Quem é de BH ou tem como passar dois dias por lá não deveria perder essa chance (veja aqui como se inscrever).
Além do congresso, que tem gente muito legal, dá para aproveitar o festival anual de comida de buteco.
O encontro terá cerca de cem palestrantes, do Brasil e de fora: Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, Colômbia, Argentina e Paraguai.
Vão estar lá gente experiente de todo o país: Paulo Totti (Valor), Miriam Leitão (Organizações Globo), Marcos Sá Correia (Piauí), Bob Fernandes (Terra Magazine), Lucas Figueiredo (Estado de Minas), Mário Magalhães e Rubens Valente (Folha), Eduardo Faustini, Marcelo Moreira e Tyndaro Menezes (TV Globo), Paulo Motta (O Globo), Amaury Ribeiro Jr (Correio Braziliense), Luiz Fernando Gomes (Lance!), PVC/Paulo Vinícius Coelho (ESPN), Fred Melo Paiva (Estado de S. Paulo).
Só para os figurões? Esses congressos não são inúteis?
Meu leitor Fractal comenta:
Acho que esse lance de congresso acaba segregando um pouco a raça. Afinal, quem tem condições de participar? Só os "tops" do jornalismo. O resto fica acompanhando via blog. Quando acompanha...
Qual sua opinião sobre esses congressos, encontros, conferências, fóruns etc...? Isso serve para alguma coisa ao jornalista de verdade, que vive o dia-a-dia?
Na minha sincera opinião, não servem (os fóruns, congressos etc.) para nada (só para currículo).
Mas diga aí: Para você, acredita ou acha que servem para alguma coisa? Tipo a palestra do "seu" Luís Frias quinta-feira passada no Congresso (junto com ele o sr. Julio Mesquita, Roberto Civita e outros).
Bem, é difícil responder à pergunta no geral. Com certeza há palestras e congressos inúteis. É preciso sempre olhar a programação e ter uma idéia do que se pretende com o evento.
Confira a programação do congresso da Abraji e você talvez concorde comigo que ele vale a pena.
Ele inclui palestras e cursos, e a maioria absoluta é diretamente voltada para o dia-a-dia da profissão.
Cada tipo de atividade tem um efeito diferente. Palestras servem mais para fazer contatos e ter uma idéia mais geral do tema, mapear possíveis futuras pesquisas. Já os cursos quase sempre são ferramentas, vc aprende técnicas e formas de cobrir determinado assunto.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h36

O Milton está decepcionado com sua faculdade. Acha que ela tem excesso de disciplina prática, falta de teoria e não ensina a pensar [leia aqui o post].
Pra que serve o curso? --pergunta ele. É só uma fábrica de diplomas?
Feita a ressalva de que sou contra a graduação em jornalismo da forma como existe hoje, vamos pensar um pouco:
Para que serve o curso?
Parece óbvio: para ensinar a fazer jornalismo.
E fazer jornalismo o que é? Basicamente: saber perguntar, saber hierarquizar informação e saber contar uma história.
E como uma faculdade ensina isso?
Na minha opinião, com muita disciplina prática.
Mas, note bem, praticar não é apenas fazer. Fazer é apenas um degrau do aprendizado prático.
Já comentamos aqui que há pelo menos quatro passos para aprender na prática:
- ler, ouvir e refletir sobre como deve ser feita uma atividade
- praticá-la
- ter seu trabalho analisado, corrigido. Discutir as falhas apontadas, descobrir soluções
- refazer
O Milton escreve:
A idéia do curso é que todos saiam prontos para fazer um release, decupar uma fita, fazer uma passagem, montar um telejornal, um projeto de assessoria de imprensa ou qualquer coisa do tipo. O curso não se preocupa em ensinar ninguém a pensar.
Mas espera um pouco: como é possível fazer um relase, montar um telejornal ou "qualquer coisa do tipo" sem pensar? Não faz sentido algum.
O problema não parece estar na quantidade de matérias práticas, mas, talvez, na forma como elas estão sendo dadas. Se os alunos são instados a fazer sem discussão prévia nem posterior, estão mesmo jogando tempo fora. Será isso que está acontecendo?
Como bem aponta meu leitor Leonardo, de Brasília, a resposta pode estar na própria reclamação do Milton: turmas de 140 alunos? Parece quase impossível que um professor realmente avalie, comente e oriente trabalhos de 140 alunos. Com certeza não será numa freqüência que os ajude a progredir.
O caso do Milton é ainda interessante porque ele já trabalha como jornalista. Já trabalhava antes mesmo de entrar na faculdade. Portanto, alguma parte do aprendizado prático ele já está tendo.
A pergunta, portanto, é: o que esperava conseguir no curso? Quando ele diz que gostaria que o ensinassem a pensar, está sentindo falta exatamente de quê?
Por que há vários "pensares" envolvidos nesta profissão. Alguns deles poderiam ser ensinados faculdade de jornalismo:
- o que é notícia? Que notícias são mais importantes que outras? Por quê?
- que informações são importantes numa reportagem? Quais são fundamentais? Como obtê-las?
- que fontes são relevantes numa reportagem? Como abordá-las? Como entrevistá-las? Que tipo de relacionamento é possível ter com elas?
- que maneiras há de contar uma história? Quando elas funcionam mais ou menos? Por quê?
- quais as responsabilidades de um jornalista? O que ele pode e não pode fazer? Quando? Por quê?
Outros pensares dizem respeito à formação global do jornalista e não há curso de jornalismo que dê conta deles. Alguns até tentam, mas o resultado é apenas um remendo.
Quais são? Aqueles que permitem que o jornalista entenda o suficiente do assunto que cobre para que possa fazer perguntas críticas, possa pôr notícias em contexto, fazer edições inteligentes, criativas, didáticas, arrojadas.
Há vários campos possíveis: economia, literatura, história da arte, ciências sociais, biologia. Se fosse para escolher um que serve a todas as áreas, diria que é história.
Se o Milton sente falta daquele primeiro grupo de reflexões, ainda há o que fazer:
- questione seus professores. Exija correções detalhadas dos seus exercícios.
- encontre um professor em quem confie e o transforme em mentor.
- traga dúvidas que encontrar em seu trabalho para discutir na faculdade.
- encontre um colega de trabalho mais experiente em quem confie e o transforme em seu mentor. Se seus professores não corrigem seus exercícios como deveriam, discuta com seu colega.
- mesmo que você já trabalhe e já saiba a área em que quer atuar, não menospreze outros conhecimentos. Não há mal nenhum em aprender rádio, TV, mesmo que sua praia seja impresso. Cada vez mais essas diferentes formas de contar história serão integradas. Acha assessoria de imprensa um horror? OK, ninguém vai obrigá-lo a trabalhar com isso, mas é sempre útil para um repórter entender como elas funcionam.
Se o que faz falta é a formação mais geral, não exija isso do curso de jornalismo. Nenhum será capaz de satisfazê-lo. Faça outra faculdade, na área que o interessa mais.
Mas vá preparado para encontrar, em qualquer delas, deficiências também. Não há faculdade perfeita. Elas podem ter mais ou menos recursos, professores podem ser melhores ou piores, mas quem precisa conduzir o aprendizado é sempre o aluno. A iniciativa terá sempre que ser sua.
Outra coisa a ponderar: disciplinas "teóricas" --em sociais, filosofia ou história, por exemplo-- são baseadas principalmente em leitura. Muuuuuuuuita leitura. Leitura orientada, claro, e de preferência comentada pelo professor. Mas é algo que pode --e até deve-- ser feito fora das salas de aula.
Ou seja, não vejo aulas à distância ou semi-presenciais como um mal em si. Nem sempre é preciso estar tudo mundo dentro de uma sala para aprender. Dependendo do que se estuda, seria perda de tempo.
De qualquer forma, enquanto a questão do diploma obrigatório não se resolve, no lugar do Milton eu não abandonaria a escola. Falta tão pouco e isso pode fazer diferença no futuro.
É verdade que há muitos lugares que, apesar do discurso, contratam gente não formada. Mas ninguém sabe para onde vai soprar o vento.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h41
Dia desses um dos trainees me mandou um texto que começava assim:
Fulano, que estrangulou o enteado, foi preso ontem.
Sugeri que ele mudasse para "acusado de estrangular o enteado". Compreensivelmente, ele argumentou:
--Mas ele confessou o crime!
Não custa lembrar que, no Brasil --e fora daqui também--, confissões são obtidas à força. Se o repórter não viu Fulano estrangular a criança, melhor não condená-lo.
Lembrei-me do caso quando li esta matéria ontem na FOL: Polícia do Rio apresenta frentista como traficante; delegado admite erro.
O texto está aberto à leitura, mas, para o que nos interessa de perto, destaco este parágrafo:
Além de preso, o frentista foi agredido, usado como escudo humano para policiais se defenderem de tiros e obrigado a assinar um documento em que confessava ser traficante de drogas, segundo o irmão de Santos, Ricardo Vieira, 32. Vieira disse ainda que o irmão e a família já sofrem preconceito e são repreendidos por vizinhos e amigos por causa do erro da polícia.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h50
Fiz um bate-e-volta ontem para Porto Alegre e, no avião, li uma ótima entrevista com o jornalista e escritor Ruy Castro, colunista da Folha e biógrafo, entre outros, do Garrincha, da Carmem Miranda, do Nelson Rodrigues.
Está na revista Almanaque de abril, que circula nos aviões da TAM. Ainda não entrou no site da revista, mas quem for viajar neste feriado ou tiver parentes ou amigos que vão pegar vôo dessa companhia pode pedir que eles tragam a revista, que é gratuita.
Ele fala de seu trabalho como escritor, mas há trechos que se aplicam lindamente ao nosso jornalismo do dia-a-dia. Seguem alguns:
"...não é permitido deduzir, presumir ou adivinhar. Permitido e aconselhável é botar uma dúvida na cabeça e ir à rua investigar."
"...você terá ouvido umas 200 pessoas. Mas, para chegar até elas, aporrinhou outras 300, pelo menos."
"Levei um ano para descobrir a marca da escarradeira da redação do jornal Crítica, do pai de Nelson Rodrigues. Só dizer que havia uma escarradeira não era suficiente; queria dizer a marca dela também."
"Todas as biografias foram escritas em quatro meses de dedicação total. Ou seja, ir dormir às 3h pelo cansaço e acordar às 7h pelo prazer de continuar escrevendo."
"...Como achar essa gente? Comecei pelo Jorginho Guinle, que conviveu com a Carmen no Brasil e nos EUA. (...) Ele me passou quatro ou cinco nomes; eu fui atrás desses, que também me passaram mais quatro ou cinco cada um. Com isso você arma uma rede de informantes."
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h26
Quatro dias de homem-cavalo
Rodrigo Marcondes/Folha Imagem
 O repórter Gustavo Fioratti puxa uma carroça pelas ruas de SP
Se vamos fazer uma reportagem sobre um grupo de pessoas, os caminhos clássicos são:
Meu colega GUSTAVO FIORATTI tomou outro caminho para descrever a vida dos carroceiros em São Paulo. Durante quatro dias, viveu como um deles: catou papel no lixo, puxou o carrinho no meio do trânsito, dormiu em albergue e terminou um dia sem levantar o suficiente para comer [o texto está on-line só para assinantes, mas é possível ter uma idéia de como foi neste post].
Esse tipo de reportagem "participativa" tem características diferentes das observativas:
-
a experiência do repórter passa a ser notícia: mesmo que não haja novidade, o relato da experiência vivida pelo repórter e suas impressões têm força suficiente para merecer a publicação. Repórteres são olhos e ouvidos dos leitores. A matéria se justifica porque está levando o leitor a um lugar que ele não conhecia.
-
justamente por isso, ela respalda a visão subjetiva: quando entrevistamos alguém que diz "os carros quase nos atropelam", temos que atribuir essa declaração e, com isso, ela ganha status de versão, não de informação. Num relato em primeira pessoa, se a notícia é a experiência do repórter, sua visão ganha status de fato, não mais de versão. Quando o repórter conta que quase foi atropelado, embora sua sensação seja idêntica à daquele entrevistado, no relato isso é uma informação.
Nesta entrevista, Gustavo, 30, jornalista formado pela Cáper Líbero que sempre foi e acha que sempre será repórter, conta sua experiência:
Novo em Folha - De quem foi a idéia da pauta?
Gustavo Fioratti - Foi da editora Eliane Trindade. Ela me consultou há dois meses, perguntou se eu toparia passar três dias puxando uma carroça por SP. Eu topei na hora. É o tipo de trabalho que me levou a escolher essa profissão. A sugestão de dormir em albergue, recolhendo lixo e vendendo o material no fim do dia, foi um complemento meu à idéia da Eliane. Achei que seria importante para chegar ainda mais perto do ambiente que envolve os carroceiros.
NF - Em algum momento você hesitou?
GF - Conforme o dia da minha saída foi se aproximando, eu fui sentindo uma espécie de frio na barriga. Fiquei com um pouco de medo. Mas fui convicto. NF - Havia alguma hipótese na pauta? Havia algo que esperava encontrar ou mostrar? Ou quis simplesmente contar como é estar na pele dos carroceiros?
GF - Havia a hipótese de que eles passam apuros no trânsito e de que carregam muito peso, além de outras hipóteses específicas. Algumas ficaram de pé, outras não. Eu achava, por exemplo, que, nas ruas, os carroceiros me receberiam com alguma hostilidade, o que não aconteceu em nenhum momento. A tese era de que havia demarcação territorial; do tipo, "as ruas tais e tais são minhas e ninguém tasca". O que eu encontrei foi justamente o contrário. Carroceiros trocando informações, ajudando uns aos outros, dividindo espaços. NF - Você saiu da experiência com alguma conclusão? Na sua introdução, a impressão é que sim, ficou: Vários carroceiros dizem que estão no ramo por opção. Dá dinheiro e não há chefia. Posso atestar o prazer de navegar sem bússola, mesmo nos dias em que o mar não está para peixe. E há várias outras coisas gratificantes costurando a malha que os envolve. Mas a palavra 'opção' eu recusaria. Mas a conclusão da sua reportagem dá a impressão de que não: Desta experiência fica este relato, um testemunho de quem sobreviveu a 72 horas na pele de um homem-cavalo. Um trabalho movido a suor e esperança, em meio ao lixo e ao asfalto, contando com a camaradagem de homens e mulheres que me receberam como um igual. Fiquei curiosa pra saber a sua resposta...
GF - Minha conclusão está melhor retratada no box [on-line, para assinantes], o espaço que me foi dado para expressá-la. Acho que puxar carroça no meio de tanto carro, enfrentar o ar poluído durante um dia inteiro bem na boca dos escapamentos, mexer no lixo alheio etc., tudo isso é resultado de vários fatores, culturais, sociais, econômicos, políticos.
Se vários carroceiros dizem que optaram por essa atividade, eu diria que a palavra opção não faz muito sentido.
Vejo mais como uma espécie de fenômeno: está todo mundo de olho em materiais recicláveis, que de fato ganharam muito valor nos últimos tempos. Quem alimenta esse tipo de trabalho, quem dá suporte para a multiplicação dos carroceiros pelas ruas, são os compradores de materiais recicláveis, ou seja, a própria indústria.
Para eles, é muito vantajoso, afinal, carroceiros não dão despesas trabalhistas para ninguém. Os acidentados também não têm vínculo com nenhuma empresa ou grupo. Os que envelhecem, também não. E por aí vai. NF - Por que os carroceiros foram os personagens escolhidos? O que o fez querer mostrar a vida dos carroceiros, e não de qualquer outro grupo urbano de SP, excluído ou não?
GF - Foram escolhidos porque estão cada vez mais presentes nas ruas de SP. Porque são prova de que as questões relacionadas ao meio ambiente também fazem parte de um grande mercadão. E porque simbolizam esse peso que os pobres têm de levar no lombo, literamente. NF - Por que optou por estar na pele deles, e não outra forma mais comum de reportagem, como entrevistá-los, recolher depoimentos deles, ouvir pessoas que trabalhem com eles em cooperativas ou que os estudem na academia?
GF - Eu já havia escrito sobre eles em outras matérias. Já vi outras reportagens feitas à moda tradicional em vários veículos. Acho que os dois tipos de trabalho são importantes, mas um deles já havia sido (bem) feito e explorado, pela própria Folha, inclusive.
NF - Que vantagens e desvantagens há, na sua opinião e pela experiência concreta que vc teve, nesse tipo de apuração "participativa" em relação às tradicionais?
GF - A vantagem de estar na pele de um deles é a aproximação. Tanto para o jornalista que vive a experiência quanto para quem lê a reportagem final.
Ninguém nunca havia identificado, por exemplo, um ponto na cidade em que carroceiros podem, com grande chance, sofrer um acidente. Eu senti na pele o medo de passar pelo viaduto que liga a avenida Pacaembu à Marquês de São Vicente. Fiquei com uma impressão muito forte de que eu próprio sofreria esse acidente, no momento em que passei por lá. Eu vi os carros chegando muito perto, desvidando da carroça quase em cima.
Sobre as desvantagens agora: eu gostaria muito de ter citado o nome de vários carroceiros "entrevistados" por mim. E gostaria de ter contado muito mais sobre eles, o que só seria possível, eticamente falando, se eu tivesse me identificado como jornalista. NF - Dá para ver, pelo seu relato, que a experiência envolveu riscos --principalmente o de ser atropelado, como você relata. Houve outros perigos que não couberam no texto? Outras experiências mais difíceis que queira contar?
GF - Os riscos foram os do trânsito, basicamente. Mas ser "desmascarado", no albergue, também acho que poderia render conseqüências. Houve um momento em que eu estava fazendo fotos, com a câmera oculta, debaixo de um cobertor. Só que a câmera que eu usei tinha algum dispositivo que ligava automaticamento o flash em locais mais escuros. Eu me certifiquei de que o flash estava desligado, e mesmo assim ele disparou. Suei frio, no momento. Mas fiz cara de paisagem e ninguém notou. NF - O fotógrafo te acompanhava todo o tempo? A presença dele, de alguma forma, o deixava mais tranqüilo? Havia tomado alguma outra medida de segurança --do tipo combinar chamadas telefônicas com alguém?
GF - O fotógrafo só me encontrou no final da reportagem, um encontro de uma hora, no último dia. Eu fiquei o tempo todo sozinho. Levei meu celular por segurança. E só.
Mas sinceramente não acho que corri tantos riscos assim, senão por causa do trânsito. Engraçado que teve até um amigo meu que me aconselhou a levar uma faca escondida. Obviamente não levei nada. Nem canivete. Não creio que seja um mundo assim tããão perigoso como as pessoas pintam ou imaginam, ainda que pareça ser bem menos seguro do que minha casa ou os lugares que eu freqüento. NF - Você diz no seu texto que, no terceiro dia, estava se acostumando com a vida de carroceiro. Pode explicar melhor como foi isso?
GF - Em primeiro lugar, suas pernas se acostumam com a atividade. Experimentei isso no terceiro dia de trabalho (ou o quarto dia puxando a carroça, uma vez que no primeiro dia eu não recolhi lixo). Enfim, no terceiro dia de trabalho, não fiquei tão cansado quanto no primeiro. Acho que todo mundo que inicia uma espécie de atividade física sente algo semelhante. Uma progressão.
Outra coisa importante: eu já não sentia muito mais nojo de pegar as coisas no lixo. Isso me marcou, porque percebi que estamos todos aptos a muita coisa, ao desconforto mais ultrajante. Não somos tão débeis como imaginamos.
Rodrigo Marcondes/Folha Imagem
 NF - Uma das qualidades da sua reportagem é que é possível enxergar os carroceiros sem maniqueísmo, sem pré-julgamentos. Principalmente quando você relata a pausa para o cigarro, conta um pouco da vida de alguns, reproduz seus pensamentos. Foi algo em que você precisou pensar --esse equilíbrio no retrato, sem ser condescendente nem preconceituoso? Ou foi algo natural?
GF - A palavra retrato, nesse caso, diz tudo. Quando fazemos o retrato de alguém, não podemos escapar de determinado resultado. Não é como pintar ou desenhar algo que vem da sua imaginação. Acho que, se há essa qualidade na reportagem, foi algo natural, sim. Não me esforcei para que isso acontecesse. Mesmo porque nunca enxerguei os carroceiros como pessoas boas ou más. Ainda assim, reconheço que simpatizo com a figura de quem move montanhas (de lixo) para conseguir levar uma vida minimamente decente. E acho que isso está lá na matéria. NF - Você saiu assim como entrou, sem se identificar nem avisar às pessoas que estava fazendo uma reportagem?
GF - Entrei e saí sem me identificar como repórter sim.
NF - Por quê?
GF - Para viver o que eles vivem, para receber o mesmo tratamento da população, de assistentes sociais e dos próprios "colegas", não havia outra opção. O tratamento dentro do albergue seria outro se eu me identificasse como jornalista. Talvez o albergue estivesse mais limpo, no dia. Não sei.
NF - Que conseqüências, na sua opinião, há em se revelar como repórter ou em esconder a identidade?
GF - Essa é de fato uma questão ética importante, e para mim foi uma questão bastante difícil de ser trabalhada. Para assumir esse "disfarce", eu consultei vários outros jornalistas, mais experientes do que eu, entre eles a minha editora, recolhendo opiniões sobre os limites, conseqüências e cuidados que eu deveria tomar ao escrever sobre aqueles que se abriram comigo.
O que escrevi na matéria foi o que a minha consciência permitiu, e nesse caso acho que a minha única medida, de fato, foi o meu próprio julgamento.
Também fiz questão de avisar aos responsáveis do albergue de que publicaríamos uma matéria sobre ele, antes da publicação. NF - Algo que me impressionou na sua experiência foi você ter trabalhado um dia inteiro para conseguir o dinheiro de uma refeição. Como é com os outros carroceiros? Eles conseguem juntar algum dinheiro? Como eles conseguem o dinheiro para comprar as carroças?
GF - Muitos ganham por dia o que eu ganhei mesmo. São os carroceiros mais velhos, que não agüentam carregar muito peso nem andar muito. Os mais jovens têm fôlego para fazer até R$ 30, R$ 40 por dia, conforme alguns relatos. O importante é ter os tais pontos fixos que eu cito na matéria. É fechar acordo com uma papelaria, um supermercado, um lojista. Assim, você não precisa andar muito.
Eles conseguem juntar dinheiro com o próprio trabalhando, comendo em lugares mais baratos ou cozinhando em casa e nos albergues.
Para comprar uma carroça, é com o dinheiro de recicláveis mesmo. Dá para fazer o mesmo trabalho sem carroça, o que é muito mais difícil, claro. Latinhas de alumínio rendem bem, são leves e podem ser carregadas em sacos, por exemplo.
Montar uma carroça com sucatas é uma outra saída. Dá para comprar ou ganhar uma peça aqui e outra lá. Muitos carroceiros montam suas próprias carroças, depois, conforme ganham dinheiro, trocam por uma melhor. E assim por diante. NF - Outra impressão forte que tive do seu relato foi a de que a única saída para os carroceiros é não depender dos atravessadores, ou seja, formar uma cooperativa. Você relata que há pessoas tentando organizar os catadores do albergue para se cooperarem. Por que você acha que eles continuam desorganizados?
GF - Eu não diria "única saída". Eles trabalham e conseguem viver com o dinheiro que juntam. Mas, sem os atravessadores, com certeza, conseguiriam muito mais.
Por que eles não se organizam? Acho que porque eles não têm instrução para se organizarem. Muitos não sabem lidar com documentos, alguns são analfabetos. Para formar uma cooperativa, também é necessário espaço físico e de instrumentos, como balança, caçambas etc. Investimento, portanto. O volume de material recolhido é sempre muito grande.
 NF - Fazer essa reportagem mudou de alguma forma seu jeito de ser ou de trabalhar?
GF - Não sei responder direito. De verdade. A única coisa que eu sei é que esse é um tipo de trabalho muito envolvente e que, como qualquer experiência envolvente, ele traz alguma espécie de modificação, sim. Só não sei muito bem identificar o que é.
Fora isso, tem um amadurecimento profissional, às vezes relacionados a técnicas, às vezes puramente espiritual. NF - Fiquei imaginando que você tinha muito mais histórias para contar. Se tivesse escrito o dobro, eu teria lido o dobro. Foi difícil editar? Como você fez? Escreveu um texto maior e cortou? Deu para outro cortar? Quanto tempo levou para escrever?
GF - Escrevi exatamente o dobro. A editora Eliane Trindade cortou, e acho que ficou legal.
Mas, de fato, ficou muita coisa de fora. Não teve jeito. Detalhes pitorescos e fatos completos até.
Acho que uma das coisas que mais me marcou, que estava no texto original, foi um menino de 15 anos que vivia no albergue com a mãe e com a avó e sabia muito sobre a Segunda Guerra Mundial. Decidimos cortar esse personagem pelo simples fato de que ele não era carroceiro. NF - Você já havia feito outras reportagens como essa?
GF - Algumas semelhantes. A primeira é uma viagem que eu fiz para Buenos Aires de carro. Saiu um caderno inteiro em Turismo. [on-line, para assinantes]. A outra foi uma noite que eu passei com um grupo punk que se chama Vicio Punk, no dia em que aconteceu um espancamento atribuido justamente a esse grupo. Saiu na Revista também. [on-line, para assinantes]
NF - Você sempre quis trabalhar em revista?
GF - Não queria trabalhar especificamente em revista. Mas sempre me interessei por "reportagens-mergulhos" e acho que uma revista dá a oportunidade de fazer isso periodicamente.
NF - Tem outros planos profissionais?
GF - Não sou de fazer muitos planos, mas já tenho alguns projetos de reportagens grandes como esta em mente, sim.
NF - Há alguma coisa relevante que acha que me esqueci de perguntar?
GF - Acho importante dizer que não cheguei nem perto de sentir que eu era um deles de fato. Trabalhar por três dias como carroceiro nem de longe te faz um carroceiro. Foi apenas uma ferramenta para identificar problemas, montar um retrato bacana e diferente, aproximar-se.
Olha que engraçado: no último dia, eu estava parado numa fila de carros, voltando para a Folha, o sinal fechado. Eu estava distraído naquele momento. Ou por conta do cansaço ou simplesmente porque eu tinha acabado aquela parte do trabalho e estava mais relaxado.
E nesse momento um homem passou pedindo moedas, carro por carro. Automaticamente, eu enfiei a mão no bolso, para tirar uma moeda de dez centavos que fosse. Me dei conta do absurdo que seria dar a moeda só quando ele passou por mim, sem dizer nada, em direção ao carro seguinte.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h25
 Essa é a vista de quem olha para o oeste, da Redação do NYT (outras fotos no site)
Meu colega DANIEL BERGAMASCO, correspondente da Folha em Nova York, conta sua visita ao novo prédio do New York Times e dá algumas dicas:
Hoje visitei a nova redação do jornal "New York Times", no prédio inaugurado em novembro e que já é referência da arquitetura da cidade. Achei, de fato, bem bonito. Como combinado, compartilho um pouco da visita, sem pretensões de apuração, mas com alguns flashes para contentar o voyerismo dos seus leitores :-)
Passei pelo jornal por volta das 13h para almoçar com um amigo que é jornalista lá. Esse contato com repórteres americanos é uma mão na roda, porque os caras têm mil vezes mais fontes do que nós. E eles têm a contra-partida quando precisam de alguma dica sobre o Brasil.
O refeitório já estava quase vazio (americano acorda cedo e almoça cedo). O jornalista me contou que o bandejão ganhou um prêmio de melhor restaurante corporativo de Nova York. De fato, são vários tipos de cozinhas, muitas saladas, comida ótima e tudo bem light. Exemplo: só há opção de maionese light, o salmão é grelhado, não vi nenhuma fritura, nenhuma gordelícia.
No restaurante, como em todo o prédio, as paredes são de vidro, com barras de ferro brancas horizontais, que dão uma visão estilizada das redondezas. Parece que isso causou polêmica, algumas pessoas se sentem em uma prisão. Mas eu achei legal. Há um site que explica a arquitetura do novo prédio:
A redação ocupa três andares do prédio, interligados por escadas vermelhas e bem largas. Os repórteres ficam em baias feitas com madeira escura, que são bem "stylish", cortam um pouco o clima de repartição. Como em muitas redações do Brasil, há fotos antológicas do jornal emolduradas nas paredes e relógios para todo o lugar onde se olha.
Me contaram que, quando o sol bate no vidro ao final do dia, uma persiana se abre para não fazer luz no computador e na cara dos jornalistas.
Às 14h, quando comecei o tour por ali, tinha pouca gente na redação. Cadê todo mundo? "Os repórteres estão na rua, apurando as matérias. Os que estão aqui são da equipe de edição", disse o jornalista.
Ali no "New York Times" os repórteres são menos jovens que nos outros jornais americanos. A idade média deve ser de 40 anos, segundo meu guia. É rara a admissão de novatos. Eles contratam os caras que se destacam em outros veículos.
O planejamento dos cadernos especiais é grande. Acreditam que o próximo caderno de turismo, que só sai no domingo que vem, já está todo pronto, diagramado e revisado? Me disseram que vai para a gráfica quatro dias antes da publicação. Não sei se é verdade. Cá entre nós, vai sair uma matéria sobre o Brasil :-)
Percebi grande preocupação com a revisão de texto quando meu colega encontrou sua editora e os dois ficaram se queixando um tempão de um erro que escapou, de uma palavra repetida _talvez algo como "o homem será será processado". Mas eu pesco erros de acabamento e revisão o tempo todo nos cadernos diários do jornal.
***
Ana, lembro aos eleitores que as matérias do NYT estão disponíveis na internet e recomendo aos novatos e aos que não têm domínio do idioma que não tenham medo do New York Times. As matérias são fáceis de ler, não são nenhum bicho de sete cabeças. Só é preciso ter um pouco de paciência, porque muitas vezes eles não começam explicam logo no lide a listinha "o que/quando/onde/por quê".
Quem quer moleza para se iniciar na leitura de publicações estrangeiras deve acessar o site da revista "The Economist", que tem textos muito, muito simples _fruto de uma apuração muito, muito sofisticada. É tudo explicadíssimo. Exemplo que a nossa colega Mônica Bergamo citou outro dia quando estávamos falando da renúncia do Fidel Castro: a revista começa escrevendo que, quando o Fidel tomou o poder, os Beatles ainda estavam por vir. Não é um jeito muito acessível de se traçar a dimensão dessa longevidade no poder? Tem alguém que não entenda?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h49

A pergunta é de meu leitor Milton, aluno de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.
Pelo que converso por aí, vejo que algumas questões dele são semelhantes e outras quase opostas às de outros alunos de jornalismo.
Antes de responder para o Milton, reproduzo sua mensagem (com o consentimento dele), para que vocês avaliem e dêem sua opinião.
Vivo um dilema. Me pergunto a todo instante para que serve o curso de jornalismo? A minha faculdade ultimamente tem ganhado estrelas, sido bem falada pelos profissionais do setor, ganhado visibilidade e se tornado uma das principais na área da comunicação aqui em SP.
Apesar das boas referências, eu não estou suportando (no sentido mais forte da palavra) o formato do curso e penso seriamente em largá-lo e ir fazer algum curso mais proveitoso. Não sei se é um problema da Metodista em particular, mas a faculdade está formando técnicos em jornalismo. Os alunos saem da faculdade com (segundo contas minhas) 1.600 horas de aulas práticas e 1.200 horas de aulas teóricas. Penso que a idéia do curso é que todos saiam prontos para fazer um release, decupar uma fita, fazer uma passagem, montar um telejornal, um projeto de assessoria de imprensa ou qualquer coisa do tipo. O curso não se preocupa em ensinar ninguém a pensar.
A turma mais recente da faculdade tem 140 alunos na mesma sala. A metodista virou uma grande fábrica de jornalistas. O processo seletivo é quase imperceptível. Eu mesmo nem sequer fiz prova da faculdade.
Pago atualmente pouco mais de R$ 800 de mensalidade, mais custos de transporte e alimentação, e tenho na grade aulas virtuais e eletivas (que nem sempre são escolhidas a gosto do aluno) que nos ensinam a brincar. É isso mesmo, tenho uma disciplina chamada "Brincar", na qual eu sou obrigado a brincar de roda, bater palminhas com outros alunos e cantar cantigas.
Por essas e outras, penso em largar o curso de jornalismo. Cursar sociais, filosofia ou história seriam opções.
Já trabalho na área faz três anos e antes mesmo de começar a faculdade eu já trabalhava. Isso me leva a crer que não preciso de um diploma para ser jornalista. A Folha de S.Paulo também me parece que pensa assim.
O meu receio é em relação às outras empresas. O que elas pensam? É realmente essencial ter um diploma? Sem isso não consiguirei nada? Por todos os lugares que passei, ninguém nunca me pediu nenhuma prova de que eu estava realmente fazendo jornalismo. E pelo que ouço de colegas, é muito raro alguém pedir o diploma de conclusão do curso.
Fica a pergunta. O curso de jornalismo é uma loja de diplomas? Ou eu estou no lugar errado?
Meu comentário
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h21

Este post teve a colaboração de Larissa, do Recife; Takata, Natalie, Camila e Rafael, de SP; Flavia, de Manaus; Luisa e Guilherme, do Rio; Fernando, de Belém; Wallison, de Ribeirão das Neves (MG); Beatriz, de Campinas e Raphael, de Santos [para ler os comentários originais, clique neste post]
Era uma reportagem sobre um assunto bizarro: papel higiênico impresso com textos literários e até religiosos.
Ao ler, achei que faltava uma informação (leia aqui o texto) e perguntei aos leitores o que achavam. Descobri então que faltavam várias outras.
Vou só fazer uma distinção entre as lacunas apontadas por meus colaboradores.
Algumas são informações importantes que poderiam e deveriam estar já na nota que fala sobre o fato --a existência de tal produto.
Outras são também relevantes, mas, na minha opinião, são sugestões de pauta, ou seja, aprofundamentos do fato quente, que poderiam dar origem a uma outra matéria.
O QUE FALTOU DIZER
- Do ponto de vista "higiênico", a fabricação é a mesma? O papel é o mesmo? Há contra-indicação? A tinta não dá alergia?
- É uma promoção sazonal ou pretende ser um produto permanente?
- Quanto já foi vendido?
- Eles despacham para outros países?
- Vai ser vendido no Brasil?
- Qual é o site que vende o produto? [acho que esta informação depende das duas respostas anteriores e explico abaixo]
SERVIÇO VERSUS DIVULGAÇÃO
Alguns podem argumentar que publicar o site onde o produto é vendido seria fazer divulgação da empresa, o que não é tarefa do jornalismo.
Não é, realmente.
Mas, se sua reportagem é sobre algo que o leitor pode querer comprar, sonegar essa informação é prejudicá-lo. O melhor que o repórter pode fazer é dar o link, mas cuidar de tratar o produto de forma crítica. Respondendo, por exemplo, a questões importantes que estão logo acima e a outras também relevantes que seguem abaixo. [a propósito, depois de algumas tentativas no Google, está aqui o link para fazer o pedido --mas acho que só entregam na Espanha, mesmo. Se é que entregam. Parece mais uma tentativa de promover o espetáculo teatral e achar patrocínio.]
PARA UMA PAUTA FUTURA
- A opinião de cristãos e budistas --gostaram de ver seus textos religiosos estampados em papel higiênicos?
- A opinião de quem entende de literatura: "O suposto valor literário do papel higiênico é questionável, já que a única pessoa que atribui esse valor é o maior interessado nas vendas --o dono da empresa.Ouvir pesquisadores e professores de literatura poderia ter dado pontos de vista mais críticos e talvez rendesse uma suíte para essa reportagem".
- A opinião dos consumidores: quem usaria, quando usaria, alguém que será beneficiado com o produto etc.
- O que as editoras acham disso? E os autores ainda vivos?
UM NÚMERO SOZINHO É QUASE NADA A informação de que eu havia sentido falta era outra --provavelmente, estava sugestionada pelo exercício que havíamos acabado de fazer no treinamento, que envolvia uma tabela cheia de números.
Meu problema era com esta frase: "Os rolos custam 3,70 euros (cerca de R$ 9,8) cada".
Afinal, isso é caro ou barato? Quando custa um rolo comum? Comparando a quantidade de caracteres impressos num rolo, fica mais caro ou mais barato que um livro, proporcionalmente?
Sempre que a gente for escrever um número numa matéria, vale a pena pensar se não está faltando compará-lo com algo, para que o leitor entenda melhor a importância dessa informação.
Quer outro exemplo? Na semana passada um trainee, durante uma reportagem, me disse que 198 empresas de certo ramo haviam sido multadas de janeiro a março.
O que quer dizer esse número? Sozinho, muito pouco, não é? Quantas foram fiscalizadas? Quantas há no total? Quantas são multadas, na média, por trimestre? Aí sim as coisas começam a entrar em perspectiva.
TEXTOS SOBRE RANKINGS E, para aproveitar a deixa, divido com vocês as conclusões a que chegamos no exercício dos trainees, que escreveram sobre uma tabelona da OMS que tratava de expectativa de vida.
Alguns pontos em que pode ser útil pensar quando formos escrever sobre rankings:
- qual o índice do Brasil?
- qual a posição do Brasil? (sempre importante indicar o total de países pesquisados. Ser o 10º entre 11 é diferente de ser o 10º entre 200 ou entre 956)
- quem é o primeiro e quão longe, em termos percentuais, está do índice brasileiro?
- o país melhorou ou piorou em relação a anos anteriores? quanto?
- essa melhora percentual é alta ou baixa comparada com a média, ou comparada com países equivalentes?
- olhar países relevantes que estão à frente do Brasil, para ver se não vale mencionar o fato (por exemplo, se um país em guerra há anos está melhor que o Brasil, isso é relevante)
- comparar o Brasil com países semelhantes (por exemplo, com a América do Sul, a América Latina ou com os Brics)
- procurar os casos extremos: menor índice, maior crescimento, maior piora, países que pioraram, países que são exceção (por exemplo, aqueles em que homens vivem mais que mulheres)
- sempre citar a fonte
- sempre citar restrições --como o fato de não serem números oficiais, ou mudanças na metodologia
- refletir sobre que números vale a pena incluir no texto e quais seria melhor colocar numa arte (em geral, uma arte será sempre necessária num caso destes)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h30
Minha leitora Desirée havia escrito perguntando sobre a oportunidade ou não de se especializar em jornalismo científico (neste post).
Depois escreveu sobre como sugerir pautas nessa área (aqui) e, num terceiro post, dividiu conosco indicações de leitura nessa área (aqui).]
E agora ela conta como conseguiu um estágio em ciência:
Aí vai a história do meu estágio na Fapemig.
Estava fazendo estágio no Incra aqui de Minas há quase dez meses e senti que já era hora de partir pra outra e, principalmente, começar a trilhar o caminho para trabalhar com cobertura de C&T.
Entrei em contato com a Assessoria da Fapemig, explicando que tinha interesse nessa área, que pretendia me especializar em jornalismo científico.
Por coincidência (nisso, o fator sorte foi muito importante), eles estavam realizando a seleção para a vaga de estágio que ficara aberta havia pouco tempo e me chamaram para a entrevista. Pediram meus textos e, dois dias depois, fui informada que havia sido escolhida!
Acho que uma boa dica para quem está querendo trabalhar nessa área é procurar os centros de produção de pesquisa (seja universidades ou instituições como a Embrapa --que faz um excelente trabalho de comunicação) ou as Fundações de Amparo à Pesquisa de seus Estados, já que é raro conseguir espaço nas revistas especializadas ou nas editorias, quando ainda se é estudante.
A Fapesp realiza um grande e variado trabalho de divulgação, que vai desde a Agência Fapesp até a Revista Pesquisa Fapesp, que é muito legal. Bom, é isso. Espero que as discussões sobre a pesquisa com células-tronco impulsionem a reflexão sobre a necessidade de tornar os assuntos ligados à ciência mais próximos da população e valorizem esse compo de trabalho.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h47
No dia 16, meu leitor Marcos viu na Folha uma reportagem em que o correspondente de Washington, Sérgio Dávila, fazia uma colaboração num texto de política nacional no caderno Brasil. E perguntou:
Você sabe como os correspondentes se informam sobre assuntos nacionais?
Pedi ao próprio SÉRGIO DÁVILA que respondesse:
- No caso específico do governador Aecio Neves, recebi a informação de que estaria em Washington da assessoria de imprensa do governo mineiro. Mas não é a regra. Esse dado poderia ter vindo da Embaixada do Brasil nos EUA. Ou do Itamaraty, em Brasília. Ou de minhas fontes na embaixada aqui em Washington, com quem falo freqüentemente e que me avisam dessas visitas com antecedência –esse último método é o que eu prefiro e valorizo mais.
- Lendo. Leio os principais jornais brasileiros todos os dias (Folha, Estado, Globo e Valor), mais os online desses jornais, o UOL, o G1, a Reuters brasileira e o serviço brasileiro da BBC. De vez em quando, dou uma passada no google news brasil. Nos fins de semana, leio a Veja, a IstoÉ, a Época e a Carta Capital. Claro que não leio as edições inteiras de todos esses títulos, mas vejo pelo menos os títulos e entro nas reportagens que me interessam.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h59

Meu leitor Marcelo, que é jornalista, convida os colegas a conhecer seu blog de humor.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h52
Jornalismo 2.0
Minha colega NATALIE CONSANI fez uma resenha do livro "Jornalismo 2.0" para o Novo em Folha:
Espero que ajude seus leitores. Eu mesma estou treinando as dicas deles. E ainda me confundo com coisas bobas, como RSS! Por isso, o livro é quase como se fosse um manual! O livro está disponível em português para downloads gratuitos.
Natalie fez uma resenha bem detalhada, descrevendo capítulo por capítulo do livro. Publico aqui no blog o comentário geral e, no site do programa de treinamento, a íntegra da resenha.
O livro “Jornalismo 2.0 – Como sobreviver e prosperar – Um guia de cultura digital na era da informação”, do jornalista norte-americano Mark Briggs, deve fazer parte da bibliografia de qualquer jornalista, especialmente aqueles interessados em escrever / produzir conteúdo para “plataformas” online, como blogs e sites de notícia.
Para iniciantes na “web 2.0”, a obra é bastante completa. Parte de conceitos muito básicos, como o que é propriamente internet, define siglas comuns a quem opera a rede, como FTP, megabytes, feeds, RSS e, capítulo a capítulo, vai aumentando o nível de complexidade do conteúdo, até chegar a ensinar, passo a passo, como editar e postar arquivos de vídeo com dois dos mais populares softwares de edição.
Apesar da crescente complexidade do conteúdo, Biggs mantém uma linguagem simples e muito concisa. Recheia seus argumentos e suas dicas com muitos exemplos, boa parte deles envolvendo jornais e jornalistas reputados e até vencedores de importantes prêmios, como Pulitzer. E, claro, dá exemplos de repórteres ousados, que estão inovando com as ferramentas à disposição.
E mais: no final – ou ao longo – de todos os 11 capítulos do livro, Biggs sugere tarefas para os leitores aprenderem e testarem na prática.
Para dar uma idéia de como Biggs usa esse didatismo no livro e que tipo de informações práticas ele traz para quem, como eu, é totalmente “foca digital”, fiz um resumo dos capítulos do livro.
WEB 2.0 E O TERREMOTO
Aproveitando o tema, vejam o que conta meu colega ALEC DUARTE:
Desta vez o furo foi do microblogging. O tremor em SP pintou primeiro em ferramentas como o Twitter (capa de informática de hoje, on-line para assinantes. Veja aqui uma matéria mais antiga, aberta a qualquer leitor). Ótima oportunidade para popularizá-lo como instrumento jornalístico (e num dia em que o jornal falou muitíssimo dele...) Já escreveram sobre: http://8bitsemeio.apostos.com/2008/04/terremoto_sentido_em_sp_antes.html http://www.gebh.net/oprimo/2008/04/terremoto-em-so-paulo-um-timeline-bizarro http://webmanario.wordpress.com/2008/04/23/o-tremor-a-interacao-e-o-microblogging/
Alec Duarte sugere bibliografia básica sobre jornalismo digital
Webmanario - ferramentas e dicas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h53
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