Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Congresso de literatura comparada na USP

Congresso de literatura comparada na USP

XI Congresso Internacional de Literatura Comparada será na FFLCH/USP

O Congresso será realizado pela ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada) do dia 13 ao 17 de julho (inicialmente divulgado para 13 a 19 de julho, o evento teve as datas retificadas pela FFLCH). Englobará 82 simpósios, além de duas grandes conferências diárias acompanhadas por diversas mesas-redondas. Seu tema é "Tessituras, Interações, Convergências". O tema geral do congresso proporcionará reflexões e discussões sobre as relações entre literaturas, artes e saberes em diferentes direções e modalidades, a partir da perspectiva do atual mundo globalizado e das diversas cartografias literárias, decorrentes das relações políticas entre países e comunidades específicas.

As Conferências
Alfredo Bosi e Fredric Jameson serão os conferencistas do primeiro dia. O primeiro falará sobre "As máscaras do narrador machadiano". O segundo discorrerá sobre "Realismo e afeto".

A vida e a obra de Antonio Candido, fundador da Área de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, constituirá o tema da conferência de Walnice Nogueira Galvão. Cristóvão Tezza e Martin Kohan, escritores e professores universitários, também estão entre os conferencistas, além de Ismail Xavier, critico de cinema.

O programa de conferências se completa com a participação de Tiphaine Samoyault, professora do Departamento de Literatura Comparada da universidade de Paris VIII, também escritora e crítica literária, e de Henry Schwarz, da Georgetown University.

Mesas-Redondas
Machado de Assis, Graciliano Ramos, Vieira, Mário de Andrade e Osman Lins serão temas de mesas-redondas compostas por docentes brasileiros e estrangeiros.


Mais Informações - www.abralic.org ou www.fflch.usp.br

A presidente da ABRALIC é a prof. Sandra Nitrini, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.

Serviço de Comunicação Social - FFLCH/USP
tel.:3091-4612 ou
email: comunicacaofflch@usp.br, com o assunto ?XI Congresso

Em julho, o blog continuará a ser atualizado por Fabio Chiossi, editor-assistente de Treinamento da Folha. Comentários serão publicados normalmente. Se tiver dúvidas ou sugestões, basta escrever nos comentários ou mandar um e-mail para novoemfolha.folha@uol.com.br

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h50

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Que livro você está lendo?

Conte aqui.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 00h08

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Um repórter premiado pode ter começado como você

Um repórter premiado pode ter começado como você

Esta é para fechar a série de entrevistas com o RAPHAEL GOMIDE (na verdade, duas entrevistas, uma longa que dividi em três e outra mais curtinha pra falar sobre o caso dos repórteres de "O Dia" --links para as outras estão no pé deste post).

Neste trecho, Raphael fala um pouco de sua carreira. Escolhi o assunto porque sabia que lá atrás estavam duas seleções para o programa de treinamento. Na primeira, ele não passou. Como não passaram outros candidatos na semana passada, que devem ter ficado muito chateados. Mas nenhum argumento pode ser melhor para consolá-los que olhar para o excelente trabalho do Raphael, trabalho premiado, inclusive: não passar numa seleção não é veredito sobre nossa capacidade nem sobre nosso futuro. É só o resultado daquela seleção.

Na segunda ele passaria, mas perguntei a ele se não preferia começar direto a trabalhar em Esporte. Ele quis. O jornal ganhou um ótimo repórter e eu perdi a chance de dizer "Foi meu trainee!".  Mas tudo bem, não dou o braço a torcer: "Foi meu semi-trainee", ou "Fui eu quem viu primeiro"

Um último comentário antes de deixá-los com a entrevista: esta história do menino morto numa operação atrapalhada da PM carioca mostra como Raphael estava certíssimo em querer investigar, lá no treinamento, por que essa é a polícia que mais mata e mais morre no Brasil, não acham?

Novo em Folha - Conta pra gente como você começou como jornalista.

Raphael Gomide - Comecei numa rádio, a Brasil/LBV, cobrindo esporte. Estava no quinto período. Houve uma prova para o Lance! e fui chamado para fazer um caderno especial, o "Lance escola", para escolas municipais. Também fazia frilas lá.
 
Novo em Folha - Se não estou enganada, você chegou à Folha numa seleção do programa de treinamento. Não foi incluído na turma do curso, mas começou em seguida a trabalhar para Esporte --algo que costuma acontecer com freqüência nas seleções. Falo desse assunto porque muita gente fica preocupada quando não é chamada num concurso ou não passa numa prova, e sempre procuro mostrar que há utras opções, outras formas de começar a trabalhar. Você pode contar um pouco como foi?

RG - Fiz a prova e participei da semana de palestras, mas estava muito cru, mesmo. Não passei, mas minha ficha veio para o Rio e comecei a fazer frilas aqui. Depois participei de outra seleção e apareceu a opção de fazer o treinamento ou começar a trabalhar em Esporte.
 
Escolhi Esporte. Fiquei dois meses, vim para a sucursal do Rio como contratado, fiquei um ano e fui demitido.
 
Novo em Folha - Por quê?

RG - Houve um corte grande, era a época da crise dos jornais. Eu não estava formado ainda, era o menos experiente, não tinha família para sustentar. Era quem tinha que sair, mesmo. Havia dois repórteres de Esporte, decidiram cortar um. Eu foi a "gordura".
 
Novo em Folha - Você ficou preocupado?

RG - Fiquei muito aflito. Achava que estava no melhor lugar para trabalhar, tinha um salário razoável, achava que ia melhorar, sempre fui confiante, e de repente estava desempregado. Eu dava aula de inglês e continuei dando aulas, mas foi um baque. Você leva um susto.
 
Novo em Folha - e o que você fez?

RG - Em um mês tive quatro convites. Vinte dias depois de demitido, estava já trabalhando no "JB".
 
Novo em Folha - mas você mandou currículos? Avisou os amigos que tinha saído da Folha?

RG - Não. Mas o Beraba [Marcelo Beraba, hoje diretor da sucursal fluminense do "Estado", à época na Folha] falou com o MAG [Marcos Augusto Gonçalves, hoje editor da Ilustrada, à época diretor do "Lance!"] e, como eu era de esporte, conversei com ele, com Globoesporte.com, a Efe. Mas na Efe era uma vaga de tradução.
 
Aí o Plínio [Fraga, hoje diretor-adjunto da sucursal do Rio da Folha, à época editor de Política do "JB"] me chamou. 

Novo em Folha - Você foi cobrir política?

RG - Sim, já estava meio cansado de esporte. Fiquei no "JB" um ano e dois meses.
 
Novo em Folha - Por que saiu?

RG - O jornal estava muito sem estrutura, e me chamaram para o "Estado".
 
Novo em Folha - Para cobrir o quê?

RG - Cidades. Na época houve os atentados à sede do governo, uma rebelião grande em Bangu 1, onde mataram sei caras. Caí nesse bololô, trabalhando pra caramba. Não dominava essa cobertura e não era o que eu gostava de fazer, essa cobertura do dia-a-dia.
 
Cinco meses depois me chamaram para "O Dia". Eu tinha preconceito contra "O Dia", achava que era um jornal popular. Já tinha trabalhado na Folha, no Estadão, no JB, e ia para "O Dia"?
 
Mas era uma proposta irrecusável, um aumento de 60% e um cargo de repórter especial.

Novo em Folha - E o que achou?

RG - Foi um período maravilhoso. Cobria política, o noticiário cresceu muito, fomos muito bem na cobertura do propinoduto, pegando o viés do dinheiro mandado para o exterior. Também fizemos uma ótima cobertura da Assembléia.

Novo em Folha - qual a reportagem que mais gostou de fazer?

RG - Uma reportagem sobre trabalho escravo no Pará. Fiquei 12 dias lá. Ganhei dois prêmios [O prêmio internacional de direitos humanos da Anistia Internacional e menção honrosa no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, no RS].
 
Novo em Folha - Achava que "O Dia" era um jornal mais local. Mandaram você para o Pará?

RG - No meu primeiro dia, apresentei a pauta e a resposta foi: "Não tem trabalho escravo no Rio, não?" (risos). Pensei "ih, estou ferrado!" (risos).
 
Mas seis meses depois, quando já tinha conquistado espaço, me mandaram para o Pará.
 
Novo em Folha - De onde surgiu a pauta? Alguém te deu uma dica?

RG - Tive a idéia lendo um livro sobre uma entidade direitos humanos.
 
Ficamos lá 12 dias e a matéria saiu muito bem, com fotos muito bonitas do Léo Correia.
 
Teve para mim uma repercussão parecida com a dessa reportagem sobre a PM. Muita gente ligando, comentando.
 
Foi um período muito bom para mim, ganhei oito prêmios mensais. Mas depois caiu o espaço para política, mudou a direção.
 
Novo em Folha - foi quando você foi para os Estados Unidos? Como você soube da bolsa do WPI

RG - Estava muito desestimulado. Tive seis matérias embargadas por pressões políticas no período de um mês. Não podia falar mal de um monte de gente, do presidente da Assembléia, do prefeito, do Lula, do Lindberg Farias (prefeito de Nova Iguaçu).
 
Sempre quis fazer mestrado na Inglaterra. Vi esse programa, achei o mais adequado, e, tendo ganhado o prêmio da Anistia Internacional, foi mais fácil ser selecionado. Foi ótimo. Abriu muitas portas.
 
Novo em Folha - Esse programa é muito legal, não é? Abriu portas para quê?

RG - Para várias coisas, até para a profissão e para ser selecionado em outros cursos de jornalismo. Uma coisa vai ajudando a outra. O cara vê que você é interessado, quer aprender, se aprimora.
 
E eu quero mesmo, eu me esmero, quero aprender essas coisas todas.
 
Novo em Folha - Você se demitiu do "Dia"?

RG - Não, fiz questão de mandar matérias, colunas, fiz um blog (http://raphaelgomide.blogspot.com/). Mandei propostas de pauta, matérias, mas não deram bola. Vi desinteresse, me senti desestimulado.
 
Novo em Folha - Você tinha compromisso de ficar lá quando voltasse?

RG - Não, não houve essa conversa. Quando voltei a Folha me chamou e eu fui.
 
Novo em Folha - para cobrir o quê?

RG - Política e matérias legais, mas de tudo um pouco. Em sucursal você tem que fazer de tudo. Não fui para cobrir segurança.
 
Novo em Folha - Qual seu projeto profissional? Quer continuar como repórter ou pensa em outras atividades?

RG - Quero ser repórter. Quero ser repórter especial, fazer só matéria especial, o que é impossível pra mim no momento (risos). Também faço o dia-a-dia, é preciso fazer de tudo.
 
Novo em Folha - e a reportagem no dia-a-dia acrescenta alguma coisa?

RG - Não tenho dúvida, claro que sim. A do acordo para devolução das armas [que deu a ele o prêmio Embratel] foi no dia-a-dia, assim como outras premiadas.
 
Na Redação você perde contato com a realidade. Na rua, vê coisas que chamam a atenção e dão pauta.

Novo em Folha - Acha que a cobertura de polícia no Rio é perigosa?

RG - É realmente perigoso. Operação da polícia vai ter tiroteio e, se você estiver na confusão, você é alvo.
 
Ultimamente tem havido também roubos de equipamento de jornalistas, intimidação.
 
Um colega foi pego numa reportagemm, puseram o fuzil na boca dele.
 
Se estiver sozinho, é um risco maior ainda. O ideal é fazer contatos em situações que não sejam de conflito e entrar com gente conhecida nas favelas.
 
Jornalista entrar em favela hoje é bem arriscado.
 
Eu não cubro o dia-a-dia, violência, tiroteio, não sou repórter de polícia, mas, se tiver que cobrir uma operação, só vou de colete à prova de balas.
 
Tem gente que diz que é frescura, mas tenho certeza de que protege mais do que não usar nada.
 
Defendo o uso de toda proteção possível.

Novo em Folha - uma jornalista que respeito muito, aí do Rio, com cargo de chefia, defende que não se entre nos morros em hipótese alguma. Você concorda?

RG - Durante tiroteio eu não entro. O risco de entrar não vale a pena. A reportagem tem que estar lá, mas não entrar com a polícia. Tem repórter que vai dentro do carro da polícia, mas acho temerário.
 
Mesmo do ponto de vista editorial, não vale a pena. Depois do tiroteio dá para apurar, não precisa estar junto.

Raphael conta seu método de trabalho
Raphael conta os bastidores da apuração da matéria sobre a PM
Raphael
indica livros sobre segurança
Raphael Gomide fala sobre
os limites da infiltração
Na seção
Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 23h38

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Fechamento

Mais um relato de minha recém-trainee CRISTINA MORENO DE CASTRO:
 
Acabou o programa de treinamento da 45ª turma.
 
Daí pensei em relatar aqui no blog um pouquinho de cada coisa que aprendi, de cada experiência vivida, do porquê eu agradeço todos os dias por ter sido selecionada pela Ana (sabe-se lá por quê...) há quatro meses.
 
Mas, para não escrever uma bíblia, e porque muitas coisas já foram relatadas no blog ao longo de todo o período, pensei em falar do fechamento do Novo em Folha, na última quinta à noite.
 
Antes de começar, é importante descrever a estrutura da sala de treinamento. É um lugar espaçoso, com seis computadores emparelhados de um lado e, a dois passos de distância, outros cinco de frente para eles. Sentados em cadeiras de rodinhas, vivemos em um retângulo aberto, onde um pode interagir o tempo todo com o outro.
 
 
Nos computadores bem ao centro da sala, a Ana e um diagramador liam os textos na paginadora. No retângulo ao lado, 11 trainees mudavam de cadeiras toda hora, lendo os textos uns dos outros, dando sugestões, ajudando a editar.  [Melhor que descrever, talvez, seja publicar as fotos que ela mesma fez:]
 
 
 
 
Sim! Lendo os textos uns dos outros, dando sugestões, ajudando a editar.
 
Sempre imaginei um fechamento de jornal desse jeito. Com uma equipe da mesma editoria, dando o melhor de si para que os trabalhos de todos saíssem impecáveis. Quem acaba primeiro, lê o do outro, ajuda a enxugar um título, cortar 12 linhas, buscar os erros.
 
O tempo parou na quinta à noite. Deu 20h, deu 21h, olha a pizza, deu 22h, 23h, "vamos fechar esse jornal, gente!", meia-noite, 1h, a adrenalina estava a mil, eu não tinha um pingo de sono, não tinha cansaço, só queria fechar nosso caderno especial.
 
Até que: "Está fechado, gente!".
 
Foi o que sempre esperei do jornalismo. Não sei se os futuros fechamentos serão assim, mas este eu já guardo com carinho. E abrir o Novo em Folha no dia seguinte, último do treinamento, saindo do forno, me trouxe uma sensação agradável, de missão de cumprida, de trabalho feito, de satisfação por ter saído tudo direito e por eu ter contribuído para um caderno tão lindão.
 
Não sei se eu já tinha sentido algo parecido em outros trabalhos que já fiz na minha vida – acho que não. (E olha que já trabalhei bastante).
  
O treinamento acabou, agora (se tudo der certo) vou a fechamentos outros, com outras equipes. Fecha-se também uma etapa muito querida da minha vida, mas bem registrada na minha memória, neste blog, nas milhares de fotos que tirei e, principalmente, em tudo o que pude aprender e que hoje faz parte de mim.
 
[ Obrigada, Ana! Obrigada, amigos da 45ª turma!  :)  ]

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h01

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O que é que você está lendo?

O que é que você está lendo?

No pé deste post bem legal que minha recém-trainee CRISTINA MORENO DE CASTRO escreveu, ela lança a sugestão: diga que livro você está lendo nos comentários.

Acho que é mesmo um bom momento --começo de férias!!!-- para atualizarmos nossa lista de livros indicados pelos leitores. A primeira lista, pra quem quiser ver, está aqui neste link. (Na seção "sugestão de leitura" há outras idicações).

Diga, portanto, que livro você está lendo e faça um breve comentário sobre por que ele pode ser útil a um jornalista. Quando eu voltar das férias, junto tudo num lugar só e republico aqui no blog.

Uma das disciplinas que mais me encantaram no curso de comunicação social foi "Sociologia da Literatura". O professor Ronaldo Noronha quis mostrar como podemos tirar um retrato da sociedade brasileira por meio dos livros de ficção.
 
Quatro obras nos ajudariam a entender o Brasil moderno, segundo escolha do professor Noronha:
 
- "O Guarani" (1857), José de Alencar
- "Triste Fim de Policarpo Quaresma" (1915), Lima Barreto
- "Macunaíma" (1928), Mário de Andrade
- "Viva o povo brasileiro" (1984), João Ubaldo Ribeiro
 
Em nossos dois últimos dias de treinamento, tivemos um curso com o professor Joel Rufino dos Santos. Sempre o associei a livros infantis, já que ele escreveu dezenas deles e pude ler alguns, que me deram um entendimento dos problemas enfrentados pelos negros quando eu ainda era criança.
 
De uma maneira muito mais superficial que a aula de Noronha (afinal, ele teve que espremer seis meses em seis horas), mas passando por uma literatura muito mais abrangente, Joel Rufino nos mostrou como esses quatro livros – e também "Grande Sertão: Veredas", "A Vida como ela é", "Memórias do Cárcere", "Dom Casmurro", "Quarto de Despejo" e muitos outros – ajudaram a construir a identidade nacional, e inclusive a unicidade lingüística no Brasil.
 
O mais importante: explicou como a literatura ajuda o jornalismo de várias formas. Algumas delas:
 
- A boa literatura desorganiza o sentido. O bom jornalismo também deve inverter lógicas impostas, para tentar trazer informação que não estava óbvia a toda a sociedade.
- Muitos livros, como os de Machado de Assis, Lima Barreto e Graciliano Ramos, tiram as máscaras da realidade, desconfiam do que é posto como verdade, muitas vezes pelas vias da ironia. O bom jornalismo também deve ser cabreiro.
- Tanto a literatura como a mídia ajudam a construir a comunidade nacional, dar corpo a uma identidade. Mesmo a língua é construída pelos processos da literatura e dos textos jornalísticos.
- Alguns livros dão um zoom numa realidade que poderia estar inalcançável ao jornalista. Quanto mais livros são lidos, mais a realidade nacional vai sendo absorvida e interpretada pelo jornalista, que também é um mediador importante do corpo social.
 
O professor usou várias obras como exemplo, mas pensei numa outra, que me marcou: o clássico modernista "Os Ratos", de Dyonélio Machado. O livro pinta um retrato da sociedade gaúcha nos anos 30, mas que bem pode ser transportada para realidades atuais, em outras regiões do país. Trata de um pé-rapado que passa o dia inteiro angustiado na tentativa de saldar uma dívida, e recorre a mil estratagemas para tentar conseguir uns trocados.
 
O professor fez várias provocações, suscitou algumas reflexões (uma delas, do colega Iago, sobre o imaginário que temos dos índios, muito influenciado pelo Peri e a Iracema de Alencar, ter sido construído porque os portugueses tiveram a sorte de ter entrado em contato com um tipo bem amigável de índios, que deslumbrou Pero Vaz de Caminha e ficou para sempre registrado em sua carta), mas a principal, que fica para este blog, é esta:
 
leia.
 
E não só jornais, livros-reportagem, biografias, livros de história, de filosofia, de não-ficção. A literatura de ficção também é ferramenta essencial para o bom jornalista.
 
 
[Sugestão: indiquem os livros que estão lendo agora aí na parte de comentários!]

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h41

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Método de trabalho

Método de trabalho

Quando entrevistei o repórter RAPHAEL GOMIDE sobre a matéria que ele fez no treinamento da PM do Rio, aproveitei para pedir que ele contasse como organiza normalmente seu trabalho:

Novo em Folha - Você já tinha feito reportagens "participativas", como esta?

Raphael Gomide - Uma que foi muito legal no JB, mais breve e bem menos complicada, foi chamada "O preço de um projeto em Brasília".
 
Era uma reunião de donos de agências de correios franqueadas. Estava prestes a vencer a concessão e ia ter a reunião no auditório do Barrashoppíng, para os concessionários juntarem dinheiro pra pagar a deputados federais pra manter o projeto.
Era uma reunião com mais de 200 pessoas, aberta para donos de agências. Fui, entrei, ninguém me perguntou nada. Eles falavam abertamente. Gravei tudo com o gravador dentro da bolsa.
 
Novo em Folha - Você sabia que a reunião seria para isso?

RG - Sim, eu sempre tive paciência de ouvir os malucos que ligam para a Redação. Uma mulher ligou e me contou da reunião. Acreditei e fui conferir.
 
Houve outras matérias que surgiram da minha paciência de atender ao telefone e ouvir.

Teve outra em que fiz um mês de curso preparatório para a prova da OAB, avisado por amigos meus do direito, segundo quem dois cursos davam as questões da prova no Rio. Vi que a prova de Direito Internacional tinha exatamente as quatro questões que o professor disse que cairiam, e algumas na de Penal. Em outro curso, a professora ensinava como colar na prova e recomendava a compra de um Código preparado com cola. Mas comecei a apruração na Folha e terminei no JB (com autorização da Folha), e o jornal achou que poderia render processo e não quis a matéria, que estava pronta.

Novo em Folha - Você tem publicado muitas boas reportagens na área de segurança, várias delas exclusivas. Há quanto tempo cobre essa área? Você decidiu se especializar em segurança? Ou foi decorrência do dia-a-dia? Como você se prepara para fazer essa cobertura? Com leitura? Procurando novas fontes? É possível se preparar ou só a experiência propicia aprendizado? 

RG - Sempre me interessei pelo tema. Aqui na sucursal, vim para fazer matérias interessantes, diferentes. Fui convidado porque era repórter especial no "O Dia".
 
Também vim cobrir política, área em que estava há algum tempo.
 
Fui vendo que sucursal tem dificuldades. Por não estar na sede, está longe do centro de decisão, de quem decide espaço e destaque.
 
Eu cobria política e ouvia que sucursal era cemitério de jornalista de política. Quando não tem eleição, precisa ter outro caminho, outro foco.
 
Sempre me interessei por polícia. Quer dizer, não pela cobertura do dia-a-dia, policial, mas por segurança, de uma forma mais ampla.
 
Comecei a fazer matérias, a ler livros, estudos, estatísticas, achei que poderia ter uma análise mais aprofundada.
 
Tentei sair do dia a dia, tento pegar alguns assuntos e fazer matérias mais extensas, como a do Bope (Tropa de elite do Rio mata 5 pessoas a cada 6 que prende http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1011200729.htm, que saiu junto com Major do bope ironiza morte de seqüestrador do 174 http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u344131.shtml), com dados concretos que pudessem sair da mesmice.
 
Novo em Folha - Para fazer esse tipo de matéria, precisa ter fonte, né? Por exemplo aquele furo que você deu de que houve acordo com os traficantes para devolver armas. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u124242.shtml)
 
RG - Eu tinha fontes na área militar, pela qual sempre me interessei. Em outras coberturas, fui criando fontes na área militar.
 
No Rio há muitos repórteres de polícia que são experientíssimos, mas a polícia não sabia de nada [naquele caso]. Quem sabia era o Exército.
 
E havia uma pessoa que confiava em mim e, naquela situação, estava no centro do furacão. Então ele falou tudo. Eu conhecia a pessoa certa, na hora certa, no local certo. Depois confirmei com outras fontes, vi documentos, tinha um detalhamento, uma apuração que segurava a matéria.
 
Novo em Folha - E qual a importância das fontes na hora de descobrir matérias?

RG - Muita coisa eu faço a partir de idéias minhas, e não de dicas passadas por fontes. Acho que não tenho tantas fontes assim, teria que ter muito mais.

Novo em Folha - Quando me contou sobre sua matéria de milícias, você disse que foi levado por uma fonte que havia entrevistado dois anos antes. Como é que você manteve contato com ela? É uma coisa que você sempre faz, de manter contato com as fontes?

RG - É. Esta fonte tinha trabalhado em gabinete parlamentar, era assessor de um políticio, e tinha contatos em vários lugares diferentes, no submundo, na polícia, na igreja universal, em milícia. Era alguém que eu sempre contatava quando tinha uma pauta, para me ajudar a entender um assunto ou achar outras fontes.

Novo em Folha - Qual é seu método de apuração? Como você constrói uma matéria?

RG - Quando tenho uma idéia, faço uma pesquisa sobre o assunto, vejo o que foi publicado, estudo o tema, falo com pessoas.
 
Novo em Folha - Você quer dizer que fala com elas ainda na pesquisa, antes da apuração, certo?

RG - Sim, ainda não tenho matéria. Pergunto o que elas sabem disso, como abordar o assunto. Onde consigo informação? Como acessar? Se tenho uma hipótese, peço ajuda aos pesquisadores de qual a melhor forma de levantar informação. Se der para fazer por amostragem, o que seria justificável? 

Novo em Folha - Você disse que estudou direito...

RG - Estudei direito um ano e meio na Uerj. Foi minha primeira opção. É a melhor faculdade de direito no Rio e é muito voltada para advocacia pública. Tenho amigos promotores, procuradores.
 
Novo em Folha - O Gaspari sempre diz que algumas das nossas melhores fontes são nossos colegas, quem a gente conhece na juventude, na universidade, que depois se tornam fontes.

RG - Claro, eu falo muito com esses amigos para me orientar, e também como fontes de informação.
 
Em outros casos eu vou lá e pergunto [diretamente à instituição, como no caso do Bope]. Peço a informação. Se você faz uma matéria equilibrada, baseada em fatos, mesmo que ela não seja favorável à fonte/personagem a tendência é ela te respeitar, te receber, te atender.
 
Novo em Folha - Você se preocupa em documentar a apuração?

RG - Tento sempre ter documento. Não tenho medo de ler processos, eu leio os processos, peço orientação para gente experiente. Estou acostumado a lidar com documentos, tento ter dados oficiais, estatísticas.
 
Novo em Folha - Você grava suas entrevistas?

RG - Gravo. Tudo. Até por telefone.
 

Novo em Folha - Há quem defenda que o gravador intimida a fonte. O que você acha disso?

RG - Parto do princípio de que, se a conversa é minha, não preciso avisar que estou gravando. O entrevistado sabe que sou jornalista e que é uma entrevista. Gravar é uma segurança para mim e para ele.
 
Pessoalmente também gravo. Se percebo que a fonte se assusta com o gravador, ponho ele sob o bloco, só para não ficar ostensivo.
 
Novo em Folha - Você sempre quis ser repórter?

RG - Não. Sempre tive atração por jornalismo, mas fiz todos os vestibulares para direito.
 
Novo em Folha - Se arrependeu da troca?

RG - Nunca. Todos meus amigos do direito ganham mais que eu, já começaram ganhando mais. Mas o que me encanta é ser repórter, me apaixona, eu adoro fazer isso.
 
Tem várias frustrações, mas quando faço uma matéria como essa é a melhor coisa que tem.

Raphael conta os bastidores da apuração da matéria sobre a PM
Raphael indica livros sobre segurança
Raphael Gomide fala sobre os limites da infiltração
Na seção
Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h46

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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