Mortes e ressurreição final de uma reportagem na mata amazônica
Jorge Araújo/Folha Imagem
 "O ponto tenso da negociação com os índios ocorreu na aldeia Piaruçu, às 13h da última terça-feira, onde a Folha foi buscar os três índios que seriam guias até o ponto da queda. Acompanhados por um assessor da Funai e sentados diante das índias da aldeia por ordem do cacique, as mulheres escolheram o fotógrafo para, na língua caiapó, ser alvo de um "pito nos brancos". O cacique Bedjay Txucarramãe, 62, explicou o que as mulheres disseram: "A mulherada está revoltada porque não tem mais nada na área [indígena]. Todas as coisas que a gente aprendeu com vocês está [sic] em falta na aldeia: bacia, peneira, anzol, linha, lima, calçado." Do episódio, o fotógrafo saiu com o rosto pintado de carvão e tinta de jenipapo [em primeiro plano na foto]".
HUDSON CORRÊA conta hoje as duas últimas mortes da reportagem no meio da selva amazônica (clique aqui para ler a história desde o começo):
No último telefone público no caminho, Fumagali conseguiu contato com os índios na aldeia. A matéria caiu pela quarta vez.
O cacique caiapó Bedjay Txucarramãe, 62, disse a Fumagali que não sairia da aldeia porque o governo federal estaria estudando liberar a mineração em terrena indígena.
O cacique avaliava que a medida do governo levaria garimpeiros a invadir a terra indígena dos caiapós.
Fumagali disse ao repórter que demoveu o cacique de ficar em alerta na aldeia. Seguimos viagem. Duas horas depois, nada da presença do cacique no ponto onde os índios encontrariam a Folha.
A solução foi ir à aldeia dos caiapós, a 50 km de distância, ou quase duas horas de viagem em estrada de chão. Atravessamos o rio Xingu de balsa. Na aldeia, o cacique não estava. Tinha ido a outra cidade próxima.
Quando ele chegou, 20 minutos depois, ao descer da camionete, o repórter entendeu que o cacique tinha falado o seguinte: “Esse pessoal vai ficar preso aqui, já comuniquei ao Megaron”. Na verdade, o cacique havia dito: “Eu vou ficar preso aqui [por ordem das mulheres da aldeia], já comuniquei ao Megaron”.
Repórter e fotógrafo passaram então a ouvir, na língua caiapó, um pito das mulheres indígenas. Elas reclamavam que os “brancos” estavam se aproveitando dos índios, sem dar nada em troca. Elas relataram que falta tudo na aldeia, de roupa, calçado a utensílios domésticos.
Depois do sermão e de o fotógrafo ter a cara pintada com tinta de jenipapo, as índias se acalmaram. O cacique liberado pelas mulheres disse: “Nós vamos, mas é a última vez”. Eles tinham ido anteriormente ao local dos destroços com familiares das vítimas, em outra ocasião com um perito canadense a serviço das famílias e, na última vez, com uma equipe da revista “Super Interessante”, cuja edição saiu em dezembro de 2006.
A matéria renasceu com a decisão do cacique. Voltaria a cair duas horas depois, ao pegarmos a estrada de 12 km até o acesso ao rio.
Ao longo do trecho, havia 20 árvores caídas. Na última delas, o machado estava com o cabo quebrado. Se houvesse outra, adeus matéria. Dormimos nas margens do rio e, ao amanhecer, seguimos viagem de barco por três horas. Caminhamos mais três horas na mata. Chegamos ao local. Mas, o repórter disse para ele mesmo que a matéria só voltaria a ficar de pé quando a equipe da Folha chegasse ao hotel em Matupá. Isso só ocorreu na quinta-feira à noite.
 "À noite, o repórter resolveu dormir na rede. Tudo escurece às 18h. O repórter fica até a 1h com medo de onça, mas desiste da vigília. Acende uma fogueira seis vezes para se esquentar. Pela manhã, o fotógrafo reclama: "Tinha um índio acendendo fogueira a noite inteira"."

Amanhã, problemas e dilemas da cobertura
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h44

Nas últimas duas semanas, os trainees tiveram um curso de direito básico. Claro que ninguém pretende que eles saiam do treinamento dominando o mundo jurídico. O objetivo, como em várias etapas do programa, é mostrar o quanto a gente não sabe e oferecer fontes e recursos que possam sanar as dúvidas no dia-a-dia da profissão.
O repórter ÓSCAR CURROS também participou das aulas, e fala sobre como o curso afeta seu trabalho:
Minha visão do direito mudou completamente. O curso me ajudou a perceber armadilhas do mundo jurídico que desafiam mesmo a jornalistas experientes.
Sou formado em jornalismo e imaginava que o curso me ajudaria a lidar com esses volumes gigantes, os livros de direito. Na verdade, o primeiro trabalho feito pelo professor Romano foi desmistificar a área.
No prefácio de sua obra "Para entender direito", ele afirma: "O que mais me chama a atenção em minha profissão é a capacidade de um grupo relativamente pequeno dominar toda uma população através do uso de um jargão específico".
Verdadeiramente, linguagem é poder, como no romance de George Orwell, "1984". Vale lembrar os três slogans do Partido: "A guerra é a paz", "a liberdade é a escravitude" e "a ignorância é a força".
Segundo Romano, o segredo não é decorar os códices, mas aprender a língua para poder acompanhar a evolução do direito. Desse jeito, é possível sobreviver às constantes mudanças da legislação brasileira. Também é possível a comparação entre diferentes direitos, como o espanhol e o brasileiro.
Compreender a lógica do pensamento jurídico me ajudou a rever a minha própria carreira na Folha. Vale dizer que os livros de direito ficam desatualizados com muita freqüência. Por esse motivo, eu peço para as editoras enviarem as novidades. O diálogo com elas é claro e direto: "Gostaríamos de ter esses exemplares atualizados em nossa biblioteca, para poder consultá-los e registrar os autores em nossa lista de fontes especializadas".
Finalmente, devo dizer que meu olhar sobre a informação mudou. Agora, presto muita mais atenção aos detalhes jurídicos e, sempre que possível, consulto algum especialista. Afinal de contas, apenas como exemplo, é necessário saber o que é um direito adquirido para entender a informação oferecida pelo caderno Mundo sobre as eleições na França: "Sarkozy, eleito, exalta "trabalho e mérito"
[...] "Novo premiê Rumores convergentes indicam que Sarkozy indicará como primeiro-ministro François Fillon, 53, hoje senador e que foi o principal chefe de sua campanha. Fillon foi importante articulador, como ministro de Questões Sociais (2002-2004), da reforma da aposentadoria, pela qual os assalariados passaram a se aposentar após 40 anos de contribuição, em lugar de 37. Inexiste para essas questões, por aqui, a figura do direito adquirido."
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h43
13.fev.1968/Folha Imagem

Uma foto com mais cara de sábado para nosso exercício diário de legendas!
Se você está chegando hoje ao blog: a idéia não é adivinhar a legenda, e sim pensar sobre o que é fundamental dizer e o que não deve ser escrito, por ser dispensável e redundante.
Todo dia pela manhã o blog publica uma foto para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, publica uma solução.
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??; 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?
Não tenha medo de arriscar. Como já dissemos antes, não há certo e errado em jornalismo. O que importa são os argumentos jornalísticos que você usa para justificar suas opções.
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
O que não dá pra escrever nessa legenda é que Chico Buarque, John Herbert, Walmor Chagas e outros artistas estão rindo.
Mas minha pergunta principal é por que estão rindo?
Na foto, eles pedem ao ministro da Justiça, Gama e Silva (de costas), a revogação de atos recentes da censura. Circunstância séria, portanto.
Para o leitor, é fundamental dizer quem são os personagens e o que estão fazendo, qual a importância desse momento. Mas a legenda ideal, para mim, deveria resolver a aparente contradição entre a reivindicação grave dos artistas e o clima animado da imagem.
Será que o ministro contou uma piada? Não há registro.
Veja aqui exercícios anteriores.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h16
Segunda e terceira mortes
Jorge Araújo/Folha Imagem
 "Parecia fácil percorrer 12 km até a margem do rio, pegar um barco e seguir viagem. Mas 20 árvores bloqueavam a estrada de terra. Os índios cortaram os troncos com machado e a reportagem usou facão. Foram duas horas até o barco e a noite caiu. O jeito foi acampar à margem do rio. Repórter e fotógrafo armaram uma barraca em cima da camionete. Os caiapós, que dormem em redes, riram."
HUDSON CORRÊA conta hoje novos obstáculos que enfrentou na reportagem sobre o local dos destroços do vôo 1907 (clique aqui para ler a primeira parte dessa história):
Ao chegarmos à Funai, a matéria caiu pela segunda vez.
Megaron havia saído do órgão para pegar um avião da Funai e ir a Brasília. O substituto dele, Luís Carlos Sampaio, foi junto.
O repórter ligou para Megaron de novo. O administrador disse que ainda estava na cidade, mas se dirigia ao aeroporto. Deu tempo de encontrá-lo. Em instantes, a matéria voltou a ficar de pé para logo cair de novo; pela terceira vez.
Megaron disse que para chegar ao local do acidente seriam necessários seis dias de viagem. Mesmo diante da perplexidade do repórter, que tinha viagem de volta a Campo Grande (MS) marcada para quarta-feira, Megaron orientou o seu substituto a preparar a viagem, fazendo contato com os índios que nos acompanhariam.
O substituto pediu à reportagem para voltar à Funai às 12h. Megaron decolou rumo a Brasília.
Se não tivéssemos encontrado Megaron no aeroporto, a matéria teria caído de vez. Por telefone, nada se acertava. Tinha que ser pessoalmente.
A matéria voltou a se reerguer após uma conversa com o assessor “brigadista” de Megaron, Gilmar Fumagali, que participou do resgate dos corpos das vítimas do acidente junto com os índios em outubro. Fumagali disse que a Folha conseguiria ir ao local dos destroços e voltar na quinta-feira. Era, então, uma segunda-feira chuvosa em Colíder, e ainda tinha um porém.
Era necessário alugar uma camionete para vencer a estrada no meio da floresta. Além disso, comprar cem litros de gasolina para o barco e também alimentos, botinas, anzóis, linha e outros apetrechos de pesca para os três índios que acompanhariam a Folha. Isso provocaria acréscimo no orçamento de viagem. O jornal aprovou.
Na madrugada de terça-feira, seguimos rumo a um ponto, próximo à fazenda Jarinã, onde encontraríamos os índios. A viagem demoraria cinco horas.
No último telefone público no caminho, Fumagali conseguiu contato com os índios na aldeia. A matéria caiu pela quarta vez.
Amanhã, as últimas duas mortes
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h30
Há alguns dias a turma de treinamento tomou um café com Alessandra Balles, editora do Fovest e uma das redatoras mais experientes da Folha.
Alessandra e Álvaro, na 26ª turma de treinamento,
entrevistam d. Luciano Mendes de Almeida
Alessandra, que foi uma das minhas primeiras trainees, se ofereceu para explicar a função dos redatores aos novos jornalistas. Aceitei na hora. Nas Redações, o trabalho de redação/fechamento costuma ser desvalorizado, considerado menos importante (ou menos charmoso) que o dos repórteres.
Eu, que sempre preferi edição a reportagem, acho isso um erro.
O redator não é um revisor nem um "faxineiro" de textos. Em geral, são dele as palavras mais lidas do jornal: os títulos, legendas, subtítulos, vinhetas e artes.
Quando levado a sério e bem feito, é um trabalho fundamentalmente de editor.

O REDATOR, ESSE DESCONHECIDO
Abaixo, a trainee Verena Fornetti resume a conversa:
por VERENA FORNETTI
"Vamos falar sobre o redator, esse desconhecido." Essa foi a frase da Alessandra Balles ao começar o bate-papo com os trainees.
O redator finaliza o texto do repórter e o analisa criticamente.
Em parte das matérias, é o último filtro da notícia antes que ela chegue ao leitor. A função se parece com o trabalho do editor e, segundo a Alessandra, a maioria dos editores do jornal foram redatores e não repórteres.
Veja as dicas da jornalista para quem está começando:
1) Não chute. Cheque.
2) O primeiro passo para corrigir o texto é fazer uma leitura rápida, vendo se as informações fazem sentido.
3) Na segunda leitura, corrija. Contextualize, cheque detalhes como sobrenomes, que às vezes aparecem duas vezes com grafias diferentes, e veja se as informações no texto batem com as que estão na arte.

GAROTA FANTASMA
G.F., uma leitora do blog que pediu pra não ter seu nome divulgado, trabalha como assistente de um repórter mais velho e experiente.
Não tem liberdade para escrever. O que apura é usado por seu "chefe" da maneira que ele quiser, inclusive mudando informações.
Ela pergunta: "Como eu faço para exercitar título, linha fina, tamanho e até mesmo prazos --coisas que não me são exigidas na função que eu exerço- para uma futura entrada no jornalismo diário?".
G., tente achar no seu jornal alguém experiente que aceite orientá-la. Um editor ou redator que possa passar exercícios para você e corrigi-los. Você precisa dar plantões nos finais de semana? Quem sabe se você se oferecer para dar plantões como redatora, possa ir treinando já na prática, com exemplos reais e nos prazos reais do jornal.
Este blog também tem a intenção de propôr exercícios com freqüência. Criei até uma categoria onde os leitores podem achá-los (por enquanto, estão só os de legenda, mas vamos começar a fazer exercícios de lide, título e texto em breve).

PERDIDA NAS PAUTAS
G. também pergunta: "Como me organizar para sugerir pautas? Ocorre que não cubro nenhum assunto específico. Pelo contrário, vou desde religião, catadores de lixo, patrimônio histórico, histórias de bairros, pessoas, fatos históricos, enfim.... uma salada. É meu primeiro emprego na grande imprensa. Às vezes me pego perdendo horas e horas olhando sites de notícias, vagando pela net. Acho que me falta um pouco de organizaçao, metodologia".
Há algum tempo, demos várias sugestões de como ter idéias de pauta (veja mais abaixo). Para quem cobre assuntos diversos, é mesmo mais difícil.
Eu gastaria menos tempo na internet e mais tempo falando com as pessoas. Mantenha as pesquisas que você já faz, mas tente algo novo. Faço uma proposta que não vai tomar mais do que dez minutos do seu dia:
1) Faça uma lista das áreas que cabem na sua apuração diária. Em cada área, elenque duas fontes que você já tenha entrevistado e que tenham rendido boas informações.
2) Vamos supor que você tenha listado cinco assuntos, com dez fontes no total. Agende-se para ligar cada dia para uma. Explique que você está responsável por achar notícia nessas áreas e que gostaria de manter contato com a pessoa, por sabe que ela é especialista no assunto, ou bem informada etc. Peça para cada fonte que indique o nome de outra pessoa que, na opinião dela, poderia ser uma boa referência para sua cobertura.
3) Ao final de duas semanas, sua agenda já terá 20 nomes (os dez antigos e os dez sugeridos por eles). Organize-se para ligar cada dia para uma das novas fontes, começando pelas novas. Siga o mesmo roteiro.
4) Em um mês, você terá 30 pessoas que podem lhe dar notícias. Desta vez, agende-se para ligar todo dia para uma delas, começando pelas mais novas, passando depois para aquelas dez primeiras (com quem já faz um mês que você não fala) e deixando por último as de número 11 a 20. A essa altura, as pautas já devem ter começado a surgir e algumas fontes vão começar a tomar a iniciativa de ligar para você.
Falar ao telefone é mais difícil que usar a internet. Exige exposição e algum nível de contato. Mas é muito mais direcionado e mais eficaz. Com o tempo, você se acostuma e será capaz de fazer contatos com muito mais facilidade.
Tente e depois me conte como foi.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h47
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h39
Viagem ao passado
1932/Folha Imagem

Escolhi essa foto para o nosso exercício diário de legendas porque ela tem uma dificuldade a mais: o contexto não é tão claro para a maioria de nós.
Atenção leitores: a idéia não é adivinhar a legenda, mas pensar sobre o que é fundamental dizer ao leitor e o que não deveria ser escrito, por ser dispensável e redundante.
Todo dia pela manhã o blog publica uma foto para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??; 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?
Não tenha medo de arriscar. Como já dissemos antes, não há certo e errado em jornalismo. O que importa são os argumentos jornalísticos que você usa para justificar suas opções.
Veja aqui exercícios anteriores.

COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Antes de falar sobre a legenda, respondo à dúvida do Paulinho: a foto foi mesmo publicada invertida, em 18/9/1932, na primeira página da então "Folha da Noite".
Na época do filme negativo, isso acontecia com alguma freqüência. Mesmo na era digital. Quando fui editora de Fotografia, no começo dos anos 90, escaneávamos negativos (tínhamos uma única câmera digital, de qualidade duvidosa). Mais de uma vez salvamos fotos de serem publicadas invertidas. Com certeza algumas passaram.
Agora, sobre a legenda: o tal jornal de agosto de 1932 só informa uma coisa sobre ela: "AS TROPAS MATOGROSSENSES".
O leitor da época entenderá que são tropas alinhadas às paulistas na força constitucionalista, que se opôs a Getulio Vargas e foi derrotada. Mas nem ele nem nós jamais saberemos ao certo o que aconteceu com o tal caminhão.
Minha pesquisa resultou apenas em descobrir que são soldados da cavalaria no front do rio Paranapanema. Para mim, parece que ele caiu numa vala e os soldados tentam içá-lo. Mas é puro chute.
A foto ilustra um perfil do "tenente Jardim", comandante das tropas matogrossenses, sob a vinheta "Figuras Heróicas do Exército Constitucionalista".
Como curiosidade, reproduzo um trecho, com a grafia original:
Poucos soldados se tornaram tão populares como o tenente Jardim, o bello official goyano que commanda a cavallaria de Matto Grosso.
(...) é também conhecidíssimo pelos adversários, que não perdem vaza de insultal-o, abrigados pelo parapeito das trincheiras.
-- "Tenente Jardim!" -- uivam, raivosos --" Vocês terão que beber comnosco!" --e segue o impropério usual.
O tenente responde com uma gargalhada crystallina, cavalga em piruetas, fugindo aos tiros que o visam, atira com perícia e grita:
-- "Temos aqui um cafezinho de ponta. Aqui vae o assucar em tablettes". E a F.M. despeja a metralha.
O que não dizer na legenda: soldados cercam caminhão.
Seria bom poder explicar o que, afinal, como e por que o caminhão está naquele lugar daquele jeito e o que os soldados fazem ali.
Se o "garboso" tenente Jardim está na foto, infelizmente, jamais saberemos.
P.S. - prometo que as fotos do fim de semana serão mais pop!

B Mathur/Reuters

A dificuldade da foto lá de cima é menos por ela ser de 1932 e mais por não estarmos familiarizados com as circunstâncias da imagem. Vejam por exemplo esta foto aqui, feita hoje, em Nova Delhi, na Índia.
Mostra dançarinos em frente ao Forte Vermelho, comemorando os 150 anos da primeira guerra de independência da Índia contra o Império Britânico.
Mesmo com essas informações básicas, falta contexto para entender direito a foto. Esse prédio que se vislumbra atrás das árvores, o tal Forte Vermelho, por exemplo, tem um significado que pode ser claro para os indianos: basta mencioná-lo e eles imediatamente saberão que é o lugar em que soldados empossaram o imperador indiano em 1957.
Para nós, já não basta mencionar o forte. É preciso uma expicação a mais.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 05h38
Lula Marques/Folha Imagem
 Enzo Almeida Gallafassi, na escola em Brasília
O texto abaixo, publicado na Folha de hoje, é um ótimo de exemplo de como é possível descrever muito bem sem usar adjetivos. Dá um ótimo estudo de caso. Vejam como o repórter usa comparações e dados objetivos para formar imagens.
Garoto de milagre vira celebridade instantânea Enzo, 7, nasceu após mãe tomar pílulas de frei Galvão
FÁBIO VICTOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Se anjos existem e são como os pintaram os renascentistas, o menino Enzo de Almeida Gallafassi, 7 anos, bem poderia passar por um. Tem bochechas rosadas, cabelos claros (mas sem cachos) e olhos verdes.
A reforçar a imagem ainda há uma ocorrência tida como divina: ele é o fruto do segundo milagre atribuído ao frei Galvão, aquele que consumou a canonização do santo brasileiro.
A mãe de Enzo, Sandra Grossi de Almeida, 37, tem má-formação do útero e, antes de dar à luz, sofreu dois abortos espontâneos, um deles de gêmeos.
Tomou pílulas do frei Galvão durante a terceira gravidez, novamente atribulada e de alto risco. Enzo nasceu prematuro e com problemas pulmonares.
Hoje é saudável. Bastam alguns minutos de contato para, da aura sagrada, escapulir um garoto próximo do que mesmo católicos praticantes chamam candidamente de diabinho -irrequieto, esperto e sempre com respostas desconcertantes.
Alvo certo da mídia nesses dias carregados de religiosidade, o menino-milagre tem tido uma agenda cheia. Veículos de várias partes do mundo querem contar a sua história.
Para a mãe, essas aparições todas são como uma missão irrevogável: "Sei que minha família foi escolhida para representar um povo inteiro. Então, tenho o compromisso comigo mesma de mostrar meu caso".
Para o garoto, é um saco. Indagado sobre o que tem achado de tantas entrevistas, diz somente "chato", e logo sorri.
Quando o tema é futebol, Enzo conta que, além do Palmeiras, torce para a Itália, terra dos ancestrais dos pais. E por quê? "Porque o Brasil é ruim."
Está adiantado na escola. Cursa o terceiro ano do ensino fundamental (antiga segunda série) num colégio de classe média em Brasília, onde a família, paulistana, vive há quatro anos e meio. Ele se destaca numa turma de 25 alunos.
"O Enzo é superinteligente. Em matéria de domínio de assunto, é o primeiro de sua classe", comenta a professora Kênia Cristina de Queiroz.
O desafio é tentar tratar normalmente uma criança que, de repente, foi cercada de mesuras e holofotes. Após uma das primeiras aparições na TV, a classe o aplaudiu quando ele entrou no dia seguinte. Na última segunda, muitos o cumprimentaram pela reportagem exibida no "Fantástico" da véspera.
A professora diz que ele fica tímido. "Preparo a turma [para encarar com normalidade], e tento explicar, sem entrar em detalhes, por que é famoso."
Num terreno intangível mesmo para adultos, não é fácil. "No início, [os colegas] diziam coisas como "Enzo, que legal, você nasceu'", relembra Kênia.
A reportagem conversou com um aluno de turma de Enzo, que disse saber da maratona de entrevistas do colega, mas não soube responder o motivo. Informado pelo repórter, exclamou: "Sério? Que doido".
Todo o resto é normal. Enzo largou o piano e o judô; faz aulas de basquete e de futsal. Adora videogame, especialmente os jogos Need For Speed Underground 2 e Fifa-2007.
Ainda não fez a primeira comunhão. Os pais esperam que ele receba a hóstia inaugural de Bento 16 na missa de amanhã no Campo de Marte, quando frei Galvão será canonizado. "Vamos ver se vai dar certo", diz Sandra. De um coisa Enzo está convicto, caso fique cara a cara com o pontífice: o que gostaria de pedir a ele. "Um Hot Wheels", diz, citando a marca dos minicarrinhos de ferro. Aliás, mais um para sua coleção, que, diz ele, soma 132.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h17
O programa de treinamento está na metade. Na semana passada, a turma fez um curso de direito e exercitou reportagens que tratam de casos judiciais.
Nesse final de semanas, estamos todos envolvidos na cobertura do papa.

ONDE FICA O BOTÃO DE DESLIGA?
por RAFAEL TARGINO
Assim que você entra no treinamento, arranja (mais) uma obrigação diária: arranjar uma pauta. Todo santo dia. No começo, a coisa era mais livre e tudo mais, mas a gente já está numa fase de pensar pautas para cadernos da Folha. É muito fácil arranjar pra Cotidiano –acredite, isso não falta em São Paulo–, mas, quando chega a vez de “Imóveis” ou “Construção”, por exemplo, o negócio aperta. Quase um sofrimento coletivo para os outros nove coleguinhas do trainee. Por conta disso, você acaba se habituando a pensar no esquema “tudo pode, sim, virar uma pauta”.
Uma vez, em um bar na Paulista, estávamos alguns amigos e eu. Horas e cervejas depois, algum deles comentou sobre uma tradução esquisita de um livro que tinha lido. Imediatamente –e de forma automática, eu juro–, comecei as perguntas: “Mas, e aí, como foi? Estava ruim como, exatamente? Você já viu mais livros assim? Tem mais gente que reclama? Isso já te atrapalhou de alguma forma? Os professores reclamam? Você tem algum contato de alguém que faça uma tradução dessas?” Como obviamente não estava com o bloquinho na mão (ok, posso estar enlouquecendo, mas não sou de levar meu bloco pro bar –pode ser que ele não volte), catei um guardanapo, pedi a caneta do garçom e anotei o que ele estava me dizendo.
Independentemente de a pauta ser boa ou não –nem apresentei ainda, está na minha lista particular das sugestões– a gente acaba ficando meio treinado pra pensar dessa forma. O problema (?) é que a gente não desliga nunca do jornalismo. A antena fica ligada o tempo todo. Você parece um maluco, achando que tudo pode virar pauta. Sim, isso pode assustar as outras pessoas. Principalmente quem não é do meio.
Pra minha sorte, o meu amigo estuda jornalismo e me entendeu perfeitamente… ele ainda vai ficar assim um dia, se não largar antes.

EM VEZ DE BEBER SOSSEGADOS E FALAR MAL DOS OUTROS
por WILLIAN VIEIRA
É meio tragicômico, mas toda vez que nós trainees vamos a um bar jogar conversa fora acabamos falando sobre pauta. Em vez de beber sossegados e falar mal dos outros (como fazem pessoas normais; nós, obviamente não falamos mal de ninguém), o que acontece é que discorremos sem respirar sobre temáticas que possam virar matéria, do Congo ao Acre, passando pela Vila Madalena e pelo Crato. Sempre.
Um comentário sobre a cerveja dá origem a uma pauta sobre os megacartéis. Uma piadinha sobre uma cidade esdrúxula _e lá vem uma idéia de matéria sobre o "triângulo bizarro da etimologia do sertão", talvez para Turismo, apelando para as festas de São João.
Até a aula de IBGE rende, entre gostosas gargalhadas, uma pauta sobre produção de ovos no Acre. Mesmo sozinhos, quando caminhamos pela rua, somos assombrados por idéias constantes de pautas, sem mencionar a torcida constante e um tanto tétrica por um acidente de vultosas proporções e ótimas chances de exclusividade.
Fico me perguntando: será que quando acabar o treinamento e começarmos a trabalhar de fato seremos eternamente escravos do olhar crítico-quase-clínico de jornalista em busca de matéria?
Quero encontrar esses mesmos amigos, que hoje dividem a Ana comigo, numa mesa de bar daqui a dez anos e matar a curiosidade. Acho que só mudarão o nível dos apontamentos e o teor das gargalhadas.

LEITURA SOBRE A CHINA
por FERNANDO BUENO
Envio duas sugestões de leitura ótimas, da mesma autora, a chinesa Jung Chang.
Cisnes Selvagens - Três filhas da China: sobre a história da autora, mãe e avó. Proporciona também uma contextualização da história política da China no século XX.
Mao, a história desconhecida - biografia de Mao Tse-tung
PS.: Quem quiser ler em inglês consegue encomendar no site da Amazon, por dez reais a menos do que a versão em português vendida pelo submarino.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h51

OUTRAS MANEIRAS DE RELATAR O MUNDO
Documentário é um dos meus interesses. Bonsai, culinária, criar filhos, música pra dançar também são, mas não têm muito a ver com o tema do blog. Documentário tem, porque trata de narrativas. Aviso, por isso, que a FGV tem um programa de exibição de filmes e debate com os diretores, gratuito.

NEM SÓ DE TEXTO É FEITO O JORNALISMO
Acho o Laerte um gênio.

PROTEÇÃO AOS JORNALISTAS
Pensando na morte de Barbon, vale a pena acompanhar o seminário da advogada Helena da Souza Rocha, mestre em Direito Internacional dos Direitos Humanos pela Universidade de Essex, no congresso da Abraji, dia 18/5 às 11h.
Helena vai explicar como jornalistas ou fontes ameaçadas podem pedir proteção, caso não consigam ajuda em seu próprio país.

EXCEL EM REPORTAGEM PREMIADA
Por falar na associação, Óscar Curros me lembra que o site tem uma apresentação feita pela Angelina Nunes, na qual ela explica passo a passo como foi feita a reportagem sobre deputados fluminenses que deu a sua equipe o prêmio Esso.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h50
Dilúvios paulistanos
Felicio Safadi - 4.dez.1972/Folha Imagem
Essa foto faz parte do nosso exercício diário de legendas.
A idéia não é adivinhar a legenda, mas pensar sobre o que é fundamental dizer ao leitor e o que não deveria ser escrito, por ser dispensável e redundante.
Todo dia pela manhã o blog publica uma foto para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??; 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?
Veja aqui exercícios anteriores.
COMENTÁRIO NO MEIO DO DIA
A foto não animou muito hoje, né?
--Uai, é uma enchente numa rua. O que mais há pra dizer?
Primeiro, o que não dizer. Que "Caminhão e kombis tentam passar por rua alagada" --seria a chamada "legenda para cego".
Quer perguntas fazer? Uma óbvia é "onde?". Fundamental. Indispensável.
O Batista, da Bahia, e o Ricardo fizeram um ótimo raciocínio jornalístico: como a foto é de 72, será que este lugar ainda inunda?
É desse tipo de questionamento que surgem boas pautas.
Respondo: não inunda mais. E escolhi a foto porque ela tem alguma relação com a agenda papal de hoje.
Quem quiser pode tentar adivinhar onde é, mas o que eu espero mesmo são novas perguntas para a legenda!
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Além de onde, outra pergunta que eu faria imediatamente é "quando?". Como leitora, eu gostaria de saber a que horas foi (pra saber se poderia ter acontecido comigo, ou do que escapei...).
Mais algumas: os motoristas conseguiram seguir em frente? A que altura chegou a água?
Minha legenda seria mais ou menos assim: Enchente impede trânsito na av. Pacaembu (na algura da r. Veiga Filho) na tarde de ontem; água chegou a 1 metro de altura
Eu não pensei nas boas perguntas sugeridas por vocês sobre vítmas etc., porque imaginei, erradamente, que, se houvesse vítimas, a foto deveria ser mais dramática.
Agora vejam a que saiu no jornal: "Avenida Pacaembu alaga devido à chuva, que destruiu toda uma favela na zona sul de São Paulo e deixou um morto no Jabaquara".
Por que será que não publicaram a foto da favela destruída, então?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h20
As cinco mortes de uma reportagem
Jorge Araujo/Folha Imagem
 "Este jacaré estava no rio Jarinã, a uns 30 metros de onde pusemos as redes para dormir. O perigo com o jacaré era a gente cair no rio, se o barco (de seis metros, motor 15 hp) tombasse durante a viagem. No rio havia também piranhas de 50 cm para cima. Mas, pelo que conheço no Pantanal, jacaré tem medo de gente. Dizem que onça também tem. Duro é por isso a prova."
No final do mês passado, um repórter e um fotógrafo da Folha entraram na floresta amazônica em busca dos destroços do vôo 1907.
Em São Paulo, o coordenador-assistente da Agência, Jairo Marques, acompanhava apreensivo a jornada mata adentro, como contou ontem aqui no blog.
Em Mato Grosso, HUDSON CORRÊA e JORGE ARAÚJO enfrentaram 12 horas de conversas com os índios para que pudessem ir ao local. Depois, mais 48 horas na selva -incluindo uma parada para dormir- para produzir a reportagem com descreve como está o local da queda.
Parte da aventura já foi publicada pela Folha, num texto que narra os percalços para chegar ao local. No caminho, os dois viram sua pauta cair e reerguer-se por cinco vezes. O blog pediu ao repórter que contasse a história dessas cinco mortes --além de detalhes da viagem mata adentro, que contasse o que deu certo e errado na apuração, que lições podemos tirar da experiência.
Abaixo, o primeiro capítulo.
por HUDSON CORRÊA
A Folha chegou aos destroços do avião da Gol na floresta amazônica, em Mato Grosso, mas ao longo da viagem a matéria caiu por cinco vezes e, felizmente, por cinco vezes se reergueu.
No jargão do jornalismo, o termo “a matéria caiu” significa afirmar que a reportagem fracassou. O trabalho, porém, rendeu três textos, além de ótimas fotos, publicados no dia 22 passado na Folha, no caderno Cotidiano: um que descreve como está o local da queda, outro que relata queixas dos índios e um terceiro que narra os percalços para chegar ao local.
O repórter sentiu dois tipos de pressão. Uma delas era relativa à possibilidade de a matéria cair de vez. Afinal a Folha apostou no assunto baseando-se nas informações da pauta feita pelo repórter. Além do mais, foi uma viagem de alto custo financeiro que poderia resultar em nada.
O outro tipo de pressão foi enfrentar 48 horas na floresta. O repórter teve medo de não ter condições físicas para caminhar por três horas no meio da mata.
Medo de que o barco virasse no rio Jarinã, a caminho do local dos destroços. Isso tanto porque o repórter não sabe nadar (estava de colete salva-vidas) como pelo fato de o rio ser cheiro de piranhas de 50 cm de comprimento para cima.
Havia ainda o medo de encontrar uma onça no meio da floresta ou mesmo um porco do mato. Dormir à noite, na rede armada entre árvores, não foi fácil. Qualquer barulho assustava.
O que não perturbava o repórter era o cardápio da viagem. Embora tivesse comprado arroz, macarrão, tomate, cebola e sardinha em lata, o repórter estava disposto a comer o macaco morto pelos índios no caminho de volta. Só não o comeu porque os índios resolveram guardar o bicho para o jantar na aldeia.
Ajudou o fato de o repórter já ter feito outras matérias com tribos indígenas.
Primeira morte e ressurreição da matéria Segunda e terceira mortes Mortes e ressurreição final Problemas e dilemas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h11
INFORMAÇÃO NECESSÁRIA
Fotos Fernando Santos/Folha Imagem - 08.05.2007

No embalo dos nossos exercícios de legenda, peguei esta nota da crítica de hoje do ombudsman:
Rindo de quê? É lição antiga do jornalismo que texto e imagem devem se harmonizar. Reportagem na pág. D2 (“Afetado pela burocracia, Carpegiani improvisa”) conta que “Magrão torceu o tornozelo e o pé esquerdo e praticamente virou desfalque para a estréia” (no Campeonato Brasileiro). A fotografia, contudo, mostra o jogador Magrão sorridente.
Ele me parece mais constrangido que rindo. Se estivesse rindo, com certeza seria importante explicar para o leitor por quê. Mas, neste caso, talvez o mais útil para o leitor fosse dar uma foto que tivesse a informação principal. Como esta (atenção para o pé dele):


INFORMAÇÃO DESNECESSÁRIA
Não é só na legenda que devemos evitar informações óbvias. Vejam esta frase, de uma matéria de hoje da Folha, também pinçada pelo ombudsman: “Se a lei for aprovada, empreendimentos a serem construídos, residenciais, comerciais ou industriais, terão de obedecê-la”.

PAUSA NA CORRERIA
Não tem nada a ver com jornalismo, é quase um acinte num dia corrido de cobertura do papa como hoje, mas é bem divertido este site de aviõezinhos de papel que a Dani Arrais me mandou.

PLANOS SECRETOS
Entrou ontem neste site da Universidade George Washington o documento com os planos do governo americano para "controlar" a mídia na guerra do Iraque.

MUSEU DA MÍDIA
O "New York Times" tem uma matéria interessante sobre como o Newseum, museu da mídia, enfrenta um público que cada vez mais duvida dos jornalistas.
Detalhe curioso: o museu incorporou a seu acervo o telefone celular que gravou imagens e sons do massacre do Virginia Tech, aqueles que correram o mundo.

ECONOMIA PARA JORNALISTAS
A FGV abriu inscrições para a nova edição do curso Economia para Jornalistas, com 90 horas/aulas.
O início está previsto para 21/05, com aulas semanais segundas e terças feiras de 19h às 22h.

ON-LINE É FEITO POR AUTODIDATAS
Chip Scanlan conta que todos os bons jornalistas on-line que conheceu aprenderam tudo sozinhos. E enumera os três requisitos do autodidata:
1. Gostar de aprender 2. Ter paciência 3. Encontrar ajuda --nesse ponto, ele sugere uma lista de recursos compilados por Meg Martin, editora de um site americano
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h46
Vai que é sua
Ormuzd Alves - 7.jul.1998/Folha Imagem

Só para lembrar, o exercício é pensar numa legenda para esta foto. Não é "adivinhar" a legenda. Para fazê-la, você precisaria de informações que não aparecem só de olhar para a imagem. O que estou sugerindo é que pensem sobre o que seria fundamental dizer ao leitor e o que não deveria ser escrito, por ser dispensável e redundante.
Todo dia pela manhã vou pôr uma foto no blog para vocês refletirem e, todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale): o que a legenda dessa foto aí em cima não deveria dizer??; 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (da 1001ª palavra em diante): o que deveríamos contar para o leitor?
Veja aqui o exercício de ontem.
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Todo mundo está vendo que o sujeito é um goleiro (está de luvas) pulando para defender. Então isso não precisa ser escrito.
Mas o nome do sujeito deve estar na legenda. Neste caso, nem todo mundo sabe que é o Taffarel. Mas, mesmo que soubesse --que fosse o Pelé, digamos--, o padrão é que a legenda identifique as pessoas.
Minhas perguntas (e a de vários de vocês) são: ele conseguiu defender? Era um momento importante da partida? Ele ter defendido essa bola mudou a história do jogo? Aconteceu algo nessa jogada (por exemplo, ele se machucou, foi expulso, bateu algum recorde, sei lá?)?
Antes de dar a legenda, um aparte: não me canso de me surpreender com a memória e o conhecimento de quem gosta de futebol. Eles sabem datas, nomes, detalhes, tudo de cor. É um verdadeiro fenômeno.
Ricardo e Felipe passaram perto:
Na decisão por pênaltis contra a Holanda, o goleiro Taffarel defende chute de Phillip Cocu, antes de pegar também o pênalti batido por Ronald de Boer e levar a seleção à vitória; com o resultado, o Brasil conquistou o direito de disputar sua sexta final de Copa, em busca de seu quinto título mundial
-- Mas tá muito grande! Uma legenda dessa não cabe no jornal!
Sim, a Renata tem razão. Uma proposta mais curta, então:
Taffarel defende pênalti de Phillip Cocu e ajuda o Brasil a se classificar para sua sexta final de Copa
Vale?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h29
Luiz Carlos Barbon Filho, 37, assassinado sábado à noite em Porto Ferreira (SP), publicava artigos no "Jornal do Porto" e foi quem primeiro denunciou, em 2003, o caso de vereadores acusados de explorar sexualmente adolescentes.
Foi um dos três finalistas do prêmio Esso de Jornalismo em 2003, categoria Especial Interior, com a reportagem "Corrupção de menores", publicada no "Jornal Realidade", de Porto Ferreira.
Nota da Fenaj e do sindicato de jornalistas de São Paulo, no entanto, afirma que ele não era jornalista: "Luiz Carlos Barbom (sic) Filho, apesar de se auto-intitular, não era jornalista de fato e de direito. O jornal de sua propriedade, Realidade, foi fechado pois nunca esteve regularizado e Barbom Filho não possuía o registro de jornalista, tendo sido, inclusive, processado por exercício ilegal da profissão. No entanto, esses fatos não justificam nenhum ato de violência..."
Que ele não seja "de direito", vá lá. Posso discordar da lei que obriga o jornalista a diplomar-se e registrar-se, mas, enquanto ela estiver valendo, de direito ele realmente não era.
Mas é preciso estar cego de tanto corporativismo para dizer que ele não era jornalista "de fato".
Como diz meu colega MAURICIO TUFFANI, vale lembrar o que dizem Bill Kovach e Tom Rosenstiel em "Os Elementos do Jornalismo":
"A pergunta que as pessoas deviam fazer não é por que alguém se diz jornalista. O ponto importante é se esse alguém está de fato fazendo jornalismo. Será o trabalho o respeito aos princípios da verdade, à lealdade aos cidadãos e à comunidade de modo geral, a informação no lugar da manipulação – conceitos que fazem o jornalismo diferentes das outras formas de comunicação? A implicação importante disso tudo é esta: o significado de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa é que eles pertencem a todos. Mas comunicação e jornalismo não são termos mutáveis. Qualquer um pode ser jornalista, mas nem todos o são. O fator decisivo não é que tenham um passe para entrar e sair dos lugares; o importante está na natureza do trabalho." (Bill KOVACH & Tom ROSENSTIEL – Os Elementos do Jornalismo: O que os jornalistas devem saber e o que o público deve exigir" (Tradução de Wladir Dupont). São Paulo: Geração Editorial, 2003, pág. 151.
Tuffani também lembra: "Não foi à toa que o documento "Attacks on the Press — 2001", do CPJ, relacionou a absurda forma de regulamentação profissional da profissão de jornalista vigente no Brasil ao lado dos processos, prisões, assassinatos e outras agressões à liberdade de imprensa".
E você, o que acha? O fato de Luiz Carlos Barbon Filho não ter registro o impede de ser considerado jornalista de fato? Responda à enquete do blog.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h39
A 1001ª palavra
Fábio Salles - 25.fev.1975/Folha Imagem

Em abril, o leitor Luiz Baleotti me pediu que falasse sobre legendas. Demorei, porque o assunto pede fotos.
Há uns dez dias, o saguão da Folha virou uma miniexposição de algumas das melhores imagens da história do jornal --melhor impossível para nossa conversa.
Começo hoje, então, um exercício diário de legendas. Todo dia pela manhã vou por uma foto no blog para vocês refletirem, e todo fim de dia, no mesmo post, dou uma solução (a minha, não a única ou a certa).
Regra básica: olhe para a foto e veja 1) que informação a imagem, por si só, já dá, e 2) o que dá vontade de saber sobre ela.
1) a legenda não deve dizer o que a foto já mostra (as tais "mil palavras" pelas quais ela vale); 2) a legenda deve responder às perguntas que você fez (por isso é a 1001ª palavra).
Na imagem de hoje, o que você vê? Um homem que caminha pela calçada, certo? Então sua legenda jamais poderá ser "Fulano caminha".
E que perguntas você faz?
Uma óbvia: quem é ele? É o pintor Alfredo Volpi.
Quais são as outras perguntas?
Conto quais são as minhas neste mesmo post, no final do dia.
COMENTÁRIO DO FIM DO DIA
Vocês levantaram várias perguntas, todas pertinentes.
As primeiras são as clássicas quem, o que, quando, onde, por que, como, para quê.
Com informações sumárias, a legenda ficaria assim: O pintor Alfredo Volpi passeia no Cambuci, São Paulo.
Ela diz "quem, o que e onde", mas diz pouco, não é?
Quando vi essa foto na exposição, minha primeira pergunta foi: qual é a informação? OK, o Volpi está andando na rua, mas "e daí?", que importância tem isso?
Pensei que com certeza a resposta deveria estar no "onde" (esse lugar é especial por algum motivo? há algo a ver com as pichações?) ou, quem sabe, no "por que/para que" (está indo a algum lugar especial?). Talvez até no "como" --alguém perguntou aqui por que ele está curvado, se está triste, se desencantado.
Fui ler a legenda e descobri que, na verdade, o principal estava no "quando":
O pintor Alfredo Volpi passeia perto de sua casa no Cambuci, indiferente à inauguração, naquele mesmo dia, de um grande painel que reproduzia uma obra sua na rua da Consolação
Notem que é uma legenda impossível de fazer se o fotógrafo não ajudar (explicando, por exemplo, que era um passeio, não uma "ida" a algum lugar específico). Também é impossível de ser feita sem que o redator conheça o contexto (palavra-chave, como vimos, em jornalismo).
Ah, alguns de vocês sugeriram legendas para as fotos. Só pra esclarecer, o objetivo aqui não era "acertar" a legenda, pois isso seria impossível só de olhar para a foto. Este exercício propõe principalmente que vocês pensem sobre que informações a legenda deveria ter.
Amanhã cedo tem mais.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h00
No verão de 1987/1988 eu não fazia muita coisa séria da vida.
Ia ao cinema, desenhava, lia jornal. Foi assim que dei com a notícia numa dobra de página da Folha. Se não me engano, era pequena --ocupava duas, no máximo três colunas. Avisava de um programa de treinamento que seria aberto a qualquer pessoa que tivesse vontade de ser jornalista.
Eu era agrônoma. Ou, como gostava de pensar meu pai, "engenheira" agrônoma --ele, sim, um engenheiro convicto, satisfeito de ver alguma coisa de exatas na minha (desin)formação de biológicas.
Na verdade eu não era nem uma coisa nem outra. Tinha um diploma de "engenharia agronômica", nem um dia de experiência na área, um estágio numa livraria e uns bicos transcrevendo fitas para uma professora da USP.
Tinha vontade de ser jornalista? Sei lá. Não tinha a menor idéia do que fosse isso. Nada além dos filmes tipo "profissão perigo" e das conversas de bar com amigos recém-formados, alguns já repórteres iniciantes.
Por causa desses amigos, resolvi me inscrever. Fui chamada para o teste: me deram um telex de uma agência internacional (será que meu leitor sabe o que é telex? É esta máquina enorme na foto abaixo) e me pediram para escrever uma nota. Na máquina de escrever, claro. O máximo que eu fiz foi traduzir a notícia, sem qualquer noção de edição, de lide, de nada.
 Telex da Radio Caroline, uma redação flutuante que funcionava em 1989
Devo ter escrito sem erros, já que passei para a entrevista (como passei na entrevista? Deixo essa parte pra outro dia). Resumindo, fiz o curso e acabei contratada pelo jornal, como repórter de educação e ciência.
A agronomia serviu pra alguma coisa, afinal. Sabia alguma coisa de ciência e isso me ajudou a fazer perguntas certas e ganhar a confiança das fontes. Mas, nas matérias de educação, era um desastre. Jamais fiz uma reportagem para o Agrofolha.
Já na Folha, fiz a faculdade de jornalismo, por causa da ameaça da obrigatoriedade do diploma. Odeio generalizações, só falo do meu caso: muito do que me ensinavam era inútil. Poucos professores conheciam de fato o trabalho num jornal. Nem falo só de "técnica", mas do que gostam de chamar de "teoria": das questões que realmente se colocam no dia-a-dia, dos casos reais que realmente exigem uma decisão "ética".
Mas a faculdade, em si, não foi inútil.
Fiz muitos erros quando comecei a trabalhar. Se tivesse estudado jornalismo antes, teria feito menos. Teria errado na faculdade e aprendido algo com isso.
Tropeços são excelentes professores, mas o grau de responsabilidade que um jornalista torna os enganos arriscados. Melhor, muito melhor, errar quando se é estudante --desde que, claro, haja alguém capaz de nos corrigir e orientar. Cada um tem que usar a faculdade em seu favor: arrisque, proponha, faça o máximo que puder, cobre avaliações e sugestões dos professores.
Como diz o Gaspari, jornalista não deve ter medo de errar, mas precisa cometer erros novos.
Esse pedaço de memória é para ajudar a responder à pergunta do Davi, embora vários dos meus trainees já tenham dito quase tudo.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h11
1.
Uma parte importante do jornalismo está morrendo, diz esta frase de Janio de Freitas na coluna de domingo na Folha:
Com a profundidade de visão de que é capaz, a imprensa brasileira vê no conflito entre Lula e o Ministério do Meio Ambiente motivo apenas para mais futricas, a ministra Marina Silva está sendo fritada ou não sai, falam no fulaninho para ministro, o PMDB está de olho no orçamento do Ministério, o PT finge que nunca falou em meio ambiente.

2.
O jornalismo investigativo está morrendo nos EUA, descreve Greg Palast em artigo no Los Angeles Times (acesso gratuito, basta se cadastrar).

3.
No Brasil, são os jornalistas investigativos que estão morrendo. Luiz Carlos Barbon, 37, que investigou exploração de menores por políticos, foi assassinado na noite de sábado em Porto Ferreira (SP), com dois tiros.

4.
E alguma coisa está morrendo nas Redações quando a notícia de que um homem foi linchado não merece mais que dez centímetros no jornal. Ou já está morta se, no dia seguinte, a notícia de que o homem morto era inocente do crime que o acusavam não merece mais que os mesmos dez centímetros.
Moradores de favela, conta o repórter SERGIO TORRES, já riem dos tiroteios. Parece que daqui a pouco nós estaremos rindo de notícias como estas. Ou talvez, pior, ignorando.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h52
Meus repórteres sumiram na mata

JAIRO MARQUES, um dos meus primeiros trainees, é hoje coordenador-assistente da Agência Folha.
Ele pauta e acompanha os repórteres de todos os Estados, com exceção de SP, Rio e Brasília.
No final de abril, um de seus jornalistas, o correspondente HUDSON CORRÊA, se embrenhou na mata, com o fotógrafo JORGE ARAÚJO, atrás dos destroços do vôo 1907 e quase matou Jairo do coração.
A gente entende facilmente o espírito de perigo e aventura que envolve o trabalho de quem está na rua (ou na selva), mas tende a se esquecer de que quem está dentro da Redação passa por emoções semelhantes.
O blog conta hoje a história deste lado do balcão. Amanhã, Hudson vai contar mais detalhes da aventura.
por JAIRO MARQUES
A viagem do Hudson e do Jorge foi tensa do começo ao fim. Logo que eles chegaram à fazenda Jarinã, em Peixoto de Azevedo (MT), as coisas já davam sinais de que iriam degringolar. No primeiro contato, por telefone, de Campo Grande (MS), nos foi dito que, a partir da propriedade, chegaríamos fácil à área do acidente. Não foi bem assim. Os funcionários da fazenda disseram que só os índios poderiam levar repórter e fotógrafo até o local da queda. Horas de negociação se seguiram e, no jargão jornalístico, o nosso grande investimento da semana havia começado a "subir no telhado".
Finalizada a conversa com os índios, sucesso. Mas Hudson me liga e não deixa claro se a jornada no meio da floresta seria de dois, quatro ou seis dias. Isso foi em uma terça-feira, meu último contato antes da investida dos repórteres no meio da selva. Embarquei no otimismo do Hudson de que "tudo daria certo" e que, no máximo, na quinta-feira, eles dariam sinal de vida. Um bom jornalismo implica necessariamente fazer apostas, arriscar, ser persistente e confiar no faro de profissionais qualificados.
Sem nenhum tipo de contato com os repórteres, tive de administrar a ansiedade da editoria de Cotidiano, para saber se a pauta "viraria", da editoria de Fotografia, que queria repassar informações do fotógrafo para família, e da Secretaria de Redação, que tinha de saber se tudo estava correndo bem. Manter contato sempre com um repórter que está em viagem é rotina obrigatória em uma Redação. Neste caso, não tinha telefone, nem hotel, nem orelhão, nem ninguém por perto... ou quase ninguém.
Na quinta-feira, confesso que comecei a ficar bem preocupado. E se algum bicho tivesse atacado a equipe? Se algum deles tivesse passado mal? Mas, para tomar qualquer tipo de medida de alerta, eu teria de esperar o tempo combinado. Não esperei. Lembrei que, durante a cobertura da queda do Boeing, a correspondente da Folha em Manaus, Kátia Brasil, tinha acesso aos índios que estavam no meio da floresta _não me pergunte como, talvez ela domine técnicas de linguagem com fumaça.
Por volta das 16h, Kátia me liga: - Falei com os índios.... os dois estão bem, acabaram de passar por uma aldeia já no caminho de volta. Dentro de uma hora ou duas o Hudson deve te ligar. Mas fique tranqüilo, deu tudo certo.
E ele ligou, após duas horas. A voz do repórter misturava a emoção de ter ido a um lugar carregado de símbolos com um cansaço de uma jornada difícil e perigosa em meio à floresta Amazônica. Mesmo em uma conversa breve, senti que teríamos uma excelente reportagem... Bom, a produção do material foi seguramente mais tranqüila, mas ainda tivemos muito trabalho para ajudar a desembaralhar o volume de informações e impressões colhidas, buscar informações de apoio e tentar ao máximo estimular o repórter a gastar suas últimas energias e botar aquela aventura jornalística brilhante no papel.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h02

Meu leitor Luiz conta um caso e faz duas perguntas:
Esta semana, durante a cobertura de uma grande feira de tecnologia e negócios, vivenciei dois aspectos referentes a discussões recentes do blog:
1) O blog debateu sobre a postura do jornalista quando a fonte se torna agressiva. Neste evento, acompanhei situação semelhante, mas com papéis invertidos.
Uma empresa produtora de equipamentos convidou a imprensa para uma coletiva. Questionado sobre números de vendas no primeiro trimestre, um dos entrevistados não compreendeu a pergunta corretamente e respondeu com uma informação desinteressante aos repórteres.
Uma jornalista, então, passou a usar um tom “menos educado” para obter os dados (embora bastasse que a pergunta fosse reformulada). Parecia um delegado interrogando um suspeito. Conseguiu as informações. Mas deixou um clima constrangedor no local.
Pergunta: Existem situações em que vale a pena “elevar o tom” para obter informações?
Sim, existem, mas a que você descreve certamente não é uma delas.
Quando se justifica? Decidir isso vai depender da importância da informação, da impossibilidade de obtê-la de outra forma e da sua intuição de que, com aquela pessoa, naquele momento, fazer pressão pode dar bom resultado. A regra geral é tratar qualquer fonte com sobriedade, respeito e educação.
A sua colega de evento pode ter se achado muito poderosa por "interrogar o suspeito" na frente de todo mundo, mas corre o risco de ter queimado suas pontes com ele.
Não foi uma atitude esperta, já que, além de tudo, era uma coletiva: ela fez o papelão e vocês, que não foram indelicados, obtiveram a mesma informação sem se queimar.
(Num outro post, escrevi um pouco sobre o que fazer quando a fonte não quer dar informação)
2) Após as coletivas realizadas em feiras de negócios e mostras de tecnologia, é comum os jornalistas serem presenteados com brindes onde está estampada a marca da empresa participante –geralmente são produtos muito úteis e fabricados com ótima qualidade.
Percebo, entretanto, que alguns repórteres sequer estão interessados nas informações, participam apenas para ganhar o brinde.
Outros usam o objeto (chapéu, mochila ou colete) durante o restante do evento, mesmo quando vão entrevistar concorrentes da referida empresa.
Pergunta: O jornalista fere sua ética ou sua imparcialidade ao aceitar o brinde? Ou recusar seria indelicado com o entrevistado? Usar o objeto é apenas deselegante ou se torna um erro grave?
Luiz, no caso da Folha, a regra é clara e está no manual: o jornalista não deve aceitar presente de nenhuma espécie ou valor, incluídos itens materiais ou eventuais descontos especiais. (...) Ficam fora dessa determinação produtos destinados a divulgação e avaliação crítica, como cópias de discos, livros, softwares, convites para shows, peças de teatro ou filme.
É possível recusar presentes de forma delicada. Basta agradecer e explicar que o jornal não permite que você os aceite.
Vamos dizer que sua empresa admite aceitar presentes pequenos ou úteis ao trabalho --caneta, bloquinho, por exemplo. Não vejo grande dano nisso.
Mas usar um boné de uma marca durante o evento, e, pior, na hora de entrevistar o concorrente é muito mais que deselegância. É desleixo profissional.
Repórter é como a mulher de César: não basta ser imparcial, tem que parecer imparcial.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h52
 Para encerrar esta rodada, CAROLINA RANGEL (no alto, com Renata Summa, em foto da 42ª turma) responde à pergunta do Davi:
A PRÁTICA É A PRÁTICA
Quando comecei a fazer faculdade de história, queria mesmo jornalismo. Enquanto não vinha outro vestibular ficaria estudando.
Passei em jornalismo e minha paixão pela história foi só crescendo, pela sua profundidade e capacidade que nos dá de interpretar os acontecimentos atuais de uma outra forma, olhando para o passado.
Assim, defini jornalismo como carreira, mas história como formação. E posso dizer que a história foi mais determinante do que o jornalismo para que eu entrasse para a editoria de política do jornal.
Por isso, aconselho: independentemente do curso que faça, leia, estude, porque a prática é a prática.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h16

NÃO CUBRO POLÍTICA PORQUE FIZ DIREITO. É O CONTRÁRIO.
por CAIO JUNQUEIRA, repórter do "Valor Econômico" (à esq.) em foto da 36ª turma do programa de treinamento
Formei-me em direito pela PUC-SP em dezembro de 2002. Seis meses depois entrava na 36ª turma de trainees da Folha, que abriu as portas para mim na profissão.
Sempre achei meio ridícula esta história de diploma para jornalistas. Coisa de países como o Brasil mesmo. Picaretagem. Mas vamos lá.
O curso de direito me ajudou muito, desde o começo. Ajuda a me dar visão de estrutura do Estado, como ele funciona, como se organizam suas relações com os cidadão e entre os cidadãos.
Não é à toa que trabalho com política, mas não digo que escolhi essa área no jornalismo porque fiz o curso de direito. Acho até que é o contrário. Fiz o curso de direito porque me interesso por assuntos que envolvem o Estado, políticas públicas e Orçamento.
O que significa dizer que no jornalismo você deve acabar fazendo aquilo que gosta, aquilo por que se interessa, independentemente do curso que se graduou. Acaba sendo uma opção natural. Gosto. Vocação.
Achar que porque cursou biologia deve cobrir ciência ou porque cursou letras deve cobrir cultura, a meu ver, é tão falho quanto achar que, porque não cursou jornalismo, não pode ser jornalista.
A vida vai tomando seu rumo sempre de acordo com suas aptidões. Você pode até tentar abrir caminho em uma área do jornalismo que esteja de acordo com sua graduação, mas manter-se nela só será possível se você gostar e se dedicar a ela.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h40
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