O que ler sobre política
Já faz um tempinho, a Valquiria me pediu sugestões de livros para quem gosta de jornalismo político.
A pergunta é bem ampla. Se você vai trabalhar na área e quer saber que conhecimento básico deveria ter, a resposta é uma.
Se se interessa pelo cotidiano da profissão, é outra. Também muda se seu foco é Brasil ou política em geral.
Portanto, as sugestões que seguem abaixo também são diversas.
Alguns anos atrás, dois trainees meus começaram a trabalhar em Brasil e pediram a um colunista da Folha indicações de livros que os preparassem melhor para o noticiário de política.
Ele sugeriu o seguinte:
- "Brasil: de Getúlio a Castelo: 1945-1964"
- "Brasil: de Castelo a Tancredo 1964 – 1985"
"Ambos do brazilianista Thomas Skidmore, ambos da Paz e Terra. Embora existam críticas à interpretação do Skidmore, se você não sabe nada sobre o período os livros são úteis e sintéticos. De resto, não há outra história geral e concisa do Brasil pós-guerra. Serve como introdução geral.
- "Labirintos: dos Generais á Nova República", de Brasilio Sallum, editora Hucitec
Brasilio é um sociólogo professor da USP. Escreveu essa que é uma das poucas histórias compreensivas e um dos poucos ensaios gerais sobre a sociologia política e econômica do pós ditadura.
- Texto para Discussão Ipea, nº 988 - Análise da Evolução e Dinâmica do Gasto Social Federal: 1995 – 2001. De Jorge Abrahão de Castro, Manoel Batista de Moraes Neto, Francisco Sadeck, Bruno Duarte e Helenne Simões / Brasília, 2003.
Está no site do Ipea, em Publicações, Textos para Discussão, 2003. É chato, ainda mais para quem não está acostumado ou muito interessado. Mas dá um radiografia boa de para onde foi o dinheiro social em quase todo o governo FHC. É bom para começar a entender um pouco de distribuição de renda no país.
Aliás, nos TD do Ipea há trabalhos sobre tudo: indústria, comércia, crime, políticas sociais, macroeconomia, transporte etc etc. Tudo o que você quiser sobre políticas públicas. Dêem uma olhada.
Se vocês lerem essas coisas, podemos ir para textos mais específicos, a depender do interesse de cada um."
Isso foi há vários anos atrás. Até hoje me pergunto se meus ex-trainees tiveram a disciplina e a iniciativa para fazer a leitura básica e seguir adiante na formação teórica. Meu palpite não é muito otimista...
Mas, quando a Valquiria fez a pergunta desta vez, seu objetivo principal não era cometer menos erros nem corresponder a uma responsabilidade profissional que se impunha.
Ela se interessa pelo jornalismo da área e queria ter mais subsídios para compreender não só os conceitos que estão por trás da política em si mas também como ela é feita na prática.
Recebi ajuda de três jornalistas muito bons, dos que levam a leitura a sério: o editor-assistente de Brasil ROBERTO DIAS, o repórter de Brasil RUBENS VALENTE e o ex-editor de Brasil e secretário de Redação da Sucursal do Rio, PLÍNIO FRAGA.
Seguem novas indicações, então:
- "O Lado Negro de Camelot", ótimo bastidor da vida de Kennedy, pelo grande repórter investigativo Seymour Hersh
- "Che, uma Vida Revolucionária", de John Lee Anderson, pela escrita e pela apuração primorosas
- "Hitler", os dois fabulosos volumes de Joachim Fest que foram reeditados recentemente
- "Stalin, a Corte do Czar Vermelho", de Simon Sebag Montefiore
- "Maldita Guerra", de Francisco Doratiotto, sobre a guerra do Paraguai, que me parece um dos mais incríveis e completos livros de história brasileira
- "Mao", de Jung Chang, é bastante anti-Mao, mas ótimo panorama da história chinesa
- "O Homem que Inventou Fidel", sobre a história do repórter do NYT que entrevistou Fidel na selva
- "Sua Santidade", a biografia do papa João Paulo 2º feita pelo vaticanista Marco Politi e pelo repórter investigativo do Watergate, Carl Bernstein
- "O Homem Secreto", de Bob Woodward, onde são narrados em detalhes os bastidores do Watergate que não podiam aparecer nos primeiros livros
- "Personal History", de Katharine Graham, publisher do "Washington Post" na época do Watergate
Sobre o Brasil
- todos os já clássicos 4 livros de Elio Gaspari sobre a ditadura
- "Combate nas Trevas", de Jacob Gorender, mesmo sendo de esquerda, não tem medo de dizer os erros da guerrilha
- "Notícias do Planalto", que melhor expõe as entranhas de uma grande cobertura política
- "Ninho de Cobras", um livro espetacular sobre as absurdas invencionices do repórter David Nasser
- as biografias lançadas recentemente pela companhia das letras: "Vargas" (um pouco genérico, mais preocupado com a grande política, mas imperdível), "Dom Pedro 2º" (ótimo retrato) e principalmente "Rondon" (melhor biografia de um personagem único)
Sobre política de modo geral
- o clássico da área é "Os Donos do Poder", do Raymundo Faoro. Mas são dois volumes grandes e não falam da história recente. Mostra os pecados que se repetem até hoje, mas talvez seja sisudo demais
- "Forças Armadas e Política no Brasil", de José Murilo de Carvalho, é interessante e menos militante do que o clássico do Renée Dreyfus, "1964, a Conquista do Estado" _superimportante, mas rançoso...
- "Arte da Política", de FHC
- "Carta a Um Jovem Político", de FHC
- "O Príncipe", de Maquiavel (que é uma delícia de ler)
- "Direita e Esquerda", de Norberto Bobbio
- "O Que É o Populismo", de Francisco Weffort, é importante para entender um veio político presente
- "Combate nas Trevas", do Gorender, dá uma visão partidarizada do regime militar, mas é importante
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h10

O mercado de jornais no Brasil é muito diferente dos EUA por motivos que já discutimos aqui.
Mas lá, pelo menos, parece que a imprensa começou a terminar --ou, pelo menos, a se transformar em algo totalmente diferente do que conhecemos. [mas não tão depressa assim; leia a ressalva no pé do post.]
O "Capital Times", de Madison (Wisconsin), acaba de anunciar que não circula mais todo dia.
Em papel, vai se resumir a edições tablóides semanais, com colunas de opinião, e um guia de entretenimento.
Notícia diária, só na internet.
O outro jornal da cidade, "Wisconsin State Journal", diz que Madison era uma das poucas cidades americanas que ainda tinha dois jornais locais. Ambos, no entanto, são da mesma companhia.
O Poynter publica uma breve entrevista com o editor.
E, para quem não leu, o "New York Times" de ontem faz um balanço soturno sobre os impressos.
MAS NÃO TÃO CEDO
O que quase ninguém explica, no entanto, é de onde esse "novo Capital" vai tirar dinheiro.
Afinal, anúncios na internet ainda não sustentam um site. E, com certeza, não serão os suplementos semanais que vão sustentá-lo.
A julgar por um artigo do Isthmus, o vespertino só pode se lançar nessa aventura virtual porque seu irmão matutino, o "State Journal", da mesma companhia, ainda tem uma circulação saudável e lucrativa.
Continuam muito vivas as duas perguntas fundamentais sobre o futuro do jornalismo diário (impresso ou on-line):
1. chegará o dia em que os anúncios na internet serão suficientes para pagar uma operação jornalística? 2. nesse dia, o negócio será lucrativo o suficiente para bancar investigações e apurações de longo prazo?
Sobre as diferenças entre o Brasil e os EUA
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h15
Dois bons exemplos de por que evitar bilhetinhos no meio de textos, artes etc. (enviados pelo Luiz):


Como comentamos outro dia mesmo: se precisar mandar recados, faça isso lá no alto, nunca no meio do texto. E, de preferência, fale também com a pessoa, para evitar desencontros.
Outro recado indesejável
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h39

Em duas histórias que comentei no blog por motivos diferentes, na semana passada, ocorreu um fenômeno semelhante: o repórter achava que tinha uma matéria exclusiva, mas o caso estava sendo apurado também por um concorrente.
Foi assim na excelente reportagem sobre os "moradores do HC" e no caso pitoresco das lutas em Osasco.
Meu leitor Rafael, de São Paulo, pergunta se, com a internet, os furos não estariam ficando cada vez mais raros:
Hoje qualquer um tem acesso a novas informações, se souber onde procurar e se fizer uma boa filtragem do que chega. Imagino que os repórteres atuais suam muito mais a camisa que os de outrora para garantir que uma história dessas seja inédita e que nenhum blog vai furá-lo.
Minha impressão é que a "segurança do furo" vem mais da origem da pauta. Como é que um repórter descobre uma matéria? Há várias formas, algumas mais "seguras e exclusivas" que outras:
- Seguindo uma pista que tenha lido ou ouvido nos meios de comunicação. Colunistas, por exemplo, costumam levantar boas lebres. É também o que está no centro da dúvida do Rafael e, nesse ponto, ele tem razão. Se já está publicado em algum lugar, as chances de alguém ter a mesma boa idéia que você aumentam
- Tirando notícia de dados disponíveis ao público. É o caso dessa onda sobre os cartões corporativos. Com faro e dedicação, você pode dar o saque, mas não poderá impedir que os outros cortem as bolas que levantar, já que os dados estão lá para todos
- Seguindo uma dica passada por uma fonte de confiança. Neste caso, o grau de certeza de que a história é só sua vai depender, obviamente, da sua relação com essa fonte
- Fazendo uma investigação própria. O repórter que se dá ao trabalho de analisar todos os boletins de ocorrência de uma área, por exemplo, para descobrir como os dados divergem dos divulgados pelo governo, tem uma chance razoável de dar um furo sozinho
Um caso premiado de apuração independente Seguindo pistas para montar uma matéria Um furo que veio de fonte Fernando Rodrigues fala sobre como chegou primeiro à caixa preta da TAM Leticia Sander, que cobre o Planalto, diz, entre outros temas, como fazer reportagens exclusivas Como a leitura de jornais rende pautas Passo-a-passo para sugerir pautas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h50
Pego emprestado o ótimo título da coluna de MELCHIADES FILHO, diretor da Sucursal de Brasília, para lembrar que em jornalismo quase nada é o que parece à primeira vista.
Vejam o trecho que me inspirou a escrever este post (a coluna toda foi copiada no site do treinamento, para quem não tem acesso à FSP):
(...) antes mesmo que a imprensa destrinchasse as contas, o Planalto vazou, pela ordem, que: a auditoria das despesas já tinha sido pedida, as conclusões iniciais eram comprometedoras, os colegas de gabinete estavam indignados, novas regras seriam adotadas para os cartões e a cabeça de Matilde cairia.
Ou seja, se uma fonte oficial joga informação no seu colo, antes de dar pulinhos de alegria e correr para publicá-la, o jornalista de carteirinha faz como o Melk. Franze as sobrancelhas e se pergunta: "O que será que há por trás de tanta boa vontade?".
Sim, esta é uma profissão que exige doses gigantescas de ceticismo.
Leia mais sobre vazamentos
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h27
Estágio na alemanha
Para jornalistas com idade entre 25 e 35 anos que possuam conhecimentos medianos da língua alemã (em casos excepcionais, a fluência em inglês poderá compensar a falta desse requisito).
Os selecionados devem estar trabalhando como redatores, estagiários ou colaboradores fixos em um veículo de comunicação brasileiro (jornal, revista, televisão, rádio ou internet).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h58
Bolsa na França
Para recém-graduados que queiram fazer mestrado
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h14

Só deu para liberar os comentários, mas, assim que sobrar tempo, eu publico um novo post. Inté.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h11
Para curar a ressaca do Carnaval, faça o exercício que deixei aqui na semana passada (veja aqui).
Não se trata só de pensar no lide, mas de decidir que enfoque dar à notícia. E, se há limite de espaço, que informações deixar de fora.
Como vocês devem ter visto pelo noticiário recente, é um caso bem real (infelizmente...).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h05
Para espantar o tédio de um plantão de Carnaval, um exemplo de como a emenda pode sair pior que o soneto.
Este "quase caso de humor" no jornalismo foi mandado por minha amiga CLAUDIA COLLUCCI. Digo "quase" porque, embora seja engraçadíssimo pra nós, deve ter sido constrangedor para os envolvidos. E teria chamado muito menos a atenção e tido zero repercussão se não tivessem feito mais alarde ainda em seguida...


E, pra não deixar de tirar uma lição de tudo: nunca, nunca mesmo, escreva recadinhos para outros no meio do texto. De preferência, fale pessoalmente. Se precisa avisar um colega de algo, escreva no alto da tela, antes do texto.
Evite também deixar espaços em branco, ou com XXXXX, quando estiver fazendo uma reportagem. Se falta checar algo ou apurar uma informação, deixe lembretes para você mesmo no alto do texto. Reduza as chances de alguém publicar a matéria incompleta ou errada.
Outro caso de humor Formas de pôr humor no jornalismo
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h50
O Julio, de Santos, avisa que o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Cândido Mendes, tem um livro para download gratuito sobre as novas tendências na cobertura sobre criminalidade e segurança no Brasil.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h40
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