Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Quanto ganham os jornalistas

O Comunique-se publica um levantamento de salários no país.

Infelizmente, a nota não diz quem fez a pesquisa, nem quando, nem qual o universo pesquisado.

Mas serve como curiosidade.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h04

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Matou o marido em legítima defesa

Sobre o post "Confissões perigosas", Ricardo faz várias perguntas. Pedi ao nosso professor de direito, Gustavo Romano, que respondesse:

Pergunta: Você diz que devemos tratar o acusado sempre de acusado até o trânsito em julgado. Quando isso aconteceu, você não trata mais de suspeito e sim condenado, correto?

Resposta: Correto.

Pergunta: Mas qdo é condenado, podemos dizer que ele fez aquilo? Em casos de tribunal do júri, normalmente acabamos dizendo: Tribunal condena fulano a 10 anos pela morte de .... E aí?

Resposta: O ideal é dizer que "foi condenado a x anos por matar e não cabe mais recursos". Se faltar espaco, diga que "foi condenado a x anos por matar".

Mas mesmo que você diga "matou", não está sujeito a processo.

Não é uma boa prática, especialmente no Brasil, com tanto erro em condenação, mas juridicamente você está protegido (na Inglaterra [onde mora o Gustavo] é assim mesmo que fazem: transitado em julgado, eles dizem que matou).

Pergunta: Nesse tempo, peguei uma história assim: a mulher confessou que matou o marido e alegou legítima defesa. Nesse caso, posso dizer: Justiça inocenta mulher que matou marido em legítima defesa? Ou mais adequado seria ainda assim dizer que é acusada. É que fica estranho dizer que é acusada de matar o marido em legítima defesa, voce não acha?

Resposta: São duas coisas distintas. Uma coisa é Fulana ser presa ou suspeita e alegar legítima defesa. Nesse caso, diga exatamente isso.

Outra coisa é alguém ser acusado e alegar legítima defesa como sua forma de defesa --isso tem que ficar claro.

Por fim, ninguém é "acusado de matar em legítima defesa". Se o Ministério Público está convencido de que houve legítima defesa, ele não apresenta a acusação (para que submeter alguém a tal estresse se tem certeza de que foi legítima defesa?!).

Neste exemplo que você cita, Ricardo, a moça foi processada e julgada? Em que momento a defesa usou como argumento a legítima defesa? É isso que precisa ficar claro, se entendi bem a resposta do Gustavo.

Uma observação final: "alegar" significa apresentar uma justificativa a uma acusação. Você usou o verbo no sentido correto. Mas eu sempre recomendo aos trainees que evitem o termo, porque ele tem uma carga negativa. Sempre dá a impressão de que se trata de uma "desculpa", de um "falso argumento".

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h28

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Como você faria este lide?

Como você faria este lide?

Um dos meus trainees me mandou ontem à noite um texto, ainda inacabado, pedindo sugestões.

Estes eram os dois primeiros parágrafos:

Após sete meses de investigação, a Polícia Federal desvendou um esquema de tráfico de drogas que partia de dentro do presídio Aníbal Bruno, em Recife, o maior de Pernambuco. O detento Ednaldo Henrique da Silva, 40, conhecido como Edinho, é suspeito de ser o comandante da operação. Segundo a polícia, ele acumulou um patrimônio de R$ 1 milhão durante os dois anos em que está preso.

Edinho ficou milionário vendendo maconha com a ajuda de um gerente de banco. A negociação era feita por celular a partir da prisão. Carros e motos eram oferecidos como garantia em troca de empréstimo bancário. O dinheiro era repassado a dois homens que compravam a droga. Com o dinheiro do tráfico, Edinho pagava a dívida com o banco.

O que vocês acham? Como fariam o lide? No fim da tarde eu digo o que sugeri a ele.

COMENTÁRIO DO FIM DA TARDE

Vocês pensaram bem. Na hora de fazer o lide, uma das perguntas principais é "qual é a novidade"?

Tráfico nas prisões é assunto jornalístico, claro, mas não chega a novidade por si só.

E este caso tem algo particular: o preso ficou milionário dentro da cadeia!!!! E o esquema que ele montou com a ajuda do gerente é incrível!

Pra quem, como meu trainee, está começando agora: nem sempre é fácil achar o melhor lide. Não se deixe bloquear por isso. Sente e escreva o lide que lhe vier à cabeça. Quando terminar os dois ou três primeiros parágrafos, faça uma pausa e releia.

Em geral, você terá colocado ali as informações principais. Nessa hora, analise se elas estão na melhor ordem.

Faça o teste do celular sem bateria: se fosse contar pro namorado que matéria você apurou hoje, mas sua bateria estivesse acabando e só desse pra dizer uma frase, qual seria? A PF desvendou um esquema de tráfico de drogas que partia de dentro de um presídio de Recife? Ou "Um preso ficou milionário em Recife dentro da cadeia, traficando maconha com a ajuda de um gerente de banco"?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h41

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Multimídia

Multimídia

O Poynter, um dos melhores institutos de formação jornalística que conheço (fica na Flórida, EUA), tem quatro cursos de jornalismo multimídia já programados para este ano (clique aqui e leia a última nota da coluna).

São para quem faz (ou quer fazer) jornalismo on-line integrando texto, áudio e vídeo.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h13

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Confissões perigosas

Leiam estes dois parágrafos de matéria da Folha Online publicada na quarta:

A Polícia Civil de Santos deteve na terça-feira (29) um adolescente de 14 anos suspeito de matar a estudante Emily Guedert de Araújo, de 13 anos, por causa de uma câmera fotográfica. (...) Com a prisão do garoto, a polícia concluiu que o primeiro suspeito preso pelo crime é inocente.

Na segunda-feira passada (21) a polícia apreendeu um adolescente de 13 anos, que confessou ser o autor do disparo que matou a menina, sendo reconhecido por duas testemunhas. No entanto, ao longo das investigações a polícia descobriu que o garoto não tinha relação com o crime, mas continua preso para responder por outras acusações. A polícia não sabe o que motivou o garoto a confessar o assassinato. (a íntegra da matéria pode ser lida na FOL)

O que você escreve afeta a vida dos outros. Pode destruir reputações, arrasar famílias, marcar para sempre uma pessoa.

Tente ter com todo personagem de notícia o mesmo cuidado e respeito que você teria por um tio da sua namorada, por exemplo (alguém que não é próximo a ponto de impedi-lo de fazer a matéria, mas que você tentaria não prejudicar indevidamente).

CUIDADOS OBRIGATÓRIOS EM CASOS POLICIAIS

1. Trate sempre o suspeito como suspeito. Em vez de Fulano foi preso por matar a mãe, escreva Fulano foi preso por ser suspeito de matar a mãe, ou sob suspeita de ter matado a mãe.

2. Atribua a acusação ou suspeita ao seu autor: "Segundo o promotor, ele atirou na criança e fugiu", "Segundo a polícia, ele matou a mãe".

3. Não use condicional. Em vez de Fulano teria roubado o carro, escreva Segundo o delegado, Fulano roubou o carro.

4. A não ser que o suspeito diga para você, em entrevista, que cometeu o crime, suspeite de "confissões". Atribua à fonte: "Segundo a polícia, ele confessou".

5. Mesmo que o suspeito diga para você que cometeu o crime, trate-o como suspeito até que ele seja condenado: Fulano de tal, preso sob suspeita de matar a mãe, disse ontem em entrevista coletiva que cometeu o crime porque queria ficar com a herança.

6. Procure sempre ouvir o outro lado. Se não puder ouvir o suspeito, procure falar com o advogado. Registre no texto as tentativas: "Em depoimento, Fulano disse que roubou o carro, segundo a polícia. O delegado não permitiu que o suspeito fosse entrevistado. Ele não ainda não tem advogado", ou "A polícia não informou o nome do advogado".

7. Há várias condenações que, tempos depois, revelaram-se injustas. Mesmo o mais desgraçado réu tem direito a ver sua versão publicada. Há uma chance de ele ser inocente.

8. Não esconda a versão do acusado. Claro que a notícia é o crime, e a acusação virá antes e talvez tenha mais espaço. Mas dê tratamento proporcional à defesa.

Quando a polícia prendeu o primeiro suspeito no caso lá de cima, a FOL fez a coisa certa: chamou-o de suspeito e atribuiu a confissão à Secretaria da Segurança:

A polícia prendeu na tarde de segunda-feira (21) um adolescente de 13 anos suspeito de matar a estudante Emily Guedert de Araújo, também de 13 anos, por causa de uma câmera fotográfica. O crime ocorreu na tarde de domingo (20) em São Vicente (Baixada Santista).

O adolescente foi detido durante as investigações da Polícia Civil.  De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, o garoto confessou que atirou em Emily.

 

MATOU E ESQUARTEJOU MESMO?

Ainda sobre confissões, veja o que diz o blog Para Entender Direito, tratando do caso do médico acusado de matar uma paciente.

FACADA NO BOLSO

Levantamento do Consultor Jurídico mostra que o número de ações indenizatórias por dano moral contra os cinco mais conhecidos grupos de comunicação (Globo, Abril, Estado, Folha e Editora Três) caiu nos últimos quatro anos.

Em compensação, a faixa média das indenizações no Brasil multiplicou-se por quatro. Passou de R$ 20 mil para R$ 80 mil.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h05

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Você sabe desossar um pato?

Nesta semana, os trainees passam a semana rodando pelas editorias do jornal --Cotidiano, Mundo, Agência, Folha Online.
 
O objetivo é ver como o jornal trabalha e exercitar reportagem. Como tudo no treinamento, está sujeito a erros. 
Sempre digo para os trainees que errar é bom. Aprendemos com os erros. O treinamento é o lugar e o momento para isso
 
Mas, claro, a gente se sente péssima quando o erro é nosso. Leiam o caso da Johanna:
 
Acredito que vários de nós nos sentimos totalmente inexperientes e incapazes em alguns momentos desta semana. Eu cheguei ao topo do sentimento de inutilidade ontem à noite --história que a Ana Estela pode querer contar depois.
 
Mas, felizmente, acordei e vi que essa percepção não é exclusiva de jovens jornalistas. Eu achei um exemplo ótimo de como jovens chefes de cozinha podem ser tão atrapalhados quanto nós. É a mesma história que eu posso contar, mas com termos gastronômicos. Olhem só.
 
Quem diz é o Bill Buford, ex-editor de ficção da "New Yorker".
 
Esses trechos estão no novo livro dele, "Calor", da Companhia das Letras. Ele decidiu passar uma temporada na cozinha de um dos grandes chefs de NY, o Mário Batali. Chegou como aprendiz, sem saber quase nada de cozinha. Aí, no primeiro dia no restaurante, uma cozinheira passou tarefas simples pra ele. Mas o Buford não achou nada fácil cumprir os deveres.
 
--"Você sabe como se desossa um pato, não sabe?"
--"Bem, acho que sim, sei. Quer dizer, já fiz isso."
Mas quando? Parece que me lembro de um jantar. Foi em 1993?
--"E você conhece a ostra da carne?"
--"A ostra?", perguntei, e minha cabeça fez um raciocínio simples. Pato, um animal com asas: ave. Ostra, coisa molecular sem asas: molusco. Patos não têm ostra; ostras não têm patos. "A ostra?", repeti.
--"Sim, é o pedaço da carne que você não pode perder. Fica aqui", disse Elisa, cortando com agilidade o peito ao meio e circulando a faca ao redor da coxa (...) Eu estava pensando "quero aprender a fazer isso" e acabei não vendo direito a localização da ostra do pato - era na frente ou atrás da coxa? - quando ela já estava extraída.
 
Bom, acho que é bem possível adaptar esse trecho ao treinamento.
 
"Você sabe como se retranca um texto e coloca título, não sabe?"
"Bem, acho que sim. Já fiz isso." Mas como era mesmo? Qual é o botão no SDE? "Hum, na verdade, não sei bem fazer isso no SDE. A gente usa mais o Hermes."
"Bom, eu retranco e você faz o título, está bem? Tenta abrir de novo o texto lá."
Tenho poucos minutos pra terminar esse texto e ainda preciso acertar com esse SDE. Ai...

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h44

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Como nasce um pingue-pongue

Como nasce um pingue-pongue


Falamos de entrevistas pingue-pongue noutro dia, porque o professor da Bianca tinha pedido que ela fizesse uma no estilo das Páginas Amarelas da revista "Veja".

Naquela semana, a entrevista das amarelas era com o fotógrafo de moda Mario Testino e havia sido feita por uma ex-trainee minha, BEL MOHERDAUI, 31, repórter da revista há sete anos (e às vésperas de ganhar seu primeiro filho, que pode nascer a qualquer momento!).

Pra quem não leu, a entrevista feita pela Bel começa assim:

O OLHO MÁGICO 
O fotógrafo das grandes modelos e celebridades conta o que faz para deixar as belas do mundo mais belas ainda

Quer ter certeza de que vai sair bem na foto? É só chamar Mario Testino. O único problema é que o fotógrafo de 52 anos, certidão de nascimento peruana, endereço londrino e fama global, está acostumado a mirar em beldades como Gisele Bündchen ou a inglesa Kate Moss. Com alguma sorte, porém, talvez seja possível cruzar com ele no Rio de Janeiro, que ama e freqüenta desde os 15 anos e onde foi homenageado com o título de cidadão e a medalha Tiradentes na semana passada.

Famosas ou anônimas enfrentam as câmeras de Testino com a garantia de que ficarão melhores do que nunca – a prova máxima são as célebres fotos que fez da princesa Diana. Além do pleno domínio da profissão, ele tem o dom de extrair verdade, beleza e espontaneidade cuidadosamente planejada de seus modelos. Não é vanguardista – suas fotos são bem focadas e deixam as mulheres bonitas –, mas tem uma aura de contemporaneidade e trabalha duro para se manter no topo. "A concorrência tem vinte anos a menos", brinca. Com olho treinadíssimo e capacidade de impulsionar carreiras, deu origem a um bordão entre aspirantes a modelo no Brasil: "Testino pode mudar o seu destino". Em excelente portunhol, o fotógrafo falou a VEJA.

Conversei com ela sobre como foi feita a entrevista e como é, em geral, esse tipo de trabalho.

Novo em Folha - Como surgiu a pauta?
Bel Moherdaui - Estava negociando com o assessor dele há algum tempo, pois sei que ele sempre bem ao Brasil, levou modelos pra fora. Tinha curiosidade de saber como era esse trabalho dele no Brasil, mas sabia que ele é sempre ocupado, quando vem, não dá entrevistas.
Como sabia que ele vinha ao Rio, pedi uma entrevista para as Páginas Amarelas.
Combinei que precisava de uma hora.
O tempo poderia até ser dividido, mas tinha que ser por telefone.
NF - Por que por telefone?
BM - Por e-mail não rende. Fiz há algum tempo uma entrevista com o Giorgio Armani por e-mail. Depois, quando fiz pessoalmente, foi outra coisa.
Algumas perguntas eu repeti nas duas, e a resposta foi diferente.
Fica sempre uma dúvida sobre quem respondeu, e, por e-mail, a gente perde o timing.
NF - Você me disse que tentava a entrevista há muito tempo. Há quanto tempo? Anos?
BM - Estava tentando há alguns meses.
No começo do ano, ele veio fotografar, pedi, mas não rolou. Desta vez, mandei um e-mail para o assessor na sexta. Na segunda ele respondeu: amanhã ele fala com você.
NF - Nossa, assim de repente?
BM - E não tinha a entrevista preparada ainda. Estava de férias, fechando a coluna, em geral espero marcarem a entrevista para começar a me preparar.
NF - Então você passou a noite trabalhando?
BM - Exato, li tudo o que tinha à noite e na manhã seguinte. Ele tinha me respondido às 17h da segunda e eu teria que entrevistá-lo na terça, na hora do almoço.
Por sorte, ele adiou para a tarde.
NF - O que você leu?
BM - Um complicador é que não há informação centralizada, ele tem um site, mas a biografia é picada. Peguei material de fontes confiáveis, da BBC, "Herald Tribune" e montei uma pauta de perguntas. Ainda deu para conversar com minha editora antes da entrevista.
NF - Você contou que entrevistou o Armani outro dia. Moda é um assunto pelo qual você se interessa pessoalmente?
BM - A editoria em que trabalho na revista é a responsável por moda.
NF - Que editoria é?
BM - É uma das gerais. Cobre moda, gente, decoração, gastronomia, a gente diz que é a editoria feminina.
NF - Quando você preparou as perguntas, o que imaginava que a entrevista poderia render?
BM - Ele descobriu muitas modelos, e esse é um assunto que interessa muito às brasileiras --e aos pais brasileiros. Queria falar sobre o mundo das modelos, como descobrir que uma modelo vai dar certo.
NF - Isso acabou sendo mesmo o principal ponto da entrevista, certo?
BM -Foi. Outro ponto era o da proximidade com celebridades. Ele fotografou a princesa Diana, a Madonna, grandes astros de Hollywood.
NF - Houve outras entrevistas que não saíram como você havia previsto?
BM - Já, e algumas que não renderam. Numa recente, a entrevistada falava de muitos assuntos, ficou difusa, confusa, não tinha um tema.
NF - É comum acontecer de não dar para aproveitar a entrevista?
BM - Sim, já fiz várias que não renderam, ou viram uma coisa menor. Uma da Naomi Campbell, por exemplo...
NF - ...não rendeu?
BM - Não como a gente gostaria. Ela falou bem do brasil, do glamour, mas a idéia era ela falar mais das drogas, bebidas. Demos um pingue-pongue em Gente. Às vezes a editora acha que não rendeu, não é só uma avaliação minha.
No caso da Naomi, as pessoas fazem terrorismo: "Ela não gosta de falar disso, ai, vai ter um ataque histérico".
NF - Quem te disse isso?
BM - A assessora. "Não vai perguntar dos barracos", ela dizia. Ela estava nervosa, também, com medo da Naomi.
É chato quando o assessor quer participar da entrevista. Faço jurar que vai ficar quieto, não se meter.
Essa estava morrendo de medo de Naomi, cria uma tensão. Mas quando a Naomi chegou, estava muito simpática.

continua abaixo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h52

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pingue-pongue com testino

pingue-pongue com testino

NF - Mas a assessora quis te proibir de perguntar?
BM - Ela disse: "Não vai perguntar das baladas". Mas aí é azar dela, perguntei tudo o que queria.
Uma vez fui entrevistar a Adriana Lima. Já conhecia o assessor, mas ele fez terrorismo, ficou dando palpite, interferia na resposta. Tive que pedir pra ele ficar quieto.
NF - Ele ficou?
BM - Um pouco, mas a entrevista não rendeu o suficiente.

NF - No caso do Testino, você teve uma hora?
BM - Quase. Ele ia cortar em meia hora, estava no meio de uma sessão, consegui prolongar para 50 minutos. Fui perguntando até ele ter que interromper mesmo: "Só mais um pouquinho, só mais uma pergunta". Só parei quando ele bateu o pé.
Mandei duas ou três perguntas a mais por e-mail, mas não renderam.
NF - Por quê?
BM - A entrevista foi em portunhol, mas ele fala bem melhor do que eu imaginava. Por e-mail, mandei perguntas em português, mas as respostas vieram em inglês. Já passou por algum intermediário.
NF - Pela sua experiência, há diferença entre entrevisar pessoalmente ou por telefone?
BM - Eu gosto de fazer por telefone, tem gente que detesta, mas eu gosto.
Em geral, a pessoa fica mais à vontade se está olhando pra sua cara, mas por telefone você consegue checar informação, consultar outras. Elas rendem de forma diferente, mas rendem.
NF - Você precisou cortar muito?
BM - Sim, em geral corto muito.
NF - Quanto? O que sai é um quarto do que você tinha? Um décimo?
BM - No caso do Mario Testino, eu tinha 800 toques e saíram uns 300 ou 400.
NF - Você tira toda a fita?
BM - Prefiro tirar tudo e ir limpando depois, o que é um problema, pois toma muito tempo. Entrevistei o Testino na terça e entreguei na quarta pra minha editora.
NF - Passou a noite tirando a fita?
BM - Muito da noite da terça, e comecei cedo na quarta. Uma das coisas mais chatas do jornalismo é tirar fita.
NF - Você entregou a íntegra para a editora?
BM - Não, editei, mas ainda estava sobrando um pouco.
NF - Na hora de editar, você corta blocos inteiros?
BM - Sim.
NF - E discute como abrir, o título, com a editora?
BM - Já mando com uma sugestão de abre e de título, ou ela fala mais ou menos o que ela quer.
NF - Mas você conversa sobre como abrir antes de escrever, não é?
BM - Sim. No caso do Testino, mandei 3 opções de título, e ela respondeu: "Quem tem três não tem nenhuma".(risos) Era verdade. Voltei pra mesa e fiz outro título.
NF - E era igual a algum dos três primeiros?
BM - Não, mandei um quarto (risos).
NF - Você faz entrevistas toda semana?
BM - Sim, mas não pras Páginas Amarelas. Faço para a seção Gente.
NF - Das Amarelas, quantas já fez?
BM - Publicadas, umas 10.
NF - E no total?
BM - Tentativas, que não renderam, talvez o dobro.

Para ler entrevistas com outros jornalistas sobre seu trabalho, clique aqui.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h49

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On-line, cinema e história

On-line, cinema e história

O Itaú Cultural sedia, de 12 a 14 de junho, seminário de mídia on-line.

Sérgio Rizzo dá quatro aulas sobre cinema italiano na Casa do Saber.

Século 20 na Europa e história universal são temas de dois cursos em junho, também na Casa do Saber.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h45

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O perigo das contas pagas

1993
Noeli Menezes/Folha Imagem

Em Curaçao só chove dois dias por ano.

A água do mar é linda, azul, transparente. Nosso hotel tinha praia particular. Nos restaurantes, serviam lagosta, camarão, ostras.

E tudo era de graça.

2007
            Silvio Cioffi/Folha Imagem

Céu limpo e calor de 30 graus em Salvador.

Hotel na ponta de um penhasco, com vista para o mar. Todos são gentis, simpáticos, a comida é ótima.

E tudo era de graça.

                                 Ayrton Vignola/Folha Imagem

O que há em comum entre as duas datas é que são viagens feitas por jornalistas, a trabalho, mas convidados por alguém.

Curaçao foi a segunda e última viagem a convite que fiz (a primeira foi de um dia só, para Curitiba, com uma pauta menos charmosa: conhecer uma fábrica de carvão ativado).

Salvador foi uma etapa do treinamento, em que a turma conhece atividades das empresas que patrocinam o curso.

Programas como esses têm um grande perigo: quanto mais agradáveis o lugar e as pessoas, maior o risco de o jornalista (ou aspirante a) se esquecer de por que está lá --e meter os pés pelas mãos.

Viagens a convite --em que uma empresa ou instituição paga todas as despesas do repórter-- estão no horizonte de todos os repórteres.

Um caso clássico são as que rendem matérias para os cadernos de turismo. Também são comuns viagens para cobrir congressos, patrocinadas pelas indústrias farmacêuticas, ou para feiras de negócios, bancadas por montadoras, empresas de informática ou outro tipo de produto.

Outra área em que isso é comum é a de entretenimento: viagens para cobrir a pré-estréia de um filme, por exemplo.

NÃO DÊ VEXAME

Está tudo bom demais para ser verdade?

--Alô-ô, acorda! Você está aqui a trabalho! É o representante do seu jornal e tudo o que fizer pode ser usado contra você.

Pode parecer um guia de etiqueta, mas tem tudo a ver com trabalho.

E não pense que se destinam só a focas e estagiários. Uma amiga organizou uma viagem só com jornalistas consagrados para um país da Ásia. Ficou horrorizada. Jurou que nunca mais repete a dose.

Quando aceitar um convite?

Há jornais no mundo que nunca aceitam. Ou bancam a viagem ou fazem a reportagem de outra forma (ou desistem da pauta).

No Brasil, a maioria dos jornais aceita. A Folha faz viagens a convite quando julga que há uma boa história a contar e tem como regra sempre avisar, no pé dos textos, que a viagem foi patrocinada e por quem.

Regra básica

Nunca se esqueça de que você está lá a trabalho.

Não é uma viagem de lazer. Ela só foi aceita porque havia uma boa história a contar, e é essa a sua missão: contá-la.

Por mais lindas que sejam as praias, mais bem equipado o hotel, mais tentadoras as compras, é preciso sacrificá-los pela apuração, as reuniões e as apresentações.

Quem nos convidou não é nosso colega nem está lá para cuidar do nosso divertimento.

+ sete mandamentos da viagem a convite

Não durma nas apresentações - a empresa organizou um almoço sensacional, seguido de uma apresentação em powerpoint? Por mais tediosa que ela seja, não durma (nem boceje). Se estiver difícil controlar o sono, saia da sala e jogue água fria no rosto.

Não peça mudanças no roteiro - seu anfitrião não é guia de turismo. Claro que seria maravilhoso fazer um desvio pelo centro histórico, ou dar uma passadinha naquele shopping. Mas você não está lá para isso. A não ser que o anfitrião convide ou pergunte, mostrar-se interessado por divertimentos é sinal de falta de profissionalismo.
A praia é imperdível? Acorde uma hora mais cedo para aproveitá-la.

Não se atrase - várias dessas viagens são em grupo e com tempo restrito. Atrasar-se é falta de respeito com quem estava lá no horário. E pode prejudicar os compromissos.

Faça contatos - nem tudo o que vão mostrar será útil no momento, mas viagens como essas são boas oportunidades de fazer contatos com fontes que podem fazer a diferença no futuro (e também com colegas de outros veículos). Troque cartões.

Exercite a curiosidade - sua pauta pode ser bem específica, mas fique atento a outras histórias. Nas refeições, por exemplo, em vez de sentar do lado de um colega que está sempre nas mesmas coberturas que você, fique na mesa de um dos anfitriões ou de outros convidados.
O mundo dos jornalistas você já conhece. Aproveite para conhecer outros mundos.

Modere-se - é certo que, na vida real, a gente não ganha muito bem, quase nunca se hospeda em hotel cinco estrelas por iniciativa própria e, nos restaurantes, racha a conta no final. Mas não deixe que as contas todas pagas virem sua cabeça. Beba pouco, coma de forma regular, não faça nada que você não faria se o almoço fosse com o seu chefe.

Preserve sua intimidade - tudo conspira para que o grupo que viaja fique unido --e, em alguns casos, surgem até romances. Mas isso é assunto só seu. Não faça em público nada que você não faria na sala do seu chefe.

E na hora de escrever o texto

Seja equilibrado. Quem patrocinou a viagem sabe que você é jornalista e não espera (ou não deveria esperar) que seu texto seja elogiativo. Seja crítico durante a viagem e na hora de escrever. Seu compromisso é só com o leitor.

Seja transparente. Cada veículo tem uma política, mas acho que o leitor tem o direito de saber que sua viagem não foi paga pelo jornal.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h06

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Não engula os números

1. PÍLULA INDECISA

Verena e Johanna foram cobrir um evento em que o governo anunciou que venderia pílulas mais baratas.

--Quanto vão custar?

--O preço mínimo é entre R$ 0,30 e R$ 0,40.

--A partir de quando?

--De amanhã.

De volta à Redação, elas estranharam: se começa amanhã, como é que eles não sabem o preço exato.

Decidiram ligar para as farmácias e descobriram que nenhuma estava informada do tal programa. Ligaram para Brasília e souberam que o programa só poderia começar, no mínimo, daqui a três semanas.

2. O TAMANHO DO BOI

Está na capa da Folha de hoje: a Friboi comprou a Swift. "A aquisição cria a maior empresa de alimentos de origem bovina do mundo, segundo a Friboi."

Segundo a Friboi? Ou é a maior ou não é, esse é um fato possível de ser verificado, não precisa ser atribuído a ninguém.

Como checar? Ouvindo gente do mercado, especialista em empresas do ramo e, no limite, a principal concorrente.

Não deu pra checar? Eu matizaria: "uma das maiores do mundo".

Só pra lembrar, atribuir é ruim, mas pior ainda é assumir a informação como verdadeira, sem checar.

3. CONFUSÃO MENTAL

Há poucos dias o governo paulista divulgou que internações em hospitais de São Paulo por causa de acidentes provocados por pessoas embriagadas e por problemas de saúde relacionados ao álcool custam cerca de R$ 2.500 por hora ao Estado.

Mas:

  • o governo juntava dados de internações e atendimentos nos Centros de Atenção Psico-Social
  • no ranking oficial, internações por doenças relacionadas com dependência do álcool são somadas a transtornos mentais
  • a secretaria não tinha o custo isolado com internações motivadas por álcool

Perguntou-se a Verena, que fazia a cobertura: de onde saíram, então, os R$ 2.500 por dia?

Hipótese mais provável: é chute. Eles empurram, pra ver se nós, jornalistas, compramos.

Resultado: matéria vai para o lixo.

4. ALUNOS "INFLACIONADOS" NA USP

Escreveu o ombudsman ontem, em sua crítica diária:

Não há por que duvidar de que haja estudantes demais para espaço de menos em prédio que “abriga os departamentos de Geografia e História da USP”.

Mas é difícil aceitar tal passagem: “Alunos ainda relatam que têm de ficar espremidos nas salas. São apenas 22 classes para acomodar 2.300 alunos, média de 104 alunos por sala”.

A reportagem aceita passivamente tal raciocínio.

Para ele ser verdadeiro, todos os alunos deveriam estar lá ao mesmo tempo, todas as aulas deveriam ocorrer simultaneamente, os professores precisariam se dividir entre turmas (no caso dos que dão aulas para mais de uma).

Ou seja: a média é uma invenção aritmética com propósito político. O jornal não deveria se submeter a ela.

Sugestão: acompanhar a aula para 120 alunos, relatada por um professor. É possível que exista. Tal absurdo _a concentração de tanta gente_ merece ser exposto pela Folha.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h34

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Bola de cristal

Bola de cristal

Mariana, minha trainee, tem que escrever um texto sobre o frio.

O problema: pode nevar nesta madrugada, mas o jornal só chega ao leitor amanhã.

E agora? O que escrever? E se não nevar?

Como é que vocês se saem desta?

COMENTÁRIO DO DIA SEGUINTE

Jornal impresso tem esse buraco negro, entre o fechamento e a manhã seguinte, quando ele chega ao leitor.

Como falar do que acontece nesse período? Recentemente, os jornais deram a notícia de que o adolescente que matou um casal na Grande SP havia fugido da Febem. Quando o jornal fechou, à noite, a polícia ainda estava atrás dele. Mas na manhã seguinte, os jornais ainda falavam da fuga e ele já havia sido recapturado.

Nesse caso, o jeito era dizer que, até o fechamento da edição, policiais tentavam encontrar o fugitivo.

Há casos em que é melhor nem falar nada. Vocês acreditam que, há alguns anos, publicava-se resultado parcial de jogo?

"Até o fechamento desta edição, o jogo estava empatado"!!!! Só rindo, não é?

Vejam abaixo como a Mariana resolveu (bem, na minha opinião) o problema:

Em São Joaquim (SC), che­
gou a fazer 5 graus negativos
ontem, menor temperatura
desde 1968, quando os termô­
metros marcaram -6,8 graus,
segundo informou o Epagri/Ci­
ram (Centro de Informações de
Recursos Ambientais e de Hi­
drometeorologia de Santa Ca­
tarina)

¦

¦Em Chapecó (SC), as tempe­
raturas não ficavam abaixo de
zero desde 1988 e ontem atingi­
ram -0,3 grau. Em Campos No­
vos (SC), a temperatura de -1,2
grau foi a mais baixa desde
1993, quando fez -2,8 graus.

¦

¦Em Santa Catarina e Rio
Grande do Sul, o clima estava
frio e seco até ontem pela ma­
nhã. O aumento da umidade ao
longo do dia gerou condições
meteorológicas para queda de
neve entre ontem e hoje.

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Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h25

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Mestrado ou especialização?/Três cursos imperdíveis

Mestrado ou especialização?/Três cursos imperdíveis

Gabriel, do Rio, pergunta:

Que tipo de curso de pós um jornalista deve fazer, especialização ou mestrado --que segue uma linha mais acadêmica e menos profissional?O que acham os jornalistas da Redação? O que eles indicam?

Na Folha, o número de jornalistas que fazem ou fizeram cursos de especialização é muitas vezes maior que o dos que têm ou cursam mestrado. Algo da ordem de 20 para 1.

Por vários motivos:

--os cursos de especialização são muito mais instrumentais. O conteúdo se aplica à prática de forma mais evidente que no caso dos mestrados

--mestrados em geral têm aulas em horários incompatíveis com o das Redações

--mestrados exigem um tempo para elaboração do projeto, das pesquisas e da dissertação que não está disponível para quem trabalha em jornalismo, a não ser em raros casos

Não quero com isso dizer que jornalistas devem, necessariamente, fazer especialização em vez de mestrado.

Dar opiniões sobre o melhor curso só seria possível sabendo exatamente quais são as opções e qual é o projeto de vida de quem tem que fazer essa escolha. É a velha história da dificuldade de falar das coisas em geral. Cada caso é um caso.

JORNALISMO INTERNACIONAL

 A Fundação Reuters, que dá cursos de especialização para jornalistas em Londres, tem bolsas para dois novos programas de cobertura de economia e de noticiário internacional.

INVESTIGAÇÃO

Estão abertas inscrições para o curso de verão (em julho) do Centro de Investigação Jornalística, baseado em Londres. A organização é tocada por repórteres sêniores britânicos e os programas são totalmente focados em técnicas de investigação.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h28

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Biografia

Biografia

A tarefa de um trainee era escrever uma biografia de Fidel Castro. Abaixo estão os quatro primeiros parágrafos. Digam-me o que vocês acham e, no fim desta terça, eu conto o que sugeri a ele.

Fidel Alejandro Castro Ruz nasce em 13 de agosto de 1926 em Birán, povoado próximo a Santiago de Cuba. O parto foi realizado na fazenda de cana-de-açúcar de seu pai, Angel Castro y Argiz, imigrante espanhol que começou a vida em Cuba como trabalhador braçal da companhia americana United Fruit.

Em 1926, Angel era casado e dono de mais de 9.300 hectares de plantação de cana-de-açúcar. Fidel é filho de Lira Ruz González, camponesa que trabalhava como cozinheira na fazenda de seu pai. Quando a mulher de Angel falece, ele se casa com Lira, com quem tinha outros dois filhos, Angela e Ramón. O casal teve mais três filhas e um filho, Raúl.

Aos seis anos de idade, Fidel começa a frequentar a escola, após insistir muito. Angel considerava a formação escolar desnecessária, já que ele mesmo não a possuía, mas cede à persistência de seu filho, e o matricula em uma escola pública local.

Quando tinha doze anos, Fidel escreveu uma carta ao então reeleito presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, dando os parabéns pela reeleição e pedindo uma nota de dez dólares americanos, pois ele nunca havia visto uma.

COMENTÁRIO DE FIM DE TARDE

Ótimas respostas de vocês.

É normal que a gente pense em descrever um fato começando do pincípio e concluindo com o final.

Mas, em jornalismo, nem sempre a ordem cronológica é a que informa o mais importante e interessante em primeiro lugar. Em geral, é o contrário.

Imagine que você foi assaltado há dez minutos e acaba de encontrar  um amigo. O que vai dizer primeiro para ele?

-- Hoje eu acordei às 7h, saí de casa às 8h, vim pra faculdade. Quando eu desci do ônibus, peguei meu celular para ligar para minha namorada. Neste momento um homem me apontou um canivete e levou meu celular...

ou

-- Você não sabe o que me aconteceu!! Acabei de ser assaltado!!

Numa biografia, a lógica é a mesma. É preciso, como vocês lembraram, explicar para o leitor quem é nosso biografado, que importância ele tem hoje, e não começar pelo nascimento, passar pela infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice, nesta ordem.

Outra boa dica é achar um fato forte, uma espécie de "rosebud" que sirva de fio condutor da história (por falar nisso, o caso da nota de dez dólares é uma graça, não é?).

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LIDES PARA TODOS OS GOSTOS

Meu amigo e ex-trainee MARCELO SOARES colocou 20 exemplos de lides que ele admira na Wikipédia.

Da lista dele, meus três favoritos são estes:

’Alfa, Hotel e Eco’ - três números da linguagem cifrada usada pela polícia e transmitidos em código a todos os pontos da cidade - revelaram ontem, às 19h30, a existência de 185 mortos em conseqüência do mais trágico incêndio já ocorrido em São Paulo. A essa hora, grande parte do efetivo de 1.450 homens do Corpo de Bombeiros e 2 mil guardas de trânsito ainda estavam mobilizados para o rescaldo do antes imponente edifício Joelma, localizado no número 225 da avenida 9 de Julho, na praça da Bandeira, e orientando milhares de motoristas que, com seus carros, tentavam passar nas proximidades daquele local. Enquanto isso, no Instituto Médico Legal, apenas 25 dos 185 corpos para lá levados tinham sido identificados; e o número de feridos, encaminhados aos diversos hospitais públicos ou particulares, quase chegava a 250. (“Nas Cinzas do Joelma, 185 mortos”. Folha de S.Paulo, 2.fev.1974)

A cada quinze minutos, mais ou menos, uma bala desce gritando e explode nesta cidade cercada, e outra meia dúzia de pessoas é morta ou ferida. Acontece dia e noite. As paredes da enfermaria militar e do hospital civil estão pegajosas de sangue. Há muito tempo acabaram os analgésicos. Os corpos estão em todo lugar - alguns semiconscientes gritam de dor, outros com feridas abertas não sobreviverão. Alguns morreram e, no caos, jazem deitados sem ninguém para cobri-los ou removê-los. (Sydney H. Schanberg, “In a Besieged Cambodian City, Hunger, Death and the Whimpering of Children”. New York Times, 16.jan.1975)

A mais nova maldição não tem feito grandes estragos nos arraiais da mais velha profissão. Em São Paulo, de 1982 a 1988, 64 mulheres pegaram Aids em contatos sexuais. A Secretaria Estadual da Saúde não distingue quantas delas foram contagiadas por namorados e maridos, e quantas por fregueses. Isso significa que apenas algumas das 64 eram prostitutas. E, mesmo que todas fossem, o número é pequeno se comparado ao das 116 infectadas por transfusão de sangue e injeção de drogas. Ou aos 86 casos de contaminação pré-natal de meninas. (José Roberto de Alencar, “Prostitutas sofrem menos Aids”, O Estado de S.Paulo, 13.nov.1988)

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h54

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As escolhas da Primeira de hoje

Ontem fiquei de plantão na Primeira Página e fiz um passo a passo no blog, para dar uma idéia das tarefas e do ritmo.

Mas não podia comentar as matérias, porque o jornal só estaria nas bancas hoje (e temos concorrentes).

Hoje vou contar então as escolhas que tivemos que fazer.

Esta aqui embaixo é a capa da edição nacional.

Às 14h45, o editor de Foto trouxe as opções que ele já tinha naquele momento:

1) várias fotos do Alonso (minha favorita, que não saiu, era essa em que ele parece um Mickey Mouse)

2) fotos da implosão na av. Berrini (daquelas imagens boas, mas com pouca notícia)

3) algumas opções de d. Claudio Hummes e Lula na reabertura da capela do Palácio da Alvorada (nem foto bonita nem muita notícia, mas é o presidente, então o editor se garante mostrando para a Primeira)

4) opções para o Folhateen (como segunda é um dia frio, aumentam as chances de sair fotos de suplementos).

Além delas, ele me avisou que deveríamos ter imagens do clássico (Palmeiras e São Paulo) e da Venezuela, mas que, no momento, não havia nada de impactante por lá.

Às 15h45, quando fui fazer a ronda nas editorias, o cardápio de possíveis chamadas era este:

Brasil: a) grampos da PF citam Renan e suposta pressão a Dilma; b) Renan deve se defender amanhã em discurso; c) habeas corpus de Zuleido pode ser julgado hoje; d) Congresso tenta reduzir brechas para corrupção

Dinheiro: já pronto, o caderno trazia material de investimentos (Folhainvest, que sai às segundas); a capa era sobre o novo perfil de executivos na era dos juros mais baixos

Mundo: àquele horário, não tinha nada quente. Tudo estava calmo na Venezuela. No Iraque, haviam descoberto um esconderijo da Al Qaeda e matado mais gente, mas isso quase não é mais notícia.

Cotidiano: a) estudo mostra como pais afetam desempenho escolar dos filhos; b) uma matéria sobre crianças que acabou não saindo (por isso não posso contar qual é); c) condições de vida de alunos na USP

Esporte: a) avisar que sai na terça caderno especial do Pan; b) Alonso vence F-1 e Massa fica em 3º; c) clássico; d) jogo do Santos; e) 500 milhas de Indianápolis

Ilustrada: resultado do festival de Cannes

Ciência: mais pares de genes indicadores do câncer de mama foram identificados

Às 16h45, cantei essa lista para o secretário de Redação. Havia uma dúvida sobre publicar ou não em Cotidiano a matéria sobre pais e filhos, porque o espaço estava pequeno. A editoria pretendia dar USP na capa e segurar a matéria de educação, mas meu chefe achava que o ideal era o contrário. O estudo sobre desempenho escolar interessaria a mais gente.

Às 17h, a capa de Cotidiano havia sido realmente trocada e comecei a fazer a arte, que saiu no alto da Primeira Página:

Meu chefe já sabia, então, que daria essa arte no alto. Como havia muita notícia de Esporte, planejou, com o diagramador, dar uma coluna de alto a baixo, no canto esquerdo da página, com noticiário esportivo, cultural e de Folhateen:

Esse espaço do jornal em que saem histórias mais leves, cultura, esporte, às vezes colunistas etc. tem um apelido: caramelo.

Vejam que a foto do alto do caramelo, do jogo São Paulo X Palmeiras, é vertical. Em geral, as melhores fotos de futebol são horizontais, por isso foi preciso, às 17h15, entrar em acordo com o editor de Fotografia para garantir que poderíamos desenhar a foto naquele formato.

Às 17h45, fizemos chamada para um texto de articulista, o do Marcos Cintra, sobre a USP. Como comentei, o jornal valoriza muito os colunistas e articulistas e procura, sempre que possível, destacá-los na capa.

A Primeira costuma ter em geral três fotos: uma maior, na maioria das vezes quente, noticiosa, e duas menores, de assuntos mais frios. Ontem, não havia foto grande de assunto noticiosos, por isso a escolha foi pela da implosão:

Na edição São Paulo, que fecha 23h30, essa imagem foi trocada pelos protestos na Venezuela, bem mais relevantes. Mas, até as 20h, ainda não havia fotos dos conflitos --e, como já falamos, as escolhas são feitas com o que existe disponível naquela hora.

Já eram 18h50 quando o editor de Esporte nos avisou que Tony Kanaan talvez não vencesse mais as 500 milhas de Indianápolis. Ele estava na frente quando, quase no final da prova, a corrida foi suspensa por causa da chuva. A esperança era que não retomassem a prova e o piloto brasileiro vencesse. Mas os americanos botaram turbinas de avião para secar a pista e o editor avisou: "Talvez ele não vença".

Tínhamos reservado um espaço para foto e chamada do "4º brasileiro a vencer a mais importante corrida americana" (área vermelha abaixo):

Com o gato subindo no telhado, armamos um plano B: colocar para cima a foto do festival de Cannes e, no pé da página, usar uma foto do Folhateen --que, até o momento, estava saindo só com texto, sem imagem:

Nosso plano para ressuscitar o gato da F-Indy era conseguir uma foto das superturbinas que secaram a pista e tiraram a taça do brasileiro, mas as agências internacionais não mandaram nada a respeito.

Na reta final, ficamos com a manchete pendurada à espera do "outro lado" --a comunicação entre a sucursal de Brasília e a sede travou por volta das 20h. Como é evidente, o assunto tornava obrigatório o outro lado. Até as 20h50, quando finalmente terminamos, este espaço todo da capa estava em branco:

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h25

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Não há texto que não melhore quando cortado

Contei ontem que meu professor CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA sempre me disse que não há texto que não melhore quando cortado.

Lembrei-me da frase quando precisei reduzir uma chamada de 22 linhas para 16.

Publico abaixo as duas versões. Vejam qual vocês preferem (como a chamada tem duas colunas, ela precisa ter necessariamente dois blocos com número idêntico de linhas, o que é um complicador a mais na hora de cortar. Não basta tirar seis linhas, é obrigatório tirar três em cada bloco):

PRIMEIRO TEXTO:

Fazer lição de casa todos
os dias é um dos fatores
mais fortes para melhorar o
desempenho escolar, mas
alunos cujos pais ajudam
com freqüência nessa tarefa
têm médias menores que os
demais. As constatações são
do economista Naércio Me­
nezes Filho, professor da
USP e do Ibmec-SP.

No estudo, informa Antô­
nio Gois, ele identificou ca­
racterísticas de famílias,
alunos e escolas com me­
lhor desempenho no Saeb,
exame do governo que ava­
lia a qualidade do ensino.
Para o economista, rigor
excessivo dos pais prejudi­
ca filhos, especialmente na
escola particular. Pág. C1

VERSÃO COM SEIS LINHAS A MENOS

Fazer lição de casa todos
os dias melhora o desempe­
nho escolar, mas pais que
sempre ajudam os filhos
prejudicam suas notas. As
constatações são de Naércio
Menezes Filho, professor da
USP e do Ibmec-SP.

O economista, informa
Antônio Gois, cruzou da­
dos de famílias, alunos e es­
colas com melhor desem­
penho no Saeb e diz que ri­
gor excessivo dos pais pre­
judica filhos, especialmente
na rede privada. Págs. C1 e C6

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h51

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Muito rápidas para uma noite de domingo

Muito rápidas para uma noite de domingo

PÍLULAS E PÉROLAS DO CONGRESSO DA ABRAJI

Não pôde ir ao congresso da Abraji? Trainees resumem em uma frase (ou um pouquinho mais) o que aprenderam em cada palestra.

JOHANNA
Fundamentos da reportagem
: nem sempre inquéritos e processos falam a verdade. É preciso checar. Se publicar o que está lá sem apurar, pode sair mentira.
 
Pérola da palestra: "O lide da Folha é uma coisa débil mental. Quem quer saber o quê, quando, quem e onde?".
 
Como construir um bom texto: os dados que você tem vão sendo inseridos no seu texto na medida em que você for precisando deles. Eles não são a matéria e não podem ser simplesmente jogados.
 
Pérola da palestra: "O que for feito no horário do fechamento não pode ser usado contra você no dia seguinte".
 
Como usar o banco de dados: é preciso atualizar sua agenda de telefones e seu arquivo de matérias e anotações do bloquinho todos os dias. Todos os dias. Todos os dias. Se você não fizer isso, nem precisa gastar tempo com um arquivo.
 
Cobertura do pan: os jornalistas precisam se preparar com antecedência para um evento grande. Os repórteres demoraram para pegar dados importantes, como a quantidade insuficiente de vagas em hotéis no Rio.

Cobertura em casos de crise internacional: na guerra, se o repórter não tem tempo para anotar, pode "anotava com a câmera". Como resultado, tem fotos maravilhosas. Nunca tinha pensado nesse uso da fotografia, como bloquinho de anotações.
 
Uso do off: a Maria Cristina falou uma coisa que apaziguou meu espírito. Disse que não dá pra fazer jornalismo sem errar, que se aprende com o tempo. Mas que é preciso reconhecer o erro.
 
Investigação criminal: "Se você está investigando o que um setor A da PF está fazendo, pergunte para o setor B, que detesta o setor A."
 
Pérola: "Eu sou contra a prisão de políticos. É que eu sou a favor da cadeira elétrica."

SILAS
jornalismo em áreas de risco
: repórteres usam coletes à prova de bala e o preparo de jornalistas no Rio já é o mesmo usado para treinar enviados a zonas de guerra.
 
jornalismo investigativo na América Latina: "Clarín" (Argentina) e a revista "Semana" têm equipes específicas de jornalistas investigativos, que não trabalham em outras pautas e se dedicam apenas a coberturas especiais.
 
o drama dos refugiados no Brasil: aprendi sobre reassentamentos. Refugiados que não se adaptaram ao país que os acolheu são enviados a um terceiro país.
 
jornalismo cultural
: conheci alguns casos que não eram pautados por assessorias de imprensa nem eram só agenda. Aprendi a usar o site do Ministério da Cultura para acompanhar repasses de verba e projetos na pauta de aprovação.
 
jornalismo em áreas de risco: soube da dificuldade em passar retornos, dos problemas com motoristas, da necessidade de fazer as próprias fotos numa cobertura de guerra.
 
fonte anônima: vi que é preciso ser discreto e firme no trato com as fontes, mas parece que fica sempre a dúvida sobre o momento em que dá ou não para confiar nelas.
 
a tríplice fronteira: fiquei surpreso com o número de conexões da região com máfias e redes criminosas no mundo todo.

MARIANA
Daniel Santoro
: entrar em contato com as "viúvas do poder". As pessoas desfavorecidas em determinada situação serão as principais interessadas em ceder informações.

Paulo Totti: quanto mais descritiva uma matéria, maior sua credibilidade.

Eduardo Faustini: como se usa microcâmera. Você deve discretamente direcionar a câmera para a pessoa que quer filmar, mantendo uma distância de 2m, mas sempre corre o risco de não ter filmado o que você queria: "É um tiro no escuro".

Pan: a importância de se preparar para uma cobertura com antecedência, entender do assunto.

VERIDIANA
jornalismo para o desenvolvimento humano
: aprendi que é possível usar o Atlas Brasil (que se pode baixar na internet) para fazer vários cruzamentos entre dados como renda per capita e analfabetismo por município/cidade/região.
 
investigação de crime organizado nas grandes cidades: a ocupação dos morros do Rio pela polícia está diretamente ligada ao aumento de assaltos
 
jornalismo investigativo no mundo: o jornalimo investigativo oferece muitos riscos aos repórteres, mas é uma das poucas maneiras de desvendar esquemas de corrupção.
 
jornalismo em áreas de conflito: nas áreas de conflito, existe um profissional denominado Fixer, que faz de tudo: são intérpretes, motoristas, e têm uma rede de contatos.
 
uso do off e investigação criminal: não adianta procurar a fonte e perguntar o que ela tem de novidade. O ideal é ligar para confirmar informações já levantadas, pois assim ela dificilmente negará.
 
financiamento de campanhas: apesar de falha, a legislação eleitoral brasileira é uma das mais avançadas do mundo, segundo Cláudio Weber Abramo   
 
GUSTAVO
fontes
: é preciso sempre contextualizá-las, isto é, ver de que lado estão e qual seu grau de confiabilidade.

continua abaixo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h04

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continuação

FERNANDO
violência e criminalidade nas grandes cidades:
há dois momentos na cobertura -antes e depois da morte de Tim Lopes. Jornalistas perceberam que há matérias passíveis de serem feitas e outras que o risco impede.
 
jornalismo investigativo na América Latina:
é dificultado pela "cultura do secretismo", herança das ditaduras, em que os documentos são, em sua maioria, secretos.
 
O drama dos refugiados no Brasil:
atualmente, a maior parte dos refugiados no Brasil são de Angola, mas hoje o maior crescimento é da população colombiana.
 
Jornalismo investigativo no mundo:
o número de profissionais dedicados ao jornalismo investigativo vem caindo nos EUA.

conflitos armados internacionais: aprendi que um repórter de jornal pode usar a câmera como bloco de anotações -em vez de anotar, fotografar para depois escrever a partir das fotos.
 
cobertura de crises:
uma cratera como a do metrô é, de fato, algo sensacional -"se a Redação não vê assim, cobre de forma burocrática".
 
dano moral: em 1993 foram abertos 23 processos por dano moral, e em 2005 esse número foi de 10.008. De 2003 a 2007, a média de indenizações por dano moral foi de R$ 20 mil para R$ 80 mil.
 
tríplice fronteira: eu nem imaginava que o contrabando de cigarros do Paraguai para o Brasil era feito também por barcos e que o Paraguai é o maior produtor de maconha do mundo.

RAFAEL
Investigando empresas privadas
: nem sempre são o diretor-geral ou o presidente da empresa que vão passar a informação que você precisa, mas é o funcionário abaixo deles que é a fonte.

Como construir o texto jornalístico: um detalhezinho que poderia passar absolutamente despercebido foi o começo de uma boa reportagem. Prestar atenção nas pequenas coisas, isso faz diferença.
 
Cobertura de crise: é difícil para um veículo de comunicação cobrir uma grande crise, principalmente quando ela pega todos de surpresa.

Financiamento de campanhas eleitorais: o TSE até passou a publicar a prestação de contas dos candidatos, mas há formas de burlar essa fiscalização. O repórter tem que ter muita persistência para conseguir saber quem financiou que candidato.

Investigação criminal: Existe uma relação quase promíscua do Ministério Público com os jornalistas. O que ficou de mais forte dessa palestra foi exatamente isso: como os órgãos públicos podem trabalhar com o jornalista de forma pouco, digamos, “ortodoxa”.

WILLIAN
investigação de empresas privadas: soube que fusões, como as de grandes bancos, são fontes inesgotáveis de corrupção, ainda que dificílimas de serem rastreadas devido às falhas leis brasileiras de informação.

conflitos em áreas de risco: a descrição da experiência sonora da guerra do Líbano _o barulho dos aviões lançando mísseis como uma máquina de costura, tec tec tec _, e dos cartazes nas escolas alertando para as minas terrestres serviu para concluir o óbvio terrível: a diferença no jornalismo está no lado de dentro da guerra e não no de fora, está na observação in loco e não nas elocubrações de Redação.

tríplice fronteira: soube dos "grandes nadadores", que atravessam o caudaloso rio Paraná levando muamba nas costas e sobre a organização suíça do crime organizado no Paraguai.

VERENA
Investigando empresas privadas
: as informações importantes estão correndo livremente dentro das empresas. Os funcionários lidam com elas diariamente e podem falar com a imprensa, muitas vezes off the record. 
 
Como contruir o texto jornalístico: O lide bom, geralmente, não é feito na primeira tacada.
 
A cobertura do Pan: Novalgina com açúcar: é comum que a cobertura crítica de esporte seja tratada como chata e isolada do noticiário mais ameno. A crítica deveria permear toda a cobertura.
 
Jornalismo em áreas de risco: se usar a câmera, o repórter pode anotar só o essencial: nomes, localizações etc.
 
Coberturas de crise
: não se pode depender exclusivamente dos dados oficiais. É importante fazer investigação própria.
 
Financiamento de campanhas: o contato pessoal é tão importante quanto o contato com os documentos. Do contrário, você não consegue entender o que eles significam e ver o mapa dos interesses em jogo. Por exemplo, quando se olha os doadores de uma campanha, pode-se concluir que não há nenhum financiador ligado a indústria de armas. Conversando com que conhece empresas, dá para descobrir que aquela doadora é, na verdade, um braço de uma indústria de arma.
 
Tríplice fronteira: Na região, a informação de quem é quem e do que acontece virou um negócio muito lucrativo. Para o jornalista, é difícil cobrir o terrorismo porque toda informação vem contaminada com interesse político. Quem passa a informação pode ser alguém que tem uma atividade ilegal, há ameaças aos jornalistas e muitas vezes só dá para publicar a informação omitindo a fonte. Por exemplo: um repórter paraguaio soube que havia um braço do PCC na tríplice fronteira. O representante da organização era paraguaio e conversou com repórter, autorizou publicar que existia esse braço, mas disse que se publicasse o nome dele o repórter morria. Depois da publicação da matéria, vários detetives (muitas vezes policiais corruptos que foram expulsos da polícia) procuraram o repórter porque queriam aquela informação para vender a clientes.

O site da Abraji tem algumas apresentações e relatos de palestras.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h02

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Adrenalina

Esta é a terceira parte de um post que começou às 14h40. Para saber como esta história começou, clique aqui.

20h - "Ana, tem uma linha a mais de título!", avisa o diagramador. Meu chefe retruca: "Não, eu quero com três linhas, mesmo". Então vai ser preciso cortar o texto. Lá vou eu.

20h05 - o gato morreu, mesmo, mas temos uma idéia para ressuscitá-lo. Enquanto isso, vamos deixar pronto o plano B.

20h10 - texto cortado. Um dos meus primeiros professores no jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva, sempre dizia que todo texto melhora quando cortado. Nesse de agora, acho que é verdade. Amanhã eu ponho os dois exemplos para vocês opinarem.

20h15 - com a boca cheia de biscoito água e sal (sim, nessa hora a fome começa a apertar), meu chefe liga para pedir o "outro lado" da manchete. Mas o sistema e o e-mail travaram. Vamos tentar pegar pelo MSN.

10h17 - como cortei o texto correndo, peço pra outro redator ler com cuidado. Tinha sobrado um "r". Ele arruma.

20h20 - comunicações bloqueadas, nem o MSN quer funcionar. É incrível como, perto do fechamento, muita coisa começa a dar errado. O chefe decide trocar uma chamada por outra, enquanto espera o outro lado da manchete. Meu colega pega a tarefa e me sobra tempo para escrever bem correndo este post.

20h25 - para fazer aquela operação de ressuscitar a chamada (dando um outro enfoque para o fato), precisamos de uma foto que ainda não chegou. O editor de foto liga para as agências para tentar agilizar a operação.

22h30 - tudo continua travado, o atraso agora é inevitável. Como a culpa é da tecnologia, todos estão calmos e aproveitam para reler textos. Meu chefe pensa em cortar realmente aquele título de três para duas linhas (o texto voltaria a ter 22 linhas e não mais 16). Ele acha que ficou feio, muito título para pouco texto. Senta-se em frente ao monitor em que está a página e estuda o caso por alguns segundos. Desiste. Vai ficar como está.

20h35 - o outro lado chega por fax.

20h37 - tiro um print da Primeira, com o que já está pronto, para reler.

20h40 - o computador do diagramador travou. A Primeira ficou presa nele.

20h44 - a linha fina da manchete não cabe; dou sugestões ao chefe. Meu marido me liga, achando que já fechamos. "Ih, desculpa, não vai dar pra falar agora".

20h45 - a gráfica liga: lá também os computadores travaram. Aqui, a máquina do diagramador volta a funcionar e o outro lado entra pelo sistema.

20h50 - manchete pronta. Última relida.

20h55 - com 25 minutos de atraso, a edição nacional fechou. Mas algumas editorias ainda enfrentam o sistema lento. Acaba aqui este twitter. Ainda vou trabalhar na edição São Paulo, onde devem ser feitos ajustes, mas não há mais muito a comentar. Amanhã eu dou nome aos bois (e ao gato).

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h14

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Twitter da Primeira

Esta é a continuação de um post que começou às 14h40. Para ler o começo desta história, clique aqui.

17h50 - enquanto espero uma decisão final sobre o desenho, tento achar na internet uma coluna do Sérgio Dávila sobre uma mania americana de ficar mandando torpedos toda hora sobre o que se está fazendo (mais ou menos como me sinto hoje). Não acho. Procuro no banco de dados eletrônico da Folha, e nada. Comento com meu colega de redação, que em dois minutos me dá o link: http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf0605200702.htm. O nome disso é "twitter", conta a coluna do Dávila:

O quente agora são os "twitters", de "twit", o barulho produzido pelos passarinhos, mas também do nome de uma empresa pontocom. "Twitter" serve para designar tanto uma atividade quanto a pessoa que a pratica e todo um modo de vida. É o ato de blogar tudo o que se está fazendo a todo o tempo, com pequenos textos, geralmente mandados por celulares.

Meu colega achou a coluna assim: clicou na edição da FSP de hoje, clicou em revista da Folha, lá no pé, em edições anteriores. Foi olhando uma a uma retrospectivamente, até encontrar. Não demorou nada, foi dois minutos, mesmo. Aprendi mais uma!!!!

18h - O desenho está definido e parte das fotos escolhidas, mas ainda não sabemos todas as matérias que terão chamada na capa. Vou fazer a legenda de uma das fotos, enquanto meu colega escreve chamadas de esporte. A terceira redatora acaba de chegar.

18h05 - o jogo acabou. A TV passa para um canal de notícias, onde deve ficar por um bom tempo.

18h10 - o editor de Foto traz opções de imagem da Ilustrada e de Esporte.

18h15 - o fantasma de Ricardo Melo aparece e resolvo checar tudo o que escrevi, tintim por tintim.

18h20 - chega o desenho pronto da Primeira. Meu chefe chama os três redatores e diz que matéria vai entrar em cada lugar. A manchete ainda não está definida.

18h25 - estou irritada. Tenho que fazer uma chamada de algo que aconteceu às 9h (sim, nove da manhã) e o texto ainda não está pronto...

18h40 - vou escrever uma chamada que tem uma arte ao lado, por isso discuto antes com meu chefe o que vale a pena repetir no texto e  o que pode acabar ficando redundante.

18h50 - o fantasma do Ricardo continua no meu ombro. Vou checar o nome de um professor no site das duas faculdades em que ele dá aula. Está com acento. Na reportagem, está sem. Ligo para a sucursal, mas o repórter está de folga. Depois de uma conferência com a chefe dele, colocamos o acento no nome.

18h55 - um editor vem avisar que algo com o que contávamos para a Primeira, inclusive com foto, talvez acabe não se concretizando. Por enquanto, não fazemos nada. Mas estamos atentos para a eventualidade de ter que mudar algumas coisas.

19h - fico em dúvida sobre flexionar ou não o infinitivo --essa é uma dúvida que eu sempre tenho. Ainda bem que meu colega de plantão sabe tudo de gramática.

19h05 - o editor de Foto traz mais uma daquelas imagens bonitas, mas meio frias. Só que agora, quando uma das fotos previstas ameaça cair, essa nova é muito bem-vinda.

19h10 - o infografista traz a arte daquela chamada que eu fiz, para que eu revise. Havia me esquecido de dar um título. Faço um e sugiro algumas alterações, de forma e de conteúdo. Ainda não sabemos o que será manchete. Estranhamente, todos estão calmos.

19h20 - enquanto esperamos a definição da manchete, ligo para a Fotografia para perguntar se o fotógrafo checou uma informação que está na legenda. "Sim, sim, estava até na pauta que veio da editoria." Uma coisa é estar na pauta de alguém que nem saiu do jornal. Outra é verificar lá, no local, na hora de tirar a foto. "Mas ele contou?", insisto (trata-se de uma informação numérica). O editor garante que sim.

19h30 - meu chefe já mandou para a página duas chamadas que eu escrevi. Vou conferir se ele mudou algo --uma boa maneira de aprender. Desta vez, não mudou.

19h32 - a alegria dura pouco. Um editor pede que a gente assine uma chamada que já estava pronta, e meu chefe concorda. Vou refazê-la.

19h35 - a principal candidata a manchete do jornal fica pronta. Vou lê-la, enquanto o secretário de Redação decide se ela emplaca ou não.

19h40 - a Editoria de Arte traz chamadas para revisão. Meu colega vai até lá, pois as mudanças têm que ser feitas no Mac. O editor de Foto traz mais uma daquelas fotos que são bonitas, mas só terão lugar na Primeira Página se realmente houver carência absoluta de notícia:

Marcia Ribeiro/Folha Imagem

"Wing walker" (acrobata que "anda sobre as asas")
Marta Lucia se apresenta em Itirapina (SP)

19h41 - toca o telefone e eu atendo apressada, quase ríspida. Quase me estrepo: era a direção do jornal! Passo a ligação pro meu chefe, feliz por ter tido um segundo de paciência na hora certa. [Antes de liberar este post fui checar no dicionário se "estrepar-se" era gíria ou linguagem vulgar, mas não é. É português aceitável, diz o dicionário, e signica "dar-se mal", em sentido figurado, mas o mais legal é o sentido literal --ferir-se com estrepes].

19h45 - a situação começa a complicar-se. Aquele editor que sugeriu uma chamada e depois colocou o gato em cima do muro avisa que o bicho está prestes a morrer. Além disso, a Primeira Página acha que a reportagem que deve ser manchete precisa ter um enfoque diferente. Vamos ligar para a editoria que a produziu para negociar isso. E falta muito pouco para o fechamento.

19h50 - com a chamada moribunda, vamos deixar pronta outra foto para colocar no lugar. Mas a legenda que temos não identifica as personagens.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h01

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Um dia na Primeira Página

14h40 - Acabo de chegar à Folha.

Na marginal, me distraí e deixei passar a entrada para a pista local antes da ponte do Limão. Tive que ir até a ponte das Bandeiras e dar a volta pela Santos Dumont e Ipiranga.

Isso me diz algo: é bom redobrar a atenção no plantão de hoje. Estou distraída. Sinal amarelo piscando: cuidado com os erros.

Passo a passo para Georgia -  No post de hoje e cedo comecei a responder a uma pergunta da Georgia.

Mas, como sempre digo, é difícil dar respostas no geral. Melhor falar sobre casos específicos.

Como estou de plantão exatamente na Primeira Página hoje, vou contar para ela, e quem mais quiser acompanhar, tudo o que for acontecendo. Se algum leitor tiver dúvidas específicas, pode ir mandando que tento responder.

14h50 - a Redação ainda está semideserta. Comigo, são oito pessoas, onde normalmente cabem mais de 180.

Aos domingos, o pessoal de plantão começa a chegar às 15h. O primeiro fechamento é às 20h.

Gosto de chegar mais cedo para ler os jornais com calma. Mas ontem fiquei na plantão das 18h às 24h, por isso já li Folha, "Estado" e as revistas semanais.

Só falta "O Globo" e dar uma passada por JB, JT, Diário de S.Paulo. Mas antes vou ver os sites de jornal on-line.

15h - Toca o telefone. Era alguém querendo falar na TVA. Telefones tocam muito nos jornais, pedem todo tipo de informação. Na sala dos trainees há um pôster do Samuel Wainer, muito jovem, avisando: "Sempre que tocava o telefone, eu corria para atender. Poderia ser alguém querendo me passar uma notícia".

O editor de Fotografia vem mostrar algumas opções. Amanhã é dia de Folhateen, então essa é uma das concorrentes. E, claro, em edições de segunda-feira, esportes são sempre bons candidatos.

15h10 - Abro o Outlook. Há 53 novas mensagens, mas não posso vê-las agora, porque não acabei de ler o noticiário on-line. A TV por satélite, que fica bem na minha frente, não está pegando. Tenho que achar alguém para arrumá-la.

o que é um plantão - na Folha, a gente trabalha um sábado e um domingo por mês (e tem direito a uma folga). Quem está nos cadernos semanais ou fora da Redação, como eu, dá plantão em outras editorias. O meu é na Primeira Página.

15h30 - Chega o diagramador da Primeira. A Redação está um pouco mais povoada --já são 12 pessoas. Vou atrás de uma lista das matérias "primeiráveis", que é feita toda sexta --edições de domingo e segunda em geral são planejadas com antecedência, já que o fim de semana tem menos notícias quentes (mas, claro, o planejamento pode ir todo para o lixo se acontecer algo novo).

15h40 - a Sucursal do Rio liga para dizer como está o dia por lá.

Minha tarefa agora é passar por todas as editorias, para saber o que elas têm de mais legal.

15h50 - passei por todas menos Esporte, que fazia uma reunião própria. É uma editoria com semana diferente das outras: seus dias mais quentes, mais fortes, são justamente sábado e domingo. Por isso, eles têm um esquema próprio de plantão e folgas e são o lugar mais movimentado do jornal num fim de semana padrão.

16h - a equipe das 16h já está por aqui (uma terceira pessoa chegará às 18h). Um editor vem me falar sobre notícia quente na área dele.

16h05 - hora de pedir um lanche na padaria da rua, que manda entregar aqui. A TV por satélite continua fora do ar, então temos que assistir ao jogo do Santos por enquanto, e acompanhar o clássico pela internet.

16h15 - o jornalista é um polivalente. O pessoal da técnica não deu jeito, mas meu chefe, secretário de Redação, fez o satélite funcionar.

16h20 - chega o almoço de um dos meus colegas --sim, você terá que comer sobre a mesa, ou um sanduíche correndo entre uma pauta e outra, muitas vezes na sua vida profissional.

16h30 - o secretário de Redação fala com a Sucursal de Brasília sobre o noticiário de política. O editor de Esporte vem avisar de um resultado que ele acha que deveria ter espaço na Primeira Página.

16h45 - "Tem alguma notícia?", pergunta meu chefe. Digo quais os destaques de cada editoria. Ele faz uma careta. Jornalistas são, em geral, insatisfeitos: sempre querem algo mais quente, mais forte, mais charmoso. Levanta e vai conversar com Cotidiano sobre as opções de capa deles. 

France Presse

Manifestantes pró-Chavez em El Salvador

No meio da tarde, em geral, a Fotografia traz aquelas fotos de que falei ontem: bonitas, mas sem muita notícia. É o caso da imagem acima. Sim, a Venezuela deve suspender hoje a concessão da RCTV, mas não há novidades em Caracas e a foto acima é de outro país.

17h - O secretário de Redação começa a pensar, com o diagramador, no desenho da capa. Negocia com Cotidiano a troca de uma matéria especial por outra e me pede para fazer uma arte para a Primeira Página, sobre essa nova matéria.

17h15 - O desenho inicial da capa prevê foto vertical para esportes, por isso o secretário consulta o editor de Foto --em geral, as melhores imagens de futebol são horizontais. Por coincidência, ele vinha trazendo justamente uma foto nesse formato.

17h25 - termino de fazer a arte. Meu colega de redação faz as chamadas mais frias, de Folhateen e Ilustrada. O diagramador termina de fazer o desenho direto na tela do computador. Ainda não escolhemos que notícias irão para a capa nem qual será a manchete, mas meu chefe já começa a fazer alguns testes de títulos com as matérias candidatas.

17h35 - uma colega de Brasil vem me perguntar se já sei de uma matéria que Brasília vai mandar, sobre projeto do governo federal. Não sabia, mas a sucursal já tinha vendido para meu chefe.

17h45 - vou dar uma lida nos colunistas de amanhã. A Folha valoriza muito seus colunistas e, sempre que pode, dá uma chamada para eles na capa. Mas é preciso ver antes quais os temas e quais os argumentos.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h44

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Primeira Página

DISCÓRDIA E SELEÇÃO

Alan Marques/Folha Imagem

Mônica Veloso, mãe de uma filha de Renan Calheiros

A Georgia quer saber como uma manchete é escolhida:
Quem a escolhe e com base em quê? Várias vezes me pego perguntando por que a queda do dólar vale mais destaque do que qualquer outra notícia do dia.
 
E Doralice comenta:
Você pode explicar o porquê daquela foto enorme, desproporcional da M.Veloso na Primeira Página deste sábado? Quando vi a minha edição impressa, logo pensei: 'Parece foto da revista Caras!'.
 
Espero que minha resposta à Georgia resolva, em parte, a dúvida de Doralice.
 
Mas pretendo neste blog falar mais do dia-a-dia da profissão, e não fazer crítica de mídia --porque acho que há outros canais para essas discussões, como o ombudsman, pessoa mais indicada para refletir sobre se o tamanho da foto é excessivo ou se a publicação é pertinente.
 
Quem faz a Primeira Página?
 
Na Folha, uma equipe de dois redatores e o secretário-assistente de Redação (que funciona como editor), sob a coordenação de um secretário de Redação. A direção do jornal, claro, acompanha tudo.
 
Quem decide o que entra?
 
À tarde, há uma reunião dos editores com a equipe da Primeira Página. Os editores "vendem" suas notícias mais importantes (ou mais interessantes) até aquele momento e o editor de Fotografia leva suas melhores imagens. Com base nisso, o editor desenha a capa, escolhe as notícias e determina o destaque que terão.
 
Quais os critérios?
 
Em linhas gerais, a edição de uma página interna tem como regra a hierarquia do noticiário e o estabelecimento de nexos entre as notícias. O editor procura colocar no alto o que é mais importante, aproximar notícias que se complementam, usar imagens que construam um panorama mais completo.
 
O destaque de uma notícia vem de uma combinação de três fatores: importância (impacto na vida das pessoas ou das instituições), interesse e ineditismo.
 
A Primeira Página tem uma especificidade: ela tem que estar de acordo com o prestígio do jornal. Por isso, em geral, para ser manchete um assunto tem que ter interesse público e relevância institucional.
 
É por isso que a maioria das manchetes é de política ou economia.
 
A capa também funciona como uma vitrine do que está lá dentro, o que explica o espaço dado a reportagens mais "frias", aos suplementos.
 
Também se procura um equilíbrio entre notícias quentes e histórias mais leves --um caso como o da prefeita transexual britânica pode sair na Primeira, mesmo tendo, lá no caderno Mundo, um destaque bem menor que o de outras notícias mais graves.
 
O que é mais importante?
 
Notícias têm importância relativa: é preciso compará-las entre si para decidir qual é mais relevante.
 
Raríssimas são tão fortes que, por si só, viram manchete, independentemente de qualquer outro fato que tenha ocorrido. O ataque às torres gêmeas, por exemplo, era manchete inquestionável. Foi manchete na maioria absoluta dos jornais do mundo e é um dos poucos casos em que se pode dizer que quem não deu destaque máximo a esse fato errou.
 
Nos dias normais, um fato não vale por si.
 
A cotação do dólar, para ser manchete, precisa, em primeiro lugar, ter notícia: um movimento significativo, para cima ou para baixo. Mas não basta isso. Ela será a primeira história do jornal se não houver outra opção mais relevante. Se cair um avião com 200 pessoas no Rio, a cotação perderá destaque.
 
A queda de avião tem um impacto enorme. Mas, se comprovassem (numa hipótese) que o presidente Bush aceitou suborno e deve ser deposto, a manchete vai para os EUA. O desastre ainda terá muito espaço na capa, mas Bush tem mais importância institucional, é uma notícia com mais repercussões no futuro e no mundo.
 
Num dia fraco, de pouca notícia, o jornal garante sua linha alçando para a manchete uma reportagem mais analítica de dinheiro ou política --dois exemplos fictícios: "Indústria abala expectativa de crescimento do PIB" ou "Gasto com Luz para Todos dobra em Estados do PT".
 
Se antes do fechamento aparecer algo mais quente (como a queda do avião, ou uma invasão de reitoria em nove universidades federais do país), talvez essas notícias sobre indústria e programa de eletrificação não saiam na capa nem como pequenas notas.
 
E as fotos?
 
O ideal é que cumpram três requisitos: tenham informação, sejam bonitas e sejam exclusivas.
 
Às vezes são publicadas apenas por um desses motivos. Há fotos maravilhosas, mas sem notícia de peso: uma imagem original da aurora boreal, por exemplo. Outras até feias, mas importantíssimas: o momento em que um terrorista atacou o papa com uma faca.
 
Aqui, também, só decide em comparação. Não dá para dizer "essa foto não merece esse destaque" sem saber se havia outras melhores.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h06

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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