Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Como funciona o Mais!

Minha leitora Raquel queria saber melhor como funciona o Mais! e pedi a meu ex-trainee ERNANE GUIMARÃES, redator do caderno, pra contar:

Dando-se a liberdade de abordar assuntos inusitados, o Mais! tem a responsabilidade de atender a dois públicos: o fiel leitorado "cabeça", que gosta de longas resenhas sobre filosofia, e os leitores em geral da Folha, que exigem uma abordagem aprofundada dos assuntos quentes.

A proposição de pautas, portanto, depende de um bom repertório no mercado editorial (o autor de um livro recém-lançado sobre o assunto da manchete do dia é sempre personagem potencial), de algum contato no meio acadêmico e da disposição (felizmente freqüente) de colaboradores internacionais da Folha em buscar esta ou aquela pessoa que encontramos num site obscuro ou num grande jornal estrangeiro.

É uma editoria pequena, com o editor e os redatores fazendo de tudo: seleção de fotos, redação de infográficos, entrevistas, elaboração de notas e didatismos e, principalmente, revisão de tudo (acredite, aquele seu jornal britânico favorito também erra informações).

Atualmente a fórmula da equipe é: o editor, um redator em tempo integral (eu) e um colega três vezes por semana.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h48

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Passamos o dia todo fora hoje e no final de semana vamos viajar.

Vou liberando os comentários como der, mas acho que posts novos só vão aparecer na semana que vem.

Inté.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h27

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Um chá de cadeira e um roxo no joelho

Matheus passou pelo empurra-empurra dos fotógrafos (leia logo abaixo), mas quem caiu no dia da vinda de Lula a São Paulo foi GISELE LOBATO. Desta vez, no entanto, não foi culpa da cobertura.

Ela conta:

No início da semana passada, a Ana Estela sorteou dois trainees para acompanharem o repórter de Dinheiro que faria a cobertura da visita do presidente Lula a São Paulo. A idéia é que todos dêem uma espiadinha no senhor presidente neste semestre, e quinta-feira foi a minha vez.

Na parte da manhã, assistimos à sabatina com o Kassab. Minha dose de políticos já era suficiente quando cheguei à Fiesp com o Matheus.

Chegando à Fiesp, perguntamos pela assessoria de imprensa. Aqui acaba o glamour desta história.

No balcão onde empresários se registravam para o evento de negócios sobre o Peru, nos mandam para a fila. Reforçamos que estávamos com a imprensa, então nos mandam para o andar de baixo. Lá, o segurança ensaia nos enviar novamente ao balcão já visitado. Acabamos entrando. Na sala de vidro, finalmente, os demais jornalistas aguardam.

O repórter Maurício Moraes nos recebe com o alerta de que ia demorar. O presidente estava atrasado. Enquanto esperamos, vamos lendo todos os press releases que encontramos pela frente (dica: é bom ler esse material. Na revista do setor da indústria que achamos lá havia uma entrevista bem bacana com o presidente do Peru, uma das estrelas do evento. Muito jornalista nem viu).

Acontece que os papéis iam acabando e nada do presidente. Levantamos, bebemos água, sentamos de novo. Aparece então uma assessora e diz que o avião de Lula já havia aterrissado. Acompanhamos os funcionários sem saber para onde, seguindo a manada de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas.

Em determinado ponto, nos dizem: ok, é para dar meia-volta e passar no detector de metais.

Na fila, vejo todos na mesma situação --do rosto famoso da TV ao carregador de equipamentos. Um a um, vamos tirando cintos com fivelas ou deixando nossas bolsas serem vasculhadas. Tudo isso para voltar para a mesma sala de vidro, onde o vento entrava pelas frestas.

Sem mais nada para ler, vou observando os arranjos de flores, conversando com um correspondente argentino, pescoçando diálogos alheios, e nem sinal do Lula. Olhava à minha volta e via jornalistas enterrados em todas as poltronas. Do lado de fora, alguns fumavam compulsivamente. Outra, no telefone, reclamava: "A segurança do presidente deve usar a tática da desinformação".

De fato, não sabíamos nem se haveria coletiva com ele.

Depois do auê de sirenes --sim, a comitiva havia chegado--, a assessora voltou para convocar os repórteres de imagem. Assim me despeço do Matheus, o fotógrafo. Não voltaria a vê-lo.

Estava esperando havia quase três horas. Não serviram nem um cafezinho para os jornalistas. A maioria estava na Fiesp desde de manhã. Eu já tinha interrogado a vida inteira do paciente repórter que me acompanhava quando, finalmente, Lula e Alan García terminaram a reunião.

Seguimos para o anfiteatro onde ocorreria a cerimônia conjunta e os seguranças mandam a imprensa ficar nas três últimas fileiras. Os operadores de câmera voltam e armam o equipamento bem atrás de nós. Estávamos virtualmente presos: uma vontade de ir ao banheiro ameaçaria com uma cabeça os vídeos alheios.

Estava ali com o Maurício, de Dinheiro, quando, do meu lado, senta-se um empresário do alto-escalão de uma multinacional. Puxamos papo e vamos descobrindo possíveis pautas sobre Peru, Venezuela e Angola (nova dica: eventos de negócios são feitos para empresários se conhecerem. Aproveitem para conhecer gente também e colecionar cartões. Para fumantes como eu, uma tática é esquecer o isqueiro na bolsa e abordar quem tiver com cigarro aceso para pedir fogo. Os saudáveis podem simplesmente usar a cara de pau).

A luz acende no palco. Eu conheceria o presidente. Mas sem tanta pressa, dona Gisele! Antes, um grupo de música afro-peruana batucaria por um bom tempo em caixas de madeira. Agora, sim, fazem os anúncios solenes. Pela sala, vejo entrar toda a cúpula do governo brasileiro e do peruano; ministros e mais ministros. Uma bomba naquele local e teríamos dois países acéfalos.

Convém lembrar que estávamos nas últimas fileiras e não podíamos fazer perguntas. Ali, de longe, ouvindo passivamente os discursos, percebi que antecipava a sensação daqueles que passaram horas para conseguir um ingresso para o show da Madonna: quando o grande dia chegar, a maioria perceberá que pagou caro para só enxergar o telão.

Este texto está chegando ao fim e os nobres colegas internautas devem estar se perguntando que diabos um "roxo no joelho" está fazendo no título deste post.

Pois é, tanto tive que esperar pelo Lula que saí atrasada para assistir à Osesp com o meu padrinho de redação, o Natali. Saí correndo pela Paulista para conseguir um táxi e acabei por coroar o dia com um belo tropeção. E bem na hora em que passava o carro do presidente.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h16

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Há horas em que é bom ser fotógrafo

Meu trainee MATHEUS MAGENTA é também fotógrafo, como já tivemos a chance de ver neste blog. E, num exercício em que acompanhou a vinda de Lula à Fiesp, na semana passada, teve a chance de comparar a vida dos repórteres de texto e de imagem:

Aproveito a deixa para falar um pouco sobre o papel do repórter-fotográfico e do cinegrafista.

Enquanto os repórteres afundavam nos sofás na sala de imprensa esperando o presidente dar o ar da graça, o "pessoal de imagem" pôde subir para registrar o Lula. Mas não foi tão simples quanto parece. Entre correrias para chegar ao elevador primeiro e a utilização de escadas portáteis como bancos, ouvi dizer que na cobertura política o "pessoal de imagem" tem acesso a reuniões que o repórter não tem. Assim, entre uma foto e outra, eles jogam perguntas para os políticos ou personalidades ou tentam ouvir alguma informação de bastidor.


Só repórteres de imagem têm acesso a reunião presidencial fechada

Duas horas de espera em pé segurando câmeras pesadas e apenas três minutos de "janela" para fotografar ou filmar o presidente. A pressão é grande durante a espera porque você sabe quem fotografar, mas não conhece o ambiente que vai encontrar. O teto é baixo, quantos ficarão na sua frente? Precisa de muita luz? Qual lente eu uso?

Na inauguração da exposição peruana, os não-oficiais (jornais e agências) ficaram mais de uma hora esperando no que eles chamam de "curralzinho", área delimitada especificamente para o trabalho deles. De vez em quando passava um assessor e dizia: "Ele está descendo." Câmera preparada, luz ligada, flash calculado e nada do presidente. Isso aconteceu umas quatro vezes durante a hora em que esperamos pelo Lula.

E de repente ele aparece 30 segundos, políticos e personalidades "papagaios de pirata" lutando por uma photo-op. Teve até uma briga entre alguns fotógrafos não-oficiais e o fotógrafo oficial da Radiobrás, que, por ser oficial, tem acesso facilitado e ficou na frente do resto do "pessoal da imagem".

Depois de todo o empurra-empurra, confiram vocês mesmos se o Matheus não fez direitinho seu trabalho:


Na reunião fechada


No auditório, agora aberto para repórteres de texto também

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h55

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Tamanho importa?

Na hora de fazer o lide, o tamanho do texto faz diferença, pergunta a Monica?

Pode fazer, sim. Quer ver um exemplo?

Vamos retomar o tal exercício do avião que bateu na vaca.

Se a notícia estiver num jornal de Campo Grande ou da cidade sul-matogrossense em que o acidente se deu, provavelmente será de bom tamanho, terá destaque e talvez até foto.

Nesse caso, o lide pode até ser mais narrativo, construir a cena com detalhes que não estariam num texto mais curto e deixar mais para frente outras informações que, com restrição de espaço, precisariam vir logo.

Num exemplo hipotético:

O 120º vôo do advogado João
Wenceslau Barros deveria ser de ida
e volta, mas terminou em morte na
metade do trajeto. Filho do poeta
Manoel de Barros, o advogado de 50
anos levantara vôo às 8h de Campo
Grande, como fazia toda segunda-feira
há dois anos, para levar o amigo e pecuarista
Simão Emílio Farias à fazenda de 45.768
cabeças de gado em Rio Verde.
Às 8h53, quando pousava
na propriedade, o monomotor chocou-se
com uma vaca que atravessou
a pista. Farias, 59, morreu na hora.
João foi levado ao hospital, mas não resistiu.

Já num texto curtinho, como o que os trainees tiveram que fechar, tudo muda de figura. Era preciso dizer tudo em apenas três parágrafos, como nesta solução dada por um deles:

O choque de um monomotor
com uma vaca matou anteon­
tem o advogado e piloto João
Wenceslau Barros, 50,
filho do poeta Manoel de Barros,
e o pecuarista e empresá­
rio Simão Emílio Farias, 59.

¦O choque foi durante o pouso,
na pista da fazenda da família
de Farias, em Rio Verde (MS), a
193 km de Campo Grande.

¦Militares da FAB (Força Aé­
rea Brasileira) apuram se houve
também falha do avião ou do piloto.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h27

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Para entender a crise

Meu recém-trainee BRENO COSTA indica este infográfico, publicado pelo "El Observador" do Uruguai e selecionado pela Innovations, para quem quiser entender melhor a crise (dê zoom para conseguir ler). 

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h23

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Agora com Google Earth

Como sugeriu o IAGO, as duas perspectivas mais ou menos semelhantes:

ANTES

DEPOIS

E por falar nisso aproveito para comentar a pergunta que eu fiz naquele exercício: quando você olha para a foto acima, qual é a primeira questão que lhe vem à cabeça?

Vou ter que confessar que não fui nada solidária com a espécie humana... Minha primeira curiosidade foi: como? O que é que essa casa tem de tão especial para ter resistido assim?

Depois, lendo os comentários de vocês, é que me dei conta do óbvio que seria se preocupar com os pobres moradores...

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h05

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Quando e por que usar (ou não) câmeras ocultas?

E acabei encontrando láááá atrás nas mensagens que ficaram rascunhadas este relato feito pelo GUSTAVO HENNEMANN.

Ele resume considerações do diretor da BBC Américo Martins sobre o uso de câmera oculta:

  •  Justificativas legais: não se pode denunciar um crime cometendo outro  crime. Como, por exemplo, comprar madeira nativa para mostra o comércio ilegal de madeireiras; ou pagar propina  para funcionário público para desmascará-lo. [Nota da Ana - uma ótima saída foi a que o repórter Leonardo Souza encontrou na reportagem sobre venda de sigilo telefônico: os próprios "alvos" --no caso, os deputados-- fizeram as compras ilícitas, para evitar que o repórter cometesse um crime]
  • Justificativas editoriais: Deve haver interesse público explícito. O principal exemplo que ele deu foi uma investigação sobre a suposta injeção de água em frangos em um frigorífico holandês. Como muita gente come frango e tem interesse direto no assunto, a emissora resolveu investir na  investigação. Para gravar a indústria injetando água nos frangos e provar  as irregularidades, a BBC infiltrou um repórter como funcionário do frigorífico. Ele trabalhou na linha de produção durante meses. A emissora também fundou uma empresa para comprar o produto do frigorífico.

MAURÍCIO HORTA tinha contado outros casos de matérias da emissora usando o recurso

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h37

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O importante e o específico

Sabem aquele exercício dos trainees que eu copiei no blog pra vocês fazerem também? Aquele do acidente do avião? Pois acho que já está na hora de comentá-lo (se não a Julia puxa minha orelha ).

Quem não arriscou uma resposta ainda pode clicar no link acima e queimar uns neurônios antes de ler o que vem a seguir.

Para os outros, proponho as mesmas perguntas que fiz aos trainees:

  1. que informações, dentre todas aquelas, são fundamentais e precisam estar presentes em qualquer matéria em que haja acidentes?
  2. quais informações são específicas deste acidente em questão e o tornam diferente dos outros?

Não podem faltar: se alguém morreu e por que ocorreu o acidente.

Só neste caso: o avião bateu numa vaca e um dos mortos era filho de um poeta famoso.

Um lide fica bem completo se tiver, então, estas informações:

O choque de um avião com uma vaca que atravessava a pista na hora do pouso deixou mortos seus dois ocupantes. Ainda não se sabe se houve falha da aeronave ou do piloto, que era filho do poeta Manoel de Barros.

Há várias outras boas formas de escrevê-lo, claro. E podemos contar outras coisas já no primeiro parágrafo, como a cidade em que ocorreu ou o nome dos dois mortos.

Mas, na minha opinião, aquelas quatro informações não deveriam faltar. E o mesmo raciocínio vale pelos lides na vida afora: o que é fundamental? E o que é só deste caso?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h16

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Mapa para o passado

COMO ERA

COMO FICOU

Meu recém-trainee IAGO BOLÍVAR disse uma coisa muito certa: uma forma muito jornalística de mostrar o efeito do Ike sobre a vizinhança da casa que restou é mostrar como era a região antes.

Em jornalistês, isso se chama contexto. E realmente acrescenta muita informação! A foto da casa sozinha é a notícia, claro. Mas a gente entende muito melhor como foi a devastação quando vê como era antes.

Iago conta como encontrou a imagem:

Com o nome do dono no http://www.anywho.com é possível achar o endereço: 992 Church St Gilchrist. Aí é jogar no Google Maps, cujo delay é interessante pra mostrar o antes/depois de tragédias que mudam a paisagem (até pra atentados).
 
Aqui não tenho o Google Earth, mas dependendo da forma como mapearam essa região pode ser possível ajustar o ângulo de visualização de acordo com a foto.
 
(Você viu que nos comentários à foto um monte de gente fica perguntando o nome do construtor?)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h08

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Vá à Noruega sem sair de casa

Liege Albuquerque, minha colega na diretoria da Abraji, fez um resumo muito legal do que ouviu na conferência global de jornalismo investigativo, que aconteceu este mês na Noruega.

O relato e cópia de algumas apresentações estão no site da Abraji, pra quem quiser ler. Ela conta que o seminário que mais causou emoção entre os jornalistas foi o do cameraman da Al-Jazeera Sami Al-Hajj, que ficou preso seis anos em Guantánamo, onde sofreu torturas morais e físicas

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h41

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Mais vida na reportagem

Durante o treinamento, a programação varia bastante de dia para dia e até mesmo num mesmo dia.

 

Pode começar, como ontem, com um exercício de apuração, passar para um fechamento e seguir com uma conversa com alguém experiente (ou não), sobre algum aspecto do jornal.

 

A conversa de ontem foi com a repórter especial LAURA CAPRIGLIONE, que, dentre várias qualidades, tem um talento único para extrair ótimas histórias dos fatos.

 

CATHARINA NAKASHIMA resume para o blog o que aprendeu na conversa:

 

Começamos falando sobre a necessidade (e a dificuldade) de transformar tabelas e gráficos frios em histórias de vida sem, no entanto, cair no sensacionalismo.

 

O primeiro passo é “dar cara” para um texto, com personagens. E é possível contar histórias de pessoas reais com imparcialidade e precisão.

 

Além disso, um bom texto precisa do cheiro do lugar, contar uma trajetória ou o transcorrer de um dia.  Laura confessou ter particular receio com o jornalismo literário: “Nossa função é fazer jornalismo, não literatura”. O máximo de clareza e objetividade são o oposto, muitas vezes, da ficção e da literatura.

 

Duas grandes histórias de cobertura de Laura merecem ser contadas aqui. Uma é sobre a vez que foi convidada (por Júnior, do AfroReggae) para subir favela no Rio de Janeiro com jovem grupo de empreendedores paulistas.

 

A outra é que, antes de partir recentemente para a Bolívia, Laura estava com viagem marcada para o Haiti. [Olha só a pauta que ela deixou de fazer: por que o furacão Eike passou arrasando somente o Haiti e não Cuba e a República Dominicana também?]

 

Mas, com a crise na Bolívia, lá foi Laura. Aí estão observações lançadas por ela:

 

  • As histórias que merecem ser contadas no jornal têm que ser extraordinárias. É preciso procurar muito para achar o surpreendente em meio a uma confusão;
  • Tragédias sociais são sempre um desafio. Precisamos ainda aprender como fazer;
  • A leitura de jornais de vários lugares diferentes é muito importante. Tentar preparar-se antes de ir para qualquer lugar, também; 
  • Para entrar em áreas conflagradas, é preciso saber bem quem é que controla o local. No caso das favelas bolivianas é o partido MAS (Movimento ao Socialismo) de Evo Morales;
  • Após muita apuração, o jornalista precisa, sim, formar uma convicção, o que, é claro, é muito mais difícil do que fazer o “jornalismo declaratório”.

 E as dúvidas:

 

  • Como não render-se à visão que sempre querem nos vender?;
  • Devemos fazer algum acordo para conseguir acesso a esses lugares? E os moradores? Não são reféns também?;

No caso especial boliviano, Laura concluiu que lá é bom ser do Brasil do Lula. E é bom também ser da imprensa brasileira, que difere da imprensa local (que pode ser preconceituosa, partidária e sem o menor pudor em ser assim). A repórter especial disse, por fim, que não acredita em jornalismo de infiltração. E o leitor tem o direito de saber qual o jogo que o jornalista está fazendo, sempre.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h29

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Jornalismo-clone


Detalhe do blog do Innovations

Meu professor EVANDRO SPINELLI conta deste site que mostra uma epidemia viral da mesma foto, idêntica, nas capas de 45 jornais americanos no mesmo dia.

Dá raiva quando isso acontece, concordo. Mas também é bom lembrar que há milhares de jornais nos EUA. E que, com as centenas de imagens que as agências de notícias jogam na rede, se uma delas foi tão escolhida, alguma coisa deve ter de especial.

Isso é a graça do jornalismo. Nada é tão simples. É preciso ser diferente dos outros, mas não dá pra brigar com notícia.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h41

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Você também pode ser um Diego Souza

Ricardo Nogueira/Folha Imagem

O meia Diego Souza, que chamou a atenção pelos gols anotados no Grêmio, em 2007, não festeja um desde o dia 6 de julho, no 1 a 1 com o Atlético-MG. Em 42 partidas no clube paulista, ele marcou apenas oito.
Folha de S.Paulo, 24/8/2008

"Coisas ruins não são para sempre. Você trabalha direito durante a semana, uma hora isso acontece. A gente perdeu um ídolo como o Valdivia, e o meu futebol está crescendo", disse o meia, assumindo o papel desempenhado anteriormente pelo chileno, que foi vendido.
Folha de S.Paulo, 1º/9/2008

Faz 15 dias que estava querendo escrever este post para quem não passa numa seleção: pode até ser que haja "algum problema com você", mas é mais comum que o motivo seja "quem ocupou o seu lugar".

É como no caso do Diego Souza no Palmeiras. Ele estava apagado, não marcava gols, mas não porque não fosse bom. É que havia Valdivia no time. Acontece o mesmo quando a gente disputa uma vaga: podemos fazer o nosso melhor, mas não temos controle sobre quem vai concorrer conosco.

Por isso, quando não for selecionado, não se considere automaticamente fracassado ou reprovado. Continue treinando, levantando pesos, chutando ao gol. Seu dia de Diego Souza ainda pode chegar, e o certo é estar preparado para ele.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h01

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Olho no jogo, olho no texto

O palmeirense MATHEUS MAGENTA e a corintiana CATHARINA NAKASHIMA contam como foi a primeira cobertura esportiva de suas vidas ontem:

Parque Antártica. 400 jogos do "são Marcos" [isso foi o Magenta que escreveu] pelo Palmeiras. Vasco em crise, apenas 20% de aproveitamento dos pontos disputados desde que Roberto Dinamite se tornou presidente do clube. Estréia de Renato Gaúcho como técnico do time da Cruz de Malta. Olho na televisão com delay de três segundos, ouvido no rádio. A cabine de imprensa fica logo acima das cadeiras numeradas cobertas do Parque Antarctica, de frente para a Mancha Verde

É difícil se concentrar para escrever, mas fomos nos acostumando durante o jogo

Kleber perdendo gol de cara com o goleiro.

Palmeiras x Vasco foi o primeiro jogo que acompanhamos como trainees. A primeira recomendação da Ana Estela foi: “Não pode torcer, pelo amor de Deus! Ah, nem a favor nem contra” [o Matheus é palmeirense, a Catharina é corintiana].

Fotos: Matheus Magenta

Toni Assis assiste ao jogo, anota, ouve o rádio, confere na TV e vai pensando na matéria

Fomos ao estádio com o Toni Assis, repórter de Esporte, e com o Rogério Rezeke, repórter do Agora. 


A vista da cabine de imprensa

A idéia era ficar na cabine, mas nós inventamos logo de saber até onde a credencial da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) pode levar um jornalista. Nas cadeiras numeradas: não. Nos demais assentos tudo bem, mas não pode entrar no gramado: lá, só radialistas e a televisão.

Churros: 4 reais. Pipoca: 3 reais. Para a imprensa: lanche de presunto e queijo, de graça. E um encarte da assessoria de imprensa com dados do histórico dos jogos, dos jogadores escalados e outras estatísticas.

A principal diferença entre o torcedor e o jornalista é que o primeiro fica nervoso com o jogo e o jornalista tenso pensando no fechamento do jornal. O jogo começou às 18h10 e terminaria muito perto do horário em que o caderno precisa fechar, às 20h30. A tarefa, portanto, seria escrever e transmitir o texto antes de descer até os vestiários e entrevistar os jogadores. Tem de terminar de escrever a matéria ao mesmo tempo em que o juiz dá o apito final.

E não é pouca coisa, não.

O Toni precisava fazer um Abre [o texto principal, que abre a página] de 46 cm, uma sub [sub-retranca, uma segunda matéria, que destaca algum aspecto] de 16 cm (que ele escreveu sobre a homenagem ao Marcos e a espera do parecer da Conmebol) e uma frase. A sub foi enviada no final do primeiro tempo.

Já Rogério tinha duas páginas para preencher. Na primeira, ele tinha um Abre de 17 cm, duas Subs (uma de 16 cm e uma de 13 cm). Na segunda, um Abre de 31 cm e um texto sobre as atuações dos jogadores de 13 centímetros.

Desobedecendo a Ana

Olho no jogo e no texto, o tempo inteiro. Não é preciso nem falar do jornalista-torcedor. Não seguimos tão a risca assim o conselho da Ana. Na verdade, até dá para gritar (um pouco) às vezes, tamanho o barulho que se faz no estádio. Ninguém liga e os jornalistas estão todos com radinhos, pegando suas aspas para o texto e conferindo informações.

Aliás, é impossível mesmo cobrir o jogo sem o rádio. Às vezes estamos fazendo outra coisa e o radialista nos avisa: temos que olhar naquele momento para o gramado.  

Na hora do primeiro gol do Palmeiras, a Catharina estava distraída conversando com o Toni e perdeu o lance. Quando foi olhar para o gramado, arrasada, só conseguiu ver o Diego Souza correndo pra torcida. Se estivesse na arquibancada, só teria ouvido o grito de gol da torcida. Na cabine de imprensa, o delay da televisão se torna replay.

No começo do segundo tempo, Catharina foi ao banheiro, meio com medo do que encontraria. Mas, num estádio de futebol, especialmente na área da imprensa, o banheiro feminino é totalmente livre. Desta vez não havia nenhuma mulher fazendo a cobertura, pelo menos na área dos jornais. No CT do Palmeiras na última quinta-feira, Catharina encontrou três garotas na imprensa.

Se o jogo fosse mais cedo daria para incluir o vestiário. Quase ficamos muito tristes com a notícia de que os vestiários ficariam fora, mas o Toni disse que iríamos assim mesmo! Catharina quis saber se poderia entrar, sendo mulher. Toni e Rogério riram e disse que ninguém entra no chuveiro com os jogadores. Há uma salinha para a imprensa mesmo nos vestiários. Respiramos aliviados!

[Nota da Ana: nem sempre foi assim. Já houve "trainee fêmea" que entrou no vestiário e voltou para contar aos leitores do blog]

As boas dicas do Toni:

  • O lide geralmente é escrito com o resultado do jogo e apresentação do contexto ou o que aconteceu de mais importante durante a partida. Nesse jogo, por exemplo, o Palmeiras tentava se aproximar mais do líder Grêmio. Se vencesse, estaria a um ponto do time gaúcho. 
  • O minuto-a-minuto não entra muito no texto do jornal porque isso já está na internet. O “Aos 7min do primeiro tempo, Kleber recebeu lançamento de Sandro Silva e perdeu um gol de cara com o goleiro” perde espaço para “o mau posicionamento da defesa do Vasco continuou favorecendo o Palmeiras”. No impresso, o texto deve ter mais uma análise tática do jogo e detalhes do contexto, como a estréia de um técnico, número de jogos, crise no time ou bastidores.
  • Acompanhar o jogo também pelo rádio é importante por causa do nome dos jogadores, das entrevistas e de outras informações, como substituições ou um cartão amarelo.

E o resultado do jogo? Para desespero da corintiana Catharina e alegria do palmeirense Matheus: Palmeiras 2 x 0 Vasco.

Com o fim do jogo, ficamos mais uns dez minutos na área para a imprensa para terminar os textos: este para o blog, que você está lendo agora, e –-como treino-- outro como se fosse para o jornal mesmo.

RICARDO PERRONE conta casos de quando mulheres entravam no vestiário
VERENA FORNETTI e seu primeiro dia de jogo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h37

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Boa demais pra ser verdade. Mas era

A foto, que saiu no site da CNN, era tão incrível que muitos leitores escreveram questionando sua veracidade.

Foi tirada pelo piloto de helicóptero Ray Asgar e mostra uma única casa em pé após a passagem do furacão Ike por Gilchrist, Texas.

Essa era verdadeira, mas a incredulidade dos leitores é boa para lembrar a nós jornalistas que, quando algo parece sensacional, é bom checar mais uma vez...

Aproveito também a história para um exercício: qual é uma informação indispensável a esta reportagem? Qual será a primeira pergunta que o leitor fará? [a primeira matéria da CNN não tinha, mas a versão atual já tem --leia aqui]

[Agradeço a meu recém-trainee IAGO BOLÍVAR, redator de Brasil, por ter me mostrado a foto]

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h02

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Driblando o russo


Detalhe de site de clube de futebol tchetcheno, escrito no alfabeto cirílico

Sem falar russo nem japonês, LUIS FERRARI consegue "ler" nessas línguas as informações que são pontas de novelo para desenrolar histórias.

A do Japão quem ainda não conhece pode descobrir neste post (e é até irritante a idéia simples e perfeita que ele teve).

Na da Rússia ele achou um zagueiro paranaense jogando na Tchetchênia (quem assina FSP ou UOL encontra a matéria aqui).

O personagem ele achou com sorte: no vôo que o levou a Tóquio --de onde saiu a primeira história--, sentou-se ao lado do jogador.

Em nove horas de avião, entrevistou o rapaz e voltou com uma especial engatilhada.

Mas faltava achar detalhes sobre o time, o que teria que fazer no site oficial (obviamente, em alfabeto cirílico).

Ele achou algumas informações sobre a história recente do time neste texto.

Para conseguir entender, fez uma busca no Google com "russian english translator", e achou esta página.

Batia mais ou menos com o que havia pesquisado antes e com o noticiário que ele acompanha no site da Uefa, especificamente com esta matéria.

Depois ele conversou com a editora de Mundo, que encaminhou a ele uma feature da Reuters sobre a Tchetchênia, mostrando como o Putin de fato acalmou a situação lá (fornecendo armamentos e forjando aliança com um ex-líder rebelde e criando ambiente para a reconstrução da cidade).

Isso confirmava o relato do atleta de que o clima transmitia segurança.

"Minha maior preocupação era não comprar cegamente a versão dele, dado que jogadores de futebol, via de regra, não são observadores tão qualificados da geopolítica mundial", conta Ferrari.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h22

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Como é que eu sei que não sei?

Para animar meu assistente FABIO CHIOSSI, que volta amanhã de uma semana em Nova York (tadinho, né, gente?), publico o post que ele mandou do congresso do Poynter:

"Cosmic questions"

"Como saber que não sabemos o que não sabemos?"

"Como eu descubro o que eu ainda tenho de descobrir?"

Essas são duas das perguntas que vieram à mente de alguns dos participantes do seminário sobre as melhores práticas para o treinamento de jornalistas no Poynter.

Nenhuma delas foi feita por mim, embora eu esteja nesse grupo de 20 jornalistas, a maioria dos quais norte-americanos, reunido numa cidadezinha ao lado de Tampa chamada St. Petersburg.

Mas essas "cosmic questions" _algo como perguntas metafísicas, na classificação do simpático e experientíssimo Michael Roberts, do "The Arizona Republic"_ chamaram-me a atenção.

Não só porque são engraçadas, mas pelo motivo que as torna engraçadas: elas não têm uma resposta lógica.

Não há resposta racional pra elas.

E esse problema evidencia, mais do que as perguntas específicas, algo que todos, não só jornalistas, devemos ter em mente: não é possível responder a tudo; não é possível saber tudo. As perguntas específicas não têm esse poder de "esclarecimento" porque, uma vez respondidas, o problema está resolvido, o conhecimento adquirido. E fica a sensação de que é possível saber tudo, desde que tudo o que se quer saber surja em forma de perguntas específicas.

O importante, para o jornalista, desse misto de reflexão com brincadeira semântica, é estar ciente de que, dado que não é possível saber tudo, não é possível contar tudo. Assim, antes de começar a contar uma história, ele tem de traçar os limites dela; ele não deve partir do pressuposto de que conseguirá esgotar o assunto, porque não conseguirá. E uma boa maneira de traçar esses limites é perguntar a si mesmo sobre o que não poderá falar com precisão _em outras palavras, o que eu não sei sobre essa história, o que eu NÃO posso contar sobre ela.

Além de definir esses limites, o jornalista descobrirá se precisa pesquisar mais antes de começar a escrever: se o que eu NÃO posso contar deixa buracos na minha história, algo está errado com ela

Então, o que se descobre é que, diferentemente do que diz o senso comum, o que não se sabe é tão ou mais importante do que o que se sabe. E poucos sabem disso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h37

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