Programa de Treinamento

Novo em Folha

 

Receita de texto bom

Perguntaram a Paulo Totti como ele tinha feito suas reportagens sobre a China, consideradas exemplares.

---Acordava todo dia às 6h e trabalhava até a meia-noite.

A gente pensa que um bom texto é resultado de palavras. Não é. Boa reportagem só fica bem escrita se a apuração for boa, completa, detalhada, profunda.

Acompanhe o comentário de um leitor e minha observação em resposta a ele.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h39

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Fim de semana na livraria

Fim de semana na livraria

REPORTAGENS

Minha colega Mariana Desimone pede indicações de leitura. Ela ama livros-reportagem. Um bom lugar para começar é a coleção de Jornalismo Literário da Companhia das Letras. Procure pela coleção na janela de buscas do site. Há 15 títulos, todos excelentes.

A coleção inclui Gay Talese, citado ontem por Paulo Totti como um autor que todo jornalista deveria ler.

POLÍTICA E POLÍCIA

Meu amigo Fernando Molica, da Globo, organizou pela Abraji um livro com 10 reportagens que abalaram a ditadura e acaba de lançar, no congresso, outro com 50 reportagens policiais.

A VOZ DO PERSONAGEM

Mariana me diz que está lendo "101 dias em Bagdá", de Asne Seierstad --que escreveu "Livreiro de Cabul". Um ótimo livro para fazer jornalista pensar no que faz é "Eu Sou o Livreiro de Cabul", escrito pelo protagonista de Seierstad.

O livreiro de Cabul se sentiu traído e desrespeitado pela escritora. Quantas das nossas fontes também não se sentem assim?

HISTÓRIA

Óscar Curros, que acompanha com a turma de treinamento o curso de história na Folha, sugere para quem quer estudar mais:

HOBSBAWM, Erik. A Era dos Extremos . O breve século XX 1914 - 1991. São Paulo: Cia das Letras, 2001, 598p.

DIREITO E ECONOMIA

O mesmo Óscar, meu colaborador freqüente, manda uma lista de livros básicos de direito e economia, respondendo a uma pergunta do nosso leitor Charles Nisz:

DIREITO
 
1) O Supremo Tribunal Federal e a construção da cidadania, Emília Viotti da Costa, Unesp

2) Sociedade e Estado em transformação. Luiz Carlos Bresser Pereira, Jorge Wilheim e Lourdes Sola. Unesp

3) Como a lei resolve questões de família. Ivone Zeger. Mescla Editorial

ECONOMIA
 
1) Introdução à Economia: uma abordagem crítica. Wilson Cano. Unesp

2) Fábulas Econômicas. Eliane Cardoso. Pearson / Selo Prentice Hall (em livrarias ou pelo site www.pearson.com.br)

3) Finanzas en Pocas Palabras (em espanhol). Javier Estrada. Pearson

TODOS OS HOMENS

Não é de leitura, mas vai entrar aqui também. Meu colega Luiz Eblak conta que, nos extras de "Todos os Homens do Presidente", há um documentário que traz declarações de Bernstein, Woodward, Bradlee, Walter Cronkite, entre outros.
 
Diz Eblak: "Eles concluem que, se tivesse ocorrido hoje, o caso Watergate não daria em nada. Talvez nem fosse investigado tão a fundo.
 
Os motivos (pelo que me lembro): além da legislação (que obrigaria a dupla de repórteres a entregar suas fontes), eles dizem que o jornalismo impresso perdeu força para as TVs, que, atrás de audiência, não gostam muito de "ofender" o público, muito menos o presidente da República; que não se investe mais em jornalismo investigativo como nos anos 70 (à época, com 7.000 jornais nos EUA, havia muito investimento); que os políticos de hoje aprenderam a controlar mais a agenda da mídia; e que os blogs conservadores tratariam de desviar o foco da investigação logo em seu início (como quando a dupla do Post erra numa matéria...)".

ENTREVISTA

Camila, uma colega da Publifolha, pede que eu indique um livro sobre entrevistas. Ela quer obras que tratem a entrevista como técnica. Preciso organizar meus livros pra fazer uma lista, mas, enquanto isso, repasso uma recomendação do meu professor Fred Vasconcellos: "A Arte da Entrevista", organizao por Fábio Altman, com dezenas de entrevistas famosas e muitas dicas boas sobre o assunto.

CIÊNCIAS

O "blogbudsman" Roberto Takata sugere o livro de meu colega e professor MARCELO LEITE: "Promessas do Genoma".

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h00

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O que você faria?

O que você faria?

CAÇA AO MINISTRO

Você precisa entrevistar o ministro da Saúde. Faz três dias que está tentando, mas não consegue ser atendido nem pela assessoria de imprensa. O que é que você faz?

COMENTÁRIO NOTURNO

A situação acima deu-se com o repórter especial Paulo Totti, do "Valor Econômico", que, como contei ontem, tem décadas de experiência e um trabalho de qualidade reconhecida.

Quando estamos começando, ou na faculdade, pensamos que essas coisas só acontecem conosco. Ouvir um relato desses do Totti mostra o tamanho do problema quando se precisa de informação. E um projeto comandado por KATHERINE FUNKE, repórter de cidades do jornal baiano "A Tarde", mostrou bem isso:

GOLEADA CONTRA A TRANSPARÊNCIA

Hoje pela manhã, Katherine, que tenho como minha "afilhada", relatou o resultado do MAPA DE ACESSO, um levantamento que ela propôs e ajudou a coordenar em todo o Brasil.

Em todos os Estados (com exceção de Santa Catarina, em que houve percalços), voluntários pediram informações corriqueiras, do tipo que costumamos precisar para reportagens, a cinco órgãos: gabinete do governador, Assembléia Legislativa, Tribunal de Justiça, Secretaria da Segurança e Secretaria da Justiça.

No total, foram 130 órgãos --e o projeto contabilizou dados de 125 deles.

O resultado é escandaloso: só 3,6% dos órgãos forneceram todas as informações pedidas, e outros 22% deram parte delas. Na análise mais benevolente, o placar foi de 7 a 3 para os que querem esconder informação.

O que podemos fazer para reverter o jogo:

  • não desistir. Insistir no pedido. Citar os artigos da Constituição que garantem o acesso dos cidadãos a informação pública. Em alguns casos, é possível mesmo recorrer à Justiça para obtê-las
  • cultivar fontes nos órgãos, principalmente técnicos de segundo e terceiro escalão, que em geral não têm atuação política
  • tentar falar direto com o titular do órgão.

Aqui voltamos ao caso do Totti: depois de três dias sem nem conseguir contato com a assessoria, ele tentou uma coisa simples. Começou a procurar tudo sobre Temporão no Google. Achou um e-mail. Será que ainda é dele? Na dúvida, arriscou. Pediu desculpas por invadir a privacidade do ministro, mas contou que havia dias tentava um contato sem sucesso.

Na manhã seguinte, bem cedo, o assessor de imprensa ligava para marcar a entrevista que o repórter pedira.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h39

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Texto nota dez

O sujeito cobriu a guerra das Malvinas, a criação do Mercosul, negociação da dívida brasileira, foi correspondente, repórter, editor, diretor de Redação.

Começou a trabalhar aos 14 anos. Aos 19, virou vice-presidente da UNE. Estudava direito; virou repórter. Em 1964, era secretário de Redação, um dos maiores cargos num jornal. Foi demitido, perseguido, viveu meses clandestino.

Dez anos depois, quando as coisas pareciam ter entrado nos eixos de novo, foi preso por "atividade subversiva". Fez parte da equipe que inventou a "Veja", dirigiu a Gazeta Mercantil.

Sua minibiografia diz: "Na infância, foi católico; na juventude, comunista. Hoje é ateu e sem filiação partidária".

Daria um perfil maravilhoso, daqueles que ele sabe fazer: gente que eu respeito diz que Paulo Totti tem um dos melhores textos no Brasil.

Leitores deste blog podem conferir histórias que publicou no "Valor", onde é repórter especial.

Assisti hoje cedo uma palestra de Totti, em que ele contava como havia feito as reportagens:

-- durante 20 dias na China, trabalhava muito, das 6h à meia-noite
-- anotava na memória e no bloco todos os detalhes
-- tinha claro que histórias gostaria de contar, que curiosidades o país despertava nele mesmo
-- dedicou-se mais intensamente a descobrir o lide dos textos. "Depois do lide, o texto vem fácil."

Uma aluna perguntou como escrever um bom texto sobre economia, em que há tantos jargões.

--"Pergunte tudo. Não tenha medo de dizer que não entendeu. Você só tem obrigação de não parecer idiota para seu leitor. Não tem obrigação nenhuma com as fontes ou os colegas."

Já perdi a conta das vezes em que ouvi esse conselho de gente consagrada. Frederico Vasconcelos, que geralmente cobre assuntos áridos, tem uma frase ótima a respeito:

--"Na área da economia e de negócios, alguns jornalistas fingem que sabem mais do que sabem; o entrevistado, às vezes um empresário esperto, finge que sabe menos, e o leitor, coitado, vai ficar sabendo menos que os dois... "

Mas eu quis falar do Totti esta noite porque, no exercício de amanhã, vou colocar como problema uma situação pela qual ele passou.

Até! 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h23

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O que você faria?

O que você faria?

MORTE AO VIVO

Você é o editor, em Karachi, no Paquistão, de um telejornal internacional. Sua tarefa é olhar os vídeos e garantir que a TV mostre as imagens mais quentes, que retratem mais fielmente os fatos.

Num deles, está uma das cenas mais fortes que você já viu: uma entrevista com um homem deitado na rua após ser alvejado por vários tiros. Ao lado dele há um morto. O ferido conta que dirigia um ônibus quando foi baleado. Diz seu nome --Bahadur-- (em seu idioma natal, urdu, o mesmo que poderoso e corajoso) e morre, com o sangue escorrendo de sua cabeça.

Seus colegas defendem que o vídeo seja usado para mostrar o impacto da loucura que vive o Paquistão. Você concorda com eles? Põe a imagem no ar? 

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA

Nesta semana, dois dias de violência em Karachi deixaram 41 mortos. São os piores confrontos de rua registrados no país nos últimos anos. O caso acima aconteceu é real, e aconteceu com o jornalista Todd Baer, repórter americano que foi ao Paquistão para treinar equipes de TV.

Baer conta, num artigo muito interessante (quem arranha inglês deveria ler), a aflição por que passou durante os confrontos, as dúvidas que teve e a decisão que tomou: a cena foi para o ar, mas cortada segundos antes de Bahadur morrer.

Não tenho o vídeo para ter certeza, mas imagino o impacto da voz over na cena congelada do homem ainda vivo: "Bahadur morreu no instante seguinte". Pode ser até mais forte que a cena da morte em si.

O equilíbrio entre "sacudir" o público e chocá-lo é tênue.

Na minha opinião, um jornalista tem que escolher a imagem (ou a informação) que dê o tom exato da situação que ele presenciou. Não é tarefa dele "preservar" o leitor, embora não deva agredi-lo gratuitamente.

Cada escolha terá um efeito, tanto em termos de informação, pura e simples, quanto em termos de envolvimento do leitor com a notícia.

Vejam as quatro imagens abaixo, todas elas referentes aos eventos de Karachi. Se pudesse publicar uma só na Primeira Página do seu jornal, qual escolheria? Por quê?


Aamir Qureshi/France Presse
 
Manifestantes contra o governo paquistanês atiram pedras em governistas

AAJ TV/France Presse

Homem não identificado atira na rua durante confrontos em Karachi

Sakil Adil/Associated Press

Corpos numa rua de Karachi, mortos durante tiroteio durante conflito

Rahat Dar/EFE

 Ativistas de uma ONG acendem lâmpadas de azeite junto a um cartaz
em que se lê "O sacrifício dos mártires de Karachi trará mudanças"

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h15

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Errei

Só para avisar os leitores que queriam saber da bobagem que fiz quando entrei na Folha: está na resposta do exercício de hoje.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h22

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Hoje à noite, de graça

Hoje à noite, de graça

"Quando fui para a guerra, tinha 27 anos.
Fiquei 11 meses lá.
Quando voltei, estava com 40 anos."

A frase é de Joel Silveira, repórter espertíssimo, de texto ferino, que não perdoava ninguém. Joel cobriu a 2ª Guerra, que teve nele o efeito descrito acima.

É o homenageado na abertura, hoje à noite, do congresso da Abraji. O evento, comandado por Juca Kfouri, é gratuito. Começa às 19h, no auditório da Universidade Mackenzie.

Num depoimento a Marcelo Beraba e Fernando Molica, ele fala sobre muitos assuntos e, entre eles, conta como foi mandado para a guerra: publicou um texto em que arrasava com damas da sociedade, "coleção de anos mal disfarçada pela maquiagem". Uma delas era amicíssima do dono do jornal. O resto, ele mesmo conta no vídeo, para quem aparecer por lá.

TREINAMENTO DO "ESTADO DE S.PAULO" ABRE INSCRIÇÕES

Estão abertas até 1º de julho inscrições para o curso de jornalismo de "O Estado de S.Paulo".

Sim, é o jornal concorrente, mas em treinamento há uma longa tradição de cooperação. Quanto melhores os cursos, quanto mais gente bem preparada, melhor para todos.

E, como eu conversava ontem com os alunos da Facamp, aonde fui dar uma palestra: inscreva-se!

--Ah, eu não tenho a menor chance, é muito concorrido...

Se você pensa assim, suas dúvidas terminaram: há 100% de chances de não ser mesmo selecionado.

Qualquer coisa que aconteça, portanto, é lucro. No mínimo, ganha experiência, fica conhecendo a prova.

Sim, é horrível ser recusado numa seleção. Já passei por isso. Mas, sem tentar e insistir, não se chega a lugar nenhum --é como enfiar a cabeça embaixo do travesseiro e passar o dia trancado no quarto.

CURSOS, ESTÁGIOS

Os meninos também me perguntaram como ficar sabendo de cursos e estágios.  

Sobre cursos, eu coloco no blog os que chegam até mim, mas com certeza deixo passar muita coisa. Uma das alunas lembrou que a revista "Imprensa" tem um seção de agenda, onde relaciona eventos.

Leitores que souberem de outros lugares para saber de cursos, por favor, avisem!

Sobre estágios, digo o seguinte: pressionem os sindicatos dos seus Estados a prestar esse serviço. São eles que firmam os convênios para estágios, portanto eles devem ter essa relação. Deveria ser do interesse deles divulgar as oportunidades e trabalhar para que houvesse mais e melhores chances de começar a trabalhar.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h46

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Onde foi que eu errei?

Ontem, vocês sabem, os trainees fizeram reportagens.

Qual a primeira coisa que eles precisam fazer hoje? Abrir o jornal e ver como foi publicado o texto, se é que foi.

Cortaram muito? Mexeram no lide? Alteraram muito o texto? Que destaque deram?

E a segunda coisa?

Abrir os concorrentes, claro! Será que tomamos algum furo? Demos algum? Como foi que eles abriram o texto? Do mesmo jeito? O texto deles está melhor? Por quê?

Um repórter é feito basicamente de fontes e experiência (e, claro, talentos naturais como curiosidade, cara de pau, persistência, malícia, ceticismo etc.).

Sobre fontes, já falamos em outros posts e vou voltar a falar em breve.

Sobre experiência, ela ensina de várias formas: a) dá mais segurança; b) provoca erros.

Erros ensinam? Muito. Mas não ensinam sozinhos, de forma passiva.

Em geral, a gente aprende seguindo quatro passos:

  1. ouvir/ler/refletir
  2. exercitar
  3. ser corrigido, criticado, analisado
  4. refazer tentando implantar as críticas e correções

Fazer reportagens é, portanto, o passo dois na escala de aprendizado.

Passou o dia todo na rua e não publicaram nada do que você escreveu?

Tente descobrir por quê. Foi falta de espaço? A apuração estava ruim? O que faltou?

Reescreveram todo seu texto?

Idem, converse amigavelmente com quem fechou a reportagem, peça que ele explique que critérios usou.

Sei que é chato ouvir críticas. Por isso, muita gente prefere ficar quieto no seu canto a tentar saber onde errou. No curtíssimo prazo, é uma opção confortável. No médio prazo, é limitante. No longo prazo, uma catástrofe.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h34

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O que você faria?

O que você faria?

O que você faria?

DOSE DUPLA

Há uma semana, você deixou passar um erro sério, que lhe rendeu até uma advertência. Aí você sai para fazer uma matéria explicando problemas de saúde do presidente da República. Entrevista um otorrino que explica com detalhes o que ele tem no ouvido. Você toma o máximo cuidado com a arte, checa todas as informações, mas, no dia seguinte, quando abre o jornal, quase morra de susto: os nomes das partes do ouvido foram trocadas.

Você vai falar com o departamento de arte, mas o editor sugere: "Deixa isso pra lá, ninguém percebeu. É melhor não dizer nada, senão vai complicar pro seu lado".

O que você faz?

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA

O caso acima aconteceu comigo. [Ricardo, olha aí, vou contar o tal erro e a bobagem que eu fiz.]

Comecei na Folha como repórter de Educação e Ciência. "Repórter", claro, é força de expressão. Eu era menos ainda que foca, muito verde, muito insegura. De ciência, entendia um pouco, mas de educação, e de reportagem... Quase nada.

Como vocês podem imaginar, minha editora, que já não era uma pessoa muito calma e compreensiva, não estava satisfeita com sua nova contratação. Mas eu ia indo aos trancos e barrancos.

Até que fiz uma reportagem sobre engenharia genética (uma de minhas paixões) que foi elogiada pela direção. Que bom? Não, foi um desastre, porque a editora tinha desancado por escrito a reportagem e criou-se uma saia justa. Ela passou a me odiar um pouco mais.

Estava no jornal havia quatro semanas, mais ou menos, e me passaram uma reportagem especial: cursos de férias. Levantei mais de 50, de todos os tipos, idiomas, esporte, artes, tudo o que você possa pensar. Fiz uma enorme arte, com nome da escola, tipo de curso, horário, endereço, telefone, datas e preço.

A reportagem foi publicada. Naquele dia, cheguei ao jornal e já recebi um telefonema: uma escola, avisando que seu telefone na arte estava errado. Fiquei na minha. Logo depois, outra escola. Achei estranho. Na terceira ligação, comecei a entrar em pânico. Fui olhar a arte: da 10ª escola para baixo, o "artista" tinha comido uma linha nos telefones. Havia 40 informações erradas, 90% das informações que eu tinha publicado estavam erradas.

Vocês podem imaginar o tamanho do desastre? Tinha errado por pura ignorância: não sabia que artes precisavam ser checadas! Nunca tinha feito uma antes, ninguém tinha me avisado que nem sempre elas saem da editoria de arte do jeito que entraram.

Mas eu ainda piorei minha situação. Como só quatro escolas tinham me ligado, ingenua e "egoistamente" resolvi ficar na moita. Até que uma delas ligou pra minha editora. Que me chamou aos berros. E berrou ainda mais quando eu confessei que já sabia, que outras quatro tinham telefonado, e que eram 40 os erros.

Ela pediu minha demissão. O jornal me achava "promissora" e não demitiu, mas levei uma advertência por escrito e fui colocada no limbo: sem editoria fixa, um dia trabalhava em Turismo, outro em Casa & Companhia, no outro em Negócios.

Aos poucos, fui me reabilitando.

Até ter confiança suficiente do jornal para fazer a tal matéria sobre a saúde do presidente. Na qual tomei o máximo cuidado, por ter aprendido com o erro anterior.

Mas quase sucumbi ao outro erro uma segunda vez. Por alguns bons minutos, realmente fiquei com medo de pedir um Erramos, de mostrar o erro. Quase cedi à tentação de não contar para ninguém.

Contei, pelo motivo errado: por saber que, se alguém descobrisse, seria ainda pior para mim.

Hoje, obviamente, contaria pelos motivos certos, apontados por vocês:

1) O leitor tem direito à correção
2) Sua fonte, cujo nome aparece ligado ao erro, tem direito à correção
3) Em geral, as pessoas não condenam quem erra, admite e corrige. Condenável é esconder o erro.

Sobre a relação com o editor

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h57

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O que o jornal e um avião que cai têm em comum?



Paulinho Uda, leitor e comentarista do blog (e excelente observador de fotos), mandou um comentário bem relevante sobre erros.

Foi escrito quando eu contei meu plantão com o hipercriterioso Ricardo Melo, mas na época não chegou até mim.

Chegou hoje, no meio de uma semana cheia de enganos, e veio bem a calhar:

Ninguém gosta de errar, muito menos ter que admitir que errou.

Em outras profissões, não há margem para erros. Lembra-se do avião da Varig que caiu na Floresta Amazônica em 1989? Foi um erro de navegação, causado pela leitura errônea da rota no plano de vôo. Não tenho certeza,  mas acho que a rota que deveria ser digitada no computador era 027, que corresponde a 270 graus no computador.

Porém o piloto não notou um ponto entre o zero e o dois (0.27) que corresponde a  27 graus. Esse foi o primeiro erro.

O segundo foi confiar apenas na leitura dos instrumentos e não prestar atenção em coisas simples e fundamentais para a navegação, como a posição do sol.

O vôo partiu no final da tarde e seguiria em direção norte, portanto o sol deveria estar à esquerda da janela do piloto. Mas eles seguiram para o sul com o sol à direita da aeronave e quando perceberam era tarde demais.

Nós fazemos isso também em nossos computadores, confiando no corretor ortográfico e esquecendo o que aprendemos na escola.

O terceiro e pior erro que o piloto cometeu foi não admitir o erro para seus superiores ou a companhia aérea. Com medo de perder o emprego e manchar seu currículo, ele tentou voltar à rota correta em vez de pedir auxílio e acabou causando uma tragédia.

Em profissões como esta não existe a coluna “errata”, o erro na leitura de um "ponto", custou a vida de dez pessoas.

As lições do primeiro e segundo erro que o piloto cometeu são óbvias, mas o terceiro erro mostra a culpa de toda uma cadeia.

Resolvi escrever esta mensagem depois que eu vi o post da Natália, perguntando se houve demissão(ões). A pergunta é pertinente, pois essa é a reação esperada, encontrar um culpado, pintá-lo de vermelho e jogá-lo as piranhas. Quando a reação lógica deveria ser entender em que ponto a cadeia falhou.

No caso da Varig em 1989, a falta de procedimentos para estes casos e a certeza de represália por parte da companhia levaram o piloto a pensar em primeiro lugar no seu ego e sua carreira. Esqueceu que não existe “errata” nos planos de vôo e assim dez vidas foram ceifadas.

Em uma Redação não é diferente. Acredito que mais importante do que achar culpados ou sentir-se culpado é extinguir ou minimizar a possibilidade de erros.

Um bom exemplo de como as coisas são é o caso vôo 1907 da Gol e o do apagão aéreo. A necessidade de se encontrar um culpado é tão grande, que até agora não vi nenhuma ação efetiva de modernização dos controles de vôo ou solução para o caos aéreo para que esta situação não se repita.

Infelizmente, o ser humano é assim, só aprende com os erros e depois de achar um” Judas para ser malhado”.

A “errata” é o instrumento mais precioso de um jornal. Ali você percebe que ele é feito por gente. Mesmo um jornal com renome internacional deixa seu ego de lado para humildemente admitir que também comete erros, afinal é ele é feito por “gente”.

A lição aprendida com a queda do avião da Varig em 1989 é que nenhuma companhia aérea é maior que a vida de seus passageiros.
O mesmo vale para a imprensa, nenhum jornal ou revista é maior ou melhor que seus leitores.

O leitor demonstra sua confiança sendo assinante e espera que, quando acontecer o erro, antes que alguém “fique mal” por ter cometido erros ou que se achem os culpados, a humildade impere e seja publicada uma nota na “errata”.

O dia que eu não localizar nenhuma nota na “errata” é porque algo está errado. Nesse dia eu trocarei de publicação, pois gosto de coisas feitas por gente, gente que não tem medo de errar ao mesmo tempo em que entende a responsabilidade das conseqüências de um erro.

Concordo com a postura do Ricardo Melo, afinal ele deve ser um dos vários “pilotos” que tornam esta companhia grande e digna de confiança.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h37

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Seu primeiro dia?

Ei, gente, tá todo mundo dormindo até tarde hoje? Ou estão com medo de arriscar no problema que coloquei abaixo?
 
Lembrem-se, não há resposta certa ou errada. O importante é refletir sobre o que fazer.

Nas próximas três semanas os trainees estarão na segunda fase do treinamento: fazendo reportagens todos os dias.

Para muitos deles, é a primeira vez numa Redação. Você também está começando ou prestes a começar? Veja o que conversamos sobre essa estréia:

Te passaram uma pauta e você não entendeu direito o que era pra fazer?

Pergunte. Não saia para a rua (ou pegue o telefone) sem entender bem direito o que esperam de você.

Não sabe por onde começar?
 
Peça ajuda: "Quem você acha que devo ouvir primeiro?". As editorias costumam ter listonas de fontes básicas (aproveite para passar para sua agenda). Consulte colegas mais experientes.
 
O dia vai passando e você não consegue apurar a pauta?
 
Avise o pauteiro (ou o responsável) no começo da tarde. Não deixe para o final. A editoria precisa saber cedo que talvez a matéria caia. Não tenha medo de expor os problemas, peça ajuda para resolvê-los.
 
Terminou uma entrevista, mas não entendeu muito bem uma parte?
 
Ligue de novo e esclareça. Jornalista não deve ter vergonha de perguntar. Vergonha é escrever bobagem porque não ligou para checar.
 
Está confuso na hora de medir o texto, dar título?
 
Peça ajuda. Cole num redator mais experiente.
 
Lembre-se também de:
  • gravar todas as entrevistas
  • ouvir o outro lado
  • dar retorno para a editoria: em geral, o jornal precisa saber no começo da tarde como estão indo as apurações, para começar a pensar na edição (quando for dar retorno, não é pra contar tudo o que você fez em ordem cronológica: "Então, eu fui até a prefeitura, mas o assessor disse pra eu procurar o secretário, aí fui até a secretaria, mas tive que esperar 20 minutos...". É pra dizer que notícia você tem: "A secretaria disse que a campanha de vacinação vai atrasar uma semana. Segundo eles, a culpa é da gráfica que não imprimiu os folhetos no prazo. Ainda não consegui ouvir a gráfica".)
  • checar muito bem checado nomes (peça para o entrevistado soletrar), cargos, datas, contas (refaça as contas, não confie em contas prontas), números
  • passar o corretor ortográfico e tirar dúvidas de gramática

INTERNET EXIGE CHECAGEM

O Comunique-se contou ontem esta história em que o JB confundiu atores com traficantes na principal foto da Primeira Página.

Aqui está a página de ontem. Na edição de hoje, eles dizem que o Orkut fez o engano.

Mas uma lição é clara: tudo o que está na internet precisa ser checado!

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h33

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O que você faria?

O que você faria?

COM A CARA NA PORTA

Um exercício diferente para hoje, de "atitude".

Aconteceu com uma trainee. A pauta era saber como as igrejas evangélicas estavam reagindo à visita do papa. Ela chegou em frente a uma Igreja Universal e a funcionária disse que não eram permitidas entrevistas na igreja.

Também pediu que ela saísse da calçada em frente ao templo.

O que você faria? No fim do dia eu conto o que nós fizemos e que outras opções pode haver.

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA

Obrigada pelos ótimos comentários. Todos levantaram boas questões e deram saídas interessantes.

Vou resumir abaixo as sugestões. Algumas foram tentadas pelas repórteres, como o pedido à assessoria, a procura de outros templos em que fosse possível entrar.

É interessante ver como não há um consenso claro: há gente que prefere insistir, outros que preferem ceder. Uns sugerem a via oficial, outros a via informal (passar por fiel).

Também é bom ter em mente que é muito mais fácil achar soluções agora, com tempo pra pensar, que no calor da hora, quando algo que você não esperava dá errado.

O que as meninas fizeram? Em primeiro lugar, posso garantir que elas foram educadas. Se vocês conhecessem as duas moças que estavam na pauta, não teriam dúvidas disso.

Como não puderam entrar no templo, ficaram, claro na calçada. É um lugar público, sair seria absurdo. Esperaram os fiéis na saída. Pois vocês acreditam que a funcionária quis impedir uma delas de dar entrevista? Ainda bem que a moça se rebelou: "Falo o que eu quiser"!

Procuraram, claro, outros templos. Num deles, uma trainee entrou e se sentou num banco para assistir, mas foi logo interpelada.

Nessa hora, acho que é preciso em primeiro lugar pensar no objetivo da pauta.  Neste caso, estávamos querendo ver a reação das neopentecostais porque eram elas o principal alvo do papa, quando criticava as "seitas". O que importava, então, era saber se havia resposta ao discurso do papa: se ele era criticado, atacado, ignorado.

O segundo passo é pensar como atingir esse objetivo. Há algumas maneiras, não excludentes: pedindo a posição oficial da igreja, assistindo aos cultos, entrevistando pastores, pedindo a fiéis que contem se o papa é mencionado nos cultos.

Isso se consegue, como elas fizeram, tentando outros templos, tentando assistir ao um culto, ligando para a assessoria. Uma sugestão boa dada por um leitor é ir atrás de fontes fora da rua, com amigos de amigos.

Por fim, é bom pensar que às vezes, quando tudo dá errado, não necessariamente a matéria morre. Ela pode só mudar de figura. Se hipótese era "Neopentecostais contra-atacam e criticam papa", pode passar a ser "Universal impede fiéis de falar sobre o papa".

E, como lembrou alguém nos comentários, se o caldo engrossar, é notícia também: "Seguranças de igreja agridem repórteres". Na linha do "quanto pior, melhor"...

SUGESTÕES DOS COMENTÁRIOS

- consultar a assessoria de imprensa antes
- pedir com educação
- dizer que a reportagem quer ser imparcial e ouvir todos os lados
- não sair da calçada e entrevistar quem chega e sai
- ceder à funcionária, mas tentar convencê-la a mudar de idéia
- procurar alguém do alto escalão de várias religiões (budistas, evangélicos etc.)
- desistir na hora, mas depois entrar e assistir o culto, sem dar bandeira
- sair da frente da igreja e esperar os fiéis num ponto de ônibus
- nem pedir, chegar direto com a bíblia debaixo do braço e assistir o próximo culto
- tentar achar, com amigos de amigos, fiéis que aceitem falar
- pedir à funcionária o telefone do superior dela e ligar para tentar convencê-lo a entrar

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h18

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Quatro opções para investigar melhor

Quatro opções para investigar melhor

JORNALISMO INVESTIGATIVO

As inscrições on-line para o congresso da Abraji terminam hoje. Há cursos e seminários em todas as áreas de investigação jornalística, com alguns dos principais repórteres do país.
O custo varia de R$ 40 a R$ 200.

PESQUISA NA INTERNET

A News-U faz oficina on-line com Al Tompkins, do Poynter, um dos mestres da pauta. Vai ensinar a como achar pessoas, lugares, coisas, investigar policiais e instituições filantrópicas, cobrir desastres, entre outros.

Será dia 21/5 e inscrições terminam dia 18. Custa de US$ 10 a US$ 20.

SEGURANÇA

A ANJ fará no dia 12/6 em São Paulo o seminário “A nova cobertura da segurança”. Entre os temas, a organização das Redações para a nova cobertura de segurança, o que os jornais poderiam fazer para ajudar a reduzir a criminalidade e os novos dilemas éticos.
 
Inscrições custam de R$ 50 a R$ 70 e vão até 6/6.

CONTRABANDO E NARCOTRÁFICO

O Centro Latinoamericano de Jornalismo faz no Panamá, dias 25 e 26, uma oficina sobre como seguir a pista do contrabando e do narcotráfico.

O professor é Juan Roberto Vargas Vera, ex-editor do "El Tiempo", da Colômbia, e atual apresentador da TV Caracol.
As inscrições vão até 22/5 e custam US$ 770 (com hospedagem, café da manhã, almoço e transporte do aeroporto para o hotel).

Informações: Dilmar Darío Rosas García, dilmarrosas@celap.net

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h20

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Errou, corrija!

Cometi dois erros na entrevista do Fabio Victor:
 
1) o texto do Rivaldo que coloquei no ar não é o perfil, mas uma coluna que ele escreveu no lugar do Tostão.
 
Como eu errei: eu sabia que o perfil mencionava o fato de o pai de Rivaldo ter morrido cedo e de ele ser uma espécie de "patinho feio" do futebol, que demora para virar cisne. Fiz várias buscas no banco de dados da Folha, usando diferentes palavras-chave, até que, com "rivaldo pai atropelado", achei o texto da coluna. O teor era o mesmo do perfil, por isso achei que era o texto citado. Não era.
 
Como eu poderia ter evitado: do jeito mais simples do mundo: devia ter ligado para o Fabio e perguntado a data aproximada. Depois de achar o texto, deveria ter conferido com ele. Falhei em não seguir uma das regras mais elementares do jornalismo: checar informação.
 
Como corrigir: sempre que errar, faça três coisas: a) não perca tempo se justificando; admita o erro; b) corrija o mais rapidamente que puder; c) tente ver o que levou ao erro e como agir no futuro para evitá-lo.
 
A correção, neste caso, vem com o texto correto, cuja íntegra está aqui e, abaixo, os primeiros parágrafos:
 
FUTEBOL
Baixa popularidade acompanha o melhor jogador do mundo desde as "peladas" na periferia de Recife

Na vila, só pai apostava em Rivaldo

FÁBIO VICTOR
enviado especial a Recife
Exceto Romildo Vitor Gomes Ferreira, o pai, apaixonado por futebol e torcedor fanático do Santa Cruz, ninguém nunca levou muita fé que um menino magricela e desengonçado daqueles pudesse dar certo como atleta.
Na Vila da Chesf, município de Paulista, região metropolitana de Recife, "Vado", apelido pelo qual até hoje é conhecido Rivaldo Vitor Borba Ferreira, 27, o melhor jogador do mundo em 1999, sempre teve a reputação de um atacante apenas razoável.
Era mais um entre os boleiros que ocupavam o "campo do eucalipto", que mais tarde, com os eucaliptos postos ao chão, viria a se chamar Gonzagão -homenagem ao comerciante que promoveu o desmatamento e criou o único instrumento de lazer da pequena comunidade de quatro ruas, a 139, a 140, a 141, e a 142.
O irmão Rinaldo, apontavam os vizinhos, era, sem sombra de dúvidas, o craque da família.
Quando Rivaldo ingressou no Santa Cruz, seu primeiro clube, o descrédito continuou: primeiro, foi dispensado do time júnior. Nos primeiros jogos como profissional, era vaiado pela torcida, ignorado pela imprensa e desprestigiado pelos dirigentes, a ponto de ser incluído como contrapeso em uma troca com o Mogi Mirim.
 

 2) O repórter não estava em Minas cobrindo o quente do mensalão; estava no caderno Brasil.
 
Como errei: Na entrevista, o Fabio disse: "Sugeri fazer o perfil. No começo, não deram muita bola. Estava lá, cobrindo o dia-a-dia, aí me mandaram para Curvelo, onde ele nasceu". Lá, para mim, ficou sendo Minas. Era São Paulo. Errei duas vezes: troquei a palavra que ele disse (lá) por outra (Minas) e, nessa troca, dei uma informação errada.
 
Como evitar: Na hora de transcrever a entrevista, até parei nesse "lá". Fiquei em dúvida sobre que cidade seria, se Belo Horizonte ou Curvelo. Na dúvida, como não sabia que cidade era, usei o Estado. O correto seria ter ligado para ele e checado. Veja que, de novo, bastaria ter seguido a regra básica: na dúvida, não chute, cheque.
 
Como corrigir: O trecho da resposta dele já foi alterado. Sorte que é on-line. Se fosse impresso, o correto seria dar uma errata.
 

Escreve meu entrevistado:

Um comentário final pra estimular o debate com os trainees, sobre quando nós, jornalistas, pulamos pro outro lado do balcão: numa entrevista rápida dessas eu peguei no seu pé em várias coisas. E por quê? Porque meu nome estava ali.
É bom pra nós, profissionalmente, estar de vez em quando na pele do entrevistado.
Muitas vezes, até mesmo quando corrigimos um erro, temos uma postura meio desdenhosa com as críticas e cricrizices das fontes. Algo tipo: "Lá vem mais uma mala reclamar".
Nesse sentido, vestir a roupa de fonte é bem saudável...

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h54

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Receita de perfil

Receita de perfil

Doralice, leitora paranaense atenta, apaixonada por (e dona de um blog sobre) textos, pediu que eu contasse mais sobre Fabio Victor, o autor de uma reportagem que elogiei na semana passada neste blog.

Melhor entrevistado seria difícil. O repórter, pernambucano de 35 anos, torcedor do Sport, é apaixonado por perfis. É esse o gênero de dois textos que cita entre os principais trabalhos jornalísticos que fez até hoje.

Um, do jogador Rivaldo, publicado em 17/10/2001, pode ser lido por assinantes e começa assim: [ERRATA: o texto abaixo trata-se, na verdade, de uma coluna escrita por Fabio em substituição a Tostão. O texto correto pode ser visto no post acima.]

A sina do guenzo gauche

FÁBIO VICTOR
DA REPORTAGEM LOCAL
Quando o menino contava 16 anos, ouviu o fantasma do pai, atropelado por um ônibus dias antes, ditar a missão: "Vai, Rivaldo, ser gauche na vida".
E não era uma profecia sobre as maravilhas que aquela perna esquerda poderia fazer.
O "gauche" tinha, ali, todos os sentidos que a palavra francesa pode carregar, mas um maior que todos, o da timidez eterna, o da vocação para escorraçado.
Pois, como um cão fiel, Rivaldo obedeceu ao pai. Já não tinha dentes, ainda tinha lombrigas e era magérrimo -um guenzo, como se diz na Vila da Chesf, periferia do Grande Recife onde o menino foi criado.
Hoje, 12 anos depois, o guenzo é um dos maiores craques do mundo e, simultaneamente, o jogador mais criticado entre os titulares da seleção brasileira.

Outro é o de Marcos Valério, publicado em 31/7/2005:

 Do sertão ao mar de lama

FÁBIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE E CURVELO
Assim como o filho Marcos Valério, que tem 1,71 m, Aidê Fernandes de Souza é miúda, não passa de 1,60 m. Diferentemente dele, cultiva uma vasta cabeleira negra, sob a qual se esparrama um par de olhos verdes. Os vincos que riscam a pele do rosto não impedem que se imagine que foi na juventude uma bela mulher.
Mas, no início da noite da última terça-feira, dona Aidê dava dó. Enquanto sua nora Renilda ainda depunha à CPI dos Correios, ela saiu para atender a porta da casa onde mora com o marido, Adeliro Francisco de Souza, pai de Valério, em Alípio de Melo, bairro de classe média baixa na periferia de Belo Horizonte, próximo à favela Vila São José.
Ao notar que se tratava de um repórter, dona Aidê, 70, passou a tremer e chorar. Tentou fechar o portão, mas, como as perguntas continuassem, manteve uma educada hesitação. Só balbuciava. "Não sei, não sei, não posso falar, não tenho condições. Espero que me entenda, estou muito abalada." E, indagada sobre o motivo das acusações contra o filho, disse uma última palavra: "Injustiça".

 Fiz a ele as perguntas que Doralice me fez: como Fabio se formou, como prepara seus textos. As respostas estão abaixo.

Novo em Folha - Qual é o seu cargo aí em Brasília?

Fabio Victor - Cuido de pauta, projetos, faço parte da chefia. Mas fui repórter toda a minha vida. É estranho deixar de ser repórter.

NF - E como é que você caiu nessa pauta?

FV - Eu vim pra cá sabendo que ia estar num cargo de "cozinha", mas sempre disposto a fazer mais, a ir para a reportagem. Neste caso, foi a editoria de Brasil quem pediu que eu fizesse. Fiquei meio receoso, por minha primeira matéria em Brasília, o reino das pautas quentes, ser um side.

NF - E você gosta de fazer perfis?

FV - Adoro. Entre as melhores coisas que fiz estão perfis. Um é o do Marcos Valério, que fiz no meio da crise do valerioduto. Sugeri fazer o perfil. No começo, não deram muita bola. Estava lá [na editoria Brasil, em São Paulo], cobrindo o dia-a-dia, aí me mandaram para Curvelo, onde ele nasceu. Conversei com "30 mil" pessoas, tive tempo para fazer.
Outro é o do Rivaldo. Fui fazer no Recife, já tinha mais familiaridade.

NF - Mais familiariade por quê? Por que também é de Recife?

FV - Por ser do Recife, porque gostava do Rivaldo. Além da ânsia natural do repórter, tinha uma curiosidade pessoal.

NF - O que despertava sua curiosidade?

FV - A formação da personalidade do Rivaldo. Um sujeito tímido, que seria eleito pela Fifa como o melhor do mundo, mas muito criticado por prender demais a bola, alguém que nunca aparecia, nunca foi midiático, estrela.
Achava que a formação dele tinha a ver com isso. Ele perdeu o pai atropelado por um ônibus, foi barrado na escolinha do Santa Cruz, é um cara que a vida toda engoliu pedra.

continua abaixo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h13

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perfis

perfis

continuação

NF - E como você começou a fazer perfis?

FV - É um filão que sempre me interessou, acho que dá para mesclar reportagem e estilo de texto. Adoro pentear texto. Desconfio de textos escritos na pressa, a maioria é ruim. Sei que há gente capaz de fazer, como o Clóvis Rossi, mas em geral não fica bom.
O jornalismo "de denúncia" é maravilhoso, mas normalmente está se lixando para o texto, porque não cabe mesmo florear.
Há um estilo que prescinde da apuração, como a crônica, a coluna.
Já no perfil é preciso gastar sola de sapato.

NF - Como você se prepara para fazê-los? Há passos que sempre segue?

FV - Pesquiso demais, procuro ler tudo o que saiu. Jornalista estuda pouco, até pelo ritmo da profissão. Já fiz cobertura em todo lugar, de todos os temas, já vi jornalista que cai de pára-quedas, acha que se impõe. Mesmo que se imponha, o melhor é que estude antes.
Além disso, tem o olhar. O perfil é como o diabo, mora nos detalhes. Não é ser sensível ou subjetivo, é se ater ao detalhe, àquele ponto da foto que atrai o olhar.
No caso do menino, era a bochecha vermelha. Quando olhei para ele pela primeira vez, ele tinha acabado de jogar basquete, vi a bochecha dele e anotei no bloco: bochecha vermelha.

NF - Ali você já pensou no lide do texto?

FV - Não. Anoto todos os detalhes, depois vou pensar no lide. A abertura é fundamental, não só porque é por ela que se prende o leitor, mas também do ponto de vista estilístico, para que o texto fique bem amarrado. O fim nem precisa de muita coisa, mas precisa começar bem. Quebro a cabeça para fazer o começo do texto.

NF - Então você só escreve depois que decide o lide?

FV - Sim. Enquanto não decido o começo, o texto não sai.

NF - E quanto tempo você levou para fazer o desse texto?

FV - Não sei dizer bem, porque fui pegando brechas de tempo entre uma função e outra.

NF - Você disse que anotou "bochechas vermelhas". Nesse bloquinho, o que mais você anotou com destaque?

FV - (risos) Um dia quero fazer um documentário sobre repórteres e seus bloquinhos... Deixa eu ver, estou com ele aqui... Eu vou pondo setas nas aspas que acho mais legais. Quando a mãe disse que a família tinha sido iluminada, por exemplo, ponho um asterisco pra dizer que a frase é boa.
Também anoto o som aproximado. Por exemplo, ele disse que gostava de Hot Wheels, mas não tinha a menor idéia do que se tratava.

NF - (risos) Você não tem filhos, né?

FV - (risos) Pois é. Outro nome que anotei pelo som foi o do videogame, Need For Speed Underground 2. Depois vi no Google e falei com o pai dele, para saber do que se tratava. 

NF - Quanto tempo você ficou com ele?

FV - Foi muito mais rápido do que eu gostaria, mas ele estava saindo da aula, com pouco tempo. Fiquei só uma hora. Mas um dia antes fui à escola, entrevistei funcionários, gostaria de ter assistido a uma aula na classe dele, mas escola estava reticente.

NF - Depois que decide o lide, você escreve tudo de uma vez?

FV - Releio muito, penteio bastante o texto. Às vezes peço para minha mulher [que é designer de jóias] ler, porque é um leitor comum, o tal do "leitor comum".

NF - Que dicas você dá para quem quer fazer perfis?

FV - A curiosidade do jornalista tem que se elevar ao cubo. Pergunte tudo, exaustivamente, mesmo o que parece detalhe. Se o sujeito é careca, ele usa xampu, por exemplo? Que esporte pratica? É preciso ter curiosidade infantil. Em segundo lugar, pesquisar bastante. Em terceiro, ler muito. Nem precisa dizer, ler é elementar, mas leia muito Rubem Braga, [Ryszard] Kapuscinski, que são mestres na construção de imagens.

NF - Você fez alguma coisa para ir melhorando seu texto? Ou é um talento que sempre teve?

FV - Não sei. Sempre disseram, na escola, que meu texto era bom. Sou o típico caso do sujeito que ia mal em matemática, mas bem em redação. Leio muito, acho que a leitura foi me fazendo melhorar o texto.

NF - Mas você lê estudando a estrutura do texto?

FV - Não, leio só pela leitura, mesmo. Adoro ler periódicos, tenho curiosidade para ver como os jornais são feitos, a qualquer lugar que vá, mesmo uma cidade pequena, pego o jornal para ler.

NF - Você estudou jornalismo?

FV - Comecei fazendo letras, mas não era minha primeira opção. Queria ser publicitário. Adolescente é mesmo um perdido... Minha segunda opção era letras. Hoje me arrependo, porque acho que, como formação, o curso é melhor que o de jornalismo. Fiz estágio como redator numa agência publicitária e vi que não era minha área. Transferi para jornalismo, que cursei no Recife, me formei, trabalhei no Jornal do Commercio e vim para São Paulo.

NF - Veio trabalhar? Onde?

FV - Vim tentar um emprego.

NF - E começou onde? Na Folha?

FV - Apesar de sempre ter sido leitor da Folha, nessa época, em 96, queria fazer o curso do Estadão. Deixei um currículo na Folha e fui chamado para uma entrevista, uma vaga no caderno de Informática. Na entrevista, me perguntaram se gostava de informática. "Mais ou menos, dessa coisa nova de internet que está aparecendo eu não gosto muito, não..." (risos) Você acha que eu fui bem na entrevista? (risos) Depois fui chamado para o Esporte. Comecei fazendo frilas e quando vi estava cobrindo seleção. Fui para duas Copas e uma Olimpíada.

NF - Queria ser jornalista esportivo?

FV - Queria ser jornalista. Gosto de ser especialista em generalidades.

NF - Então deve ter gostado de ser correspondente [em Londres]?

FV - Adorei. Fiz matéria até para a Folhinha. Mas mesmo quando cobria esportes, sempre escrevia para a Ilustrada, Brasil.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h11

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Por falar em perfil, a Ilustrada de hoje conta na capa que Paulo Coelho ganhou um perfil da "New Yorker", uma das melhores revistas do mundo. Estas duas respostas são bem interessantes para acompanhar o trabalho de reportagem:

FOLHA - Como reagiu ao convite para o perfil na "New Yorker"?
PAULO COELHO
- [Inicialmente] eu relutei. Isso significaria ficar com uma jornalista durante dez dias, vendo tudo da minha vida. Ninguém é absolutamente normal por 24 horas seguidas, imagine por dez dias! Christina, minha mulher, insistiu, disse que eu precisava aceitar, e eu segui seu conselho. Durante dez dias, a jornalista Dana Goodyear seguiu meus passos, conversou com amigos, com editores, com críticos etc. Por sinal, as duas únicas críticas negativas que aparecem na revista vêm de brasileiros...

FOLHA - O que achou do resultado?
COELHO
- Eu achava que já não existia mais esse jornalismo em que um tempo imenso é investido para uma matéria de oito páginas. Dana não utilizou o gravador, mas escreveu aproximadamente 20 blocos durante a viagem que fizemos. A revista não se satisfez quando a minha agente informou que eu estava próximo dos 100 milhões de livros vendidos e, pelo que entendi, mandou fazer uma auditoria. Chegou a 92 milhões. Não houve "off" em nenhum momento. Tanto eu como a jornalista mantivemos nossas posturas, educados, mas profissionais -um não virou amigo do outro. O processo de checagem de tudo demorou mais de duas semanas. Ligaram para todo mundo, me perguntavam detalhes de que nem me lembrava ("É verdade que comeram penne al pesto no tal dia?"). Depois de ler a matéria, enviei um e-mail para Dana cumprimentando pelo seu livro de poemas. Achei que qualquer passo antes poderia ser mal interpretado.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h37

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Papa-fashion

Desde quarta passada a turma de treinamento ficou 24 horas por dia preocupada em cobrir a visita do papa. Até no fim de semana.

É um dos melhores exercícios do programa, porque funciona em condições reais de temperatura e pressão.

Rende várias dúvidas, sobre as quais ainda vamos falar aqui.

Uma as minhas preferidas, por ser original, foi a da Veridiana na tarde de sexta-feira: numa cobertura dessas, no meio da multidão, é melhor levar mochila ou uma bolsinha pequena?

É uma ótima pergunta. É bom que o repórter pense nisso, porque precisa estar com 100% das atenções na cobertura que vai fazer.

Eu muitas vezes não levava nem bolsa. Documento e dinheiro num bolso, celular no vibracall no outro, bloquinho, caneta e pronto.

Mas, se tivesse que sair às 5h de uma manhã gelada de outono, como ela e a Verena fizeram, talvez levasse uma mochila para carregar o casaco quando esquentasse.

Querem ver como se viraram três dos meus trainees?

NA BOLSINHA DA VERIDIANA

NA SUPERBOLSA DA VERENA

Esse kit foi mais ou menos o que carreguei em todos os dias da cobertura do papa: protetor solar, uma blusa leve, mas quentinha, cachecol (à noite faz frio!), capa e guarda-chuva. Fora bloquinho, credenciais, caneta e uma lista de telefones importantes (o ramal do setor de transportes da Folha, o telefone do pauteiro, o celular do motorista que estava com a gente e o seu celular caso alguma emergência acontecesse).
 
A capa, o guarda-chuva e o cachecol foram desnecessários, mas ainda assim acho que fiz bem em levar porque na quarta-feira passei tanto frio debaixo da garoa gelada que eu não queria correr o risco de repetir a dose. Faltou levar papel higiênico! :) Parece bobagem, mas esse conselho, que minha mãe sempre me dá, e eu sempre esqueço, faz diferença. Na quinta-feira, fomos à Guaratinguetá, cidade do frei Galvão, e tivemos que parar em postos de gasolina na Dutra que nem sempre são tão equipados quanto deveriam.
 
Uma coisa legal que fiz nos outros dias e que esqueci no Campo de Marte foi levar canetas reservas. No dia que choveu eu tentava anotar as entrevistas no bloquinho e as canetas iam falhando, uma a uma. Foi um desespero! Tinha várias e uma delas funcionou, mas, se tivesse acontecido na missa de canonização, estava perdida porque só tinha uma opção!
 
O ponto forte da minha bolsa é que eu estava prevenida para quase tudo: tinha protetor solar e vestia uma camiseta por baixo caso fizesse muito sol e não ficaria debaixo de chuva se o tempo mudasse. O fraco é que a bolsa fica volumosa e andar no meio da multidão com ela pode ser meio complexo.

NA MOCHILA DO FERNANDO

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h35

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Energia brasileira

Energia brasileira

                                                                 U. Dettmar - 3.mai.1975/Folha Imagem
 

Esta é a última foto desta primeira rodada de exercícios de legendas!

Se você está chegando hoje ao blog: a idéia não é adivinhar a legenda, e sim pensar sobre o que é fundamental dizer e o que não deve ser escrito, por ser dispensável e redundante (veja aqui exercícios anteriores).

Não tenha medo de arriscar. Como já dissemos antes, não há certo e errado em jornalismo. O que importa são os argumentos jornalísticos que você usa para justificar suas opções.

Para aproveitar o última dia de exercício de legendas, coloco aqui uma foto publicada hoje pela Folha.

EFE/Oliver Weiken

A legenda publicada foi: Princípio de incêncio atinge carro do brasileiro Felipe Massa, que disse nem ter notado o fogo, durante pit stop no GP da Espanha

Você faria uma legenda diferente? Como?

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA

Na primeira legenda, um dos comentaristas matou uma charada: se a foto não tem ação, a legenda fica sempre mais difícil. Neste caso, o jornal publicou algo mais ou menos assim: Obras da usina nuclear de Angra 1. Fraco, não é?

Quem viveu o momento ou estudou a história do período sabe que havia tensão e jogo de interesses em torno da construção das usinas; no mês seguinte, o Brasil assinaria o acordo nuclear com Alemanha para construir a usina de Angra 2.

Mas, só de olhar para imagem, fica impossível ver qualquer tensão, qualquer problema.

No caso da foto do Massa o problema é quase o inverso: o carro está pegando fogo! Mais ação que isso é difícil!

Só que a legenda publicada não explica como se deu o incêndio. Fui olhar a legenda enviada pela agência de notícias, e também nada: "El coche del piloto brasileæo de Fúrmula Uno Felipe Massa, de Ferrari, arde por la parte posterior durante una parada para reponer combustible en la disputa del Gran Premio de Espaæa, en el circuito de Cataluæa, en Montmelú, Barcelona, hoy domingo 13 de mayo". [notem a informação desnecessária: "arde por la parte posterior"].

Na reportagem também não havia maior menção ao fogo, o que me fez suspeitar de que, para quem cobre corridas de F-1, essa era uma ocorrência corriqueira, sem maiores conseqüências.

Na dúvida, consultei meu colega Fabio Seixas, especialista em F-1, que esclareceu o enigma:

O fogo não passou de um susto. No fim do abastecimento, caiu um pouco de gasolina nas partes quentes do carro, causando as chamas, que duraram pouquíssimos segundos. Acontece de vez em quando e, via de regra, não influencia no resultado da corrida _por isso acho que o fato não merecia destaque no texto, principalmente num GP tão cheio de histórias. Mas, sim, concordo que o acidente deveria estar explicado na legenda. Quanto mais informação, melhor.

O caso é curioso por dois motivos: 1) mostra como o olhar do leitor comum é muito diferente do do jornalista especializado. 2) mostra que algo que não chega a ser notícia como fato pode ser jornalístico como imagem --mas aí, se o jornal acha a foto boa a ponto de publicá-la, precisa responder às perguntas que ela levanta.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h18

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Sem alma

Sem alma

Jorge Araújo/Folha Imagem

"--Hudson, por que essa camiseta na cabeça?
--Eram abelhas. Elas não picavam, mas ficavam, dezenas delas, zunindo nos ouvidos
ao ponto de perturbar a sanidade de qualquer cidadão.
Na floresta, onde fomos, primeiro começam umas borboletas pequenas que emitem som parecido com pernilongo, só que mais forte.
Por volta das 16h, elas somem. Aí vem as abelhas até escurecer."

HUDSON CORRÊA encerra nossa reflexão sobre a cobertura na selva falando sobre erros, problemas e dilemas (clique aqui para ler a história desde o começo):

RESPONSABILIDADE

Houve irresponsabilidade no fato de o repórter, que nem sabe nadar, fazer tal jornada? Não. Havia perigo, sim, de achar uma onça no caminho, mas certamente não é mais arriscado que um paulistano encontrar um bandido mais irracional.

Talvez o repórter pudesse ter pedido ao jornal um telefone via satélite para, em caso de emergência, solicitar ajuda. Foi uma falha.  

Se nos aproveitamos dos índios? Não, pois o que eles pediram para nos acompanhar foi dado.

Pagamos, então, pela matéria? Não, porque compartilhamos com os índios tudo o que compramos. Exemplos: o combustível do barco, os anzóis com os quais foram fisgados os peixes que o repórter comeu, os alimentos do “banquete” na primeira noite no acampamento na floresta.

O que faltou ao repórter: no turbilhão de uma matéria que caía e se levantava, o repórter chegou ao local dos destroços sem a alma que se espera de um jornalista mais completo. Faltou mais sensibilidade para observar e depois relatar o cemitério dos destroços na floresta.

 
"Na mata, durante a volta, o índio guerreiro Bekran-õ Metuktire, 49, matou um macaco-prego para o jantar.
De volta à clareira, local da partida, o assessor da Funai perguntou ao repórter se iria "comer macaco".
O repórter respondeu: "Estamos na casa dos índios, como vou fazer uma desfeita?"
Para os índios, carne de macaco é um manjar. Não era, portanto, para visitantes.
O repórter comeu piranha assada, pescada pelos índios. O fotógrafo foi de macarrão."

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h50

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Bate-bola

Dois leitores fazem perguntas que, no fundo, têm a ver com como tratar as fontes.

As perguntas que vocês fazem são sempre ótimas e ajudam aos outros leitores também. Não tenha vergonha de mandar a sua. Jornalista não pode ter vergonha de perguntar.

Outra coisa que eu queria dizer antes de passar ao assunto do dia: leitores também podem responder, se quiserem. Nem sempre minha solução pras perguntas é a melhor ou a mais completa. O blog está aberto aos palpites de todos.

O CELULAR DO TÉCNICO

Domingo é dia de futebol, ótimo para o tema sugerido por Luiz, leitor do blog.

Na quarta-feira, ele leu no site da Globo esta notícia: Celular trai Geninho, que está quase no Galo.

Técnico fala sobre sua transferência para o Atlético sem perceber que aparelho está ligado
Voltando de Goiás para São Paulo, de carro, o técnico Geninho se enrolou com as inúmeras ligações em seus celulares. Quando a reportagem do GLOBOESPORTE.COM entrou em contato com o treinador, ele estava conversando com uma pessoa em seu outro aparelho celular. Para sua infelicidade, Geninho esqueceu de desligar o telefone para o qual a reportagem ligou e ouviu diversos detalhes da negociação do técnico com o Alvinegro.

(...) No momento da ligação, Geninho se encontrava perto de Itumbiara-GO e estava com problemas no sinal dos seus celulares. Daí, talvez, o descuido que proporcionou à reportagem ouvir as declarações do técnico, que chega ainda nesta quarta a Santos, para conversar com sua família sobre a possível negociação.

Diz o Luiz:

No dia seguinte, a notícia foi desmentida. O técnico alegou necessidade de descanso e recusou o convite do clube. Pergunto:

1) Cabe discussão ética sobre a maneira como o repórter obteve as informações? Seria mais correto consultar o técnico antes de publicar a notícia?

2) A ânsia pelo furo pode ter induzido o repórter a divulgar uma possibilidade que não se concretizou. Esse é um risco mais freqüente no jornalismo atual diante do aumento da concorrência gerado pelo surgimento das mídias on-line?

O que eu penso sobre isso:

1) Não acho que o repórter tenha agido errado ao escutar a conversa de Geninho nem em reproduzi-la. Quem tinha que garantir o sigilo era o técnico.

Mas eu levaria em conta duas coisas importantes: a) será que ele realmente "esqueceu" o telefone ligado? Não tinha algum interesse em criar um "balão de ensaio"? Já discutimos essa questão aqui, quando o Corinthians acusou um repórter de furtar documentos: o jornalista deve desconfiar de tudo, até de sua própria sorte;

b) Seu fosse o repórter e cobrisse futebol, teria ligado de novo para o Geninho e questionado a conversa ouvida "por descuido". Por dois motivos. O primeiro é manter a confiança da fonte. Você fez o seu papel, que é obter informação, não há nada de errado, nada a esconder, então por que não abrir o jogo com o treinador e tentar obter mais informação, dessa vez "on the records"? Na minha opinião, um repórter só deve queimar o filme com as fontes em casos excepcionais, quando tem informações importantíssimas, sensacionais, e quando há um motivo jornalístico muito bom para não ouvir o personagem da notícia (um leitor de João Pessoa tem uma boa pergunta que envolve esse ponto; veja logo abaixo). O segundo motivo é que sempre é bom checar informação, e aí passamos pra segunda pergunta do Luiz.

2) O repórter foi cuidadoso e não afirmou que Geninho já estava no Atlético. Disse só que as negociações estavam adiantadas. E, se você reparar bem, a reportagem quase que trata mais do "ardil" pelo qual a informação foi obtida que da própria possibilidade.

Possibilidades, como sabemos, são informação de pouco valor.

Em tese, acho, sim, que a pressão por colocar sempre novas matérias nos sites pode levar a erros (não é o caso do exemplo acima) ou a pseudo-informações (aqui, talvez, seja o caso).

Com mais tempo, o ideal seria ter checado antes com o Atlético e com o Geninho, para escrever um texto mais amarrado.

-- Ah, mas o leitor dos on-line quer ter sempre notícia nova. Para ele é interessante saber que o treinador estava negociando com o time.

É um argumento. Não tenho resposta definitiva para isso. Neste caso específico, de que adiantou ele saber disso, se a negociação, de fato, não se consumou?

Por outro lado, o on-line tem a vantagem de atualizar-se constantemente. O leitor que, há duas horas, imaginou que Geninho talvez fosse para time mineiro não precisa esperar até o outro dia para saber que ele desistiu. Se o repórter continuar no assunto, pode colocar notícia nova assim que a tiver obtido.

Vale o mesmo para os erros. Se a pressa, em tese, aumenta o risco do erro, o meio permite que ele seja corrigido com rapidez. 

NÃO DESPREZE AS FONTES DE SEGUNDO ESCALÃO

Pedro Engel, de João Pessoa, quer saber como lidar com as fontes:

Ana, sou estagiário em um jornal e tenho uma dúvida. Em algumas matérias, as fontes "oficiais" não gostam (ou querem) dar as informações chave e tenho que apelar para funcionários secundários ou coisas do tipo. Por exemplo, semana passada fiz uma matéria num terminal de ônibus. O gestor disse que estava tudo lindo e maravilhoso, contrariando o cenário de descaso do lugar. Procurei funcionários. Um deles, há 20 anos ali, contou exatamente o que eu queria saber. Nesses casos, fico em dúvida em citar o nome do entrevistado, pois ele, sem saber, "contrariou" o chefe e pode sofrer alguma retaliação. alguma ajuda?

Boa questão.

Eu deixaria claro para o funcionário que a informação que ele deu é diferente da que o chefe dele deu. Deixaria também ele decidir se quer ser citado ou não na matéria.

Jogue limpo com as fontes, e elas retribuirão.

Outra sugestão é tentar levantar você mesmo a informação, sem depender de declarações seja do chefe, seja do assessor.

Mas um ponto importante é que há problema nenhum em ter como fontes gente do segundo ou terceiro escalão. Ao contrário, geralmente são eles que têm conhecimento técnico, as melhores informações, e agem de forma menos política que os chefes.

Mas, claro, todas as informações, venham de onde vier, devem ser cruzadas e, sempre que possível, verificadas pessoalmente e/ou documentadas.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h28

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Comandante

Comandante

                                              Renato Alves - 19.jul.1994/Folha Imagem

Foto de domingo para nosso exercício diário de legendas!

Se você está chegando hoje ao blog: a idéia não é adivinhar a legenda, e sim pensar sobre o que é fundamental dizer e o que não deve ser escrito, por ser dispensável e redundante.

Todo dia pela manhã o blog publica uma foto para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, publica uma solução.

Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.

1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??;
2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?

Não tenha medo de arriscar. Como já dissemos antes, não há certo e errado em jornalismo. O que importa são os argumentos jornalísticos que você usa para justificar suas opções.

Veja aqui exercícios anteriores.

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA

Os mais ligados em futebol, com melhor vista e não muito novos percebem que é o Romário.

Mas uma coisa que já percebemos é que, mesmo que todos identifiquem o personagem, em geral, em jornal diário, a legenda diz o nome do retratado.

É o Romário, portanto, e o que não precisa dizer é que ele segura uma bandeira do Brasil. Seria gastar espaço à toa. Qualquer um pode ver isso.

Eu só escreveria "Romário segura bandeira do Brasil" se houvesse algo mais sobre ela, por exempo "(...)do Brasil pintada por sua filha Ivy" (é só um exemplo, claro, nessa época ela nem havia nascido).

Todo mundo vê também que ele está na cabine de um avião. Para escrever sobre isso, é preciso explicar que avião é esse, onde ele está e o que está fazendo.

Algo mais ou menos assim: Romário chega ao aeroporto de Brasília na cabine do DC-10 que trouxe a seleção tetracampeã à capital, onde o presidente Itamar Franco condecorou os jogadores

Romário foi o grande herói dessa Copa do Mundo (se você gosta de futebol, pode achar no YouTube gols do craque na competição).

SEMANA NOVA, EXERCÍCIO NOVO

Amanhã cedo ainda ponho mais uma foto da exposição da Folha, só para fechar a semana. Mas acho que já foi suficiente para refletirmos sobre legendas.

Vamos começar uma nova rodada de exercícios, dessa vez de lides.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h27

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PERFIL

Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, por Cristina Moreno de Castro e pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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