Frilas
A Ivy conta de um livro sobre como trabalhar como free-lancer:
Recebi um release do lancamento de um livro para jornalistas, chamado "Jornalismo Free Lancer", de Joao Marcos Rainho. Nao li, mas acho que é uma dica boa para aquele post de uma pessoa que perguntou como fazer frilas. Aqui vai um link com uma resenha
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h04
História das religiões
Começa na segunda na Casa do Saber um curso de história das religiões.
Sempre me intrigou o fato de um assunto tão rico como religião ser tão mal coberto pelo jornalismo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h56
From Russia with Love
REPORTAGEM PREMIADA
Aproveito que meu colega IGOR GIELOW está agora no Paquistão para publicar, com muito atraso, a entrevista que fiz com ele sobre outra cobertura internacional, na Rússia.
As reportagens sobre eleições renderam-lhe uma indicação ao Prêmio Folha, no final do ano passado (publiquei três delas no site do treinamento, para quem não tem acesso à FSP).
Um ponto bem importante para quem está começando agora: vejam como a disciplina no contato com a fonte faz muita diferença.
Novo em Folha - Você fala russo? É suficiente para entrevistar ou precisa de intérprete?
Igor Gielow - Apenas o suficiente para o básico na rua (placas, o que é uma mão na roda tratando-se de cirílico, restaurantes) e para me apresentar e fazer questionamentos simples, mas não para entrevistas. Nesses casos, geralmente o inglês resolve. Quando não, é preciso intérprete. NF - Você acompanha regularmente o noticiário sobre o país? Ou fez preparação intensiva para essa cobertura?
IG - Acompanho sempre. O ´intensivão´ é necessário, mas sem acompanhamento de longo prazo, você perde em contexto. NF - Ao indicar suas reportagens para o prêmio, a comissão incluiu esta justificativa: "Reportagens foram didáticas e conseguiram sair do óbvio produzido pelas agências". O que, na sua opinião, contribuiu para o sucesso do trabalho?
IG - O meu trabalho na Rússia no fim de novembro e começo de dezembro dependeu fundamentalmente de algo que considero essencial para quem cobre assuntos internacionais: o cultivo de fontes.
Grosso modo, há duas categorias de trabalho lá fora: o do correspondente (ou stringer, ou "frila") e o do enviado especial. O primeiro, fixo em um lugar ou região, tem a vantagem de poder aprofundar-se, estabelecer contatos e fontes. O segundo, por cobrir um evento particular, tem o bônus da mobilidade e o desafio de traduzir realidades diferentes da sua. E o ônus de nem sempre ter o tempo necessário para aprofundar-se e fazer fontes.
A cobertura de uma eleição parlamentar de um país importantíssimo, mas distante do Brasil, poderia desembocar numa burocrática repetição da pauta das agências internacionais.
NF - É a segunda vez que você é enviado especial à Rússia, certo? Nas duas vezes em que foi, ficou quanto tempo?
IG - Cerca de 15 dias na primeira e 10 na segunda. Mais férias no país. Acho que, desta segunda vez, consegui fazer algo diferenciado justamente porque tenho contato com russos e com a realidade do país desde 2000, quando fui para lá cobrir a primeira eleição de Putin (voltaria como turista, para correr o país pela ferrovia Transiberiana, no ano seguinte, e depois na cobertura do ano passado).
Naquela ocasião, eu tive tempo de me preparar, fazer aulas de russo e conversar com especialistas. Mas foram as fontes contactadas lá, que não abandonei ao longo dos anos por meio de contatos por telefone, e-mail e encontros eventuais, que me levaram a boa parte das pautas diferenciadas que consegui desta vez.
Um exemplo: o diretor de um instituto de pesquisa militar que conheci em 2000, com quem sempre troquei figurinhas, me apresentou desta vez duas pessoas, um cineasta independente e um general aposentado da KGB que havia lhe dado aulas na faculdade. Resultado: o cineasta rendeu uma página de perfil em Mundo [Nota da Ana - copiada no site do treinamento] e o general, um caderno Mais! especial sobre as ações da KGB na América Latina.
NF - Como você estabeleceu os primeiros contatos com essas fontes?
IG - Na primeira vez, eu usei um contato com a expert em Rússia do International Institute for Strategic Studies, um dos mais respeitados think-tanks sobre assuntos militares/estratégicos, que eu tinha desde que virei membro do instituto, quando era correspondente em Londres.
Ela fez algumas pontes, me deu telefones. Uns meses depois depois, o instituto me convidou para apresentar um paper numa conferência sobre comércio de armas. Aí, reencontrei algumas das fontes russas com as quais tinha tido contato mais breve. Uma coisa levou à outra.
Voltando à primeira vez em Moscou, como internet não era muito desenvolvida, uma vez lá precisei da ajuda da minha intérprete, que me ajudou a achar candidatos a presidente e gente da academia. Hoje em dia é possível achar fontes via internet muito mais facilmente, mas logicamente a qualidade delas você só atesta no contato direto. E nada substitui uma apresentação pessoal. NF - Foi difícil, pelo fato de ser brasileiro?
IG - Não em especial, mas também não ajuda. As pessoas ficam um pouco curiosas, já que somos um país periférico, que habita um imaginário bem peculiar no exterior. Mas na hora de contatos oficiais, logicamente você tem que saber que sua prioridade virá depois da de todo mundo dos EUA e Europa.
NF - Houve intermediários?
IG - Na segunda vez, sim, os contatos me foram passados por ajuda de conhecidos. No caso que eu cito do general e do cineasta, foi apresentação direta. NF - Você fala em manter contato com as fontes. Como faz isso? Tem um calendário ou é aleatório? Com quantas fontes vc mantém algum contato? Com que periodicidade?
IG - Na Rússia, eu tenho relação próxima, de troca de e-mails e telefonemas, com três fontes. Coisa de contato todo mês, em períodos como atual semanalmente. O círculo se expande, para umas dez fontes, com contato mais espaçado, por email. Às vezes, uma vez por semestre, dou uma rodada geral, para atualizar contatos e conversas. NF - Você tem algum interesse especial pela Rússia? Ou é parte de um interesse mais amplo por coberturas internacionais?
IG - Ambas as coisas. Jornalismo internacional é a área que considero mais interessante na profissão. No caso da Rússia, sempre tive uma curiosidade sobre o processo histórico do país, que é tão peculiar. Como alguém que cresceu sob a Guerra Fria, tinha curiosidade desde cedo em entender ´o outro lado´. A queda do Muro foi algo que marcou muito minha geração, eu acho. NF - Você foi correspondente, certo? Isso te ajudou de alguma forma nessas coberturas (afeganistão etc.)? Ou seu desempenho nessas coberturas vêm de características que você já tem e que também fizeram com que fosse escolhido como correspondente? (ou seja, é ovo ou galinha?)
IG - Fui correspondente em Londres em 1996. As coisas andaram juntas: com duas semanas na cidade, eu fui cobrir a guerra no Líbano. Então foi uma formação em paralelo, embora tudo venha do meu interesse anterior. Sempre estudei muito história e política, desde moleque tenho interesse específico. Então, quando ´´caí´´ na guerra libanesa, fez diferença eu saber o que era um druso, como foi a guerra civil, como era o governo tripartite, e por aí vai.
Mas acho que o ambiente em que o correspondente se insere favorece, pela natureza das matérias que ele faz, o interesse por cobertura de conflitos, crises, eleições, golpes, guerras. É tudo política, no fim.
[PS - O título do post é uma homenagem a Sean Connery, o único verdadeiro James Bond ]
Igor conta sua cobertura no Afeganistão em 2001, depois do ataque às torres gêmeas O repórter indica livros para quem gosta de cobertura internacional Relação com as fontes, antes, durante e depois Outro post recente sobre fontes
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h05
Como fazer uma reportagem
Pensa que a lição virá de mim?
Não. Vem de alguém com currículo bem mais expressivo: Anton Tchéchov.
O texto que apresenta o livro é do professor da USP, colunista da Folha e meu amigo Fábio de Souza Andrade.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h46
Minha amiga RENATA LO PRETE, que está ligada em tudo 28 horas por dia, me manda este artigo muito interessante do Politico.com, em que o repórter Mike Allen defende que jornalistas --principalmente se cobrem política ou dirigem jornais-- não devem escolher candidatos.
O próprio Allen votou só uma vez na vida, para alegrar colegas que trabalhavam numa campanha.
Só pra deixar claro, a Renata apenas me mandou o texto, já que está sempre por dentro de discussões da mídia (como vocês devem se lembrar, ela foi ombudsman da Folha). Não quer dizer que ela tenha a mesma opinião.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h18
Machado em fac-símile
Mais uma do meu professor Ricardo Meirelles.
[Jornalista que não leu muito Machado de Assis está em débito.]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h20
Por que causou tanto barulho a foto publicada no site do "Globo", do pai que chorava a morte do filho?

Acho que é porque está carregada de emoção. Imagens com esse teor estão sempre no limite, a perigo de serem consideradas "sensacionalistas".
Como decidir se ela deve ou não ser publicada? Difícil dar uma resposta exata. Jornais sérios tiveram respostas diferentes: "O Globo" deu na capa, a Folha publicou dentro, "O Estado" optou por outra imagem:
No Globo

Na Folha

No Estado
 Foto publicada em "O Estado" mostra a cobertura em que houve o incêndio
Não é objetivo deste blog fazer crítica de mídia. Não pretendo, portanto, dar veredito sobre a propriedade ou não de publicá-la, mas sim pensar nos argumentos que entram em jogo quando é preciso tomar tal decisão.
Algumas perguntas a fazer:
- a notícia que a foto ilustra é relevante? [alguns critérios para julgar uma notícia]
- a foto traz informação relevante? Ajuda a entender melhor a notícia? A colocá-la em contexto? Dá uma informação que o texto não traz?
- o conteúdo da foto é público ou privado?
- o local em que foi feita é público ou privado?
- que destaque terá a foto? (em que página vai aparecer? No alto ou no pé? Grande ou pequena? Em cores ou PB?)
Prós e contras da foto em questão (na minha avaliação pessoal):
prós: o assunto é notícia, a imagem provoca empatia (leitores podem se identificar com a dor do pai), os jornais foram cuidadosos na exposição (na capa do "Globo", ela está no pé, em duas colunas)
contras: a imagem não acrescenta informação relevante (parece esperado que o pai se desesperasse pela perda do filho. Sob esse critério, a foto escolhida pelo "Estado" informa mais); o conteúdo da foto é privado; não está claro, para mim, se a foto foi "roubada", ou seja, se o pai estava num espaço público ou privado
CADA CASO É UM CASO
O exemplo é interessante para vermos como é difícil estabelecer "regras gerais". Num episódio similar, em que outra foto mostrava um pai chorando o atropelamento dos filhos (neste post), considerei que fazia sentido publicá-la. Duas diferenças básicas que vejo entre os dois casos: 1) o pai estava no meio da rua, em espaço público; 2) atropelamentos são um problema de segurança pública
Já no caso do Quênia, a foto era a notícia.
INTERNET É OUTRA COISA
Não custa lembrar também que vamos ter que nos acostumar a pensar diferente conforme estivermos trabalhando em um veículo impresso ou num on-line.
Na internet, as notícias ficam para sempre. Já contamos aqui como isso está virando um caso sério, com fontes que se arrependem do que disseram e até jornais que decidiram tirar do arquivo digital qualquer notícia policial [porque os jornais quase sempre publicam a acusação da polícia, com nome e sobrenome, mas quase nunca voltam pra dizer se o suspeito foi condenado ou inocentado].
Não há "jurisprudência" sobre o que fazer nesses casos --atender aos pedidos e tirar material da rede ou recusá-los.
ROTINA DE DECISÕES
O dia-a-dia do jornalista é pleno de conflitos como esses. Já conversei com os editores da Folha e do "Globo" sobre como foram tomadas as decisões. Estou só esperando para ver se meu amigo Juca Varella, do "Estado", responde também, para colocar um novo post sobre o assunto.
Leia neste post entrevistas com os editores sobre a escolha das fotos.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h38
O ombudsman da Folha, MÁRIO MAGALHÃES, havia recomendado ontem uma reportagem da "Época" como exemplar.
Um leitor do blog comentou que gostaria de saber exatamente por que o Maria a considerava "aula de jornalismo". Na resposta, quem dá a aula é o próprio Mário:
- Porque é um assunto relevante, que toca leitores adolescentes, parentes de adolescentes, quem convive com adolescentes.
- Porque a reportagem é sensível. Repare que os nomes dos pais são omitidos. Fazem falta? Não.
- Porque é bem apurada. A reconstituição dos detalhes torna ainda mais dramático o relato, sem apelar (o estado do cadáver não é descrito).
- Porque é bem contada, com texto enxuto e classudo.
- Porque é bem editada _são 11 páginas que não cansam.
- Porque tem outra aula, de entrevista, com o psicanalista. É uma entrevista não apenas sobre a derrota do guri que gostava de Vítor Ramil, mas do psicanalista "que não o salvou" (a vida é dura assim mesmo, com vitórias e derrotas, algumas irrevogáveis).
- Porque emociona sem ser piegas.
- Porque, em vez de atirar nas páginas um relatório burocrático sobre os corvos de internet que incentivam o suicídio, pontua a narrativa com a história do jovem gaúcho.
- Porque a gente lê numa sentada, sem respirar.
- Porque, ao contrário da imensidão de reportagens que esquecemos em um piscar de olhos, essa é uma reportagem de lembrar para sempre.
Eu não a esquecerei.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h32

Esta mensagem é para você que passou na faculdade de jornalismo (ou do que seja).
Parabéns! Você tem todos os motivos para estar feliz. Saia pra beber com os amigos, conte para todo mundo, emende três dias na balada com a garota ou o garoto para descontar os meses de sacrifício.
Não se sinta obrigado a ir para o meio da rua pintado como um palhaço pedir moedas. Não encha a cara de pinga barata às 10h só porque uns idiotas querem se sentir bacanas coagindo você.
Não acredite que você será excluído ou perseguido se não quiser participar do trote. É mentira.
Você está chegando agora na faculdade e essa minoria truculenta --que só consegue se afirmar impondo o trote aos calouros-- vai tentar fazê-lo acreditar que esse é o "espírito universitário".
Não é.
Não tenha medo de desagradá-los. Você não vai mesmo querer ter amigos como eles.
Quem quiser pode tirar a prova: vá até o ponto de ônibus da avenida Consolação com a dona Antônia de Queiroz. A calçada ainda está manchada de tinta vermelha, do trote do semestre passado. Coisa de gente obtusa que acha que pode sujar o espaço público e atrapalhar a vida dos outros.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h29

Fiquei fora do ar muitas horas hoje, porque meu computador não acessava a rede.
Uns olhavam para os outros e perguntavam: "Como é que a gente trabalhava antes? Há dez anos?".
Brinquei com alguns ex-trainees, atarantados pela falta de internet: "Conhecem esse aparelho aqui? Chama-se telefone!".
E eles: "É, mas a agenda telefônica está no computador".
É uma chatice lembrar de fazer isso, mas convém imprimir agendas de tempos em tempos.
Hoje, na Folha, foi só uma parada temporária. Mas e se desse um vírus mortal e apagasse tudo?
Qual a melhor agenda? - e outras recomendações
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h13
Dureza
Uma batata quente para vocês: esta foto abaixo, do jornal "O Globo" --publicada também na Folha de hoje--, incomodou muitos leitores, me conta a Gabriela, de Cascavel.
Ela me mostrou o site do Globo, em que alguns, nos comentários, criticaram a foto e pediram que fosse retirada do ar.
Fernando Quevedo/"Agência Globo"
 Legenda, segundo "O Globo": pai do menino grita de desespero dentro da ambulância
Decisão difícil, não é? Que critérios jornalísticos justificam, ou não, dependendo da opinião de vocês, a publicação da foto?
E o que fazer quando leitores pedem que algo seja retirado do ar?
Meu comentário
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h53
Endossando um pedido de uma ex-trainee minha:
Um estudante afegão foi condenado à morte por ter baixado em seu computador e distribuído a colegas e professores da faculdade um texto sobre como preceitos religiosos têm sido distorcidos para justificar o desrespeito aos direitos das mulheres no país.
O jornal The Independent está com uma petição on-line para que o governo britânico pressione as autoridades afegãs em defesa de Sayed Pervez Kambaksh. Ele tem 23 anos. É estudante de jornalismo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h32
Meu colega FREDERICO VASCONCELLOS, um dos repórteres que mais conhecem o Judiciário brasileiro (para não dizer "o que mais conhece"), fez um post interessante no seu blog sobre as relações entre fonte e jornalista.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h49
Há várias. Vou fazer aqui um caminho, com base no exercício da semana passada. Não digo que seja o melhor, nem o que eu escolheria sempre. É só o que achei mais adequado para servir de resposta ao problema que apresentei.
POR QUE ESCOLHER?
Se pensarmos bem, todas as 19 informações relacionadas no exercício são pertinentes e ajudam a entender melhor a notícia. O ideal, claro, seria fazer um texto completo.
Mas sabemos que o espaço é limitado e, mesmo quando um caso é importante, ainda temos que selecionar parte das informações --por exemplo, para fazer uma chamada de capa.
1º PASSO - QUAL É O LIDE?
Eu havia pedido que vocês selecionassem 8 das 19 informações possíveis. Para isso, é fundamental decidir primeiro o que é mais importante.
Na minha opinião, o lide é que duas pessoas morreram soterradas. preciso, claro, decidir qual é a história. A não ser em raríssimas exceções, o impacto de algo na vida das pessoas é o mais relevante.
Isso já deixa de cara três dos ites selecionados, nesta ordem:
17. Duas pessoas morreram soterradas, dentre elas um bebê de um ano. 13. Duas pessoas das oito soterradas não haviam sido resgatadas 16. Das oito pessoas soterradas, quatro foram levadas para o hospital de Joanópolis
2º PASSO - E DAÍ?
Por que as pessoas morreram no nosso exercício?
Essa pergunta parece óbvia, mas refletir direito sobre ela afeta nossas próximas escolhas. OK, houve um desabamento. Nosso primeiro impulso pode ser o de escrever sobre as chuvas, que foram fortes e acima da média e, afinal, provocaram o deslizamento.
Sim, a chuva provocou o desabamento. Mas foi mesmo por causa da chuva que elas morreram?
Ou foi porque não haviam sido removidas de uma área de risco?
Nas nossa lista há dois blocos de informações e cada um dará um sentido diferente ao texto:
a) a chuva como elemento principal do desastre
3. Chove há duas semanas no interior de Minas Gerais.
4. A média de chuva na região nesta época do ano é de 300 mm por mês.
6. Nas últimas duas semanas, a precipitação foi de 280 mm.
7. As chuvas do final de semana foram equivalentes a metade da média de precipitação mensal para esta época do ano na região.
b) a falta de ação da prefeitura como causa principal
14. As casas soterradas ficavam em área de risco.
15. A prefeitura da cidade não havia tentado remover os moradores do local.
18. Segundo o prefeito, a cidade aguardava a liberação de verbas para abrigar as pessoas que moravam na área de risco.
3º PASSO - INFORMAÇÕES QUE PRECISAM DE OUTRAS
Outro ponto a pensar na hora de escolher é que algumas informações precisam andar juntas.
Se vamos falar da chuva, por exemplo, é fundamental comparar o volume de chuva com a média. [ neste outro post, mais exemplos de como o contexto é fundamental para que números façam sentido]
Se vamos citar a falta de ação da prefeitura, é indispensável colocar a resposta do prefeito (o nosso já conhecido "outro lado").
Se escrevermos que o resgate foi feito por Bombeiros de uma cidade vizinha, é obrigatório explicar por quê.
4º PASSO - INFORMAÇÕES BÁSICAS
É o feijão com arroz, mas não custa lembrar que a um texto jornalístico convém responder quem, o que, quando, onde, como, por que, para que. Não precisa ser o lide, nem estar nessa ordem, mas são as chamadas informações básicas.
No exercício que eu passei, porém, há tanta informação importante, que --nessa situação excepcional-- eu deixaria de fora o quando. Por quê? Porque convenciona-se que, num jornal diário, as coisas aconteceram "ontem". Se não tivesse sido ontem, seria talvez mais importante esclarecer. Mas, a deixar de fora outros dados importantes, eu sacrificaria esse.
AS MINHAS OITO
Não quer dizer que seja a melhor escolha, nem a definitiva. Como já dissemos aqui, não há certezas absolutas em jornalismo. O importante são os argumentos que defendem cada escolha. Os meus estão expostos acima, mas fiquem à vontade para discordar.
1. As chuvas do final de semana provocaram um desabamento de terra em Ituaí. 2. Ituaí fica no interior de Minas Gerais. [se eu pudesse "roubar", colocaria só um MG depois de Ituaí, na linha acima, e substituiria a número 2 pela 3: Chove há duas semanas no interior de Minas Gerais. Mas vou seguir as mesmas regras rígidas que estipulei para vocês... ] 7. As chuvas do final de semana foram equivalentes a metade da média de precipitação mensal para esta época do ano na região. 13. Duas pessoas das oito soterradas não haviam sido resgatadas 14. As casas soterradas ficavam em área de risco. 16. Das oito pessoas soterradas, quatro foram levadas para o hospital de Joanópolis 17. Duas pessoas morreram soterradas, dentre elas um bebê de um ano. 18. Segundo o prefeito, a cidade aguardava a liberação de verbas para abrigar as pessoas que moravam na área de risco.
A MINHA ORDEM
17, 1, 2, 13, 16, 14, 18, 7
O texto seria algo mais ou menos assim:
Ao menos duas pessoas --dentre elas um bebê de um ano-- morreram num desabamento de terra que soterrou oito moradores de Ituaí (interior de MG). Outras duas continuam desaparecidas e quatro sobreviventes foram levados para o hospital de uma cidade vizinha, Joanópolis.
As casas soterradas ficam em área de risco. Segundo o prefeito, as famílias não haviam sido removidas porque a cidade aguardava a liberação de verbas para abrigá-las.
As chuvas deste final de semana na cidade foram equivalentes a metade da média de precipitação mensal para esta época do ano na região.
ARTICULAÇÃO CRIA SENTIDO
A simples justaposição de informações como no texto acima, já é capaz de comunicar ao leitor que a falta de ação da prefeitura é parte integrante do desastre.
Mas há uma maneira de reforçar isso no texto, articulando as informações:
Embora chovesse há duas semanas na região e as casas estivessem em área de risco, a prefeitura não havia tentado remover os moradores. Segundo o prefeito...
Uma única palavra, "embora", acrescenta sentido à frase. É por isso que conjunções não devem ser usadas levianamente. Quem escreve precisa estar ciente de que essas palavrinhas --portanto, pois, como, mas, embora, porque, entretanto, nem, quando, ora, que, porém, todavia, quer, contudo, conforme etc,-- também têm informação.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h48
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