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O QUE NÃO APRENDI
Minha trainee KARIN BLIKSTAD levanta as várias dúvidas que teve quando apurava rebeliões em presídios do Maranhão.
Querem ajudar a respondê-las?
Marquei as dúvidas em amarelo, no texto dela.
Em vez de começar escrevendo sobre o que aprendi, vou falar de algo que ainda não aprendi: saber todas as perguntas que preciso fazer a uma fonte.
Várias vezes tive que ligar mais de uma vez para a mesma fonte. Sei que é comum precisar retornar a ligação, mas acho que está ainda além da conta. [Quando vocês acham que é além da conta?]
E isso acontece porque na pressa, e por inexperiência, não sei quais são todas as informações de que preciso para a matéria.
Também ainda estou tendo dificuldades para saber quais são as fontes que devo procurar em cada situação. E também o cuidado na escolha: se tem uma greve de policiais em uma cidade e quero saber se há revolta de presos nas delegacias, um policial filiado ao sindicato não pode ser uma fonte confiável. Preciso então apurar mais. [Aqui ela mesma já matou a charada! Se uma fonte é envolvida no caso, é preciso procurar outras, com certeza!]
Também tive dificuldades em avaliar o que é ou não relevante para a matéria. Por exemplo, de manhã ainda achávamos que a rebelião estava de pé e o pauteiro me disse que podia tentar entrar em contato com a diretora do presídio que tinha sido feita refém. Depois a rebelião acabou e a matéria perdeu impacto. Ainda se justificava procurar a diretora?
Outra coisa: tive muita dificuldade com os nomes dos lugares; os nomes que as fontes dão aos lugares não são necessariamente os mesmos do registro oficial da estrutura burocrática (aliás, no caso do Maranhão, o site do governo estadual não informa telefone de nada). No final do dia eu tinha muitos nomes diferentes... fiquei toda confusa. [o que acham? Que nome escolher?]
Uma última coisa: e se diferentes fontes dão diferentes informações sobre um mesmo fato? Aconteceu de alguns detalhes serem diferentes...
Meu comentário
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h39
Não só a escolha das palavras faz diferença em jornalismo. A ordem delas também muda a informação.
No exercício de quinta sobre a sabatina da Dilma, uma frase começava assim: "Socialista por definição, Dilma defendeu a descriminalização do aborto e se posicionou contrária à reestatização da Vale".
Há vários probleminhas aí. "Socialista por definição" é obscuro. O que o repórter quer dizer é que, na sabatina, ela se disse socialista.
Outro problema é "se posicionou contrária". Ela não "se posicionou". Ela disse ser contrária. É importante tentar evitar esses cacos de linguagem que não querem dizer nada e só sujam o texto.
Vejam este caso, de outra matéria: "Uma recomendação da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, solicita a modificação dos procedimentos adotados pelas empresas que fazem escoltas para diplomatas no Iraque".
Primeiro, não é a recomendação que solicita a modificação. Segundo, é melhor sempre escolher o específico ao geral. Ou seja, em vez de dizer que ela quer mudar, dizer logo como ela quer mudar.
Algo assim: "A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, decidiu reforçar a segurança dos diplomatas no Iraque".
Mas o que eu queria mesmo abordar é a estrutura da frase lá de cima, sobre a Dilma.
Quando você constrói uma oração desta forma: "Socialista, ela apóia a descriminalização do aborto", estabelece uma relação entre as idéias. O fato de ela ser socialista parece ter alguma relação com o que vem a seguir.
Poderia até ser o caso, como alguns de vocês apontaram, de mostrar a contradição com o fato de que ela é contra a reestatização da Vale.
Mas aí a escolha tem que ser pensada, intencional. E talvez seja melhor explicitá-la: "Embora se diga socialista, é contra a reestatização da Vale". Melhor ainda seria abordar, na entrevista, a suposta contradição, para deixar que a própria Dilma explique (afinal, socialista hoje em dia pode significar muita coisa. Faz tempo que acabou a dicotomia pura e simples entre estatistas e privatistas).
Do jeito que foi escrito, o texto implica uma falsa oposição entre ser socialista e ao mesmo tempo defender que aborto não seja crime e que a Vale continue privada. É por isso que prefiro a outra frase, que apenas enumera, sem estabelecer conexões:
"A ministra, que declarou ser socialista e defendeu a descriminalização do aborto, afirmou também que as coalizões partidárias são importantes para que a pluralidade da sociedade seja representada."
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h03

Fiquei um bom tempo pensando em como tratar aqui desses novos detalhes sobre a morte de Tim Lopes.
Até ler o perfil do garoto acusado de, aos 12 anos, ter participado do crime.
Embora eu prefira um estilo diferente, acho que o texto tem o mérito de colocar a barbárie em perspectiva. Uma perspectiva muito maior, de uma barbárie muito mais ampla.
E, para recuperar uma conversa que já tivemos aqui, são os fatos, não as adjetivos, que nos deixam sem fala.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h22
CURSOS FORA DO BRASIL
CURSOS FORA DO BRASIL
CURSOS FORA DO BRASIL
CURSOS FORA DO BRASIL
COBERTURA AMBIENTAL
A FNPI, que sempre faz oficinas ótimas, recebe até 8/10 inscrições para curso de cobertura ambiental.
NOS EUA
O consulado americano faz dia 9/10 uma feira de cursos nos EUA.
EM ISRAEL
O governo de Israel faz de 26/11 a 18/12, em Israel, o curso "Los medios de comunicacion, el desarollo y la busqueda de la paz en zonas de conflicto".
A bolsa cobre palestras, visitas de campo, materiais de estudo, pensão completa e seguro médico, mas não as passagens.
Informações no site da embaixada: http://brasilia.mfa.gov.il/mfm/web/main/missionhome.asp?MissionID=8&
ON-LINE
Estão abertas as inscrições para o próximo curso on-line Jornalismo para o Desenvolvimento Humano, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), com apoio do Knight Center for Journalism in the Americas e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O treinamento ocorrerá de 15 de outubro a 11 de novembro.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h23
Meu colega RODOLFO LUCENA, editor de Informática da Folha e multiblogueiro (faz o + corrida e o circuito integrado), me manda uma mensagem:
A coluna de hoje do David Pogue, colunista de Informática do "New York Times", ilustra várias coisas:
a) como mesmo jornalistas de alto coturno e longa experiência podem ser manipulados; b) como é importante manter documentos acerca das informações que você publica; c) como é importante, uma vez constatado o problema de informação, ser o mais transparente posssível.
De qualquer forma, o erro aconteceu, e o público foi ou se sentiu prejudicado. Mas, se a gente fez as coisas direito, na origem, gravando ou tendo outros documentos, dá para mostrar como a falha aconteceu e tentar dar a volta por cima.
Parece que, nesta vez, o Pogue conseguiu.

O PESO DA RESPONSABILIDADE
Do meu amigo e ex-trainee Marcelo Soares: "Na "Vanity Fair" de novembro, o Christopher Hitchens escreve sobre o caso de um rapaz que morreu na guerra do Iraque --e que resolveu se alistar depois de ler um artigo dele, Hitchens".
Vale a pena ler. Guardadas as proporções, aquilo que a gente escreve afeta a vida dos outros.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h19
GARIMPO
GARIMPO
GARIMPO
GARIMPO
GARIMPO
O repórter FELIPE BÄCHTOLD, da Agência Folha, fez uma reportagem muito bacana sobre como estão sendo usados os cartões do Bolsa Família [para quem não tem acesso à FSP, coloquei as matérias citadas neste post no site do treinamento].
Meu trainee RICARDO SANGIOVANNI fez uma entrevista com ele para saber como a pauta surgiu, como a apuração foi feita: "Aproveitei para pedir uns toques sobre o trabalho na Agência. Tem umas dicas muito legais. Tá aí, para vocês darem uma olhada".
Novo em Folha - Como descobriu o caso e como fez para apurar?
Felipe Bächtold - A idéia surgiu quando eu fiz uma outra matéria sobre o Bolsa Família, meses atrás. Entrei em dezenas de relatórios de fiscalização da CGU (estão neste endereço) que falavam de problemas do programa. Uma das irregularidades descobertas por fiscais era essa do cartão retido. Achei que isso poderia render uma matéria própria.
Comecei a pesquisar no Google e achei muitas notícias isoladas sobre o problema. Então fui ligando para cada uma das cidades achadas para confirmar as ocorrências.
NF - Você chegou a viajar para fazer essa matéria?
FB - Não. Chegamos a cogitar uma viagem, mas achamos um caso perto de Londrina (PR), onde a Folha tem correspondente. O repórter fez uma retranca mostrando um personagem que viveu o problema.
NF - Acontece muito de uma pauta simples, do dia, se tornar uma matéria mais aprofundada, como essa? Geralmente, em que rende apostar?
FB - Acontece, mas não tanto. Uns tempos atrás me passaram uma tarefa de escrever uma nota burocrática sobre uma decisão da Vale do Rio Doce do Pará. Conversando com o Ibama sobre o caso, surgiu a idéia de fazer uma matéria mais legal, que rendeu bem.
Na cobertura da Agência, os repórteres costumam apostar bastante em membros do Ministério Público dos Estados, que geralmente estão bem antenados sobre problemas e irregularidades da região. Entrevistas com eles podem mudar o rumo da pauta.
Também é bom sempre pensar em como generalizar uma série de notícias isoladas e criar uma matéria de contexto. Por exemplo: se vê meia dúzia de notícias seguidas sobre assaltos a banco em cidades minúsculas, você pode pensar em uma pauta do tipo: "Assaltos a banco migram para o interior" etc.
NF - Como descolar boas fontes apurando as matérias quase sempre por telefone?
FB - Isso realmente é bem difícil. Uma boa atitude é ligar para pessoas que já apareceram em matérias suas (que sabem que o trabalho é sério) e perguntar como está o andamento do assunto que rendeu a matéria anterior.
Também é importante manter um relacionamento bom com fontes recorrentes dos Estados que cobrimos, como assessoria das polícias, do MP, Tribunal de Justiça, etc. O problema é achar tempo para falar com todo mundo.
Outras entrevistas Sobre fontes à distância
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h46

Charles Nisz me manda mais um bom exemplo de infográfico, este sobre como foi a suposta manobra ilegal do Hamilton.
Meu amigo FABIO SEIXAS, que tem um dos blogs mais lidos do Brasil, fez um post sobre o assunto.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h39
[Participaram deste post o Gilberto, do Amapá, a Natalie e o Roberto, de São Paulo, meu amigo EVANDRO SPINELLI, repórter da Folha, o André e o Paulo, de Campinas, a Raquel, de Ribeirão, e a Luisa, do Rio.]
A primeira conclusão parece óbvia: é muito questionável, para dizer o mínimo, um repórter dar duplo expediente na função de assessor de imprensa.
Não se trata nem do problema enfrentado pelo nosso leitor, que tem um concorrente como assessor de uma fonte e, por isso, corre o risco de ver sua pauta furtada (o Spinelli conta um caso parecido nos comentários do post do exercício).
Mesmo que esse jornalista conseguisse separar seus dois papéis e não levasse pro jornal a pauta que descobriu como assessor, a situação é complicada em si.
Porque jornalista tem que ser independente. E não dá para ser independente quando uma empresa, órgão público ou entidade paga seu salário.
Mas, infelizmente, é uma realidade dada.
O que é que a gente pode fazer, então, para conseguir entrevistar uma boa fonte sem revelar nossa pauta para o assessor que é ao mesmo tempo repórter do veículo concorrente?
- Ligar direto para a fonte.
- Se o sujeito disser que só fala por meio da assessoria, explicar para ele a situação constrangedora (quem sabe ele troca de assessor...).
- Se ele aceitar falar, pedir que ele não comente o assunto em detalhes com o assessor, já que sua pauta vazaria. Combine com a fonte que, terminada a entrevista, você mesmo pode avisar ao assessor de que ela foi feita diretamente pelos motivos óbvios.
- Se ele não aceitar, mesmo com seus argumentos, pedir que indique outra fonte que seja tão conhecedora do assunto, mas não tenha como assessor um concorrente (quem sabe assim ele se toca...).
- Se a fonte for mesmo imprescindível, insubstituível, e só falar depois de a assessoria contatada, o jeito é ligar para o dito cujo do assessor. Mas, claro, seja o mais vago possível.
OUTROS POSTS SOBRE A RELAÇÃO COM AS ASSESSORIAS Para não depender da boa vontade da assessoria Evandro Spinelli dá dicas para obter informações Paulo Totti caça um ministro Marcos Côrtes explica como age o assessor de órgão público Sandra Muraki fala sobre assessoria de empresas privadas Duelo freqüente: como não passar pela assessoria
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h05
O título daquele exercício de hierarquia é legal para nos fazer pensar que há casos em que o mais relevante não é o fato em si, mas a conseqüência dele.
O fato, naquele dia, era que a Justiça havia unido as ações das vítimas no acidente do Gol.
Mas a informação mais relevante é que essa decisão acelera a tramitação dos processos.
Ou seja, é mais importante dizer "Justiça acelera processos de vítimas do acidente da Gol" que dizer "Justiça une ações".
Uma boa forma de encontrar o que é prioritário é fazer a pergunta "E daí?".
É uma pergunta que, feita na pauta, ajuda a dar foco. Feita durante a apuração, ajuda a levantar as informações principais. E feita na edição, ajuda a achar o melhor título.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h46
O relato da Talita nos lembra de uma coisa bem importante. É muito comum a gente fazer isso --desligar no meio da entrevista--, e as conseqüências podem ser nefastas.
Durante o exercício de apuração, percebi que é muito importante prestar atenção em tudo e não confiar no gravador. Sei que isso é superóbvio e pensava que não cometeria esse erro, mas percebi que, na prática, as coisas mudam um pouco.
Saí daqui garantida _chequei se o gravador estava funcionando e peguei pilhas e fitas extras_ e fui com o Pablo, minha dupla, entrevistar um secretário da prefeitura. Logo que sentamos para começar a conversa, liguei o gravador e passei a anotar grande parte do que ele estava falando.
Só que desliguei (minha cabeça, não o aparelho) assim que ele começou a falar dos projetos da administração. Achei que depois ouviria tudo na fita e daria certo, então acabei não anotando nada e não prestando atenção o suficiente para lembrar quais eram as partes mais importantes na hora de escutar a fita.
Na hora do retorno, percebi o grande erro que tinha cometido. Não dava tempo de ouvir nada antes de contar o que nós tínhamos apurado. E, mesmo se desse, perderia muito tempo escutando tudo para achar o ponto certo.
Acho que no fundo isso aconteceu por eu ter tido vergonha de interromper o secretário enquanto ele falava sobre todos os projetos que eles estão desenvolvendo. Tínhamos feito uma pergunta sobre uma subprefeitura específica e a resposta demorou a vir, o que fez com que eu perdesse o interesse por aquela resposta. Devia ter tentado fazer ele voltar para o assunto específico da nossa pauta, que era saber se existiam ações da secretaria naquela região.
É muito importante ter foco sempre e não deixar que a fonte nos leve para um caminho que não interessa. No nosso caso, a resposta direta geraria um constrangimento para ele, já que o lugar sobre o qual estávamos perguntando não era alvo, pela pasta dele, de nenhuma política pública.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h36
Escolhas e significados
Escolhas e significados
"Socialista por definição, Dilma defendeu a descrimalização do aborto e se posicionou contrária à reestatização da Companhia Vale do Rio Doce."
"A ministra, que declarou ser socialista e defendeu a descriminalização do aborto, afirmou também que as coalizões partidárias são importantes para que a pluralidade da sociedade seja representada."
As duas frases acimas forma escritas por trainees diferentes, na cobertura da sabatina feita hoje com a ministra Dilma Rousseff.
Do ponto de vista da construção, acho a segunda melhor que a primeira. Vocês conseguem imaginar por quê? [meus comentários]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h39
COMO ENTREVISTEI HOBSBAWM
COMO ENTREVISTEI HOBSBAWM
COMO ENTREVISTEI HOBSBAWM
A entrevista abaixo, com a repórter SYLVIA COLOMBO, foi feita por sugestão do meu leitor Bruno Dominguez. Um dos muitos leitores que se encantou com a entrevista com o historiador Eric Hobsbawm, ele me pediu que encaminhasse as perguntas abaixo, respondidas pela Sylvia.
Além do benefício óbvio de saber mais sobre essa reportagem, vale a pena pensar sobre as perguntas que o Bruno fez. Vejam como ele toma o cuidado de, na formulação, deixar claro que pesquisou um pouco sobre a Sylvia e que pensou um pouco sobre a entrevista. São perguntas bem específicas, focadas, objetivas, o que sempre deixa o entrevistado feliz e melhora a qualidade da informação.
Novo em Folha - Como surgiu a pauta? Quem sugeriu? Se foi a Sylvia, como convenceu a edição a mandá-la a Londres? Se não, a que atribui ter sido a escolhida (formação em história, o fato de ter sido correspondente em Londres)?
Sylvia Colombo - A idéia de fazer uma entrevista histórica com o professor Eric Hobsbawm foi da editora de Mundo, Claudia Antunes. O objetivo era marcar a data do aniversário de 90 anos do historiador e fazê-lo comentar assuntos da atualidade. Trata-se de um personagem que se presta muito bem a isso pois, como ele mesmo costuma dizer, sua larga vida foi suficiente para que acompanhasse o começo e o fim de vários processos históricos, as utopias, as revoluções, as guerras, as redemocratizações de diversos países por muito tempo dominados e, agora, o mundo pós-11 de Setembro e a era da globalização.
Certamente, o fato de ter formação em história, e bastante envolvimento pessoal e afetivo com a área, deve ter contado para que me escolhessem para a pauta. Mas essa resposta só pode ser dada com certeza pela editora e pela chefia do jornal, que decidiram que o investimento valia a pena.
Quanto a ter sido correspondente em Londres, eu sempre penso que essa experiência está por trás de tudo de bom que eu tenha feito no jornal depois disso. No caso específico do Hobsbawm, é claro que conhecer bem a língua (e o acento particular dos britânicos) e ter facilidades para encontrar um endereço no mapa da cidade foram as habilidades imediatas que a experiência de ter vivido lá propiciou. Mas nunca perco de vista o fato de que muitas outras coisas melhoraram para mim depois que passei esse tempo lá: passei por um amadurecimento pessoal e profissional, comecei a ter mais interesse por ler e pensar sobre a mídia _motivado pela fascinante e única imprensa local_, e fiquei mais curiosa para leituras e viagens mais variadas.
Com todos os problemas logísticos que tem, sou uma defensora entusiasmada do sistema de correspondente-bolsista do jornal.
NF - Que diferenças no resultado final ela acha que haveria se a entrevista tivesse sido feita por telefone? Normalmente, a Sylvia escreve para a Ilustrada, mas a entrevista saiu em Mundo. Por que essa escolha (ok, ele é um historiador, mas o destaque também poderia ser o lançamento do livro)?
SC - A entrevista por telefone sempre limita um pouco mais a conversa. É só pensar na sua vida diária. Quando queremos bater um papo ou mais sério ou mais relaxado com alguém, preferimos fazê-lo frente a frente, não? Além disso, ouvir um pensador elaborando uma reflexão cara a cara nos permite entender melhor como ele funciona, como olha, como gesticula, como escolhe as palavras antes de usá-las. No caso de se tratar de um homem idoso, falar ao vivo é ainda mais importante, porque ele fala menos, mais baixo, e se cansa, tem de fazer pausas.
É verdade que uma entrevista com o Hobsbawm poderia perfeitamente sair tanto na Ilustrada, como no Mais, como em próprio Mundo. Como um dos principais foco era fazer com que falasse mais de temas contemporâneos, daí a publicação em Mundo.
NF - A Sylvia já havia entrevistado o Hobsbawm antes. Como foi feito o contato desta vez? A negociação foi difícil?
SC - Sim, eu já o tinha entrevistado algumas vezes e o conhecia desde a Flip de 2003, onde esteve presente. No caso dessa entrevista fiz o contato por meio da agente literária que cuida de seus compromissos lá na Inglaterra. Com a aprovação do próprio Hobsbawm, fechamos a decisão e pude viajar.
NF - De que maneira ela se preparou (fica claro que leu os livros, artigos, outras entrevistas)? Na pauta, já havia um direcionamento da entrevista? Que critérios seguiu para definir os temas prioritários?
SC - Sou uma leitora de longa data do Hobsbawm, um dos principais autores de qualquer jovem estudante de história nos nossos dias. Na época da minha graduação na USP, tinha lido toda a trilogia e alguns outros textos importantes. Também li os livros mais recentes, sobre o quais o entrevistei em outras ocasiões por telefone, como foi o caso da biografia "Tempos Interessantes".
Para essa entrevista, li muito sobre a polêmica dele com outros intelectuais ingleses por conta de ter permanecido fiel ao marxismo, li o novo livro de ensaios, que só saiu lá fora por enquanto ("Globalisation, Democracy and Terrorism"). Para formular as perguntas sobre questões contemporâneas, Cuba, Chavez, China, Russia, etc, bastou estar por dentro do noticiário internacional cotidiano.
NF - Como editou a entrevista? Cortou falas ou manteve na íntegra? Mudou a posição das perguntas ou deixou na ordem em que foram feitas? O texto ficou enorme, o que não é comum em jornais. Isso chegou a ser um problema?
SC - Editar é sempre uma tarefa complicada, tem gente que odeia, mas eu adoro ficar cortando e trabalhando no texto final. Nesse caso, o mais chato é a parte de "tirar a fita". Como foram duas horas de conversa, ele fala lento e devagar, posso garantir que me levou o dobro, umas quatro horas, era preciso voltar e ouvir de novo várias vezes. Depois fiz alguns cortes e ajustes. Não ficou de fora muita coisa. Essencialmente, o que saiu publicado foi o que aconteceu. A ordem das perguntas eu alterei sim, para dar harmonia aos temas. Às vezes a gente começa a falar do livro, depois faz uma pergunta sobre terrorismo e aí emenda uma sobre história, só que o terrorismo aparece de novo lá embaixo, então é o caso de transportar uns pingues de cima para baixo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h10
HIERARQUIA
HIERARQUIA
Abaixo estão título, linha fina e lupa feitos por um dos trainees como exercício. O que vocês acham da ordem as informações? Por quê?
Justiça dos EUA une ações de vítimas do acidente da Gol
O objetivo é acelerar os trâmites do processo, já que haverá uma única parte representando as 120 famílias envolvidas
Decisão foi tomada durante uma audiência ontem, que foi a segunda do caso na Justiça dos EUA, onde indenizações são maiores
Leia o comentário neste post
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h36
ENTRE A EXCLUSIVIDADE E A ENTREVISTA
ENTRE A EXCLUSIVIDADE E A ENTREVISTA
Vejam só o problema deste leitor:
Um repórter de um veículo concorrente faz paralelamente o trabalho de assessoria de imprensa para um profissional que quero entrevistar.
A minha pauta não é um furo, mas eu também não quero expor ao concorrente o que estou pesquisando.
Pensei em substituir a fonte, mas seria muito interessante entrevistar esse cara.
O que fazer nessas situações?
Complicado isso de repórter ser também assessor de imprensa, não? O que vocês fariam?
Para ver outros exercícios do blog
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h14
CONSTRUINDO UMA PAUTA
A Raquel, como vocês se lembram, queria propor uma pauta baseada na dificuldade que ela e seus colegas sentem na hora de escrever à mão.
Comentei que, quando a gente quer montar uma apuração, ajuda fazer-se algumas perguntas.
Veja aqui as respostas que ela deu:
1. O que eu quero contar para o leitor?
Quero mostrar para o leitor que o uso diário do computador e, por censequência, a digitação, está fazendo os usuários terem dificuldades na hora de escreverem à mão ( como letra "feia", mão "dura" e dores nos músculos quando se tem que escrever muito) , já que passa-se o dia todo digitando e não escrevendo.
2. Para contar isso ao leitor, que informações são necessárias? Preciso apresentar números? Quais? Preciso dar uma perspectiva histórica? Encontrar personagens? Levantar diferentes pontos de vista sobre o assunto?
Aqui está minha dificuldade... não sei onde encontrar números para sustentar o que eu quero mostrar. A única coisa que eu pensei foi procurar a porcentagem da população brasileira que usa computador diariamente, trabalha com ele ou que simplesmente fica conctada na internet o tempo inteiro. Para dar sustentação, entrevistaria personagens que estão sentindo essa dificilculdade.
3. Quem pode me dar essas informações? Quem devo ouvir para levantá-las?
Acho que ninguém "oficial". Pensei também em conversar com algum ortopedista ou outro especialista que pudesse me dizer se isso está acontecendo mesmo, se caso um membro do nosso corpor for deixando de ser usado se ele atrofia... e se já viu algum caso desse tipo. E também pensei em professores antigos, que corrigiram provas antes da era do computador e que ainda corrigem, para ver se eles notam alguma diferença na grafia.
O exercício de responder às perguntas já mostra que a Raquel estava no caminho certo.
Para esquentar a idéia, ela precisava de algum indício mais forte de que há uma mudança em curso, de que há algo novo.
É uma hipótese possível, já que vários alunos da sua classe tiveram a mesma impressão. Mas não dá pra fazer uma matéria dizendo "eu e meus colegas não conseguimos mais escrever à mão".
O que ela precisa, então, é achar o tal fenômeno. E, para isso, precisa ouvir quem preferencialmente poderia detectá-lo.
Ela já aponta duas boas fontes: ortopedistas e professores. O que seria possível tentar:
- Ligar para ortopedistas e perguntar se, nas épocas de prova, aumentam os casos de tendinite ou outras lesões no pulso, nos braços, nas mãos, e se isso pode ser explicado pela falta de prática. Fisioterapeutas também podem ser boas fontes nesse caso.
- Ligar para professores, de preferência os mais antigos, que podem realmente avaliar diferença entre gerações, e ver se os alunos demoram mais para fazer as provas, se as letras são mais incompreensíveis etc.
- Ver nas escolas infantis se eles precisam criar classes especiais de caligrafia.
Vejam que nem sempre a gente precisa de números, de um levantamento abrangente que identifique que X% dos jovens de y a z anos têm dificuldade para escrever à mão.
Podemos partir de algo específico, mais restrito. Por exemplo, se a maior escola da sua cidade tiver criado classes especiais de ortografia porque percebeu que os alunos não conseguem mais escrever à mão, ou se a faculdade tiver ampliado o tempo de prova no vestibular pelo mesmo problema.
Nessa pesquisa inicial, às vezes a gente acaba batendo em algum estudo mais sério ou mais abrangente. Será um bônus. Mas ele não é essencial.
Um complicador é que essa pré-apuração tem que ser feita antes de apresentar a pauta, para poder convencer o seu editor de que há novidade, de que há notícia.
Embora exija um pouco mais de trabalho antes de apresentar a pauta, a vantagem é que, uma vez que ela seja aprovada, você já terá feito boa parte da apuração.
Restará achar personagens que tenham passado por esse problema e dar dicas de como resolver o problema e sua matéria estará praticamente apurada. Por fim, se não achar nenhuma novidade, nenhuma tendência, nenhum fato novo, lembre-se de que o enfoque de serviço é a santa salvação das pautas frias.
Você pode ouvir vários fisioterapeutas, ortopedistas, terapeutas ocupacionais, professores de caligrafia e fazer uma matéria nestes moldes: "Você já nasceu com um computador no quarto, digita com facilidade, mas não dá para escapar da escrita à mão. Ela ainda é usada na maioria das provas. Veja aqui como escrever mais rapidamente e com menos danos à saúde". PS - só pra lembrar, escrever à mão é algo cotidiano no jornalismo, nas reportagens. Quase sempre as anotações são à mão. E não é incomum ter que escrever a história à mão no bloquinho no caminho de volta para a Redação. PS2 - vários leitores mandaram ótimas sugestões, que vou organizar e comentar em outro post nesta semana.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h53
[Participaram deste post a Monike, de Campina Grande, o Léo, de Porto Alegre, a Gabriela, de Cascavel, a Luisa, do Rio, Felipe, Roberto, Paulinho, Natalie e Marcelo, de São Paulo, Raquel, de Ribeirão, Renan, de Rio Preto, Mauro, de Osasco, André, de Campinas, e Renata, de Recife.]
É muito legal ler as respostas de vocês.
Quando proponho o exercício, estou de olho em um aspecto. Mas seus comentários sempre me fazem perceber outros bons temas de que tratar.
No texto da minha trainee sobre o Corinthians, o ponto em que queria tocar era o da primeira frase: "O atacante Finazzi também falou aos jornalistas".
Em jornalismo, o específico é melhor que o geral.
Como não sobra espaço, o ideal é pular essas introduções mais gerais. Em vez de primeiro anunciar que ele falou e depois dizer o que foi afinal que ele disse, melhor ir direto para a frase. Algo como: "Para o atacante Finazzi, a cobrança e a reclamação dos torcedores é esperada, já que os últimos resultados não têm sido bons".
Vejam também que a regra é jornais publicarem o que foi dito a jornalistas. Portanto, só é o caso de ressaltar quando Fulano não tiver falado com os jornalistas. Um exemplo: "Fulano não quis dar entrevistas, mas o roupeiro Beltrano disse que, no vestiário, ele afirmou que acha normais as cobranças da torcida".
Também é o caso de mencionar quando uma entrevista é exclusiva, ou quando a fonte dá novas e diferentes declarações em particular, ao sair de um evento em que estava toda a imprensa.
Outros pontos legais que vocês levantaram:
1. evite aspas que só repetem o que já se disse em discurso indireto. Vejam o trecho:
Ele disse que a vida toda jogou para estar numa equipe como o Corinthians e que fará de tudo para não ser rebaixado. “Eu não quero isso de jeito nenhum”, afirmou.
Agora leiam sem as aspas e notem como elas não fazem falta alguma:
Ele disse que a vida toda jogou para estar numa equipe como o Corinthians e que fará de tudo para não ser rebaixado.
2. use aspas quando a frase for emocionante, pitoresca, relevante. Se o Finazzi disse que esperou a vida toda para jogar num time como o Corinthians, com essas palavras, seria um bom momento para usar a citação literal.
3. A frase "farei de tudo para não ser rebaixada" é mesmo uma boa declaração para ser "desenvolvida" na entrevista. "De tudo", para ele, é o quê? Como pergunta meu blogbudsman: "Chutar canela do adversário vale? Deixar de sair nas baladas? Subir de joelhos as escadarias da Penha?".
Pensando nisso, pode ter uma boa pauta aqui, não? Que promessas será que os jogadores e outros corintianos andam fazendo pro seu time não cair?
Também pensando nas duas frases, o Finazzi parece render uma boa entrevista, não?
4. Quase sempre as frases melhoram quando cortamos pronomes como ele, eu. Comparem:
"Eu não quero isso de jeito nenhum."
"Não quero isso de jeito nenhum."
Outra comparação:
Diante dos resultados da equipe, ele acha normal a cobrança e a reclamação dos torcedores. Ele disse que a vida toda jogou para estar numa equipe como o Corinthians...
Diante dos resultados da equipe, ele acha normal a cobrança e a reclamação dos torcedores. Disse que a vida toda jogou para estar numa equipe como o Corinthians...
O excesso de artigos contribui para a impressão que alguns de vocês tiveram, de que o texto não fluía, estava preso demais.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h20
À primeira vista, pode parecer que não tem nada a ver com o tema do nosso blog. Mas não há riqueza mais escassa em jornalismo que o tempo.
Por isso, divido com vocês as informações do meu leitor Paulinho, que resolver me explicar "cientificamente" porque temos a sensação de que o tempo cada vez voa mais rápido:
Ana, como eu estou sem tempo para escrever uma explicação detalhada sobre o tempo (rsrsrs), eu selecionei alguns link’s e um texto.
Para quem tiver tempo e paciência, leia este artigo científico [ou, como explica o Roberto nos comentários, de divulgação científica]. Tem esta matéria de Marcos Davila, da Folha. E finalmente este texto, que vive circulando pela internet e dá uma explicação plausível para a sensação de que o tempo está passando mais rápido. Como eu não localizei o verdadeiro autor, nem conheço a procedência, não considero como fonte de informação. Mas o texto é bacana!
Não deixem de ler também as observações do Roberto Takata nos comentários.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h39
Aquele caso que contei aqui sobre o jornal estudantil americano que xingou o Bush levanta um ponto interessante: nos EUA, os veículos das universidades são encarados como jornais de verdade. Têm equipe contratada, editor eleito, prazos e circulação reais e faturamento publicitário (como vocês viram lá no post, a "ousadia" do jornal custou um corte de US$ 30 mil em anúncios. Sim, US$ 30 mil. Não é troco, não).
Aqui no Brasil, na maioria das escolas que conheço, os veículos-laboratório são vistos quase como "brincadeiras". Tanto faz se o aluno entrega no prazo, se a pauta é boa, se a reportagem está completa.
Só conheço um jornal que é pensado como órgão de comunicação "profissional", tem anúncios e circula fora da universidade: o "Rudge Ramos", da Universidade Metodista (que, desde , tem também versão on-line). [Se alguém conhecer outros, me avise.]
Se você gosta da idéia de fazer um jornal de verdade na faculdade, leia a entrevista que fiz com a professora responsável pelo "Rudge Ramos", Margarete Vieira, e converse com seus professores. Tente convencê-los a fazer do seu veículo-laboratório algo realmente útil para sua formação.
A íntegra da entrevista está no site do treinamento, mas coloco aqui duas respostas que acho importantes para todos:
NF - Como você descreve a evolução dos alunos, de quando entram para quando saem do jornal? Teria algum caso para contar?
Margarete Vieira - Os alunos (estagiários) que passam pela redação têm mais facilidade de desenvolver as habilidades do jornalismo no mercado de trabalho.
Normalmente saem do estágio no RRJ para um novo estágio no mercado de trabalho.
Há uma experiência bem interessante de um grupo de alunos que teve o RRJ como inspiração. Eles produziram como trabalho de conclusão de curso um projeto de jornal nos mesmos moldes do RRJ para a cidade de São Caetano. Hoje esse veículo ("São Caetano Agora", outra boa opção de pauta para o seu blog) é publicado semanalmente, há mais de 2 anos. Os alunos aproveitaram a experiência em sala de aula para se tornarem empreendedores.
Convém ressaltar que em sala de aula os alunos também ganham desenvoltura na produção da primeira para as demais pautas e passam a encarar com mais seriedade e cuidado a busca de informações, pois sabem que terão o material publicado e com leitores de fato. Não estão apenas fazendo um "trabalho para nota".
NF - Que conselho você daria para alunos de jornalismo que querem melhorar sua capacidade de trabalho?
MV - Antes de mais nada, muita leitura, sobretudo de jornal impresso, dos principais veículos de comunicação. É inconcebível que alunos de jornalismo não leiam. Além disso, a melhor forma de ganhar desenvoltura na profissão é praticar a atividade jornalística desde a sala de aula - treinar. O aluno de jornalismo deve aproveitar todas as oportunidades práticas que a Metodista oferece (muitas, se comparadas com outras instituições de ensino). Dessa forma, ao migrar para o mercado de trabalho, o recém-formado já estará familiarizado com os processos de produção do trabalho jornalístico.
OUTROS POSTS SOBRE JORNAIS LABORATÓRIO Mexeram no seu texto? Aproveite Idéias para melhorar seu jornal laboratório
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h37
Treino do Corinthians
Treino do Corinthians
Uma trainee minha foi cobrir hoje o jogo do Corinthians. Fez um texto divertido sobre o clima do Parque São Jorge, com direito a "despacho" na porta.
Mas eu sugeri uma mudança neste parágrafo. Vejam se acham que algo poderia melhorar:
O atacante Finazzi também falou aos jornalistas.Diante dos resultados da equipe, ele acha normal a cobrança e a reclamação dos torcedores. Ele disse que a vida toda jogou para estar numa equipe como o Corinthians e que fará de tudo para não ser rebaixado. “Eu não quero isso de jeito nenhum”, afirmou.
Leia aqui o comentário.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h14
Fico intrigada: por que, quando proponho um exercício de pauta, tão pouca gente arrisca palpites?
O exercício estava mal formulado? Não está claro o que quero dizer com "esquentar" a pauta, ou fornecer um gancho, um motivo para tratar do assunto?
Pessoalmente, acho que propor pautas é dos "fundamentos" mais difíceis do jornalismo. Não é por menos que os trainees fazem exercícios diários dessa habilidade.
Mas é isso: justamente por ser mais difícil é que a gente precisa tentar mais.
Uma das formas de construir uma pauta é pensar como leitor: o que vocês teriam curiosidade de ler sobre esse tema que a Raquel levanta? Como leitores, vocês teriam interesse por ele? Sentem empatia pela questão que ela levanta? Já estiveram na mesma situação? Como foram afetados por isso?
Só para lembrar algo que já disse várias vezes: não tenham medo de dar sugestões. Ninguém está aqui para julgar. O objetivo deste blog é que todos possam trocar idéias e ajudar-se uns aos outros.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h09
AQUECEDOR
AQUECEDOR
AQUECEDOR
Que tal fazer um exercício coletivo de pauta?
Minha leitora Raquel, de Ribeirão Preto, quer sugerir na faculdade uma pauta de comportamento, mas não sabe como "esquentá-la":
"Há algum tempo tenho percebido que eu não consigo mais escrever à mão de tanto usar o computador. Há duas semanas atrás minha sala teve uma prova escrita e ouvi vários comentando a mesma coisa. Queria falar sobre isso, mas num sei qual seria o lead nem por onde começar..."
A primeira coisa a notar é que há aí um bom tema de comportamento.
Como a gente sabe disso? Porque várias pessoas fizeram o mesmo comentário. Sempre que você ouvir a mesma coisa de pessoas diferentes, há um pauta vagando por ali. Corra antes que alguém a publique primeiro.
A dificuldade da Raquel é encontrar "o lide", ou seja, a novidade, o gancho, o motivo que nos leva a tratar desse assunto.
Há alguns passos que nos ajudam a pôr uma pauta de pé. Quando tiver um bom assunto, pergunte-se:
1. O que eu quero contar para o leitor? 2. Para contar isso ao leitor, que informações são necessárias? Preciso apresentar números? Quais? Preciso dar uma perspectiva histórica? Encontrar personagens? Levantar diferentes pontos de vista sobre o assunto? 3. Quem pode me dar essas informações? Quem devo ouvir para levantá-las?
Neste exemplo da Raquel, por exemplo, o que vocês sugerem para dar consistência à pauta dela? Tenho minha própria lista, mas acho que seria um bom exercício, para vocês, partir do caso concreto e deixar a imaginação e o raciocínio funcionarem.
Idéias? [Leia algumas propostas minhas]
OUTROS POSTS SOBRE PAUTAS FRIAS Pautas de comportamento para revista Como sugerir pautas frias
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h04
HISTÓRIA
HISTÓRIA
HISTÓRIA
A gente já falou aqui que, se tem uma coisa que jornalista precisa estudar, é história.
Por isso minha indicação de leitura de hoje é a entrevista da sempre ótima SYLVIA COLOMBO com um dos maiores historiadores contemporâneos, Eric Hobsbawm.
E para quem quiser ler mais, a bibliografia do autor:
“Rebeldes Primitivos” (1959) Zahar
“História Social do Jazz” Paz e Terra (1961) Publicado originalmente sob o pseudônimo de Francis Newton (de Frankie Newton, trompetista), o livro divide-se em quatro partes: história, música, negócios e gente. O crítico musical Hobsbawm _faceta menos conhecida que a de historiador_, diz que o jazz foi sempre um interesse de minoria, como o música clássica, mas o eco junto dos fãs nunca se estabilizou como na última
“A Era das Revoluções: Europa 1779-1848” (1962) Paz e Terra Hobsbawm dedica o primeiro livro da trilogia sobre a ascensão do capitalismo ao conturbado período compreendido entre a Revolução Francesa e a Revolução Socialista de Paris
“Os Trabalhadores: Estudos Sobre a História Operariado” (1964) Paz e Terra
“Revolucionários: Ensaios Contemporâneos” (1973) Paz e Terra
“A Era do Capital: 1948-75” (1975) Paz e Terra Hobsbawm analisa a difusão do capitalismo pelo mundo, no processo que levou não apenas empresas, mas nações, a uma competição global por mercados _na dialética da dependência até hoje familiar
“A Era dos Impérios: 1875-14” (1987) Paz e Terra O livro encerra a trilogia sobre o “longo século 19”, trabalho mais conhecido de Hobsbawm, com uma análise sobre o momento áureo do imperialismo europeu e as condições que levaram à 1ª Guerra Mundial
“Estratégias para uma Esquerda Racional” (1989) Paz e Terra
“Nações e Nacionalismo desde 1780” (1990) Paz e Terra
“Ecos da Marselhesa : dois séculos revêem a Revolução Francesa” (1990) Companhia das Letras Em quatro ensaios, Hobsbawm enfrenta o revisionismo e defende a interpretação de inspiração marxista da Revolução Francesa. O 1917 russo aparece como um reflexo, e realização, dos ideais de 1789
“Sobre História” (1997) Companhia das Letras Coleção de 22 ensaios sobre o objeto e o objetivo da narrativa histórica. Hobsbawm analisa temas como a importância de Karl Marx para a história, novas tendências de interpretação histórica e a relação dos historiadores com os economistas
“Era dos Extremos: O Breve Século 20 - 1914/1991” (1994) Companhia das Letras Uma história do tempo marcado pela dicotomia capitalismo-comunismo. Inicia-se na 1ª Guerra Mundial, atravessa a depressão e desemboca na 2ª Guerra como período mais violento da história. As próximas décadas veriam uma prosperidade sem precedentes, até a queda do comunismo e crise do estado do bem-estar social em países capitalistas
“Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz” (1998) Paz e Terra
“Tempos Interessantes: uma vida no século 20” (2003) Companhia das Letras A autobiografia do autor, que testemunhou muitos dos principais momentos do século 20, confunde-se com a história do período
Sylvia Colombo conta como foi a entrevista
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h09
Meu leitor Raphael, de Santo André, comentando o exercício de sábado, escreveu: "Esse último comentario mostra que o leitor não sabe o que é frugal (vou admitir que também não sabia, precisei procurar no dicionário, o que seria bem chato durante a leitura do jornal). O que voce acha, Ana? Devemos usar palavras mais difíceis, que uma grande parte do público nao conhece, ou trocamos por um sinônimo que facilite a interpretação do texto?".
Vai depender muito da palavra e da situação. Como quase tudo na vida, depende de bom senso.
Devemos evitar textos herméticos, cifrados, mas também acho bom que a gente use um vocabulário rico, preciso.
Mas o mais importante para mim é que o Raphael fez muito bem em procurar a palavra no dicionário. É assim que se aprende. Isso vale para a profissão. Ignorar não é pecado. Pecado é perseverar na ignorância.
Ninguém é obrigado a conhecer o significado de todas as palavras nem a resolver as charadas que o jornalismo nos coloca todos os dias. Mas isso não é desculpa pra ficar parado.
Não sabe? Pergunte. Errou? Aprenda com o erro. É assim que a gente cresce.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h49
Para mim faltou malícia no textinho didático que acompanhou a frase do senador Wellington Salgado sobre seus colegas franciscanos.
Foi ótima a intenção de "explicar a referência", mas o principal ficou de fora: é da oração de são Francisco a famosa frase que se tornou símbolo da fisiologia parlamentar: "É dando que se recebe".
O PMDB se assume franciscano. Para o textinho, assumiu-se "humilde, frugal". Hummmm, sei não.
Vale a pena reler o texto do editor de Brasil, contra a ingenuidade.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h15
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