Contexto

O Paulo, de Campinas, me pergunta:
O que fazer quando um entrevistado, ao ler sua matéria, diz que as "aspas" dele ficaram descontextualizadas?
Esse é realmente um problema, porque é muito fácil tirar uma declaração do contexto.
A gente costuma ter que cortar muito uma entrevista, ou usar só uma declaração entre várias outras numa reportagem, o que traz este risco.
É difícil falar no geral, sem conhecer o exemplo específico. O que eu faria se uma fonte reclamasse comigo?
1) ouviria de novo a fita para ver se ela tem razão ou não.
2) se a reclamação procede e a matéria tem suíte (seqüência, continuação), entrevistaria de novo a fonte e colocaria os pingos nos is.
3) se a declaração estiver tão fora do contexto a ponto de prejudicar a fonte, ou se a matéria se esgota em si, publicaria um Erramos.
Outra coisa que acontece muito com fontes não acostumadas a dar entrevista é que elas se frustram por falar 40 minutos com o repórter e ver apenas 30 segundos aproveitados:
--Expliquei tanta coisa e você só usou isso?
Elas se sentem reduzidas, simplificadas demais.
4) quando for entrevistar alguém nessas condições (em geral professores universitários, técnicos, especialistas), convém explicar como é sua reportagem e como a entrevista será usada.
5) outra coisa que sempre é bom fazer: depois que sair o texto, ligue para a fonte para saber o que ela achou. Isso mostra a ela que você se importa, faz com que ela confie mais em você no futuro e permite até que você descubra novas informações.

JUREMA, LIXÃO E O CONTEXTO

--Vocês ficam mostrando isso e as pessoas pensam que a gente pega comida para comer. Ninguém come o que cata no lixo. A gente pega para dar pros porcos; todo mundo cria um porco em casa.
Jurema vira as costas para a câmera. Como dezenas de outras pessoas na tela, vive de coisas que tira de um lixão em São Gonçalo (RJ). Irritada, não quer dar entrevista, foge da filmadora.
--Eu trago muita comida boa para casa. Do lixo, mesmo, é mais comida para os animais. Mas do caminhão do supermercado dá para pegar muita comida, batata, cenoura, macarrão, vem carne boa.
É a mesma Jurema, de banho tomado, lenço limpo na cabeça, com seus sete filhos, bonitos como ela, na casa em que mora.
As cenas são de "Boca de Lixo", de Eduardo Coutinho, que assisti hoje de manhã numa aula. Quem quiser pode ver, nos extras de "Peões". Cito as falas de memória, só para chamar a atenção para o que muda entre uma situação e outra.
Por que Jurema não se importa de dizer que pega comida do lixo na segunda cena?
Porque agora a situação está em contexto. Não é, como ela esbravejava antes, "uma imagem que vocês botam na TV para os outros pensarem que a gente come lixo".
Nos jornais, seja em que meio for, em geral ficamos só no primeiro momento: no que é mais quente, mais impactante, mais forte, mais inesperado.
É isso que muitas vezes revolta nossos personagens. Eles querem ser vistos como algo um pouco menos raso.
Veja um exemplo de como manter a ordem das perguntas deixa a entrevista no contexto
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h49
JOHANNA NUBLAT se perde na linguagem jurídica. Acompanhem-na pelo labirinto:
Minha tarefa para ontem parecia tranqüila. Eu tinha que fazer o "como ficou", atividade que consiste em ver como está o andamento de processos criminais que já foram notícia na Folha. O comum é ir até o fórum, ver o processo, identificar o promotor e o advogado envolvidos, ligar para eles e escrever. Simples, não é?
Mas, dessa vez, não foi. Foi bem na linha do tudo deu errado e nada do que estava planejado serve.
Cheguei ao fórum criminal da Barra Funda às 11h30. Primeira surpresa. O fórum só abre para o público às 12h30. Uma hora de espera depois, descobri que o processo não estava lá. Segundo o rapaz do balcão, deveria estar no TJSP, na praça da Sé.
Cheguei totalmente perdida na praça -tentando ignorar a igreja bem bonita que eu nunca tinha visto, afinal não era hora para turismo. Onde é o TJ? Ali, no lado da rua oposto à igreja da Sé. Atravessei a rua, subi pelo elevador. Surpresa número dois. No prédio mais novo do TJ cada elevador sobe para um andar específico. Troquei de elevador, cheguei ao local da pesquisa de processos... cíveis!?! Mas o meu era criminal. Me mandaram para o fórum velho do TJ, bem do outro lado da rua, ao lado da igreja, onde eu estava antes.
Atravessei a rua novamente. Um senhor muito simpático tentou achar o processo, mas não conseguia. Confirmou que ele estava no TJ, mas onde? Pediu que eu atravessasse a rua (mais uma vez), subisse ao 14º (pelo elevador do 14º) e fizesse uma pesquisa lá.
A senhora que fez a pesquisa no 14º demorou 30 minutos para descobrir por que estava tão difícil achar o meu processo. Ele tinha dado entrada com o sobrenome errado do réu!!!!! Não entrou como Viana, mas como Miranda. E como ela descobriu isso? Entrando com o RG do réu (essa eu anotei pra nunca esquecer).
Mas o processo não estava lá. Estava no acervo do TJ no... Ipiranga.
Certo, agora vai. Cheguei lá e descobri que, sim, o processo estava lá. Mas, não, eu não podia vê-lo hoje. Explicação: quem guarda os processos é uma empresa privada. O TJ faz o pedido pelo computador e demora um dia para ele estar disponível.
Ok, volto na segunda.
Para vocês terem uma idéia da encrenca, vejam uma das cascas de banana em que a Johanna escorregou:
Na página do processo, na 1ª instância, tem um histórico de encaminhamentos. O último diz o seguinte:
"C O N C L U S Ã O Aos 27 de janeiro de 2006, faço estes autos conclusos ao MM Juiz de Direito da 28ª Vara Criminal – Dr. Maurício Lemos Porto Alves Eu, , esc., dig. e subscrevi. Proc. 430/05 Vistos. Regularize-se o termo de fls. 332. Recebo o recurso interposto pelo réu Ricardo da Silva Viana, em seus regulares efeitos. Processe-se. Expeça-se guia de recolhimento, nos termos do Provimento nº 653/99. Autorizo xerox. São Paulo, 27 de janeiro de 2006. Maurício Lemos Porto Alves Juiz de Direito D A T A Em_____de___________________de 2006, recebi estes autos em Cartório. Eu, ,esc.subscrevi."
Os funcionários dos fóruns entenderam essa parte em negrito. Eles explicaram que isso quer dizer que o recurso foi aceito e que o processo subiu para a 2ª instância. Mas a Johanna (e imagino que a maioria dos mortais, como nós) não entendeu isso. Achou que o processo estava ainda na Barra Funda.
PARA ENTENDER DIREITO
Só para lembrar, há uma saída para jornalistas agora que o Gustavo criou seu blog.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h13

A Livia, de Porto Alegre, me pede para falar sobre a relação jornalista/assessor de imprensa: "Como um ajuda o outro, com o que se deve ou não contar, que cuidados se deve ter?"
Falamos um pouco sobre o que fazer quando a assessoria NÃO ajuda, mas talvez fosse bom sair do senso comum e ir perguntar a quem trabalha como assessor o que eles acham que pode ser feito para o trabalho fluir melhor.
Acho que há diferenças importantes entre assessores que trabalham para órgãos públicos e outros que trabalham para empresas.
Começo hoje, então, com os órgãos públicos.
A opinião abaixo é de um ex-trainee meu, MARCOS CÔRTES. Por quatro anos ele trabalhou no Ministério da Saúde, no governo do PSDB. Hoje, é assessor de comunicação do partido na Câmara dos Deputados:
SOMOS TODOS JORNALISTAS
As tentativas frustradas de Paulo Totti de ser atendido pela assessoria de imprensa do ministro da Saúde [leia o caso aqui] e os resultados assustadores do “Mapa de acesso” trazem novamente à tona um assunto polêmico: a relação entre assessores de imprensa e os jornalistas que atuam nas Redações.
O primeiro episódio revela descaso, pois é obrigação de qualquer assessoria –ainda mais de um órgão público dessa relevância– atender e dar retorno as demandas apresentadas pelos meios de comunicação. Foi nesse ministério, coincidentemente, que comecei minha carreira, em 1998. Na época, a assessoria era reconhecida pelos “colegas” como referência em Brasília, exatamente pela presteza, rapidez e eficiência no atendimento aos pedidos dos jornalistas.
Em relação ao “Mapa de acesso”, fica clara a falta de transparência e o amadorismo de muitos órgãos públicos brasileiros, que simplesmente sonegam ao cidadão acesso a informações básicas. Tal procedimento é repetido por assessorias de comunicação Brasil afora, por meio do bloqueio aos dados necessários na apuração das matérias e pelo desprezo aos pedidos de entrevista com autoridades ou técnicos. A idéia de que prestar contas à sociedade é uma obrigação infelizmente não se tornou algo corriqueiro no cotidiano de muitos burocratas e jornalistas.
COMO AGIR Como já passei pelos dois lados do balcão, sugiro o seguinte: o repórter deve sempre procurar a assessoria de imprensa do órgão público e apresentar sua demanda, desde que plausível. É uma questão de ética, de profissionalismo, de respeito pelo também jornalista que, a priori, está naquela função para ajudar e facilitar a obtenção das informações.
Lembre-se, repórter: um dia você pode virar assessor e não vai gostar se alguém for arrogante ou te atropelar para cumprir uma pauta. Além do mais, é positivo ter uma boa relação profissional com os assessores. Eles certamente agirão como facilitadores sempre que você precisar.
Mas se sua demanda for ignorada pela assessoria ou se houver lentidão no retorno, não hesite e faça como o Totti: pesquise –seja no Google ou em outro banco de dados– qualquer informação indicando qual setor daquele órgão tem o dado que você quer e ligue ou mande e-mail diretamente ao técnico ou a autoridade. Se te perguntarem se procurou a assessoria de imprensa, seja sincero e diga que sim, mas não obteve a resposta necessária.
Agindo assim, a chance de resolver seu problema é grande, ainda mais se a pauta for de interesse do órgão público. Se todos esses procedimentos não derem certo, se for o caso cite na sua matéria que a assessoria foi procurada, mas não retornou. Provavelmente da próxima vez o tratamento será diferente. Esconder informação ou ignorar o repórter são erros que, infelizmente, ainda persistem em muitas assessorias.
Como diz a professora Graça Caldas, aqui de Brasília, o conhecimento mútuo e a compreensão dos papéis de cada um permitem que o relacionamento entre assessor de imprensa e o repórter seja construído em bases sólidas e profissionais.
“A observância a algumas regras de convivência e princípios básicos de relacionamento aliados ao bom senso em situações inesperadas é o ponto de partida para um relacionamento adequado entre jornalistas e assessores”, destaca Caldas em artigo publicado no livro “Assessoria de imprensa e relacionamento com a mídia: teoria e técnica”, organizado por Jorge Duarte. Essa obra da Editora Atlas é a melhor que conheço nessa área. Vale a pena ler.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h41
Crime e literatura
CRIME
O IBCCRIM realizará no final de junho curso para jornalistas. Serão 6 painéis, com temas selecionados e expositores especializados (quase todos são professores e possuem mestrado ou doutorado) de todas as carreiras jurídicas (magistratura, Ministério Público, advocacia e polícia). Maiores a partir da semana que vem, no site do IBCCRIM (www.ibccrim.org.br) .
As inscrições (gratuitas) podem ser feitas com a Suzana Martins, no 011 3105-4607, r. 140.

LITERATURA
A Casa do Saber (unidade Jardins) fará um curso sobre três grandes novelas em língua alemã: Morte em Veneza, de Thomas Mann, A Metamorfose, de Kafka, e Breve Romance de Sonho, de Schnitzler. O professor será Samuel Titan Jr., crítico literário, tradutor e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Dias: Quartas-feiras, às 20h (30/05, 06/06, 13/06, 20/06) 30 MAIO | 1. O fin-de-siècle, Freud e a psicanálise 06 JUNHO | 2. Breve Romance de Sonho, Arthur Schnitzler 13 JUNHO | 3. Morte em Veneza, Thomas Mann 20 JUNHO | 4. A Metamorfose, Franz Kafka
Valor: R$ 180,00 na inscrição + 1 parcela de R$ 180,00
Inscrições pelo telefone 3707-8900. Vagas limitadas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h19
Um leitor ficou bravo com meu post "Receita de texto bom" e comentou o seguinte:
Viram, jovens estagiários? Trabalhem 18 horas por dia. Esse é o segredo do sucesso.... Parabéns ao Paulo Totti por mostrar como é que se trabalha e ao Grupo Folha por divulgar isso ao mundo. Que coisa linda...
Ele entendeu errado a mensagem.
Uma coisa que aprendi com meu pai, que é o melhor professor da Poli [isenção jornalística!! =) ]: se os outros entendem errado, eu é que não expliquei direito. Outros podem ter tido a mesma impressão que ele, então vamos pôr as coisas em outras palavras.
Totti foi à China fazer uma reportagem. Tinha um número limitado de dias para fazê-la. Aproveitou o máximo do tempo para conseguir o máximo de informação.
Isso é o que faz um jornalista realmente interessado em informar, em contar a melhor história.
Ninguém está defendendo que as pessoas trabalhem 15 horas por dia. Muito pelo contrário, é preciso ter tempo livre para ver o mundo lá fora, ou a gente deixa de entender como pensa o leitor.
Mas o que o Paulo quis dizer com a resposta --e o que eu quis dizer com o post-- é que bom texto é resultado de apuração, não de palavras.
Se você puder fazer em menos horas uma boa apuração, anotar todos os detalhes, recolher informações suficientes para uma ótima descrição, melhor.
A questão não é, de forma alguma, o número de horas. É a qualidade da apuração.
Será que agora ficou mais claro?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h52
Marcia Foleto/Agência Globo

Alguns leitores me sugeriram falar sobre esta foto, que saiu na Primeira Página da Folha de terça. Ela mostra um pai que chora ajoelhado sobre o corpo de um de seus dois filhos pequenos mortos num acidente de trânsito no Rio.
Minha intenção é não entrar no mérito de se era ou não o caso de publicá-la. Não que não ache a discussão relevante, mas vamos passar o dia fora hoje, sem poder moderar os comentários, e resolvi atender o pedido de um dos leitores e contar como uma decisão dessaS é tomada.
Consultei primeiro o editor de Fotografia, Toni Pires, responsável máximo por olhar todas as fotos disponíveis e decidir quais delas apresentar à Secretaria de Redação:
Como de costume fico "zapeando" os sites de notícias e agências fotográficas, quando passei pelo site do jornal O Dia (RJ), vi a seqüência de fotos onde mostrava o pai desesperado indo ao encontro do corpo do filho.
Foi uma foto que me emocionou muito no momento em que a vi. Baixei a seqüência e imediatamente fui "vender" a foto na editoria de Cotidiano e na Primeira Página.
Na seqüência fui procurar variantes da imagem em outras agências, no site do jornal "O Globo" encontrei novas imagens.
Defendi a publicação da foto por entender que a mesma cumpre o real papel da imagem para jornal, ela EMOCIONA, faz REFLETIR, abre uma discussão sobre diversos temas, desde a violência, até o papel do jornal e de se publicar este tipo de foto.
Achei importante defender a publicação da foto; ela passa emoção, dor, sofrimento e desespero de um pai que perde seu filho no meio da confusão e violência de uma metrópole.
Sei que não é a imagem mais "legal" de se ver no café da manhã, mas acho importante o papel da imagem, em interromper por instantes a "rotina" das nossas vidas e nos fazer pensar como estamos vivendo e o que podemos fazer para termos uma qualidade de vida melhor para todos.
Acho que escrevi demais, mas foi mais ou mesmo assim que eu me senti no dia e por isso defendi a publicação. Confesso que poucas vezes me emociono vendo imagens, até porque é o meu trabalho diário e acabamos por criar uma armadura para isso, mas esta imagem me emocionou muito.
Também pedi que a secretária de Redação Suzana Singer, que normalmente dá a palavra final sobre o que sai na capa do jornal, como foi a decisão.
Ana, discutimos bastante sobre a pertinência de publicar essa foto. Poderia parecer apelação, uma maneira fácil de provocar choque nos leitores.
Nossa conclusão foi de que não era o caso. A foto _belíssima, porque flagra um momento de dor profunda_ traz à tona um problema grave no país, a violência no trânsito: os dados mostram que o Brasil é um dos campeões em mortes desse tipo e na semana passada foi notícia o atropelamento de toda uma família em Jarinu.
Além disso, a foto é tristíssima, mas não mostra sangue, partes de corpos, enfim, não é apelativa.
Dá para ver que uma imagem como essa dificilmente sai na capa do jornal sem muita discussão antes. Os editores sabem que leitores são muito sensíveis a cenas fortes como esta (veja, mais abaixo, o resultado de uma enquete semelhante). E um jornal do tipo da Folha tem que tomar muito cuidado para não parecer sensacionalista.
Os leitores deste blog podem discordar da decisão do jornal, ou concordar com ela, mas pelo menos ficam sabendo que foi algo feito após bastante reflexão, com uma justificativa jornalística para tal.
Esse é um ponto importante: na nossa profissão, do repórter iniciante ao diretor, temos que tomar decisões difíceis muitas vezes. Nem sempre há certo e errado. Na terça, por exemplo, a Folha foi a única que deu a foto na capa. "O Globo", autor da imagem, só deu dentro do jornal, em preto e branco (pelo menos na edição que eu li). A questão importante, na hora dessas decisões, é saber que argumentos jornalísticos entram em jogo.
Você, leitor, quando estiver numa situação parecida (faço a pergunta ou não faço? Volto para a Redação ou fico aqui? Mudo o lide do outro ou deixo como está?), pense sempre nisso: qual o motivo jornalístico para fazer uma ou outra coisa.
Sempre haverá quem concorde ou discorde do que você fez. O importante é ser capaz de argumentar.

MORTE AO VIVO
Na enquete que está na Folha Online, 62% das pessoas que haviam votado até agora cedo acham que telejornais não devem mostrar imagens de gente morrendo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h59
O leitor paranaense Marcelo diz que ainda não “pegou o jeito” de fazer perfis. Vamos lá, então.
Um perfil o que é? É uma minibiografia de um personagem.
Como é feito? Do mesmo jeito que uma reportagem: com pesquisa, observação, entrevista, documentação e checagem. O que muda é que, em geral, a qualidade do texto do perfil depende muito mais da observação.
Como fazer?
1) escolha um bom personagem – alguém com uma história de vida e/ou uma maneira de agir rica, interessante, pitoresca, fora do comum é meio caminho andado para o perfil
2) levante os dados básicos – se seu escolhido é já conhecido, pesquise em fontes confiáveis os principais fatos sobre ele. Faça uma cronologia básica, que servirá como roteiro para as entrevistas.
3) marque uma entrevista com folga de tempo (ou até mais de uma, se for possível) – para escrever um perfil, é bom conhecer um pouco mais de perto o personagem, e dar tempo para que ele confie em você e se sinta à vontade. Peça que ele conte sua vida desde o começo, vá pontuando com perguntas sobre os temas que mais interessam a sua pauta. Seu perfil será tanto melhor quanto mais você estiver realmente interessado nessa pessoa e quanto mais ela puder perceber isso.
4) mostre que esteve lá – outra coisa que enriquece o texto é contar ao leitor coisas que só você pode saber, porque esteve frente a frente com o personagem. Gestos especiais que ele faz, tom de voz, como estava vestido, atos que mostrem na prática traços de sua personalidade, objetos da sua casa. Descrições são muito melhores que adjetivos. Sua missão é fazer com que o leitor veja o personagem, como se ele estivesse no seu lugar.
5) resista à sedução – em geral a gente escolhe alguém para “perfilar” porque acha a pessoa especial, para o bem ou para o mal. Tente equilibrar isso na sua apuração. Se é alguém que você admira muito, pergunte sobre os defeitos, fracassos. Fique atento, na pesquisa inicial, a visões críticas sobre o personagem. E vice-versa.
UM EXERCÍCIO
Já falamos aqui dos quatro passos do aprendizado: ler/ouvir/refletir, fazer, ser analisado, refazer. Minha proposta é que você ache um amigo que também queira melhorar esse tipo de gênero e façam, juntos, o exercício.
Passo 1 - vocês começaram a dar com essas dicas básicas, mas podem completar lendo um perfil exemplar. Se souberem inglês, a revista “New Yorker” tem ótimos modelos. Aqui no blog, sugeri alguns feitos pelo repórter Fábio Victor, mas jornais e revistas de qualidade costumam publicar bons perfis com freqüência.
Passo 2 – para agilizar e otimizar a pesquisa, cada um deve escolher uma pessoa que conheça bem: um tio que viveu aventuras, o septuagenário dono da banca de revistas que você freqüenta desde menino, uma amiga da escola muito radical. Qualquer um que tenha uma história interessante e de quem você já saiba o básico. Siga as dicas lá de cima e escreva o perfil.
Passo 3 – troque textos com seu amigo e faça uma crítica honesta. Seu objetivo é ajudá-lo a melhorar, e vice-versa.
Passo 4 – reescreva o perfil. Mostre-o agora ao professor que você mais admira e peça uma crítica dura. Refaça uma segunda vez, se necessário.
Depois me conte como foi.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h26
“...e nada me faltará”, diz a leitora Natália, do Rio.
Ela tem razão. A internet (e não só o Google) economiza muito tempo para quem já sabe aonde quer chegar.
Mas atrasa a vida de quem não tem muita idéia do que procura.
Se cai na sua mão uma pauta sobre, digamos, reprodução assistida, e você não entende nada desse mundo, o que você faz? Vai ao google e vêm XX mil indicações de informação. Em qual confiar?
Rende muito mais falar com o repórter mais experiente na cobertura de saúde e pedir o telefone dos três principais médicos da área.
Conversar com esses médicos será muito mais útil para orientá-lo na pauta que imprimir pilhas de textos de sabe-se lá quem e ficar perdido no meio deles.
Outro vício de repórter jovem é o e-mail.
--Falou com o Fulano?
--Ah, eu mandei um e-mail, estou esperando ele responder.
--Mas você tentou ligar pra ele?
--Não...
O cidadão está há duas horas esperando a fonte responder ao e-mail, quando, em 20 minutos, estaria com a entrevista pronta, por telefone.
Longe de mim desdenhar da internet. Há realmente um mundo de informação disponível, como mostram exemplos que já discutimos aqui (e até os sites sugeridos pela Andrea ontem).
Mas o que o jornalista precisa mesmo é saber pensar.

OUTRO RITMO
Não coloquei exercício hoje cedo porque não terei muito acesso à internet para liberar as respostas. Toda a turma de trainees está em Salvador, para conhecer a Fundação Odebrecht e a Braskem. (O grupo é um dos patrocinadores do programa.)
Vou tentar liberar os comentários sempre que der. Não deixem de escrever. No máximo no fim do dia faço outra atualização.
Até.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h10
ANDREA MURTA, redatora e repórter de Mundo da Folha Online, fez o curso de pesquisa de Al Tompkins na semana passada e divide com os leitores do blog alguns sites que ele mostrou:
http://twingine.com
www.doubletrust.net
http://clusty.com
http://accoona.com
http://news.google.com/
http://quikmaps.geotripping.com
http://www.archive.org
http://siteexplorer.search.yahoo.com
www.searchsystems.net
www.zoominfo.com
www.argali.com
http://www.zabasearch.com/
www.peoplefinders.com
http://www.opensecrets.org
http://www.vote-smart.org
http://www.guidestar.com
http://cbsnews.cbs.com/network/htdocs/digitaldan/disaster/disasters.htm
Sobre o curso, Andréa comenta: "Achei bem útil, principalmente o site que mostra informações sobre desastres (é o último daquela lista). A gente tem muita dificuldade de conseguir contatos e informações próprias aqui quando acontece algo como um tsunami ou a queda de um avião do outro lado do planeta.
Mas, pra quem não é de Mundo, o seminário é meio inútil. Até sugeri a eles que façam algo que sirva para outros países também.”

NO BRASIL, DE OLHO NOS SENADORES
A Transparência Brasil lança a segunda etapa do Projeto Excelências (www.excelencias.org.br).
Estão no ar informações sobre todos os 81 senadores da República --dados pessoais, ocorrências na Justiça e nos tribunais de contas, noticiário sobre corrupção e, no caso dos eleitos em 2006, doações e gastos eleitorais e patrimônio pessoal declarado ao TSE.
As informações estão sistematizadas em fichas correspondentes a cada senador de maneira simples e fácil de consultar; são de acesso público e gratuito, a exemplo do que já acontecia com os deputados federais.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 22h22
O que você faria?
Ei, gente, as perguntas de vocês são ótimas. A de hoje é da Anita, de São Paulo:
Você é repórter, vai entrevistar um ator, mas a assessoria (ou o próprio entrevistado) informa antes da entrevista que você não deve tocar em um determinado assunto. Por exemplo, ele há pouco tempo esteve envolvido em algum escândalo (atropelou e matou alguém; foi pego com drogas; foi flagrado ao sonegar impostos etc.) e, antes da entrevista começar, você é avisado de que não adianta tocar naquele assunto, pois só serão respondidas perguntas sobre a nova peça de teatro. O que você faz? Você pergunta assim mesmo?
Repórteres de cultura, já passaram por isso? O que acham? E você, o que faria?
PS - vou responder bem mais tarde hoje, porque estou num compromisso em Salvador (BA).
COMENTÁRIO NOTURNO
Difícil dar uma resposta geral, né? Coisas em que eu pensaria para responder a essa situação:
[O comentário da Paula Leite me fez refletir sobre outra dica, que vem antes de mais nada. O entrevistado tem todo o direito de não responder, mas o jornalista tem que ter o direito de perguntar. O assessor pode avisar que o sujeito não vai falar, mas não pode querer proibi-lo de fazer a pergunta. Isso fica muito além das atribuições dele.]
Ciente, então, de que Fulano não responderá sobre tal assunto, acho que o repórter deve se fazer as seguintes questões para decidir se faz a pergunta mesmo assim:
--o caso em que ele se envolveu é realmente relevante? Ou trata-se da vida privada dele?
--se for relevante, há realmente algo novo que ele possa dizer sobre esse caso? Ou queremos só mostrar que temos peito de perguntar?
--é relevante o suficiente para correr o risco de queimar as pontes com a fonte?
--se as três respostas forem sim, ou seja, se o assunto extrapola a vida privada e é importante a ponto de merecer um conflito, é o caso de insistir na pergunta. Mas como e quando fazê-lo ainda exige alguma reflexão:
--além do caso em questão, há outros interesses na entrevista? Ou a única coisa que nos interessa é falar sobre o "problema"?
--se há outros interesses, faz sentido, como alguns sugeriram, deixar a pergunta bomba para o final. O assessor, se quiser, que barre a resposta, mas pelo menos a entrevista estará garantida.
--se estamos lá só por esse caso, não "adularia" a fonte, principalmente se ela já deixou claro que não vai falar. Iria direto ao ponto: "Fulano, me desculpe, sei que o senhor não quer falar sobre tal assunto, mas acho que a opinião pública tem direito de saber se tal e tal coisa".
--Uma dica do meu colega ITALO NOGUEIRA: Se a barreira for muito forte, uma boa dica é perguntar: "Por que você não quer falar sobre tal assunto?"
--em qualquer caso, registraria no texto tanto o pedido inicial de que o assunto não fosse abordado quanto a reação à pergunta.
--em nenhum caso eu fingiria ter desligado o gravador. Gravar escondido pode se justificar em outras situações, mas não consigo ver um bom motivo na hipótese que estamos analisando.
Questões de procedimento, como essas, são sempe difíceis de responder. Se alguém discordar das minhas propostas, fique à vontade para escrever.

DUELO DE MESTRES
Meu colaborador constante Óscar Curros conta de uma entrevista com o escritor Mario Vargas Llosa publicada no jornal espanhol El País (não conseguimos localizá-la para lincá-la no blog). Durante a entrevista, o jornalista perguntou a Mario Vargas Llosa sobre o uma briga com García Márquez, alguns anos atrás (assinantes podem ler uma matéria relacionada em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1703200713.htm; http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2003200710.htm). O fato é que o jornalista de El País perguntou sobre a briga. Vargas Llosa disse que não ia falar a respeito do assunto (vale lembrar que Vargas Llosa é um dos melhores colaboradores do jornal, portanto questioná-lo não é fácil). Mesmo assim, o jornalista insistiu no tema e perguntou se Mario Vargas Llosa consideraria a reedição de seu livro sobre García Márquez. A resposta foi valiosa: "Não. O tempo passou e eu teria de reescrevê-lo".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 05h38
Para entender direito
Gustavo Romano, professor de direito da Folha, acaba de criar um blog em que pretende comentar erros jornalísticos no que se refere ao direito e responder a dúvidas, orientar etc.
O cara é fera, entende muito de direito e conhece bastante jornalismo, por isso pode juntar bem as duas pontas.
Não reparem na falta de acentos do blog. Ele mora em Londres (mas lê jornais brasileiros todos os dias) e trabalha na África e seu teclado não tem acentos...
Mas tenho certeza de que é um recurso bastante útil para nós, jornalistas, que penamos para nos guiar no juridiquês.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h39
Três cursos pra começar a semana
ANÁLISE DE BALANÇO PARA JORNALISTAS
Investigar empresas é uma das coisas mais difíceis em reportagem. Uma das ferramentas é saber ler balanços. Não conheço este curso especificamente, mas com certeza é uma área que repórteres deveriam tentar dominar:
O Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) faz nos dias 5 e 6/6, das 9h às 13h, curso para jornalistas sobre análise de balanço.
Inscrições podem ser feitas no site do instituto.

FINANÇAS
A Andima tem regularmente cursos na área de finanças. Alguns são muito técnicos, mas há outros úteis para quem quer cobrir a área. No programa atual há dois: matemática financeira e introdução ao mercado financeiro.

MESTRADO EM JORNALISMO
A UFSC recebe até 15/6 inscrições para um programa novo de mestrado em jornalismo. Segundo a universidade, é o primeiro do país especificamente em jornalismo --os outros são em comunicações ~[não tive tempo de checar, por isso só repasso o peixe como comprei].
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h46
O que você faria?
CRIME NOS ÚLTIMOS MINUTOS
Minha intenção era dar um tempo nos exercícios de atitude, mas a mensagem de um leitor me fez mudar de idéia.
Estudante de jornalismo em Minas, na semana passada fez um teste para estagiário em um jornal.
Na seleção, além de testes psicológicos e de redação, houve um de apuração. Ele tinha que achar uma solução para o seguinte problema:
"Você está na apuração e todos os repórteres ja se encontram na rua. Faltam alguns poucos minutos para seu horário de serviço acabar, a pessoa que irá rendê-lo chega daqui 5 minutos. De repente um policial liga dizendo que ocorreu um crime que pode ser uma boa matéria. Mas ele não dá mais informações e diz que vai ligar de novo daqui 30 minutos. O que você faz?"
Nosso colega deu várias sugestões, todas criticadas pela banca. Quer discutir os melhores passos para se resolver o problema: "Aguardo respostas!".

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
A prova de fogo do nosso colega foi assim:
Banca - O que você faria?
Candidato - Eu ligaria para o editor.
Banca - Mas você não tem muito pouca informação para falar com seu editor?
Candidato - Ouviria o rádio de comunicação da polícia e o site da organização na internet para ver se alguma ocorrência era registrada.
Banca - Mas o crime ainda é secreto. Não vai haver informações circulando. O melhor seria segurar a pessoa pedindo mais o mínimo de informação possível. Vocês não podem confiar no retorno da ligação daqui a 30 minutos.
Candidato - Eu consultaria o editor sobre que enfoque dar à apuração.
Banca - Mas vocês já teriam mesmo uma matéria com essas informações?
Candidato - Acho que não. Talvez se pudessémos buscar alguma testemunha ou moradores da região onde o crime aconteceu... Assim iríamos ter outras fontes, que não a polícia.
Banca - Mas o fato foi encoberto. Vocês não vão achar testemunhas.
Conta o candidato: "No fim a banca não ficou satisfeita com nossas respostas. Ninguém desse trio passou no teste. Um professor que estava acompanhando a gente disse que o que eles queriam era que a gente defendesse as nossas opções e por isso eles questionavam e cortavam nossas respostas. Bom, estava meio nervoso para defender minhas idéiais desse jeito... fica uma dica para os próximos testes."
Acho que o professor, e um dos nossos comentaristas, matou a charada. A impressão que dá, pelo que nosso colega conta, é que a banca queria realmente examinar o grau de segurança dos candidatos.
Apesar disso, acho que há algumas lições a tirar do problema. Quando li a questão, as primeiras coisas em que pensei foram estas:
- sempre, sempre, sempre que te ligarem pra passar notícia, pegue nome e telefone da pessoa logo. A ligação pode cair, por exemplo. Garanta sempre o contato.
- em geral, é bom que um jornalista mantenha o controle de quando vai falar com as pessoas. Em vez de deixar que um assessor ou uma fonte ligue de volta para você, combine um horário para você ligar. Isso deixa a iniciativa na sua mão.
- se trabalha para um jornal diário, não precisa mesmo sair correndo atrás do tal crime. A pessoa que vai rendê-lo chega em cinco minutos. O que você pode fazer é adiantar ao máximo o trabalho para ela.
- vamos supor que a ligação caiu antes que você pegasse nome e telefone de quem ligou. A saída agora é ligar para a central da polícia e perguntar que crimes foram cometidos de ontem para hoje (pelo enunciado do problema, é um crime novo, recente), e ir pegando os dados todos pelo telefone, para que seu substituto, ou você mesmo, possa pautar alguém.
- como conversamos antes, em jornalismo diário há horário para entrar, mas, para sair, quem decide é a notícia. Portanto, se nesse levantamento você achar algo grande, muito legal, talvez você mesmo queira ir atrás da história. Não tem essa de "meu horário acaba em cinco minutos". Caso contrário, não vejo problema algum em passar o caso, com tudo o que você puder adiantar, para seu substituto.
- o enunciado diz que os repórteres estão na rua, mas imagino que eles usem celular, não? Ligaria para o que cobre polícia e avisaria do telefonema. Ele com certeza terá fontes dentro da polícia que poderão dizer do que se trata.
SUGESTÃO FINAL
Ligue para os examinadores e peça que eles digam no que você pode melhorar. Mesmo não tendo passado desta vez, será uma ótima oportunidade para entender os critérios de seleção e se preparar melhor.
MAIS UM COMENTÁRIO, TARDE DA NOITE
Lendo o que escreveu o André, de Campinas, fico imaginando se faz sentido usar esse tipo de teste para selecionar um estagiário.
Seria útil para uma função em que iniciativa, segurança e poder de decisão fossem fundamentais.
Numa seleção para estagiário, imagino, procura-se gente com potencial para crescer, mas que ainda tem muito a aprender.
Não sei se é válido exigir esse tipo de reação de alguém que procura, justamente, ganhar experiência para, na hora H, saber como agir.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h05

Como provocou bastante debate o exercício sobre o entrevistado que morreu durante uma entrevista para a TV no Paquistão, colocamos no ar uma enquete.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h40
Pingue-pongue

O professor da leitora Bianca pediu que ela fizesse uma entrevista pingue-pongue, do tipo das que saem nas páginas amarelas da "Veja":
"Será preciso fazer uma abertura sobre quem é o meu entrevistado, por que o escolhi, qual a sua relação com o assunto, sua formação acadêmica... É um trabalho novo para mim, e em uma editoria que nunca trabalhei antes, política. Também não sei como escolher quais as melhores partes para destacar no olho e no título."
Há um mundo a falar sobre entrevistas. Vou dar algumas dicas básicas sobre pingue-pongue aqui, mas podemos detalhar no futuro (e ainda devo uma resposta ao João sobre coletivas, que têm características próprias).
ALGUMAS DICAS PARA UM BOM PINGUE-PONGUE
1. O ENTREVISTADO É TUDO: na maioria absoluta das vezes, o que atrai o interesse do leitor é quem foi entrevistado. A entrevista é tanto melhor quanto:
a) o entrevistado é muito relevante: é a maior autoridade naquele assunto, acaba de ser premiado por algo, está no topo de algum ranking, fez uma nova descoberta importante, é o mais famoso na sua área, nunca deu uma entrevista antes. Por exemplo, o fotógrafo Mario Testino, considerado um dos melhores do mundo da moda, que está nas páginas amarelas desta semana.
b) as idéias do entrevistado são excepcionais: ele é importante e tem opinião destoante dos demais, ou faz críticas fortes a algo ou alguém, ou diz coisas inesperadas que dão um bom retrato do grupo que representa. Por exemplo, a entrevista com a socialite Yara Baumgart, feita pela própria "Veja" (pode ser lida on-line por quem assina a revista)
c) o entrevistado não é tão relevante em si, mas é notícia grande no momento. Por exemplo, o bombeiro que, correndo grande risco, salvou uma criança.
2. CONHEÇA SEU ENTREVISTADO - Pesquise sobre ele antes e leve por escrito um resumo biográfico (datas e fatos, só), para nortear-se
3. PENSE NO LIDE - Imagine qual seria a declaração mais legal que você poderia obter. Prepara perguntas por escrito (mas fique livre para esquecê-las se a entrevista tomar melhor rumo)
4. MOSTRE INTERESSE - Entrevistas pingue-pongue em geral rendem mais quando são feitas pessoalmente, com tempo e calma. Diga para seu entrevistado por que o escolheu (qual é o "lide" da conversa), mas comece pelo começo, ouça sobre a vida e a carreira dele, interesse-se pelo personagem. Isso faz com que ele se sinta mais à vontade e a entrevista tenha fluxo livre.
5. TAL E QUAL - Obviamente, grave tudo. Pingues-pongues devem ser fiéis ao que foi dito, tanto na pergunta quanto na resposta. Mas, claro, é possível editar (condensar, eliminar redundâncias, corrigir erros). Se, na hora de transcrever, ficar em dúvida sobre algo, ligue e pergunte. Não chute, cheque.
6. O QUE ELE ACHOU? - meu colega Frederico Vasconcelos costuma, no final da entrevista, perguntar se o entrevistado gostaria de acrescentar alguma coisa que eu não perguntei. Também pede ele diga claramente qual o ponto mais importante, a afirmação que ele considera mais relevante. "Muitas vezes, é nessa ocasião que você tem um bom resumo da conversa e obtém o lide da entrevista."
7. E DAÍ? - na hora de abrir a entrevista (escrever a introdução, antes das perguntas e respostas em si), pense primeiro no que foi a coisa mais interessante/relevante que o personagem disse. Depois, explique para o leitor por que é relevante que essa pessoa tenha dito isso (ou seja, conte quem ela é e que relação tem com o tema). Conte na sua abertura detalhes que só você viu, porque esteve frente a frente com ele: gestos, tom de voz, coisas que tenham ocorrido durante a entrevista, detalhes do local em que ela foi feita. Dependendo do espaço, pode colocar aqui uma ou duas frases mais legais também.
8. NÃO PERCA - os olhos servem para ressaltar as frases mais saborosas, mais inesperadas ou mais fortes. Se puder fazer mais de um olho, alterne: faça um saboroso/curioso, outro mais forte/crítico, outro mais pessoal.

PONDO EM PRÁTICA
A Bianca precisa fazer um pingue-pongue de política. É uma área em que é preciso escolher muito bem o entrevistado, para não parecer promoção gratuita.
Tente achar um bom motivo jornalístico para a escolha. Alguns exemplos que poderiam ser aplicados à cidade de cada um: o juiz que acaba de mandar prender um político importante de sua cidade, um homem público que tenha sido acusado de algo, um político que tenha apresentado um projeto polêmico. Em época de eleição, o eleito mais jovem, o que teve maior número de votos, o que teve menor número etc. também valem. Mas sem o gancho da eleição, é preciso um fato novo para justificar a escolha.
Para entrevistas na área política, a pesquisa inicial é ainda mais importante, porque há muitos interesses em jogo sempre. Cuide para que sua pesquisa inclua fontes pró e contra a pessoa escolhida. Cheque bem os dados que obtiver, principalmente os que saem em reportagens. Lembre-se de que jornalistas erram.
Para evitar ficar "vendida" na entrevista, escolha alguém cuja vida e/ou carreira você conheça. Fica mais fácil fazer um trabalho crítico. Lembre-se de que na política as pessoas vivem também de retórica e são muito hábeis no discurso.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h18
A brava portuguesa paulistana
Vocês acham que uma reportagem de esportes pode começar com este lide?
"As traves e os varões assinalados/ da brava Portuguesa paulistana/ por duas vezes foram superados/ naquela arena hostil pernambucana./ Em perigo de queda, os esforçados/ honraram a colônia lusitana/ e, no final, com pênalti, calaram/ o Recife, onde há um ano naufragaram."
MÁRVIO DOS ANJOS achou que sim. E foi adiante, na reportagem sobre o jogo em que a Lusa, vencendo, evitou descer para série C:[havia escrito indevidamente que ela tinha perdido a chance de subir para a série A, mas uma leitora atenta e gentil me ajudou a corrigir]
A paródia do poema "Os Lusíadas", de Camões, se justifica. À beira do abismo nos 89 minutos da última rodada da Série B, foi com raça que a Portuguesa escreveu na Ilha do Retiro, um 3 a 2 de virada no vice Sport.
A verdade é que um texto como este não aparece todo dia. A ponto de fazer com que o leitor Thiago lembrasse dele, quando leu meu post sobre o perfil do menino Enzo.
Thiago queria que eu entrevistasse o Márvio (que foi meu trainee na 35ª turma). Pedido atendido:
Novo em Folha - Você negociou antes com o editor a possibilidade de fazer o texto "poético"?
Márvio dos Anjos - Não. Esse texto foi feito num plantão de sábado. O máximo que eu podia ter feito era ter ligado para o editor e lido ao telefone. Mas aí achei que demonstraria insegurança com o texto. Preferi assumir a responsabilidade.
NF - Quando teve a idéia de fazê-lo assim? Já antes do jogo? Durante? Depois?
MA - Eu sou fã de poesia portuguesa, de Camões a Pessoa. O jogo era muito importante para a Portuguesa de Desportos, então eu já sabia mais ou menos que ia fazer alguma citação aos "Lusíadas", de Camões, ou ao "Mensagem", de Pessoa, que são exaltações e questionamentos da história lusitana. Durante o jogo, percebi que o caminho estava mais para Camões e, num flash, tive a idéia de parodiar a estrofe de abertura dos "Lusíadas".
NF - Quando contou para o editor? O que ele achou?
MA - Não contei. Ele leu impresso. Acho que gostou. Não houve nenhum grande comentário dele, mas sei que houve muito de surpresa. O lado bom é que os editores se deparam tão raramente com essas "anormalidades" que eles realmente não sabem bem o que dizer diante disso.
NF - Alguém tentou te convencer a fazer diferente?
MA - Não. Para falar a verdade, acho que éramos só eu e o Pombo [repórter e redator de Esporte] aqui. Eu ainda pedi para o Maurício Puls, [redator] de Brasil, um cara culto e de bom gosto, que desse uma olhada. Ele adorou, então senti firmeza.
NF - Qual foi a repercussão?
MA - Recebi elogios de torcedores ilustres da Portuguesa, de anônimos, do José Geraldo Couto e, na Redação, os colegas vinham parabenizar. Foi ótimo para mim e acho que para a editoria de Esportes foi uma quebra na rotina.
NF - Por que quis fazer esse texto desse jeito?
MA - Para que se saibam os limites, para que o texto seja uma experiência enriquecedora nos momentos necessários. Ali tinha-se um clímax esportivo de um clube português. Tudo cabia, tudo se encaixava. Nada foi over.
NF - Gostaria de fazer outros textos de esporte assim?
MA - Claro que gostaria. Não sei se com paródias de poemas, porque acho que o leitor médio de Esporte não tem referência suficiente para que isso se torne freqüente. Mas sempre que possível, tento buscar algo mais inspirado nos textos, sacações, uso mais ousado da linguagem, para que o leitor tenha algo que se lembrar antes de jogar o jornal no lixo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h27
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