "Tempo Medido", uma coletânea de 101 textos do Marcelo. Ou,
de graça, acompanhar o blog dele.
O que ler sobre jornalismo cultural
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h32
Em março de 2007 falei sobre um site de alunos da Universidade Federal de Santa Catarina que estava começando e prometia ser útil, se pegasse: o Projeto Apuro.
Fui olhar como é que eles estão hoje e, pelo menos na parte de links, há atualização constante.
O que parece ter ficado para trás é a troca de dicas sobre apuração, mas, mesmo assim, há um arquivo com ferramentas interessantes. Vale a pena conhecer.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h33
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