De onde vêm algumas coberturas geniais?
O que é que faz de um trabalho --um texto, um lide, um título, uma foto ou vídeo-- algo excepcional?
Meu amigo MARCELO SOARES me mandou este artigo muito interessante do editor da BBC College of Journalism, Kevin Marsh.
Vale a pena ler, mas, em resumo, ele diz que é difícil descobrir a origem da genialidade, mas é fácil perceber porque ela é rara: essas matérias que nos surpreendem são sempre arriscadas.
São sempre inesperadas, ousadas, arrojadas. Fogem do comum --daí o risco.
Marsh argumenta que a maioria dos editores evita o risco e, assim, aborta grandes idéias.
Deixem as pessoas ousarem, pede o editor. É impossível "fabricar" um gênio, mas é possível não sufocá-lo: "Editar não é só restringir, é também permitir".
FRASE DE GÊNIO
Para acompanhar o pensamento de Marsh, com o qual me agrada concordar, copio aqui um dos inícios de livro mais geniais da história:
"Todas as famílias felizes se parecem; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira." Leon Tolstoi, "Anna Kariênina"
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h55
Escreve o Milton, aluno da Metodista:
"Antes de ler no blog repetidas vezes a frase subseqüente ao nome do repórter: "ex-trainee do treinamento de número tal", eu não imaginava que era tão grande o número de participantes que saíam do treinamento e viravam repórteres. Na minha cabeça, os jornalistas da Folha eram oriundos daqueles anúncios de vagas que rolam dentro das páginas da Folha. Além disso, eu supunha que existia uma outra parte que chegava via QI à redação. Enfim, eu tenho como grande objetivo na carreira um dia participar desse time, mas eu gostaria de ter claro em minha mente como funciona o ingresso na Folha."
É verdade que eu falo bastante de meus ex-trainees no blog, mas esse não é o único caminho para entrar na Redação. Menos de um quarto dos jornalistas que estão na Folha hoje saíram do programa de treinamento. Os outros vieram mesmo por concurso (só no ano passado, fizemos mais de 30).
Só são "convidados" jornalistas para cargos de confiança (editores, editores-assistentes ou repórteres especiais).
Portanto, há três caminhos básicos: o programa de treinamento, os concursos para seleção (que você pode acompanhar pela internet) ou oferecendo pautas como frila (mas esse é bem mais esporádico e mais aleatório).
Sobre como começar a trabalhar em geral, talvez tenha algum interesse um post que escrevi já faz algum tempo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h11
Bolsas para estudar no Reino Unido
O governo britânico recebe até 31/7/2008 inscrições para o programa Chevening de bolsas de estudos de pós-graduação no Reino Unido.
O programa é voltado para profissionais de destaque, em início ou meio de carreira, que queiram se aperfeiçoar no Reino Unido.
Uma novidade é a bolsa ‘Chevening e Olimpíadas: Liderança Esportiva’, destinada a candidatos interessados em gerenciamento e governança desportiva. Serão duas bolsas destinadas a brasileiros e as inscrições vão até 30/4/2008.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h42
DISSE, DESDISSE
A Lusa está em alta no meu blog (e juro que não tenho nada a ver com isso).
Escreve meu recém-trainee RICARDO VIEL:
Sou agora o setorista da Lusa. E sou pé quente. Começou com a bola toda (e logo perdeu o craque machucado). Bom, vai uma história pro blog. Na verdade, é uma dúvida que tenho e que acho legal compartilhar com os leitores do blog. Sala de imprensa da Portuguesa, quatro repórteres (ninguém de rádio ou tevê), e Vágner Benazzi, treinador da Lusa, falando. Comenta o que espera da estréia (contra o Santos), fala sobre as dificuldades de entrosamento e, no final da coletiva, sua última frase é a seguinte: "O Diogo é muito humilde e aplicado. O que você manda ele fazer, ele faz. E, tecnicamente, não tem. Hoje é o melhor em atividade no país". Da forma e jeito como ele falou, terminando a entrevista, para mim foi claro a mensagem nas entrelinhas: quero que publiquem isso. Termina a entrevista, um repórter olha para a cara do outro e pergunta: "Ele falou que o Diogo é o melhor em atividade?". "Falou, falou sim", diz o outro. Horas depois, sites e jornais dão destaque à frase. No dia seguinte, após a estréia da equipe (com vitória sobre o Santos), nova coletiva de Benazzi. Agora um colega da rádio inícia a pergunta: "Você falou que o Diogo é o melhor em atividade hoje", antes de terminar a frase, o treinador rebate: "Eu não disse isso. Falei que, da geração dele, ele é um dos melhores". Opa, peraí. Eu estava na primeira coletiva, vi ele falar aquilo. E aí? Mesmo não sendo algo raro (alguém dizer e depois desdizer) é uma situação complicada. Qual seria a sua reação se estivesse na coletiva? a) Rebateria dizendo que esteve na primeira entrevista e que ouviu Benazzi dizer que Diogo é o melhor em atividade; b) Não publicaria nada sobre o assunto no dia seguinte; c) Publicaria que na terça-feira o treinador disse uma coisa e na quarta outra; d) Esperaria o treino da sexta-feira e questionaria o treinador sobre as declarações para saber o que realmente ele acha do jogador.
Com a palavra, os leitores.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h34

LUCAS FERRAZ EVITA UM ERRO...
Lucas foi meu trainee na turma mais recente e hoje é repórter em Brasília. Ele conta: "Passei por uma situação curiosa ontem. O TSE divulgou um balanço sobre a escolaridade dos eleitores brasileiros. O jornal quis dar e fui checar os números. Bom, mas aí vc pensa: poxa, são dados do TSE, números oficiais. Mas, refazendo as contas, percebi que o levantamento estava errado. Quer dizer, a soma do levantamento estava errada e a assessoria do órgão divulgou assim. Para divulgar o balanço correto, tive que pedir todas as tabelas para eu mesmo fazer as contas. Deu certo: pelo menos saiu correto, apesar da arte prevista ter caído. Fazer jornalismo sério, honesto e preciso é muito trabalhoso." [leia aqui outro post que mostra porque não basta ser oficial para ser confiável]
...MAS OUTRO PASSA POR BAIXO DAS PERNAS
No mesmo e-mail em que me conta a lição que aprendeu, ele prossegue: "pode acrescentar uma outra, sobre uma bobagem que fiz _devo estrear o Erramos nos próximos dias. Num erro primário, troquei o nome de um entrevistado. O dito cujo foi registrado como Carlos Souto, mas coloquei Carlos Couto".
JOGO DOS ERROS
Consigo pensar em pelo menos duas causas para esse erro do Lucas. Cada uma teria uma maneira diferente de prevenção. O que vocês acham? O que poderia provocar esse erro e como evitá-lo?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h10
O exercício de ontem era decidir se um repórter deveria ou não cobrir as picuinhas entre os técnicos Luxemburgo e Leão.
Ou, mais que isso, se os repórteres não estavam extrapolando sua função quando "provocavam" Leão a falar mal do desafeto, ao perguntar sobre a estrutura que ele havia encontrado no Santos antes dirigido por Luxemburgo.
Pelo que conheço de jornalismo, acho que é bem possível que aconteça isso mesmo: que os repórteres façam perguntas para explorar a rivalidade.
Meu primeiro impulso é não ver problema nisso, já que a rivalidade é profissional, a pergunta se refere a algo profissional, e se os dois são "boca dura", azar deles e sorte nossa.
Além disso, o repórter não pode simplesmente ignorar os atritos só porque consideramos que a rixa é absurda. Seria virar as costas para a notícia.
Mas fui perguntar também ao editor-adjunto de Esporte --e titular de um dos blogs mais lidos do Brasil-- FÁBIO SEIXAS, que me ajudou a esclarecer:
Acho que a resposta para seu leitor se divide em duas partes.
O papel do repórter é fazer a apuração mais completa possível. Se um dos principais técnicos do Brasil assume um dos principais clubes do Brasil em substituição a outro dos principais técnicos do Brasil e faz críticas severas ao que encontrou, isso certamente é notícia para Esporte.
E, como em política ou economia, cabe ao repórter ouvir o outro lado.
Se é "leva-e-traz", é chato, mas paciência. Porque é, também, jornalismo.
Cabe ao editor, e esta é a segunda parte da resposta, fazer essa sintonia fina, não deixar que histórias assim descambem para picuinhas baratas, irresponsáveis e sem provas, cuja publicação seria leviana. Enfim, como sempre, tentar separar o joio do trigo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h59
Cobertura de conflitos - curso no Rio
O Centro de Instrução de Operações de Paz do Exército Brasileiro e o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil farão um curso para jornalistas que queiram cobrir operações de paz da ONU ou eventos em áreas de conflito. Será de 10 a 14 de março, na Vila Militar do Rio de Janeiro, e terá aulas teóricas e práticas. Interessados devem mandar fax para o Centro de Comunicação do Exército (CCOMSEx) assinado pelo editor responsável do meio de comunicação: 61-3415-5619. O número de vagas é limitado.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h54
LEO DRUMMOND, que foi meu trainee no único programa a incluir fotógrafos até hoje, vai expor na rodoviária de BH as fotos que tirou durante meses pelas estradas do país.
As fotos são lindas. Dá para acompanhar o trabalho dele, que é um exemplo muito legal de reportagem, no blog do projeto. Esta que reproduzo aqui embaixo é pra lembrar que bons resultados quase sempre exigiram sacrifício e riscos:
Leo Drummond

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h42
Leva e traz ou reportagem?

Neste ano eu vou torcer para a Lusa.
E, aproveitando que meu atual time começou muito bem o campeonato paulista ontem, vou aproveitar para tratar da dúvida do meu leitor Thiago sobre a guerra Leão X Luxemburgo --e a cobertura do conflito.
Escreve o Thiago:
Não sei se vc sabe, mas Emerson Leão e Vanderlei Luxemburgo não se toleram. Aliás, se odeiam. A minha pergunta é a seguinte: É justo os jornalistas ficarem fazendo perguntas que só vai estragar a relação? Como perguntaram para o Leão, quando este assumiu o Santos, sobre a estrutura que o Vanderlei deixou "para ele". Só para depois ouvirem o outro lado da história. A mídia não está se prestando a ser um simples leva-e-traz da coisa?
O que vocês acham?
Comentário do Fábio Seixas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h18
Fundamentos
Paulo, de Campinas, sugere o livro "Os Elementos do Jornalismo - O que os jornalistas devem saber e o público exigir", Bill Kovach e Tom Rosenstiel:
"Leitura obrigatória para nós, o livro fala do compromisso constante do jornalista com o público, a relação entre a redação e o departamento comercial e, por fim, aponta cinco idéias que previnem erros, além de estreitar a relação jornalista-leitor. São elas:
1- Nunca acrescente nada que não exista.
2- Nunca engane o público
3- Seja o mais transparente possível sobre seus métodos e motivos.
4- Confie só no seu próprio trabalho de reportagem.
5- Seja humilde.
Cada idéia é desenvolvida posteriormente.
Regra de transparência: Na ciência, a confiabilidade de um experimento, ou sua objetividade, se define pelo fato de que o experimento pode ser reproduzido. No jornalismo, só explicando como sabemos o que sabemos podemos fazer com que o público possa e queira reproduzir a informação."
Embora o livro tenha surgido por uma situação da mídia americana que é muito diferente da nossa, acho que vale realmente a pena lê-lo para relembrar um pouco o que está nas bases do jornalismo.
Não é um manual nem dará lições práticas, mas ajuda a entender melhor o que é notícia e quais os limites do que fazemos.
Sobre algumas diferenças entre Brasil e EUA
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h08
DOIS MESES NOS EUA
O World Press Institute tem uma das bolsas mais legais que conheço para jornalistas internacionais.
Fiz o programa deles em 1995 (credo, como faz tempo!). Na época, eram quatro meses nos quais dez jornalistas de variados países viajavam pelos Estados Unidos. Fomos a 25 cidades em 18 Estados diferentes.
Nos últimos anos passaram por uma crise e chegaram a cancelar o programa de 2007, mas acabam de anunciar que haverá turma neste ano. Vai durar menos tempo, oito semanas, mas será em ano de eleição.
É uma chance imperdível. As inscrições estão abertas até 29/2.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h05
É curioso como, quando você começa a entender como funcionam as entrevistas, percebe, em algumas, a mão da edição.
Lembram-se de que comentamos que algumas perguntas vão levar a respostas simples ("sim", "não", "em 1970", "fui"), enquanto outras levarão a respostas mais longas?
Vejam que curioso este trecho, editado, de uma entrevista publicada pela Folha já faz algum tempo.
As perguntas são todas fechadas, mas as respostas são abertas. Vocês sentem algo estranho quando lêem? Ou passa batido?
FOLHA - Quando começou a fazer ioga? NUNO - Comecei a fazer um curso em 1980. Faço um trabalho mais de relaxamento. Quando se está muito cansado, traz bons resultados. Você se equilibra, relaxa.
FOLHA - Você se sente melhor depois que pratica ioga? NUNO - Sinto-me bem, com mais disposição, porque eu trabalho o corpo, adquiro um autoconhecimento corporal que me ajuda.
FOLHA - Você sentiu diferença com o passar dos anos? NUNO - Sim, o condicionamento diminui. Com a idade, é preciso fazer exercícios mais tranqüilos. A natação não tem muito impacto e consigo um desempenho melhor. Mas, ao correr, já sinto dores na coluna.
FOLHA - Os exercícios são importantes na rotina do homem? NUNO - Sim, desde que você sinta falta deles. Depois de um dia cansativo, acho melhor optar por uma aula de ioga, por exemplo, que traz relaxa-mento. Se o trabalho foi mais intelectual, penso que é preciso fazer exercícios mais intensos, para manter corpo e mente equilibrados.
FOLHA - Você se alimenta bem? NUNO - Tento comer melhor, controlo meu colesterol. Não como carne vermelha nem embutidos há 30 anos. Pro-curo comer muita salada, leguminosas, proteínas à base de soja. De vez em quando como peixes e frutos do mar e, quando dá muita vontade, uma carne branca.
Editar sempre vai ser necessário em jornal. A não ser em entrevistas relâmpago, nunca será possível publicar perguntas e respostas inteiras. Não há, portanto, nenhum erro nesse caso.
Só ficou curioso porque, na edição, sobraram perguntas fechadas e respostas completas, o que provoca um descasamento.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h47
 Sol e Lua, de Jean Cocteau
Meu colega Ricardo Meirelles, de quem nada escapa, chama a atenção para um exemplo prático de por que jornalista precisa desconfiar de pesquisas (ou, pelo menos, saber lê-las). [Vale lembrar que a News-U tem curso programado sobre o assunto, e que, este ano, tem eleições e... pesquisas, muitas pesquisas.]
*A teoria a Ana Estela já havia mostrado, a partir de um texto do National Council on Public Polls (20 Questions A Journalist Should Ask About Poll Results):
15. In what order were the questions asked?
Sometimes the very order of the questions can have an impact on the results. Often that impact is intentional; sometimes it is not. The impact of order can often be subtle. During troubled economic times, for example, if people are asked what they think of the economy before they are asked their opinion of the president, the presidential popularity rating will probably be lower than if you had reversed the order of the questions. And in good economic times, the opposite is true.
What is important here is whether the questions that were asked prior to the critical question in the poll could sway the results. If the poll asks questions about abortion just before a question about an abortion ballot measure, the prior questions could sway the results.
*A Folha de 21/12 trouxe a prática:
Ibope dá 2 resultados sobre Marta e Kassab
José Roberto de Toledo, que é especialista em pesquisas --e dados em geral--, acrescenta: "É uma boa prática recomendada pelos especialistas colocar a pergunta sobre intenção de voto ou de avaliação do governante logo no início do questionário, logo após a determinação do perfil sócio-econômico do entrevistado. Justamente para evitar o "viés moral" que o questionário adquire após uma bateria de perguntas que excitam o espírito crítico do entrevistado".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h54
Comentei no sábado que estou fazendo um documentário como trabalho de conclusão de um curso de aperfeiçoamente e o André, que também vai fazer um na sua faculdade, me pediu dicas:
"Acredito que nas minhas aulas envolvendo telejornalismo e videorreportagem já passei pelos quatro passos que você descreve, mas mesmo assim me sinto inseguro para fazer o trabalho.
Claro que todo trabalho grande que temos pela frente dá um certo frio na barriga, mas é que as reportagens em vídeo que fiz até hoje foram todas no padrão de telejornal, ou seja, curtas.
Nos padrões da minha faculdade, o formato de documentário deve ser entre 15 e 20 minutos. E já sei que nesse ano não poderemos contar com os professores o tempo todo para nos ajudar.
No meu caso, o tema do documentário também parece dificultar as coisas. Nossa "pauta" ainda está meio aberta, esperando um foco maior após as primeiras idas à rua."
Meu filme é bem experimental, não entra muito nos moldes do projeto do André, mais jornalístico, mais informativo.
O principal desafio, acho, é definir logo a pauta, para não ficar mudando de idéia a toda a hora e terminar com algo geral, impreciso e superficial.
Perguntem-se por que vocês escolheram esse tema, o que os mobiliza ou interessa. As respostas podem ajudar a definir o foco.
A partir daí, em linhas gerais, será como uma grande reportagem: é preciso pesquisa, observação, entrevista e documentação.
Como vocês pretendem fazer um trabalho baseado em depoimentos, em pessoas, procurem ter um bom critério de escolha, para que sejam personagens realmente representativos (os mais antigos, mulheres que resolvem tudo sozinhas, só famílias muito numerosas, os que moram no lugar de menor IDH da região, enfim, algum critério que ajude a dar foco e interesse ao projeto).
Sobre a operação em si, como escrevi naquele post, também estou aprendendo e dando várias cabeçadas.
De qualquer forma, só para não fugir da raia, passo abaixo algumas dicas, talvez óbvias, que aprendi na prática.
Meus leitores que porventura entenderem melhor do riscado e puderem dar mais sugestões, por favor, façam isso:
- pense muito bem nas perguntas que vai fazer. Vocês precisam fazer perguntas que levem a respostas completas e desenvolvidas. Não pergunte: desde quando você recebe o benefício tal?, mas algo como "conte pra gente como é que foi começar a receber o benefício. Como era antes, como ficou sabendo, o que fez, conta pra gente como é que foi...". Em qualquer reportagem isso é importante, mas em vídeo é fundamental.
- ouça as respostas sem fazer hã hã nem comentar logo em cima, nem colocar novas perguntas por cima do final da resposta. Para mostrar que está ouvindo e estimular as respostas, sorria, balance a cabeça, arqueie as sobrancelhas, mas não faça sons e lembre-se de deixar esse rabicho ao final de cada resposta, para não inviabilizar a montagem
- grave as entrevistas, mas grave também imagens relevantes da vida dos entrevistados. Por exemplo, as pessoas cozinhando, almoçando, saindo para o trabalho, estendendo roupa no varal, tomando o ônibus, o que for. Fica muito chato ver gente parada falando na tela. É bem melhor usar o áudio das respostas em cima de cenas que tenham ação e, de preferência, ação relevante, informativa
- se possível, veja e ouça o resultado da gravação rapidamente, antes de fazer novas gravações, para detectar problemas e prevenir novos erros. Se conseguir pegar um professor para isso, melhor. Se fizer logo no começo do semestre, aumenta a chance de ele ver e corrigir, já que quase todo mundo deixa para o final
- sempre que tiver um tempo livre, vá decupando as fitas de gravação: marque a minutagem de cada cena, descreva a cena, as principais frase, identifique claramente os melhores trechos. Isso economiza muito tempo na edição
- organize direito as fitas. Etiquete, numere, ponha data, guarde todas no mesmo lugar
- fique atento a outras situações, objetos e materiais que podem render imagem para sua história. Notícias de jornal, objetos recolhidos na pesquisa, objetos dos entrevistados.
O TEMPO CERTO
Acho que preciso explicar melhor, também, aquela questão do tempo de imagem a que me referi na mensagem de sábado, pois foi uma das novidades que aprendi errando.
Com a câmera na mão, você vê situações ou cenas bem legais, mas às vezes registra-as por pouco tempo. Alguns segundos. Na hora, parece suficiente. Você imagina que aquilo será um detalhe no meio de uma outra cena, ou que fará uma sequência de detalhes.
Mas, na hora de editar, os trechos precisam ter no mínimo cinco segundos (mínimo, em!?), ou viram só um soluço. A não ser que você esteja querendo fazer uma das cinco obstruções do Lars von Triers (não percam esse doc, se conseguirem encontrar), não vai funcionar.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h06
A Regiane, de Minas, tem uma sugestão de leitura para as férias:
"Nestas férias, vi várias dicas sobre livros no Blog e me lembrei de "Caco Barcelos o repórter e o método" de Sandra Moura. O livro relata, em detalhes, os métodos adotados pelo repórter durante a elaboração do livro-reportagem "Rota 66 a história da polícia que mata". Transcrevo alguns trechos da orelha do livro redigida por Cecília Almeida Salles, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP.
Num primeiro momento, fiel a uma hipótese, o jornalista desenvolveu uma longa investigação em busca de informações. Os assustadores dados obtidos foram tantos que exigiram organização, de onde saíram os primeiros resultados.
É interessante observar que nesta fase da reportagem investigativa de qualidade, os métodos de pesquisa científica e do jornalismo se cruzam. Tudo isso acontece em um clima de dúvidas sobre os possíveis resultados e, naturalmente, de coragem ao enfrentá-los.
Já durante a construção do relato, que se tornou livro, assistimos a um longo processo que envolveu escolhas de determinados recursos narrativos; esse atento e criterioso manuseio da palavra colocam, de algum modo, o jornalismo, a crônica e a literatura em diálogo.
Sandra Moura, por sua vez, fez o caminho inverso desenvolvendo seu método de pesquisa: como leitora do livro Rota 66 foi profundamente marcada pelo efeito do relato e como jornalista atraiu-se pelo modo como a investigação havia sido desenvolvida.
Ao conseguir ter acesso à vasta documentação, gentilmente cedida por Caco Barcelos, mergulhou nesses registros. A pesquisadora passou meses procurando por algumas chaves para a compreensão dos procedimentos investigativos do jornalista. Tirava da tenaz observação desses documentos suas próprias anotações, que lhe ofereciam pistas sobre o modo como esse pensamento jornalístico se construiu".
Vale a pena a leitura, especialmente para estudantes, focas e jornalistas interessandos em aprimorar seus métodos de investigação.
Meu leitor Rafael, estudante de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB), quer dividir com os colegas do blog uma matéria que leu no site da "Bravo":
"Uma jornalista (xará sua, a Ana Paula Bianconcini) reuniu os cineastas Fernando Meirelles ("Cidade de Deus", "O jardineiro fiel") e José Padilha ("Tropa de elite", "Ônibus 174") para uma discussão sobre cinema, tráfico, descriminalização de drogas, Capitão Nascimento. Acho que rendeu uma matéria muito bacana.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h04
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