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No começo do ano, meu leitor Milton mandou a mensagem abaixo:
Como trabalho em uma revista do segmento de energia, os últimos dias estão sendo bastante agitados por conta das mudanças que ocorreram no Ministério de Minas e Energia.
Eu estava cobrindo algumas coisas na Redação e tive absoluta dificuldade em competir com os grandes veículos. Aliás, não houve competição alguma, risos. Eles simplesmente fizeram tudo aquilo que não consegui fazer.
Mas o fato curioso é que eu estava com tudo pronto para fazer as matérias que eu mesmo tinha pautado, mas encontrei uma grande dificuldade em apurar as pautas. Isso porque quase que a totalidade das pessoas que tentei entrar em contato não queria falar com a minha revista e comigo. A revista é pequena, eu sei, mas é especializada em energia e conhecida pelo setor, pô.
O pessoal do governo dizia que não tinha tempo, que estava em reuniões, e minutos depois eu lia declarações daqueles mesmos na Folha, Estado, Globo, Valor etc. O mesmo acontecia com o povo das associações. Desculpas e mais desculpas. Acabei falando com pessoal acadêmico que é sempre mais solícito.
Pergunto: é tão mais complicado ser pequeno? Ou simplesmente o problema são as boas fontes que não gostam de falar com os pequenos?
Acho que muito leitor deve ter passado por situação parecida. Querem contar suas estratégias para enfrentar esse interesse seletivo das fontes?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h53
A dica é do meu trainee BRENO COSTA: um programa chamado Fore Words avisa quando há muitas palavras repetidas no texto. O Breno baixou o software no baixaki, mas há outros sites que permitem baixá-lo também.
Ele também passa os links do seu del.icio.us sobre jornalismo, RAC e apuração.
E por falar em recursos on-line, meu colega e amigo ALEC DUARTE, professor de jornalismo on-line, também deixa na web o webmanario: ferramentas e comentários úteis a seus alunos e a quaisquer outros interessados.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h50
Alguns dos melhores contadores de história falam, em seminário da Nieman-Hervard, sobre como escrever bons textos. Na opinião de todos eles, detalhe é fundamental (leia coluna do Poynter).
Um exemplo prático de como os detalhes fazem um bom texto Contra adjetivos, detalhes
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h33

A Karin contou ontem das dificuldades que teve para fazer uma reportagem por telefone e de como o texto feito pelo frila que estava no local tinha ficado muito melhor.
Ela também disse que havia ouvido de um colega que, com o tempo, é possível melhorar a apuração por telefone. Pedi então a esse colega, meu ex-trainee, hoje repórter, THIAGO REIS, que dividisse a dica com todos nós:
Em primeiro lugar, o que é meio óbvio, uma apuração por telefone nunca será melhor que aquela feita in loco (onde é possível até olhando para a fonte saber se ela diz a verdade).
Mas como a vida é dura e não dá para estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a saída é aprimorar a técnica.
No início, é muito difícil saber tudo o que perguntar. No lugar, não fica chato chegar ao lado da fonte e tirar uma dúvida, mas ligar no celular da pessoa toda hora pode ser desagradável. Portanto, uma das coisas que se aprende é fazer o máximo de perguntas quando tiver a oportunidade de falar com a fonte (que já pode ter dado coletiva lá longe, ter um monte de coisa para se preocupar e não vai querer ficar sendo incomodada a cada segundo).
De qualquer forma, ao escrever o texto, vai surgir uma dúvida ou outra, uma informação faltando, e é exatamente sobre ela que o editor vai perguntar _antes disso, é melhor se antecipar e tirar a dúvida.
Uma outra coisa importante: uma reportagem toda feita por telefone não precisa ser chata. Então, é dever do repórter pedir detalhes (que ele não vai conseguir captar por estar longe) para enriquecer o texto. No caso da menina torturada, por exemplo, era preciso descrever a garota (como ela estava vestida, como eram as marcas no corpo, como ela se expressava).
Quando se faz apuração por telefone, também se aprende a achar as pessoas. E os caminhos são intermináveis.
Conto um caso em que eu e o repórter João Carlos Magalhães conseguimos encontrar trabalhadores libertados de uma fazenda da Pagrisa no ano passado (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u332384.shtml).
Não havia telefone de nenhum deles na lista (o primeiro passo). O Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho também não tinham os números (segundo passo). A única coisa que a gente tinha era a rua em que alguns moravam. Foi, então, que iniciamos uma cruzada para conseguir falar com os trabalhadores. A gente digitava o nome da rua na lista e começava a ligar para tudo quanto é telefone que aparecia, perguntava se conhecia a pessoa, se já havia ouvido falar de tal pessoa e pedia para ela chamar a pessoa casas, ruas e até quadras abaixo. Por incrível que pareça, conseguimos falar com três trabalhadores libertados (claro que a boa vontade das pessoas ajudou, mas sempre há alguém disposto a ajudar nessas horas).
Além disso, há o lado bom: ganha-se tempo fazendo algo por telefone. Dá para ligar para mais gente e cruzar a informação antes do fechamento. Dá para fazer mais de uma reportagem por dia (o que não é raro na Agência). O difícil mesmo é o "outro lado". Mas aí você começa aquela batalha para achar o advogado... O fato é que depois de um tempo fazendo reportagem por telefone é até estranho cobrir algo na rua. Sem internet nem a papelada cheia de telefones à mão, sente-se meio descoberto, desprotegido, perdido. Parece que a redação se transforma em um bunker...
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h24

Está na Folha Online de hoje:
Hage diz que houve "preconceito" no caso da compra de tapioca com cartão corporativo
GABRIELA GUERREIRO da Folha Online, em Brasília
O ministro Jorge Hage (Controladoria Geral da União) afirmou nesta quarta-feira (...) que houve "preconceito" no episódio em que o ministro Orlando Silva (Esportes) usou o cartão para comprar uma tapioca em Brasília.
"Se tivesse sido um sanduíche do McDonald's, a compra de um hamburger [soletrado pelo ministro com sotaque americano], talvez não tivesse tanto apelo. Alguém ia denunciar?", questionou.
O ministro está certo e errado.
Está certo: se fosse um hambúrguer, teria muito menos graça.
Mas está errado: não é preconceito. É que tapioca é muito mais legal que hambúrguer. Tapioca é simbólico. E os símbolos têm uma força enorme no jornalismo: são aqueles fatos concretos, específicos, verdadeiros, que contém em si uma síntese perfeita do problema mais amplo.
[Como a história da tapioca foi um furo de meu recém-trainee LUCAS FERRAZ, vou pedir a ele que conte como aconteceu.]
Critérios de notícia
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h53
Dia 21 faz um mês que Marcio foi agredido em seu primeiro dia de aula, na Uninove.
Segundo testemunhas, ele se recusou a ter suas roupas manchadas de tinta, porque teria que trabalhar depois. Foi chutado e esmurrado pelos veteranos que queriam forçá-lo ao trote, segundo depoimentos ao DP de Perdizes, onde o caso foi registrado.
Marcio não voltou mais à faculdade, com medo de represálias. Sua noiva, que estudava lá, também não.
O inquérito está em curso e a delegada responsável só deve dar informações quando for concluído.
A Uninove diz que suspendeu alunos envolvidos no caso. Mas por enquanto não disse quantos eles são, até quando ficarão suspensos, o que pode acontecer com eles e de que depende esse destino.
Também não disse, por enquanto, que medidas costuma tomar para tentar evitar esse tipo de trote nem o que fará para evitar que episódios de violência como esses se repitam.
Falo da Uninove aqui porque foi lá que aconteceu este caso --e jornalismo trata de fatos concretos, de preferência. Nesta história concreta, é também da Uninove a responsabilidade. Mas nós sabemos que o trote vai além dos muros daquela escola. É por isso mesmo que vale a pena acompanhar o que vai acontecer por lá.
Só para manter a esperança, lembro que, no ano passado, dois alunos envolvidos em um trote a um calouro do curso de agronomia foram desligados da UFU (Universidade Federal de Uberlândia). A decisão, inédita, foi tomada pela reitoria.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h43
Quem conta é JOHANNA NUBLAT, que sempre tem algo relevante pra dividir com os leitores do blog:
Parece ontem o dia em que eu subi para a sala do Treinamento da Folha com alguns amigos, sentei na frente da Ana Estela e recebi meu kit "seja bem-vindo": uma agendinha azul de telefone, um fio pra gravar conversas de telefone, um bloquinho da Folha, uma caneta bic e minha cordinha do crachá. Mas não foi ontem, isso já tem um ano. Foi, com certeza, o ano que passou mais rápido na minha vida e o ano em que mais coisas mudaram. Fui pra São Paulo, fui pra Cotidiano, vim pra Brasília e cá estou, há cinco meses na sucursal - tempo que também voou. Fiz questão de escrever para o blog nesta data por dois motivos: o primeiro e mais forte, como agradecimento pela oportunidade de ter participado do treinamento, que foi uma época maravilhosa de vida e uma grande oportunidade de entrar no jornal. Mas também quis escrever pra dividir minha pequena experiência e histórias que nunca estiveram nos meus planos. Vamos por partes; acho que consigo dividir esse ano em três: treinamento, Cotidiano e Brasília. O treinamento, hoje eu vejo, funcionou pra me apresentar a empresa, no aspecto físico e conceitual - o que pensam os editores, quais as críticas internas, o que é valorizado, como fazer cada coisa. Serviu muito também pra prestar atenção redobrada quando se escreve sobre assuntos delicados: pautas em Ministérios Públicos e polícia, principalmente. Hoje vejo que o treinamento também teve muita importância como uma espécie de proteção, uma forma de chegar à Redação com um background e com uma pessoa que te ajuda sempre.
De Coti só guardo boas lembranças, apesar de ter sofrido duas vezes com trabalhos menos agitados --como ficar de plantão em Congonhas depois do acidente da TAM e durante um caderno especial, que foi legal de fazer, mas era mais calmo. Ainda no campo "sentimental", guardo a agonia de sempre querer fazer matéria de cidades, mesmo em Brasília. Fisicamente, guardo numa pasta as matérias legais que consegui fazer lá. Agora, a nova etapa, que é a sucursal. Um baita lugar e uma grande oportunidade pra quem está começando. Assuntos que envolvem constantemente ministérios --mesmo as pautas de cidades-- acabam ganhando uma repercussão maior. Conseqüentemente as matérias são maiores e saem com mais freqüência. Fora que trabalhar em Brasília te permite ter contato com lugares diferentes onde há tomada de decisões e você acaba entendendo melhor como as coisas caminham. Um ano depois, eu não tenho uma área certa de cobertura, fico vagando por diferentes coberturas: presídios, células-tronco, denatran, febre amarela, laptops educacionais. Por um lado é bom porque te dá uma visão mais ampla e te deixa experimentar áreas até você achar onde quer ficar. Por outro, é ruim, porque tem dias em que você não tem pauta e fica perdido. Ainda não sei bem em que área de cobertura eu quero ficar, mas começo a ter idéia. Eu ainda recorro à Ana Estela quando preciso de ajuda. E meu crachá, até agora de colaborador, ainda traz meu nome errado: falta um "n".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h27
Colegas no exterior
Dica do Julio, de Santos: "Uma ferramenta interessante que descobri na Folha de domingo (meio escondida ali numa retranca da Ilustrada) é o site www.journalisted.com, um index dos profissionais nos principais jornais do heminisfério norte.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h22
Dados oficiais trazidos à tona
O projeto Excelências, do Transparência Brasil, é uma ferramenta sensacional para quem precisa de dados sobre políticos do país. Congresso Nacional e Assembléias Legislativas já estão lá, e o projeto agora entra em nível municipal. Acabam de entrar no ar as informações sobre vereadores de Belo Horizonte, a terceira cidade mapeada.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h18
Mais uma apresentação tardia, desta vez do IAGO, que responde aos apelos de contar como veio do Acre a São Paulo, via Cuiabá (para conhecer os outros integrantes da 45ª turma, clique aqui).
A resposta dele serve também ao post de ontem sobre como sair "do interior".
por IAGO BOLÍVAR
Se eu fosse menos ingrato, lembraria o nome do leitor deste blog que é um dos culpados por minha vinda para São Paulo.
Eu trabalhava fazia uns anos em sites e tinha apresentado um programa na TV universitária em Cuiabá, onde morei desde os 6 anos, mas não tinha me formado.
A idéia de trabalhar em um grande jornal estava em mim desde sempre, mas meu plano de ataque não ia além de bater palmas em frente a uma das Redações com o currículo na mão. Foi quando, no começo de 2007, li aqui no Novo em Folha o comentário de um publicitário pedindo dicas de como virar jornalista.
A resposta da Ana Estela –-e isso a torna cúmplice-– foi que ele deveria fazer jornalismo e se inscrever nos programas de treinamento do Estadão, da Abril e da Folha –-sendo que esse dispensa formação específica.
A luz se acendeu.
Concluí o curso de jornalismo na UFMT, que tinha deixado em hibernação enquanto trabalhava, e vim pra cá. Terminei o curso do Estadão em dezembro e comecei o da Folha na semana passada.
Parece meio fácil contado assim. Não foi. Como estímulo, só posso dizer que a inquietação que nos faz escolher entre todas as profissões logo uma das menos estáveis, mais mal-pagas e cheias de armadilhas, nos predispõe a riscos. E eles só valem a pena quando o objetivo é viver a profissão pelo lado que a faz digna: o lado da verdade.
Mais útil do que falar mais sobre mim vai ser contar que acabei vendo por aqui outras formas de entrar nas Redações nacionais, como frilas, colaborações e concursos da Folha.
São coisas que para mim eram extraterrestres, mas também estão à disposição e podem servir como pontes. Três dos participantes da semana de palestras da Folha de fevereiro, por exemplo, passaram a trabalhar no jornal por algum desses caminhos.
Espero que o depoimento seja útil e acabe animando alguém menos ingrato a correr o risco de preencher a ficha de inscrição ali do lado.
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OPÇÕES AOS INTERCÂMBIOS E VIAGENS AO EXTERIOR
Aproveito o post pra dar um pitaco bem convencional e caxias na discussão levantada pelo comentário da Luana, de Natal, sobre a importância de experiências no exterior e do conhecimento de línguas.
Ter participado de um intercâmbio ou algo parecido na adolescência depende muito mais da sorte de estar em uma família que tenha como pagar por isso do que de esforço ou capacidade. Existem, é claro, concursos e bolsas que podem ajudar quem queira muito ter a experiência, mas normalmente há custos acessórios.
A vantagem maior do intercâmbio, que é o domínio de línguas, pode ser alcançada de forma ao menos parcial por outros caminhos. Para quem tem acesso à internet, uma saída é inscrever-se em cursos gratuitos, baixar gramáticas e cursos de línguas, acompanhar sites estrangeiros com os dicionários on-line, usar as ferramentas de relacionamento para praticar conversação com estrangeiros.
Na pior das hipóteses, vai ser possível depois pagar menos aulas em um curso de línguas, ao pular as classes iniciais.
Aos não sorteados pela fortuna resta o nobre caminho de Machado de Assis, que aprendeu línguas sozinho –-o francês com a ajuda da dona de uma padaria. Enfim, é preciso compensar a falta de sorte com dedicação.
Uma última coisa: Para começar, o ideal é substituir a palavra “línguas” aí em cima por inglês. É melhor dominar bem a língua franca do mundo do que tartamudear em outras três – coisa que aprendi meio tarde.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h11
- O sujeito é governador de um Estado importante e já traiu a mulher mais de uma vez.
- Além disso está no cargo porque o antecessor renunciou por contratar prostitutas.
- Ao menos uma amante era funcionária pública.
São todas informações que fariam brilhar os olhos de um repórter, não são?
Mas não é que o tal governador, David Paterson, de Nova York, resolve abater qualquer esperança de manchetes, fotos estouradas nos tablóides e prêmios de jornalismo investigativo e marca uma coletiva para contar o que fez de "errado".
Imaginem a frustração que não deve ter sido cobrir tal entrevista...
"Olha, leitor, temos todos esses detalhes picantes. Mas não fomos nós que descobrimos, não, com nossa astúcia e persistência... Foi ele mesmo que contou." Bah.

O PÚBLICO E O PRIVADO
A estratégia do governador funcionou lindamente (para ele, claro) [aqui está o link para a matéria da FSP; quando a FOL colocar no ar, copio o link aberto para vocês].
Mas para que ele precisava disso? Se ele realmente não fez nada de irregular, como diz, em tese sua infidelidade não é notícia.
Vamos imaginar, só por hipótese, que o governador do nosso Estado tem um caso com uma moça. Se ele não usa o patrimônio público para se encontrar com ela nem abusa de sua posição administrativa para favorecê-la, não é problema nosso. Todos os jornalistas do Estado podem estar sabendo da história, mas nenhum vai escrever no jornal.
Mas isso é só em tese. Nós sabemos, e Paterson sabe, que nem sempre os argumentos frios e racionais predominam. Principalmente quando a história tem desses ingredientes que atraem qualquer leitor --com sexo, claro, no topo da lista.
E, se vocês olharem as três informações que começam este post, verão que a segunda daria o empurrão que levaria tudo aos jornais.
É essa uma das graças --e das dificuldades-- do jornalismo: não é só o fato, em si, que conta; o contexto pode alterar a importância que damos a ele.
[só para animar repórteres frustrados, quem sabe ainda não tem uma boa matéria na informação número 3?]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h12
Meu leitor João Paulo, de Juiz de Fora, havia me escrito em dezembro com esta pergunta: como fazer para sair do interior e conseguir trabalho numa cidade maior:
O fato é... estou me formando agora em jornalismo pela UFJF. Nasci e sempre morei em Juiz de Fora, ao contrário de boa parte das pessoas de minha turma, que são de fora daqui (JF é uma cidade essencialmente universitária onde, além da federal, existem dezenas de faculdades particulares). Por aqui as coisas são complicadas para quem se forma em jornalismo e quer trabalhar em impresso. Temos, de fato, somente um jornal (não contei os outros dois que mal têm jornalistas na redação) e, mesmo assim, ele não anda tão bem das pernas.
De qualquer forma, sempre tive vontade de sair de Juiz de Fora e ir para uma cidade maior (não é à toa que me encantei com SP quando fui aí para a prova do treinamento da Folha), mas sinceramente não sei por onde começar.
Atualmente sou estagiário em uma agência de conteúdo web, que já sinalizou o interesse em me contratar agora em janeiro. Apesar da possibilidade de ser contratado, confesso que não estou atuando numa área que goste muito (é um trabalho muito mais de produzir conteúdo institucional que qualquer coisa).
Minha vontade era juntar as trouxas e sair daqui, mas não teria como me manter em um primeiro momento fora de minha cidade.
É aí que vive meu dilema: quero muito sair de JF, mas não sei como. Se devo partir com a cara e a coragem, ou tentar estabelecer algum tipo de contato ainda aqui. É nesse sentido que te peço uma ajuda. Como proceder um recém-formado que não quer continuar em sua cidade no interior? Como vencer a barreira para se estabelecer em outra cidade?
Quando li a mensagem dele lembrei-me na hora de um garoto moreno e magro, recém-saído de Juiz de Fora, que entrevistei há mais de 15 anos para os cadernos regionais que a Folha criava naquela época. Hoje ele é o diretor-adjunto da Sucursal do Rio, PLINIO FRAGA. Pedi então ao Plínio que contasse como foi que ele saiu do interior:
Eu me formei na UFJF em 1990.
Em agosto daquele ano, quando fazia o projeto de conclusão de concurso, fui entrevistar Carlos Eduardo Lins da Silva, então diretor de Planejamento da Folha. Eu tinha lido o "Mil Dias" e no projeto discutia influências do "USA Today" nos jornais brasileiros (argh!).
Ao final da entrevista, ele pediu que eu enviasse um currículo para a Folha _eu não sabia, mas ele já estava envolvido com o projeto de criação das edições regionais.
Em outubro, fui chamado para uma entrevista _na qual você estava presente_ porque o jornal contratava 75 pessoas de uma só vez para os cadernos regionais. Acho que o número é esse. Fiz a entrevista no dia 27 de outubro e tinha de estar em SP no dia 5 de novembro.
Eu não tinha terminado o projeto da faculdade ainda, o que me fez passar várias noites no hotel Normandie concluindo o texto, depois de passar o dia em treinamento na Folha... Em suma, meu caso reúne uma série de coincidências: fui falar com a pessoa certa na hora certa, o jornal estava em expansão, eu devo ter te enganado bem... Sinceramente, não sei se é o melhor exemplo...
Tive grande dose de sorte.
Acho que o melhor caminho mesmo é fazer os cursos para formação de jornalismo _da Folha, do Estado, da Abril, do Globo.
Fora isso, ele pode pensar em uma pauta nacional, de interesse amplo, que tenha alguma exclusividade/inventividade e com boa realização para oferecer para veículos. É uma maneira de mostrar de forma concreta o que pode fazer e se diferenciar de pessoas que estão no mercado, procurando emprego.
Hoje tem mercado variado _da Piauí ao Terra Magazine, só para chutar coisas diferentes. O que fazer, de onde fazer, só ele pode pensar.
Na verdade, o que o Plinio chama de coincidências e sorte tem outro nome.
Ele só recebeu o convite do Carlos para participar da seleção porque se mostrou bem preparado na entrevista que foi fazer para seu TCC. Tinha lido o livro do entrevistado, conhecia bem o assunto, fez boas perguntas.
Para ser contratado, passou por uma seleção, com dezenas de outros candidatos. Não foi escolhido ao acaso, mas porque demonstrou ter potencial.
Além disso, como ele conta, Plinio aceitou o risco e o sacrifício que a vaga implicavam. Mudou-se para outra cidade, sem ter terminado o curso, assumindo uma jornada dupla de Redação e trabalho acadêmico.
Sorte ajuda, claro. Mas a história do Plinio não fala de sorte, e sim de interesse, preparo, disposição e iniciativa.
Passo-a-passo para sugerir pautas Construindo uma pauta fria Como transformar temas gerais em pautas específicas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h33
Você precisa apurar em poucos minutos e por telefone algo ocorrido a centenas de quilômetros e, não, não é um pesadelo. É o fechamento do dia, mesmo.
Para piorar, as informações que vai recolhendo são tão espantosas que você começa a ficar com medo de que não sejam verdade.
O depoimento é de KARIN BLIKSTAD, minha recém-trainee:
Ontem tive que ir atrás da história da menina de 12 anos de Goiânia, que, segundo a polícia, era sistematicamente torturada por uma mulher que ficou responsável por ela nos últimos dois anos.
O problema é que tive que ir atrás da história quando já eram quase 18h, sendo que o texto tinha que estar pronto pouco depois das 19h.
Consegui o telefone da delegada do caso e peguei informações que pude para fazer um texto, mas sem conseguir o outro lado (a delegada já estava em casa e não tinha como passar o nome do advogado). Com tão pouco tempo para escrever e apurar, foi difícil estruturar bem o texto. A falta de experiência não ajudou.
Enquanto isso, um frila de Goiânia ligou para o Júlio e disse que tinha a história (inclusive o outro lado, a acusada negando as acusações e culpando a empregada). Só que ele demorou muito para mandar o texto. Por isso, tive que considerar a hipótese de ficar sem as informações dele para o fechamento. Tive que me virar com o que tinha (sem outro lado). Escrevi meu texto correndo.
Finalmente ele manda o texto, que estava mais bem apurado, estruturado e muito longo. Ele tinha ido até a delegacia, falou pessoalmente com as pessoas, inclusive com a mulher acusada e com a menina, além da mãe biológica.
Eu tinha então que fazer o trabalho de cruzar os textos e cortar. Só que não tinha mais tempo. Fiquei em cima dos textos por pouco tempo, adicionando ao texto do frila algumas informações extra que eu tinha e cortando partes do texto dele. Mas em pouco tempo passei o texto para o Tiago, que coordena os retornos aqui na Agência e que acabou o trabalho por mim.
Além disso, ele percebeu ou uma outra informação que faltava. Por sorte eu tinha o celular da delegada e pude ligar de novo para mais um detalhe ou outro. Números de celulares são a salvação...
Ao comparar, percebi o quanto os leitores sairiam perdendo se lessem apenas o que eu tinha conseguido apurar e escrever. Percebi na carne a diferença de qualidade entre matérias in loco e aquelas feitas pelo telefone, com muito menos tempo.
Apesar de saber que a apuração in loco sempre é melhor do que a pelo telefone, conversei com um colega mais experiente aqui da Agência e ele disse que, com o tempo, matérias pelo telefone podem ficam melhores. Espero que sim...
Adendo: os casos de tortura são tão absurdos, tão cruéis, que me lembrei daquela falsa médica que inventou a história do seqüestro cinematográfico para esconder o fato de que tinha tentado se matar.
A história da menina é repleta de barbaridades, tão absurda que fiquei com medo de que estivesse sendo exagerada. Claro que estava gravando tudo o que a delegada falava. E depois vimos pela televisão os objetos apreendidos e as marcas no corpo da criança, que mostram que aquilo era real.
Como uma história dessas pode ser real?
Karin faz uma ótima relação, do ponto de vista da apuração, com a história da falsa médica e aquela luz amarela que começa a piscar quando algo é "bom demais --ruim demais, neste caso-- pra ser verdade". Se você não leu a outra matéria, veja aqui.
Thiago Reis fala sobre como fazer reportagem a distância
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h38
Este blog tem uma seção "Como foi feito", em que jornalistas falam sobre seu trabalho.
Bem modesta, se comparada ao blog do "Washington Post" que BRENO COSTA me mostrou: "o jornal dá bastidores de investigações e dicas de ferramentas usadas na apuração, que possam ser usadas no dia-a-dia pelo cidadão na fiscalização do poder e no monitoramento de ações de empresas e ONGs, por exemplo".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h35
Assim como no caso da Giulliana, publico a apresentação do Breno em separado, porque o post sobre o conjunto da turma já ficou muito para trás. Para conhecer outros participantes, clique aqui.
por BRENO COSTA
Pode-se dizer que, prestes a completar 25 anos, ainda sou um romântico. Sigo na crença de que o jornalismo ainda tem como uma de suas funções principais intervir na realidade, através da informação. E, parafraseando o Gabriel Garcia Márquez, diria que é a profissão mais divertida do mundo. Foi isso que me fez aguentar dois fracassos no vestibular. Apenas na terceira tentativa, quando já cursava meu plano B na Uerj, em ciências sociais, consegui uma vaga no curso de jornalismo da UFF (Universidade Federal Fluminense), em Niterói. A faculdade começou em março de 2003. Exatamente cinco anos depois, ainda estou lá... rs. Entrando no 11º período, terei de terminar o curso à distância... O atraso na universidade deveu-se a uma experiência sem igual que eu tive no jornalismo ao longo de um ano e meio, como repórter do Jornal do Brasil. Por lá comecei fazendo os chamados "tijolinhos" das novelas. Eu era o responsável pela edição dos resumos dos capítulos da semana, além de distribuir notas 0 e 10 para programas de TV. Em seguida, fui fazer cidade e política no caderno Niterói, que circulava diariamente encartado no jornal. Depois, fui para o caderno Cidade da sede, onde cobri polícia e geral até pedir o boné para poder dar um rumo à minha faculdade. Também fiz frilas para uma série de publicações, entre elas a Piauí, no semestre passado. Antes do jornal, durante a universidade, participei ativamente de publicações alternativas na faculdade; do movimento estudantil (à margem do partidarismo que assola os campi Brasil afora, é claro...); e cheguei até a apresentar por mais de um ano um programa na TV Universitária de Niterói sobre mídia e política. E agora cá estou, aguardando os próximos capítulos que o destino me reserva.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h43
Mais ou menos às 20h do dia 18 de março de 1988, eu pegava minha moto DT 180 e deixava a Folha, debaixo de uma chuva violenta. Era o último dia da primeira turma de treinamento da Folha, do qual eu, uma agrônoma desiludida, tinha participado.
Saía dali sem saber se teria uma chance na Folha um dia. Não tinha idéia se um dia seria jornalista. E jamais poderia imaginar que 20 anos depois estaria coordenando o mesmo programa que me havia aberto as portas de uma nova profissão.
É incrível ver como o treinamento mudou nesse período.
A Redação já tinha terminais, mas nós usávamos máquinas de escrever. O curso durava só três semanas e era baseado em simulações --Boris Casoy, na época editor do Painel, participava de várias e adorava nos pregar todo tipo de peças. Foi ele o "presidente da República" que entrevistamos num exercício de coletiva. A cada turma, um editor tomava conta dos novatos com a ajuda de SILVIA BITTENCOURT, hoje stringer da Folha na Alemanha.
A Editoria de Treinamento foi criada em 1991. PAULA CESARINO COSTA, hoje diretora da Sucursal do Rio, era a titular. Sua assistente, minha amiga SANDRA MURAKI, assumiu depois o programa, que coordenou de julho de 92 até o final de 96.
Paula e Sandra formaram vários ex-trainees que hoje são editores, repórteres de projeção, alguns até diretores, na Folha e nos principais veículos do país.
Fiz o programa antes disso, mas também fui aluna dela. Quando vagava pelo limbo depois de cometer um erro grosseiro em meu primeiro mês de trabalho (caso que já contei no blog), acabei desembocando no caderno Negócios. Praticamente tudo o que sei de fechamento, aprendi com a Sandra, que já era uma das melhores redatoras do jornal. Ela corrigia meus títulos capengas e desgraciosos, sempre paciente, sempre muito séria. Incansável. [como também já contei num post sobre títulos.]
As marcas impressas por Sandra no programa de treinamento subsistem até hoje: cuidado extremo na seleção, organização, insistência nos princípios do projeto editorial e do manual da Folha, criatividade nos exercícios.
Ainda tento aprender a dar conta de tudo como ela fazia: na sua época, os recursos eram escassos, mas Sandra compensava estruturas espartanas com uma capacidade de trabalho invejável e uma concentração que a impedia de cometer erros, mesmo os mais pequenos.
Ainda não aprendi.
Ainda cometo erros, alguns bem grandes.
Por sorte, ela ainda aparece para me corrigir. Sempre paciente. Sempre muito séria.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h43
por PATRICIA GOMES
Ainda estou me habituando com São Paulo e confesso que esta cidade tem o poder de me surpreender constantemente. Uma das mais gratas destas surpresas foi ter me deparado, sem saber exatamente onde estava, com a exposição gratuita Magnum 60 anos.
Para quem não sabe, a agência Magnum foi fundada há 60 anos (daí o nome da exposição) por Cartier-Bresson, Robert Capa, George Rodger e David Seymour. Lá pelos idos de 1950, eles revolucionaram a fotografia e até hoje são referência em qualquer aula de fotojornalismo. Peço desculpas por não ter precisões, nomes exatos de fotógrafos ou ano em que as fotografias foram tiradas. Dou aqui apenas um relato pequeno e despretensioso de quem bateu os olhos em duas fotos tiradas num lapso de 18 anos da mesma paquistanesa de olhos muito verdes e véu sobre os cabelos e se deu conta de que estava diante de uma senhora exposição.
Entrando na mostra, as fotos eram dividas em paredes vermelhas e em seis grandes temas: "A tradição da Magnum", "Momentos", "Retratos", "Novas perspectivas", "Fotografia documental contemporânea" e "Machum in motion".
Poderia aqui descrever qualquer uma das incríveis fotografias que ali estavam, como a imagem de uma senhora negra no velório de seu sobrinho, ou a de um menino francês na garupa de uma bicicleta e olhando para trás. Mas talvez a que mais tenha me surpreendido foi uma tirada por ocasião do ataque às Torres Gêmeas. A foto não mostrava o colapso, mas uma estátua totalmente encoberta de pó em meio aos escombros dos prédios.
Das imagens históricas dos fundadores às fotografias documentais bem atuais, a seleção de fotos é impressionante. O enquadramento, a composição, as expressões, os personagens, o momento certo, a importância das situações retratadas, tudo isso já foi inúmeras vezes reconhecido internacionalmente. A novidade é ter acesso a isso em uma tarde de sábado – e de graça!
Naquele dia eu não sabia onde estava, mas agora eu já se onde foi a exposição. Foi na Galeria Paulista da Caixa Cultural, perto do metrô Consolação. Fica ali até 6 de abril, de terça a sábado, das 9h às 21h e nos domingos, de 10h às 21h. A entrada é grátis.
 Meu colega RAFAEL ANDRADE, da Sucursal do Rio, manda o link do site de Steve McCurry, que fez a foto da menina de olhos verdes descrita pela Gomes. Vale a pena olhar as galerias, em que o fotógrafo conta um pouco sobre como foram feitas as imagens.


Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h20
por GIULLIANA BIANCONI
Lendo o texto do Breno, meu companheiro de trainee, sobre a longa conversa que tivemos com o Marcelo Beraba na semana passada, bateu a vontade de escrever sobre algo que julgo relevante para o repórter: a importância de prestar atenção no que o colega tem a dizer, mesmo que eu tenha vivenciado a mesma experiência que ele.
Deixa eu explicar melhor.
Os 11 trainees escutaram as mesmas coisas do Beraba. Todos fizemos anotações. Mas alguns podem ter “pescado” algo que foi dito rapidamente, ou anotado uma dica importante que foi dada exatamente “naquela” hora em que você estava comentando com o colega do lado alguma observação também bastante interessante feita anteriormente pelo palestrante. Assim, se você tem a chance de “consultar fontes” que talvez possam contribuir para seu conhecimento sobre aquele assunto, por que não fazê-lo?
Situações semelhantes podem ocorrer em determinadas pautas. Exemplo: dois repórteres de uma mesma editoria ou até mesmo de editorias diferentes (caso o tema interesse a mais de uma área) são escalados para uma coletiva de imprensa importante. Escutam e entrevistam a(s) mesma(s) pessoa(s). No final daquela coletiva, a troca de informações entre eles pode ser algo muito enriquecedor para ambos. Claro que se eles tiverem que fazer uma matéria a “quatro mãos”, o debate torna-se essencial. Mas mesmo que forem fazer, cada um, sua própria matéria, é válido trocar idéias. Menosprezar o que o colega tem a dizer pode significar o desperdício de uma dica legal durante a apuração.
Se para alguns essa observação parece óbvia, é um bom sinal. Mas, por experiência própria, posso dizer que nem sempre isso acontece. Por diversos motivos (mas na maioria das vezes por acharem que já sabem o suficiente sobre determinado assunto), os repórteres não “trocam figurinhas” nem consultam uns aos outros após viverem a mesma experiência.
EDUARDO SCOLESE fala sobre as vantagens de trabalhar em dupla
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h02
Como o post sobre a nova turma de trainees já ficou lá para baixo, coloco aqui o perfil da Giulliana, que só recebi hoje. Para ler sobre os outros participantes do treinamento, clique aqui.
por GIULLIANA BIANCONI
Caminho de volta? Talvez. Não sei se essa é a melhor forma de chamar a minha vinda para São Paulo, para o trainee da Folha, já que estou sempre disposta a ir e vir pelo mundo. Mas essa "passagem", que pode ser bastante duradoura, por um grande jornal da cidade onde eu nasci e da qual me despedi aos sete anos para morar no Recife, indiscutivelmente era um sonho que eu acalentava desde a universidade.
Não vou dizer que entrei na faculdade de jornalismo porque gostava de escrever (rsrs). Mas, de fato, escrever sempre foi o que mais gostei de fazer desde que comecei a entender, na prática, o que era jornalismo. Passei por rádio, assessorias, portal de internet, Redação.
Com impresso, foi amor à primeira pauta, digamos assim. Descobri no 6º período de jornalismo (cursei na UFPE) que aquilo era o que eu realmente queria fazer. Tive a sorte de poder estagiar num jornal de Pernambuco, numa editoria com a qual eu me identifico bastante (esportes), e vivenciar o dia-a-dia de uma Redação. Me formei e, meses depois, fui contratada para continuar fazendo o que eu tanto gostava.
Poderia ter me dado por satisfeita. Afinal, trabalho prazeroso, salário satisfatório e carteira assinada são, com certeza, privilégios no mundo dos recém-formados em jornalismo. Mas acho que as boas oportunidades não podem ser desperdiçadas. Ainda mais quando se tem 24 anos. E passar pelo trainee, indiscutivelmente, é uma ótima oportunidade. Aliás, eu enxergo como oportunidade única.
Significa entender como funciona um jornal de cobertura nacional, aprender com grandes nomes da nossa profissão e, o mais legal: ter a chance de aprender errando (embora, claro, a gente sempre tente acertar!). Por tudo isso, decidi participar da seleção mesmo sabendo que, no caso de ser selecionada, teria que abrir mão do que já havia conquistado. Deu certo e estou aqui. Acredito que depois da minha vivência como trainee, estarei muito mais preparada para ir em busca de novas conquistas.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h53
Da coluna de hoje do Ancelmo Gois, no Globo, para a série "humor no jornalismo":
Poste acolchoado
Acredite, deu na CNN. A empresa inglesa de serviços de telefonia 118118 anunciou projeto de acolchoamento de postes.
É sério. Uma pesquisa sobre a febre do envio de textos pelo celular mostrou que um em cada dez usuários do serviço já bateu com a cabeça em postes enquanto via mensagens.
Outro exemplo de humor
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h43
Vou adotar minha "regra do dois" e colocar logo aqui o link para o relatório "Estado da Mídia 2008", que acaba de sair.
Queria ler para resumir os pontos principais antes de postar, mas duas pessoas já me escreveram sobre ele, o que me leva a crer que é pauta e deve ir para o ar logo, ainda que só como indicação.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h52
Dividi com vocês na semana passada a pergunta do Gustavo sobre dar ou não o nome de suspeitos (leia o caso aqui).
Qual o problema, afinal, de publicar o nome? É o de que isso tem um impacto enorme sobre a vida dos personagens. Não quer dizer que se deva sempre omiti-los, nem que o interesse do personagem se sobreponha ao do leitor. Informação, se relevante, precisa ser publicada. Mas é importante não se esquecer nunca de que quase tudo o que publicamos vai afetar a vida dos outros, direta ou indiretamente.
CASOS DE POLÍCIA E TEMPERATURA
Quando cobrimos casos policiais, a pergunta é ainda mais relevante, por causa do efeito "temperatura jornalística", que será inversamente proporcional ao esclarecimento da história.
Ou seja, quando acontece um crime, a temperatura jornalística (o interesse levantado pelo fato) é muito alta. Começa então a investigação, cai a quantidade de informações novas, o espaço no jornal começa a ser disputado por crimes novos e aquele vai sendo progressivamente esquecido.
Só mesmo em grandes casos haverá novas matérias quando a polícia concluir o inquérito ou quando a Justiça der sua decisão.
Dar ou não o nome de um suspeito, portanto, é uma questão que envolve atitudes e cuidados antes, durante e depois do texto escrito.
1. ANTES
As raízes da nossa dúvida sobre se devemos ou não incluir o nome do suspeito no texto estão na apuração: que elementos temos sobre a suspeita ou acusação? De onde obtivemos as informações? Falamos com todos os envolvidos? As testemunhas estavam mesmo em condições de dar informações convincentes sobre o caso?
Por exemplo, na matéria do exercício, o que temos além da declaração da polícia? Conseguimos ouvir a menina? As aeromoças? Outros passageiros?
Quanto menos gente ouvirmos, quanto menos versões tivermos, maior a chance de cometermos injustiças.
Outra coisa a considerar nessa hora é: o nome é notícia?
Voltando ao exemplo do exercício, se alguém te contasse "Um homem de 88 anos foi preso sob suspeita de molestar uma menina de 11", dificilmente você perguntaria "Qual era o nome dele?".
Há casos, porém, em que essa pergunta seria imediata: se o mesmo alguém contasse, por exemplo, que um ator foi preso sob a mesma suspeita. Ou um vereador. Um jogador de futebol. Uma figura pública, enfim.
Quando a notícia envolve alguém de vida pública, o nome passa a ser informação relevante --e, também por isso, a responsabilidade é redobrada.
2. DURANTE
Se o repórter tiver dúvida na hora de escrever, deve discutir com seu editor. Apresente os motivos pelos quais acha que o nome deve ser omitido, os prós e contras, avalie com a chefia qual a melhor opção.
3. DEPOIS
Se a escolha foi publicar o nome, o repórter deve se agendar para acompanhar o caso até o final.
Se o suspeito no futuro for absolvido, é relevante que o repórter fique sabendo e discuta com seu editor sobre a pertinência de fazer uma nova matéria.
Não se esqueçam do dentista Flávio A polícia se engana Cuidados em casos policiais Nunca afirme o que não viu; atribua à fonte
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h24
Meu trainee IAGO BOLÍVAR me avisa que o TJ do Rio está julgando se jornais têm obrigação de checar dados oficiais.
Não é só uma pendenga jurídica.
Digamos que você, repórter, publicou algo errado porque usou sem checar dados que um órgão oficial divulgou. Se a informação errada prejudicar alguém, quem poderá ser responsabilizado?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h51
Escreve a Luana, de Natal:
Queria conversar com você sobre uma coisa que tem me intrigado: a importância das línguas estrangeiras e vivências no exterior em seleções como a da Folha.
Sendo franca, há alguma possibilidade de que vocês escolham um trainee que não seja fluente em pelo menos um idioma, além do português? Qual o peso de ter morado fora do país para o candidato?
Percebi que a Folha e outras empresas como o Estadão e a Editora Abril dão preferência a pessoas que, apesar de jovens, já tenham vivido experiências em outros países, possuam mais de uma graduação e/ou especialização, conheçam outras línguas etc. No entanto, infelizmente, sabemos que essas oportunidades num país como o nosso não estão para todos.
Compreendo que as empresas procuram os "melhores", e, num mundo globalizado --especialmente para os jornalistas--, conhecer outras línguas é quase uma obrigação. Porém voltamos para o ponto anterior: nem todos podem, em curto prazo, bancar uma boa formação em outro idioma, ou viagens etc.
Minha inquietação: será que essa postura que privilegia o perfil que citei no início não faz com que as Redações sejam um tanto elitistas? Não tenho a intenção de dar um tom preconceituoso ao comentário, apenas queria entender melhor essa relação, do ponto de vista do selecionador, digamos assim.
Tenho pesquisado sobre diversos treinamentos e lido os perfis dos selecionados. É raríssimo encontrar alguém do Nordeste e do Norte (fiquei feliz quando vi trainees de Recife e do Acre na 45ª turma da Folha).
Vivo em Natal, capital do Rio Grande do Norte, e pretendo participar dessas seleções nos próximos semestres, mas, apesar de fazer o (im)possível para estar sempre ligada no noticiário nacional e internacional, ler bons livros e trabalhar meu texto para torná-lo melhor, às vezes sinto que isso é insuficiente.
É como se, por não preencher alguns requisitos que recheiam o currículo, eu já saísse com pontos a menos na disputa, entende?
Entendo, claro, e sei que sua dúvida é partilhada por muita gente.
E você tem razão nas observações que faz e nas conclusões que tira delas: os veículos vão preferir candidatos mais bem preparados.
Mas não é só nem é tudo.
Quando eu seleciono, por exemplo, há outra característica que considero fundamental é potencial.
Ter viajado, cursado boas escolas, falar línguas formam uma espécie de plataforma de lançamento. Quanto mais sólida essa formação, mais de cima começa seu aprendizado profissional, mais confortável será esse começo.
Para dar uma imagem, seria mais ou menos assim:

Mas a altura a que você pode chegar depende também da sua capacidade de trabalho, concentração, iniciativa, determinação, talento. E essa garra pode compensar o fato de saltar de um degrau mais baixo.
Por isso, jornalistas com menos formação podem ter mais sucesso que outros muito bem formados. Será sempre uma combinação de vários fatores. Seria bobagem valorizar apenas um deles:

Para responder a sua primeira pergunta: sem inglês dá, sim. Só é mais difícil.
Já selecionei para o treinamento mais de uma pessoa que não falava outro idioma. Mas que demonstraram ter outras qualidades muito fortes e consciência de que, sem atacar essa lacuna, teriam dificuldades no futuro.
Por que o idioma é importante? Porque praticamente em qualquer área que a gente cubra hoje terá que entrevistar estrangeiros. Porque precisa acompanhar jornais e revistas de outros países, não só sobre a área que cobrimos, mas sobre o mundo em geral. Porque não falar inglês limita nossas possibilidades de aprendizado, de interagir com gente de outros países, de viajar, de ampliar nossa ação como jornalista.
Já sobre a questão geográfica, nessa você pode ficar tranquila. Veja esta frase que saiu hoje, na matéria que fala dos 20 anos do treinamento:
O programa tem como uma de suas características a pluralidade na escolha dos candidatos -desde 1997, dos 222 trainees, 104 eram de outros Estados que não São Paulo.
[Saiu na versão impressa, com mais números, mas o texto pode ser lido também na FOL]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h27
ADENDO - Não tinha percebido que ele exige senha para entrar. Assim que der resumo os principais pontos para vocês.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h22
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