
A DISCIPLINA DO OLHAR
A ex-trainee BARBARA CASTRO, da 42ª turma, responde à pergunta do Davi:
Davi,
Depois da minha experiência na Folha, cheguei à conclusão de que, em jornalismo, nada substitui a dedicação, a experiência e a curiosidade.
Sou formada em sociologia e ciência política e acreditava que, por conta disso, poderia contribuir de maneira diferenciada para o jornal, mas não é bem assim.
No treinamento, sentia muita dificuldade em entender o que poderia vir a se tornar uma matéria. O problema é o da disciplina do olhar: a análise científica é macro; já o jornalismo diário é voltado para o micro.
Mesmo lendo o jornal todos os dias, para quem está de fora do exercício da profissão é difícil entender o que é ou não é uma pauta e que tipo de texto pode ser incorporado ao jornal ou não.
Eu o lia com um olhar viciado e procurava nele discussões que hoje entendo que não cabem ao seu espaço.
Não quero dizer que não é possível para quem não tem formação em jornalismo trabalhar em uma Redação. Longe disso. Apenas quero destacar que é necessário uma nova disciplinarização do olhar, o que se consegue com muita (muita mesmo) dedicação e exercício da profissão.
No início do texto disse que nada dispensava, também, a curiosidade. Queria dizer que nenhuma formação é mais importante do que o autodidatismo: encontrei na Folha cabeças mais bem preparadas para entender o mundo e os seus processos do que na universidade. E é isso que não deve ser perdido nem em um, nem em outro lugar.
Concluindo: não é porque tenho formação em ciência política que posso contribuir para o caderno Brasil, melhor do que um colega que, curioso, dedicou-se a não apenas acompanhar o noticiário, como também a aprofundar-se em outras leituras.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h39
Pergunta meu leitor Davi, de Fortaleza:
Como fica a posição do jornal com profissionais de outras áreas? A pergunta não é exatamente sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, mas sim como se dá o interesse e a inserção de quem se graduou em outros cursos. Como eles podem contribuir para o aprofundamento e análise de temas atuando diretamente na Redação, e não somente como comentadores esporádicos?
Pergunto por dois motivos: ter notado que alguns dos trainees não possuem a formação na faculdade de jornalismo e por meu primeiro estágio ter sido no Banco de Dados de um jornal de Fortaleza -após uma seleção, entrei como pesquisador- enquanto curso a faculdade de filosofia política.
Davi está em boa companhia. Muito jornalista de renome começou a carreira em bancos de dados das Redações.
Eu mesma, quando comecei, não tinha estudado jornalismo, mas agronomia.
Mas vou deixar primeiro meus trainees de outras áreas responderem.

NA TRILHA DE NELSON RODRIGUES
por GUSTAVO GOUVEIA
Eu me formei em direito e ciências sociais. Acabei me arriscando no jornalismo para espanto dos jornalistas de formação. Todos acham a carreira difícil: muito trabalho e pouca remuneração.
É verdade que cheguei com uma visão romântica sobre a carreira. Quem me inspirou foi Nelson Rodrigues, quando ainda morava na França e li quase toda sua obra.
Imaginava grandes Redações onde eu poderia exercitar minha paixão pela literatura com calma. Pois bem, calma é algo que não existe muito em jornalismo diário e a época do Nelson não reflete mais o dia-a-dia de uma Redação. Seu estilo, sim, deveria inspirar novos jornalistas, pois a exigência de apartidarismo, espírito crítico e plural não impede que você coloque sua personalidade no texto.
Na primeira semana de treinamento, estava muito ansioso para descobrir este novo mundo. Não sabia nada. O que era linha fina, bigode, sutiã, lupa, chapéu??? Termos estranhos e curiosos para quem conhecia o jornal apenas como leitor.
Mas fui conhecendo aos poucos essa linguagem específica.
Ainda falta muito para melhorar, ainda escrevo textos longos, frases que chegam ao infinito, segundo a Ana. Mas é normal para quem vem do direito, ela diz.
Os cursos dados pela Folha, de informática, jornalismo investigativo, história, direito, português complementam nossa formação e mostram como somos ignorantes e superficiais na maioria dos temas que abordamos.
As conversas com grandes jornalistas, como Elio Gaspari, Juca Kfouri, Renata Lo Prete, nos animam a seguir na carreira.
Os frutos vêm, mas não sem suor.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h46
Mais um mestre de obras

O leitor Adam, depois de ler as dicas do Toledo, me pede exemplos de bases de dados abertas ao público. (Adam, só uma ressalva, a Abraji não cobra R$ 100 por mês. São R$ 100 por ano.)
Fui consultar meu ex-trainee MARCELO SOARES, professor do assunto, que sugere algumas abaixo:
1. Do IBGE: Estatísticas Históricas do Século 20 e Pesquisas de Informações Básicas Municipais.
2. O banco de dados da Ancine rende uma belíssima pauta sobre as leis de incentivo à cultura
3. O site do TSE tem vários dados eleitorais que podem ser copiados para o Excel
4. Escrevi o artigo "Em gibi, quem é morto só aparece em 5,30% das vezes" com dados desta página . [Nota da Ana: o artigo pode ser lido no blog de quadrinhos do Paulo Ramos]
Ele também explica como usar os dados:
1) Visite os sites do governo. No Excelências, reunimos o que estava disperso. Da Câmara, atividade parlamentar e verbas indenizatórias; do TSE, patrimônio e financiamento de campanhas; processos judiciais tiveram que ser pesquisados caso a caso.
O mais interessante é questionar autoridades com base nos dados que elas próprias produzem. Isso é muito mais forte do que meramente costurar aspas.
2) Quando eu trabalhava na Folha, certa vez um colega voltou da rua com uma lista de empenhos do governo estadual para prefeituras. Tinha umas 15 páginas, com cerca de 60 linhas em cada uma. A olho nu, não se pode tirar informação nenhuma disso. No máximo os valores mais aberrantes. Numa planilha, dá pra saber quanto cada cidade levou.
Isso pode ser feito também com pilhas de decisões judiciais, por exemplo. Alguns dos primeiros trabalhos de RAC feitos nos Estados Unidos
classificavam, por exemplo, sentenças judiciais de casos criminais. Um repórter conseguiu demonstrar que um acusado branco acabava sendo condenado a menos tempo de prisão do que um acusado negro -por um crime idêntico.
3) O mundo é um banco de dados, se você treinar o olho para observar. Se você classificar, por exemplo, notícias sobre pico de engarrafamento em São Paulo, pode ter uma boa reportagem sobre os padrões do engarrafamento na cidade. Se pegar o dado de um dia só, tem no máximo uma notícia burocrática; se classificar vários dias numa planilha, é o embrião de uma reportagem. É o exemplo também do artigo sobre os heróis de HQ.
4) Eu baixo sempre do site do IBGE todo tipo de planilha para ter no computador de casa. Sempre que sai uma pesquisa nova, vou lá verificar.
Baixo da internet todo tipo de planilha que encontro em sites oficiais.
Nunca sei quando poderá ser útil. Várias vezes acabei usando coisas que guardei sem saber para que servia. Assim, acabei montando em casa uma pequena biblioteca de bancos de dados, classificada por assunto: política, demografia, economia, cinema...
5) Quando a gente fala em reportagem com o auxílio do computador, uso de bancos de dados, etc., tem sempre algum ludita que vai dizer que isso é a decadência do jornalismo e vai perguntar que jornalismo é esse em que não se entrevista gente de verdade. Esses chatos têm razão, em parte: matérias feitas só com dados tendem a ser chatas. O mais interessante é usar os dados para achar o lead, achar tendências gerais, e aí sim sair pra entrevistar gente. Os dados nos dão perguntas mais interessantes pra fazer.
[Nota da Ana: o congresso da Abraji vai ter sete aulas sobre reportagem com auxílio de computador]
6) O Excel é o programa mais fácil de usar para análise de dados. Serve para a maior parte dos problemas com que nos deparamos - ele só falha quando o banco tem muitos milhares de registros (mais de 65.536 linhas ou 239 colunas). A maior parte dos bancos de dados que se usa não chega a isso, então dá pra resolver no Excel. Duas funções avançadas são de suprema importância ao lidar com o Excel: o Auto Filtro e o Relatório de Tabela Dinâmica. Sabendo usá-las bem, pauta não faltará.
Marcelo Soares e Fernando Rodrigues darão uma aula sobre banco de dados no congresso da Abraji, agora em maio.
Veja um exemplo de como ELIO GASPARI usa banco de dados para achar notícias
Dez dicas do Toledo para empilhar bem os tijolos
A página da Abraji tem várias dicas e exercícios para quem quer montar seu banco, mas é preciso se associar. Vale a pena se associar, é R$ 100 por ano, menos de R$ 10 por mês. Aliás, quem se inscrever para o congresso ganha a associação
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h37
O comentário abaixo refere-se ao exercício "terceiro e último" que propus ontem (clique aqui para lê-lo, no final do post)
Vocês mataram de novo a charada e ainda me fizeram notar coisas novas neste exercício.
A começar pelo lide: o que é mais notícia, o normal ou o diferente?
Quase sempre, o diferente. Se 45 das 46 estradas estiverem normais e uma estiver com problemas, o lide é esta última.
Mas aí vocês me chamaram a atenção para esse trecho do lide: "o fluxo é normal". Normal quer dizer o quê?
Para a via Dutra, na chegada a São Paulo, às 7h30, normal é estar congestionada. Para a Castelo Branco, em direção a Alphaville, às 18h30, normal é estar tudo parado.
Normal não é sinônimo de "sem problemas". Quer dizer que está "na média" --e aí, só para lembrar, é preciso dizer qual é a média.
Outra coisa bem notada pelos meus comentaristas é o começo do lide: "Segundo informações da Polícia Rodoviária Estadual".
Pense sempre em abrir seu texto com o principal.
Imagine que você precisa dar um recado para o namorado (amigo, avó, chefe, sei lá) e a bateria do celular está acabando. Se começar dizendo "Mãe, segundo informações da Polícia Rodoviária Estadual... ", adeus. A bateria zerou.
Comece, então, sempre pelo mais novo, pelo mais importante, pelo mais relevante: "A Fernão Dias tem um congestionamento de 2 km na altura do km 70 [faltou dizer, no texto, em que direção]".

NA INTERNET, ERROS ESTÃO SEMPRE PRONTOS A INCOMODAR, COMO ASSOMBRAÇÕES

por FERNANDO BUENO
Recentemente você voltou a enfatizar no blog a importância de checar tudo, desde a grafia dos nomes até a informação principal --a fim de evitar casos como a gestação da jumenta.
Penso que a internet aprofunda ainda mais a importância da veracidade da informação. Enquanto as notícias circulavam apenas pelo rádio, televisão e jornal impresso, as informações tinham um certo "prazo de validade".
Não havia muitos meios de resgatar uma informação --verídica ou não-- veículada ainda que num passado recente --salvo acervos de bibliotecas. O jornal da segunda-feira já tinha sumido na quinta, e o telejornal e o rádio fizeram certa transmissão uma vez. Uma falha, um erro, que ninguém notou, passou.
Com a internet, as palavras --tanto escritas quanto faladas-- adquirem um caráter de permanência absurdo, quase eterno. Uma notícia publicada no jornal anos atrás pode ser encontrada em uma pesquisa de menos de um segundo.
Gafes memoráveis do telejornal podem ser vistas no YouTube a qualquer hora. Mesmo este meu texto nem eu sei até quando ficará disponível na rede.
Sendo assim, penso que as palavras, informações nelas contidas, passaram a ter um valor ainda maior. Uma falha, um erro, que ninguém notou no dia de sua publicação, pode ser percebido anos depois --talvez com uma repercussão maior do que se tal erro tivesse sido apontado na época em que estava nas bancas, ou saiu na TV.
Enfim, creio que esse caráter de permanência da informação aumente ainda mais a responsabilidade do jornalista sobre o que ele escreve. Responsabilidade essa, que se acentua também devido a outro fato do contexto atual: cada vez menos pessoas lêem e revisam um texto antes de ele ser publicado no jornal.
A leitura de um texto por terceiros é fundamental para apontar os erros da leitura viciada do autor.
Nós, por enquanto, ainda temos a canja de você ler nossos textos e perguntar: "Esse número está correto? Certeza?".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h46

Uma das maiores aflições de quem entra no jornal, acho, é o deadline: o horário em que o jornal fecha.
Bate o meio da tarde e a gente não conseguiu ouvir nem metade das fontes que tinha planejado. Começa a escrever e telefonar ao mesmo tempo, a Redação começa a se encher e a esquentar, os minutos voam e, quanto mais perto do fechamento, mais nervosa a gente fica, mais devagar escreve.
Com sorte, seu chefe é compreensivo, te deu uma pauta simples, menos importante, que rende um texto menor e, mesmo que fique mal costurado, você consegue terminar em cima do horário, sem grandes danos.
O problema é que notícia não marca hora. Lembro-me bem da Mariana Tamari, por exemplo, nem saída do treinamento, cobrindo sozinha uma coletiva no DHPP no auge da crise dos ataques do PCC.
Usar bem o tempo, como tudo, é algo que melhora com a experiência.
Não espere ser jogada na fogueira para exercitar. Faça isso na faculdade, aproveite todas as chances que tiver de apurar e escrever reportagens. Mesmo que os prazos do jornal laboratório sejam "café com leite" ou que seu editor seja seu chapa --ou simplesmente um banana--, aja como se fosse um deadline pra valer.
-- Ah, mas pra que vou querer mostrar serviço pra esse cara, que nem editor de verdade é?
Não se trata disso; esqueça o cara. A aposta é sua com você mesmo. Teste-se, crie desafios próprios, faça um plano do que gostaria de melhorar e trabalhe para isso.
Outro dia mesmo conversava com minha trainee Verena Fornetti sobre como dominar melhor o tempo para evitar atrasos. Algumas das nossas conclusões estão abaixo. Juntei outras que aprendi com colegas como Steve Buttry e Chip Scanlan.

PARA DOMINAR O TEMPO
1. Refine sua calibragem. Saiba hoje o que tem que fazer amanhã. Imagine quanto tempo levaria. No dia seguinte, marque quanto tempo levou. Depois de alguns dias, ficará mais fácil estimar o tempo necessário para cada tarefa. Tenha em mente que quase sempre você vai gastar mais tempo que o estimado.
2. Estabeleça a "matéria mínima" e a "matéria máxima" (bom conceito criado por Steve). Liste as informações fundamentais que a reportagem precisa ter e as fontes que vão fornecê-las. Faça uma segunda lista com informações e fontes da matéria ideal. Priorize a apuração que garanta a matéria mínima. Se der tempo, amplie.
3. Antecipe na véspera. Mande todas as consultas, perguntas e pedidos que puder na véspera. Por exemplo, você tem no dia seguinte uma pauta de segurança, área que não costuma cobrir. Peça hoje que seu colega da área sugira boas fontes. Ou você sabe que vai fazer amanhã a suíte de uma nova medida do Ministério da Saúde. Mande ainda hoje por e-mail as perguntas para a assessoria.
4. Antecipe no dia. Claro que a notícia manda no que fazemos, mas tente manter controle sobre seu texto. Se o editor precisa da matéria para as 19h, estabeleça para você um deadline às 18h30, para ter tempo de reler, rechecar, melhorar.
5. Ache o foco. Sobre o que é sua história? Responda com uma palavra. Definir o foco ajuda a estruturar mais rapidamente o texto.
6. Rascunhe o texto. Enquanto espera um telefonema, prepare o esqueleto do texto. Use as informações que já tem e deixe lacunas para o que falta apurar.
7. Escreva! Você está atrás de velocidade, e isso é algo que pode controlar. Não pare antes de cada frase. Escreva logo, escreva rapidamente. Diminua suas expectativas: seu objetivo é terminar o texto. Garantido o prazo, use o tempo que sobra para melhorá-lo. Com a vantagem de que textos mais simples são mais fáceis de revisar.
8. Imprima e releia. Se tiver tempo, leia uma versão no papel, que deixa os erros mais aparentes. Circule as informações e recheque uma a uma. Leia em voz alta para ter noção de ritmo e clareza.
9. Deixe o relógio lembrá-lo. Talvez seja útil colocar o relógio para apitar uma hora antes do dealine. Talvez isso o ajude a organizar o tempo que falta.

SUGESTÃO DE LEITURA
"Writing to Deadline: The Journalist at Work," by Donald M. Murray (Heinemann, 2000)

BEAT ACELERADO
Passar um dia trabalhando para a Folha Online foi desafiante. O ritmo é muito acelerado; as matérias são produzidas ininterruptamente e logo postadas na intenet. O nível de atenção requerido é muito grande para liberar vários textos em um mesmo dia sem que escapem erros, sem que se deixe de ouvir o outro lado da história por pressa, sem que dados sejam colocados no ar sem a devida checagem.
Fiquei com a impressão de que a previsão de alguns de que o jornal papel está condenado e tenderá a ser substituído pelos on-lines dificilmente irá se concretizar. Eles não cumprem a mesma função. A informação on-line é mais rápida, mas mais superficial. Informa, mas não aprofunda temas. Acho que esse será realmente o nicho do jornal impresso nos próximos anos. Como nos falou o Vaguinaldo, secretário de Redação, a mídia impressa ficará menos focada em dar a informação, o factual, e mais voltada a análises e comentários.
por MARIANA BENEVIDES
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h34

Ontem perguntei que lide vocês dariam para um texto feito por uma das minhas trainees (clique aqui para ler o texto original, que está na segunda parte do post).
As respostas foram na mosca: o fato de o superintendente regional da Polícia Federal ter sido feito refém, com seu bebê recém-nascido, era lide na certa.
Por quê? Por alguns motivos que podem servir para orientá-los em outros casos:
1. arrastões em condomínios de luxo ocorrem com alguma freqüência. O que este tem de particular? Que história podemos contar que faça deste caso um caso único? Para nossa sorte, alguém "ilustre" (como diz um dos comentariastas) ficou preso. Se não, poderíamos procurar outras características (foi o primeiro do ano; foi o 19º só nesta semana; o mais longo, o mais curto, enfim, alguma coisa que seja só dele).
2. não era "qualquer ilustre" que tinha sido refém. Era o superintendente regional da Polícia Federal. Alguém cuja profissão é ligada a segurança. Mais, um chefe de profissionais da segurança. Claro, não é por ser superintendente da PF que ele está livre de assaltos. Mas o que temos aqui é um símbolo, e, como já comentamos antes, em jornalismo, um símbolo vale por vários parágrafos.

COM MEDO DO JORNALISMO ON-LINE
Sempre tive certo receio de trabalhar com jornalismo on-line. Meu maior medo é o fator tempo. Será que consigo apurar e escrever no prazo e sem cometer erros? Essa é uma dúvida que constantemente paira sobre minha cabeça, dúvida aliás que tenho também sobre trabalhar em um jornal diário, mas num patamar inferior.
No exercício de segunda --quando simulamos um dia na Folha Online com boas doses de realidade, já que contavam com algumas matérias que estávamos produzindo--, tive a impressão de que o bicho não é tão feio.
Embora seja tudo muito corrido, a matéria feita para a internet parece ser mais fácil: não se tem obrigação com tamanho e nem tanto com profundidade. Por isso, ao meu ver, dá para ser feita em maior velocidade do que as que são feitas para o papel. Não dá muito para se preocupar com forma. O que foi apurado tem que ir logo para a tela.
Senti que para vencer o fator tempo é preciso mesmo tempo. O exercício diário trará a agilidade necessária (espero). Agora quanto a não cometer erros... sei que é preciso atenção, mas como mantê-la durante todo o trabalho é algo que ainda preciso descobrir e um receio que continua.

por
VERIDIANA SEDEH

TERCEIRO E ÚLTIMO
Pra encerrar esta rodada, vai mais um texto pra vocês pensarem no lide. Este é um caso bem mais corriqueiro, menos charmoso, mas dá pra pôr em prática os conceitos de notícia.
Movimento nas estradas é pequeno na véspera do feriado
Colaboração para a Folha Online
Segundo informações da Polícia Rodoviária Estadual, o fluxo de veículos nas rodovias de São Paulo é normal no início da tarde desta segunda. A visibilidade também é boa no sistema Anchieta-Imigrantes, Anhangüera-Bandeirantes, Baixada Santista, rodovia Raposo Tavares, Castelo Branco, Ayrton Senna, Mogi-Bertioga, dos Tamoios, Floriano Rodrigues Pinheiro e Oswaldo Cruz.
O motorista que transita na rodovia Fernão Dias enfrenta um congestionamento de 2 km na altura do quilômetro 70, em São Paulo. Uma carreta que transportava madeirite tombou e prejudicou o tráfego de veículos. Nenhum outro carro foi envolvido no acidente e não há feridos.
Quem viaja pelas rodovias do Estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais não encontra nenhum congestionamento. De acordo com a Polícia Rodoviária Estadual e Federal, o movimento de veículos é pequeno na véspera do feriado do Dia dos Trabalhadores.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h38

Lembrei uma tática que é infalível, pelo menos comigo, na hora de entrevistar.
Comece a falar com a fonte sobre o trabalho dela. Se for um escritor, ache uma frase do livro dele pra perguntar porque ele escreveu assim. Se for um político, fale da lei em pauta no momento.
Nunca faça uma pergunta genérica.
É importante mostrar interesse pelo assunto que mais interessa o entrevistado, mesmo que não seja essa sua pauta. Geralmente ele começa a falar e vai se soltando. Tudo relevante vai estar nas entrelinhas. O lide geralmente surge de um comentário no meio das frases técnicas sobre aquilo que não interessa.
A dica vem de um episódio dessa semana.
Aproveitei o feriado desta terça pra tomar uma cerveja na Augusta com um colega trainee. Apareceu um cara vendendo um livro que ele mesmo tinha escrito. A cena não é rara por ali, até comentei com ele sobre outro escritor que fazia a mesma coisa. Meu amigo trainee perguntou se ele sobrevivia vendendo livros. A pergunta o deixou na defensiva. Ele reclamou que todos faziam sempre a mesma pergunta.
Quando a gente disse que era jornalista, ele ficou ainda mais irritado. Reclamou que todo mundo da imprensa fazia sempre a mesma pergunta.
Às vezes nossas pautas repetem muitas perguntas e irritam entrevistados. Sei que nossa intenção não era fazer o mesmo tipo de pauta no estilo "escritor pobre faz bicos e vende literatura para sobreviver". Mas a pergunta deixou essa impressão. Vale essa dica sobre perguntas pontuais pra contornar o problema.
por SILAS MARTÍ
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h17
Hoje eu apanho da minha chefe Ligia, que não gosta de posts longos nem de continuações.
Mas não vai ter jeito. Minha leitora Carolina pergunta quais os melhores seminários para iniciantes no congresso da Abraji, e a resposta não cabe toda num post só.
Façamos assim: para não irritar a Ligia e facilitar a vida de quem não se interessa pelo congresso, coloco logo aqui o link para o próximo post que não trata mais deste assunto. Cliquem e passem adiante.
Já quem se interessa por investigação jornalística e está em dúvida sobre que programação escolher no congresso que se arme de tempo e paciência e continue conosco por mais alguns centímetros.
A escolha é mesmo dura. Sou suspeita pra falar, já que faço parte da diretoria, mas o congresso vai reunir repórteres excelentes, dos melhores do país, e foi planejado pra ser objetivo, útil.
Por isso, há mais palestras legais que tempo para assisti-las.
A primeira distinção a fazer é que há cursos (de três horas) e seminários (de uma hora e meia). Os cursos são "instrumentais", dão ferramentas de trabalho. Os seminários são "informativos/reflexivos", dão pistas, dicas e levantam questões. Quem escolhe um curso deixa de ver dois seminários.
O que vale mais a pena? Depende das afinidades e do projeto profissional de cada um.
Outra distinção é a dos meios de comunicação. No congresso, há conversas sobre TV, rádio, internet, que certamente serão ótimas para quem está (ou quer estar) nesses meios.
Minha experiência é em jornal impresso; minhas indicações serão voltadas para quem está (ou quer estar) num jornal impresso. O que não quer dizer que não sirvam para todos. "Fundamentos da reportagem", por exemplo, são os mesmos, quer você vá escrever, falar ou filmar.
Tudo isso posto, marco abaixo em azul, os que, por assim dizer, eu recomendaria aos meus trainees. Não quer dizer que sejam melhores que os outros (e vejam que não marquei o que eu mesma vou apresentar).
Além dos cursos e palestras, há estudos de caso que eu considero superúteis: repórteres contam como fizeram histórias de sucesso. Nestes não é preciso se inscrever.
Última ressalva: use meus comentários apenas como mais uma referência. Vá pelos seus gostos e pelos seus palpites.
Não tem muito como errar. Como disse, o congresso todo é de altíssimo nível.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h28
SEXTA DE MANHÃ
SEXTA-FEIRA - 18.05.07
Início 09h00
Jornalismo em áreas de risco: cobertura de violência e criminalidade nas grandes cidades Guilherme Portanova, Marcelo Moreira, Tony Chastinet para quem é ou quer ser repórter de cidades/polícia
Jornalismo para o Desenvolvimento Humano - Parte 1 Ricardo Meirelles (curso) para quem cobre ou quer cobrir temas sociais –o curso vai mostrar onde achar dados e como trabalhar com eles
Introdução ao RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) José Roberto de Toledo (curso) panorama das técnicas básicas de RAC
Fundamentos do jornalismo investigativo Daniel Santoro para quem quer fazer investigação jornalística
Fundamentos da Reportagem Marcelo Beraba, José Roberto de Alencar para entender como fazer uma boa reportagem
Fundamentos da Reportagem Chico Otávio, Amaury Ribeiro idem
Cobertura de prefeituras Evandro Spinelli, Paulo Oliveira, Sérgio Roxo para entender onde achar informação na administração pública
Investigando empresas privadas Cida Damasco, Ivana Moreira, Mário César Carvalho para quem faz ou quer fazer jornalismo econômico, essa palestra é fundamental. Trata-se de um dos campos mais difíceis da investigação
Iconografia na Reportagem Mário Kanno, Beth Silva para trabalha ou quer trabalhar com edição e para quem trabalha em revista
Início 11h00
Cobertura de crime organizado Getúlio Bezerra, Bruno Thys obviamente, para quem quer cobrir crime organizado
Faz-se jornalismo nas rádios comunitárias? Sérgio Gomes, Cicília Peruzzo, Geronino Barbosa, Dean Graber para quem trabalha ou quer trabalhar com jornalismo comunitário e com rádio
Como construir o texto jornalístico Paulo Totti para todo mundo que escreve ou quer escrever (o Totti é fera)
Introdução ao Direito para jornalistas Roberto Livianu para evitar erros graves e para quem cobre ou quer cobrir polícia, política e cidades
A proteção da liberdade de expressão Viviana Krsticevic, Beatriz Affonso para quem trabalha nas áreas institucionais da comunicação
Metodologia de reportagem Cláudio Tognolli Tognolli vai analisar reportagens e mostrar como elas foram construídas
Fotojornalismo Hélio Campos Mello, Vidal Cavalcante, Rubens Chiri para quem é ou quer ser repórter-fotográfico
Jornalismo investigativo na América Latina Daniel Santoro, Mabel Rehnfeldt, Carlos Eduardo Huertas, Igor Fuser alguns dos principais repórteres investigativos da América Latina. Nem sempre há oportunidade de ouvi-los
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h27
SEXTA À TARDE
Início 14h00
Técnicas para investigar gastos com dinheiro público Gil Castello Branco (curso) auto-explicativo, certo?
Funções avançadas do Excel aplicadas ao RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) Pré-requisito: conhecimentos de Excel José Roberto de Toledo (curso) para quem já sabe Excel e quer usá-lo melhor nas reportagens
Os novos leitores Plínio Bortolotti, Carlos Castilho e Dean Graber principalmente para editores e professores
Organize-se: como montar bancos de dados e como saber usá-los Marcelo Soares, Fernando Rodrigues também auto-explicativo (neste blog há várias explicações de por que é importante fazer seu próprio banco de dados)
Políticas Sociais Adriana Carranca, Guilherme Canela, Ricardo Mendonça, Margareth Goldenberg para quem cobre ou quer cobrir políticas públicas
Investigando o crime organizado nas grandes cidades Túlio Kahn, Renato Lima, Jorge Antônio Barros para quem cobre ou quer cobrir cidades/polícia e política
O drama dos refugiados no Brasil: Aspectos legais e jornalísticos Luis Varese, Luiz Fernando Godinho, Alan Gripp para quem faz ou quer fazer jornalismo internacional, para quem cobre ou quer cobrir direitos humanos
Radiojornalismo Milton Jung, Giovanni Grizotti, Cid Martins quem trabalha ou quer trabalhar no rádio não deveria perder. São alguns dos principais e mais premiados jornalistas da área no país
Início 16h00
Novas tendências do RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) Steve Doig Doig faz jornalismo investigativo no Miami Herald e já ganhou o Pulitzer
A Amazônia descoberta Liege Albuquerque, Kátia Brasil para quem cobre ou quer cobrir política, economia, polícia ou ambiente
Jornalismo cultural Jotabê Medeiros, João Leiva auto-explicativo
A cobertura do Pan Mário Magalhães, Marcelo Damato, Celso Unzelte para quem quer fazer reportagem investigativa no esporte (e para quem gosta de jornalismo esportivo em geral)
Investigação jornalística -- Como trabalhar em equipe Angelina Nunes uma aula de investigação. Angelina, além de craque, é superdidática
Início 18h30
Jornalismo investigativo - O que se faz no mundo Steve Doig, Sheila Coronel, Gavin Fadyen, Rosental Calmon Alves para todos
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h27
SÁBADO PELA MANHÃ
SÁBADO - 19.05.07
Início 09h00
Cobertura investigativa da administração pública Evandro Spinelli (curso) para saber onde achar pautas na cobertura da administração
Introdução ao RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) José Roberto de Toledo (curso) já comentado acima
Jornalismo Investigativo em Jornais Regionais Eugênio Araújo, Wilson Marini, Marcelo Pereira para quem trabalha ou quer trabalhar em jornais regionais
Fundamentos da Reportagem Marcelo Beraba, José Roberto de Alencar
Fundamentos da Reportagem Chico Otávio, Amaury Ribeiro
A regulamentação do direito de acesso Cláudio Abramo, Fernando Rodrigues, Walter Nunes para quem lida com acesso a informação pública
O impacto ambiental das energias renováveis: sob o olhar do jornalismo investigativo Karla Sponar, Miguel Macedo, Edgar Patrício, Lúcio Flávio Pinto para quem faz ou quer fazer cobertura de ambiente/economia
Jornalismo em áreas de risco: conflitos armados internacionais João Paulo Charleaux, Carlos Eduardo Huertas, Lourival Sant`Anna para quem quer ser correspondente internacional ou trabalhar com jornalismo internacional
Início 11h00
Transição do papel para a internet Caio Túlio Costa, Bob Fernandes para editores, quem pensa em mudar de veículo impresso para eletrônico e para quem já trabalha em jornal on-line
Fonte anônima. O uso de informações off the record no dia a dia Kennedy Alencar, Sérgio Lírio, Maria Cristina Fernandes para repórteres em geral e quem faz ou quer fazer jornalismo político
Direito, Justiça e Jornalismo Frederico Vasconcelos, Flávio Ferreira para quem cobre ou quer cobrir o Judiciário
Cobertura de crise - Casos PCC, Gol 1907 e Metrô de SP Rui Nogueira, Dácio Nitrini, Antônio Rocha Filho para repórteres em geral
Mapa Brasil Katherine Funke, Ana Estela de Sousa Pinto para quem lida com acesso a informação pública (eu só vou apresentar o projeto e, infelizmente, não vou falar de treinamento nem de formação de jornalistas...)
O impacto ambiental das energias renováveis: sob o olhar do jornalismo investigativo Karla Sponar, Miguel Macedo, Edgar Patrício, Marcelo Leite já comentado
Investigando corrupção - Perspectiva internacional Sheila Coronel, Gavin Fadyen auto-explicativo
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h26
SÁBADO À TARDE
Início 14h00
Telejornalismo - ``Profissão Repórter`` Caco Barcellos também auto-explicativo
Jornalismo para o Desenvolvimento Humano - Parte 2 Ricardo Meirelles (curso) o curso mostra como achar informação na área social e como usá-la em reportagens
RAC (Reportagem com auxílio do computador) avançado Pré-requisito: compreensão de inglês e conhecimentos de Excel Steve Doig (curso) para quem quer fazer investigação jornalística (o Doig, como comentei acima, é hiper-experiente e premiado por suas investigações)
Dano moral: privacidade x liberdade de expressão Márcio Chaer, Luiz Fux, José Tadeu Picolo Zanoni para todos os jornalistas –importantíssimo para pensar na responsabilidade da profissão
Financiamento de campanhas eleitorais Rubens Valente, Cláudio Abramo, Mário Bonsaglia para quem quer cobrir política
Como a imprensa cobre violência e criminalidade - A voz da sociedade civil Denis Mizne, Ari Friedenbach, Valéria Velasco auto-explicativo
Checagem e rechecagem de informação Adam Sun para todo jornalista, este é um dos que eu não vou perder (vide meus comentários no blog sobre falta de atenção)
seminário - Jornalismo on-line: o impacto da Internet sobre o jornalismo investigativo, em meio à expansão do jornalismo on-line e à transformação da mídia tradicional Rosental Calmon Alves, Elisabeth Saad, Álvaro Pereira Jr, Lourival Sant`Anna para quem faz ou quer fazer jornalismo on-line
Início 16h00
Novos desafios para a cobertura policial Fernando Molica, Percival de Souza, Renato Lombardi, Ernani Martins Marques para quem faz ou quer fazer cobertura policial
A Tríplice Fronteira Mabel Rehnfeldt, José Maschio, Ricardo Galhardo para quem cobre crime organizado, investigações financeiras e terrorismo
Jornalismo investigativo e meio ambiente Maurício Tuffani, Marcelo Leite auto-explicativo
Investigação jornalística -- Como trabalhar em equipe Angelina Nunes já comentei acima. É outro que não quero perder (sou fã da Angelina)
Investigação criminal Renato Barbosa, Rubens Valente para aprender a cobrir investigações com todo o cuidado necessário (sou fã do Rubens Valente também!)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h26
Leia a pergunta do post abaixo antes de ler esta resposta

No texto ali debaixo, minha primeira pergunta ao ler o título foi: 150 kg é muito?
Como saber se é muito?
Comparando.
É aquela questão que discuti no começo do blog, sobre o peso da Kelly Key: raramente um número isolado é informação que preste.
É preciso compará-lo, em geral com a média e com o total. No texto abaixo, por exemplo, é dizer se 150 kg está acima ou abaixo da média de apreensões de pasta de coca no país (ou no Estado) e quanto representa no total de apreensões.
Vejam que a reportagem fazia parte disso ("a apreensão foi recorde no Estado") e minha observação foi que este deveria ser o título (e foi assim que a notícia foi publicada).
Poderia ser ainda melhor, se fizesse todas as comparações. Porque pode ser recorde, mas a última apreensão pode ter sido de 148 kg, por exemplo.
E uma coisa é o Estado ter média de apreensões de 23 kg, outra é ter média de 120 kg.
Era importante saber também o total. Vai que esta apreensão de ontem é equivalente a toda a pasta de coca apreendida no ano passado no Estado. O número fica com outra cara, não fica?
Alguns de vocês comentaram ainda que havia outras informações mais interessantes: o valor da carga ou o tanto de pó que ela seria capaz de gerar. Vocês têm razão. Dinheiro e pó fazem mais sentido para o leitor que pasta de coca. Mesmo assim, os números sozinhos --R$ 1 milhão, meia tonelada--, embora mais fáceis de "estimar", dizem pouco se não forem comparados.
Só para lembrar, então: se sua apuração bater num número, faça as perguntas abaixo.
O número isolado
- É um recorde (positivo ou negativo)? Qual era o recorde anterior?
- Está acima ou abaixo da média (diga qual a média, em que período e em que lugar)?
O número no contexto
- Os números anteriores eram maiores ou menores? Há uma tendência clara de aumento ou de queda?
- Quanto ele representa do total? (por exemplo, se for o número de assassinatos, relacione com a população da cidade. Se for o número de pontos de um time, relacione com quantos pontos ele poderia ter ganhado se tivesse vencido todos os jogos. Se for o público de um filme, relacione com a lotação do cinema)

MAIS UM EXERCÍCIO DE LIDE
Este foi um outro caso da segunda-feira em que sugeri um lide diferente. O que você faria? Comento amanhã no fim da tarde.
Assalto em condomínio de luxo em Natal
colaboração para Folha Online
No último domingo (dia 29/04), 13 apartamentos do condomínio Casablanca, no bairro nobre do Tirol em Natal (RN), foram assaltados por seis homens armados com pistolas, informou Erick Dias, assessor de imprensa da secretaria de Segurança do Rio Grande do Norte.
Os assaltantes invadiram o prédio por volta das 11h da manhã do domingo e deixaram o prédio às 14h. Fugiram em um palio, que não era de nenhum dos moradores, e levaram um corolla preto de um morador (que foi encontrado hoje no bairro vizinho, Petrópolis).
À medida que os moradores entravam ou saíam do prédio, eram rendidos e levados para um quartinho na garagem. Alguns dos moradores rendidos chegaram a ser algemados pelos assaltantes. Em cada apartamento, ficava apenas um morador, os demais familiares eram levados para a garagem. Os assaltantes cortaram a central de telefone e recolheram os aparelhos celulares, impossibilitando qualquer contato com a polícia. Além dos celulares, foram roubados dinheiro, jóias, relógios e objetos pessoais. Dos seis assaltantes, cinco pareciam tranqüilos, mas um estava bastante nervoso, segundo os moradores. Para Dias, essa é uma tática recorrente em assaltos para manter as vítimas assustadas.
Entre os moradores, estava o superintendente regional da Polícia Federal no Rio Grande do Norte, Luís Fernando Ayres Machado. Ele foi levado com seu filho recém nascido para o quartinho. Também morador do edifício, o ex-secretário de governo Jaime Mariz não teve seu apartamento assalto, pois ninguém entrou ou saiu de seu apartamento durante o assalto.
A Polícia Federal e o delegado da Polícia Civil Graciliano Lordão, titular da Delegacia de Furtos e Roubos (Defur), estão investigando o caso. Pelos relatos, os assaltantes tinham "sotaque carioca". A polícia trabalha com a hipótese dos assaltantes serem de fora, mas não descarta a possibilidade de os moradores terem confundido, "por serem parecidos", o sotaque carioca com o sotaque de Pernambuco.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h20
Na segunda, quando fazíamos exercícios de apuração para a Folha Online, uma trainee me mandou este texto. Sugeri a ela que mudasse o lide (e o título). Veja se você descobre por quê. Mais tarde eu comento.
PF apreende 150kg de pasta de coca
A Polícia Federal apreendeu ontem (29/04) à noite, no município de Barreiras (BA), um carregamento de 150 kg de pasta base de coca. Segundo a PF, a quantidade poderia dar origem a aproximadamente meia tonelada de pó e está avaliada em R$ 1 milhão.
A droga vinha da Bolívia e entrou no país pelo Estado de Rondônia. Estava escondida em um caminhão, sob sacos de milho e farelo de soja. A apreensão, maior já realizada na Bahia, resulta de mais de um ano de investigações.
Os motoristas do caminhão e do carro que o acompanhava foram detidos em flagrante.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h14
Esta nota da coluna do ombudsman de domingo é pra voltar ao assunto da checagem e da atenção.

É claro que todo jornalista da Folha sabe que a gravidez humana dura nove meses e que a tal lei permite o aborto na 12ª semana.
Sabe tão bem, com tanta certeza, que na hora que bate o olho em "12ª", lê semana em seguida, mesmo que esteja escrito mês. [Gestação de 12 meses, me informa um site veterinário, é a da jumenta.]
Eu já deixei passar as coisas mais absurdas, por ter "lido sem ler". Pra garantir 100% que não haja erros é preciso parar, respirar e ler palavra por palavra, no estilo Ricardo Melo (é isso mesmo? é assim que se escreve? isso tá certo?).
E, como nada no mundo é tão simples, na pesquisa para escrever este post acabei descobrindo que existe, sim, "gravidez de 12 meses".
Algumas dicas para aumentar a atenção no fechamento
A coluna de Nelson Ascher nesta segunda trata de como os erros passam (só para assinantes...)
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h32
É MENTIRA!
Do jornalista e professor José Antônio Meira da Rocha: O bom repórter deve apurar sua capacidade de detectar mentiras. No caso de políticos, é fácil: é quando eles mexem a boca. Em outros casos, há dicas de expressões corporais aqui.


Ilustração mostra a diferença entre o sorriso fingido (à esquerda) e o verdadeiro

JORNALISMO NA SEGUNDA VIDA
A coluna de hoje do Al Thompkins tem uma boa entrevista sobre Second Life com um professor da Universidade de Maryland que acaba de lançar um livro sobre o assunto (é a quarta nota da coluna).

Adam Reuters, chefe da sucursal da Reuters em Second Life
Além de explicar o "novo mundo", tem um link para entrevista com o repórter da Reuters na SL e idéias de pauta.

JORNALISMO "NA LINHA"
Os trainees fizeram ontem o exercício de apurar notícia para a Folha Online. As principais diferenças:
-
ritmo. No jornal on-line é importante "segurar o índice", ou seja, publicar novas notícias com freqüência
-
abordagem. Também pelo motivo acima, o site prioriza o fato puro e simples. Os trainees acharam que as reportagens ficam mais superficiais
-
correção. No on-line, aumenta a chance de passar erros. O repórter tem que tomar muito cuidado antes de liberar seu texto

JORNALISMO SEM "COPY EDITORS"
Essa é uma diferença importante: jornais on-line não têm "fechadores", o que nos EUA se chama "copy editor" --alguém que edita e corrige o texto antes de publicar. A tarefa é compartilhada pelos repórteres e pelo editor. O perigo que isso traz foi um dos temas principais da reunião anual da associação americana de copy editors. Para eles, há um elo perdido nas redações on-line.

JORNALISMO DE CAMINHÃO
Enquanto isso, no mundo do jornal impresso, meu ex-trainee VIRGILIO ABRANCHES me escreve: Lembro-me de quando você falava que, se o fechamento atrasasse, o tio do Bruno, que morava em Minas, ia receber o jornal muito tarde. Pois muito bem. Agora você pode me usar como exemplo. Como estou morando em Minas, fico muito irritado quando, às 09h, o jornal ainda não chegou. Aí penso: "o jornal fechou tarde, bem que Ana Estela falava".

Virgilio (no alto), ao lado dos colegas Ligia Diniz e Luís Ferrari, da 36ª turma

CONTRA O RELÓGIO

Detalhe da ilustração do site da "Trip"
Minha ex-trainee DANIELA ARRAIS (que, como todo ex-trainee, me acha obcecada com horários) sugere esta reportagem da "Trip" sobre pontualidade. O que eu mais gostei nela foi a idéia de começar com um operário batendo ponto numa fábrica de... relógios de ponto!
Em jornalismo, um bom símbolo vale mais que mil palavras.

GUERRA
A Casa do Saber vai fazer na unidade de Higienópolis um curso sobre guerras do século 20. Duas das aulas vão ser dadas pelo meu ex-colega de Folha (e amigo) JAIME SPITZCOVSKY, que foi editor de Mundo e correspondente em Moscou e Pequim.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h42
Este blog não pretende tratar de gramática, mas meu leitor Paulinho teve dúvidas sobre o título de uma nota, e eu mesma não tinha muito certeza, então vou abrir espaço hoje para o professor Paulo Ramos, que, todos os dias, orienta os jornalistas aqui da Redação.
A pergunta:
Responde PAULO RAMOS:
O "Dicionário Prático de Regência Verbal", de Celso Luft, registra que o verbo "doer" admite preposição "a" mais infinitivo. Um caso:
- Dói a ele ver o filho assim.
O "Houaiss" registra exemplos semelhantes, mas com "lhe" no lugar de "a ele". Dá no mesmo.
Vejo o mesmo caso na expressão "doa a quem doer". O "a quem" seria equivalente ao "a ele" do exemplo anterior. E há a presença de verbo no infinitivo (doer):
Embora não seja o caso, é difícil justificar algumas expressões coloquiais da língua portuguesa. Elas foram popularizadas assim. E é assim que são usadas. Mexer nisso pode trazer mais dúvida do que clareza.
Uma tentativa de justificar "risco de vida" gerou a confusão que se vê hoje no uso dessa expressão. O brasileiro sempre ouviu "risco de vida". Os mais puristas dizem --com certa razão-- que não faz sentido correr risco de viver, mas sim de morrer.
Mas, se todos usavam a expressão antes e a entendiam, por que modificar?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h26
Minha leitora Fabiana, de Recife, reclama: Não é nada fácil a vida de estagiário e de jornalista iniciante: por sermos "rostinhos novos" na área, muitas vezes somos meio que discriminados pelos entrevistados. Geralmente, eles não nos dão tanta atenção e respondem com má vontade às nossas perguntas. O que fazer nessas horas?
A pergunta é bem geral, e a resposta geral é: você precisa ganhar a confiança delas. Como fazer são outros 500 reais.
Se você já cobre uma área (educação, saúde, economia, futebol etc.), minha sugestão é:
- faça uma lista das fontes que você mais ouve na área
- pense em pautas ou temas que justifiquem uma entrevista com elas
- marque entrevistas de preferência pessoalmente, fora de coletivas
- prepare-se muito bem para a entrevista
- não tente mostrar conhecimento, faça perguntas. Quem tem que falar é o entrevistado, não você
- Mas faça perguntas que mostrem que você sabe do que está falando. Por exemplo:
em vez de "Como o senhor vê a nova lei de trânsito?" ("Com os olhos!!"), pergunte Como a prefeitura vai implantar a regulamentação das motos prevista na nova lei de trânsito? Em vez de "O que o senhor espera do próximo jogo?", pergunte "Com José Roberto machucado, quem vai entrar no meio de campo?"
- nunca pergunte algo que era sua obrigação saber: "De que partido o senhor é?", "Contra quem é o próximo jogo?"
- antes de publicar, cheque com rigor as informações. Lembre-se de que seu objetivo é ganhar a confiança da fonte. Um erro seria péssimo
- mas errar é humano e, em jornalismo, mais comum do que gostaríamos. Depois de publicado o texto, ligue para o entrevistado, pergunte o que ele achou. Se houver incorreções, corrija o quanto antes
Se você é mandada cada dia para uma pauta, cada dia numa área, pode seguir os passos acima num projeto pessoal.
Vou imaginar que seu sonho é ser cobrir educação. Boas fontes para conquistar são o secretário de Educação, vereadores ou deputados que tenham essa plataforma, professores universitários da área, pesquisadores.
Pode não render matérias imediatamente, mas aos poucos vão aparecer pautas.
No mais, basta ter paciência. Se fizer seu trabalho direito, tenha certeza de que as fontes vão começar a te respeitar.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h44
ENTENDA TERMOS MÉDICOS
O Einstein pôs no ar a versão on-line do "Livro Branco", em que é possível achar explicações para 530 termos médicos

DOA A QUEM DOER
David Halberstam, jornalista americano que ficou conhecido por publicar verdades inconvenientes aos EUA durante a Guerra do Vietnã, morreu segunda. Em sua coluna, Roy Peter Clark faz um perfil dele e reproduz esta frase: "Ninguém vira jornalista para fazer amigos. Nem por isso é fácil contar uma história totalmente oposta aos interesses oficiais de seu país".
Elio Gaspari também fala do repórter e sugere a leitura de uma reportagem exemplar de Halberstam: "Um ataque de helicópteros na península de Ca Mau"

O QUE OS FILMES ENSINAM
Chip Scanlan faz um post interessante sobre filmes que subvertem a cronologia e como isso pode ser usado na narrativa de reportagens. Ele sugere uma lista de filmes

LÍNGUAS PARA TODOS OS GOSTOS
A USP tem cursos de vários idiomas

HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA
RENATA SUMMA, trainee da 42ª turma e hoje redatora de Mundo, sugere o livro "Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland", sobre o nazismo e, mais especificamente, sobre o batalhão 101
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h17
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