| |

Estou em férias até agosto.
Mas o blog, obviamente, não pára.
Meu novo assistente, FABIO CHIOSSI, vai publicar os comentários e os posts dos meus recém-trainees e de quem mais mandar sugestões, além de outros que porventura ele mesmo resolva escrever.
E eu mesma, como vocês podem confirmar aí embaixo, continuarei dando meus palpites... 
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h08
O que ler sobre violência
Indicações do meu colega RAPHAEL GOMIDE:
1. "O Espírito Militar", Celso Castro, Jorge Zahar Editor
2. "Quem vigia os vigias?", sobre pesquisas com policiais e experiências de ouvidoria e corregedoria.
Julita Lemgruber e Leonarda Musumeci, Ignácio Cano, ed. Record
3. "Mídia e Violência", MÍDIA E VIOLÊNCIA: COMO OS JORNAIS RETRATAM A VIOLÊNCIA E A SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL,
Silvia Ramos e Anabela Paiva
Página do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Universidade Cândido Mendes), muito boa a produção.
4. "História da Polícia no Rio de Janeiro -1808 a 1930- Uma Instituição a Serviço das Classes Dominantes" - delegado de PF Marcos David Salem, ed Lumen Juris
5. Jaqueline Muniz (A Crise de Identidade das Polícia Militares Brasileiras: Dilemas)
"Ser Policial é, Sobretudo, uma Razão de Ser": cultura e cotidiano da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, tese de doutourado
.
B. Outros sobre violência, Segurança Pública e sua relação com a imprensa, em geral (são só alguns que conheço, deve haver milhões de outros interessantes).
"Crianças do Tráfico", Luke Dowdney. Ed. Sete Letras
"50 anos de crimes" - org. Fernando Molica
Relatórios de Direitos Humanos (rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Anistia Internacional, Human Rights Watch)
"Nova Polícia, Inovações nas polícias de seis cidades norte-americanas", David Bailey, Jerome Skolnick
"Arquitetura contra o crime", Marcos Antônio Amaro, comandante da GM do Rio
"Polícia e Comunidade", ISP (Instituto de Segurança Pública)
Página do ISP, com estatísticas da criminalidade no Rio
"Cidade de Deus", Paulo Lins
"Abusado", Caco Barcellos
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h39
por CRISTINA MORENO CASTRO
Durante o rodízio dessas duas semanas, passamos por Cotidiano, Mundo, Fotografia, Agência Folha, Folha Online (Mundo e Cidades), além de fazermos nossa pauta especial para o Novo em Folha. Em cada editoria, tipos de pessoas, dinâmicas e aprendizados totalmente diferentes. No fim do dia, todos tivemos que refletir sobre o que aprendemos, que pode ser muita coisa ou quase nada, dependendo do dia no lugar. Em resumo, listo abaixo alguns dos meus aprendizados. Está no imperativo assim, mas são dicas para todos nós lembrarmos e relembrarmos. 1º dia: Especial: - Nunca subestime as histórias que te contam, mesmo se for seu amigo reclamando numa mesa de bar. Pode haver uma pauta escondida ali! - Ouvir o "outro lado" não é só desencargo de consciência, nem uma prática burocrática para seguir a norma da Folha. O "outro lado" pode mudar totalmente o foco da sua matéria, se não derrubá-lo. Dependendo do assunto, vale a pena contatá-lo logo no começo. - É bom criar um sistema que te guie em sua apuração, que te ajude a ordenar as idéias. Cada um tem o seu, é preciso descobrir o que funciona melhor com você. - Não confie em sites oficiais. Eles podem te orientar, te guiar, mas devem sempre ser checados de alguma outra forma, possivelmente por telefone. Sim, você pode gastar quatro horas só para checar preço de documentos em todos os estados brasileiros, que você já tinha achado numa busca de 15 minutos pela internet. Mas não é retrabalho, é checagem, e você vai descobrir que os sites tinham várias informações erradas ou incompletas. 2º dia: Especial: - Andar pela rua pode ser uma boa forma de conseguir idéias ou inspirações para pautas, que eu nunca teria de outra forma. Ou não. 3º dia: Folha Online Mundo: - Que uma coisa muito legal de trabalhar em Mundo é a gente afiar um idioma que não usamos muito e acaba enferrujando. - Dicionário (mesmo em Português, claro) é uma das melhores ferramentas do jornalistas. - O leitor adora reportagens que os jornalistas às vezes menosprezam. Assim, você pode se empenhar mais para escrever sobre a crise na União Européia, mas a segunda mais lida do dia pode ser a matéria do romeno que se sacrificou para salvar a mulher e o amigo. Resumo da ópera: é bom se empenhar também nestas! - Nunca se esqueça de converter as moedas para o valor em R$. Para isso, utilize o site do Banco Central e conte direitinho os zeros. - Não confie plenamente em nenhuma agência. Tem que checar tudo, ou pelo menos comparar com as informações de outras agências (às 14h recebi texto de uma agência dizendo que 14 países da UE já tinham ratificado o Tratado de Lisboa: mas fazia dois dias que eram 18 países! O site oficial do Tratado ajudou a tirar várias dúvidas). - Tente sempre relacionar o assunto novo com um histórico sobre o país, sobre o contexto, etc. Por exemplo, num texto sobre acordo entre Groenlândia e Dinamarca, vale dizer desde quando uma é dependente da outra. 4º dia: Foto: Este já rendeu um post anterior. 5º dia: Cotidiano: - Que às vezes a gente acha que consegue apurar e escrever um pequeno foco em três horas, mas gasta seis... =O (Este foi um dia de muito poucos aprendizados...) 6º, 7º e 8º dias: Especial: - Trabalhar em dupla é mais produtivo e enriquece as possibilidades da matéria. No nosso caso, mais ainda: também poderemos usar o site para publicação, então o espaço é quase ilimitado e novas idéias de retrancas e artes puderam brotar diariamente. Mas é indispensável discutir bem as coisas com sua dupla, mas evitar divergências de focos. 9º dia: Cotidiano: - Em rondas muito abrangentes, como a cobertura de uma greve estadual de professores, não basta gastar sola de sapato e roda de carro visitando as escolas. Tem que fazer um planejamento mínimo antes, mapeando essas escolas para agilizar o trabalho e fazê-lo render mais. 10º dia: Folha Online Cidades: - Que até em FOL Cidades o dia pode ser meio parado de vez em quando. - É sempre bom perguntar aos colegas do lado o que estão fazendo: fiz a ronda de trânsito às 16h25, fui publicar às 16h35 e descobri que alguém já tinha feito algo idêntico e postado às 16h31. Retrabalho é burrice. 11º dia: Agência: - Uma greve não tem só dois lados, do patrão (ou governo, como no caso) e do empregado. São váááários lados, porque são muitos interesses em jogo. Tente falar com todos. - Outra coisa: é muito bom falar com a associação (ou sindicato, enfim) nacional, que tem os balanços e números da coisa, mas também é útil, se você tiver tempo, conversar em cada Estado. Pode surgir, daí, algumas informações muito mais precisas e ricas para sua matéria. - E nunca se esqueça de que greve é política e a gente não está aqui pra fazer o jogo político de ninguém numa discussão trabalhista. Temos que tomar cuidado para não comprar os discursos inadvertidamente.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h25
Um comentarista havia perguntado, no post sobre os limites da infiltração, se uma mulher correria menos riscos que um homem numa cobertura de favela, ou se seria ainda pior.
Respondi: "Impossível saber o que vai pensar ou fazer um bandido desses".
Minha leitora Mariana, de Minas, que já passou pelo aperto, conta o episódio:
Já fiz reportagem em favelas durante anos, na cobertura esportiva de futebol amador (várzea), com policiamento. Mas surgiu uma pauta muito legal e como disse meu chefe: "quero ver a Lôra no morro", fiz a cobertura da Copa do Mundo dentro de três favelas.
Tudo combinado, comecei com uma reportagem sobre os preparativos. Nos três primeiros dias foi tudo bem, nem ligava para armas que nem apareciam mas sabia que estavam ali.
Mas no quarto dia, na Vila Cabana, onde tinha feito o melhor preparo, combinado com o líder comunitário, passei por um sufoco.
Ao chegar no local montado para a festa, sentei com as crianças. Aliás, essa é uma boa dica para as mulheres em favelas: ficar próxima das crianças. Quando olhei para trás, estavam os chefões do tráfico apontando arma para meu companheiro repórter fotográfico. Descemos a favela na correria, ouvindo tiros, e tivemos que sair da região escoltados pela PM. Todo cuidado é pouco.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h02
Certas coisas só colunistas podem fazer.
Uma delas é tomar emprestados, com um pretexto jornalístico, versos como estes, de Manuel Bandeira (como fez ELIO GASPARI no domingo):

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h27
Desenvolvimento humano
O treinamento é gratuito e terá início em 30 de julho. As inscrições vão até o dia 25/7.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h21
Bastidores de um repórter não identificado

O repórter RAPHAEL GOMIDE conta como surgiu a pauta sobre o treinamento da polícia fluminense, a que mais mata e mais morre no país, e como foi o dia-a-dia da apuração.
Novo em Folha - Como você teve a idéia de fazer essa reportagem?
Raphael Gomide - Sempre quis fazer uma matéria em que acompanhasse a primeira semana de treinamento de fuzileiros navais, mais pelo militarismo, pela pressão que imaginava existir nesse ambiente. Mas não podia, por já ter ultrapassado o limite de idade. Cheguei a pedir para a Marinha para acompanhar como jornalista, mas não tive autorização.
Novo em Folha - Sua pauta é um exemplo de história que não poderia ser feita se você se declarasse repórter. Como foi essa decisão?
RG - Havia lido o livro do Celso Castro, diretor CPDOc, chamado "O Espírito Militar". Ele é filho de oficial do Exército e acompanhou durante muitos meses a Aman (Academia Militar das Agulhas Negras). Achei superinteressante, mas ele foi lá como pesquisador, antropólogo; era sempre um diferente numa escola de formação de oficiais. O resultado foi excelente, mas havia sempre esse aspecto de as fontes estarem falando com alguém de fora, embora ele fosse filho de oficial. Eu queria mostrar a formação de PMs a partir da base da pirâmide, sendo um deles, para evitar os filtros maiores: alguém não permitir as entrevistas, ou mesmo a autocensura ao dar uma entrevista. Se fosse como jornalista, haveria tantos filtros que não conseguiria apurar o que apurei. Novo em Folha - Mesmo assim, imagino que não tenha sido simples decidir publicar informações sobre colegas que não sabiam que você estava fazendo uma reportagem. Que cuidados você tomou?
RG - Tinha muita preocupação em não publicar foto e nome dos colegas de curso. No seminário de jornalismo investigativo de que participei no Equador levei este projeto e debatemos sobre isso. A conclusão foi que deveria tomar cuidado para não parecer uma traição aos colegas e também para a segurança deles. Percebi o medo que eles tinham de aparecer como polícia, poderia colocar muitos deles em risco. Não quis pôr o nome de ninguém também porque o que realmente importava era a história. Queria mostrar a polícia como instituição, não tanto os personagens em si. Novo em Folha - Você tinha uma hipótese quando pensou nessa cobertura?
RG - Não era exatamente uma hipótese. Tinha perguntas. Por causa da exacerbação da violência no Rio, queria entender onde começava isso, porque é a polícia carioca a que mais mata e mais morre no país. Quem é o jovem que quer ser policial e por que esse desejo? Já chega lá querendo matar? É para ganhar dinheiro com propina? Um episódio que me marcou foi quando um motorista que me levava a uma pauta disse que estava fazendo concurso para a Polícia Civil. Comentei que o salário era baixo e ele respondeu: "O salário a gente ganha na rua". Retruquei: "Pô, depois reclama do policial que te extorque na rua. Mas você vai tirar dinheiro do cidadão que tá errado ou do bandido para não prendê-lo". Aquilo me chamou a atenção. Queria entender se todo mundo já entrava assim na PM. Novo em Folha - Quando foi isso?
RG - Isso aconteceu há dois anos e meio, estava no jornal "O Dia" ainda.
Novo em Folha - A BBC fez uma reportagem parecida com a sua (http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/magazine/3210614.stm). Você já conhecia esse trabalho?
RG - Quando estava começando a preparar minha matéria, alguém comentou comigo sobre essa matéria. Procurei, não encontrei e acabei me esquecendo. Já estava bem avançado na minha apuração. Depois que a matéria saiu, vi repercussões sobre o vídeo, sobre o fato de o repórter ter sido preso e depois solto. Novo em Folha - Como era a apuração, no dia-a-dia?
RG - Enquanto eu estava no treinamento, escrevia tudo. Não gravei nada, deliberadamente, tinha medo que alguém visse. Durante a seleção, todo momento que eu tinha usava para anotar num papel. Não usava o bloquinho, ia anotando em pedaços de papel. Já no treinamento, Comprei um caderno e anotava tudo durante as aulas e o que lembrava das aulas externas, práticas. Quando chegava em casa, exausto, sabia que tinha que escever a quente, para não esquecer. Se dava, fazia à noite, ou nos finais de semana. Escrevi 50 folhas de Word. Depois editei para a reportagem. Novo em Folha - No texto você relata de forma detalhada e transparente como preparou a reportagem. Você não usou identidade falsa nem mentiu sobre o emprego. Usou o nome da Empresa Folha da Manhã na ficha. A reportagem também é assinada. No entanto, sua foto com a farda, publicada no Mais!, está alterada digitalmente. Esses aspectos todos me fazem pensar na sua segurança, nem tanto durante a apuração, mas depois de publicado o texto. Você chegou a refletir sobre assinar ou não a reportagem? Teve algum receio de retaliação?
RG - Não pensei em deixar de assinar, não.
Novo em Folha - E por que sua foto foi alterada?
RG - Resolvemos alterá-la digitalmente por uma questão de segurança. Era difícil saber qual seria a reação das pessoas. Novo em Folha - Você achava que estava correndo risco?
RG - Sim, mas um risco controlado. Minha família tinha medo. Eu tinha noção do risco, mas achava que era controlado, porque já havia definido não mostrar nomes nem fotos e fazer uma análise da instituição como um todo. Alguns poderiam ficar incomodados, mas não a ponto de ameaçar a minha vida. Novo em Folha - Mas então por que não publicar sua foto?
RG - Porque não sabia como seria a repercussão. Achei que alguns poderiam incitar a reação dos colegas e poderia ser mal recebido de dentro da corporação. Eu tenho a visão de um jornalista, mas um policial poderia tomar a matéria como algo pessoal, ou, por amor à corporação, se ofender. Tinha medo não [tanto] dos meus colegas, que me conheciam, mas de uma outra pessoa desavisada que pudesse ter uma reação individual, isolada. Com minha foto no jornal, com o jornal na mão, seria mais fácil difundir algum tipo de reação. Novo em Folha - Mas achei seu relato muito equilibrado. Você mostra discursos variados, tanto da parte dos instrutores quanto da parte dos alunos. Parece muito correto que você tenha deixado claro, na descrição e no relato, que não há diversidade de ideologias e caráter. Mas, como leitora, senti falta de uma conclusão, para além do relato. Depois de um mês convivendo diariamente com os personagens, qual foi a sua impressão? Embora haja discursos discordantes, o que incentiva a violência é predominante? Ou é desviante? Os exemplos que você dá de alunos que querem ser corruptos são exceções? Raridades? Mais comuns do que você esperava? Ou são maioria?
RG - Minha avaliação é que há um germe que já vem antes e há de fato uma tolerância quanto ao abuso da violência já durante a formação dos policiais. Talvez não no discurso oficial, mas a formação é bastante irregular. Eles dão o discurso oficial, mas dizem "você sabe que na rua é assim". Dizem qual deve ser a atitude correta, mas acabam legitimando quando descrevem a situação na rua. Novo em Folha - E isso acontece com todos os professores?
RG - São vários que falam, é a maioria. Isso é o discurso extra-oficial, mas muito forte. Novo em Folha - Você chegou a pensar em fazer um texto mais subjetivo? Mais conclusivo?
RG - Optei por não fazer uma conclusão. Os fatos vão levando para um caminho, que é mais aberto do que seria uma conclusão. É interessante que cada pessoa entende de uma forma. Recebi cumprimentos de dois coronéis, meus colegas PMs todos adoraram a matéria. Muita gente elogiou justamente esse equilíbrio, porque relatei os fatos sem tomar partido. Um promotor que foi oficial da PM disse que foi a primeira vez que viu uma matéria sobre a polícia que não fazia julgamentos. Achei que seria mais correto e mais jornalístico não fazer uma conclusão.
Novo em Folha - Não pensou talvez em dar uma conclusão baseada em fatos, do tipo "de cada 10, 8 diziam tal coisa"?
RG - Tentei fazer equilibrado, embora ache que relato mais pontos negativos que positivos --que refletiriam proporcionalmente as opiniões dos colegas e minhas impressões. Posso não ter sido tão claro, mas seria difícil retratar isso sem ser de forma subjetiva. Sseria difícil mensurar quantidades de opiniões ouvidas no período. Novo em Folha - E você teve medo em algum momento?
RG - Só agora, com a visita da polícia a meu prédio. Novo em Folha - Nem uma vez durante a apuração?
RG - O pior momento foi quando foram em casa antes de começar o curso. Quando voltei de viagem e o porteiro me disse que policiais haviam perguntado por mim e que ele havia dito que eu era jornalista, pensei se valeria mesmo a pena seguir em frente. Porque é muita invasão na minha vida pessoal, na vida da minha família. Agora tudo parece um mar de flores. Mas foi muito desgastante. Durante o período da seleção, estava fazendo matéria todo dia e a seleção ao mesmo tempo. É um desgaste físico e psicológico muito grande. Os policiais foram na minha casa, na minha vizinhança, sabia que todo mundo ia estranhar.E não podia contar para ninguém o que estava fazendo, para que outros não tivessem que mentir. Naquele momento fiquei preocupado, mas não tive medo. Tinha medo da reação dos meus colegas, se iam me ver como um traidor, e da reação da corporação, não institucionalmente, mas dos integrantes. Ainda bem que fui em frente, porque a parte da seleção já foi muito rica, mas muito mais rico foi o período que fiquei lá. Novo em Folha - E esses policiais que foram fazer a pesquisa social e ouviram do seu porteiro que você era jornalista não se deram conta?
RG - É que a Folha aqui no Rio é menos conhecida. Se fosse "O Globo" eles iam se tocar, mas aqui no Rio, PM que trabalha no centro de recrutamento não sabe o que é a Folha. Novo em Folha - Nem mesmo com o porteiro dizendo que você era um repórter famoso (risos)?
RG - Claro que tive sorte. Quando o porteiro me contou, achei que daria tudo errado.
Novo em Folha - Quando você contou a seus colegas que era jornalista?
RG - Liguei para os colegas na véspera, no sábado à noite. Para os colegas mais próximos e as principais lideranças, para que não se sentissem traídos. Seria ruim se eles só vissem o jornal no dia seguinte, sem aviso. Por sorte, um deles estava de serviço. Ele pôs o celular no viva-voz para os outros ouvirem; os caras adoraram. Um deles falou "você nunca me enganou!!". Novo em Folha - Você até conta na matéria que, durante o treinamento, eles diziam que você iria para a P2 (serviço de inteligência da PM), não é?
RG - Vários falaram "o que você tá fazendo aqui?", achavam que eu não combinava com o tipo de aluno. Novo em Folha - então a reação dos colegas de curso não foi ruim.
RG - A recepção deles foi muito boa. Um candidato me escreveu dizendo que espera que, depois da reportagem, as condições melhoram. Pela minha experiência, é difícil que isso aconteça. Mas, se puder muder, claro que eu ficaria satisfeito. Novo em Folha - e não houve nenhuma ameaça?
RG - Não, nada. O que aconteceu foi desagradável, os caras que não identificaram que eu era jornalista na época da seleção foram na minha casa de novo para dar um recado, para mostrar que era a PM, para intimidar. Foi desagradável, mas não foi um risco.
Novo em Folha - Na retranca do "outro lado", vc diz que, quando pediu entrevista à PM, não mencionou a participação no treinamento. Por quê?
RG - As perguntas que fiz eram sobre formação e a polícia em geral. Mandei dia 12 de março. Pedi por telefone, mas mandaram enviar por e-mail. Do dia 12 ao dia 30, eu ligava todo dia para pedir respostas. No final já nem me atendiam. Mandavam recado. Novo em Folha - E quando você avisou que estava fazendo uma matéria sobre o treinamento?
RG - Voltei de férias, liguei de novo e avisei da matéria. Avisei que era uma matéria extensa sobre a formação dos PMs e gostaria de fazer uma entrevista com a corporação. Não disse que tinha participado do treinamento, porque queria falar isso durante a entrevista. Ligava para lá duas vezes por dia. Novo em Folha - E que resposta tinha?
RG - Não davam resposta nenhuma. Por sorte apareceu uma matéria com o secretário de Segurança. Eu fui e contei sobre a matéria, disse que precisava falar com a PM, contei que eles não me recebiam. Ele respondeu que iam falar comigo, que a PM falaria comigo. Mas não falou.
Raphael Gomide fala sobre os limites da infiltração Na seção Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h28
Limites da infiltração
No dia 19 de maio, a Folha publicou uma longa reportagem de meu colega RAPHAEL GOMIDE, que participou do treinamento de policiais militares no Rio, sem se identificar como jornalista.
Logo depois, fiz uma também longa entrevista com ele, sobre os bastidores da apuração, seu método de trabalho e sua carreira como jornalista.
E me enrolei tanto para editá-la que acabou acontecendo a tragédia com os repórteres do "O Dia" (lembram-se de nossas conversas sobre o trabalho que dá editar uma entrevista? E olha que eu nem usei o gravador, em!? Entrevistei por telefone e fui escrevendo conforme ele respondia).
Pois bem, encurtando a história, achei que não dava pra publicar a conversa anterior sem tratar também desse caso, já que ambas as reportagens eram "infiltrações" --embora infinitamente diferentes. Achei que era fundamental deixar clara essa diferença.
Vou começar pelo final, então:
Novo em Folha - Quando eu te entrevistei logo depois da sua matéria sobre o curso de formação dos PMs, ainda não havia acontecido o caso do "O Dia". Nós até comentamos os riscos de fazer reportagens em favelas, você falou sobre o perigo de entrar junto com a polícia, mas nem chegamos a cogitar a idéia de se infiltrar num lugar como esse. Quando o caso do "O Dia" foi divulgado, você fez alguma relação com a sua experiência?
Raphael Gomide - Fiz, direto.
NF - Mas não porque achou que poderia ter acontecido a mesma coisa com você, né?
RG - Não, porque eu estava dentro de uma instituição do Estado. Em último caso eu poderia recorrer às instituições, ao Estado. Eu tinha algum tipo de proteção num mundo que respeita as leis.
É diferente das favelas, que são zonas de exclusão constitucional. Quem manda ali é o tráfico ou a milícia.
Novo em Folha - Ou seja, na hora de avaliar se é ou não o caso de fazer uma reportagem "infiltrado", sem se identificar, é preciso pensar também nisso: se há Estado constituído naquele lugar ou não.
RG - Sim, a segurança do repórter é o ponto inicial, o ponto número 1. Eu nunca teria feito uma reportagem como a do "O Dia"; 99% dos repórteres que conheço não teriam feito.
Todo mundo aqui no Rio tem noção de que hoje em dia não é possivel fazer esse tipo de reportagem em favela.
Como as circunstâncias todas da reportagem do "Dia" não foram esclarecidas, não houve transparência, não se sabe o que aconteceu. Mas, em princípio, não poderia ter sido feita.
É curioso, assim que eu publiquei a matéria da PM, falaram pra mim: "A próxima vai ser numa milícia!". Respondi: "Deus me livre! A milícia é igual ao tráfico. É pedir pra morrer!".
Poucos dias depois houve esse episódio.
Novo em Folha - Você já cobriu guerra?
RG - O máximo que eu fiz foi no Haiti. (leia aqui)
Novo em Folha - Mas chegou a passar perigo?
RG - Houve uma operação grande, mas sem troca de tiros. Eram 800 militares justamente quando tomaram o último reduto das gangues. Mas elas já sabiam e já tinham ido embora.
Antes disso, no Haiti, houve muito tiro. Eu usava capacete e colete à prova de bala o tempo todo.
Novo em Folha - Outra diferença é que você estava identificado como repórter, não é?
RG - Justamente. Não existe isso de jornalista infiltrado em favela. Todo mundo conhece o caso Tim Lopes. Depois da morte do Tim Lopes, houve um grande debate nos jornais sobre segurança e os jornais passaram a adotar medidas de segurança.
É preciso estar claramente identificado ao entrar em favela.
Por exemplo já fiz matérias sobre a milícia, mas me identifiquei como jornalista, fui levado por um cara de dentro e disse pro chefe da milícia que o ele falasse eu ia escrever. Ele pediu offs, mas sabia que era uma entrevista.
É preciso sempre falar claramente: sou jornalista, estou fazendo reportagem. Não dá pra entrar simplesmente na favela.
Raphael conta os bastidores da reportagem
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h58
E já que o assunto é pauta [resolvam a charada do post abaixo], dêem seu palpite sobre o que escreve meu leitor João:
O diário X... publicou hoje, em uma página, uma matéria cuja pauta era idêntica a uma que eu pensava em fazer há tempos.
Era sobre {... um assunto de futebol}.
Tive a idéia em março, como você pode ver no e-mail abaixo. Pensei nela para uma disciplina na faculdade, mas queria vendê-la para alguma publicação. Só não a fiz por falta de grana & tempo. A matéria publicada no jornal é mais simples do que eu havia imaginado. A minha idéia era fazer algo mais alentado, com muitas páginas, fotos e tudo o mais. Meus colegas acham que eu devo insistir na pauta, acrescentar dados que não estão no X, mas realmente não sei... Fato é que, depois de dar dois ou três furos num pequeno jornal em que estagiava, fui furado. Senti a desolação moral do fracasso. É horrível. O que você acha? Devo prosseguir na pauta? ou agora só me resta mesmo tocar um tango argentino?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h57
O que elas têm em comum?
Uma charada para vocês matarem:
O que esta pauta do "New York Times" (clique para ler) tem em comum com esta outra, da Folha?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h15
Meu leitor M. pediu que escrevesse sobre entrevistas de seleção e me contou que participara de várias delas.
Eu já tratei do assunto aqui, mais de uma vez, mas essa era uma ótima chance de publicar um novo olhar sobre o assunto.
Afinal, se M. participou de tantas entrevistas, tem "vasta experiência" e boas histórias pra nos contar:
Depois de cinco anos no jornalismo, trocando de estágio e de trabalho no mesmo ritmo que se toma banho no verão nordestino, passei a observar que o grande segredo para não pagar mico num processo de seleção e garantir o pão nosso de cada dia ou a mensalidade da facul é se preparar e se preparar bem. Vejam algumas dicas que passei a tomar nota:
- Pesquise na internet tudo sobre a empresa, o veículo, os concorrentes, o perfil da audiência (leitor, ouvinte, etc.);
- Pergunte como será composto o processo de seleção e quantas etapas terão;
- Se houver um teste, seja de português, inglês ou conhecimentos gerais, relembre aquelas dúvidas pontuais que sempre surgem, esqueça a preguiça, abra o livro e as esclareça;
- Se o teste for para escrever uma reportagem, esqueça um pouco o Gay Talease e o sonho do jornalismo literário, e aposte na simplicidade, na concisão e na objetividade. Recolha o maior número de informações (verdadeiras) e siga o basicão, lead, começo, meio e fim. Vale a regra: “não enrole, informe”
- Entenda o seu cargo, seja para ser repórter, estagiário, redator, etc, pergunte a quem te ligar marcando a entrevista como é a função para qual te contratarão, o que você vai fazer, etc. Assim fica mais fácil se preparar;
- Se houver dinâmica de grupo evite os excessos, não seja muito tímido, não fique muito isolado, evite aquela empolgação desnecessária, não seja excessivamente mandão, apresente opiniões nas horas certas, respeite o espaço de todos;
- Quando marcarem a entrevista com o selecionador, reserve algumas horas do dia para pensar o que poderá ser perguntado e o que você, dentro das suas qualidades e experiências, tem para oferecer a empresa e a função. Lembre-se, é preciso justificar a razão para contratarem você e não o outro candidato;
- Evite se achar a última bolacha do pacote só porque você fala inglês, espanhol, italiano, arranha o alemão, já morou na França e trabalhou na Austrália, ou algo similar. Se isso não agregar à função, você perderá seu tempo e o do selecionador. Ou seja, apresente exemplos de como essas qualidades são vantajosas para o cargo que ocupará. Exemplos são sempre melhores do que o blá, blá, blá;
- Muitos selecionadores seguem como roteiro de entrevista o currículo do candidato, então o mínimo que deve saber é o que há nesse currículo, para que nenhuma pergunta te pegue de surpresa. Por isso, evite colocar no currículo que você já fez reportagens em Marte, porque pode não colar e, ao ser questionado, um gago esquizofrênico descerá em você;
- Evite os clichês básicos: eu gosto de desafios, sucesso é o meu objetivo, quero ser o próximo Clovis Rossi, sempre sonhei trabalhar aqui, meu coração diz que vou trabalhar aqui. Para algumas áreas pode até ser bonitinho coisas desse tipo, mas no jornalismo essas plumas e paetês não colam, principalmente se não vierem com sinceridade;
- Na entrevista, mostre interesse em relação à empresa ou ao veículo, questione, afinal você também está escolhendo a empresa que pretende trabalhar;
- Não se intimide. Se o selecionador estiver te provocando com perguntas sobre ética jornalística ou comportamento na redação, não mostre fraqueza nem agressividade, mantenha o mesmo tom e responda as perguntas com sinceridade;
- Se o mesmo selecionador está fazendo aquela cara de pouco caso, tente despertar a atenção dele. Essa é uma boa hora para fazer aquelas perguntas sobre a empresa e o cargo.
- Por fim: “DESLIGUE O CELULAR!" (hahahaha). E boa sorte para nós!
Duas dúvidas sobre seleção Um roteiro para se preparar para entrevistas de seleção Como é a seleção para o programa de treinamento Mais perguntas e respostas sobre seleção Currículos: o nome da faculdade importa? Mandar currículos por e-mail adianta? O que é fundamental ter no currículo? Que tipo de experiência conta mais num currículo? Especialização é importante no currículo? Como fazer frilas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h41
Ver mensagens anteriores
|
|
|
|