Programa de Treinamento

Novo em Folha

 

Princípios básicos

Princípios básicos

Site da Abraji relaciona as palestras do congresso --no começo de maio em BH-- que vão tratar de técnicas jornalísticas

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h18

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Para organizar a leitura

Para organizar a leitura

Dica do Thiago:

Eu uso o Firefox, da Mozilla, para acessar a internet. Nele você tem a opção de baixar várias extensões. Uma dessas extensões, Morning Coffee, permite gravar vários sites, blogs de que goste. E, com um clique na xícara de café (símbolo do programinha), são abertas, em abas, todas as páginas. Tenho vários blogs (o seu, do Juca, do Fábio Seixas) e muitos sites. Ainda não conheço melhor jeito de se manter informado.

Meu amigo Marcelo Soares completa:

Eu também uso o Firefox e tenho algumas extensões favoritas: Forecastfox (previsão do tempo na barrinha inferior), PDF Download (para baixar PDFs escolhendo entre abrir direto ou baixar antes), ShowIP (para mostrar o IP da página que acesso), Who Is This Person? (para pesquisar imediatamente em vários bancos de dados nomes que aparecem na tela) e Shareaholic (para pôr automaticamente no del.icio.us as páginas interessantes que eu descubro).

Quando eu usava o Firefox 2, eu também usava o Ressurrect Pages (para encontrar espelhos de páginas inativas) e o del.icio.us Bookmarks (que apresentava numa barrinha os meus favoritos públicos). Na 3 eles ainda não funcionam.

Para organizar notícias, eu ainda não conheço um mecanismo melhor que o Google Reader. Tenho cadastradas 266 fontes de notícias, classificadas por assunto. O serviço permite que eu pesquise nelas e marque as mais interessantes para dividir com os amigos --criando assim o meu próprio feed. O link está no meu blog.

Adendo do Paulinho:

Uso várias extensões e a que mais gosto é o Pic Lens. Depois que comecei a usá-lo, ver imagens na web nunca mais foi a mesma coisa. Olha o link para download para adicionar o Pic Lens no firefox. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h07

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Atirador solitário

Atirador solitário

O Thiago é um leitor do meu blog que, há muitos meses, me perguntou como oferecer um free-lancer para uma revista.

Dei umas dicas, ele foi atrás e teve sua matéria publicada. Depois topou com um caso espinhoso, complicado até para quem tem a retaguarda de um veículo, quanto mais para um frila.

Mas não se intimidou, foi atrás e, neste mês, o resultado (ou parte dele) saiu na revista "Placar": a notícia de que a PF investiga o Cruzeiro por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal.

Achei que valia muito a pena entrevistá-lo para o blog não só para contar os bastidores da apuração, mas porque o Thiago tem uma situação parecida com a de muitos leitores: sem emprego, batalha para conseguir lugar num veículo, por enquanto sem sucesso. Também, como outros leitores que já escreveram aqui, é formado em RTV, e isso o atrapalha na hora de tentar uma vaga.

Na conversa abaixo, ele dá dicas valiosas:

Novo em Folha - Como surgiu a pauta? Uma fonte te passou? Você esbarrou no assunto numa outra apuração? Teve um palpite e foi atrás?

Thiago Braga Duarte - Por incrível que pareça, tive um palpite. Estava de “férias” em Belo Horizonte e comecei a ouvir um zum-zum-zum sobre o Cruzeiro. Nada que não fosse novo afinal, sempre pipocavam casos suspeitos envolvendo seus administradores. Casos esses que, apesar de serem suspeitos, nunca deram em nada, é bom frisar. Mas resolvi ver se esse dava alguma coisa. Com o tempo descobri que a PF estava investigando o clube.
 
NF - Você estava trabalhando como frila quando começou a apurar a pauta. Como fez para vendê-la para a "Placar"? Já tinha segurança de que haveria notícia? Vendeu uma pauta concreta ou uma promessa? Mandou por e-mail? Por telefone? Foi lá pessoalmente?

TB - Continuo só como free-lancer. Não tenho emprego fixo, o que é um problema.

Na época, eu tinha acabado de fazer a minha primeira pauta para Placar. E estava à procura de novas pautas. Quando eu resolvi ir atrás dessa história, tinha certeza de que Placar se interessaria, até pelo histórico da revista. No início dos anos 80, eles publicaram uma extensa matéria sobre a máfia da Loteria Esportiva.

Nesse quesito de achar uma publicação que se interessasse pela história, foi fácil.

Não tinha segurança de que haveria a matéria. Fui apurando, uma coisa puxando a outra, mas nada de concreto. Até que cheguei ao inquérito da PF. E aí tinha a notícia. Os meus contatos com Placar eram por e-mail. Não os conhecia pessoalmente.
 
NF - Pensou em algum formato especial, por se tratar de revista?

TB - Não pensei em nenhum formato especial. Minha preocupação sempre foi tentar obter um “caso” concreto.

NF - Já conhecia alguém na revista? Ou foi com a cara e a coragem?

TB - Fui com a cara e a coragem. Só conhecia o pessoal de ver na televisão e depois fui me correspondendo com eles por e-mail.
 
NF - Qual foi a recepção que teve? Foi fácil entrar em contato? Aceitaram de cara ou teve que insistir?

TB - Foi fácil entrar em contato. Peguei o e-mail do redator-chefe da revista e enviei algumas coisas que eu fazia na época. Depois, sugeri uma pauta para eles e me pediram para fazer. Aí viajei para BH e pensei nessa pauta. E eles concordaram.
 
NF - Sua reportagem envolve irregularidades e suspeitas que sempre podem dar problemas para o jornalista e a publicação. Como você e a revista trataram disso?

TB - Com muito cuidado. Como você disse, são suspeitas de irregularidades. Pode parecer clichê, mas é verdade: não estou aqui para julgar ninguém, só para relatar os fatos. Deparei-me com coisas que, em um primeiro momento, pareciam graves. Consultando especialistas, vi que eram normais.
 
NF - Você tinha documentos quando começou a apurar? Se não tinha, quando e como conseguiu documentos?

TB - Não tinha documentos antes. Com o tempo consegui alguns. A maioria só serviu para eu me inserir na história, saber o que tinha acontecido anteriormente.
 
NF - Já tinha feito reportagens com esse grau de responsabilidade antes?

TB - Nunca havia feito nada parecido.

NF - Que impacto isso teve na hora de entrevistar as fontes? Como fazer para que elas confiassem em você?

A responsabilidade é grande. Pensei nisso o tempo todo. Eu não poderia ser leviano para acusar pessoas sem provas e correr o risco de arruinar a vida destas pessoas. Por pior que elas possam ser. Não é uma coisa que me faria sentir bem.

Na hora de conversar com as fontes, vi que havia muito revanchismo. E tinha que colocar isso de lado. Algumas fontes só foram confiar em mim quando eu passei a me antecipar a elas, conseguindo coisas que elas nem sabiam que existiam.

NF - Você me contou que tinha pouca experiência nesse tipo de apuração. Como driblou essa inexperiência?

TB - Ainda me acho inexperiente. Ontem mesmo tive uma idéia daquelas “como não pensei nisso antes?”. Para driblar essa inexperiência, tive que falar com quem entende do assunto. Procurei, com a sua ajuda, pessoas que já passaram por isso. E todas as dicas foram importantes.

Outra coisa, por maior que seja essa inexperiência, a vivência no assunto –-o futebol-– me ajudou muito. É uma coisa que sempre foi prioridade para mim. E que eu leio bastante. Então, às vezes, esse conhecimento diminuiu a distância da relação que existia entre mim e as fontes.

Um exemplo fictício: há uma suspeita de irregularidade em uma transação de um jogador. E você já chega e diz: “Ah, sei, esse jogador foi vendido por x, para o time y, no ano tal”. A fonte vai se surpreender com a sua memória e sua rapidez. Geralmente essas pessoas não têm os detalhes guardados na cabeça. Com isso você ganha duas vezes: ganha a confiança dela e mostra experiência no assunto.
 
NF - Na lista da Abraji, você escreveu que uma das dificuldades é que os investigados têm forte influência e intimidavam as fontes. Pode relatar algum caso?

TB - O que eu ouvia é que “ninguém falaria comigo”. Não acreditava, até que passei a ligar para as pessoas. E quase ninguém falou comigo! A maioria está desacreditada, acham que não há mais nada a fazer. E por isso não fala. Esquece que pode ajudar.

NF - Como fazer para driblar essa pressão?

TB - Acho que não sou capaz de dar dica nenhuma para ninguém. Mas o que essa apuração me ensinou, e eu passo adiante, é o seguinte: em casos como esse, no qual as investigações estão "blindadas" pelos investigados, sempre terá uma pessoa que foi "passada para trás", que fazia parte do negócio e foi deixada em segundo plano. E essa pessoa, com um pouco de persuasão, pode falar com você. Conseguir provas será complicado, mas ela vai te dar o caminho das pedras.

NF - Você foi ameaçado ou sofreu alguma outra intimidação?

TB - Não, em nenhum momento. Ainda bem!

NF - Jornalismo esportivo sempre foi sua área? Conte um pouco do que você já fez como jornalista.

TB - Sempre! Costumo dizer que eu me preparo desde quando era criança, quando anotava nos cadernos –-para o desespero da minha mãe, já que assim, os cadernos escolares duravam muito menos tempo-– as escalações dos times que passavam na televisão.

Fui, por 2 anos e meio, produtor de rádio. E tinha que produzir material para programa diário de esporte. De segunda a sexta, o programa tinha uma hora de duração. Nos finais de semana, nove horas! Lógico que tem o pré e o pós-jogo. Mas não era raro ter que produzir material para um sábado em que só havia um jogo na grade. Então, nesses dias, entre jogo e os programas de pré-jogo e pós-jogo, restavam 5 horas de programação para produzir. Lógico que eu não fazia sozinho. Mas era complicado para produzir tanto material.

NF - Você é formado em RTV, não é? Isso te atrapalha? Como driblar? Pensa em fazer jornalismo?

TB - Sim, fiz RTV, e isso atrapalha, sim. Bastante, eu diria. Como driblar? Ainda estou à procura da resposta. Fazendo frilas é uma delas.

Se você tem conhecimento do assunto, não há nada que impeça você de escrever sobre ele.

Já fui “limado” de várias entrevistas por causa da minha formação. É uma pena. Sei que posso realizar um ótimo trabalho como repórter.

Quando estava na rádio, tinha verdadeiro pavor de reportagem. Sou extremamente tímido. Mas com a vivência como produtor, essa timidez – pelo menos a profissional – foi pelos ares. Eu tinha que ligar e convencer as pessoas a falarem ao vivo, no ar, naquele exato momento. Tudo era para ontem. E eu não trabalhava na Jovem Pan, Bandeirantes, CBN ou Globo. Trabalhei na Tupi AM e na Rádio Capital. Ou seja, era duas vezes mais difícil!

Estou inclinado a fazer uma extensão em Jornalismo Esportivo. Só não fiz ainda por não saber se só essa extensão resolverá meu problema. Ou se, mesmo assim, terei que fazer um complemento para o jornalismo.

NF - Que dicas você dá para quem, como você, é frila e precisa conseguir trabalho?

TB - Para fazer frilas tem que conhecer ao assunto em questão. E ser bem informado para pensar no que ninguém pensou. Essa é a melhor maneira de fazer frilas: ver aquilo que ninguém viu. Mesmo que já tenha sido noticiado, você pode ter um olhar diferente e descobrir algo com que ninguém se importou.
 
NF - Qual foi a repercussão da reportagem em relação às fontes?

TB - Até agora nenhuma reação deles.
 
NF - E em relação a leitores e colegas jornalistas?

TB - Torcedores do Cruzeiro entraram em contato comigo me elogiando e dizendo que, apesar de gostarem do clube, apóiam reportagens como essas, por saberem que há algo “estranho” na administração do clube.

Todos me elogiaram, mesmo que não haja nada na matéria conclusivo. Elogiaram pela estrutura da matéria e pela apuração. E insistiram para que eu não desista de continuar procurando novas coisas.

Leitor formado em RTV pergunta como lidar com isso numa entrevista de emprego

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h55

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Fronteiras não demarcadas

"Queria ter coragem de fazer loucuras por uma reportagem."

A frase acima, mais ou menos assim, foi de uma leitora ao comentar a questão que colocamos sobre o caso Cabrini: até onde podemos chegar numa apuração?

A resposta não é mesmo simples.

Claro que ninguém deve matar, roubar, chantagear ou se prostituir por uma informação. Na minha opinião, não há o que discutir sobre isso.

Mas e quanto a enganar? Omitir? Passar-se por outro? Pegar sem pedir? Entrar sem perguntar? Fingir amizade? Fazer acordos? Há um extenso terreno pantanoso com o qual é preciso tomar muito cuidado, pensar muito bem nos objetivos, na importância pública da informação que se procura e nos custos e conseqüências do que é necessário para obtê-la.

É preciso nunca se esquecer de que há riscos. De vida, inclusive.

Agora, para ser franca, entendo a frase da minha leitora. Também sinto uma ponta de inveja dessas pessoas que nasceram para ser repórter a qualquer custo. Que arriscam a vida e são absolutamente caras-de-pau. Mas, apesar da inveja, não queria estar no lugar deles...

Voltando à pergunta inicial, como fui repórter por pouco tempo --e jamais passei por uma situação nem de perto parecida com a do Cabrini--, pedi a um colega que é muito investigativo, mas também muito responsável, que me ajudasse a responder. A decisão de omitir o nome dele foi minha:

Sobre sua pergunta: "Faz sentido ter relações com traficantes?".

-Como repórter, converso com qualquer pessoa que me procure para conversar sobre assunto que tenha interesse jornalístico: juiz, traficante, freira, assassino, lobista, prostituta, tudo que respira na face da Terra é matéria-prima do jornalista.

Não há vetos, não há preconceitos, não se pode fechar as portas a ninguém. Se o repórter se recusa a falar com algumas pessoas, mesmo as piores do mundo, está reduzindo sua visão do mundo, e por extensão, reduzindo a visão do leitor.

Sua pergunta pega na expressão "ter relações".

Esse é o ponto da discussão, até onde ir, que tipo de "relação" é saudável para o jornalismo, quando se avança o sinal a ponto de confundir a apuração com um crime. Não há só um limite para o repórter, mas vários (o da ética, o da moral, o da lei). Assim, a resposta é diversa e um chavão tremendo, mas verdadeiro: cada caso é um caso.

Convém a cada repórter estar atento a esses limites e saber se pode avançá-los ou não. E estar preparado para pagar por esses avanços, se errados.

Um limite que não pode ser ultrapassado por nenhuma alegação é o da lei. Se traficar drogas é crime, não é admissível que se possa traficar para provar uma teoria ou chegar mais perto "da verdade".

Por outro lado, temos exemplos de grandes reportagens feitas sob o efeito de drogas, como boa parte da obra do legendário Hunter S. Thompson. Cito ainda uma recente reportagem do jornalista Claudio Julio Tognolli na revista "Rolling Stones" sobre um chá alucinógeno, uma das melhores coisas que li em muitos anos.

Em outras situações, contudo, a lei não é tão explícita ou foi mal compreendida. Recomenda-se uma reflexão, a começar do ponto de vista jurídico, antes de qualquer passo.

-Há um ponto que quero defender melhor: não é só uma questão de ética, é indispensável que jornalistas ouçam traficantes e criminosos de toda espécie. No atual estágio do crime organizado no Brasil, é salutar e saudável para a democracia que os repórteres estejam observando, ouvindo e interargindo com criminosos _embora isso seja deveras perigoso. Se não por outras, por duas belas questões que os criminosos ajudam a responder: -A polícia está sendo violenta e agredindo os direitos humanos? -O crime organizado tem ligação com políticos e autoridades?

Lembremos que foi um mafioso, Tommaso Buschetta, quem melhor expôs as vísceras da máfia italiana. Daí a ênfase de todo procurador e promotor em buscar a delação premiada, pela qual um criminoso aceita colaborar com a Justiça em troca de penas mais leves. Defendo enfaticamente a cobertura policial também (claro que não somente) a partir do ponto de vista do "bandido".

Quando trabalhei na cobertura policial, por cerca de dois anos e meio ao todo, como repórter e como editor, procurei fazer isso, na medida do possível, nem sempre com bons resultados, já que os criminosos tendem a ver a imprensa como uma auxiliar da polícia.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h12

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É errando que se acerta

Não, não se trata de uma subversão da oração de são Francisco. É que recebi de meu colega EDUARDO KNAPP o e-mail abaixo e me ocorreu que é bem parecido com o caminho que percorremos no programa de treinamento.


 
- Mestre, como faço para me tornar um sábio?
- Boas escolhas .
- Mas como fazer boas escolhas?
- Experiência.
- E como adquirir experiência, mestre?
- Más escolhas.
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h32

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Fontes numa rebelião

A dúvida é de minha leitora Déborah:

Há 3 dias a cadeia da minha cidade está em rebelião. Na verdade a rebelião começa, o Choque entra, os presos se acalmam, a policia apreende facas e celulares. No dia seguinte a confusão se repete. Os presos, para variar, sempre têm um motivo.

Como a cadeia tem o triplo de presos que deveria e o prédio está em péssimas condições, a imprensa, por motivo de segurança, não entra.

Fazemos plantão na porta esperando notícias. Ao final, o delegado aparece junto com um capitão da PM e conta o que aconteceu.
 
A família, tanto quanto eu, está do lado de fora sem saber o que está acontecendo.

Nesse caso, parentes dos presos são fontes também? Ou seria só delegado, Polícia Civil e Militar?

Como é que a gente define quem é fonte e quem não é?
 
O primeiro passo é pensar sempre no que queremos informar a nosso leitor com a reportagem que estamos fazendo.
 
No exemplo prático da Déborah, se o objetivo é mostrar aos leitores da cidade como algo da esfera da política pública afeta a vida dos moradores, os familiares são fonte com certeza. Eles são diretamente afetados pela rebelião e têm histórias para contar.
 
Já se o jornal estiver apenas interessado na rebelião em si --se já terminou, se alguém morreu, quantas horas durou--, os parentes não terão informação para dar.
 
Histórias podem vir de onde menos se espera
 
É bom, de qualquer forma, separar a pergunta da Déborah em duas partes:
  • o que é preciso fazer para atender ao que o jornal espera dela nesta pauta específica 
  • o que ela pode fazer como repórter, no sentido mais amplo

É importante termos claro qual é o objetivo da reportagem e que informações precisamos recolher para dar conta dela.

Mas o repórter nunca deve subestimar histórias de quem está a seu lado.

Conversando com as famílias, a Déborah pode descobrir outras pautas e até notícias melhores do que a que ela foi cobrir.

Basta lembrar exemplos recentes do Breno e da Karin (clique nos nomes para ver as histórias) ou, para ficar no mundo das cadeias, uma história muito legal que a super-repórter LAURA CAPRIGLIONE só descobriu porque, durante uma rebelião, foi conversar com parentes.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h26

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Fontes e cocaína

Como não poderia deixar de ser, leitores me pedem que escreva sobre o caso Cabrini --repórter da Record detido e indiciado por tráfico de entorpecentes, o que ele nega. Segundo o repórter, provas foram plantadas enquanto ele fazia uma investigação jornalística.

A questão mais relevante para o nosso blog, que procura pensar sobre o dia-a-dia da profissão, é uma declaração que ele deu, segundo a polícia:

--"Fui obrigado a consumir o produto [cocaína] a fim de demonstrar que o clima amistoso permanecia, fato este que ocorreu uma vez", disse, referindo-se a uma reportagem sobre tráfico de drogas.

Segundo reportagem desta sexta (18), ele diz que estava sob a mira de uma arma.

O que acham os leitores?

Um repórter que está apurando tráfico de drogas e estabelece relação com fonte pode consumir drogas para criar uma relação de confiança?

Até onde ir?

[ERRATA: tinha escrito ontem que consumir drogas não é crime, mas meu professor GUSTAVO ROMANO corrige: é crime, sim. Artigo 28 da lei 11.343/06. O que mudou foi que a pena se tornou mais branda (advertência, prestação de serviço a comunidade, medidas educativas, multa).]

Para entender direito: blog do professor de direito do programa de treinamento

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h37

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Para combater o juridiquês

Para combater o juridiquês

Rodrigo Formiga, assessor jurídico da Associação dos Magistrados Brasileiros, leu a dúvida da Cris sobre como e quando usar termos técnicos jurídicos e avisa:

A AMB lançou em 2005 uma campanha permanente que trata justamente da simplificação da linguagem jurídica. O hotsite pode ser acessado aqui  e o livreto, aqui. Note que no hotsite existem textos que tratam muito bem do tema.

No blog do Fred, um leitor deu uma boa resposta à questão:

Basta que a mensagem seja elaborada em vocabulário adequado à compreensão do destinatário. Se técnicos, há de ser o técnico. Se leigos, há de ser o coloquial. Evitado o jargão, é possível substituir a palavra técnica específica pela genérica de fácil compreensão ao leigo. Assim, acórdão vira decisão do tribunal e sentença decisão do juiz: "o tribunal, ou o juiz, julgou; o juiz, ou o tribunal, decidiu". Crime de homicídio vira, simplesmente, assassinato, pois a palavra não expressa, tecnicamente, uma figura penal. Se necessário o tecnicismo e o espaço o permitir, é útil explicar seu significado em linguajar coloquial, em notas paralelas ou boxes. Vale, enfim a sensibilidade e a experiência do jornalista. Que, para cobrir assuntos técnicos, deve ter conhecimento mínimo da matéria --a técnica, não a noticiosa. Não é, Frederico?

A dúvida da Cris
Dicas para textos sobre casos judiciais

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h40

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Exatidão é recurso narrativo

Meu trainee IAGO BOLÍVAR me mostra o texto do "Washington Post" sobre a visita do papa aos EUA. O começo está abaixo, traduzido por mim, mas o original pode ser lido on-line:

O papa Bento 16, líder espiritual de 65 milhões de católicos americanos, aterrissou na base aérea Andrews e foi recebido pelo presidente Bush e cerca de 800 pessoas.

Tocando o solo às 15h52, o avião do pontífice, batizado de Pastor 1, taxiou para estacionar exatamente no horário previsto para a chegada, às 16h. Esta é a primeira visita de Bento 16 aos EUA desde que ele se tornou papa, em abril de 2005. Durante os seis dias de estadia, ele vai visitar Washington e Nova York, reunir-se com Bush, celebrar duas missas públicas para mais de 100 mil pessoas, discursar nas Nações Unidas e visitar o Ground Zero (local onde ficavam as torres gêmeas destruídas no ataque terrorista de 11 de setembro).

Duas boas observações feitas pelo Iago:

  • o diário americano costuma usar um aposto para explicar, no lide, qual a importância do personagem da notícia. É um recurso simples e eficaz. No texto acima, o trecho ", líder espiritual de 65 milhões de católicos americanos," explica de cara para o leitor que: a) tal sujeito tem muita importância para uma parcela expressiva da população; e b) a importância está na esfera da religião
  • o repórter usa detalhes precisos para descrever a cena da chegada, o que constrói uma imagem da visita: a pontualidade calculado, os eventos políticos, o tamanho das cerimônias públicas

O segredo está nos detalhes
Um exemplo prático de como os detalhes fazem um bom texto
Contra adjetivos, detalhes
Texto é apuração
Um exemplo em que a apuração faz o texto ficar bom

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h03

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Complicar a pauta, simplificar o texto

Um dos paradoxos do jornalismo é este: tentar expandir e aprofundar nossa abordagem dos fatos, sem confundir a cabeça do leitor.

Na hora da pauta e da apuração, isso quer dizer estar aberto para o improvável, o inesperado, o que foge do óbvio e do lugar comum.

Não é dar as costas para a notícia, claro. Mas fazer o exercício intelectual de ficar sempre em dúvida: será que foi isso mesmo? Não poderia ter sido diferente?

Minha amiga Laura Diniz, do "Estado", e sua colega Naiana Oscar publicam hoje uma entrevista que todo repórter deveria ler, porque dá exemplos concretos de como as aparências podem enganar (pode ser lida on-line neste link).

Meu trecho predileto:

"O Estado de S.Paulo" - É possível seguir alguma lógica num caso como esse?

Ilana Casoy
- Assassinato não tem regra. É uma hora de muito estresse, muita adrenalina, tanto para a vítima quanto para o assassino. Existe uma lógica, mas é particular, não o senso comum.

"OESP" - Você pode dar um exemplo de caso em que constatou-se o improvável como realidade?

IC - O caso do Adílson do Espírito Santo, o monstro de Plataforma, uma localidade de Salvador (BA), é muito ilustrativo. Ele era um matador de meninas com menos de 6 anos. Foi condenado por dois homicídios, mas é autor confesso de três assassinatos - um ainda não foi julgado. Duas das três mães de vítimas foram presas e acusadas pelos crimes. Uma delas foi condenada e cumpriu três anos de medida socioeducativa na instituição de lá equivalente à Febem. O crime aconteceu em 1993 e Adilson só confessou em 1997, após ser preso por outros crimes.

OUTROS CASOS EM QUE NEM TUDO ERA O QUE PARECIA

Para não se esquecer do dentista Flávio
Pai conta como foi tratado como suspeito quando seu filho morreu
Devo dar o nome de um suspeito?
A polícia se engana
Cuidados em casos policiais
Nunca afirme o que não viu; atribua à fonte

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h26

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Preso e torturado no Sudão

A dica é de meu colega DIOGO BERCITO:

A edição de abril da National Geographic Brasil traz uma reportagem imperdível: "Perdido no Saara - Nosso repórter  preso e torturado no Sudão".
 
O texto é de Paul Salopek, vencedor do prêmio Pulitzer e correspondente do Chicago Tribune. Como é comum aos textos da revista (meu produto jornalístico predileto desde antes de pensar em ser jornalista), a matéria está muito bem escrita. Para quem trabalha com jornalismo diário, fica a vontade de poder fazer uma apuração tão aprofundada e tão relevante.
 
Um trecho da primeira página:

"Cada afloramento rochoso, cada baixada, tudo é cortado por tangentes invisíveis, linhas, demarcações fantasmas. Delimitam o território de tribos, indivíduos, clãs. Inflam e encolhem conforme a guerra e a estação. Zonas de máximo perigo circundam os olhos-d'água. Cercas linhas tácitas - masars - ditam as rotas de migração dos nômades. Nisso não há nada de fortuito. Transpor uma linha ou aventurar-se muito longe de outra pode acarretar retaliação ou até a morte. E é essa a linha crucial de todos no Sahel: aquela entre o saber e o não saber. O próprio Sahel é uma linha".

Salopek cruzou algumas linhas e, como consequência, foi preso, acusado de espionagem. Na sua reportagem, narra os maus tratos que recebeu e os esforços do governo norte-americano, da NG e do Chicago Tribune para resgatá-lo.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h16

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Passo-a-passo de uma cobertura judicial

Contei ali embaixo que nesta semana a turma está fazendo vários exercícios de apurar crimes "esquecidos" pelos jornais.

"Esquecidos" vem entre aspas porque há motivos jornalísticos para que eles não fiquem o tempo todo em pauta.

Mas, se nem sempre é o caso de publicar, isso não isenta o repórter de manter a história na agenda e acompanhar o desenrolar do caso.

Como fazer isso?

  • Se você cobriu o crime, é mais fácil. Anote todos os contatos e agende-se para ligar de tempos em tempos para advogado, promotor, delegado.
  • Se caiu de pára-quedas e precisa levantar um crime antigo, comece pela internet: na maior parte das vezes, no site do Tribunal de Justiça, com o nome de uma das partes (réu, vítima), é possível descobrir onde está o processo. É mais fácil nos crimes contra a vida, em que o inquérito sempre é feito
  • Todo caso judicial envolve mais de uma parte. É nossa obrigação ouvi-las todas. Para descobrir quem são os responsáveis pela defesa e pela acusação, pode ser preciso ir até o fórum e olhar o processo.
  • Você não poderá retirar o processo do fórum. Prepare-se para anotar ou, quando estiver com pressa, fotografar (hoje em dia, com celular, ficou fácil)
  • Nem sempre é possível localizar o processo pela internet. Aí a salvação pode ser apelar para a memória do delegado. Se o caso tiver sido rumoroso, provavelmente ele saberá dizer qual o promotor encarregado ou até em que vara corre o processo.
  • Em São Paulo, no Fórum da Barra Funda, há um departamento de distribuição de inquéritos (Dipo) em que é possível, com o nome das partes, encontrar o caso

Cuidados na hora de escrever

Divido com vocês algumas recomendações que dei aos trainees, com base nos exercícios que eles fizeram:

1. destaque para todas as versões

Se vamos publicar apenas um texto sobre o caso e temos mais de uma parte envolvidas, o ideal é que essas partes estejam contempladas de alguma forma no conjunto título + linha fina (e olho, quando houver):

Exemplo
título: Promotor pede que júri julgue morte em boate
linha fina: Caso está na Justiça há um ano e meio; defesa tenta reduzir possível pena de réus confessos

2. lide

Se estamos retomando um caso que ficou famoso por algum motivo, o ideal é que o lide (e o título) façam menção à história --o leitor pode já ter se esquecido dela, ou mesmo não ter acompanhado na época.

Vejam como neste exemplo o leitor sabe direto de que caso se trata:

Acusado de matar um turista francês em São Paulo no dia da Parada Gay do ano passado, o punk Genésio Mariuzzi Filho, 24, enfrentará júri popular. A determinação é do juiz do 1º Tribunal do Júri Alberto Anderson Filho.

Enquanto, neste lide abaixo, ele ficará boiando:

Genésio Mariuzzi Filho vai ser julgado por júri popular pela morte do turista francês Grégor Erwan Landouar, em junho do ano passado, em São Paulo.

3. outros lados sempre

Todos os lados devem ser mencionados no texto, mesmo quando não conseguimos ouvi-los. Para isso:

a) reproduza a versão que o lado não ouvido deu durante o processo _esse é um dos motivos pelos quais fomos ver pessoalmente o processo. Exemplo: “Segundo o processo, a argumentação do promotor é que...”

b) deixe claro no texto por que não trazemos a versão de algum dos lados. Exemplo: “O promotor afirmou que não dará declarações até o final do julgamento. Segundo o processo, ele considera que houve intenção de matar e pede que o réu vá a júri popular”.

c) seja honesto ao explicar a falta de um dos lados. Se um advogado só dá entrevista pessoalmente e não poderia nos receber a tempo, não é correto dizer que o advogado não quis falar sobre o caso. O certo é esclarecer: “O advogado Fulano disse que só falaria pessoalmente, mas não poderia receber a reportagem nesta semana”. ATENÇÃO: em muitos casos, na vida real, isso fará com que a gente segure o texto até ouvi-lo. Seu editor deve ser consultado.

d) de preferência, não deixe um dos lados para o final. Mesmo que você vá explicar melhor mais para a frente, mencione a defesa (ou a acusação) no começo do texto, com uma frase simples: “Ele nega”; “Segundo a defesa, ele foi torturado para confessar”, “Ele reconhece a participação, mas diz que não atirou”.

4. condicional: não use se não houver condição

Não use o condicional para indicar que se trata de versão não confirmada. Quando for impossível checar, afirme e atribua.

Em vez de “Ele teria deixado a sacola no cinema”, escreva “Ele diz que deixou a sacola no cinema” ou “Segundo a polícia, ele deixou a sacola no cinema”.

5. linguagem técnica - depende da etapa

Dominar a linguagem técnica é fundamental na hora de entrevistar. Mas reflita muito sobre quando usá-la na hora de escrever.

Veja este trecho:

“Ele será julgado por homicídio duplamente qualificado.”

Para o leitor comum, o que isso quer dizer? Nada. O que é “duplamente qualificado”? Ou, mais precisamente, quais são as duas qualificadoras?

Há um motivo para o repórter ter considerado a informação relevante, certo? E esse motivo é o de que as penas a que o réu estão sujeitas são maiores se ele for condenado por homicídio qualificado.

Portanto, se é relevante, o ideal é que isso fique claro no texto:

“Ele será julgado por homicídio por motivo torpe e com meios cruéis, o que aumenta a pena máxima prevista de 12 para 30 anos (fictício, inventei só para dar um exemplo)”.

6. reportagem está implícita

Evite usar a expressão “ele afirmou à reportagem que...”, “indagado pela reportagem, ele disse que...”.

Trata-se de uma matéria jornalística, portanto está implícito que tudo foi dito à reportagem ou perguntado à reportagem.

As exceções a essa regra é que devem ser mencionadas: “No processo consta que o réu nega ter atirado”.

7. estrutura do texto

Há dezenas de maneiras de contar a mesma história. Mas vale a pena fazer um esquema de como vamos contá-la antes de começar a escrever, para organizar o pensamento.

Por exemplo:

lide/fato mais novo (breve versão do outro lado)
memória do caso
o que diz a acusação
o que diz a defesa
próximos passos

Um exemplo hipotético:

Acusada de participar de roubo seguido de morte no Shopping Market Place no ano passado, Rita de Cássia Ramos terá a soltura solicitada ainda nesta semana, segundo seu advogado José Silva de Oliveira Junior. [lide começa deixando claro de que crime se trata e dando a notícia mais recente]
Em 3 de dezembro de 2007 Rita foi presa em flagrante saindo do estacionamento do shopping acompanhada de seu marido, Marcelo Franco da Silva _que é acusado de ter roubado a bilheteria e matado um segurança numa troca de tiros após o roubo. [breve memória do caso] No processo, Silva admite o assalto, mas diz que atirou em legítima defesa. [versão do acusado]
O argumento do advogado para pedir a libertação de Rita é o de que ela não sabia da participação de seu marido no crime. Ele também afirma que as provas contra ela foram plantadas. [detalha melhor o lide]
O defensor de Rita se refere a uma sacola do McDonald’s com R$ 15 mil, dois palm tops, dois celulares, a arma usada no crime e um relógio de pulso. Segundo a polícia, a sacola estava no carro do casal. Esse foi um dos motivos que levou a Promotoria a pedir a prisão dela. [versão da acusação]
Mas os advogados de defesa de ambos os presos afirmam que policiais forjaram essa prova para prender o casal. Imagens das câmeras de vigilância do shopping, que constam do processo, registraram o casal indo para o estacionamento sem a sacola _que, segundo o réu, foi deixada no cinema.
Os depoimentos dos policiais militares, incluídos no processo, são contraditórios sobre onde estava a sacola no carro: cada um menciona um lugar diferente.
Procurado pela Folha o promotor Ricardo Andreucci afirmou que só falará sobre o caso depois de ler o processo, na próxima semana.
[explica claramente por que não temos declaração do promotor]

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h22

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Quem se lembrava do esquartejador?

Quando viram as notícias ontem e hoje sobre o julgamento do psiquiatra acusado de esquartejar a cliente, quem lembrou de quando o crime foi noticiado?

Vários de meus ex-trainees vão responder "sim": foi em 2003.

Como eles sabem? Porque sempre fazemos um curso de direito e, como exercício, vamos levantar na Justiça como ficaram crimes que saíram no jornal no calor do fato, mas nunca mais voltaram.

É uma queixa comum de leitores: "Vocês fazem o maior barulho sobre uma história e depois não acompanham, não dizem qual o resultado".

A reclamação tem motivo de ser, mas possui também uma razão jornalística: temperatura.

O crime é quente. Há ação, conflito, violência, emoções envolvidas, e foi ontem, logo agora. Ou seja, está cheio de características que fazem dele uma notícia.

Já os passos que se seguem --inquérito, investigações, denúncia, processo com suas inúmeras indas e vindas-- são cada vez mais frios.

Esse do psiquiatra andava no limbo há cinco anos. Os ex-trainees sabiam que o advogado havia pedido habeas corpus em 2005, que o TJ havia negado em outubro daquele ano, e que em outubro de 2006 um juiz aceitou um pedido de que se apurasse a sanidade mental do réu, como última estratégia para impedir que ele fosse a júri.

Mas, nesse meio tempo, leitor e jornalistas já foram inundados de novas tragédias, violências recentes, outras bolas da vez, e esses passos do processo não têm chance de ir parar nas páginas do jornal.

OK, é compreensível, mas o repórter tem que estar atento para acompanhar o caso, mesmo que ele não seja publicado.

Várias vezes, nos exercícios, achamos notícia que estava lá esperando para ser contada.

E --mais preocupante-- em algumas histórias, descobrimos que pessoas que haviam aparecido como suspeitas nas matérias publicadas eram na verdade vítimas ou até benfeitoras das vítimas --mas o leitor nunca havia sido alertado do engano.


Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h06

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Editora possessiva

Um leitor me pergunta:

--Por que você escreve "meu trainee"? Ele não é seu, mas do programa de treinamento, não é?

É, fica meio possessivo. Mas talvez eu seja mesmo assim.

Também escrevo que são "meus leitores", quando na verdade são é do blog.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h00

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Um primo que é de quinta

Minha trainee CRISTINA MORENO DE CASTRO divide com vocês sua dúvida: usar termos precisos, que agradem aos especialistas? Ou usar uma linguagem imprecisa, que o leitor compreenda? E será que há meio termo?

O que acham, leitores?

Desde que nossas aulas de direito começaram, na quinta passada, uma coisa começou a me incomodar e fiquei com vontade de escrever contando.
 
É que passamos a vida toda tentando driblar as linguagens técnicas do juridiquês (ou do mediquês, economês etc) e alcançar a linguagem mais acessível para todos os leitores não familiarizados com um certo jargão profissional. Essa tentativa de buscar a linguagem "popular" não foge, na maioria das vezes, dos registros do dicionário.
 
Por outro lado, temos que tentar escrever os termos jurídicos com o máximo de precisão possível. Até mesmo para garantir a credibilidade do jornal e o tom mais isento possível da reportagem.
 
Mas essas duas tentativas vivem entrando em conflito. E é quase impossível conseguir escrever um texto "correto" (do ponto de vista do professor) e "legível" (do ponto de vista da maioria dos leitores).
 
Vou dar exemplos. Hoje descobrimos que escrever que fulano é "primo de segundo grau" de sicrano não informa nada. Isso porque, para a Justiça, nossos pais são parentes de primeiro grau, os avós são de segundo, os tios são de terceiro, e os primos são parentes de quarto grau. Assim, o famoso "primo de segundo grau" é, na verdade, um primo de 5º grau!
 
Acontece que, se eu escrever que fulano é primo de quinto grau do sicrano, provavelmente só os juristas vão me entender de verdade. E, se eu disser que ele é "neto do tio", todo mundo vai achar horroroso. Não seria o caso de chamá-lo de "primo de segundo grau", então?
 
Outro exemplo: não existe "crime de assassinato", mas de homicídio. Nem de "assalto", mas de roubo. Só que, seja para evitar rebuscamento num texto jornalístico, seja para evitar termos muito repetitivos num texto, às vezes optamos pelas duas formas populares e dicionarizadas, mesmo que estejamos errados do ponto de vista jurídico. Seria essa uma opção arriscada?
 
Ainda: o advogado disse que vai pedir a "soltura" da presa. O professor prefere o termo "livramento". "Liberação", ou "libertação", muito mais charmosos, seriam usos graves, do ponto de vista jurídico?
 
O Manual da Folha pede que não usemos "viatura", por exemplo, por ser um jargão policial. Mas é palavra já incorporada no vocabulário de quase todo mundo. O que dizer de "contravenção", "delito", "acórdão", e tudo o mais?
 
Eu sei que não é desculpa para escrever termos errados, para chamar suspeito de bandido ou juiz de desembargador. Mas acho que é um desafio diário ter que se equilibrar entre o agradável e o "mais certo". E que é quase impossível definir quando a palavra é nossa "única opção" ou quando é mero juridiquês.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h55

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Mas você viu?

Meu trainee GUSTAVO HENNEMANN, gaúcho, conta suas idas e vindas numa pauta de trânsito em SP:


Apontar erros. Esse era o objetivo da reportagem que ajudei a fazer para o caderno Cotidiano. Minha tarefa foi percorrer, de carro, algumas rotas alternativas que a Prefeitura de São Paulo publicou como sugestões para escapar do congestionamento no trânsito. Muitas delas são inviáveis, com ruas na contramão e caminhos incompletos. Eu tive de descrever os problemas de percurso que encontrei.

Parece prático e fácil. O problema é que moro em São Paulo há um mês e não conhecia meia dúzia de avenidas. Agarrei o guia da cidade e pedi ajuda ao motorista.

Rodamos cerca de cem quilômetros, das 11h às 16h, e achamos três rotas alternativas com inconsistências. O equívoco mais gritante é a recomendação de uma manobra proibida no cruzamento entre duas grandes avenidas da zona sul (Ibirapuera e República do Líbano).

Quando voltei para a redação e contei sobre o problema, me perguntaram se eu havia visto o cruzamento. Não. O motorista desviou antes, pois afirmou que lá não “dava mão”. Tive de voltar para a rua.

Checar é essencial sempre. Mas quando a informação aponta um erro de alguma instituição ou autoridade, a apuração é ainda mais delicada. O peso de um possível engano do repórter é multiplicado.

Fui até o cruzamento. Olhei para o roteiro que a prefeitura sugere e olhei de novo para a rua. Não contente, fui até uma guarda de trânsito que fiscalizava o entorno e perguntei: é isso mesmo que diz aqui? Não tem algo errado?

Ela confirmou que a seqüência de vias sugeridas não tem lógica e explicou o caminho correto. Pronto! Era o que precisava. Pude afirmar com segurança o que apurei.

Voltei para o jornal e repassei as informações para o repórter que finalizava o texto. Mas, antes de entregar a matéria para o editor, fomos ao Google Maps. Procuramos o trajeto na tela e a manobra impossível foi confirmada por mais uma fonte. Aí, sim, fiquei mais tranqüilo.

Resultados: conheci um pouco mais de São Paulo e fiz minha primeira colaboração para uma matéria de destaque.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h47

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Decisões solitárias

Como escreve meu professor FREDERICO VASCONCELOS, há decisões que o repórter às vezes tem que tomar solitário, e depois conferir se foram as mais acertadas.

Num post recente de seu blog, em que é instado a falar sobre a cobertura do caso Isabella, ele conta dois episódios, dos quais copio só o problema que se apresentou ao repórter, para que vocês reflitam. A resposta dada pelo Fred vocês podem conferir no blog dele.

Primeiro episódio:

São decisões que o repórter às vezes tem que tomar, solitário, e conferir, depois, se foram as mais acertadas. Refiro-me ao diálogo com o agente da PF, em Belo Horizonte, e ao silêncio do repórter, no segundo caso, ao descobrir que o delegado, aparentemente, não tinha maiores informações a dar, numa entrevista coletiva, sobre fatos dos quais o jornalista tinha conhecimento prévio.
 
Durante a investigação do mensalão, houve busca e apreensão de documentos na casa de diretores do Banco Rural, em Belo Horizonte. Soube dessa operação com antecedência. Quando a PF chegou a um dos locais, eu já estava na calçada, de paletó e gravata, esperando a diligência. O agente da PF responsável pela equipe pensou que eu fosse advogado do banco. Identifiquei-me como jornalista. Ele perguntou, então, como eu soubera da operação. Disse-lhe que não podia revelar.

- “Então, o senhor entra como testemunha”.

- “Não. O senhor faz o seu trabalho e eu faço o meu”, respondi.

Segundo episódio

Quando o doleiro Najun Turner foi preso, em São Paulo, fui convocado para a entrevista coletiva em que a Polícia Federal anunciaria detalhes da prisão. Surpreendi-me ao encontrar na superintendência da PF um estúdio pronto, com espaço todo reservado para as câmeras de televisão, sem cadeiras para repórteres. O delegado responsável pela diligência aparentemente desconhecia os antecedentes que levaram à prisão do doleiro e não tinha muito a dizer, além de citar artigos do Código Penal (como eu sabia dos fatos que originaram a prisão, calei-me).

Alguns jornalistas, então, começaram a pedir ao delegado: “Doutor, traz o homem”. Precisavam de uma imagem do doleiro para colocar no ar. Houve um momento de indecisão...

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h57

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Jornalismo investigativo

A dica é de meu colega FERNANDO RODRIGUES:

Acaba de sair a última edição da "Nieman Reports", que neste trimestre é inteira sobre jornalismo investigativo.

Há mais de uma dezena de artigos de jornalistas importantes nessa área como Charles Lewis, Paul E. Steiger (Pro Publica), Bill Buzenberg (Center for Public Integrity), Brant Houston e Sheila S. Coronel.
 
Tem duas seções legais chamadas "Nonprofit Approach" e "The Digital Transformation". Vale a pena ler.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h48

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É do serviço que eles gostam mais

Pautas de serviço são o patinho feio das Redações.

Tidas como matéria de segunda classe, sem notícia, sem emoção, mais frias, costumam ser desprezadas por todos os níveis de um veículo --com a talvez honrosa exceção dos pauteiros.

Mesmo esses, quando precisam pedir a um repórter para tocar uma pauta dessas, já vão meio com o pé atrás, preparados para ouvir reclamação.

Mas basta perguntar a leitores para descobrir que, em meio à maioria das reportagens medianas do dia-a-dia, é do serviço que eles gostam mais. E não é preciso ser um gênio para entender por quê.

Há nisso uma boa notícia para quem está começando na vida de repórter: pautas de serviço são fáceis de propor, fáceis de apurar e atraem muita leitura. A única dificuldade (não pequena, infelizmente) é convencer o editor a "comprá-la". Mas mesmo isso ficou melhor com os jornais on-line: sem a competição por espaço, eterno vilão das matérias de serviço, e com a possibilidade de mantê-la ao alcance do leitor para sempre, uma boa reportagem bem útil aumenta o tráfego dos sites.

As reportagens abaixo --exercícios feitos pelos trainees e publicados pela Folha Online-- são bons exemplos disso. São puro serviço, mas ganharam espaço como matérias mais lidas do site, já que responderam a necessidades dos leitores:

Conheça os direitos de quem é barrado no exterior e saiba o que fazer

Desinformação aumenta queixas sobre desbloqueio do celular
 

Conheça a Espanha sem sair da cidade de São Paulo

Passo-a-passo para sugerir uma pauta

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h00

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Como cobrir eleições municipais

Como cobrir eleições municipais

O congresso da Abraji terá oito seminários sobre cobertura de eleições e de administração pública, além do curso “Como Investigar Gastos Públicos”, ministrado por Gil Castello Branco, da ONG Contas Abertas. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h13

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Estágio na Abril

Meu leitor Thiago Braga avisa que a Abril abriu (desculpem a redundância) vagas para estágio em várias áreas.

Ele também conta de um site E aqui é um site chamado Fórmula Cultural: "Achei esses dias. E lá tem a opção de pautas, bem variada, que vc pode fazer. Vc faz um cadastro, eles analisam e te respondem, dizendo se vc pode ou não fazer parte do projeto como colaborador. E é pago. Pouco, mas é".

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h45

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Na linha de tiro

Na linha de tiro

A fotojornalista Adriana Franciosi, que teve a felicidade e a infelicidade de flagrar uma execução nas ruas de Porto Alegre, conta o que viu, o que sentiu e o que pensou naquele momento.

É um relato muito legal para vermos como é muitas vezes ambígua essa nossa profissão. Em geral é notícia o que é ruim. Flagrar algo horrendo é um gol, do ponto de vista profissional. Mas isso não nos impede de lamentar o horror, sentir pânico, tentar resolver uma situação da qual nem temos culpa --mas pela qual nos sentimos coletivamente responsáveis-- e achar que devemos explicações pelo bom trabalho que fizemos:

     Eu sou a Adriana Franciosi, repórter-fotográfica do jornal Zero Hora de Porto Alegre. Fui eu que fotografei a fuga do jovem que acabara de executar duas pessoas. Li tua entrevista com o Moisés, meu querido colega, por quem tenho o maior respeito e admiração. Te escrevo apenas para deixar claro a alguns dos teus leitores como foi que procedemos diante de uma situação de horror e pânico absolutos.

     Eu estava com o motorista, aguardando o Moisés em frente a uma ONG que atende a crianças da Vila Cruzeiro, quando ouvi os disparos. Naquele momento não soube identificar de onde vinham. Olhei para frente do carro e vi três caras a mais ou menos meia quadra observando o crime.

     No mesmo instante, o motorista observava pelo retrovisor do carro e me avisou que os tiros vinham detrás. Foi tudo muito, mas muito rápido...só deu tempo de virar, erguer a câmera e fazer um disparo. Gritei para o motorista: "sai daqui", porque vi o matador com a arma na mão sair em disparada na direção do nosso carro. Tudo isso em segundos...o motorista arrancou e só pude perceber o barulho dos pneus do carro.

     Imediatamente pedi socorro pelo rádio de comunicação interna do carro. Dei o endereço para que chamassem imediatamente socorro, pois havia dois corpos no local. Além disso, o nosso repórter estava lá dentro da casa da ONG, que é cercada. Mesmo assim, nâo sabia como ele estava. Eu e o motorista estávamos na linha de tiro. Foi pânico total. Logo que avistei uma viatura passando com a sirene ligada deduzi que ela estava indo ao local.

      Pedi ao motorista que a seguisse. Voltei ao local e vi uma pequena multidão reunida. Em meio a eles vi o Moisés. Um tremendo alívio me veio naquele instante por ele estar bem.

     Agora, com o distanciamento necessário dos fatos, vejo que tomei a atitude correta ao sair dali. Certo que não fiz a melhor foto, mas creio que preservar a integridade física, tanto minha como do motorista, é mais importante. Isso talvez responda aos comentários do teu blog.

   Sempre leio o teu blog. E, há anos atrás, fiz aqui na RBS um curso similar chamado Jornalismo Aplicado. Tenho recebido todo o respaldo dos meus editores de Zero Hora. Por vezes penso que  desejaria nâo ter visto o horror que vi. O jornal tem sido muito cuidadoso comigo, embora não possamos viver com medo. Sigo agora para cobrir as eleições no Paraguai. Vida de repórter-fotográfico é isso aí.

Bom trabalho, Adriana!         

O fotojornalista Henrique Esteves conta como registrou uma mulher baleada no Rio
Ana Carolina Fernandes e a cobertura de tiroteios nos morros do Rio
Público ou privado? O que deve fazer um fotógrafo quando tem dúvida?
Três formas diferentes de tratar uma mesma pauta fotográfica
   
Simone Iglesias conta sua experiência na cobertura de um acidente com muitos mortos 
Ana Flor e os conflitos no Quênia 
Ricardo Westin fala sobre a cobertura de uma morte trágica em São Paulo                

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h54

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Superinteressante

BRENO COSTA avisa que a Superinteressante abriu seus arquivos desde 1987.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h40

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, por Cristina Moreno de Castro e pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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