Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Diversão de fim de semana

Do meu colega THIAGO BRAGA:

Vi que vc fez um post dias atrás sobre a meteórica aparição da Sarah Palin. Nele há uma parte falando sobre as sósias dela. A melhor e mais parecida --na minha opinião-- é a Tina Fey, uma comediante americana. Ótima, por sinal.

Ela participou durante nove anos como roteirista e como membro do elenco do Saturday Night Live, tradicional programa de humor americano. No último sábado ela voltou ao programa. Adivinhe para fazer qual papel? Isso mesmo, ela imitou a Palin.

Ficou ótimo. Não sei se vc ficou sabendo da entrevista que ela deu na semana passada, para a NBC. Ela foi perguntada sobre a "doutrina Bush" e não soube responder. Lógico que eles falam disso. No esquete, a comediante Amy Poehler, melhor amiga de Tina Fey, participa imitando a Hillary.

Ficou ótimo!!! Acho que você também vai gostar. Não sei se encaixa na campanha mais humor no jornalismo, mas resolvi te mandar mesmo assim. Dê uma olhada e veja o que vc acha.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h48

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Jogo de profissionais

 

Toda entrevista é um tipo de jogo em que usamos uma ou outra estratégia para chegar a nosso objetivo --informações e/ou boas declarações.

Em alguns casos, temos que encontrar a forma de chegar lá rapidamente. Em outros, o principal é chegar em segurança. É preciso adaptar em cada situação, como naqueles jogos em que a missão é "sorteada" no começo da partida.

Mas entrevistas com políticos experientes são mais que isso, porque o sujeito do lado de lá sabe tanto do riscado quanto a gente. Eles conhecem nossas estratégias, preparam-se para as piores questões, adotam diferentes manhas ora para escapar, ora para confrontar.

Na sabatina de Paulo Maluf, os trainees puderam ver --e resumir para o blog--- algumas dessas batalhas:

Tipos de pergunta

Dois tipos de pergunta foram usados na sabatina:

  1. o que parte de pesquisa prévia
  2. o que surge de senso de oportunidade, espírito crítico e atenção às respostas.

1. Pesquisa prévia

  • Perguntas mais genéricas geralmente deixam o entrevistado mais confiante e consciente das suas respostas. Quando são mais fundamentadas em dados concretos exigem do entrevistado respostas concretas e objetivas, mesmo que eles se mostrem preparados (porque devem ensaiar respostas previamente)
  • Além de se basear em fatos concretos, é bom que a pergunta relacione a pesquisa prévia com questões políticas, econômicas ou sociais maiores. Exemplo: Rogério Gentile, embasado no histórico estatístico das eleições, fez uma relação entre o decréscimo do número de votos de Paulo Maluf nas últimas eleições e uma possível crise do malufismo.
  • Questões baseadas apenas em números, sem essa contextualização, podem abrir espaço para o entrevistado dar respostas evasivas
  • É bom que haja perguntas surpreendentes. Como os candidatos são ensaiados, mesmo que a pergunta se baseie em fatos, eles podem escapar se dominarem o tema
  • Políticos experientes podem responder de forma evasiva e depois partir para falar de outro assunto, usando a resposta como palanque
  • Pesquisar declarações que o entrevistado já deu no passado é uma boa forma de questionar contradições

2. Senso de oportunidade

  • É bom ficar atento a todas as respostas, aproveitar os ganchos das perguntas uns dos outros
  • Os jornalistas pareciam fazer uma anotação mental dos comentários para, em outro ponto da sabatina, apontar uma contradição ou colocar Maluf em uma “armadilha”. Em alguns casos, foram usadas declarações anteriores do candidato para isso
  • As melhores perguntas dos jornalistas que participaram da sabatina com Paulo Maluf foram feitas com base em respostas anteriores do entrevistado. Exemplos: 1) Maluf disse que o Datafolha errava, quando a pergunta era sobre sua imagem em uma pesquisa. Em outros momentos, Maluf citou o próprio instituto para falar da avaliação de seu governo. O mesmo ocorreu em relação a Marta. 2) Maluf afirmou que a candidata recebeu seu veredito ao perder a última eleição, o que provava que foi má prefeita e não merecia outra chance. Dimenstein questionou se Maluf havia sido um mau prefeito, já que também perdeu.

ESTRATÉGIAS DO ENTREVISTADO

  • Paulo Maluf é um entrevistado difícil. Recusa-se terminantemente a responder objetivamente às perguntas.
  • Mesmo que o entrevistador não se dê por contente e insista, ele responde o que quer, desvia do assunto e levanta a voz
  • Além de agressividade, o entrevistado pode usar a tática de desprezar um determinado jornalista, olhando só para os outros e dando pouca atenção às perguntas do “desafeto”.
  • Como num debate político, o entrevistado já se prepara para perguntas possíveis baseado nos pontos mais críticos de seu programa ou personalidade. É difícil elaborar perguntas que fujam das ensaiadas pelo entrevistado.
  • As quatro primeiras filas foram tomadas por militantes, que aplaudiam a cada exaltação do candidato. Vale observar que tipo de pessoas são para ter idéia das estratégias de MKT do prefeiturável.
  • Uma das pessoas da platéia gritou “administração, gente!”, durante a resposta sobre a Parada Gay, o que indicaria que, para ela, a pergunta estava fora do foco da sabatina ou deixando o candidato numa situação desconfortável.

ESTRATÉGIAS DOS ENTREVISTADORES (atitude jornalística)

  • Insistir é importante, mas não significa somente refazer a mesma pergunta. Insistir é reformular uma questão, torná-la mais incisiva, o que também precisa de rapidez, senão perde-se o momento. Insistir pode também ser perguntar com outro viés. Exemplo: Gilberto Dimenstein indagava Paulo Maluf sobre a Parada Gay de São Paulo e os direitos sexuais. Com os ânimos um pouco alterados após a declaração de Maluf de que certo é homem gostar de mulher, Gentile emendou: “São Paulo está preparada para eleger um prefeito gay?”.
  • Insistir pode não obter uma informação relevante, mas o entrevistado pode ficar exaltado a ponto de sair do script e soltar frases relevantes. No caso do Maluf, são exemplos “gay não é normal” ou “quero deixar claro que gosto de mulher”.
  • Em alguns momentos, no entanto, a estratégia adotada foi deixar Maluf falar por algum tempo para não deixar um clima hostil.
  • Quando o entrevistado é grosseiro, a melhor saída é não entrar no jogo. É preciso ter jogo de cintura para lidar com isso. Em certo momento, Maluf disse para o editor do “Agora”: “Eu sei que você não gosta de mim”. “Eu gosto do senhor”, respondeu o jornalista para desatar a tensão. Mas retomou rapidamente o tom inquiridor e perguntou se o passaporte do candidato estava apreendido. Maluf negou, e convidou o jornalista a conferir em sua casa o documento.
  • Achei importante a atitude dos entrevistadores de se preocuparem em confirmar algumas respostas ou pedir para que fossem reforçadas. Quando questionado sobre quem havia sido melhor prefeito, se Marta ou Kassab, Maluf criticou a candidata do PT. Mônica Bérgamo replicou: “devo concluir que a melhor gestão foi a de Serra e Kassab?”
  • Em alguns momentos, jornalistas arriscavam perguntas provocativas. Exemplos: “O senhor está com seus bens bloqueados? E seu passaporte, está com o senhor?”.  “Duplicar a dívida do município é exemplo de boa gestão?”.
  • É sempre possível conseguir uma última declaração do sabatinado no finalzinho. Bergamo perguntou quando quase todos já estavam se levantando: “Sylvia Maluf me disse certa vez que sempre pede para o senhor largar a política. O senhor nunca vai largar a política?”. Paulo Maluf: “Só vou largar quando Deus me levar para o céu”.
  • Maluf disse que seu assessor teria alguns dados e documentos para passar para o Nilson e o editor realmente ficou para pegar os dados. Boa atitude. As tabelas podem ser confrontadas com outros dados e boas pautas podem surgir.
  • Maluf “desafiou” a Folha desmentir várias de suas falas e eu acredito que isso poderia ser útil, especialmente se o jornal correr atrás de pautas “escondidas”, que seriam resultado de assuntos que ele omitiu como, por exemplo, temas como educação e segurança pública.

Duros embates de FERNANDO CANZIAN com Paulo Maluf e Marta Suplicy
Outra entrevista com Maluf (
com áudio, para se entender a dificuldade)
MATHEUS MAGENTA conta o que aprendeu na sabatina

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h19

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A aventura de um trainee cadeirante

(*)

por LEONARDO FEDER

            ao tentar dizer
            desdigo o não dito

            na ausência de pernas
            cavalgo

            existo centauro
            nem raro nem mito

(Poema “Mitológico”, de Moacir Amâncio, do livro “Ata”).

Como é maravilhoso estar num lugar onde as pessoas (a Ana Estela, as assistentes Sandra e Vivi, e meus onze amigos da turma) pensam em como incluir nas atividades uma pessoa com deficiência, que tem qualificação para estar ali e só precisa de estímulos. Sinto-me muito animado ao lado de gente com espírito tão amoroso, lúcido e sensível. É isso o que se espera de jornalistas: apoio à diversidade do espaço público.

Inclusão social não é tarefa fácil. As preocupações jurídico-sociais com acessibilidade dos prédios e das ruas começaram há poucas décadas, o que significa que os grupos da sociedade que resolvem enfrentar o desafio de agregar a pessoa com deficiência devem, num esforço conjunto com esta, lidar com os resquícios dos percalços deixados por épocas em que a pessoa com deficiência não era tratada como cidadã com direitos iguais.

Isso acontece, por exemplo, com o prédio da Folha, que possui banheiros e elevadores inadequados, restaurante e lanchonete inacessíveis e não há nenhum carro adaptado para que a pessoa com deficiência saia da Redação às ruas sem precisar deixar a cadeira de rodas, para produzir reportagens. 

Circundando a Folha, a padaria Escadinha, com um degrau e mesa self-service longe do alcance, também dificulta a independência. As ruas que levam ao restaurante Transa ou ao Shopping dos Motoboys também apresentam pontos nevrálgicos. 

Mas é de louvar a mobilização para mudanças no prédio acontecerem, e são poucas as atividades de que deixo de participar. A Editoria de Treinamento está dando uma aula de inclusão social da pessoa com deficiência no mercado de trabalho, ao prover algo essencial à comunicação entre pessoas: compreensão.

Da minha parte, retribuo empenhando-me ao máximo, com prazer e alegria, para aprender com a convivência e me adaptar ao ritmo intenso. Poderia ficar em casa, curtindo meus livros e filmes. Mas, como recomenda Rainer Maria Rilke, em “Cartas a um jovem poeta”, “precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência”.

Assim, a minha presença, acredito, representa um ato político de resistência às opressões que obstruem a inclusão das pessoas com deficiência na sociedade e, através da força poética da palavra, uma forma de fazer vigorar esse assunto com mais profundidade nas pautas da imprensa.

Às vezes, nos meus delírios imaginativos, sinto-me como o centauro do poema: esforço-me de modo sobre-humano para tornar-me apenas... humano. Mas vale a pena, quando se está vivendo neste sonho de realidade tão fantástica.

(*) a ilustração deste post encima o blog de outro trainee inesquecível, meu amigo JAIRO MARQUES

Veja aqui todos os integrantes da 46ª turma de treinamento
Por que eu selecionei um trainee cadeirante?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h22

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Sempre pedir licença; nunca deixar de entrar

Meu trainee CHICO FELITTI teve uma lição de jornalismo hoje na sabatina do prefeito Gilberto Kassab. A professora foi a colunista da Folha MÔNICA BERGAMO. Ele explica:

“O” approach

Ok, a expressão é das piores, mas sintetiza bem a lição aprendida nesta manhã.

Ouvimos desde cedo na faculdade que extrair do entrevistado informações que interessem ao leitor é um dos papéis fundamentais do jornalista. Pode parecer coisa simples, mas nem sempre é o caso. Foi o que provou, na prática, a sabatina do prefeito Gilberto Kassab, hoje.

O prefeito foi para o palco do teatro Folha pronto para cumprir seu papel de “homem comedido”, como se autodefiniu e declarou ser do gosto do paulistano. Em uma palavra, ele foi liso.

Evitou criticar os adversários, fugiu de perguntas fortes como “quais são as qualidades de Paulo Maluf, para o sr. tê-lo apoiado em três eleições?” e respondia aos questionamentos sobre sua gestão com um discurso digno de release de partido.

Recusou-se a dar notas para os governos Marta e Maluf –-disse apenas que reprovaria os dois e aprovaria o seu. Ignorou sumariamente seu concorrente Geraldo Alckmin, só fazendo questão de atingi-lo indiretamente ao tentar se aproximar o máximo possível de José Serra (“um dos maiores políticos vivos”).

Nada de declarações que enchessem manchetes –-exercício que a Ana havia delegado, inclusive.

Sempre pedir licença, mas nunca deixar de entrar

Era o momento de insistir. Foi o que fez Mônica Bergamo, uma das entrevistadoras. A colunista deu um banho de reportagem ao quebrar a carapaça do marketing de Kassab, sem em nenhum momento deixar a educação de lado.

Como diria Caetano, o esquema é “sempre pedir licença, mas nunca deixar de entrar”. Foi o que fez: se achava que era adequado completar uma pergunta ou aproveitar um gancho, não hesitava e se fazia ouvir pelo microfone, aproveitando “o” momento para colocar a dúvida.

Munida de um dossiê sobre o político, levantava seu passado político para checar a coerência das afirmações que faz hoje em dia. Chegou a questionar até a admiração sem tamanho que Kassab nutre por Serra, suscitando o caso dos ataques do PCC. Na época, Alckmin havia saído para concorrer à Presidência e Lembo governava o Estado. O governador Lembo, do mesmo DEM de Kassab, queixou-se de ficar com o abacaxi de lidar com a crise de segurança pública sozinho, sem ter de Serra nem um telefonema para saber como iam as coisas, como afirmou para Bergamo em 2006. Nesse momento, Kassab titubeou. A pergunta não estava no script –-o que aumenta seu valor significativamente.

Durante essa e outras passagens tensas do debate, a colunista-repórter sorriu o tempo todo. Não fez cara feia e nem teve de alterar o tom de voz suave para chegar aonde queria.

Moral da história: ter traquejo, saber insistir (muito) sem ser invasivo e não corar com as perguntas mais cabeludas são qualidades do grande repórter.

Será que dá para ensinar, ou só caindo na água para aprender a nadar?

PS: Outro exemplo de reportagem veio de uma senhora da platéia. Por escrito, disse admirar o governo de Kassab, ser aluna de um curso de computação para idosos que ele implementou e completou o comentário perguntando o estado civil do democrata. Corado, ele declarou ser solteiro. Outro pergunta que certamente fugia ao roteirinho na cabeça do candidato.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h20

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Trabalho de repórter

Se seu irmão menor diz que seu cachorro se afogou no tanque e sua irmãzinha diz que ele está só nadando, o que é que você faz?

Vai correndo até a lavanderia olhar, não é?

É o trabalho mais útil que um repórter pode fazer quando um diz A e outro diz B. O governo afirma a greve é um fracasso e o sindicato diz que é sucesso total? A reportagem não precisa se limitar a registrar as duas versões. Nem deveria. Para o leitor, o que importa é saber o que está acontecendo mesmo. E, neste caso, se a delegacia do seu bairro parou ou não.

Por isso, como diria o Juca Kfouri, troféu Osmar Santos para o reportariado do caderno Cotidano de hoje:

E é também um bom exemplo de integração entre impresso e on-line: como a lista completa seria muito extensa para colocar no papel, ela está na internet.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h45

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Como fazer perguntas?

Fotos: Matheus Magenta

Paulo Maluf, o primeiro sabatinado

Pensar sobre isso foi a missão que dei aos trainees ontem. E MATHEUS MAGENTA fala sobre suas conclusões:

Como elaborar perguntas para um entrevistado? E, pior, o que fazer quando ele já vem preparado e ensaiado para as mais diversas questões?

Ontem o exercício para o treinamento era entender a dinâmica das perguntas feitas em uma sabatina --nesta semana e na próxima, Marta Suplicy, Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin e Paulo Maluf participarão do ciclo da Folha. O primeiro deles foi o ex-prefeito Paulo Maluf, entrevistado pelo editor de Cotidiano da Folha, Rogério Gentile, os colunistas da Folha Gilberto Dimenstein e Mônica Bergamo, e o editor responsável do Agora, Nilson Camargo.


O candidato e seus entrevistadores Gentile, Camargo, Dimenstein e Bergamo (da esq. para a dir.)

Nossa tarefa era observar e refletir: há pesquisa prévia para as perguntas? As respostas são objetivas e resultam em informação, ou o entrevistado é escorregadio e não responde a nada?

Foi interessante observar como se posicionam os entrevistadores.

Dimenstein, por exemplo, não demonstrou ter preparado uma pergunta específica, mas estava com o senso crítico apurado para perguntar de acordo com o caminho que a sabatina tomava.

A meu ver, isso pode favorecer uma atitude evasiva do entrevistado. Para dar uma idéia, uma pergunta como "Se for eleito, o senhor vai dar dinheiro para a Parada Gay?" gerou uma resposta tão ampla que o Maluf falou, na mesma resposta, "eu gosto é de mulher, é só perguntar para ela" e "Vou avaliar se é bom para a cidade no quesito turístico".

Os outros três entrevistadores foram pelo caminho oposto. Mônica Bergamo, por exemplo, foi no fundo do baú, mais precisamente em 1996, e pediu ao Maluf que revelasse os nomes dos deputados que supostamente aceitaram propina para votar a favor da emenda da reeleição durante o governo FHC, já que ele desafiou a candidata Soninha, num debate televisivo, a ser corajosa e revelar o que ela sabia sobre um suposto esquema de corrupção na Câmara dos Vereadores de São Paulo.

Para mim, a lição que ficou foi a de pensar em perguntas baseadas em fatos, números oficiais, estatísticas, que um entrevistado preparado não tenha imaginado que você as faria, para que ele não tenha como ser evasivo nas respostas.


As trainees RENATA do AMARAL e CATHARINA NAKASHIMA assistem, observam e anotam suas conclusões no laptop, na platéia do Teatro Folha

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h45

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Um exercício do treinamento

Um exercício do treinamento

Os trainees andam quietos por aqui, não é?

É que  na segunda eles passaram o dia todo apurando uma pauta de serviço que eles mesmos haviam proposto --quando estiverem prontas, a gente conta para os leitores.

E ontem eles tiveram uma aula de como usar os laptops para escrever matérias e transmiti-las da rua: hoje eles foram assistir à sabatina do Maluf com a tarefa de mandar um texto de lá (por enquanto, nove conseguiram completar tudo. Ainda não sei o que houve com os outros, pois eles não voltaram do almoço).

No fim da tarde de ontem, o exercício foi escrever no laptop um texto com base em algumas informações, enviá-lo e, já no terminal da Redação, fechá-lo.

O objetivo era não só treinar o uso da máquina, mas escolher o que iria para o texto final e em que ordem (hierarquizar). Quem quiser tentar encontra no site do treinamento as informações que eles receberam. Que lide vocês fariam? Façam suas versões nos comentários, e depois eu mostro as deles.

Só para lembrar algo muito importante: não tenham medo de "errar". A idéia do blog é refletir, discutir, apontar soluções. Ninguém vai "corrigir" nem julgar as sugestões de vocês.

Depois de fazer sua sugestão --ou para aqueles que não se animam a arriscar...--, clique aqui para checar os lides que os trainees fizeram no exercício.

MEU COMENTÁRIO

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h46

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Eleições e Justiça

Eleições e Justiça

Abraji e MPD (Ministério Público Democrático) fazem curso gratuito sobre Justiça Eleitoral e outras relações entre eleições e Justiça --como processos por calúnia, por exemplo.

Será no dia 24/9, em SP.
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h35

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Com que roupa eu vou?

Meu leitor Disonei, de Curitiba, pergunta que tipo de roupa usar numa entrevista de contratação:

Um jornal de Maringá publicou uma vaga para correspondente em Curitiba.

Eu e outras 15 pessoas fomos chamados para uma prova e entrevista. A minha dúvida foi em como me vestir para a tal entrevista. Pensei em ir com roupa social, mas como não tenho costume de usá-la, achei que ia ficar preso e acabei indo com um jenas básico.

Quando cheguei lá, a maioria estavam de social e alguns com terno. Aí, sim, fiquei constrangido. Mas fiquei na minha.

Não fui contratado, mas acho que não foi devido à roupa. Mas ficou a pergunta: afinal, como nós, homens, devemos nos vestir para uma entrevista disputando uma vaga de repórter?

Êba, chegou meu dia de Danuza Leão (risos)!

Só que a pergunta pe difícil de responder, já que vai variar muito de lugar para lugar, de entrevistador para entrevistador, de vaga para vaga.

Dentro de um mesmo jornal, como a Folha, por exemplo, há variações. Na Redação em São Paulo ninguém usa terno, a não ser que tenha entrevista marcada com o governador ou uma reunião com o chefe ou outra pessoa de cerimônia. Já em Brasília, terno é uniforme do dia-a-dia, até mesmo para os repórteres-fotográficos.

Também vai depender da personalidade de quem vai entrevistá-lo.

Eu não sou capaz de te dizer que sapatos usavam os trainees com quem passei a semana inteira (tá certo, confesso que reparei no tênis do Chico um dia. Mas ela era VERDE, LARANJA E AMARELO FOSFORESCENTES. E, mesmo assim, só reparei à tarde ).

Com certeza, haverá outros que reparam e dão importância para o tipo de roupa.

Na dúvida, acho que calça (pode até ser jeans, mas "decente" --sem rasgos nem hiperbatida), cinto, camisa e sapato servem para qualquer ocasião.

Por fim: não fique chateado por não ter sido selecionado desta vez. Insista.

Também pode ser legal você tentar descobrir com o entrevistador no que precisa melhorar para ter chances numa próxima vez. E aproveitar para se oferecer  para fazer frilas ou cobrir férias, caso eles precisem.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h22

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Personagens difíceis

Personagens difíceis

Na semana passada publiquei um texto da Cristina sobre sua busca fracassada por uma grávida que tivesse DST e topasse dar entrevista.

Ela contava que seguiu a cartilha, mas deu com os burros n´água.

Fiquei de pedir a LARISSA GUIMARÃES, repórter da Sucursal de Brasília, que contasse como conseguiu encontrar uma personagem. E vai aí, então, a resposta:

É fácil ir às ruas e achar alguém que reclame do preço dos alimentos. Também não é complicado procurar alguém que fale sobre como educar os filhos. Agora, encontrar uma mulher grávida com sífilis, e que queira falar sobre isso, não é muito simples.

Na última sexta-feira, me deparei com essa tarefa: achar uma grávida com DST para ilustrar minha matéria. Nesse tipo de situação, quanto menor for a distância entre o repórter e o personagem, maiores são as chances de dar certo, acho. Se há muitos intermediários _assessoria de imprensa, diretora do hospital etc_, o personagem se inibe e não se anima a falar. Então, logo que cheguei na Redação, entrei em contato com as assessorias de cinco hospitais públicos aqui de Brasília. Pedi para falar direto com as equipes de enfermagem. Lá pela quarta tentativa, consegui contato com a enfermeira-chefe de um hospital. Ela trata direto com as grávidas e sabe as particularidades de cada caso.

Tentei explicar o máximo possível. Comecei pedindo "ajuda para uma matéria", e não "um personagem". Falei que era uma pesquisa sobre DST e Aids e tentei puxar um bate-papo mesmo. Perguntei como era o cotidiano no hospital, se chegavam muitos casos, se ela achava importante o jornal publicar matérias sobre isso e informar as pessoas. Depois dessa aproximação, disse à enfermeira que seria ótimo mostrar um caso real. Deixei claro que não iríamos expor a grávida _não haveria nome ou qualquer outro dado que a identificasse.

De cabeça, ela lembrava de um caso de uma gestante com sífilis. Pedi que ela desse uma olhada nas fichas dos pacientes do serviço pré-natal, e a enfermeira encontrou mais um caso no perfil que eu procurava. Ela telefonou para as duas grávidas e perguntou se elas topariam falar comigo. Pedi que ela explicasse para as duas mães de uma forma bem clara, bem didática.

No início da tarde, o marido de uma das grávidas me ligou. Disse que ele e mulher haviam recebido o telefonema da enfermeira. O marido gostou da idéia de mostrar a experiência deles (desde que assegurado o anonimato, claro), mas a grávida estava com medo de falar e queria distância.

Perguntei para o marido da gestante se eu poderia bater um papo com ela. Só conversar. Se mesmo assim ela não topasse falar, sem problemas. Ele deu sinal verde.

Logo que C.S. atendeu, percebi que ela estava bastante constrangida. Tentei conversar com naturalidade _perguntei sobre o bebê, se ela estava sentindo enjôos, como estava suportando o calor e a baixa umidade aqui em Brasília. Aos poucos, fomos conversando e nos entendendo. Acho que o fato de eu ser mulher ajudou também a criar uma proximidade.

Depois de uns 15 minutos, ela disse que podia participar da matéria. Pedi para fazer uma foto só da barriga dela, mas aí C.S. quase desligou o telefone. Falei: "Ok, sem fotos, vamos conversar mais". Daí para frente ela se soltou mais, e eu fui avançando também. "Usa camisinha?"  "Teve outros namorados?" Perguntei (quase) tudo o que eu queria.

Em casos mais complicados, como esse da grávida com DST, acho que a abordagem é mais importante do que telefonar para muitos lugares. É melhor gastar mais tempo conversando do que fazer vários contatos rápidos. Existe o fator sorte também. Às vezes, fazemos várias tentativas, por diversos meios, mas o personagem não aparece. É do jogo. Procurar personagem dá trabalho, mas acho que "tempera" a matéria. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h18

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Reportagem: modo de fazer

Na sexta de manhã o "professor" da turma foi um trainee que acabou de terminar o programa.

Parece estranho? Pois não é. Eu que tenho 20 anos de profissão também aprendi com a maneira dele organizar seu trabalho de apuração.

Ele dividiu seu método com os trainees, e a RENATA do AMARAL divide agora com vocês, leitores do blog:

Tivemos uma conversa com o recém-trainee BRENO COSTA sobre reportagem na sexta-feira. Ele criou uma metodologia própria que inclui as fases de pauta, planejamento, apuração e preparação do texto. Confira abaixo as dicas do repórter da Agência Folha:

» Pauta

Uma das maiores dúvidas dos jornalistas iniciantes é como ter boas idéias de pauta. Para Breno, elas podem surgir de quatro maneiras:

1. Observação: pautas podem cair no seu colo quando você estiver passeando pela rua, mas é preciso estar atento para isso acontecer.

2. Reflexão: pensar sobre assuntos diversos pode render bons temas para matérias.

3. Acompanhamento: é quando o repórter se organiza para seguir determinado assunto até que ele se torne uma pauta. Paciência e disciplina são necessárias nesse caso.

4. Fontes: quando bem cultivadas, podem oferecer boas sugestões de matérias. O único problema é que repórteres com pouca experiência ainda não contam com uma boa agenda de fontes.

Breno sempre se faz três perguntas para checar se a idéia é boa mesmo: qual o objetivo da pauta? Que benefícios ela traz pro leitor? Quem pode ser prejudicado pela reportagem? Dependendo das respostas, é hora de avaliar se vale a pena levar a apuração adiante.

Quanto aos tipos de pauta, ele também propõe uma classificação - sempre deixando claro que se trata de categorias que ele criou e que cada jornalista pode inventar suas próprias:

* Histórica - Baseada em fatos históricos.

* Avaliação/Balanço - Retoma fatos passados e procura checar o que aconteceu desde então.

* Denúncia - Nem precisa explicar, né?

* Fait-divers - Mostra fatos curiosos, mas sem grande importância. "Companhia aérea seleciona carecas para anúncio na cabeça na Nova Zelândia" é um bom exemplo.

* Explicativa - Serve para esclarecer o leitor sobre algum assunto, como a matéria "Saiba detalhes sobre a maior máquina já construída pelo homem".

* Retrato/Contextual - Funciona para apresentar o contexto de determinada situação.

* Personagem/Perfil - Geralmente apresenta um personagem, mas é possível fazer perfis de outras coisas, como cidades.

* Serviço - Oferece dicas práticas para o leitor. A matéria "Desinformação aumenta queixas sobre desbloqueio de celular" é um exemplo.

Por fim, Breno dá uma sugestão que parece boba, mas é indispensável: andar sempre com papel e caneta para anotar idéias, pois elas podem surgir a qualquer momento. Palavra de quem já conta com um banco de mais de 80 pautas na gaveta esperando para virar matéria.

» Planejamento

Pronta a pauta, é hora de programar todas as etapas. "Reportagem é 50% planejamento e 50% execução", afirma. No caso de matérias especiais, com mais tempo para produção, Breno recomenda que se faça tudo como se fosse para escrever um livro - é melhor sobrar material do que faltar! Para fazer a reportagem "Ex-cidade-modelo do Amapá agoniza", ele fez um roteiro do que gostaria de descobrir sobre os seguintes pontos:

* Números: tentar sempre aproximá-los de quem vai ler. "É melhor dizer que você cruza a cidade em 35 minutos do que falar que ela tem 40 quilômetros quadrados, pois isso não quer dizer nada para o leitor", diz Breno.

* Documentos: ajudam a construir uma base para a matéria.

* Contextualização: engloba todas as informações de fundo da história.

* Declarações: definir com quem falar para ter boas aspas e enriquecer o texto.

* Detalhes: citar casos específicos e descrever situações ajudam a dar concretude à matéria.

* Rosto: buscar personagens que tornem o texto mais interessante.

* Inside: interagir e colocar-se dentro da situação. No caso da reportagem citada, Breno tentou descobrir como era a vida da cidade tentando passar alguns dias como se fosse um morador do local.
 
» Apuração

Antes de tudo, Breno sugere pesquisar matérias anteriores sobre o tema e vasculhar a web para encontrar mais informações. (Aproveite para conferir as dicas de GUSTAVO VILLAS BOAS e MARCELO SOARES sobre como fazer buscas mais precisas.) Depois, é seguir o que ele chamou de "tática do carretel" e ir puxando dos entrevistados o que for necessário.

» Preparação do texto

Antes de escrever, categorizar o material colhido durante a apuração em tópicos facilita o trabalho. "A edição já começa neste momento", explica. Em seguida, Breno costuma destacar o que não pode faltar na redação final. A última preparação é criar um esqueleto do texto, com a seqüência lógica das informações. Todo esse esquema pode parecer complicado ou trabalhoso, mas serve para facilitar a vida de quem estiver perdido num mar de informações aparentemente desconexas.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h16

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De olho nos ''millenials'', mas com ressalvas

Millenials são os garotos que estão chegando agora às Redações --ou seja, vocês, leitores!--, conta FABIO CHIOSSI, nosso enviado especial ao congresso do Poynter:

Sobre gerações e generalizações

Foi-nos apresentado no seminário do Poynter Institute, na Califórnia, uma pesquisa sobre diferenças entre gerações: quais as preferências, crenças, motivações etc. de três diferentes gerações. São elas o "Baby boomers" (nascidos entre 1945 e 1964), a dita "Geração X" (nascidos entre 1965 e 1976) e os "Millenials" (1977-1996).

O objetivo da apresentação era nos munir de conhecimento sobre esta última geração, que está entrando no mercado de trabalho, e nos equipar para resolver potenciais conflitos geracionais no ambiente de trabalho. Algumas das conclusões do estudo, feito pela consultoria Frank N. Magid Associates Inc., foram que os "Millenials" gostam dos pais e são otimistas; os "X" são pragmáticos e os "Boomers" são individualistas.

Uma pesquisa assim pode causar problemas nas mãos de um jornalista descuidado, por dois motivos principais. Um deles foi mencionado na própria apresentação: os resultados são uma GENERALIZAÇÃO. Ou seja, como o que a pesquisa tenta medir varia muito de indivíduo para indivíduo, ela não oferece um retrato perfeito de absolutamente todos os indivíduos de cada geração.

E isso deve estar claro para as pessoas que ficarão sabendo da pesquisa por meio do texto jornalístico. É devido a essa generalização que as pesquisas eleitorais, por exemplo, têm a margem de erro. E por isso essa margem deve sempre ser informada.

Outra particularidade da pesquisa que poderia causar estragos diz respeito ao fato de ela ter sido feita nos EUA, de o universo dela ter sido uma amostra só com pessoas que vivem nos EUA.

Explico: crenças, preferências, motivações são fatores que variam muito conforme o ambiente _social, político, econômico e familiar_ em que vivem os entrevistados. Assim, o que esse levantamento revela sobre os EUA não se aplica, pelo menos em princípio, ao Brasil ou ao outros países.

Isso tudo nos revela um ponto importantíssimo quando se pretende noticiar o resultado de pesquisas ou incrementar uma notícia com dados dela: devemos estar atentos às particularidades tanto do universo (neste caso, pessoas que moram nos EUA) quanto das variáveis (aqui, preferências, crenças etc.) que compõem o levantamento. Caso contrário, a matéria pode atribuir erroneamente à pesquisa informações que não se podem extrair dela.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h20

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