Programa de Treinamento

Novo em Folha

 

COBRINDO DESASTRES

A AlertNet colocou no YouTube um vídeo para repórteres que vão cobrir guerras, desastres, tragédias humanitárias e outras misérias:

Post sobre coberturas em situação de risco
O direito de ter medo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h00

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EU TAMBÉM PREFIRO LANCHES MIRABEL


Saia do armário você também

Está terminando a 44ª turma do programa de treinamento.

Na segunda-feira a gente fecha o caderno especial, e começa uma nova vida pra eles. É hora de tirar as rodinhas da bicicleta e pedalar pra valer.

A edição do caderno, como qualquer edição, é meu momento predileto.

É irritante, também. Pequenas coisas vão dando errado, mas em-tão-grande-número-apesar-de-pequenas, que um trabalho que levaria duas horas toma 12.

Com todos os erros, é muito divertido. Emocionante, tenso e recompensador. Adoro ver as coisas virarem papel e tinta de verdade.

Sou exceção, acho. A função mais valorizada num jornal é a reportagem. Todos já ouvimos milhões de vezes que jornalista de verdade tem que gastar sola de sapato, jornalismo de verdade é na rua.

Não sei se sou de verdade.

Se tiver que fazer reportagem, faço, claro, e vou preferir fazê-la na rua. Mas eu gosto mesmo é do fechamento.

Como não estou mais no dia-a-dia da Redação, pedi a minha colega MARINA DELLA VALLE, uma redatora convicta, que escrevesse um pouco sobre essa função menosprezada. Leia aqui embaixo.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h40

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EU GOSTO É DE FECHAMENTO

Você não nasceu para a reportagem? Não tenha vergonha disso.

É verdade que há um rolo compressor que faz do repórter o sujeito mais visível do processo --e o mais citado nos clichês da profissão--, mas jornalismo vai muito além da rua e há outras funções igualmente ricas, igualmente decisivas para a qualidade de um jornal.

Minha colega MARINA DELLA VALLE conta aqui por que gosta de ser redatora. Se você também gosta de redação, crie coragem e saia do armário. Eu também me assumi, no post ali de cima. Não há nada de errado em não ter nascido repórter. Pode levantar a cabeça e partir feliz para seus títulos, cortes, fusões, artes, legendas e tudo o mais.

Com a palavra, Marina:

Por ser menos visível que o trabalho de reportagem, a função de redator acaba um tanto ofuscada dentro das Redações. Nem sempre seus acertos são lembrados, mas seus enganos costumam vir marcados com caneta vermelha no jornal de erros todo dia. Poucos jornalistas começam buscando uma carreira na área. É uma pena: além de ser peça importante no fechamento do jornal, o redator pode encontrar muito prazer e satisfação no que faz.

É um cargo que exige bastante do jornalista. Conhecer bem o Manual de Redação e as regras do português é só o ponto de partida. Rapidez é muito importante: os fechamentos têm horários rígidos que precisam ser cumpridos, e reportagens que chegam no último minuto e mudanças de última hora são coisas corriqueiras na rotina de um jornal.

O redator também precisa ter gosto pela minúcia e intimidade com a área em que atua. É ele quem prepara todo o material de apoio, muitas vezes ainda sem a reportagem principal. Algumas pesquisas, aliás, são tão ou mais trabalhosas que uma reportagem. É preciso cultivar boas fontes que possam ajudar em uma hora de aperto e saber onde buscar informações corretas rapidamente.

Outro requisito são boas noções de edição, pois cabe ao redator elaborar títulos, legendas, olhos etc.

Esses elementos precisam estar em harmonia com o resto da página, e ele deve trabalhar em sintonia com os colegas. Assim como o repórter, o redator precisa de bom-senso e uma dose maciça de ceticismo. Entre suas tarefas estão certificar-se de que todas as informações necessárias em uma reportagem estão lá, checar dados e grafias e evitar imprecisões, juízo de valor e possíveis erros. Por isso tudo, é bom ter à mão livros de referência e uma lista de sites de órgãos oficiais e bancos de dados on-line relacionados com a área em que atua, além de uma boa gramática e dicionários (incluindo os de regência nominal e verbal).

Eu aceitei meu primeiro emprego como redatora depois de alguns anos na reportagem. A experiência, além de abrir meu leque de opções profissionais, me tornou uma repórter melhor. Atualmente, depois de alguns anos só no fechamento, trabalho com as duas coisas. E evito, sempre que possível, editar minhas próprias reportagens. Afinal, sei bem a diferença que um par de olhos a mais sobre um texto faz. 

Post mais recente sobre o trabalho dos redatores

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h38

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Sem favores

Na semana passada o Gabriel trouxe para o blog um caso fictício da entrevistadora que, para obter um favor pessoal, deixa de fazer perguntas complicadas para um senador.

Ele queria saber se essas trocas de favores existem também no mundo real.

Trabalho em jornal diário há 20 anos e já ouvi falar de alguns casos, mas nunca presenciei nenhum. E é meio estranho escrever algo que não se pode provar.

Se fosse para dar um palpite, diria que essa troca de favores não é comum, mas acontece --no jornalismo como em qualquer atividade humana.

Por mais óbvio que seja, preciso dizer que minha orientação é não fazer isso. A relação com a fonte tem que ser profissional. Não pode entrar nesse nível subterrâneo, porque aí as águas ficam turvas e é muito mais difícil definir o que é só um favorzinho do que é erro jornalístico grave.

A Carol, de São Paulo, havia escrito no comentário que, com a entrevistadora era assumidamente republicana e o senador também, só isso bastaria para a falta de perguntas inconvenientes. Não é bem assim. Talvez seja até o oposto.

Já vimos aqui que jornalistas têm inevitavelmente opiniões e preferências. Elas podem ser reservadas ou públicas. Em ambos os casos, temos que fazer um exercício constante de isenção. Mas, quando revelamos nossa posição, o cuidado pode ser ainda maior.

Juca Kfouri, por exemplo, é corintiano declarado. Poucos fazem críticas tão bem fundamentadas ao Corinthians como ele.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h15

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CURSO DE EDIÇÃO

Matinas Suzuki Jr., que já foi editor-executivo da Folha e é um dos mais experientes editores do Brasil, dá um curso de edição na Casa do Saber.

Será segundas, terças e quartas-feiras, de 10/12 a 19/12, às 20h.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h04

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ATÉ ONDE APERTAR A FONTE

Num caminho paralelo ao da questão aí de baixo, é muito interessante o caso levantado hoje pelo site do Poynter.

Uma repórter de TV foi suspensa porque julgou-se que foi agressiva demais numa entrevista com um homem de 70 anos que matou duas pessoas que tentaram entrar em sua casa.

A coluna do Poynter traz pontos de vista interessantes sobre até onde se pode ou se deve apertar um entrevistado e sobre as diferenças entre uma entrevista para impresso e para TV (e rádio).

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h33

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A ENTREVISTA NÃO RENDEU MUITO

A ENTREVISTA NÃO RENDEU MUITO

Vários de nós já passamos por isso um dia: fizemos uma entrevista empacada, que não rendia. O entrevistado era monossilábico. Não sobrava quase nada publicável.

Sim, há entrevistados melhores e piores, mas muitas vezes a "culpa" de uma entrevista que não rende é nossa.

Outro dia uma trainee minha fazia uma reportagem com crianças que já haviam se perdido dos pais.

Ela estava superfrustrada, porque os guris que entrevistava iam pouco além do "sim" e do não".

Minha dúvida foi: o que, exatamente, ela estava perguntado aos meninos?

Ela deu um exemplo: "Você ficou com medo?".

Claro, se vamos fazer uma matéria para a Folhinha com crianças perdidas, uma coisa que temos que perguntar para os minientrevistados é o que sentiram.

Mas há um problema no tipo de pergunta que ela estava fazendo. O que vocês acham? O que poderia estar saindo errado? Como fazer a criança falar mais que sim e não?

[Para avisar aos novos leitores e relembrar os antigos - os exercícios do blog não têm "certo" e "errado". Ninguém deve ter medo de dar sua opinião. O objetivo é trocar idéias e refletir. Veja aqui outros exercícios já feitos.]

Meu comentário

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h09

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Destino fatal

Por falar em guerra e correspondentes, meu colega DIOGO BERCITO sugere um filme:

Queria sugerir um filme sobre jornalistas. É o recente "O Preço da Coragem" (A Mighty Heart).
 
É a história verídica do assassinato do jornalista Daniel Pearl (do Wall Street Journal) - alguns se lembram do nome porque na época receberam por e-mail o vídeo dele sendo decapitado.
 
Daniel Pearl (interpretado por Dan Futterman) está no Paquistão investigando os ataques de 11 de setembro quando é seqüestrado, e esse é o início do filme. Em seguida, assistimos aos esforços da sua mulher, Mariane Pearl (Angelina Jolie), em encontrá-lo, contando com a ajuda das autoridades locais e também as norte-americanas. Como já sabemos, todos eles falham.
 
Fiquei o filme inteiro com o coração na mão, pensando que é preciso de muito amor à profissão mesmo para fazer o que o casal Pearl fez - ficar no Oriente Médio depois que todos os demais jornalistas já tinham voltado aos seus países. O risco não é imaginário, e isso fica bem claro em "O Preço da Coragem".

Por falar nisso, estamos fazendo uma lista de filmes que tratam de jornalistas. Você não tem algum para indicar?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h57

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SONHO POSSÍVEL

Esse cara aí de cima é um brasileiro. Tem 33 anos. Aos 13, assistiu a um filme que o impressionou.

Era "Os Gritos do Silêncio" e, naquela noite, descobriu o que queria ser quando crescesse: jornalista internacional.

O caminho não foi direto, nem fácil. Por causa da família, entrou na faculdade de engenharia. Quando criou coragem para estudar jornalismo, virou assessor de imprensa.

O sonho de garoto parecia bem, bem longe. Até a guerra entre Hezbollah e Israel, que fez o sujeito tomar uma decisão.

Foi sem emprego, com pouco dinheiro, mas com esperança. Passou três meses sem ganhar praticamente nada, vendo o dia em que teria que voltar ao Brasil derrotado.

Não voltou, nem fracassou, e os motivos que levaram seu projeto a dar certo ficam muito claros na entrevista que fiz com ele (e publico no site do treinamento, porque, vocês sabem, meu leitor mais crítico detesta posts muito longos).

É uma entrevista muito legal (por mérito do entrevistado, não meu). Daquelas de acordar os desanimados e reassegurar os determinados. Sério, vale a pena ler.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h38

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Repórteres do futuro

Repórteres do futuro

Neste sábado em São Paulo a Oboré vai apresentar seu programa para o ano que vem.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h55

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SIM, EU TENHO PREFERÊNCIAS

Dois posts abaixo, falando sobre o trabalho de correspondente em Beirute, fiz esta ponderação:

"E, aplicando a nós as reflexões colocadas neste mesmo post, alguém que trabalha num lugar tão conflituoso como o Líbano tem necessariamente simpatias, afinidades, preferências?"

Tariq, jornalista no Líbano de quem tratava tal post, e que vou entrevistar para nosso blog ainda esta semana, respondeu:

Tem, e sempre terá.

Todo o repórter tem conceitos, idéias e concepções (a chamada bagagem cultural). Não há mal nisso, se o jornalista tem a capacidade de rever tudo isto conforme vai aprendendo e abrindo seu mundo, sua visão.

Quando cheguei no Líbano, eu tinha pré conceitos sobre o Hezbollah. Há muitos jornalistas que gostam ou odeiam o Hezbollah. E há o terceiro grupo, que preferem ver os bons e maus pontos em qualquer coisa. Decidi pertencer a este terceiro.

As pessoas presumiram aqui no Líbano que, por eu ter origem árabe e minha família ser muçulmana sunita, eu teria uma afinidade com movimentos pan-árabes, religiosos, etc... mas eles não sabiam que abdiquei de qualquer religião e não tenho afinidades políticas com movimentos árabes.

Isso não quer dizer que não tenha simpatias por causas que eu julgo justas. Mas meu julgamento não é baseado em herança étnica, política ou religiosa.

Lembro que certa vez no sul do Líbano, ao entrevistar uma família xiita sobre a guerra de 2006, uma senhora me perguntou se eu gostava do Hassan Nasrallah (líder do Hezbollah).

Foi meu primeiro teste de fogo no país, sobre como colocar minha posição enquanto jornalista.

Eu rebati a pergunta querendo saber se ela gostaria que eu mentisse para agradá-la ou se queria que eu falasse a verdade. Ela pediu que eu falasse a verdade. Eu, então, expliquei que, embora eu simpatizasse com algumas idéias do Nasrallah, eu não concordava com muitos de seus pontos e o perigoso jogo que o Hezbollah jogava no Líbano. O que ganhei com isso? Sua simpatia e confiança. Às vezes, vale mais a pena ser franco.

No dia-a-dia, me encontro em várias situações em que sou perguntado sobre minhas opiniões sobre com diversos assuntos. E leva tempo até explicar que podemos simpatizar com certos pontos e discordar de outros, mas apoiar cegamente qualquer movimento ou idéia é, na minha opinião, impensável e fatal para um jornalista.

Acho que todos nós temos uma certa inocência, e parte dela se perde com a experiência jornalística, e isso é perfeitamente necessário. Mas a outra parte deve ser preservada, aquela que nos mantém apaixonados por um ideal, aquela que não pode ser  perfurada por pessoas mal-intencionadas.

E na hora de escrever (ou fotografar) o melhor é não ter preconceitos.

O melhor repórter, acho eu, é aquele que tem a capacidade de implodir sua própria idéia pré-concebida, rever seus conceitos e reformulá-los. Alguns podem dizer que isso é falta de convicção, mas nossa função também é aprender e entender o que se passa.

Confesso que isso é uma tarefa árdua e diária, eu mesmo me esforço para tentar sempre manter isso em mente. Não é fácil derrubar os próprios muros que nos protegem, mas, quando conseguimos fazê-lo, o melhor repórter surge disso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h18

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Com a palavra, um entrevistado:

"Tive algumas experiências como entrevistado e o que posso dizer é que em todas as vezes (foram nove até hoje) o que saiu publicado não tinha nada a ver com o que eu tinha dito.

Conversando com amigos e colegas que passaram por isso, praticamente todos tiveram a mesma experiência e não falam com jornalista a não ser que não lhes reste alternativa.

Por que existe essa diferença entre o que foi dito e o que foi publicado?

Vocês jornalistas não se importam em perder credibilidade desse jeito?

Eu sei que isso é uma generalização grosseira, mas já ouvi histórias suficintes para concluir que é uma impressão bastante difundida.

Acho que a reputação dos jornalistas chega a ser pior até do que as dos advogados (minha tribo, por sinal, e injustamente mal falada...;-)

Ajude-me a compreender esse mistério, Ana, por favor."

Como eu escrevi outro dia, esse é um dos motivos pelos quais algumas fontes não querem falar conosco, ou pedem pra ler o texto antes, como condição para falar.

Como explicar o que meu leitor Zé, dos EUA, chama de "mistério"? Algumas pistas:

  • nós, jornalistas, podemos errar porque não estudamos suficientemente o assunto que vamos cobrir e, assim, não entendemos o que a fonte diz (achamos que entendemos, mas, por ignorância, não conseguimos perceber que entendemos errado). Um jeito de evitar isso quando estamos inseguros, como sugere a Natalie, é ir repetindo para o entrevistado os trechos mais complexos ("ah, quer dizer que é assim, assim e assim?")
  • podemos errar porque não anotamos direito e nos confundimos na hora de transcrever as anotações
  • podemos errar porque chutamos em vez de checar. Se há um verbo que deveria ser proibido na hora de escrever o texto é "achar". Jornalista só pode achar na pauta. Na hora de escrever, ele tem saber. Não tem certeza? Vá checar!
  • podemos errar porque tiramos declarações de contexto. No meio da entrevista a fonte diz algo que parece forte e, por instinto, que nos leva a ressaltar o que tem mais impacto, o repórter dá peso máximo para aquilo. Mas, para o entrevistado, a declaração não tinha o peso dado na edição e seu raciocínio parece distorcido.
  • erramos também quando não explicamos direito para a fonte qual é o objetivo da entrevista. Se estamos ouvindo um monte de gente, seria bom deixar isso claro para nossa fonte, ou ela ficará esperando encontrar um longo pingue-pongue no dia seguinte. Uma das maiores frustrações de um entrevistado é olhar o jornal no dia seguinte e ver seu pensamento reduzido a uma frase, às vezes nem isso. Quantos de nós já não ouviram essa reclamação: "Fiquei duas horas falando com o repórter e não saiu quase nada"?
  • jornalistas podem errar porque escondem a pauta do entrevistado. Fingem que estão fazendo matéria sobre um assunto quando, na verdade, querem obter uma declaração para usar em favor de uma tese prévia.

São algumas causas nas quais consigo pensar agora. Deve haver outras.

  • um leitor me lembrou de outra: o repórter faz o texto corretamente, mas, na edição, são cortados trechos importantes ou introduzidos erros.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h08

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Jornalistas também mentem

Meu colega Tariq Saleh, correspondente brasileiro no Líbano e colaborador eventual da Folha, manda um exemplo de como nada é simples em jornalismo, principalmente nas coberturas que envolvem política.

Ou, para ser mais exata, nas que envolvem conflito. Quanto maior for o conflito, mais cuidado é preciso ter.

E nós, jornalistas, precisamos ter esse cuidado não só na hora de entrevistar, mas na hora da pesquisa, quando estamos nos informando para entender melhor o assunto.

No caso que Tariq manda, Thomas B. Edsall, editor de política do jornal americano "Huffington Post" e professor da Universidade Columbia, aponta "inverdades" na cobertura do Líbano feita pelo correspondente de uma revista conservadora, a "National Review".

Alguns pontos ressaltados por Tariq:

- o repórter que está sendo contestado cita como fontes confiáveis membros da revolução dos cedros, o movimento pró-governo. "Ou seja,
ele é ou ingênuo, ou burro para acreditar neles. No Líbano, como em qualquer parte do mundo, há muitos mentirosos, os alarmistas de plantão. Se ele fosse um repórter, ele presumiria que suas fontes sempre terão o interesse de pautar o repórter. Não seria essa uma conclusão óbvia?".

- o repórter diz que teve acesso a áreas protegidas pelo hezbollah (carregando uma arma) e pegou uma bandeira do hezbollah em um complexo fortemente protegido. "Ele precisa ensinar estas técnicas ninjas para nós, o cara é bom, muito bom. Eu, que já estive em lugares no sul do país e de Beirute, levado pelo próprio Hezbollah (uma relação que se adquire com paciência e confiança), só pude ficar perplexo com tanta facilidade de acesso. No sul, qualquer estrangeiro é vigiado, eles sabem quem entra e quem sai (e para isso, eles não precisam de milicianos, os próprios moradores informam)."

- o repórter diz que, no final de setembro, entre 4 mil e 5 mil milicianos foram posicionados em bairros cristãos de Beirute. "É onde eu moro. Uma
manobra que, dentro do trânsito caótico da cidade, não passaria desapercebida. Mas parece que só ele viu isso, todo o resto da imprensa
internacional não viu esta história. Talvez, por ser um marine, ele tenha habilidades especiais."

- "Mas o cara, com seu artigo, não só comprometeu o trabalho dos profissionais estrangeiros (como ao dizer que carregava uma arma), ele nos expôs, repórteres, a suspeitas por parte do Hezbollah, em um país em que sabe-se que há muitos espiões e há muito cuidado com estrangeiros.
O cidadão é a prova máxima da paranóia norte-americana com 'terrorismo'."

E, aplicando a nós as reflexões colocadas neste mesmo post, alguém que trabalha num lugar tão conflituoso como o Líbano tem necessariamente simpatias, afinidades, preferências?

É uma boa oportunidade para entrevistar o próprio Tariq, que, aliás, tem uma história que com certeza vai interessar aos muitos jornalistas que sonham um dia ser correspondente internacional (leia aqui a entrevista). [Neste outro post, Tariq fala sobre como afinidades pessoais afetam sua cobertura]

OUTROS POSTS SOBRE CORRESPONDENTES
 
Sérgio Dávila, o único repórter brasileiro em Bagdá
 
Igor Gielow, enviado especial à guerra no Afeganistão
 
 
Vinícius Queiroz Galvão fala sobre experiência em Nova York
 
Bruno Lima, de Buenos Aires
 
Marco Aurélio Canônico, em Londres
 
Raul Justes e o olhar do correspondente
 
Joel Silveira, correspondente de guerra
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h48

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DESENHO GRÁFICO TAMBÉM É INFORMAÇÃO

E por falar em Corinthians, é muito boa a capa de hoje do "Lance", que me mostra meu trainee RICARDO VIEL.

Dá de cara a notícia, que inclui o grito apaixonado da torcida (não sou corintiana, mas achei o canto lindo de morrer).

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h16

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Quase toda notícia é relativa

Hoje é um ótimo dia pra usar como exemplo de que quase nenhuma notícia tem valor absoluto: depende muito das outras opções daquele dia.

O Palmeiras fracassar de forma lamentável, como fracassou, seria notícia num dia normal.

Mas ninguém vai falar disso hoje, claro, porque o rebaixamento do Corinthians é arrasadoramente mais notícia, sob quase todos os critérios que se tomar (com a exceção, talvez, do efeito surpresa).

Juca já tinha falado disso no seu blog no sábado, mas, leite derramado, fica aqui só pra registrar.

 Outro post em que comparamos dois jogos, um do São Paulo e outro do Corinthians, e discutimos como avaliar a notícia em cada um

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h38

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Tá lá o corpo estendido no chão

O texto abaixo foi escrito por minha trainee TANIELE RUI, após uma frustrante experiência de reportagem em que foi chamada de "elite branca exploradora dos pobres".

Ele faz reflexões que com certeza já devem ter ocorrido a qualquer jornalista que tentou retratar a miséria humana de cada dia.

Às 16h de domingo, saí da feira de artesanato da praça da República e seguia em direção ao Viaduto do Chá. Já ao lado do teatro municipal, vi centenas de pessoas num movimento sincronizado: todas corriam em direção ao lado esquerdo do viaduto e olhavam para baixo. Um homem acabava de se jogar.

Assim que atravessei a rua Xavier de Toledo, no sinal verde que no meio do caminho ficou vermelho, também eu fiz o mesmo movimento.
Do alto, o que se via era um corpo estirado no chão, sangrando. Os bombeiros foram rápidos e cuidaram de cobrir o corpo, com um tecido cinza que logo ficou vermelho. Do homem, só soube que se chamava José Juvêncio e que tinha 58 anos -- nome e idade retirados do RG; as únicas informações possíveis de se ter daquele homem que ninguém conhecia e que me foram fornecidas pelo polícia.

Iniciei a conversa com uma mulher que vendia sorvetes a 50 centavos. Assim que ela me viu com um bloquinho na mão começou a gritar: "eu tenho nojo da elite branca que estuda tanto e não resolve nada. Vocês não falam que está faltando emprego, não aparecem quando o 'RAPA' vem aqui tirar as nossas coisas. Eu tenho nojo de você". E seguiu embora com toda a sua justa raiva.

Ao lado, dois jogadores de búzios, que preferiram não se identificar para "ninguém vir atrás de nós", vieram falar comigo. Disseram para eu não ficar com raiva da mulher e que era para eu tentar entender como é dura a vida de pobre. Começaram então a tecer hipóteses sobre a vida "que é uma desgraça só", mas que para morrer "tem que ter muita coragem".

Não demorou para eu saber que sábado, no mesmo horário, mas do outro lado do viaduto, um moço de 24 anos se jogou. Tinha pulado de pé e, por isso, escapou da morte. Já José ainda teve tempo de gritar "eu não aguento mais" e se jogou, mergulhando no ar.

Quem me contou isso foi um menino de rua, que estava parado de frente ao corpo e me mostrava o movimento com as mãos. Outros sete meninos de rua se aproximaram e ficaram todos sentados, esperando alguém chegar para remover o corpo. Enquanto esperavam, dividiam três pacotes de cola.

Funcionários da "Entre Produções", que montavam o palco debaixo do viaduto para as festividades do Natal, continuavam a execução do oficio. Só fizeram o esforço de aproximar um carro para saberem o resultado do jogo do Corinthians.

Escrevo este texto às 19:15h, três horas e quinze minutos depois que José Juvêncio se jogou porque não aguentava mais. Da janela do meu quarto de hotel, ainda vejo o corpo estendido num tecido cinza cada vez mais vermelho. Deve estar ardendo de sol e de invisibilidade.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h35

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TV PÚBLICA

TV PÚBLICA

Dica da Natalie, de SP: amanhã, a partir das 19h, acontece o Café Intercom na Fnac Pinheiros, pra discutir TV pública. O Café Intercom é mensal, organizado pela Intercom e pela Fnac. É de graça. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h31

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NÓS NA FITA

Há alguns meses, os leitores do blog fizeram uma lista de livros que vale a pena ler.

A Ivy sugere que a gente monte agora uma lista de filmes em que jornalistas sejam retratados, com nossos comentários a respeito.

Mandem então suas sugestões até esta sexta, que eu organizo e publico até segunda que vem.

Para começar, a Ivy recomenda estes:

1) íntimo e Pessoal. A história é de amor entre dois jornalistas. Se não se prender ao love todo, dá para pegar boas informações; A principal é contar a história. Parece simples, mas a gente tem muitas vezes se esquece deste básico no dia a dia.
 
2) Nunca fui beijada. É um filme adolescente, mas mostra quanto um repórter pode (e não deve) se envolver numa pauta e com suas fontes. 
 
3) O Diabo Veste Prada. Este tem tantas coisas sobre o mundo da moda que pode se aplicar perfeitamente ao mundo do esporte, da política. É sobre o ego de nós jornalistas e como a gente pasta no começo(ou no meio e no fim) e das escolhas que temos que fazer pelo sucesso.

Alguns que já comentamos aqui no blog:

Ausência de Malícia

Zodíaco

Ressurrecting the Champ e Meu Adorável Vagabundo

Scoop

A Montanha dos Sete Abutres

Profissão: Repórter

O Jornal 

Leões e Cordeiros

O Preço da Coragem

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h47

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Jornalismo cultural

Jornalismo cultural

O Itaú Cultural faz um seminário gratuito sobre jornalismo cultural em São Paulo, dias 6 e 7 de dezembro.

Os ingressos são retirados meia hora antes do evento, e há 80 lugares.

Para ver a programação é preciso entrar na programação de dezembro do site do Itaú Cultural, clicar no dia 6, achar o seminário e clicar em leia mais.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h23

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, por Cristina Moreno de Castro e pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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