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Novo em Folha

 

NO MEIO DO CONFLITO

NO MEIO DO CONFLITO

ANA FLOR vive em Nairóbi, no Quênia, há dois anos. Era repórter da Sucursal de Brasília da Folha quando decidiu ir para a África, acompanhar o marido que recebera uma proposta de emprego muito boa.

Nos últimos dias, ela tem percorrido os bairros da cidade sacudida por protestos e violência.

Como é fazer esse tipo de trabalho? Que impressão ela tem do que está acontecendo no país? Veja na entrevista abaixo:

Novo em Folha - Nos textos dos últimos dias dá para ver que você foi para rua, em bairros onde há bastante tensão, divisão de etnias e tudo o mais. Você foi sozinha? Não é perigoso?

Ana Flor - É sempre perigoso entrar em bairros onde há tensão. Aqui isto me parece pior pelo fato de eu ser estrangeira, mulher e não falar fluentemente uma língua muito utilizada entre os quenianos, o suaíli.

Eu jamais fui sozinha a estes bairros. Quando algum morador local ou outra pessoa conhecida não pode me acompanhar, pelo menos vou com um taxista que conheça bem a região --e as principais saídas...

Apesar do risco, nunca me senti hostilizada. Pelo contrário, as pessoas têm em geral um respeito grande com jornalistas e estrangeiros que se preocupam com a situação deles.

NF - Nesses dias, você acha que correu algum tipo de risco?

AF - Durante esta cobertura, eu percebi que às vezes a gente se sente mais seguro do que realmente está.

No dia da manifestação, eu estava no parque Uhuru, onde os manifestantes deveriam chegar. Havia muita gente da imprensa e polícia, mas o clima era calmo. Chegou a notícia de que a manifestação tinha sido cancelada, e começamos a ir embora.

De repente, sem qualquer necessidade, a polícia soltou uma bomba de gás lacrimogênio para dispersar as pessoas. Todos fomos atingidos, foi péssimo.

Mais tarde comentei com o fotógrafo que me acompanhava que, em vez de gás, eles poderiam ter atirado contra a multidão. Quem pode garantir que não? Por isso acho importante a gente estar sempre atento e não relaxar demais com a própria segurança, mesmo quando tudo parece sob controle.

NF - Lendo o noticiário, principalmente o do dia em que as pessoas foram queimadas dentro da igreja, a imagem que me veio à mente foi a do filme "Hotel Ruanda". Sei que são países diferentes, embora vizinhos, e me dizem que o Quênia é um país razoavelmente estável e tranquilo. Mas a impressão, para quem acompanha de longe, é que é o mesmo tipo de violência sem controle --alguns entrevistados chegaram a comparar os atuais distúrbios ao genocídio de Ruanda. Qual é a sua avaliação? Você sente que a violência pode sair totalmente de controle? Ou a cobertura dos conflitos, ao priorizar o que é notícia, acaba construindo uma imagem um pouco desbalanceada da realidade?

AF - Acho o Quênia muito diferente de Ruanda. É um país bastante desenvolvido, especialmente para a idéia que em geral se tem da África. Tem comércio forte, indústria, instituições internacionais e um grande número de estrangeiros.

Mesmo depois desta semana, em que vi a violência sair do controle por muitos momentos, não acredito que este país possa perder completamente o controle e repetir conflitos como os do Congo, Sudão ou da própria Ruanda.

Há quem me chame de otimista, mas acredito que a maior parte da população sabe os privilégios de viver em uma situação de razoável estabilidade e não quer perder isto.

Eu acredito que muitas vezes a cobertura de conflitos cria uma idéia parcial da realidade de um país. Isso acontece no Brasil também, quando a imprensa internacional destaca mortes nas favelas ou caos no sistema aéreo do país.

Especificamente nesta cobertura das eleições no Quênia, fiz questão de sugerir um texto explicando a importância do país na região e para o controle de questões internacionais, como o terrorismo.  

NF - Os conflitos afetaram alguém que você conhece pessoalmente? Que trabalha com vocês ou convive com vocês?

AF - Em diferentes níveis, os conflitos afetaram todos os moradores de Nairóbi, se não do Quênia inteiro. Os problemas começaram antes do Ano Novo, e muitos amigos não puderam viajar para o interior do país ou ficaram em dúvida se se deslocavam 10 quilômetros para ir a uma festa de final de ano. Eu estava com amigos do Brasil me visitando. Eles não puderam passear pela cidade ou viajar pelo país.

Por outro lado, a pessoa que trabalha na minha casa mora em uma das favelas, e sofreu na carne o medo de ter a casa incendiada e a família atacada. Ele sentiu no bolso a alta dos alimentos e o desabastecimento.

NF - E você e sua família, foram de alguma forma afetados?

AF - Meu marido  trabalha para a ONU e foi aconselhado a ficar em casa por diversos dias. Todos enfrentamos supermercados lotados. Foi necessário estocar alimentos porque não se sabia até quando a situação iria durar. Isto gera um clima de tensão generalizado.

NF - Quando você viajou para a África, deixou um cargo legal, de repórter em Brasília. O que te levou a mudar de país? Foi difícil de decidir?

AF - Foi muito difícil!

Na época, eu estava trabalhando com coisas que eu gostava muito, em um cargo que eu precisei batalhar muito para conseguir. O jornalismo sempre foi muito importante para mim, e "abandonar"  a vida de repórter em Brasília parecia uma loucura.

Eu saí do Brasil porque meu marido havia sido selecionado para um trabalho legal aqui. Eu fiquei seis meses a mais no Brasil, mas precisei tomar uma decisão.

Cheguei a conclusão de que vindo para cá eu não deixaria de ser jornalista e poderia construir boas oportunidades de trabalho. Acho a vida de correspondente muito desafiante. Isto me ajudou a tomar a decisão.

NF - Profissionalmente, que efeito isso teve para você?

AF - Foi uma mudança radical. Em Brasília eu chegava a trabalhar 14 horas por dia. No Quênia, estava fazendo um mestrado e não tinha uma obrigação de buscar pautas. Foi um exercício de disciplina.
 
NF - Desde que chegou aí, você faz reportagens com freqüência? Sobre que assuntos?

AF - A frequência foi menor do que eu gostaria, mas escrevi muitas matérias. Fiz reportagens ambientais, porque a sede do Pnuma (Programa das Nacoes Unidas para o Meio Ambiente) fica aqui. Houve encontros importantes sobre mudanças climáticas e eu pude fazer várias matérias para o Brasil. Também cobri o Fórum Social Mundial , que aconteceu aqui. Fiz ainda matérias de turismo e direitos humanos.
 
NF - Essa temporada na África afetou de alguma forma sua maneira de ver o jornalismo? Como?

AF - Ficou mais claro para mim a falta de cobertura sobre certos temas e o desconhecimento que as pessoas têm sobre algumas partes do mundo (e como nós, imprensa, colaboramos nisto).

O Brasil conhece pouco da África, a África conhece ainda pouco do Brasil.

As pessoas querem saber o que está acontecendo em sua região. Por isto no Brasil há tanta notícia sobre a América do Sul. Da mesma forma, aqui há muita notícia sobre o Oriente Médio e Índia, vizinhos deste lado da África.

Sobre o fazer jornalístico, esta temporada reforçou minha idéia de que o repórter é um ser solitário, que precisa saber trabalhar de maneira independente, sem estar necessariamente preso a uma empresa.

Não que trabalhar para um jornal seja ruim --não o é.

Acredito que, para fazer o que gostamos, temos que ter condições de trabalhar individualmente, porque há muitos jornalistas no mercado e nem sempre vamos ter um espaço garantido.

É preciso arriscar, oferecer matérias, buscar assuntos que sejam interessantes fora da pauta do dia-a-dia. Vi isto com os muitos jornalistas freelancers europeus na África. Muitos conseguem ganhar a vida, são versáteis e fazem matérias ótimas.

ANA FLOR tem 32 anos. Antes de ir para Sucursal da Folha em Brasilia, trabalhou no Zero Hora. Em 2003 foi bolsista do instituto Alfred Friendly Press no St. Louis Post Dispatch, em St. Louis (MO), EUA. Em 2001, foi correspondente em Berlim, Alemanha, por três meses, como parte da bolsa do IJP (International Journalists Programme). Alem do Quênia, Alemanha e EUA, ja morou na Austrália e África do Sul.

Logo no post abaixo, um exercício que envolve a cobertura dos conflitos do Quênia
Fabiano Maisonnave fala sobre como cobrir, à distância, o caso dos reféns na Colômbia
Conheça a história de um brasileiro que foi tentar a sorte como correspondente no Líbano (e conseguiu)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h33

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VOCÊ DARIA ESTA FOTO?

VOCÊ DARIA ESTA FOTO?

Sayyid Azim/Associated Press

Corpos de crianças no necrotério de Nairóbi, Quênia

Pensei neste exercício para vocês terem uma idéia de como muita vez é duro decidir num jornal, e de como entram os tais critérios lá embaixo na hora de decidir.

Esta imagem é resultado dos atuais conflitos no Quênia.

O Estadão publicou hoje, em dois módulos, no pé da página interna que cobria o caso. Na Folha, a imagem que acompanha a reportagem é esta:

Folha e Estado são jornais feitos para o mesmo público.

Ambos têm excelentes editores, gente competente, consequente, que não toma uma decisão como essa (seja para dar, seja para não dar) levianamente.  

Mas cada um escolheu um caminho.

E você, publicaria? Mais importante que o sim ou não são os motivos. O que justifica mostrar ou omitir?

Meu comentário.

O que é notícia?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h59

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NOTÍCIA EM CURSO

Daniel de Campinas comenta a cobertura das primárias de Iowa: quando a edição São Paulo da Folha fechou, na madrugada de hoje, ainda não havia resultado final. Pouco depois da meia-noite, Barack Obama passara seus concorrentes diretos e liderava.

Daniel pergunta como será que a edição nacional se virou.

Foi assim:

Na edição SP, já havia quase 100% dos votos apurados, então já era possível dar chamada para o resultado, com a ressalva, claro, de que se tratava de números parciais:

Outro post sobre o que fazer quando a notícia não terminou

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h58

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O QUE É NOTÍCIA, AFINAL?

Achei muito boa a discussão de vocês no exercício sobre o assalto que deixou paraplégico --ao que se sabe-- o filho do médico Lídio Toledo, ex-seleção brasileira.

Para quem não chegou a ver a questão inicial, ela partiu de um leitor, que perguntava se era notícia falar do filho do médico, ou se era falta de assunto.

A questão principal, portanto, é: o que faz de um fato notícia?

Há várias formas de respondê-la.

A mais básica é notícia é o que é novo (em inglês a palavra é mais feliz, por causa da coincidência de sentidos: news).

Além de ser novidade, notícias são uma combinação principalmente de:
1. Importância e
2. Interesse

De modo geral, notícias terão uma combinação desses três elementos: novidade, importância e interesse.

Algumas serão muito importantes, mas pouco interessantes --o pacotão de impostos, por exemplo--, e outras muito interessantes, mas não tão importantes --a morte da princesa Diane.

Uma informação será tanto mais forte –e atrairá mais o leitor-- quanto mais dessas características tiver.


Manuais de jornalismo listam vários critérios para definir a importância de uma notícia:

1) Ineditismo (a notícia inédita é mais importante do que a já publicada);

2) Improbabilidade (a notícia menos provável é mais importante do que a esperada);

3) Utilidade (quanto mais pessoas possam ter sua vida afetada pela notícia, mais importante ela é);

4) Apelo (quanto maior a curiosidade que a notícia possa despertar, mais interessante ela é);

5) Empatia (quanto mais pessoas puderem se identificar com o personagem e a situação da notícia, mais importante ela é).

6) Conflito (disputas entre pessoas, países, corporações, além de tratarem de diferentes interesses em jogo, costumam ser interessantes)

7) Proeminência (notícias sobre pessoas famosas ou conhecidas têm mais impacto)

8) Oportunidade (o momento da publicação faz diferença. Publicar uma informação exclusiva sobre uma reunião antes que ela aconteça é mais jornalístico que publicá-la depois)

9) Proximidade (o que acontece perto dos leitores é mais relevante: para um jornal paulistano, um dia de falta d´água nos Jardins será notícia, mas em Lins ou Manaus, não. Um massacre de crianças será notícia independentemente de onde acontecer, mas, se for no Brasil, provavelmente ganhará espaço maior que se acontecer no Laos)

O Manual da Folha lembra algo importante: cada jornal escreve para um grupo particular dentro da sociedade (seu universo de leitores), e isso afeta o que é considerado notícia naquela Redação.

Cada veículo terá prioridades diferentes na hora de hierarquizar as infomações, dependendo de seu projeto editorial, da abrangência de seu jornal (se é local ou nacional), da periodicidade e do meio –em TV, a possibilidade de ter boas imagens tem peso maior que em jornais; no on-line, a necessidade de selecionar o que será publicado é muito menor que em impressos.


Esses critérios todos determinam não só se algo merece ou não ser publicado, mas também com que destaque, de que tamanho, com que tratamento.


Hierarquizar notícias é um processo humano, não uma técnica exata. Por isso, cada pessoa chegará a conclusões diferentes, de acordo com seus gostos pessoais, seus valores, sua visão de jornalismo.

Já vimos isso aqui, num exercício que fizemos sobre o Corinthians e o São Paulo.

E, como lembrou uma leitora nos comentários, toda Redação tem uma espécie de inconsciente coletivo, uma cultura implícita, não formalizada nem declarada, que faz com que decisões sejam tomadas "inutitivamente".

Aquela divisão por itens ali de cima nos ajuda a refletir, mas no dia-a-dia ninguém vai parar para decompor cada fato em seus aspectos, dar notas a eles e compará-las para escolher o que sairá na capa e o que irá para o lixo.


Voltando então ao caso do filho do médico, que elementos noticiosos ele tem?

1 - é um sujeito de classe média baleado em assalto num bairro de classe média. Só por isso, já é notícia, mesmo que fosse um anônimo. Vejam: não é pelo fato puro e simples de ele ser rico. Não é que o que acontece com os ricos vale mais do que o que afeta os pobres, por princípio. Mas é porque os leitores de jornais como a Folha moram naqueles bairros, passam por ali, tem aquele tipo de carro. Ou seja, poderia ser com eles. Poderia ser com você.

2 - é filho de alguém conhecido. Como vimos ali em cima, isso aumenta o interesse do público. O médico da seleção, em si, passa a ser um personagem da notícia. O drama não é mais só do moço baleado, ameaçado de ficar paraplégico, mas do próprio personagem famoso.

Se o assalto tivesse acontecido com um outro médico, que não fosse filho do Lidio Toledo, o jornal teria dado? Provavelmente sim, pela razão número 1.

O fator número 2 é responsável por um destaque maior e por um acompanhamento mais constante nos dias seguintes.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h21

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QUESTÃO DE IDIOMA

A Sara, de Curitiba, pergunta a quem os correspondentes da Folha recorrem para checar os textos (principalmente na questao de expressões, termos próprios do país que cobrem etc.): "Há um suporte específico para isso na Redação da Folha ou no próprio país? Ou o jornal acata o texto da maneira como ele chega?".

Em geral, os correspondentes dominam bem o idioma do país que vão cobrir. Na Folha, os candidatos a correspondente-bolsista fazem um teste de idioma como parte da seleção.

Quando você vai para um país como China ou Rússia, é preciso contratar um intérprete. Enviados especiais costumam procurar moradores locais que falem inglês e possam funcionar como intérpretes. O Igor conta um pouco disso na história dele sobre o Afeganistão (leia aqui).

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h22

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para estudar entrevistas

Meu leitor Daniel, de Campinas, recomenda a entrevista de Jorge Kajuru para Marcelo Tas no bate-papo do UOL: "Kajuru é um cara que fala de tudo e todos. Já Marcelo Tas sabe conduzir muito bem a entrevista intercalando suas perguntas sem excluir os internautas". 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h14

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10 passos para títulos

Meu leitor João diz que tem dificuldades para fazer títulos e pede dicas. Vão algumas, então:

A dica número 1 é: entenda o projeto do seu veículo.

Antes de falar sobre títulos, é preciso dividir as águas. Há todo tipo de título em jornalismo. Cada veículo tem um projeto editorial e pedirá títulos desta ou daquela maneira. E dentro de um mesmo jornal ou revista, há matérias que pedem títulos informativos e outras que aceitam ou até preferem títulos mais criativos.

Dica 2: entenda qual é o objetivo da matéria (o tal do "e daí", que comentamos dia desses)

Cada matéria terá um jeitão próprio. Sua tarefa é identificá-lo.

Se você é o repórter, teoricamente, está mais fácil. Você sabe por que aquela reportagem surgiu, o que se queria com ela. O título sairá daí.

Para quem está titulando o texto dos outros pode ser mais complicado. Há tantas informações ali, e nem sempre o principal está no lide. O que destacar no título?

Dica 3: fique por dentro de todo o processo da sua editoria, da pauta à edição

É por isso que muitos jornais têm no começo da tarde uma reunião "de passagem", em que os editores dizem para toda a equipe de fechamento qual é o ponto central de cada matéria.

O ideal, claro, é que o título já esteja esboçado desde a pauta. Quando o repórter começa a apurar, ele já tem na cabeça que título seu texto terá se a hipótese da pauta for confirmada. Quando ele dá retorno ao editor, ele deve começar pelo título, ou seja, confirmar o que estava na pauta ou oferecer um outro, decorrente do que levantou.

Se seu veículo não tem essa reunião de passagem, suas opções são:

  • olhar a pauta, para ter uma idéia do motivo que levou o jornal a ir atrás daquela história
  • consultar o repórter
  • consultar o editor

Dica 4: mantenha a leitura em dia

Não dá para saber qual é a novidade de um texto se você não estiver acompanhando o noticiário.

Um erro muito comum é ler uma suíte (reportagem que continua um assunto da véspera), espantar-se com a notícia da véspera e dar no título o velho em vez do novo.

Por exemplo, o texto diz "A polícia vai ouvir hoje duas testemunhas do atropelamento que matou cinco crianças na zona leste na madrugada de anteontem", e o redator põe no título "Atropelamento na zona leste mata cinco crianças", quando, na verdade, isso já tinha saído ontem.

O título aqui seria "Polícia ouve testemunhas de atropelamento".

Dica 5: colecione sinônimos

Até a dica 4, estávamos falando do conceito do título, da idéia central.

Na hora H, entram os limites físicos: número de linhas e número de colunas. Você terá que contar aquela idéia com palavras que caibam no tamanho do seu título, o que nem sempre é fácil.

Aqui na Folha, por exemplo, temos as famigeradas manchetes de Primeira Página em duas colunas. Qualquer palavra um pouco mais avantajada, desenvolvimentista, por exemplo, já não cabe. Aliás, nem desenvolvimento cabe.

É por isso que um dos maiores amigos do fechador é o dicionário de sinônimos. O Houaiss tem um bom. Mas, na ausência dele, um dicionário comum já ajuda, pois apresentará palavras com o mesmo sentido que podem ser maiores ou menores, conforme a conveniência.

Dica 6: faça, faça, faça

Algo inegável é que a capacidade de dar bons títulos melhora com o tempo e a prática.

Eu, por exemplo, acho que resolve bem os títulos hoje em dia. Mas nem sempre foi assim. Quando comecei a trabalhar como fechadora, no finado caderno Negócios, deixava meu chefe, Nelson Blecher, de cabelos em pé. Praticamente não passava um dia sem que ele reprovasse meus títulos: está muito vago, está fora de foco, está burocrático, está isso e aquilo.

Devo muito a minha colega da época, Sandra Muraki, que, com paciência oriental e enorme generosidade, contornava a ira do Nelson Blecher e ia me dando dicas.

Mas melhorou, mesmo, foi com o passar de alguns anos. Você aprende a "métrica" de cada tipo de título, como na poesia. Intuitivamente você já sabe que "ritmo" tem aquele tamanho, de quantas palavras precisa, quantas cabem em cada linha.

Dica 7: leia todo o texto uma vez

Na pressa, a vontade é fazer logo o título, assim que lemos o lide.

Não vale a pena. O ideal é ler todo o texto, para ter noção completa do universo de que ele trata.

Se não, você corre o risco de fazer um título impreciso, parcial ou fora de contexto.

Dica 8: não se prenda à primeira idéia

Depois de ter lido o texto todo, releia o lide, onde, supostamente, está a principal notícia (leia aqui sobre os textos em pirâmide invertida) e tente resumi-lo em uma frase.

Se ela não couber, troque palavras maiores por menores: possuir por ter, alterar por mudar, aumentar por subir.

Se ainda assim não couber, inverta a ordem: em vez de "Prefeito diz que praça será aberta em um mês" tente "Praça será aberta em um mês, diz prefeito", ou "Prefeito promete abrir praça em um mês".

Mas, se perceber que está há muito tempo em cima da mesma idéia sem conseguir colocá-la no espaço que tem, procure um outro enfoque: "Praça terá árvores japonesas", por exemplo.

Dica 9: o específico é sempre melhor que o geral (sobre isso, já falamos aqui no blog)

Dica 10: verbo é tudo

A graça de um título muitas vezes está num verbo bem escolhido. Verbos de ação, que sejam precisos ao descrever o fato, atraem o leitor, fisgam a atenção dele.

Procure sempre o verbo mais adequado, aquele que acerta na mosca, que dá a idéia exata do que se passou.

Meu colega EVANDRO SPINELLI acrescenta: a voz ativa é quase sempre a melhor. Um exemplo de hoje, que está nos on-lines: "Governo suspende novos concursos" é melhor que "Novos concursos são suspensos".

A voz ativa dá o sentido de ação, da coisa que está acontecendo e que interessa ao leitor. A voz passiva passa a impressão (pelo menos para mim) de coisa velha, sem novidade.

Agora, há exceções: "Estrada é liberada após acidente" é melhor que "Polícia libera estrada após acidente". Nesse caso, só o que importa é a estrada, não a polícia. Portanto, embora não esteja na voz ativa, a primeira opção é melhor (de novo, é apenas a minha opinião).

Quando decidir entre voz ativa ou passiva? O blogbudsman Roberto Takata dá uma boa dica: se a notícia principal estiver no sujeito da ação, use voz ativa. Exemplo meu: Luxemburgo abandona Palmeiras e vai para o Milan.

Se estiver no objeto da ação, naquele ou naquilo que sobre a ação, use a voz passiva. Exemplos do Takata: Silvio Santos é seqüestrado, Comerciante é assaltado 52 vezes em três meses. 

Títulos mais específicos informam mais
Análise de casos: quando um título é bom?
Exercício de título, propostas e comentários
E daí?
Títulos sem mico

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h10

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imagem do nada


Uma leitora de TV me perguntou outro dia o que fazer quando um entrevistado não quer falar.

Como mostrar em imagens a não-entrevista?

Demos algumas dicas de como tentar convencer o entrevistado a falar e tivemos a colaboração de um super-repórter de TV, Giovani Grizotti.

Mas ficou faltando a opinião de quem realmente decide sobre que imagem mandar para o ar: o editor de TV.

Quem me ajuda agora a responder à pergunta da leitora é minha amiga Beatriz Alessi, editora superexperiente, que já passou pelas principais emissoras brasileiras:

Olha, outro dia eu falei pra uma amiga jornalista que quando pensasse numa matéria de TV, fechasse os olhos e tentasse imaginar como aquela história seria contada.

É mais ou menos isso.

No caso de um acusado não querer falar, pode-se dizer simplesmente: "Procurado pela reportagem, o sr fulano de tal não quis se pronunciar."

Mas, caso ele tenha dado uma declaração a outro veículo ou tenha feito algum depoimento formal sobre o caso, pode-se usar o recurso da arte, ou seja, pinçar frases dele e colocá-las sobre um fundo que tenha, por exemplo, a foto do acusado e outras informações relativas ao caso.

Se a história tiver repercutido no reduto eleitoral dele --com certeza, terá--, pode-se também pinçar frases de um jornal local, por exemplo.

Pode-se ainda fazer o que chamamos de "remember". Resgatar "sonoras" anteriores em que o acusado tenha tentado se eximir de responsabilidades.

Podemos usar também imagens de arquivo que o comprometam de alguma maneira, se houver.

Outro recurso é ir atrás do acusado, como a imprensa fez com o Severino Cavalcanti, em Nova York. Se o acusado se irritar, virar o rosto ou colocar a mão na câmera, tudo isso ficará registrado e poderá ser usado na matéria.

Enfim, cada caso é um caso. E cada matéria de televisão é um exercício sobre como contar uma história.

Lembro-me de uma matéria que fiz no SBT Brasil, em 2006, a partir de uma única foto desta história: http://www.poe-news.com/stories.php?poeurlid=63771

Tratava-se de um "docudrama" do Channel Four britânico em que George Bush era assassinado.

Tínhamos uma única foto.

Com a correspondente em Nova York, recontamos a história com imagens de arquivo de Bush, das campanhas bélicas dos Estados Unidos pelo mundo, resgatamos também imagens de arquivo do assassinato de JFK (não me lembro se chegamos a mencionar o atentado contra Reagan...) e usamos ainda filmes para mostrar que várias foram as vezes em que o presidente americano se transformou em alvo na ficção. 

Ou seja, quando se está diante de uma matéria de TV, é preciso dar asas à imaginação.

Espero ter ajudado em alguma coisa.

Ajudou muito! Não acham?

A técnica do menos pior - dica de Giovani Grizotti
O problema original
Dicas para
entrevistados renitentes
Mais dicas para convencer recalcitrantes

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h36

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NOITES MALDORMIDAS


Esta ilustração muito bonitinha eu peguei num blog, aleatoriamente

Quando comecei a trabalhar como repórter, sonhava todas as noites com o jornal.

Todas as noites.

Não é que, quando me lembrava de um sonho, ele havia sido sobre a Folha. Eu me lembrava todos os dias, e todos haviam sido com trabalho.

Durou um ano.

Espero que para TALITA BEDINELLI, que conta sua história aqui em baixo, alguma tranqüilidade chegue mais cedo:

Tem dias que parece que a gente não vai dar conta. No decorrer da tarde, aparece uma coisa a mais aqui, outra ali, e, quando vemos, temos três, quatro textos pra escrever até o fechamento. Toda vez que isso acontece penso: "Hoje não vai dar".

Esta tem sido a minha rotina aqui na Agência Folha, desde que comecei a cobrir férias, dois dias depois do final do treinamento.

Já senti a adrenalina em muitos momentos.

A primeira vez, foi logo na minha primeira semana. Fui enviada para Bauru para cobrir o caso do menino de 15 anos, morto por choques elétricos que, suspeita-se, foram dados por policiais militares.

Tinha feito uma matéria sobre o caso no dia anterior, que foi uma segunda-feira. Quando cheguei na Folha, umas 10h30, o Jairo, chefe de Reportagem da Agência, pediu para eu voltar para minha casa, fazer uma mala e ir para Bauru.

Nunca tinha viajado para fazer matérias antes. Entrei em um pânico momentâneo, que logo teve que sumir porque tinha MUITA coisa para fazer. No caminho, já fui telefonando para as pessoas com quem precisava falar na cidade, adiantando algumas entrevistas e marcando outras, para quando chegasse lá.

Quando cheguei, às 16h30, tinha que apurar bastante coisa (o que fiz com a ajuda de um repórter local) e escrever três textos para o fechamento às 19h30 _o fechamento do jornal é mais tarde, mas, na Agência, temos que mandar o texto antes porque ele é editado antes de ser mandado para editoria.

Depois disso, ainda tive que ir à casa da mãe do adolescente para entrevistá-la. Cheguei lá às 20h e bati na porta. Tinha certeza que seria muito mal recebida _era muito tarde e estava incomodando uma senhora que tinha acabado de perder um filho de uma maneira, no mínimo, brutal. Mas deu tudo certo. E toca fazer mais uma matéria para o segundo fechamento do jornal, às 22h _o segundo fechamento é o da edição São Paulo e também é, geralmente, mais tarde que isso.

Fiquei na cidade ainda mais um dia. Mas, esse primeiro, foi para mim o mais marcante.

Estou para escrever esse texto já faz algum tempo. Hoje, resolvi sentar e escrever porque tive novamente um dia desses.

Acabei de mandar uma matéria para a edição de amanhã sobre um assunto polêmico. E, sempre que o assunto é polêmico, o trabalho é muito, porque os lados que precisam ser ouvidos também são.

Desde que saí do treinamento, sinto que os dias só me pedem mais do que eu acho que posso dar. As tardes são de frios no estômago e, à noite, depois de mandar as matérias, o frio, ao invés de diminuir, aumenta. Fica sempre aquela sensação de "será que coloquei alguma informação errada?".

Espero que amanhã não tenha que mandar nenhum "Erramos" para publicação.

Mas, no fundo, as coisas sempre dão certo. Acho.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h34

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SÓ EU E UMA CIDADE INTEIRA

Minha leitora Tainã, do Rio, é correspondente para uma agência internacional e pergunta:

Tenho achado muito difícil fazer apuração, justamente por não ter a estrutura de uma Redação por trás para me dar apoio. Às vezes fico feito barata tonta sem a orientação de um editor ou de um pauteiro, tendo que resolver todos os trâmites desde a elaboração da pauta até a edição sozinha. E os temas sempre são cotidianos, ou seja, não são reportagens especiais ou de gaveta, o que torna a competição com os demais veículos de comunicação com estrutura ainda mais difícil.

Será que alguns correspondentes da Folha ou mesmo você teriam dicas pra tornar esse trabalho um pouco menos cheio de obstáculos?

Realmente, o correspondente é responsável pela pauta, pela apuração e por um mínimo de edição. Como agências trabalham com muita matéria, o ideal é que o correspondente tenha texto final.

É mesmo um trabalho solitário, exige autonomia, disciplina, organização e capacidade de decisão.

Claro que você não vai poder cobrir sozinha tudo o que acontece no Rio. Por isso, minha primeira resposta seria:

  • estabeleça claramente as prioridades gerais do seu veículo;
  • a cada dia, estabeleça com seu editor --ou quem negocia com vc do outro lado do mundo-- uma hierarquia dos assuntos possíveis
  • invista em poucos assuntos que possam render mais

Mas, como nunca estive nessa situação, pedi ajuda a meu colega VINICIUS QUEIROZ GALVÃO, que foi correspondente em Nova York. Naquela cidade, a função dele diferia da Tainã consideravelmente, porque o factual já era coberto pelas agências de notícias e ele podia justamente buscar os sides, o clima da cidade, o diferente.

Mas, a partir dessa experiência de ser o único homem do jornal numa praça, ele dá dicas para a Tainã:

  • Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele. Convém fazer amizade com colegas das grandes Redações. Dificilmente eles se negarão a ajudar
  • Não adianta fazer uma cobertura de gabinete. É preciso ir às ruas. É assim, falando com as fontes pessoalmente, que se pode ganhar credibilidade com elas
  • Fique muito ligado no noticiário on-line e nos canais de notícia, para não perder nada. Sites noticiosos (UOL, Folha Online, G1, Estadão), sites oficiais (SSP, polícia, prefeitura, governo, tribunais, etc...), Google News, Yahoo News. É ficar com um olho no gato, outro no peixe, para não deixar passar nada.
  • Crie uma rotina de trabalho, com rondas constantes, telefones-chaves
  • Estabeleça fontes e contatos (inclusive, repito, com colegas de outras Redações). No caso da brasileira presa em Nova York por prostituição, fui muito ajudado pela Celeste Katz, repórter do "New York Daily News", com informações da polícia local e dos promotores. Em contrapartida, ajudei com contatos da família da acusada aqui no Brasil. Uma mão lavou a outra. Ela ficou imensamente grata, porque além de não falar português, não tinha idéia de onde/como buscar informações da família, e eu fiquei agradecido pq dei um monte de furo nos concorrentes locais, graças a ajuda da Celeste. Nesse mesmo caso, o contato do advogado da brasileira presa, para me dar o outro lado, foi passado por uma repórter da ABC News, que estava no prédio em que a brasileira foi presa. Se eu não tivesse ido lá, e feito uma cobertura de gabinete, por telefone, não teria conseguido o outro lado tão rápido...
  • Estabeleça uma rotina de trabalho com a chefia. É preciso passar retorno e pedir orientação sobre as prioridades diariamente com pauteiros e editores

Vinicius Queiroz Galvão conta sua experiência em Nova York

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h08

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DE MEMÓRIA

Antes dos feriados meu leitor Daniel tinha ficado impressionado com um texto da repórter Letícia Sander, que reproduzia uma conversa de Lula com jornalistas durante um café [Copiei a reportagem no site do treinamento, para quem não tem acesso à FSP]:

Na edição de hoje, fiquei impressionado com a reportagem da Letícia Sander. Como é que ela conseguiu guardar as aspas do Lula sem gravador e anotação? Será que os repórteres, depois da entrevista, checaram entre eles o que tinham memorizado?
Se ela contasse como foi, seria ótimo, porque é provável que um dia qualquer um de nós passem por essa situação.

Letícia, que estava de folga, me respondeu na hora. Por vários entraves que não vêm ao caso, só hoje consigo pôr no ar a resposta:

Bom, foi a primeira vez em que isso aconteceu comigo e realmente é uma experiência diferente. Eu saí do café, anotei algumas palavras-chave e procurei memorizar o que ele disse sobre os assuntos que julgava mais importantes.

Fiz a ressalva no texto de que não pude anotar exatamente porque é muito provável que alguma aspa que eu coloquei não tenha sido exatamente daquela maneira que ele falou... mas a idéia com certeza era aquela.

Procurei colocar a maior parte das coisas em discurso indireto e mais expressões, e não a frase inteira entre aspas, justamente para não correr o risco de errar.

Além disso, alguns assuntos e pontos eu não publiquei, exatamente por não ter mais certeza sobre o que ele havia dito. Elegi uns sete ou oito tópicos, para poder me concentrar neles.

As frases que renderam títulos e pontos principais foram as que chamaram mais a atenção ao longo do café, por isso sabia que teriam destaque e assim que saí de lá, procurei escrevê-las imediatamente.

Conversei, sim, com outros repórteres para ajudar no exercício de memória. Neste caso, era absolutamente necessário, em virtude do fato de ter sido uma hora e meia de conversa.

Letícia conta como trabalham os repórteres no Palácio do Planalto
O repórter Kannedy Alencar explica como, quando e por que não grava nem anota
Quando dar declarações entre aspas


 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h20

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É NOTÍCIA OU APELAÇÃO?

É NOTÍCIA OU APELAÇÃO?

Meu leitor João manda uma pergunta, que copio abaixo para que vocês dêem sua opinião:

Tenho uma sugestão para o blog. Recentemento vimos em toda a imprensa o terrível caso de violência contra o filho do dr. Lídio do Toledo, ex-médico da seleção brasileira. Nem sei se o "ex-médico" é termo mais correto... mas fico pensando que, apesar da violência do país, o "filho do ex-médico da seleção brasileira" não é um personagem de matéria.
 
Acho que o dr. Lídio, sim, seria, mas o filho não. É como se o filho do ex-deputado estadual, ou o filho do ex-jogador, que não estivessem em evidência, passassem por um caso assim.
 
Será escassez de pauta?
 
O que vocês acham? É notícia? Se acharem que é, por quê? Que elementos têm esse caso que justificam a publicação? O fato do moço ser filho de alguém conhecido tem a ver com isso? Deve ser mencionado?
 
Para lembrar, os exercícios do blog têm como objetivo permitir a reflexão e a troca de idéias. Não há certo nem errado. Não tenha medo de responder. Se quiser tirar a prova, veja aqui outros exercícios que já fizemos.
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h49

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O JORNAL QUE NÃO LÊ O JORNAL

 


Meu amigo e colega ALEC DUARTE conta este caso muito divertido:

O jornalzinho "The Lewiston Tribune", da cidadezinha de Idaho (EUA), publicou duas fotos em sua primeira página de 13/12.
 
Na principal, um cidadão identificado como Michael Millhouse (funcionário de uma empresa de decoração) trabalha na vitrine de uma loja.
 
A foto secundária da primeira página é sobre um furto numa loja da cidade que foi registrado pelo circuito interno. A polícia tinha divulgado a imagem em busca de informações que levassem ao larápio..
 
Detalhe: trata-se da mesma pessoa!!!
 
Dava pra ter sacado, o Michael está usando a mesma roupa. Além disso, é provável que houvesse mais fotos (além da publicada) pra ver de frente o rosto do cidadão...
 
Enfim, quem se tocou ao ver o jornal foi a polícia. E o cara está encrencado agora...

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h58

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MEU COMEÇO NA ILUSTRADA

Ontem foi o Lucas e hoje é o PH RODRIGUES que começa, em Ilustrada.

Para acompanhar a estréia de hoje, então, vai o relato do SILAS MARTÍ, da 43ª turma, que será seu colega de caderno:

O treinamento acaba sem muita cerimônia e chega a hora de tentar conquistar um lugar pra você na redação. Na minha turma, fui o primeiro a ter minha situação mais ou menos acertada, quando passei numa banca de Suplementos. Fiquei meio inseguro e até pensei duas vezes em ir trabalhar como repórter do caderno Negócios, que é algo que não tem mesmo nada a ver comigo. Mas depois de uma conversa com o Cássio, o editor do caderno, achei que valia a pena tentar. Mesmo sem conhecer muito bem o assunto (minha primeira matéria foi sobre o que os empresários precisavam saber sobre o Supersimples!), comecei a escrever. Fiz algumas viagens a trabalho e tinha todo o tempo do mundo para escrever matérias _algo raríssimo na Folha.

Enquanto ainda estava em Suplementos, comecei a sugerir pautas para a Ilustrada, editoria onde hoje trabalho como redator e repórter. Era o caderno para o qual queria escrever desde que entrei na Folha _comecei o treinamento depois de ter trabalhado um ano na produção da Bienal de São Paulo e estudado história da arte na Itália. Apareceu uma vaga por lá, eu conversei com o editor e as coisas se acertaram. Acho até que tudo entrou nos eixos sem demora, mas tem  também outro lado. O fato de estar na editoria que você mais quer no jornal torna inevitável (se é que já não é em qualquer caderno) uma dedicação a mais. Além de cumprir obrigações, é importante se esforçar, sugerir pautas não só na sua área de cobertura (a minha é artes plásticas), ficar atento a tudo que acontece, ir atrás de furos e exclusivas, enfim, jornalismo. Só é bom evitar o pânico no começo.

PH, além de começar o ano na Redação, também sugere para vocês um bom livro para as férias. Veja abaixo.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h21

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Para ler nas férias

Para ler nas férias

Para minha sorte, desde que o blog começou, há pelo menos um trainee na turma que gosta de participar dele. Na 43ª era a Johanna, que de vez em quando ainda colabora por aqui. Nessa 44ª, há pelo menos dois: Ricardo Viel e PH RODRIGUES, que sugere um livro para vocês:
 
Acabo de ler "Instinto de Repórter", de Elvira Lobato. É uma dica de leitura para as férias.
Lembra o buraco na Serra do Cachimbo (PA) destinado a testes nucleares? Foi Elvira Lobato que descobriu.

E aquele grupo evangélico que queria comprar a Vasp, mas sequer pagava o aluguel? Ela de novo!

O livro é um apanhado de furos que sacudiram o noticiário. Mas nada de matéria reunida e republicada _clichê de muito jornalista-autor de plantão.

Elvira Lobato pegou as histórias de jeito. Explica como surgiram as pautas, detalha a apuração, busca os desdobramentos e, depois de ouvir todas as fontes novamente, convence gente que era off a virar on. Só a Elvira mesmo.

Se há receita para quem gostaria de ser repórter, o livro de Elvira é um "Dona Benta: Comer Bem" _indispensável.

Durante o treinamento, a gente teve a oportunidade de conversar com a Elvira. Percebi uma qualidade que no livro não fica evidente. Ela é simpática, fala bastante, engraçada.

Parece que a notícia gosta de gente que sorri.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h17

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FELIZ ANO NOVO

Não ligo muito para datas e festas, mas de ano novo eu gosto.

Fico feliz que mais um ano tenha se passado, da idéia de que há sempre uma chance pra reparar algo torto, trocar de rumo, descobrir diversões.

É o que desejo para todos vocês.

Mal dá para acreditar que este blog não fez nem aniversário ainda. Fui checar no arquivo e o primeiro post é de fevereiro de 2007. Para mim parece que ele sempre existiu.

Como é dia de passagem, aproveito para relembrar que este é um espaço coletivo. O blog é feito pelos leitores também:

  • quando ler uma reportagem e ficar curioso sobre como ela foi feita, pergunte, que tento entrevistar o autor
  • quando tiver um exercício na faculdade e tiver dúvidas, divida-as com os leitores do blog
  • quando acontecer algo no seu trabalho ou em exercícios que te faça aprender algo, conte para a gente
  • quando quiser compartilhar uma descoberta, um curso, um site, um livro, qualquer coisa que ache útil a quem gosta de jornalismo, mande

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h18

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O que acontece depois do treinamento

Hoje LUCAS FERRAZ, que fez a 44ª turma de treinamento, começa a trabalhar na Sucursal de Brasília. Para acompanhar a estréia, segue o relato de WILLIAN VIEIRA, que fez a 43ª turma.

É verdade que o que acontece com os trainees da Ana Estela depois do programa de treinamento é uma resposta que vale ouro no mercado dos focas. Porque não há regras. Descrevo, então, o que se passou comigo.

A última semana de treinamento é angustiante. Primeiro, porque você está imerso na reportagem final _e a que eu fiz com o Silas (Silas Marti, hoje na Ilustrada) nos tomou todo o tempo, incluindo uma viagem para o Paraguai e muita tensão com as fontes oficiais em São Paulo. Então você está em um pique acelerado, matando cachorro a grito e de repente não está fazendo nada. Segundo, porque as vagas temporárias vão surgindo, os trainees participam das bancas, mas ninguém sabe o que vai acontecer.

Eu decidi não esperar muito e fui logo fazer frilas nos suplementos. Fiz para Folhinha, para Empregos, para Negócios, para Veículos _foram dez dias entre o fim do treinamento e o dia em que a Ju (ah, boas lembranças) foi lá me oferecer uma vaguinha de um mês em Coti, para ajudar a repórter Cláudia Collucci em um caderno especial de saúde. Fiz esse trabalho por um dia _e só um dia_, porque logo o avião da TAM caiu em Congonhas e eu fui gentilmente requisitado a fazer tudo o que fosse preciso.

Comecei, naquela mesma noite, indo para o IML, esperar os parentes que chegavam chocados para ver os restos mortais dos entes queridos e que saíam ainda mais chocados, sendo então surpreendidos pelos jornalistas _que passávamos horas a fio, madrugada adentro, no frio e na chuva. Era julho. Assim foi meu primeiro dia em Coti. Seguiram outros tantos, amanhecendo nos aeroportos, passando dias inteiros fazendo personas e checando informações com a Infraero. Eu e a Joh (Johanna Nublat, hoje na sucursal de Brasília) conseguimos algumas materinhas legais, com chamadas e tal. E eu fui ficando (ela também). Acabou a crise e eu fiz matéria de polícia, incêndio em favela, buraco do metrô, roda de ônibus matando gente, coletiva, coletiva, coletiva.

E concluí que não adianta, gosto mesmo é de reportagem, de observação, de gente. Isso porque eu queria muito cobrir jornalismo internacional, queria ir para Mundo _mas lá seria redator por muito tempo, como bem a Ana havia me avisado. Caí por sorte no lugar certo para aprender a ser jornalista. E a recepção foi ótima. O Gentile é um editor que conversa com os focas e deixa claro o que quer de cada um; o Guto [Nota da Ana: Guto Gonçalves, pauteiro de Cotidiano] faz com que cada idéia de pauta sua renda um abre de página; e todo mundo em Coti ajuda com fontes, com o texto, com tudo.

Depois de uns três meses na pauta diária de Coti, o Gentile me ofereceu uma tarefa no mínimo diferente. Fazer os obituários, que há muito a Folha deixara de lado. Aceitei, fiz uma pesquisa, um piloto de uma semana, a Secretaria de Redação aprovou e eu comecei a fazer os obits _um por dia.

No começo fazia só isso, porque é complicado achar uma história interessante todos os dias e ainda deixar uma gaveta para o fim-de-semana e para as folgas. [Nota da Ana - Willian acaba de ser indicado ao Prêmio Folha por seu trabalho nos obituários]. Mas agora consigo respirar um pouco e já retomei as pautas do caderno. Em Coti há espaço para pautas interessantes, para olhares diferentes. E é nesse nicho que eu quero ficar. 

Há uma semana fui contratado e estou de fato em Coti. Estou aliviado, é verdade, depois dessa pequena epopéia. Mas não satisfeito. Tem muita coisa que posso e quero fazer na Folha. Isso é só o começo.

Leia entrevista com o Willian sobre os obituários

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h21

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ÚLTIMO EXERCÍCIO DO ANO

ÚLTIMO EXERCÍCIO DO ANO

Acorda aí, gente! Está todo mundo espichado na rede, tomando água de coco?

O exercício é fácil: sem sair da rede, mesmo, leia o jornal e me diga: que matérias, na sua opinião, ficariam melhor em áudio? Quais estariam melhor em vídeo? E quais em gráficos?

Para encurtar, falem-me só sobre aquelas que gritam e esperneiam pedindo algum desses outros recursos multimídia.

Moleza, né?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h20

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LIBERDADE EM BAIXA

Avisa meu trainee PH Rodrigues:

A BBC fez pesquisa mundial sobre liberdade de imprensa e mostra "o mundo dividido" em relação ao tema.

É interessante a posição do Brasil, à frente entre os Brics. No caso, Índia e Rússia; China nem conta, é claro.

Mas o país está atrás da Venezuela, por exemplo.

Segundo o gráfico, aqui as opiniões são fifty-fifty mesmo, com leve vantagem para "liberdade de imprensa é muito importante para assegurar uma sociedade justa". No Brasil, o "não soube responder" nem pontuou. Humm. Bom ou ruim? Não sei.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h14

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OFICINA DE CRÔNICA

OFICINA DE CRÔNICA

A FNPI abriu inscrições para uma oficina de crônicas, de 21 a 25 de janeiro, dado por Alma Guillermoprieto, jornalista premiada e escritora.

Os cursos da fundação são excelentes, com atividades práticas. Infelizmente, nesta oficina eles não conseguiram financiamento, por isso o preço é salgado: US$ 900. Mas quem puder ser bancado pelo jornal em que trabalha deve aproveitar a chance.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h25

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NO MEIO DA NOVELA DOS REFÉNS

NO MEIO DA NOVELA DOS REFÉNS

Meu colega FABIANO MAISONNAVE, correspondente da Folha em Caracas e um dos brasileiros que conhece muito bem América Latina, conta como está sendo esta cobertura do resgate dos reféns das Farc.

Novo em Folha - Fiquei intrigada de ver que você está em Caracas, e não em Villavicencio. Isso tem razões orçamentárias? Logísticas? De segurança? Ou jornalisticamente se justifica mais cobrir de Caracas que do meio da selva colombiana?

Fabiano Maisonnave - Fiquei em Caracas porque o governo venezuelano havia prometido nos levar até o local onde ocorreria a entrega dos reféns ou pelo menos o reencontro com os parentes. Ontem, chegamos a ir a ao aeroporto, mas o vôo foi cancelado. Acho arriscado ir a Villavicencio porque provavelmente será apenas o ponto de partida da missão de resgate, os reféns deverão ser levados diretamente da selva ao território venezuelano, onde seriam recebidos por Chávez. Mas Villavicencio é uma cidade de médio porte, a 100 km de Bogotá, ali não é uma região controlada pelas Farc.

NF - Como é cobrir esse evento de tão longe? Como você acompanha o que se passa lá na Colômbia?

FM - O evento vem tendo uma cobertura intensa dos meios colombianos e venezuelanos, o que é uma contradição dado o caráter sigiloso que uma operação desse tipo exige. Com isso, fica bastante fácil acompanhar qualquer novidade.

NF - Há fontes independentes nesse tipo de cobertura? Se há, quais são? Se não há, como é que você faz para equilibrar as versões e avaliar as informações que recebe?

FM - Não faltam bons analistas sobre o conflito colombiano e a diplomacia regional, os dois principais temas dessa novela toda. Mesmo que não cite diretamente nas reportagens, a leitura de artigos e de editoriais ajudam muito. Além disso, a missão envolve facilitadores e observadores internacionais, como a Cruz Vermelha Internacional e o governo brasileiro, representado pelo assessor internacional, Marco Aurélio Garcia. 

NF - Daí de Caracas você consegue falar por telefone com os observadores, com suas fontes da Cruz Vermelha ou Marco Aurélio Garcia?

FM - Sim, tem sido possível falar com todos por telefone.
 
NF - E como é ficar nessa espera de ser levado para o local do encontro? Está com as malas prontas? Passa o dia no aeroporto? Grudado no telefone?

FM - Estou com a mochila pronta com roupa para dois dias e a parafernália do computador. Ontem, o governo venezuelano convocou os jornalistas credenciados para o aeroporto, e todos esperamos uma nova chamada. O governo Chávez tem se esmerado para que a cobertura da imprensa internacional seja a mais ampla possível. Isso obviamente tem ajudado bastante o trabalho, mas também traz o desafio de mostrar aos leitores que inevitavelmente somos parte de um grande circo midiático.

Leia mais sobre o trabalho de correspondentes internacionais
Outras entrevistas com jornalistas sobre seu trabalho

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h29

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All the olds that´s fit to broadcast

Você está no carro com seu namorado e liga o rádio numa emissora de notícias.

Começa a ouvir uma entrevista com uma cantora, sobre um show que ela dará no final de semana.

Seu namorado quer trocar de rádio.

--Péra só um pouquinho, deixa em ouvir quando é o show.

Na entrevista: "Então o show é neste final de semana?" "É, sexta, sábado e domingo, no Ibirapuera".

--Tá, pode trocar.


Audiência de rádio, você já deve ter ouvido dizer, é rotativa. Ouvintes entram e saem a qualquer momento. É por isso que é importante repetir o nome do entrevistado algumas vezes durante a entrevista, para quem chegou agora, e dar informações completas antes que o ouvinte desligue.


A frase do título é uma paródia da que marcou o "New York Times": all the news that´s fit to print (todas as notícias que era adequado publicar).

Na nossa versão, trata-se de "todas as velharias que é adequado pôr no ar". Já explico por que logo abaixo.


Notícia, você sabe, é o que é novo.


Se tem uma coisa que eu acho irritante é rádio que coloca reprises de programas ou entrevistas nesse período de feriado. Honestamente, você quer saber o que tal colunista pensava em novembro? Eu, não.

Agora imagine uma rádio de notícias que coloca no ar uma reprise de entrevista. Uma entrevista que fala sobre um show que já aconteceu, mas que, para quem está ouvindo, será "no próximo final de semana, no Ibirapuera".

A locutora, no final, rindo, ainda avisou: "Essa é uma reprise! Não vá ao Ibirapuera não, em?".

Do que será que ela está rindo? Eu, que tenho um namorado impaciente, já tinha trocado de estação. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h30

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, por Cristina Moreno de Castro e pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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