Infelizmente, a esta altura da vida, já tenho uma lista considerável de mortos para lembrar.
Por isso, dou um descanso para vocês neste feriado. Volto a publicar na segunda.
Quem estiver sem programa, aproveite para resolver o exercício de hierarquia e texto. Vou liberando os comentários na medida do possível.
Inté.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h24
É um post "off topic", só para divertir um pouco

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h56
Quando a gente começa na reportagem, é comum ter dúvidas sobre como achar os entrevistados.
Antes de chegar para o seu editor e dizer "Não estou conseguindo", veja a dica do meu colega JAIRO MARQUES, pauteiro da Agência Folha:
Ontem, uma repórter veio me dizer que "não estava conseguindo" falar com a Universidade Federal de Rondônia.
Evidentemente que sei o quanto é dificíl falar naquele fim de mundo. Nessas horas, lembrem-se de que não existe só o caminho reto. Vão atrás das curvas.
Uma universidade tem diversos telefones e instituições relacionadas, não apenas o da reitoria, concorda?
É só um exemplo, claro, mas bem ilustrativo. Entendo que repórteres novos queiram se precaver para cobranças, mas é sempre melhor o "continuo tentando conseguir" tal informação.
MAS CONTINUO TENTANDO
Portanto, quando não conseguir achar um telefone, pare um pouco para pensar quais seriam os caminhos laterais para chegar até ele. Alguns exemplos:
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veja se acha alguma reportagem em que apareça o nome do cônjuge, de filhos ou pais, e procure o telefone desses parentes na lista
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será que algum amigo seu não tem um amigo que trabalha naquele órgão e pode ajudá-lo no contato?
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tente por aproximação. Uma vez eu precisava achar a delegada que investigava determinado crime em Campinas, por telefone. Fui ligando de delegacia em delegacia, até que, na terceira, alguém me disse: "Ah, este caso está com Fulana, na delegacia tal. O número é esse"
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algum colega mais experiente cobre ou cobria essa área? Cheque com ele, é bem possível que ele tenha o telefone. Se não tiver, ele pode te ajudar com bons caminhos para conseguir
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quando finalmente achar sua fonte, não se esqueça: peça todos os telefones dela (da casa, celular etc.). Perguntar não é vergonha. O máximo que pode acontecer é ela dizer não. Claro, explique com jeito que você só ligaria nos números particulares em caso de emergência etc.
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aproveite e deixe seu telefone com ela: "Ah, não quer ficar com meu contato também? Se souber de alguma notícia interessante, me ligue, por favor". E dê seu celular também, não só por uma questão de coerência, mas porque notícia não marca hora pra acontecer
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Se apesar de tudo você continua "não conseguindo", não tenha medo de avisar seu editor. Ele pode até ficar chateado, mas garanto que será muito pior se ele descobrir na hora do fechamento que falta uma informação fundamental com a qual ele contava.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h32
 O espírito zen
A Clara havia perguntado outro dia aqui no blog qual é o limite da tietagem: se você é fã da pessoa que vai entrevistar, até onde pode ir? Pode pedir autógrafo? Tirar foto? Declarar sua admiração?
Esquecendo que a gente é de carne e osso, tem preferências e emoções, diria o seguinte: o repórter deve fazer um exercício permanente de distanciamento.
Adora tal personagem da notícia? Deve fazer um exercício interno de enxergá-lo como alguém desconhecido.
Odeia seu entrevistado? A disciplina interna deve ser inversa: tentar enxergar seus pontos positivos.
É um pouco o que levou a nossa conversa sobre a cobertura do padre Júlio, há alguns dias.
O que nos incomoda nela é que a figura em questão é alguém que efetivamente trabalha há décadas em favor dos doentes de Aids e da população de rua. Por isso é tão difícil tratar com isenção as suspeitas de que ele esteve envolvido em situações não muito regulares.
Essa é uma das durezas, mesmo, do jornalismo. Para tratar a notícia com justiça, é preciso desapegar-se das simpatias e antipatias. É preciso tratar o padre Júlio como trataríamos um político calhorda e tratar o calhorda como trataríamos o padre Júlio: com equilíbrio, independência, precisão e rigor.
É por isso que há editores de política que sempre anulam o voto e repórteres de cultura que se recusam a cobrir bandas que admiram. Para evitar tais conflitos.
Voltando a me lembrar agora de que o zen budismo e qualquer outra disciplina intelectual ou espiritual é um longo e espinhoso caminho, e, afinal, somos passionais, eu diria para a Clara: não é bom mostrar para o entrevistado seu grau de envolvimento com ele. Isso pode fazer com que ele tenha dúvidas sobre sua atitude profissional. Mas, se for realmente alguém muito importante para você, peça para o fotógrafo do jornal tirar uma foto em que vocês dois apareçam juntos, e guarde-a com carinho.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h19
HIERARQUIA
Um trainee está fazendo exercícios de apuração na Folha Online e acaba de me mandar este texto.
O que vocês acham da hierarquia? Mudariam algo? Se mudariam, tentem reescrever o lide. Como vocês fariam os dois primeiros parágrafos?
A operação policial de hoje, na favela da Rocinha, zona sul do Rio, termina com a apreensão de três motos roubadas, 900 gramas de maconha, farto material para embalar drogas, um cabo de espingarda, um uniforme do Exército, uma coronha calibre 12, entre outros.
Policiais militares do 23º Batalhão (Leblon) e policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) participaram da operação. A ocorrência foi registrada na 15ª delegacia de polícia, no bairro da Gávea.
Durante a operação, uma bala perdida feriu Adriano de Campos Chagas, 29, atingido na coxa esquerda. Ele foi encaminhado ao hospital Miguel Couto para cirurgia e não corre risco de morte.
Segundo a Secretaria Municipal de Educação, a operação impediu que professores e 2.400 alunos chegassem às escolas Paulo Brito, Abelardo Chacrinha Barbosa e o Ciep (Centro Integrado de Educação Pública) Bento Rubião. No turno da tarde, as aulas também foram suspensas.
Outra operação de hoje, na favela do Fumacê, em Realengo (zona oeste), resultou na morte de três supostos criminosos Drae (Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos).
Ainda hoje, um patrulhamento de policiais militares do 3º Batalhão (Méier) apreendeu 15 tabletes de maconha, de dois quilos cada, e 1.250 papelotes de cocaína. A ocorrência foi registrada na 25ª delegacia de polícia.
Só pra lembrar, não tenha medo de dar uma opinião. Os exercícios do blog só querem estimular a reflexão. Ninguém está certo ou errado, o que vale são os argumentos, a possibilidade de pensar sobre notícia e como tratamos os fatos.
Meus comentários
Veja outros exercícios do blog
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h51
Dica do meu trainee PH RODRIGUES:
Ana, o jornal O Povo, de Fortaleza, começou hoje a publicar uma série de cadernos sobre a desertificação do Nordeste. É bem legal e bonito. No site, www.opovo.com.br, dá pra ver as páginas.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h41
Dica do meu amigo Marcelo Soares:
O Chris Anderson, editor da Wired (e autor do ótimo livro "A Cauda Longa") publicou no seu blog uma lista imensa de emails de assessorias de imprensa que entopem a caixa postal dele com spam.
Os comentários estão pegando fogo. Muito interessantes. Especialmente os dos incluídos na lista dele...
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h50

“Vestido para o Halloween? Não, para limpar a Times Square”
É o título de uma reportagem do "New York Times" que minha leitora Clara manda, como sugestão para a campanha de mais humor no jornalismo.
Diz a Clara: "Há jogo de sentidos interessante: um grupo de ativistas inusitado, em plena época de fantasia, na cidade mais americana do país do Halloween. Um misto de matéria divertida (porque causa estranheza), mas com uma temática no fim das contas bem séria: talvez seja esta uma das propostas de um jornalismo com “humor”, que trata de assuntos “sérios” de forma mais leve e consequentemente mais atraente".
Nossa colaboradora fez um resumo da reportagem, que pode ser lida na íntegra aqui.
“Vestido para o Halloween? Não, para limpar a Times Square” é o título da reportagem que fala sobre ativistas americanos que se conheceram através do MySpace e fundaram o “Superheroes Anonymous” (Super-heróis anônimos).
Eles se autodenominam os super-heróis da vida real e saem pelas ruas (principalmente de Nova York) praticando boas ações.
Os integrantes, literalmente, se vestem como heróis (e parecem estar prontos para o Halloween, embora não chamem o que vestem de fantasia, mas de uniforme):
Vestem capas, misturam roupas extravagantes, além de usarem máscara para preservar suas identidades (também não revelam os nomes reais, eles têm apelidos como Street Hero, Red Justioce, Cleanser, Direction Man). [na foto acima estão, da esq. para a dir., The Super, Street Hero e Cleanser].
O que fazem: cada um tem sua forma de ajudar o próximo.
Uma das “heroínas” é ex-prostituta e anda pelas ruas ajudando da forma que pode prostitutas. Um deles (o Direction Man) guarda mapas no seu colete laranja para ajudar turistas e moradores perdidos. A “Cleanser” cata papéis pelas ruas, vestida a caráter. O “Red Justice” canta em metrôs para encorajar jovens a cederem seus assentos para os mais necessitados.
O líder do grupo é cineasta amador, estuda em Columbia e está produzindo um documentário com os “super-heróis”. Ele disse que luta contra o pior dos crimes: a apatia.
Já outro deles, o The Super, disse que resolveu mudar de atitude quando quase perdeu um amigo que caiu de um andaime: “Eu falei para mim mesmo: se eu tiver que esperar pelo prefeito da cidade para consertar tudo o que há de errado e perigoso na cidade, isso nunca vai acabar”.
O The Super falou que é muito zombado, além de já ter sido alvo de ovos, pedras e até mesmo de um pedaço de carne congelada.
E termina a matéria dizendo: “Não tenho muitos amigos. Muitos super-heróis estão tropeçando pelo caminho. E parte disto faz você definitivamente se sentir isolado, porque ninguém te compreende".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h59
(*)
Julio, de Santos, me avisa sobre esta notinha no caderno Informática de hoje: de 5/11 a 7/11 a BBC põe no ar, pela internet, uma série sobre os desafios do jornal impresso chamada "Can Newspapers Survive?". Sempre às 9h. [quem tem acesso à FSP pode ler a programação sugerida pelo caderno aqui.]
NO QUE DEPENDER DE MIM... (CONFISSÕES DE UM PECADOR)
Aproveitando a deixa, vou falar de uma conversa americana que me foi mostrada por minha amiga, a nota 10 RENATA LO PRETE.
Um dos professores do Poynter, Roy Peter Clark, escreveu uma coluna pedindo perdão a seus colegas por não ter lido jornais impressos como devia no passado recente.
Clark é um sujeito de respeito. Mas a coluna acabou ficando piegas. Abria com santo Agostinho e desfiava pedidos de perdão, em tom de pecador que se confessa arrependido e promete se esforçar ao máximo para não cair de novo em tentação [para ler, clique aqui].
Dan Kennedy, do Guardian, escreveu em resposta, contestando a tese de Clark de que nós, jornalistas, teríamos uma espécie de dívida moral para com os jornalistas que trabalham tão duro nos impressos para nos trazer todos os dias reportagens que não lemos.
E nos remete para o melhor da polêmica, um post muito divertido do chefe de fechamento do Baltimore Sun, John MacIntyre, cuja íntegra está aqui, mas do qual destaco este trecho, em tradução livre:
Sim, a gente de vez em quando publica histórias muito bem contadas sobre algo relevante. Mas, para sermos francos, o mais comum é darmos textos de umas 3.000 palavras que o leitor abandonará na 150ª. Ou fazemos textos de 300 palavras, tão sucintos que praticamente não servem para nada. Está difícil achar o equilíbrio.
Publicamos um despacho de agência internacional que abre com uma explosão em Bagdá, continua com dois soldados americanos mortos em Anbar, emenda um conflito em Kirkuk, volta para o carro-bomba em Bagdá, pula para aspas de um general qualquer e então termina, sem mais nem menos. Fica difícil guiar o leitor numa dança quando estamos pisando no pé dele.
E publicamos longos textos sobre famílias que perderam seus filhos para descobrir, ao final, que eles sofrem com a dor da perda. Informamos nosso leitor que o clima esquenta no verão e esfria no inverno. Abusamos das efemérides, esses textos que podem voltar ao jornal daqui a cinco, dez, 20, 25, 30 anos, sempre os mesmos. Escrevemos sobre burocracia na língua de burocratas.
O QUE DEPENDE DE NÓS
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Se formos francos, todos teremos que confessar que há dias em que é muito duro ler o jornal
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Há texto que é chato de ler e será sempre chato. Temos que ler mesmo assim, porque o assunto é importante. Toda profissão tem seus ossos duros de roer. Progride quem tem dentes fortes.
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Vamos assumir nossa responsabilidade por todos os outros que não precisariam ser tão chatos assim e tentar melhorá-los
Sobre a crise dos impressos e como fica o jornalismo investigativo Debate sobre jornais e internet, em SP, dia 13/11
(*) a foto não tem nada a ver com a história. Estava no caderno Informática de hoje, e achei bonitinha. São pendrives com imagens de Meg e Jack White, que trazem álbum do White Stripes (espero que vocês saibam quem são... Eu não sei.).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h48
Adorei as respostas. Incrível como futebol tem mesmo o poder de mobilizar as pessoas, não é? Paulo Coelho (com as ressalvas devidas) tinha um bom argumento quando disse hoje à tarde: "Já vi pessoas ficarem cinco horas discutindo uma partida de futebol; nunca vi ninguém discutir sexo pelo mesmo tempo. Sinal de que a emoção provocada pelo futebol é maior".
Mas vamos às nossas lições. O que tantas e tão boas respostas nos mostram:
- Não existe certo e errado em jornalismo. Leitores interessados, como vocês, mostraram preferências diferentes. Nenhum editor será capaz de contentar a todos. Dos 31 que responderam, 13 colocariam o São Paulo na capa de amanhã, 14 colocariam Corinthians X Flamengo e quatro subiram no muro e fariam uma capa com os dois jogos.
- Não existem respostas absolutas em jornalismo. Como lembram os leitores, um jornal de São Paulo terá prioridades diferentes de outro fluminense ou gaúcho.
Quais são os critérios que levaram vocês a dar importância à notícia?
- empatia - tamanho da torcida, número de pessoas diretamente interessada nos times
- especificidade - o campeonato só tem um campeão. O fato de só um time poder ocupar esse lugar dá relevância ao nome do campeão.
- importância - a certeza de título do São Paulo é mais importante que o rebaixamento, ainda incerto, do Corinthians
- emoção/drama - há menos expectativa em relação a quem vence este campeonato que em relação a quem será rebaixado (e até a quem vai à Libertadores, porque o Flamengo tem uma luta dura nessa direção e, quanto mais difícil a luta, mais emocionante, mais noticiosa, portanto). Entra nesse quesito também a história de "superação" do Muricy, sugerida pelo Edison
- imprevisibilidade - qualquer resultado muito diferente do esperado será notícia. Como comentou o Luiz, de Sertãozinho, a vitória do São Paulo e a conquista do campeonato já são tão esperados que ele sugere "humor no jornalismo para o repórter que for fazer a manchete do título mais previsível da história do campeonato brasileiro".
- ineditismo - se o Corinthians se afundar mais, aumentam as chances de ocorrer algo inédito (o rebaixamento de tal time).
- interesse - o jogo do Flamengo deve ser recorde de público neste torneio e seu resultado, seja qual for, terá mais conseqüência e interesse que o do jogo do São Paulo
Há, portanto, argumentos para todas as escolhas.
Qual seria a minha?
Daria o jogo do Corinthians na capa de amanhã, porque acho que tem mais notícia. Há mais coisa em jogo, é mais emocionante, desperta mais paixões, seja dos torcedores diretamente envolvidos, seja dos rivais que torcem pelo fracasso alheio.
O São Paulo já é campeão há muito tempo. Se levar o título, daria na capa de quinta, a não ser que haja um grande desastre no Maracanã (mas, mesmo assim, seria uma decisão difícil, porque a taça é o ponto alto do campeonato. Precisa acontecer algo bem forte pra desbancá-la como notícia).
A opção de dar os dois na capa é, claro, viável. Mas lembrem-se de que em jornalismo temos que exercitar a escolha. É disso que se trata nossa profissão. Nunca vai dar para publicar tudo, nem devemos dar o mesmo peso para toda informação.
Ocorre que o Adriano, de São Paulo, deu uma sugestão que é a cara da Folha (fiz uma pequena adaptação, a partir da idéia dele):
Na capa de quarta, uma pergunta em letras bem grandes: ACABOU? Como ele mesmo defende, é uma pergunta que vale tanto para a vitória são-paulina quanto para a derrota corintiana.
Na capa de quinta, se o São Paulo vencer e o Corinthians perder, é possível abrir com ACABOU! para o São Paulo e ACABOU? para o Corinthians.
É uma idéia que permite uma conversa das duas edições, algo que Esporte costuma fazer com muito talento.
Veja aqui o exercício que deu origem a este post
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h04
"El DIEGO jugando showboll se mantiene en forma y llega para el 2014 a arruinarle la fiesta a los brasileros. Vamos Argentina!!!!!"
Se você, como eu, está enjoado de ver a cobertura embasbacada de muita TV e rádio neste dia de hoje, vai aí uma alternativa: os comentários dos leitores do argentino "La Nación".
Sério, um pouco de "outro lado" faz bem nessas horas.
Minha leitora Caroline, que me mostrou o site, comenta:
"Por mera curiosidade, comecei a fuçar alguns sites estrangeiros e ver como está sendo noticiado a decisão da Fifa, que escolheu o Brasil como sede da Copa de 2014. Entrei no site do NYT, El Pais e, é claro, o La Nacion. O mais curioso é que nesse último, logo abaixo da notícia, existe um espaço para comentário de leitores. Imagine só o que nossos hermanos andam falando... É interessantes notar como os valores da notícias realmente se alteram nas diversas regiões. O que para nós é prioridade, para outros é um mero fato. No Washington Post e no The Times ainda não vi nada a respeito, nem menção. Aproveitei também para ver que as notícias sobre o caso Madeleine são sempre AS MESMAS em todos os sites. Em alguns casos, nem os títulos mudaram!!!! "
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h00
Ontem, o Rafael, de São Paulo, me perguntou:
"Você pode comentar o que acha do caso padre Lancelotti no blog?
Trata-se de um caso delicado, que levou uma figura ligada aos movimentos sociais ao olho do furacão de um escândalo que envolve extorsão e acusações de pedofilia.
Me parece que não há provas para acusar o padre de pedofilia, mas de certa forma os jornais "compraram" a versão oferecida por uma testemunha não-identificada, que se diz ex-funcionária da ONG da qual o padre é diretor.
Pelo que li posteriormente nos jornais, a polícia não comprovou que a suposta ex-funcionária foi de fato contratada pela ONG e que os casos de pedofilia seriam verdadeiros.
Sei que o assunto é pesado e delicado, mas eu acho que ainda está mal-resolvido. Me parece que o padre foi ingênuo em se deixar extorquir, mas eu sinto que falta foco na cobertura da imprensa e que cada novo escândalo leva os jornais a darem a notícia sem checar se é verdade".
O que fazer quando é preciso cobrir suspeitas contra alguém respeitável? Não é mesmo tarefa fácil.
Por um lado, não se podem simplesmente ignorar as suspeitas. Seria brigar com a notícia.
Se, em vez do padre Lancelotti, uma figura que há anos é identificada com direitos humanos e assistência aos excluídos, fosse um político de má fama, ninguém estaria incomodado com a cobertura.
Mas, quando as suspeitas atingem alguém que todo mundo admira, fica muito mais difícil, não é?
É preciso cobrir, portanto. Mas sem se esquecer dos cuidados básicos em qualquer reportagem que envolva suspeitas:
- o padre, até este momento, é vítima, não suspeito. Sua versão tem que ser publicada sempre com destaque
- é preciso tratar criticamente as declarações da polícia, de testemunhas, dos acusados, como em qualquer outro caso dos quais já tratamos aqui. Neste ponto, é importante ler esta matéria, publicada na Folha de sexta. A polícia apresentou a versão de uma testemunha que, depois, foi colocada sob suspeita, pois já não se sabia se ela realmente era quem dizia ser.
- os acusados também têm o direto de ter suas versões publicadas com destaque.
- a edição tem papel fundamental nesses casos, em que há versões contraditórias, suspeitas infundadas etc. Cabe ao jornal organizar essa confusão, fazer um balanço das perguntas sem resposta, do que se mostrou errado, do que falta esclarecer. O leitor que começar a acompanhar o caso hoje tem que ser capaz de entendê-lo tanto quanto o que estiver lendo todos os textos desde o começo.
MARIO MAGALHÃES, ombudsman da Folha, comenta a cobertura da Folha nesses últimos dias na crítica de hoje. Vale a pena ler.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h13
Um leitor que pede para ser identificado só como W me escreve: "Estou como estagiário em uma emissora de TV. No início eu queria fazer jornal impresso, mas apareceu essa oportunidade e eu gostei de trabalhar aqui. Identifiquei-me com o ambiente e passei a repensar a minha carreira. Pretendo aproveitar a oportunidade e crescer na TV, até porque eu acho muito dificil transitar da televisão para um jornal ou até mesmo uma revista. Por isso preciso de umas dicas de onde posso achar bons cursos de locução e apresentação para rádio e TV".
Infelizmente, sei quase nada de rádio e TV [infelizmente. Adoraria trabalhar um dia nesses veículos]. Por isso, repasso a pergunta do W para meus eventuais leitores dessas áreas. O que vocês sugerem?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h08
VALE MAIS UM CAMPEÃO OU UM DUELO DE MÃO DUPLA?
 Este exercício acabei de ouvir no CBN Esporte Clube. Juca Kfouri perguntou:
"Qual é o jogo mais importante? O do São Paulo ou Corinthians X Flamengo?"
Bom exercício de hierarquia, em!? Se você fosse o editor de Esporte, que jogo planejaria para a capa do seu caderno nesta quarta, ou seja, na apresentação dos jogos, ainda sem saber dos resultados? Por quê?
E se o São Paulo vencer e o Flamengo derrotar o Corinthians, o que você dá na capa de quinta-feira? Por quê?
Pra quem não acompanha futebol, explico brevemente: o São Paulo pode se tornar campeão brasileiro se bater o América, último time da tabela, já rebaixado para a segunda divisão. Ou seja, há grandes chances do tricolor levar o título nesse jogo.
Já o Corinthians está na zona do rebaixamento, precisa vencer para respirar, e joga contra o Flamengo, maior torcida do Brasil, que ainda tem chances de ir à Libertadores, mas também precisa ganhar para isso.
Só pra lembrar, não tenha medo de dar uma opinião. Os exercícios do blog só querem estimular a reflexão. Ninguém está certo ou errado, o que vale são os argumentos, a possibilidade de pensar sobre notícia e como tratamos os fatos.
Meus comentários
Veja outros exercícios do blog
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h42
Minha leitora Clara, da Paraíba, conta que o Newseum, um museu interativo de notícias com sede em Washington D.C., mantém um memorial para os jornalistas de todo o mundo que morreram cobrindo notícias: o “The Freedom Forum Journalists Memorial”.
Os nomes de 1.665 jornalistas de todo o mundo estão expostos em painéis no Memorial (até 2006). A cada ano são incluídos os nomes de jornalistas mortos em serviço no ano anterior.
A organização tem um site com o nome desses jornalistas, a nacionalidade, o ano da morte, o país onde morreram, além de um breve relato de como aconteceu. De acordo com o site, 31 jornalistas brasileiros morreram em serviço até 2006 (dentre eles o Tim Lopes). Desse total, apenas um era mulher.
Há também uma lista preliminar dos jornalistas mortos este ano. Consta um brasileiro: “Luiz Carlos Barbon Filho, JORNAL DO PORTO, in BRAZIL, May 5”.
Detalhe: só este ano no Iraque já morreram 31 jornalistas em serviço.
A Clara manda essas informações todas a propósito de um post recente aqui do blog, sobre o direito que os jornalistas têm de recusar se expor ao risco, e sobre como reduzir esse risco quando ele concordar com a cobertura.
E acrescenta: " Ë realmente um assunto muito sério, às vezes, banalizado por jornalistas: é fundamental para a nossa segurança tomar certos cuidados como os que você sugeriu. Não só não devemos ter vergonha de ter medo, como temos o direito e o dever de sermos cautelosos com as nossas próprias vidas: somos como qualquer outra pessoa, com o agravante de que nos expomos muito mais".
Sobre a morte de Barbon Mais um post sobre segurança
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h57
Como contribuição para a campanha "mais humor no jornalismo", meu trainee RICARDO VIEL conta uma história que ouviu da guia Margot quando visitavam o centro histórico de Lima:
No domingo fizemos um passeio pelo centro histórico de Lima. Na praça San Martin há um monumento em que o "Libertador" é retratado no alto e, na parte mais baixa, há a figura de uma mulher, representando a Liberdade.
Reza a lenda que o artista virou-se para seu assistente, um indígena, e disse a ele: "No te olvides la llama sobre la cabeza". Ou seja, para ele não esquecer de colocar uma chama sobre a cabeça da mulher. A chama fazia parte da representação da Liberdade.
Acontece que o indígena só conhecia uma "llama", o animal. Resultado, há, sobre a cabeça da estátua, uma simpática lhaminha.
Disse Margot que só se descobriu a confusão no dia da inauguração. Acabou virando mais um atrativo do centro histórico do Peru.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h55
Você tem que apurar uma matéria por telefone, no feriado, com pessoas que nunca viu, que moram em outro Estado e, ainda por cima, quando consegue ligar para a casa de uma delas descobre que o sujeito foi pescar! (claro, é feriado, por que ele estaria em casa?)
O que fazer?
TALITA BEDINELLI conta:
Antes de irmos para o Peru, passei o feriado (12 de outubro) na Agência Folha _que cobre todos os Estados, menos São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O trabalho deles é monitorar o que acontece nesses lugares e propor matérias para os cadernos do jornal.
Minha responsabilidade era ficar atenta às notícias de seis lugares, entre eles, Mato Grosso do Sul. Em um site local, achei uma notinha que dizia que um brinquedo doado pela Receita Federal a uma criança de uma escola municipal de Eldorado (464 km de Campo Grande) continha drogas e dinheiro falso dentro.
O Jairo (chefe de reportagem da Agência) pediu pra eu tocar a matéria e fui atrás das informações. Primeiro problema: era feriado e, por isso, nenhum órgão público funcionava. Entrei em desespero, lógico. A matéria a essa altura já tinha sido "vendida" para Cotidiano e iria entrar na edição do dia seguinte.
Como conseguiria falar com a prefeitura e com a Receita Federal para fazer o outro lado?
Na delegacia, consegui o celular de um subcomandante da Polícia Militar, pra quem acabei ligando milhares de vezes. Acho isso uma coisa incômoda, não sei muito o limite de quantas ligações posso fazer, mas estava precisando muito da ajuda dele e, ainda bem, ele foi muito prestativo e me passou o contato de uma assessora da prefeitura.
O Hudson _repórter da Agência em Campo Grande_ conseguiu, por meio das fontes dele, conversar com a Receita Federal. O outro lado estava resolvido.
Precisava ainda achar o pai da criança. Minha primeira tentativa foi procurá-lo na lista telefônica, mas não achei. Depois, liguei para todas as pessoas da cidade com o mesmo sobrenome dele.
Um senhor, que, por coincidência, tinha sido professor do homem, disse que ele não tinha telefone fixo e que iria até a casa dele ver se ele poderia falar comigo. Pediu que eu ligasse em 10 minutos. Achei que estava com sorte e comecei a ficar mais tranqüila.
Quando voltei a ligar, o ex-professor me informou que o pai do menino tinha ido pescar (óbvio, quem estaria em casa em pleno feriado?) e que a mulher dele não queria falar com a imprensa.
Informei ao Jairo o meu problema. Em poucos minutos, ele gritou para mim: anota aí o celular do homem! Fiquei boba. Como em tão pouco tempo ele tinha conseguido o celular (justo o celular) de um homem que mora em uma cidade relativamente pequena do Mato Grosso do Sul?
Ontem, perguntei pra ele. Ele me disse que consultou, via MSN, alguns amigos. Por sorte, ele nasceu no Mato Grosso do Sul e conhecia um monte de gente de lá.
Pensando nisso e no Hudson (que conseguiu o outro lado com a Receita) percebi como é imprescindível cultivar as fontes e anotar todos os telefones que conseguimos em uma apuração logo depois de acabarmos a matéria (pedido que a Ana nos faz constantemente). Ter o celular de alguém é muito útil sempre, mas, em feriados, isso se torna essencial.
Ter uma agenda de telefone boa de verdade demora um tempo e exige muita dedicação. Mas essa matéria foi, pra mim, o maior exemplo de que vale a pena.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h06
HISTÓRIA DO CINEMA
A Cinemateca e a ECA fazem de 6/11 a 11/12 um curso gratuito de história do cinema, toda terça às 19h.
As aulas são na sala Cinemateca/Petrobrás, no largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino (Metrô Vila Mariana).
Inscrições devem ser feitas pessoalmente na bilheteria da sala, a partir do dia 30 de outubro, das 15h às 22h, de terça a domingo. Há 150 vagas.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h14
MAS FORTES
1)
GLAUCO, na Folha de domingo
2)
Nos anos 70, muitos sábios sustentavam que o Brasil precisava baixar sua taxa de fertilidade (5,8) para distribuir melhor a riqueza. Passou-se uma geração, a fertilidade caiu a um terço (1,9) e o índice de Gini, que mede as desigualdades de renda, passou de 0,56 para 0,57, chegando ao padrão paraguaio. Nasceram menos brasileiros, mas não se reduziu o fosso social.
A tropa de elite pode acreditar que se aprimora a segurança pública com o capitão Nascimento cuidando dos morros e o governador Cabral dos ventres. As contas de Levitt são honestas, suas conclusões são rigorosas e "Freakonomics" é um ótimo livro. Aplicando-se a outros números de Pindorama o mesmo tipo de tortura cerebrina a que Cabral submeteu as conclusões do economista americano, seria possível dizer que a queda de 67% na taxa de fertilidade nacional provocou um aumento de 300% nos homicídios no Rio de Janeiro. ELIO GASPARI, na Folha de domingo
3)
Cabral não é o primeiro a derrapar em números escorregadios. O problema de levar estatísticas demasiadamente a sério é tão comum que rendeu frases memoráveis -"O ser humano tem em média um seio e um testículo" é uma delas; "Estatísticas são como biquíni: o que revelam é sugestivo, mas o que escondem é vital" é outra.
A melhor foi dita pelo escritor escocês Andrew Lang (1844-1912): "Ele usa estatística como um homem bêbado usa um poste -para apoio, não para iluminação". SÉRGIO DÁVILA, na Folha de domingo
[Os textos completos estão no site do treinamento, para quem não tem acesso à FSP]
UMA LIÇÃO POSSÍVEL
A gente precisa reconhecer que não tem muita familiaridade com os números e tratá-los como trataríamos um bicho esquisito ou uma visita de cerimônia.
Com certo temor (vai que ele morde!), cuidado e delicadeza.
Por mais que pareçam convincentes argumentos que apresentam estatísticas, se não estivermos seguros, vamos parar um segundo e perguntar:
- as fontes dos dados são confiáveis?
- os dados indicam causa e conseqüência? Ou revelam só uma coincidência?
- se não tivermos muita certeza sobre isso, quem pode nos ajudar a entender os números? (O ideal é achar uma fonte que não tenha interesses envolvidos na questão)
Para estabelecer uma relação de causa e conseqüência é preciso duas coisas:
- isolar outras variáveis que possam influir no resultado
- haver o que os cientistas chamam de grupo de controle
Tomando como exemplo o caso do aborto e do crime. Há dados que mostram que o crime diminuiu quando o aborto foi legalizado. Vamos ver então:
1) variáveis: o que aconteceu com a economia nesse período? Melhorou ou piorou? Houve mudanças na política de segurança pública? Na política de educação, de assistência social, de saúde? Como variou o desemprego? A renda? A desigualdade?
2) grupo de controle: é possível analisar dois grupos com as mesmas condições sócio-econômicas, sendo que em um deles ocorreu aborto livre e no outro não? Se não for, é praticamente impossível dizer que o aborto permitiu a queda da violência. No máximo, é possível dizer que as duas coisas aconteceram simultaneamente.
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Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h22
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