| |

A gente já disse aqui que a sorte sorri mais pra quem é bom e também de quando a história vem como um cachorrinho adestrado lamber sua mão sem você pedir. Mas está difícil alguém ser mais afortunada que a repórter LAURA CAPRIGLIONE.
Dá para acreditar que havia uma bomba enterrada na casa que ela acabou de comprar e está reformando, no bairro do Paraíso? [assinante lê aqui]
O ótimo texto em que ela relata a aventura termina assim:
Perguntei ao militar se "achados" como esse são comuns na cidade. Ele me disse que não. "Uma raridade." Foi quando o mestre-de-obras comentou que eu tinha "ganho na loteria". Que coisa. Gastei minha cota de improbabilidades assim.
Mas é mentira. Já aconteceu antes --o dentista da repórter foi confundido com um doleiro e intimidado pela polícia, por exemplo [para assinantes], além de outros casos que já contei aqui-- e tenho certeza de vai acontecer no futuro...
Do texto, meu parágrafo preferido, pela forma de usar apropriadamente um adjetivo para economizar informação:
Roberto Cocenza, ex-proprietário da casa, rememorou: havia vizinhos velhinhos que diziam ter lutado na Revolução Constitucionalista de 1932, quando o Estado de São Paulo levantou-se contra o governo de Getulio Vargas. A informação circulou e começou a polêmica. A moradora com seus 70 anos começou a discursar contra "paulistas elitistas" que queriam se separar do Brasil. A chuva começou, ela abriu o guarda-chuva e continuou getulista.
Mais vida na reportagem: Laura e fundamentos Olhar atento ganha prêmio Outro exemplo de relato em primeira pessoa e dicas para reportagens participativas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 23h00
O texto jornalístico ganha força quando há informações relevantes de sinais inversos, como no caso deste perfil do soldado morto em confronto com assaltantes:
Soldado morto por ladrões era conhecido como "parteiro da PM'
DA REPORTAGEM LOCAL
O parteiro da Polícia Militar. Era assim que os outros policiais militares da zona norte de São Paulo conheciam o soldado Ailton Tadeu Lamas, morto a tiros ontem quando tentava prender alguns dos ladrões que roubaram a agência do banco Real do centro de Guarulhos. Ao longo de 22 anos de carreira na Polícia Militar, Lamas ganhou notoriedade por ter conseguido a incrível marca de auxiliar 14 mulheres a darem à luz em bairros pobres da zona norte, inclusive no Jardim Tremembé, onde ele morreu ontem. Ailton Lamas virou soldado da PM em 1986 e atualmente estava na 3ª Companhia do 43º Batalhão, responsável pelo atendimento à população de uma área bastante pobre da zona norte -na divisa com Guarulhos. Em março, quando foi homenageado por conta dos partos que fez, Lamas deu a seguinte declaração ao "Diário Oficial" sobre uma das primeiras ações como parteiro: "Naquele dia ocorreu um acidente terrível aqui na região e eu estava sozinho. Quando recebi a ligação, corri para o local e consegui ajudar a mulher. O parto foi complicado, pela posição do bebê. Respirei fundo, mas no final deu tudo certo e nasceu um garotão", disse, orgulhoso.
Filhos Na mesma entrevista, ele relembrou até o endereço da casa do primeiro parto: "Recebemos o chamado do 190 e, quando chegamos à rua Bernardo Fonseca Lobo, na Vila Albertina, no Morro do Piolho, o bebê já estava nascendo. Não tivemos tempo para colocar a mãe na viatura, um Opala, e realizamos o parto na residência. Fiquei nervoso, mas lembrei dos ensinamentos de pronto-socorrismo que recebi no Centro de Formação de Soldados e o bebê nasceu bem". Por conta do trabalho, ironicamente, Lamas não pôde assistir ao parto dos dois filhos. "Nas vezes em que minha mulher foi para o hospital eu estava de prontidão. Quando chegava lá, meus filhos já haviam nascido", disse o soldado, em março deste ano.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h37
CRISTINA MORENO DE CASTRO mostra outra forma de usar jornalisticamente as listas
telefônicas on-line:
Uma das coisas que considero mais legais de se fazer com o site da telelistas
é ligar para anônimos de determinada cidade e tentar conseguir histórias que
enriqueçam a notícia principal.
Fiz isso quando a barragem de Miraí estourou em 2006 (ou 2007?). Resolvi
repetir o método ontem, ao cobrir uma matéria relativamente corriqueira: caos
causado pelas chuvas (leia aqui).
A matéria fica muito mais interessante quando encontramos relatos de
moradores que sofreram determinadas conseqüências que eram apenas relatadas
mecanicamente pela Defesa Civil. É um bom substituto para o ideal (que seria a
ida ao local, observação própria e a conversa ao pé do ouvido...).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h31
Minha leitora S. pede a ajuda de vocês:
Estou indo morar na Espanha de nov/08 a agosto/09, em Alcalá de Henares (região metropolitana de Madrid), acompanhando meu marido que vai estudar lá.
A cidade é muito rica culturalmente: é Patrimônio Histórico da Humanidade, construída sobre as ruínas de uma cidade romana, berço do escritor Cervantes e tem uma das universidades mais antigas da Europa. Bem, isso é só o que eu pesquisei até agora!
Então queria te perguntar qual acha que é a melhor maneira de vender esse material (sou jornalista de texto e fotos) para publicações brasileiras?
Pensei nos cadernos de turismo.. é uma boa?
Quem mais posso procurar? Esse material é interessante pra quem? Para os veículos maiores ou menores? Ou eles já têm tudo isso disponível para comprar em agências de notícias?
Eu poderia procurar uma agência de notícias? No caso, eu deveria entrar em contato com agências brasileiras ou estrangeiras? O que os faria confiar em mim e não pensar que inventei os depoimentos, por exemplo? (já que sou uma ilustre desconhecida no mercado?).
Bem, qualquer informação sua já me ajuda muito!
Se puder abrir a discussão no Blog, melhor ainda!!
Meus comentários
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h15
Pois não é que alguns recaem em tentação?
Será que algum de vocês se lembra do Felipe, que foi meu trainee e deixou o
jornalismo para voltar às bancas do direito? (usei-o como personagem num post sobre os dilemas e encruzilhadas profissionais de
todos nós).
Imaginem: ele acaba de deixar pela segunda vez o direito e "re-abraçar" o
jornalismo! Sempre brincava com ele que era minha a responsabilidade pelo
desencanto dele com as Redações. Agora posso passar esse bastão, hehe:
Eu já tinha te falado do meu blog... Em menos de três meses, fui surpreendido
com uma média diária de duas mil visitas. Fiquei tão animado que, seguindo uma
sugestão sua, tirei um período sabático no escritório...
O negócio deu tão certo, que fui chamado para fazer a editoria de música do
site do Sidney Rezende. Ou seja, voltei, agora de vez, a ser jornalista “full
time”.
Uma leitora quer largar o curso de economia pelo
jornalismo Estou velho demais para mudar de área?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h40
Lista telefônica logo ali
Cesar de Lima e Silva foi meu trainee há muuuuitos anos.
Hoje ele tem uma empresa de comunicação, mas ainda acompanha
de perto o cotidiano das Redações. E manda uma dica, motivado pela nossa
discussão recente sobre o caso Eloá:
Logo depois que fui seu trainee, ficava tão impressionado com
as coisas que conseguia descobrir, usando as ferramentas que conheci aí e que
depois continuei fuçando e passando a usar, que não conseguia me segurar e
contava para todo mundo.
Depois enxerguei que isso era um diferencial que eu deveria
preservar.
Mas, como tenho aprendido muito no seu blog (inclusive me
inscrevi no curso de Jornalismo 2.0), decidi compartilhar uma dessas ferramentas
que é tão simples quanto útil (nem sei se vocês já usam por aí): a telelistas
(www.telelistas.net).
Como você acabou de citar o caso Eloá, podemos pegá-lo como
exemplo. Se você tivesse os nomes completos da mãe e do pai (no caso, o falso
que ele utilizava), encontraria dois telefones para os respectivos nomes na
cidade de Santo André e poderia verificar se o telefone da casa dela era um
dles.
Mas, brincando, já encontrei um telefone da casa do Ronaldo
Fenômeno, no Rio, e já até falei com o Jorginho, auxiliar do Dunga, e o Walter
Maierovich.
Por outro lado, nem o Bonner, nem
a Fátima Bernardes estão na lista, talvez por terem pedido a retirada dos seus
nomes, o que acho que é possível.
Eduardo
Anizeli conta como foi fotografar o desfecho do caso Duas
boas dicas e uma boa pergunta sobre o caso Eloá Você ligaria para Lindemberg? Reflexões sobre o papel do jornalista
e entrevista com Deh Oliveira, que telefonou para
ele Fotógrafo
30 horas - Fernando Donasci fala sobre a cobertura Cuidados
na cobertura de casos confusos
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h22
Festival Internacional de TV
De graça, em SP, Rio (já
começaram), Salvador e Belém.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h41
Uma das maiores dificuldades de quem está começando é decidir o lide de uma
cobertura.
Um bom exercício é assistir a uma entrevista, escolher a informação
principal, escrever título e lide, e, depois, comparar com os dos jornais.
Hoje há uma chance de fazer isso (pra quem sabe inglês), pois Barack
Obama vai dar sua primeira coletiva. Está marcada para as 13h30 no horário
central americano (se raciocinei direito, com nosso horário de verão, equivale a
17h30 em São Paulo. Se eu estiver errada, por favor, me corrijam) [baseei-me nesta tabela de
fusos].
Mas tentem fazer sozinhos, sem ficar checando antes nos on-line. Só vale
conferir depois.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h21
Adrenalina, concentração e distanciamento

Para completar este capítulo de relatos sobre a cobertura do caso Eloá, o repórter fotográfico EDUARDO ANIZELLI, que estava lá quando tudo terminou. Ele fala sobre a tensão e as dificuldades desse tipo de cobertura e conta um pouco mais de seu trabalho.
Novo em Folha - Como foi sua rotina durante essa cobertura? A que horas começava a trabalhar? Até que horas ia?
Eduardo Anizelli - Estive no caso desde o começo. Chegava todos os dias às 23h e ia até a minha rendição chegar.
NF - Você ficou todos os dias no conjunto habitacional? Ou pegou outras pautas no meio?
EA - Fiquei no caso até o seu trágico fim. De ponta a ponta.
NF - Lá no conjunto, onde você ficava? Achou um lugar com bom ângulo?
EA - Nos primeiros dias fiquei no terceiro andar do prédio da frente do apartamento do seqüestro. Na quinta feira à noite fiquei em outro local que me dava a visão total da porta do apartamento onde estava ocorrendo o seqüestro.
Consegui esse ângulo por um amigo que também é repórter fotográfico do jornal. Ele tinha conseguido através de uma conversa com moradores, já que estava no local durante o dia.
NF - Foi fácil?
EA - Não foi fácil permanecer no local não. A polícia chegou a me retirar de lá na manhã de sexta feira, dia da explosão, mas eu consegui contornar os guardas e retornar ao local, minutos mais tarde.
NF - Quais eram suas condições de trabalho lá? Tinha onde sentar? Estava abrigado ou ao relento? Tinha o que comer?
EA - Condições bem precárias. Fiquei na frente da porta dos apartamentos onde havia uma escadaria e um corredor. Quando me sentia muito cansado eu sentava nas escadas por alguns minutos, mas sempre sem desgrudar o olho da janela do apartamento onde o seqüestrador estava. Estava mais ou menos abrigado, pois na madrugada o frio era bem intenso. Algumas vezes eu dividia chips com os colegas dos outros jornais, mas não todos os dias. Apenas na madrugada de quinta para sexta uma moradora deixou uma garrafa de café, pão e algumas bolachas. Mas a tensão é tanta que quase não dá tempo de comer, pois a qualquer momento a coisa pode rolar.
NF - Imagino que uma das coisas mais difíceis seja isso que você acaba de relatar: conseguir se manter concentrado por horas a fio em que nada acontece, mas sabendo que, se você piscar, pode perder a foto. Como foi isso? Como fazer para se manter concentrado?
EA - Olha é difícil explicar. Eu acho que a responsabilidade é tanta para quem está nesse tipo de plantão que a gente nem pensa em dormir. Existe a tensão de ter outros jornais no local. Se por ventura a coisa acontece e o concorrente faz e eu não... Os editores não vão querer saber o porquê, já que estava escalado apenas para isso.
Então é o tempo todo de olho para ver se acontece algo. Acho também que a expectativa de fazer uma boa foto e ter assim a chance de fazer uma primeira página ajuda e muito a se manter concentrado. Pra me concentrar eu escuto música e penso apenas em fazer a foto.
NF - Alguns jornalistas foram ameaçados durante a cobertura. Você passou por algum apuro?
EA - Graças a Deus eu não tive esse problema. O único apuro que passei foi quando a polícia me tirou do melhor ângulo depois de eu ter passado a noite toda lá e ter presenciado os policiais colando os explosivos na porta do apartamento.
Eu sentia que iria acontecer naquele dia e a qualquer momento. Mas estava fora do melhor local. Então procurei um novo local. Era bom, mas estava muito longe. Foi quando resolvi tentar voltar ao mesmo lugar sem que a policia me visse. O morador que era meu contato para ficar lá me viu e me chamou. Corri e ele jogou a chave da portaria pra eu entrar. Abri o portão e subi correndo. Daí pra frente foi tensão o tempo todo.
A polícia subiu novamente e eu me escondi dentro da casa desse morador. Mais tarde a polícia cercou o prédio onde eu estava justamente para proibir a imprensa de passar e ainda ameaçando prender quem insistisse em tentar ficar lá. Fiquei nessa tensão até a explosão.
NF - Você já tinha feito outras coberturas com grau de tensão semelhante? Como compara com essa?
EA - Igual a essa nunca. Fiz a visita do papa ao Brasil. Ate então era a mais difícil por se tratar de uma pessoa pública e muito querida. Tinha a responsabilidade de voltar com boas fotos, mas não é a mesma coisa. Na cobertura do papa eu sabia da agenda e poderia ate prever os fatos. Nessa cobertura, não. Qualquer coisa poderia acontecer e em qualquer hora. Nos revezamos por dias. Poderia ter estourado para qualquer um da equipe e a qualquer hora.
NF - Qual foi, na sua opinião, a principal dificuldade desta cobertura para um fotógrafo?
EA - O desgaste físico. Foram muitos dias ali, no mesmo lugar, de pé, sem água e sem poder ir ao banheiro. E sempre com a tensão e expectativa da história acabar.
NF - Nesses casos "dramáticos", você acaba sendo afetado? Ou consegue manter um grau de distanciamento?
EA - Não serei frio o suficiente pra dizer que não me afeto, pois é uma vida ali, uma pessoa que tem família, que é querida e que tem uma história que foi interrompida por um maluco. Mas procuro não me envolver para não acabar ficando "louco". O jornalismo nos deixa muito próximo de coisas que muitas pessoas acompanhas apenas na TV. A verdade ali é nua e crua. Se o jornalista se envolver com todas as historias que cobre não teria como dormir em paz. Acabaria de verdade ficando "louco".
NF - Há quantos anos você é fotojornalista? Como começou?
EA - Há oito anos. Comecei a fotografar com 15 anos em uma lojinha de revelação de filmes. Eu tirava 3x4 e ajudava o dono da loja em casamentos. Mais tarde comecei um estágio de fotografia em um estúdio de publicidade e propaganda. Esse estúdio também fazia a assessoria de imprensa de uma feira agropecuária de Londrina-PR. Foi quando aos 17 anos eu tive meu primeiro contato com o fotojornalismo, acabei me apaixonando pela profissão. Mais tarde comecei a fazer freelas para o jornal da cidade, fiz faculdade de jornalismo e cheguei até aqui. Bom isso é um grande resumo.
NF - Esse tipo de cobertura quente é o que você gosta de fazer como fotojornalista?
EA - Sim e muito.
NF - Por quê?
EA - Acho que o grande motivo de eu adorar esse tipo de cobertura é o fato de nunca saber o que vai acontecer e mais ainda a forte adrenalina que eu sinto na hora.
NF - Quer contar mais alguma coisa sobre esta cobertura que eu tenha me esquecido de perguntar?
EA - Acho apenas que eu me esqueci de comentar que cheguei às 23h de quinta-feira no conjunto habitacional e fiquei até o desfecho na sexta-feira sem dormir e sem piscar. Tive sorte que uma moradora do prédio me deu almoço também, além de me esconder da polícia. Se ela não tivesse feito isso nem comida eu iria ter.
Eduardo Anizeli conta como foi fotografar o desfecho do caso Duas boas dicas e uma boa pergunta sobre o caso Eloá Você ligaria para Lindemberg? Reflexões sobre o papel do jornalista e entrevista com Deh Oliveira, que telefonou para ele Fotógrafo 30 horas - Fernando Donasci fala sobre a cobertura Cuidados na cobertura de casos confusos
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h34
Meu ex-trainee PH Rodrigues chama a atenção para dois novos recursos dos telejornais --que, como ele lembra, foram tema do blog Toda Mídia:
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h14
CHICO FELITTI conta e pergunta:
Lidando com o impensável
Durante o almoço de hoje, em uma churrascaria aqui de Santa Cruz do Sul (RS), vimos uma mulher com a suástica tatuada nas costas [Matheus fez a foto; assim que der eu posto]. Ela fazia parte de um grupo coorporativo enorme – eram mais de 40 pessoas, quase todas vestindo camisas iguais.
Em nenhum momento ela tentou esconder a intervenção, que ficava na escápula direita, um lugar que pode ser ocultado com vários tipos de roupa. Ficamos todos boquiabertos, rolou um mal-estar grandão (que ainda não passou) e, como não poderia deixar de ser, bateu uma vontade de saber o porquê daquela tattoo impensável.
No fim, decidimos não falar com ela. Um pouco por medo e muito por não saber o que esperar de uma situação impensável destas.
Fizemos certo?
Meu comentário
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h09
Duas dicas e uma boa pergunta de leitoras a partir da discussão sobre a cobertura do caso Eloá, num post logo ali embaixo.
Manoella, de Hamburgo, escreve:
Caso semelhante ocorreu na Alemanha em 88,embora com consequências ainda mais tristes.
Dois assaltantes, na tentativa frustrada de arrombar um banco, mataram um menino de 15 e uma moça de 18 anos, depois de três dias rodando por toda a Alemanha com os reféns (eram muitos, nao me lembro o total agora).
Na fuga roubaram ônibus e carros. A imprensa teve mais acesso aos assaltantes do que os policias. A impresa é acusada ainda hoje pela polícia de tê-los impedido de fazer o seu trabalho, já que os carros das esquipes de TV e rádio dificultaram a aproximacao dos policiais, impossibilitando a perseguicao e captura dos assaltantes.
A esse triste episódio é dado o nome de "Gladsbecker Geiseldrama" (algo como o drama de reféns gladsbeckiano). A cidade onde isso ocorreu se chama Gladsbeck. Esse caso é ainda hoje citado nas aulas de jornalismo para incitar o debate sobre o papel do jornalista. O que ele pode? e o que ele deve? e como decidir?
Bruna, de São Paulo, pergunta:
O repórter pode se recusar a fazer essa ligação? Ou melhor, como o repórter pode deixar clara a sua posição ética sem ferir nenhuma hierarquia(se o editor mandou, fica dificil recusar né??)
O repórter pode, sim, discordar de uma ordem. Ele pode argumentar e tem o direito de não ligar. Isso pode gerar atritos? Sim, claro, mas quanto mais correto o editor e mais profissional o relacionamento, quanto mais jornalísticos os argumentos, menor a chance de isso terminar em retaliação ou medidas mais drásticas.
Na Folha, houve quem achasse que se deveria telefonar e quem achasse que não. Foi da discussão sobre prós e contras, sobre oportunidade jornalística e limites do jornal, que surgiu a decisão.
A Andréa manda a sugestão:
Gostaria de recomendar para o pessoal do Novo em Folha um texto de um jornalista em que ele conta como foi a reação das pessoas na redação em que ele trabalha (acho q é G1) no dia do desfecho do seqüestro e comenta de forma interessante a cobertura dos diferentes veívulos, online e de tv. http://textosetc.blogspot.com/2008/10/elo-minuto-minuto.html
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h15
Cobertura de crimes
O IDDD - Instituto de Defesa do Direito de Defesa, com o apoio da ABRAJI, faz na manhã do dia 11 de novembro um encontro entre jornalistas e advogados criminalistas em São Paulo.
O evento abordará, de maneira informal, temas relacionados ao direito de defesa, que acarretam, por sua complexidade, sensíveis reflexos sociais e individuais.
A participação é gratuita.
O encontro de São Paulo faz parte de um projeto desenvolvido também no Rio de Janeiro e Brasília, e terá como produto final um manual de redação especificamente voltado às questões relativas ao direito penal – com especial atenção ao direito de defesa.
Quando: 11/11/2008 (terça-feira)
Horário: das 10h às 13h30
Local: Sede do IDDD – Avenida Liberdade, 65, conj. 1101, Centro de São Paulo – SP
Inscrições gratuitas: iddd@iddd.org.br
Mais informações: pelo e-mail iddd@iddd.org.br ou pelo telefone (11) 3107.1399
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h07

Vou passar o dia viajando hoje, mas, à noite, libero os comentários e, se houver novidades, escrevo mais por aqui. Inté.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h26

Este blog resolveu não esperar o início do novo acordo ortográfico, em janeiro de 2009, e vai abolir o trema desde já!!!

Não via a hora de poder fazer isso!!!
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h16
O benefício da dúvida
Quando minha trainee NATALIA PAIVA me perguntou se eu teria ligado para o Lindemberg, respondi: "Claro, sem dúvida!".
Numa frase, cometi dois erros. O primeiro é não ter dúvidas numa hora dessas. No jornalismo, há um pressão interna e externa para chegar primeiro, chegar antes e chegar sozinho. Se a gente deixar esses impulsos desenfreados, acaba fazendo besteira.
O segundo foi responder que sim. Por sorte, não estava na pele dos repórteres e não tive que tomar tal decisão. O tempo e conversas com vários colegas me fizeram mudar de opinião: nesta cobertura, não ligaria para Lindemberg (e explico melhor mais pra baixo).
A primeira lição que eu tiro do caso, portanto, é: quando a vida de alguém está em risco, não tome decisões por impulso. Pare pra pensar. Consulte o chefe. Pese prós e contras.
TER, LIGAR, PUBLICAR
Havia três momentos em que era preciso decidir o que fazer:
- conseguir o telefone da casa de Eloá
- telefonar para lá
- uma vez tendo feito a entrevista, publicá-la
São decisões independentes e, em cada passo, é preciso pensar no que se ganha e no que se arrisca:
- Acho que um repórter deveria lutar para conseguir o telefone. É um contato importante, que pode se tornar fundamental dependendo de como a história se desenrola
- Tenho o número: telefono? Aí é preciso pensar primeiro em qual é o risco. Neste caso, o perigo claro era o de irritar ou amedrontar o garoto e precipitar alguma violência. A gente precisa ouvir dele alguma coisa tão importante que compensasse correr o risco? Que tipo de informação fundamental ele poderia dar? O que dizem os envolvidos (no caso, a polícia e as famílias das vítimas)? Quando respondi "sim" para a Natalia, tinha em mente duas coisas: a) nós não sabíamos em primeira mão o que, exatamente, movia Lindemberg e b) o repórter deve tentar ouvir todas as versões --o que é correto, mas não pode ser a qualquer custo nem em qualquer momento. Depois de uns dias, me convenci de que não justificaria correr o risco neste caso
- E se resolver ligar? Se houver uma situação em que realmente valha a pena telefonar, é fundamental saber exatamente que perguntas serão feitas. Escrevê-las e avaliar que tipo de efeito elas podem ter. Pesar bem as palavras, os termos, a ordem das perguntas. Elaborá-las de forma a ganhar a confiança do entrevistado e interferir o mínimo na história.
- Não é porque a gente tem uma matéria que deve publicá-la. Por exemplo, a Folha sempre cobre casos de seqüestro, mas nunca publica se a família pedir sigilo, justamente para não pôr em risco a vida do sequestrado. Mas acho que esta questão --divulgar ou não-- é mais crucial ainda para meios eletrônicos, por causa do efeito que o noticiário pode ter sobre os próprios envolvidos. Lindemberg via televisão, poderia ouvir rádio e, se havia internet, acompanhar o noticiário on-line. Há dezenas de exemplos de como a cobertura, principalmente da TV, afeta casos de violência (para ficar em apenas dois excelentes: o documentário "Ônibus 174", de José Padilha, e "O Quarto Poder", de Costa Gravas)
NA PRÁTICA, A HISTÓRIA É OUTRA
Uma coisa é refletir com calma, a dezenas de quilômetros da fogueira, com o tempo que quiser até tomar uma posição.
Outra é estar no meio da cobertura, tendo que tomar decisões muitas vezes imediatas. Para saber melhor como é isso, entrevistei meu colega DEH OLIVEIRA, da Folha Online, que falou com Lindemberg durante o episódio.
Só pra lembrar, antes de deixar vocês com o Deh: sempre que houver vidas em risco, tentem parar, pensar e consultar alguém antes de tomar decisões. Nessas horas, faz todo o sentido ter dúvidas (e vocês verão abaixo que o Deh as teve):
Novo em Folha - Vc já havia participado de outras coberturas desse tipo? Pode contar algumas?
Deh Oliveira - Já participei sim. Em uma delas a vítima também morreu. Isso já faz uns cinco anos. Na época eu trabalhava para o Diário de S.Paulo. Um rapaz roubou um bar no Bexiga e alguns freqüentadores do estabelecimento correram atrás dele. Na perseguição, ele subiu na moto de um entregador de pizza, mas foi derrubado por um adolescente de 16 anos. O ladrão deu um tiro no garoto e o matou. O assaltante fugiu a pé e, na esquina entre as ruas Santo Antonio e Martinho Prado, fez dois reféns, no momento em que passava uma viatura da Rota.
As vítimas foram obrigadas a deitar no chão, sob a mira de um revólver. Fui o primeiro repórter a chegar lá e presenciei toda a tentativa de negociação, que se estendeu por pouco mais de uma hora. O assaltante acabou dando um tiro na cabeça de um dos reféns e outros contra a polícia. Acabou sendo morto pelos policiais.
Questionamos por que o Gate não foi chamado, já que havia refém. Era um dos primeiros dias do ano, a cidade estava vazia. O Gate poderia ter chegado ao local em menos de 20 minutos. As vítimas eram dois irmãos, cariocas. O que morava no Rio, tinha vindo visitar o outro que trabalhava em São Paulo durante o período de festas de Ano Novo. Estavam passeando quando tudo aconteceu. Um era médico, o outro enfermeiro. O que tinha vindo a passeio do Rio morreu.
NF - Como era sua rotina neste caso Eloá? De que horas a que horas vc trabalhava? Onde vc ficava? Qual era sua pauta?
DO - Eu chegava sempre após as 15h, para render outro repórter. Saía de lá por volta das 22h. Como trabalho no on-line, tinha de voltar para a Redação, pois sou o último a sair na editoria.
A minha pauta variava conforme as informações que tinham sido transmitidas até antes de eu chegar. Na hora, via o que poderia servir de pauta e mandava o retorno para a Redação.
Conversei com a vizinhança, fiz contato com donos de estabelecimentos que estavam fechados devido ao cerco no apartamento.
Enfim, circulava entre os blocos em busca de tudo quanto é tipo de informação.
NF - Como vc conseguiu o telefone da casa da Eloá?
DO - Consegui o telefone já no primeiro dia.
Fiz o básico ao chegar no local: fui conversar com o pessoal que tinha a idade aproximada do Lindemberg. Conheci uma ex-namorada do irmão da Eloá. Como ninguém tinha feito contato com a família, perguntei se ela tinha os telefones celulares de alguém. Ela disse que não, disse que não se lembrava. Enfim, relutou em passar.
Continuei a conversa e descobri que o telefone da casa da Eloá ela tinha.
NF - Vc chegou a hesitar antes de ligar para lá? Por quê?
DO - Eu tinha me decidido a não ligar até que o caso acabasse. Tanto que não telefonei no dia em que obtive o telefone. Até porque as primeiras 48 horas de um caso com refém são consideradas as mais críticas. Não dá para avaliar o estado de espírito da pessoa, principalmente à distância.
NF - O que o fez mudar de idéia? Vc consultou alguém antes de ligar?
DO - Não consultei. Quando cheguei lá, fiquei sabendo que o Lindemberg tinha falado ao vivo para uma emissora de TV. Contei para o repórter que eu tinha ido render que tinha o telefone desde o dia anterior, mas que não liguei para não atrapalhar no trabalho da polícia.
Ao saber que momentos antes ele havia falado e parecia estar calmo, resolvi ligar também.
NF - Vc já sabia o que perguntaria para ele quando ligou?
DO - Já sabia, sim.
NF - A Folha impressa optou por não ligar, por achar que isso poderia colocar em risco a vida das meninas. Qual a sua opinião?
DO - Acredito que tomaram a decisão acertada. Mesmo tendo ligado depois, ao saber que ele estava mais tranqüilo, tenho dúvidas sobre se fiz o certo.
Em outra situação semelhante, acho que não ligaria.
Algumas pessoas questionaram o oposto, o fato de eu não ter ligado logo no primeiro dia. Alguns disseram que, se eu não queria telefonar, poderia passar o telefone para outro. Mas não faria isso; acho que dá na mesma. É como não apertar o gatilho, mas passar a arma para que outra pessoa o faça.
NF - É uma decisão difícil, né? Quem nunca esteve no lugar do repórter não imagina muito como é.
DO - Realmente é difícil saber o que fazer, principalmente para quem trabalha em um veículo que prima pelo imediatismo. Mas certa vez eu li uma frase que casa com o que penso: "Uma manchete não vale uma vida".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h10
Ver mensagens anteriores
|
|
|
|