Leitura de domingo
Vale a pena usar algum tempo do fim de semana para ler a entrevista com o Alencar, no site Profissão:Repórter.
Não está claro no site, mas ela parece ter sido feita por e-mail, o que em geral empobrece o resultado. Neste caso específico, como o Alencar escreve muito bem, o fato de ter sido por escrito (se é que foi, mesmo) acaba trazendo uma compensação.
Quem quer ser repórter ou gosta do assunto aproveite e leia outras entrevistas com alguns dos melhores jornalistas do país. Há escolha para todos os gostos: são 25 entrevistados.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h56
Acho que não deixei bem claro por que sugeri que, se o jornal só faz crítica de restaurante a convite, uma solução seria incluir mais de um nas reportagens.
É que quando o restaurante convida, claro, ele pode caprichar bem na comida e no serviço.
Mas, se você incluir mais de um na reportagem, poderá compará-los independentemente disso. Ou seja, nas melhores condições de serviço e cozinha, um vai bem nisso, outro vai melhor naquilo, um terceiro foi o mais lento etc.
Isso vale para qualquer informação: comparações sempre melhoram a informação, porque colocam o fato em contexto (desse assunto nós já falamos).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h19
Mandada por meu amigo EVANDRO SPINELLI:
Em entrevista no blog do Maklouf, Alencar revela a figura que era. Perguntado sobre como e por que se tornou repórter, ele responde: "É obvio: para mudar o mundo. Busco o furo para atrair o leitor, apuro com rigor para merecer sua confiança e escrevo caprichado para ver se o vicio em textos".
[Tinha colocado no post abaixo, mas a frase é tão boa, tão boa, que merece um post só para ela. A íntegra da entrevista pode ser lida aqui]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h00
A primeira coisa que me chamou a atenção naquele jornalista ossudo, de cabelos brancos, é que tinha um olhar espantado. Fazia mais impressão que seus quase dois metros, pelos quais era chamado de Zezão ou Zé Grandão.
Olhar e altura eram, na verdade duas cicatrizes. Ou duas provas de persistência. "O Zé ficou cego, conseguiu voltar a enxergar, graças a uma lente de contato que ele mesmo bolou. Quebrou a espinha e voltou a andar, embora alguns centímetros mais baixo", contou Nassif.
"Muito prazer" foi tudo o que falei com ele na vida, embora tenha ouvido muito. Foi há um mês, quando o conheci no congresso da Abraji.
Ele falou sobre fundamentos da reportagem. Estava quente e abafado na sala de aula. Na saída, sentiu-se mal, sentou-se num banco, seus olhos pareciam ainda mais arregalados enquanto todos se aglomeravam em volta.
Deu para ver como gostavam dele.
Neste dia dos namorados, terça-feira, ele morreu. Muitos deram depoimentos que me fizeram perceber que os olhos não eram espantados, assustados. Eram bem abertos, mesmo, pra ver tudo o que acontecia. Coisa de bom repórter.
Apesar de grande, incontestavelmente grande jornalista, naquele banco da faculdade ele parecia muito frágil. Mas era força, entendi depois, lendo o Nassif. Força de vontade. Vontade de ensinar, de continuar. O homem tinha passado por uma cirurgia, mas viajou de Minas pra São Paulo para falar no congresso, no sacrifício, diz Nassif.
Reuni aqui no blog algumas frases sobre (e de) José Alencar. Para nos lembrar do que podemos tentar fazer na profissão:
"Pela teimosia, não se contentava apenas com a informação oficial. Acho que, lá em cima, vai contestar essa história mal contada de fazer o mundo em sete dias". Jorge Oliveira
“(...) Jornalismo é a primeira – o resto é resto. Adoro a capa, ribalta da efêmera glória matinal: ao meio-dia, jornal já é papel de embrulho nada higiênico”. Alencar, em seu livro "Sorte e Arte"
"O que ele chama de arte é suor; o que diz ser sorte é puro talento". Sérgio Buarque de Gusmão, no prefácio de "Sorte e Arte"
"Nas vezes que o visitei, na UTI, quando o assunto era jornalismo ele se animava, juntava fôlego para discursar". Luis Nassif
"Um tipo de jornalista investigativo cada vez mais raro: o repórter alegre, que se divertia com suas aventuras". Frederico Vasconcellos
"Não apenas por dominar as técnicas e as malícias da boa investigação. Mas por se movimentar profissionalmente com seu coração bom e imenso, com seu incrível caráter". João Baptista Natali
“Fazer jornal é estafante, mas ainda é melhor do que trabalhar”. Alencar, citando Audálio Dantas
Casos da vida de José Alencar contados por Luis Nassif
Biografia do José Alencar e depoimentos sobre ele, no site da Abraji
Veja aqui livros que ele publicou

EVANGELHO DO REPÓRTER
Mandada por meu amigo EVANDO SPINELLI:
Em entrevista no site do Maklouf, Alencar revela a figura que era. Perguntado sobre como e por que se tornou repórter, ele responde: "É obvio: para mudar o mundo. Busco o furo para atrair o leitor, apuro com rigor para merecer sua confiança e escrevo caprichado para ver se o vicio em textos".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h45
Café e chocolate
Você é repórter de turismo e vai fazer uma reportagem sobre Jericoacoara a convite de um hotel. No texto, você fala dos concorrentes?
E se o hotel tiver falhas: for muito caro ou a água quente acabar no meio do banho. Você publica?
Sua matéria terá que avaliar restaurantes. Você se identifica? E se precisar de uma receita de um prato que só eles fazem?
Nova pergunta, sugerida pela Renata, de Pernambuco: e se, no seu jornal, não há verba para fazer a matéria sem se identificar, e as críticas de restaurante são feitas só a convite? Como contornar essa situação?
O exercício hoje é noturno. O comentário vem amanhã à tarde.
Responda sem medo de errar. Se você é novo no blog, veja aqui outros exercícios e reassegure-se: pode dar sua opinião livremente. O objetivo não é acertar ou errar, mas pensar sobre a profissão.
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Acho o seguinte:
1. convites devem ser aceitos desde que fique bem claro que o jornal fará uma cobertura isenta.
2. diga isso expressamente: "Vou consultar a direção do jornal para saber se posso aceitar o convite, mas é preciso que o senhor saiba que o jornal não se compromete a falar de sua empresa e que, se falar, será de forma isenta".
3. matéria de turismo é serviço. Deve obrigatoriamente dar várias opções, portanto deve falar de concorrentes, sim.
4. com certeza pontos negativos devem ser abordados. Mas lembre-se de que, para o leitor, você é um guia. Seus comentários vão influenciar o leitor e, portanto, o destino do estabelecimento. Portanto, não seja leviano. Ouça o gerente do lugar sobre os problemas que encontrar. O famoso "outro lado" vale aqui também.
5. acho quase impossível avaliar um restaurante que sabe que você é repórter. Só faria isso se a matéria fosse objetiva: dizer que pratos há no cardápio ou quais os ingredientes da moqueca. Ou sobre a arquitetura e a decoração do salão. Qualquer comentário sobre serviço e comida fica prejudicado. A única saída, ainda que paliativa, é avisar o leitor do convite.
6. se seu jornal só faz esse tipo de reportagem com convites, uma opção seria fazer matérias com mais de um estabelecimento. Por tipo de comida, por exemplo, ou "os três que abriram este mês", ou "os quatro mais antigos da cidade", ou "os que têm maitre mulher" etc. [Adendo: comparando lugares, você elimina o fator "capricho". já que todos estarão caprichando ao máximo. É possível, então, mostrar ao leitor que, nas melhores condições possíveis --com todos sabendo que você é jornalista--, um se sai melhor numa coisa, outro, noutra e assim por diante.]
7. sobre a receita, para manter o anonimato na hora da "experimentação", eu ligaria depois para pedir. Dessa vez, claro, diria que sou repórter.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h48
Rádio e vida dupla
Fiquei devendo um texto maior sobre a "vida dupla".
A história do Gabriel e os comentários de vocês me fizeram pensar sobre alguns pontos:
Qual o problema de trabalhar em dois veículos?
A maior dificuldade, a meu ver, é ter a mesma função nos dois. Por exemplo, ser repórter de polícia no jornal e no rádio.
Uma coisa é ser colunista de esporte no jornal e repórter de esporte no rádio, ou ser produtor na rádio e repórter de economia no jornal.
Fica bem mais fácil separar as pautas, nesse segundo caso, ou os enfoques, no primeiro.
Mas ser repórter de geral tanto num como no outro provoca ruídos, por mais que sejam linguagens diferentes.
Porque notícia é notícia, seja no rádio, seja no jornal.
Na Folha, por exemplo, nenhum repórter pode trabalhar nessa função em outro veículo, seja ele qual for. Justamente para evitar esse tipo constante de atrito.
Mas eu trabalho em dois lugares. Como minimizar os problemas?
Em primeiro lugar, é preciso que os dois patrões saibam que você trabalha em dois lugares, como lembra o Marcelo.
De preferência, o ideal é ter funções diferentes em cada veículo. Já elimina 80% dos conflitos de interesse.
Se não houver outro jeito e você realmente precisar ter a mesma função, é importante discutir abertamente com os editores sobre a possibilidade de fazer a mesma pauta para os dois e quais os limites disso.
Quando a notícia é do repórter? Quando é do jornal?
O Leonardo, de Brasília, escreveu: "Se eu descobri, a matéria é minha, posso divulgar onde quiser". Faz sentido. Eu precisava ter feito uma distinção, que vou tentar fazer agora, sempre tendo em mente que seus dois chefes sabem da sua vida dupla e concordam com ela:
A notícia é do jornal quando:
Você foi pautado por ele. Se é uma exclusiva, claro, fica fácil. Mas nem sempre é assim. Por exemplo, mandam você entrevistar o prefeito e ele dá uma declaração nova e forte, perfeita para ir ao ar pela rádio.
A não ser que seu editor permita (e, seu eu fosse ele, jamais abriria mão da exclusividade), não dá para usar a fala no rádio.
E se for uma coletiva e sua rádio não tiver mandando ninguém? Aí talvez seu editor do jornal permita, mas, mesmo assim, é prudente perguntar antes.
A notícia é sua quando:
O jornal manda você entrevistar o prefeito e, no meio do caminho, você encontra um acidente, uma manifestação, algo quente que seria ideal noticiar naquela hora.
A não ser que seu editor tenha expressamente proibido que você reporte para o rádio em seu horário de trabalho no jornal, não vejo problema algum.
Jornalista tem horário de trabalho?
Parece uma questão idiota, mas não é. O Leonardo diz: "jornalista não trabalha só no seu expediente". A Carol, de São Paulo, pensa de outra forma: "Respeitaria o meu horário de trabalho e apenas repassaria a informação para quem estivesse na rádio pudesse apurar e divulgar".
Esse é um ponto delicado. Em princípio, claro, todo mundo tem horário de trabalho e recebe só por ele.
Mas minha experiência é que, na prática, não é assim.
E não porque o patrão explore o empregado --ou não só por isso, em alguns casos--, mas porque a maioria dos bons jornalistas é jornalista em tempo integral.
Pautas e coberturas aparecem nos horários mais imprevisíveis e quem realmente gosta da profissão acha isso divertidíssimo.
Rádio não dá furo?
A Carol argumenta que, se a informação é boa para o rádio, não deve ser furo. Mas eu discordo. Claro que rádio dá furo. Jornalismo de rádio não cobre só coletivas, press-releases e agenda.
Pensando no exemplo do nosso exercício, o que ocorre é quase o contrário: o repórter quer dar logo no rádio, e não esperar a edição do dia seguinte do jornal, justamente porque quer dar o furo, divulgar antes a informação.
E é justamente aí que o dilema é maior. Deve ser duríssimo ter que segurar um furo até o dia seguinte, correndo o risco de perder a exclusividade, quando é possível colocá-lo no ar em instantes... "Oh! Dúvida cruel!", diz a Madai.
Mas, como dizem ela, o Fábio e a Priscila, se o jornal quer manter o furo, é preciso respeitá-lo.
Leia aqui o exemplo do Gabriel, de Aracaju, que deu origem a essa discussão.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h05
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h58
Trabalhar em dois veículos diferentes, como faz o Gabriel, de Aracaju, tem suas dores de cabeça, como ele mesmo nos contou.
Mas vale a pena pensar no que o jornalista de meio impresso pode aprender com a linguagem de rádio.
O Poynter termina hoje um curso de três dias sobre como escrever para rádio.
No primeiro dia, Peter King, da CBS, falou sobre como fazer textos curtos (você pode ler aqui as dicas, em inglês).
No segundo, Valerie Geller, professora de jornalismo em rádio e TV, ensinou a escrever "visualmente" (o relato, em inglês, está aqui).
Hoje o dia é menos sobre texto e mais sobre imagem, som, multimidia: Howard Berkes, da National Public Radio, vai ensinar como integrar as linguagens.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h55
Complete as lacunas
Meu 195º trainee, SALVATORE CARROZZO, sugere um exercício interessante. Ele me mandou dois textos publicados em jornais on-line já faz algum tempo. Que informação relevante faltou no primeiro texto?
TEXTO 1
A Polícia Civil de Jarinu já identificou o proprietário do veículo Mitsubishi Space Wagon, cujo motorista atropelou sete pessoas da mesma família por volta das 23h de sexta-feira (18) na altura do quilômetro 74 da SP-354 (Edgard Máximo Zamboto), em Jarinu (71 km de São Paulo). Cinco das vítimas morreram na hora e duas tiveram ferimentos leves.
O delegado João Jorge Ferreira da Silva, responsável pelo caso, preferiu não revelar o nome do proprietário, visto que ainda não se sabe se ele era o condutor do veículo no momento do acidente. Segundo a Polícia Civil, as investigações continuam.
A Polícia Rodoviária Estadual de Atibaia (60 km de São Paulo), que registrou o caso, não soube informar o que teria causado o acidente.
O carro que atropelou as vítimas foi encontrado dez quilômetros a frente do ponto onde aconteceu o acidente, no município de Campo Limpo Paulista (57 km de São Paulo). Até o início da tarde deste sábado, o motorista não havia sido localizado.
As vítimas foram identificadas pela Polícia Rodoviária Estadual como Ana Lúcia Ferreira de Souza Silva, 40, Daniele Braz da Silva, 20, Carol Souza da Silva, 12, Suelen Souza da Silva, 13, e Ester Souza da Silva, 6. Outras duas adolescentes sofreram ferimentos leves.
As vítimas foram enterradas no fim desta tarde no Cemitério da Saudade, em Jarinu.
TEXTO 2 Foram enterradas no final da tarde deste sábado (19) as cinco vítimas de um atropelamento na cidade de Jarinu, a 71 km de São Paulo. Uma mulher e quatro filhas morreram no acidente, ocorrido no km 74 da Rodovia Edgar Máximo Zambotto na noite de sexta-feira (19). Outras duas pessoas ficaram feridas.
De acordo com a Polícia Rodoviária Estadual, por volta das 23h30 um carro invadiu o acostamento e atropelou Ana Lúcia Ferreira Souza Silva, de 40 anos, e suas seis filhas, que voltavam de um culto evangélico. A família mora no bairro Trieste, a cerca de 300 metros do local do atropelamento.
Ana Lúcia e as filhas Daniele Braz da Silva, de 20, Suélen Souza da Silva, de 13, Ester Souza da Silva, de 6, e Carol Souza da Silva, de 12, morreram no local. Elas foram sepultadas no Cemitério da Saudade, em Jarinu.
Ana Jessica Souza da Silva, de 16 anos e Andressa Souza da Silva, de 12, foram encaminhadas ao pronto-socorro de Jarinu, com ferimentos leves. O motorista fugiu, mas a polícia encontrou o veículo - um Mitsubishi Space Wagon - abandonado no km 63 da rodovia, a onze quilômetros do local do acidente.
Até o início da noite, a identidade do proprietário do veículo não havia sido divulgada pela Polícia Civil da cidade, que continua à procura do motorista. De acordo com o delegado João Jorge da Silva, ele deve ser indiciado por homicídio culposo - quando não há intenção de matar - e omissão de socorro.
À polícia, as duas vítimas que sobreviveram contaram que estavam caminhando no acostamento, em sentido contrário ao que vinha o veículo. O carro, segundo elas, estava com os faróis apagados e trafegava em alta velocidade. Antes do atropelamento, o motorista teria ainda acendido os faróis.
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Legal, vocês foram atentos na leitura.
Notem que um dos pontos que vocês levantam --para mim, fundamental--, o de que cinco pessoas eram da mesma família, é um exemplo de algo fundamental em jornalismo: o que faz este caso diferente de outros? O que é específico, particular deste caso? Por que este não é só mais um caso de atropelamento?
É isso que a gente precisa procurar em toda reportagem que fazemos.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h18

Steve Doig já ganhou um Pulitzer [o único prêmio que realmente importa, dizem os cobras e os veteranos] por uma reportagem feita no "Miami Herald". Hoje é professor da Universidade Estadual do Arizona.
No mês passado, Steve conversou com os jornalistas da Folha e os trainees sobre como investigar e como contornar os riscos. Segue um resumo:
Há três maneiras de cobrir problemas sociais:
- esperar que alguém (uma "autoridade") faça um estudo sobre a realidade e divulgue
- na ausência de dados, juntar "anedotas" sobre o problema --personagens, casos, comentários de especialistas
- estudar o problema pessoalmente
As duas primeiras são as mais freqüentes nos jornais. A primeira tem o defeito de não dar ao repórter controle sobre os fatos: é preciso acreditar no estudo do especialista. Na segunda, falta informação: há uma diversidade de opiniões e versões, mas o leitor fica no ar.
A terceira é a mais forte, do ponto de vista informativo. O repórter não depende da palavra de alguém. Ele viu, constatou, relacionou os dados.
Por que, então, não é mais comum? Porque dá mais trabalho e implica maiores riscos:
- obter os dados e trabalhá-los (a chamada RAC -reportagem com auxílio de computador) é mais demorado que pegar um estudo pronto
- é preciso saber o que se quer tirar dos dados --os computadores só fazem o que nós mandamos eles fazerem
- é preciso conhecer os assunto --dados errados têm a mesma cara que bons dados. Se a conclusão estiver errada, o responsável será você
- RAC faz um bom repórter trabalhar melhor, mas não melhora um repórter fraco
- RAC é só o começo: quando você termina o levantamento e chega a um resultado, ainda precisa começar a entrevistar gente e apurar causas, conseqüências etc.
Os erros mais comuns:
- descuido na organização dos dados: um erro na hora de classificar uma tabela no Excel, por exemplo, pode trocar centenas de informações de lugar
- erro de interpretação. Exemplo que ele deu: estavam fazendo uma matéria cruzando morte de criança e renda de vários bairros. Viram que um dos bairros mais pobres tinha um índice altíssimo de mortalidade. Ainda bem que foram tentar entender o fenômento antes de publicar besteira: um dos principais hospitais da cidade ficava nesse bairro, o que aumentava o número de mortes
- dados ruins. Exemplo: fizeram uma matéria sobre condenação de motoristas embriagados. Quando estavam com a tabela pronta, os dados cruzados, cálculos feitos etc., notaram que havia lugares sem qualquer condenação. Esses motoristas eram absolvidos??? Não. O problema é que os dados que a Justiça tinha passado só incluíam multas e prisões. Tinham esquecido as penas de prestação de serviço público.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h17
A Controladoria Geral da União faz a partir de amanhã em Brasília um seminário de combate à corrupção. Bom pra pegar os contatos dos especialistas na área.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h11
A sinuca dos dois empregos
Você trabalha como repórter para uma rádio e um jornal diário.
Gosta dos dois empregos e quer continuar nos dois.
Durante seu horário de trabalho no jornal, topa com uma informação que seria ideal divulgar na rádio.
O que você faz?
[Não tenha medo de dar uma opinião "errada". O objetivo do exercício é pensar sobre decisões que temos que tomar no dia-a-dia da profissão.]
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Vocês disseram várias coisas interessantes nos comentários. Vou voltar a elas amanhã, mas queria antes contar que o caso acima é uma dúvida real que acomete o Gabriel, de Aracaju.
Ele tem "vida dupla": cobre polícia em um jornal diário e trabalha numa rádio afiliada da rede Bandeirantes, onde cobre todos os assuntos e fica o tempo todo "circulando pelas ruas da cidade".
Embora adore os dois empregos e se esforce para separar as duas funções, isso o coloca às vezes numa sinuca:
Há algumas pautas em que dá para manter como exclusividade em um dos veículos, isto é, não aproveitar para o jornal o que fiz na rádio. E vice-versa. Outras vezes, impossível.
Uma vez, senti-me pressionado em uma reunião, isso porque uma fonte ligou para a diretora de uma das empresas perguntando se fazíamos parte de um mesmo grupo. Reclamaram, e eu quase me demiti do jornal. No outro dia, pedi para ser escalado como produtor. Nos dois lugares, demoveram-me da idéia. Todos gostam do meu trabalho.
De que forma eu posso administrar isso? Como posso ser melhor no meu desempenho diário? Há vezes que tenho um bom dia em uma Redação e não na outra. As vezes nas duas. E outras em nenhuma.
O próprio Gabriel sugeriu que eu consultasse o FÁBIO SEIXAS, meu colega na Folha, editor-adjunto de Esporte e colunista de automobilismo, que já passou pelo mesmo dilema [ele contou isso aqui no blog, numa entrevista sobre como é cobrir F-1].
Com a palavra, então, Fábio Seixas:
Gabriel, Sofri com este dilema em várias ocasiões, por muito tempo. Qual veículo privilegiar? É justo/honesto "guardar" uma informação para o jornal em detrimento da rádio? É justo/honesto "furar" o jornal divulgando, no rádio, uma informação exclusiva em primeira mão?
Se a informação é pública, se é algo ao qual minha concorrência tem ou terá acesso, não há porque não divulgar logo _portanto, no rádio. O dilema, entendo, acontece quando a informação é só sua, ou quando você acredita ser assim.
As respostas não são fáceis, tampouco universais. Acho que cada um, do seu jeito, encontra uma solução, a sua própria solução. Para encontrar a minha, comecei tentando entender melhor quais eram os interesses da rádio para o qual trabalhava como repórter (Bandeirantes e BandNews) e do jornal (Folha), assim como as idiossincrasias de cada mídia.
Eu sempre escolhi entrar no ar na rádio e dar a informação imediatamente. A obrigação do jornalista é divulgar o fato com a maior precisão, o mais rápido possível. E o rádio atende a esse anseio como nenhum outro veículo.
Falei, antes, em idiossincrasias. Pois bem, a do rádio é ser dinâmico e isso se reflete na forma: textos curtos, rápidos. Uma entrada no ar normalmente não leva mais de 2, 3 minutos. Diversas vezes, ouvi colegas de rádios e de TVs reclamarem da falta de espaço. "Queria poder escrever textos mais longos, mais elaborados", é uma queixa constante.
Pois aí está a sua/nossa sorte. E a minha solução para o dilema. Eu desovava no jornal toda essa verve analítica tolhida, por natureza, do rádio. É mais ou menos o que acontece milhares de vezes por dia, no embate internet x papel. Não adianta reproduzir no jornal, na forma, aquilo que já estava na rede na véspera.
Enfim, eu resumiria tudo isso na seguinte frase: não se apegue ao conteúdo, ao factual; apegue-se a esta variedade de formas. É muito mais divertido e prazeroso.
Para ver outros exercícios já discutidos neste blog, clique aqui
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h22
Como fazer frilas
Minha leitora Mariana pergunta:
como funciona o trabalho de um free-lancer? Já tive algumas idéias de pautas pra veículos ou cadernos específicos (como por exemplo, para o Folhateen e para o Equilíbrio, da Folha), mas não soube como agir. Faço a matéria e mando? Ou tento conversar com alguém pra ver primeiro se a pauta emplaca? E nesse caso, com quem falar? E não corro o risco de sugerir uma pauta bacana e "perdê-la" pra algum repórter do próprio jornal?
Mariana, cada jornal funciona de um jeito, mas eu sugiro o seguinte:
1) escreva para o editor do caderno e sugira a pauta antes de fazer a matéria. Um bom editor sempre terá questões e orientações que vão mudar ou ampliar sua concepção original.
2) seja objetiva e específica. Diga logo de cara que quer sugerir uma pauta e qual é ela.
3) o risco de ter sua pauta "roubada" existe, claro, mas nos grandes jornais as pessoas costumam ser honestas. A opção é sugerir sem detalhes: "Tenho uma sugestão de pauta muito legal sobre um grupo de jovens de classe média que voluntariamente optou por viver na pobreza". Não precisa dar o nome do grupo, a cidade, o endereço etc.
4) mande com a sugestão um currículo sucinto: formação, outros cursos, idiomas e experiência profissional. Mande no corpo da mensagem, não anexado. Ofereça-se para mandar um texto, se o editor quiser ver como você escreve.
5) se não responderem, há alguns motivos possíveis: a) o editor não viu sua mensagem (recebe dezenas de e-mails e vai apagando sem ler direito); b) viu, gostou, mas não teve tempo de responder; c) viu, gostou, mas era uma pauta que eles já estavam tocando (nem sempre sua pauta foi "roubada"; boas idéias em geral ocorrem a mais de uma pessoa); d) o editor não gostou. Nos quatro casos, a solução é insistir.
6) garanta uma avaliação. Se o editor responder negativamente, peça que ele lhe explique o motivo. É importante saber se foi por falta de verba, se a sugestão era inadequada para o caderno, se o editor viu algum problema na sua pauta. Cada motivo exigirá uma atitude diferente.
UM EXEMPLO CONCRETO
O leitor Gabriel conta sua experiência.
A "pauta" surgiu sem querer: estava pesquisando por curiosidade em edições anteriores da Folha sobre uma banda e vi uma coluna do Álvaro Pereira Jr. e uma outra do Lúcio Ribeiro falando sobre o fim do Beavis & Butthead. Além disso, falavam sobre o cenário pop da época [1997] e imaginavam o que viria a seguir.
A coluna do Álvaro fazia exatos 10 anos. Pensei em fazer uma matéria sobre o atual cenário pop, o que aconteceu, em comparação às análises dos dois colunistas.
Eu e uma amiga fizemos a matéria e entramos em contato com os editores de cultura e do caderno para adolescentes. No site do jornal, conseguimos os contatos. Mandamos a proposta para o endereço geral do jornal --nos responderam encaminhando para algo mais específico, ou seja, os editores daquelas editorias.
A dúvida era se mandava já a matéria de uma vez ou se mandava apenas a proposta de pauta. Como a proposta eram os exatos 10 anos após a coluna, tinha urgência para sair. Por causa disso, decidimos mandar a matéria, que não era muito longa. Ficamos com medo de recusarem nossa matéria e passarem para o próprio Álvaro fazê-la, já que o gancho era uma coluna dele.
Não vingou, porque não ficou com cara de matéria. Ficou mais um artigo e nos disseram que isso era mais para quem era da "casa". Entendemos, mas também obtivemos resposta de outro editor, dizendo que nossa matéria estava um pouco crua.
Respondi que não estava insistindo em querer vendê-la e que tudo bem não servir, mas que gostaria de uma análise mais detalhada sobre como melhorar, o que mudar, qual melhor abordagem, para numa próxima vez, ser mais fácil inclusive para a própria redação entender a proposta.
A resposta obtida foi a explicação dos pontos "falhos" e o que poderia ser mudado. O editor foi muito atencioso e solicito. Uma ajuda como se fosse de um professor.
Como sempre, não custou nada perguntar, e o retorno foi totalmente positivo!
Com certeza, numa próxima vez, enviarei a proposta com antecedência, para saber as idéias do editor e, com tempo, poder trabalhar melhor a pauta.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h11
Chip Scanlan reproduz em sua coluna um conselho dado pelo escritor russo Anton Tchecov a Maximo Gorki em 1899:
"Quando revisar seus textos, tire adjetivos e advérbios sempre que puder. Você usa tantos deles que o leitor se desconcentra e termina por cansar. Você me entende quando eu digo "O homem sentou-se sobre a grama". Entende porque a sentença é clara e nada distrai sua atenção. Mas o cérebro lutará para entender se eu digo "O alto homem de peito estreito e barba ruiva sentou-se sobre a verde grama pisoteada pelos transeuntes, sentou-se silenciosamente, olhando entre timidamente e medrosamente". Isso não faz sentido imediato, o que um bom texto deveria fazer, e rápido.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h42
É comum a pergunta: o que é jornalismo investigativo? Todo jornalismo não investiga?
Marcelo Beraba, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, pensa assim:
Quando formamos a Abraji, em 2002, tivemos uma longa discussão sobre isso. Alguns ponderaram, com razão, que todo jornalismo deve ser investigativo, no sentido de que deve usar as técnicas consagradas para a boa apuração. Para o leitor, um erro de informação numa nota de serviço ou no uso incorreto de um documento têm o mesmo efeito de perda de credibilidade. A apuração de uma nota de serviço deve nos exigir o mesmo rigor que a apuração de uma reportagem maior.
Em relação a este ponto estávamos todos de acordo. A insistência em chamar de jornalismo investigativo vem do fato de que este gênero do jornalismo está consagrado, tem currículo próprio nas escolas de alguns países, tem literatura própria e, de fato, merece uma distinção em relação à apuração de outros gêneros.
Quando falamos em fundamentos do jornalismo ou fundamentos da reportagem, estamos falando das técnicas que devem nortear todas as apurações, seja de uma nota, de uma notícia, de uma reportagem. Mas o dia-a-dia nos mostra que há reportagens que exigem um trabalho de investigação e de comprovação dos fatos mais complexo do que o normal (não necessariamente mais demorado, embora a reportagem investigativa esteja associada indevidamente ao tempo que se tem para fazê-la).
O que vai distinguir, na minha opinião, uma boa reportagem investigativa é a sua precisão, o domínio do assunto que está tratando, a sua relevância, a comprovação dos fatos apesar dos obstáculos que encontramos.
O jornalismo tem condições e o dever de produzir investigações próprias, a partir de temas que interessem à população, sem pretender substituir a polícia, o MP ou a Justiça.
Um erro comum entre nós é o de achar que a divulgação de investigações das polícias, do MP, da Justiça, das CPIs ou de outros entes de fiscalização seja reportagem investigativa. É divulgação _e é muito importante. Uma parte do papel do jornalismo é esse, o de divulgar fatos.
Mas as Redações não devem estar restritas à divulgação, devem ter um trabalho próprio que traga fatos novos que provocarão a polícia, a Justiça ou o MP, que vá além dos fatos revelados pela polícia, pela Justiça, pela CPI ou pelo MP.
A definição clássica do jornalismo investigativo tem, como um dos requisitos, a busca de informações sigilosas que pessoas ou instituições querem esconder. Mas isso também não funciona bem assim na prática. Um dos grandes problemas nossos hoje é exatamente o de não saber buscar informações relevantes, comprobatórias, que estão disponíveis e não sabemos como achá-las e usá-las. Dispomos hoje de centenas de bancos de dados e de informações oficiais e privados e não os utilizamos.
O mérito da série do Globo sobre enriquecimento dos deputados estaduais do Rio está em mostrar, com documentos oficiais, todos disponíveis em bancos públicos (TRE, cartórios, Detrans, Junta Comercial etc.) e, portanto, acessíveis, como foi a evolução patrimonial e o enriquecimento súbito daqueles parlamentares.
É claro que em várias ocasiões a investigação jornalística vai esbarrar nas mesmas dificuldades que a polícia ou uma CPI tem para investigar, principalmente em crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa. Mas isso é apenas uma parte dos assuntos importantes que temos para investigar no nosso dia-a-dia em esportes, cidades, meio ambiente, políticas públicas, recursos públicos, orçamentos, cultura etc.
Na minha opinião, o mais importante para definir reportagem investigativa é que seja um trabalho próprio (do repórter e da empresa), consciente, preciso, bem documentado, de um tema relevante.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h03
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