Mais um mestre de obras

O leitor Adam, depois de ler as dicas do Toledo, me pede exemplos de bases de dados abertas ao público. (Adam, só uma ressalva, a Abraji não cobra R$ 100 por mês. São R$ 100 por ano.)

Fui consultar meu ex-trainee MARCELO SOARES, professor do assunto, que sugere algumas abaixo:

1. Do IBGE: Estatísticas Históricas do Século 20 Pesquisas de Informações Básicas Municipais.

2. O banco de dados da Ancine  rende uma belíssima pauta sobre as leis de incentivo à cultura

3. O site do TSE tem vários dados eleitorais que podem ser copiados para o Excel

4. Escrevi o artigo "Em gibi, quem é morto só aparece em 5,30% das vezes" com dados desta página [Nota da Ana: o artigo pode ser lido no blog de quadrinhos do Paulo Ramos] 

Ele também explica como usar os dados:

1) Visite os sites do governo.  No Excelências, reunimos o que estava disperso. Da Câmara, atividade parlamentar e verbas indenizatórias; do TSE, patrimônio e financiamento de campanhas; processos judiciais tiveram que ser pesquisados caso a caso.

O mais interessante é questionar autoridades com base nos dados que elas próprias produzem. Isso é muito mais forte do que meramente costurar aspas.

2) Quando eu trabalhava na Folha, certa vez um colega voltou da rua com uma lista de empenhos do governo estadual para prefeituras. Tinha umas 15 páginas, com cerca de 60 linhas em cada uma. A olho nu, não se pode tirar informação nenhuma disso. No máximo os valores mais aberrantes. Numa planilha, dá pra saber quanto cada cidade levou. 

Isso pode ser feito também com pilhas de decisões judiciais, por exemplo. Alguns dos primeiros trabalhos de RAC feitos nos Estados Unidos
classificavam, por exemplo, sentenças judiciais de casos criminais. Um repórter conseguiu demonstrar que um acusado branco acabava sendo condenado a menos tempo de prisão do que um acusado negro -por um crime idêntico.

3) O mundo é um banco de dados, se você treinar o olho para observar. Se você classificar, por exemplo, notícias sobre pico de engarrafamento em São Paulo, pode ter uma boa reportagem sobre os padrões do engarrafamento na cidade. Se pegar o dado de um dia só, tem no máximo uma notícia burocrática; se classificar vários dias numa planilha, é o embrião de uma reportagem. É o exemplo também do artigo sobre os heróis de HQ.

4) Eu baixo sempre do site do IBGE todo tipo de planilha para ter no computador de casa. Sempre que sai uma pesquisa nova, vou lá verificar.
Baixo da internet todo tipo de planilha que encontro em sites oficiais.

Nunca sei quando poderá ser útil. Várias vezes acabei usando coisas que guardei sem saber para que servia. Assim, acabei montando em casa uma pequena biblioteca de bancos de dados, classificada por assunto: política, demografia, economia, cinema...

5) Quando a gente fala em reportagem com o auxílio do computador, uso de bancos de dados, etc., tem sempre algum ludita que vai dizer que isso é a decadência do jornalismo e vai perguntar que jornalismo é esse em que não se entrevista gente de verdade. Esses chatos têm razão, em parte: matérias feitas só com dados tendem a ser chatas. O mais interessante é usar os dados para achar o lead, achar tendências gerais, e aí sim sair pra entrevistar gente. Os dados nos dão perguntas mais interessantes pra fazer.

[Nota da Ana: o congresso da Abraji vai ter sete aulas sobre reportagem com auxílio de computador]

6) O Excel é o programa mais fácil de usar para análise de dados. Serve para a maior parte dos problemas com que nos deparamos - ele só falha quando o banco tem muitos milhares de registros (mais de 65.536 linhas ou 239 colunas). A maior parte dos bancos de dados que se usa não chega a isso, então dá pra resolver no Excel. Duas funções avançadas são de suprema importância ao lidar com o Excel: o Auto Filtro e o Relatório de Tabela Dinâmica. Sabendo usá-las bem, pauta não faltará.

Marcelo Soares e Fernando Rodrigues darão uma aula sobre banco de dados no congresso da Abraji, agora em maio.

Veja um exemplo de como ELIO GASPARI usa banco de dados para achar notícias

Dez dicas do Toledo para empilhar bem os tijolos

A página da Abraji tem várias dicas e exercícios para quem quer montar seu banco, mas é preciso se associar. Vale a pena se associar, é R$ 100 por ano, menos de R$ 10 por mês. Aliás, quem se inscrever para o congresso ganha a associação