Programa de Treinamento

Novo em Folha

 

Na trilha do Fred

Na trilha do Fred

                     Alberto Estevez/France Presse

"Noite da Queima", em Valência (Espanha)

Na entrevista da semana passada, Frederico Vasconcelos comentou: repórteres mais novos devem sofrer duplamente se forem destacados para a cobertura de operações como a Têmis ou a Hurricane, porque é difícil entender a relação dos fatos, a origem das investigações.

Concordo com ele, e pedi então mais duas respostas.

Novo em Folha - Se um menino novo, que não foi jogado na fogueira, quiser um dia vir a fazer esse tipo de cobertura, o que você recomenda? Ele deve estudar direito? Deve fazer fontes na área jurídica? Deve frequentar tribunais? Ler o "Diário Oficial do Judiciário"?
Frederico Vasconcelos - O ideal é que tenha formação em direito, mas que consiga se livrar da linguagem especializada, distante do leitor comum.

Eu não tenho formação em direito. Faz falta, sim. Dependo muito de confirmação de questões técnicas.

Talvez, por isso, meu trabalho tenha um ritmo, digamos assim, mais próximo do tempo do Judiciário (sem as demoras da Justiça brasileira, óbvio) do que do nervosismo do jornalismo on-line, por exemplo. Gosto de ler e reler processos e documentos. 

Acho que o jornalismo tem muito a aprender com as práticas do Judiciário, no sentido de ouvir as partes, buscar sempre várias versões para um mesmo fato. E evitar prejulgar.

NF - Você, como começou nesse tipo de cobertura?
Fred - Comecei a fazer esse tipo de cobertura "acidentalmente". Editava uma coluna de bastidores de negócios e vi que havia um filão não explorado pela imprensa: os editais, balanços e atas de empresas.

A leitura de "Diário Oficial", que gosto ainda de fazer, principalmente porque isso é facilitado na internet. Ou seja, antecipava-me ao anúncio formal dos fatos e negócios nas companhias.

E passei a acompanhar, nesses documentos formais, disputas, balanços maquiados, operações suspeitas. Trabalhando com esse material oficial, geralmente não havia retificações. E dávamos "furos" com freqüência, em pequenas notas.

Daí, o contato inicial com auditores, advogados e, depois, juízes. Foi esse o passo inicial.
 
Mas se você foi jogado na fogueira, não custa lembrar as dicas que Fred deu no outro post:

  • Não faça investigações "policiais" sem conhecimento de seu editor
  • Tire todas as dúvidas técnicas com advogados e especialistas
  • Tente ouvir fontes independentes, não envolvidas no caso
  • Mantenha independência das fontes, seja advogados, procuradores ou juízes
  • Lembre-se sempre de que todos os envolvidos têm interesses na história
  • Não "compre" inimizades alheias
  • Registre, sempre, o melhor que a parte acusada tem a dizer, em seu benefício
  • Obtenha os documentos. Não se baseie só em declarações
  • Deixe sempre claro que qualquer denúncia ou sugestão de pauta terá que ser submetida ao jornal

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h35

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Tem certeza?

Estou de plantão no jornal ao lado do jornalista mais cético que já vi (talvez só perca para meu leitor mais crítico), RICARDO MELO.

Ricardo é secretário-assistente de Redação e edita a Primeira Página da Folha, onde trabalho um fim de semana por mês. Tento ser cuidadosa sempre, mas não tem um dia de trabalho com ele em que não aprenda uma nova lição sobre atenção e checagem.

O sujeito duvida de tudo.

-- É Al Jazira, mesmo, ou Al Jazeera?

-- Tem certeza que fica no litoral sul?

-- Esse número de mortos está atualizado?

Não cai um texto na mão dele que não dispare uma pergunta. Ótimo para fazer lembrar uma regra que todo repórter e redator deveriam seguir:

 quando terminar um texto, leia uma última vez para checar nomes, cargos, datas, números e contas. Se tiver tempo, talvez valha a pena até imprimir o texto, circular essas informações e ir ticando o que for confirmando.

nomes: a grafia é aquela mesma? É sem ou com acento? Isabel ou Izabel? Repórteres devem sempre pedir que a fonte soletre o nome nos casos em que pode haver dúvida

cargos: lembre-se de que as pessoas mudam de cargo na vida. Não reproduza uma informação de matéria antiga sem checar. O entrevistado era diretor-financeiro ontem, mas hoje pode ser presidente ou professor universitário.

datas: este Erramos, publicado em 27/9/95, já diz tudo: Diferentemente do que foi publicado à pág. 1-14 (Brasil) da edição de 19/3, a Segunda Guerra Mundial começou em 1939, os EUA entraram na guerra em 1941, a Guerra dos Seis Dias foi em 1967, o presidente Richard Nixon (EUA) renunciou em 1974, Margaret Thatcher assumiu o poder no Reino Unido em 1979, o Muro de Berlim caiu em 1989, e o Iraque invadiu o Kuait em 1990."

números:  compare o que está na matéria com o que está anotado no bloco ou nos dados usados. No caso dos números, erro de digitação sempre será erro de informação.

contas: se a conta foi feita pela fonte, refaça você mesmo. Veja se os números batem. Um exemplo: ontem, estava fechando o texto de uma dupla de trainees e parei nesta frase: "O centro recebeu no mesmo mês 49,9 mil pessoas, uma média de 1.920 por dia". Por vício de ofício, perguntei:

-- Tem certeza de que a conta está certa?

-- Tenho.

Dei uma de Ricardo Melo e resolvi checar. 49.900 / 30 = 1.663.

-- Está errado!!

-- Ah, é que a gente usou os dias úteis.

Refiz a conta: 49.900 / 20 = 2.495.

-- Continua errado!

-- Ah, é que o centro fecha só um dia por semana.

Ah, bom! Mas continua errado, por dois motivos: 49.900 / 26 = 1.919,23, ou seja, a aproximação é para baixo: a média é 1.919, não 1.920.

O outro erro é de texto: pra ser preciso e não irritar o leitor, faltaram duas palavrinhas: uma média de 1.920 por dia de funcionamento

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h59

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Novo recurso no New York Times

Meu colega ÓSCAR CURROS avisa: O New York Times incorporou recursos multimídia em tempo real. Abra uma matéria e clique em qualquer palavra para obter o significado, a transcrição fonética e ouvir a pronúncia em inglês.
 
Nos nomes próprios destacados como hiperlinks, há mais informações sobre o sujeito.
 
Quando tentei aqui no jornal, o recurso não funcionou. Achei que fosse o bloqueador de pop-ups, mas, mesmo sem ele, nada.
 
Mas em casa tentei de novo e ele funcionou muito bem. É bem divertido.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h47

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Empilhe bem seus tijolos

Empilhe bem seus tijolos

Informações são tijolos e você deve saber como empilhá-los, ensina o repórter e editor JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, um dos caras que mais entende de como usar computador no jornalismo.

No congresso da Abraji, ele vai explicar as vantagens e desvantagens do Excel em relação a um banco de dados e mostrar um exemplo de BD que montou sobre municípios brasileiros.

Aqui no blog, ele divide algumas dicas com os leitores.

1) Comece com algo simples, para se familiarizar com o método, como por exemplo, sua agenda de telefones: não deixa de ser um banco de 
dados, que você pode trabalhar para se tornar mais útil e eficiente, acrescentando características (ex.: FULANO, área de atuação: crime, 
peteca e futebol de botão) que servirão para reunir rapidamente fontes com uma mesma especialidade.

2) Não tente abarcar o mundo com uma mão só, monte um banco de cada vez: deputados federais em um BD, doadores de campanha eleitoral em  outro BD, devedores da Receita Federal em um terceiro BD, patrimônio dos candidatos em um quarto BD e por aí vai.

3) Ao desenhar um banco de dados, pense em uma tabela: cada linha é uma "entrada" (uma ficha, uma unidade de informação), e cada coluna é uma "variável" (atributos daquela "entrada" ou ficha); assim, em um BD de deputado federais, cada parlamentar representa uma linha, e 
suas "variáveis" entram nas colunas: partido, idade, sexo, votação, patrimônio etc.

4) Faça um esforço ao desenhar o banco de dados para prever, logo de início, o maior número possível de variáveis que pretende usar e 
comece imediatamente a preencher esses campos; é muito chato quando você descobre, na centésima milésima "entrada", que deveria ter 
criado a variável "nome do advogado" em seu BD sobre pessoas ligadas ao crime organizado.

5) Sempre, toda vez, impreterivelmente, em qualquer novo banco de dados, crie uma coluna "âncora" de identificação que seja única para 
cada "entrada", use de preferência um número; você pode ter dois José da Silva em seu BD, mas para diferenciá-los, use um código de 
identificação que seja exclusivo para cada um deles; para pessoas, o ideal é o CPF; para municípios ou Estados, o código do IBGE.

6) Bancos de dados podem e devem interagir entre eles, pois assim se tornarão mais úteis e ocuparão menos espaço, evitando o acúmulo de 
informações repetidas; você não precisa repetir em um BD todas as informações que já estão em outro BD -por exemplo: se você já tem em 
um BD de candidatos variáveis como "sexo", "data de nascimento" e "partido na eleição", você não precisa repetir essas informações no 
seu BD de deputados federais, basta interligar os bancos de dados.

7) BDs que "puxam" ou "emprestam" dados de/para outros BDs são chamados bancos de dados relacionais; como em qualquer 
relacionamento, eles precisam ter algo em comum; para não ter que ficar "discutindo a relação" a toda hora e produzir relatórios cheios 
de erros, esse algo em comum deve ser aquela coluna "âncora" de que falamos ali atrás; ou seja, o mesmo código para cada entrada em ambos 
os BDs.

8) Exemplo de erro clássico: se vai relacionar o BD de população dos municípios brasileiros com o BD da eleição de 2006 por município NÃO, 
repito, NÃO use o nome dos municípios como "âncora" (ou você vai descobrir todas as grafias possíveis para Mogi-Guaçu, Moji Guassu, 
Mogi-Guassú etc); use o código do IBGE.

9) Lembre-se: dados são como tijolos, só são úteis se forem organizados para construir alguma coisa; assim, dados só se 
transformam em informações quando fazemos uma consulta que agrupa-os de modo a fazerem sentido, a revelarem tendências, a iluminarem 
pontos em comum; ou seja, a eficiência de um banco de dados depende tanto de quem o desenhou quanto de quem o usa.

10)  Não tenho uma décima dica, mas "10 dicas..." soam muito melhor do que "9 dicas...". Assim, vou emprestar uma dica do Elio Gaspari: 
se você tem uma boa memória, montar um banco de dados pode parecer uma trabalheira inútil no começo, porque você talvez se lembre de 
tudo o que ele guarda, mas não se engane, depois da milésima entrada (um pouco mais, um pouco menos, depende do estágio do Alzheimer) o BD começa a revelar relações entre os dados das quais você nunca suspeitou, a mostrar coisas que você tinha esquecido, ou seja, a 
mandar em você.

Veja um exemplo de como ELIO GASPARI usa banco de dados para achar notícias

A página da Abraji tem várias dicas e exercícios para quem quer montar seu banco, mas é preciso se associar. Vale a pena se associar. Aliás, quem se inscrever para o congresso ganha a associação

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h18

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Da paixão ou da mediocridade

Denise, uma amiga, cismou de dar para o namorado um disco de Rostropovitch. O moço adorava Bach e tinha falado desse disco, com as suítes, e em como ele gostaria de ter o CD.

Era difícil de achar; só existia importado. Ela não desistiu enquanto não encontrou.

Num fim de semana, entre um plantão e outro, pegou um ônibus pra Campinas, andou dez quadras até o prédio dele e deixou o presente na portaria. Deu um trabalho danado, mas ela nem ligou.

Carlos Eduardo Czeresnia é um dos melhores obstetras do país. Sua primeira consulta é marcada para as 8h. A última nunca tem hora para terminar.

Czeresnia só agenda cesarianas se não houver outro jeito. Como parto normal não tem hora certa, não há fim de semana, feriado ou mesmo noites garantidas.

Lembrei-me dessas histórias quando Johanna, minha trainee, me perguntou a diferença entre "muito trabalho" e "trabalho excessivo".

Quem deixou a garota assustada foi RICARDO FELTRIN, editor-chefe da Folha Online. Não, ele não à acorrentou às galés, nem fez nada de mal à moça. Só falou sobre seu ritmo de trabalho, de como ele mesmo já tinha saído para apurar uma história depois de um dia inteiro de trabalho, e usou várias vezes a palavra "sacerdócio" para se referir ao que faz.

Minha resposta para a Johanna não se mede em horas de trabalho por dia e vai parecer romântica (tola, talvez, ou piegas, se o leitor estiver mesmo muito mal-humorado):

"Muito trabalho" é quando você gosta do que faz. Quando não gosta, ele fica "excessivo".

Porque a realidade é que não há escapatória: pra fazer um trabalho bom, que sobressaia, é preciso se dedicar de verdade. Não só em jornalismo. Em qualquer profissão. Pense em alguém que você admira e veja se ele não está envolvido com o que faz até os dentes.

A opção, viável, até comum, é não trabalhar muito nem demais. Trabalhar só o normal. Mas, a não ser que você seja um gênio (e a maioria de nós não somos), seu resultado será medíocre.

É isso que a gente quer? 

Rostropovitch, um gênio dos que trabalhavam muito, morreu ontem. O YouTube tem vários vídeos dele tocando Bach (e outros), que com certeza vão deixar seu fim de semana mais bonito.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h45

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Não deixe que te façam de bobo

Não deixe que te façam de bobo


(Nariz de palhaço)

Na semana retrasada, os trainees conversaram com ELIO GASPARI, que mostrou a eles como faz e como usa seu banco de dados e falou também sobre a relação com as fontes.

Uma das coisas que ele sempre ressalta quando fala desse assunto comigo é que o jornalista é em geral um ignorante (ou seja, não tem condições de saber tudo sobre todos os assuntos), e um ignorante chato, que faz perguntas sempre. Depois de muitos anos de profissão, continua sendo um ignorante chato, de preferência, porque a alternativa é virar um pedante. O que ele precisa é saber quando a fonte o está tratando como tonto. Não pode deixar a fonte pensar que pode fazê-lo de bobo.

VERENA FORNETTI relata outras coisas que concluiu da conversa com o colunista, principalmente sobre a relação com as fontes:

  • Não complete a frase do entrevistado porque você está com pressa de terminar seu texto
  • Pense que você não está entrevistando alguém para estabelecer a verdade absoluta sobre alguma coisa. Seu objetivo é pegar informação e obter conhecimento
  • Não deixe que jornalismo vire serviço de 0800. Ligar para a fonte pedindo: "Me arruma uma informação pra já", em geral, funciona pouco. É melhor conversar e não deixar a pessoa na defensiva
  • Em vez de 20 superfontes, faça 200 com as quais vai buscar as notícias devagarzinho
  • Faça um plano para daqui a um ano: nesse prazo, você vai ter uma boa fonte médica, uma fonte em um banco, etc. Não precisa ser o maior expert da área, mas alguém a que possa recorrer para tirar dúvidas
  • Ninguém é obrigado a contar nada ao repórter. O que não pode é deixar que a fonte coloque o jornalista na pista errada (para repetir a primeira dica: não deixe a fonte fazê-lo de bobo)
  • A notícia vem de onde menos se espera. Atenda o telefone e ouça as pessoas
  • A notícia vem do suor. Geralmente, alguém conta alguma coisa, o repórter junta com algo que já sabe e daí nasce a história

NOVATA NUMA GRANDE COBERTURA

Um adendo às dicas que dei para a Gisele sobre como se preparar para grandes coberturas: definir qual é sua pauta vem antes de fazer pesquisas, falar com fontes etc. Em jornalismo, foco é fundamental. A primeira coisa a fazer sempre é entender exatamente qual o objetivo da reportagem e que informações você está responsável por conseguir.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h17

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Juízes no banco dos réus

Juízes no banco dos réus

FREDERICO VASCONCELOS gosta de pedreiras.

É odiado por muitos poderosos. Especialista em investigações difíceis, cheias de armadilhas técnicas, por anos devassou irregularidades na fronteira da economia e da política e, recentemente, é quem mais conhece as masmorras do Judiciário.

Nesta semana, quando estorou a Operação Têmis, Fred assinava matéria em que mostrava que o patrimônio de um juiz crescera no período em que ele esteve no Tribunal Regional Federal (pode ser lida on-line por assinantes da Folha ou do UOL).

Como disse o ombudsman, para fugir das declarações é preciso investigação própria. Fred é um dos mestres da investigação própria, e divide com os leitores do blog suas estratégias de apuração e os cuidados que toma:

Novo em Folha - A reportagem sobre o patrimônio do Manoel Álvares era algo que você já estava fazendo ou começou a apurar depois da operação Têmis?

Frederico Vasconcelos - Pode parecer paradoxal, mas não gosto de trabalhar em cima de furacões e "competições" entre veículos. Repórteres experientes sabem que, nesses momentos, há duas pressões fortes, com dois riscos distintos: tomar o furo, por exagerada cautela, ou cometer erros graves, por açodamento. Os que desembarcam no meio da tormenta, mais novos, devem sofrer duplamente, porque é difícil entender a relação dos fatos, a origem das investigações.

NF - Quanto tempo levou a apuração?

Fred - No caso do patrimônio do juiz Manoel Álvares, a apuração começou bem antes. Acho que levou uns três meses. Achei estranho o fato de ele ter deixado o tribunal em agosto, bem antes do retorno do desembargador Roberto Haddad, que só ocorreria em janeiro.

NF - Você é um dos pioneiros na apuração de juízes. Já foi premiado, escreveu o livro ["Juízes no banco dos réus"] etc. Essas reportagens surgiram de uma observação pessoal sua, uma hipótese que você quis comprovar, ou foram inimigos dos juízes que te passaram as dicas?
 
Fred - Como disse no livro, a idéia inicial [que motivou as reportagens], em 1998/99 --e que vale até hoje-- era saber como os tribunais resolvem, internamente, as suas mazelas. É um aspecto pouco observado pela imprensa.
 
NF - Que cuidados técnicos você toma durante a apuração?

Fred -  Alguns cuidados: não dou nenhum passo sem conhecimento e aprovação do jornal. Procuro consultar advogados e especialistas, se tenho dúvidas. Tento ouvir pessoas não envolvidas nos casos. Procuro manter independência das fontes, seja advogados, procuradores ou juízes. Não "compro" inimizades alheias. E procuro registrar, sempre, o melhor que a parte acusada tem a dizer, em seu benefício. Gosto de ter acesso aos documentos, não valorizo muito declarações. Finalmente, deixo sempre claro que qualquer denúncia ou sugestão de pauta terá que ser submetida ao jornal. Isso não quer dizer que eu não cometa erros... Às vezes o leitor pode ter a impressão de que esse trabalho é individual. Não é. É um trabalho de equipe.
 
NF - Já te colocaram numa pista falsa? Como você descobriu?

Fred - Já fui atrás de pistas falsas. No caso das importações de Israel, nos anos 90, e mais recentemente, uma falsa denúncia sobre o governo Aécio Neves. Nos dois casos, apurei, viajei e vi que eram insustentáveis. Não saiu uma linha, nos dois casos.

NF - Já foi ameaçado? Como foi?

Fred - Nunca recebi ameaças. Tenho muito cuidado em respeitar as partes sob acusação. Exemplo: no dia em que saiu a reportagem com o juiz Manoel Álvares, liguei para ele, para saber se havia alguma incorreção. Ele disse que fui extremamente fiel ao que ele falou. Na Anaconda, entrevistei o juiz Rocha Mattos no dia seguinte ao da busca e apreensão. Todos os argumentos e queixas dele estão publicados, embora, antes, eu mesmo tivesse publicado reportagens de que ele não gostou. Procuro sempre deixar claro que não tenho a intenção de perseguir as pessoas, mas cumprir o meu ofício sem ser ingênuo ou injusto. Não é facil.

NF - Como as fontes da área jurídica te recebem quando você precisa entrevistá-las? Como estabelece sua relação com as fontes e como as mantém?
 
Fred - Fontes no Judiciário e no Ministério Público, advogados também, me recebem com respeito, o que é mútuo. Uma das formas de manter a confiança das fontes: nunca publico uma informação que me tenha sido passada sob a condição de que não deveria ser divulgada naquele momento.

NF - Como se protege contra processos?  Quantas vezes já foi processado? Foi condenado? 

Fred - Há alguns processos movidos contra o jornal, uma ação de indenização contra mim por uma das pessoas citadas no livro. Nos anos 90, uma queixa-crime foi rejeitada pela Justiça. A parte não recorreu. O jornal sempre deu a retaguarda jurídica.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h49

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Nem com vara bem longa

Empresto do meu leitor Batista Cruz, de Feira de Santana, esta frase, que ele usou no comentário ao post dos urubus:

Aprendi [entre uma enxada e um facão] que, se não devemos compartilhar da dor dos outros, não devemos futucar, nem com uma vara bem longa, a ferida dos outros que sangra.

MAÇÃ VERDE

Pensando bem na história da Carolina, o que o editor fez foi maldade pura. Ela estava "preparada" para passar o dia apurando a história, para escrever o texto e para produzir o boletim. Não estava preparada para que, então? Para ter seu trabalho reconhecido?

PEGAR OU NÃO PEGAR

Só como registro, 2/3 dos que responderam à enquete do blog acham que não se deve pegar um documento sem que a fonte saiba em hipótese alguma. É uma enquete, portanto só vale para quem respondeu, e é aberta, pega leitores em geral, não necessariamente jornalistas. Mas vale pra lembrar que todo cuidado e bom-senso é justificado nessa hora.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h33

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literatura, violência, cinema, texto

literatura, violência, cinema, texto

LITERATURA

Minha colega Marina Della Valle, apaixonada por literatura e tradução, sugere os cursos da Casa das Rosas: às sextas, teoria da transcriação, de Haroldo de Campos, de 11/5 a 22/6, das 20h às 22h, 80 vagas, R$ 10; aos sábados: poesia, análise e interpretação, de 12/5 a 25/6, das 10 às 13h, 30 vagas, R$ 10

Informações - Donny Correia (coordenador de programação) - donnycorreia@casadasrosas, 3285 6986 ou 3288 9447

VIOLÊNCIA, CRIME, CONFLITOS

A cobertura de violência, criminalidade e conflitos será tratada em oito seminários no 2º congresso da Abraji, de 17 a 19 de maio: Jornalismo em áreas de risco, Cobertura de crime organizado, Investigando o crime organizado nas grandes cidades, Jornalismo em áreas de risco: conflitos armados internacionais, Investigando corrupção - Perspectiva internacional., Como a imprensa cobre violência e criminalidade - A voz da sociedade civil, Investigação criminal, Novos desafios para a cobertura policial

HISTÓRIA DO CINEMA

A Cinemateca Brasileira faz curso gratuito sobre história do documentário, de 8/5 a 26/6.

O endereço é largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Mariana. Inscrições devem ser feitas pessoalmente na bilheteria da Sala Cinemateca, a partir de 1/5, das 15h às 22h, de terça a domingo. Há 150 vagas.

CONSULTORIA ON-LINE

Essa não serve pra gente. É só pra dar uma ponta de inveja e pra mostrar como as coisas são mais organizadas nos EUA. Meu amigo editor de textos John Wicklein, com anos de experiência no "New York Times", abriu uma consultoria on-line. Você manda o texto e ele analisa, sugere, comenta etc. por e-mail e por telefone. Custa R$ 100 a cada sete textos.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h00

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Maçã verde

Quem é novato, estudante, estagiário --como a Gisele, que me escreveu abaixo-- vai gostar de ler este relato da minha colega CAROLINA NOMURA sobre o dia em que "virou repórter":

Acabara de sair do trabalho. Eram 11h. Passara a noite na rádio, como fazia de domingo a sexta-feira, na produção de um programa que ia ao ar das 4h às 6h. Claro que, de gente conhecida, só seu pai ouvia.

Naquele dia, o trabalho avançou e ela perdeu mais uma vez as aulas na faculdade de jornalismo. Cansada, tudo o que queria era chegar em casa, comer um bom prato de feijoada, cair na cama e acordar só às dez da noite, quando iria de novo pro trabalho.

Mal chegou em sua rua, viu sirenes, zum-zum-zum de gente comentando, carros de bombeiro que haviam fechado a rua de baixo. “Mau sinal”, pensou. 

Entrou em casa e seu irmão, nervoso: “Caiu uma árvore e matou um cara.” Todo o cansaço sumiu. A menina-foca, que só fazia produção, poderia fazer sua primeira grande reportagem. Pegou gravador, um caderno universitário e umas três canetas (caso uma delas falhasse). Desceu a rua correndo e chegou, ofegante, ao local do acidente.

“Por onde começar?” Foi seu primeiro pensamento, que lhe causou um certo pânico.

“Acho que vou ligar para a rádio e dizer que estou aqui”, foi o segundo pensamento, para tentar se acalmar. Já sabendo como funciona o ciúme dos repórteres, pediu para falar com o chefe.

- Joaquim, é a Carol. Aconteceu um acidente aqui na rua debaixo da minha casa. Uma árvore caiu e matou um cara, quer dizer, uma pessoa. Tá todo mundo aqui, a Globo, a Jovem Pan, a Eldorado... não tem ninguém da Bandeirantes. Quer que eu fique aqui até chegar alguém?

- Pôxa vida, Carol. Claro que sim. Já estou mandando alguém. Enquanto isso, por que você não entra ao vivo e faz um boletim?

- Agora?

- É. Agora. Estamos ligando para você em cinco minutos. Prepare-se.

Pânico geral.

“E agora?????? Bem, pense no lide. O que aconteceu? Quem morreu? Onde morreu? Vai, rápido, pega a caneta. Uma não funciona. Pega a outra. Também não. Ai, meu Deus!! É a última chance...também não.”

A solução encontrada foi escrever mesmo assim. Talvez ela conseguisse ler o relevo do papel. Alguma coisa tinha que funcionar. Começou: “Uma árvore caiu e matou um homem”. Não era lide que se apresentasse. “Hoje, um homem morreu vítima de uma queda de árvore”. O desespero começou a bater. Como fazer um lide em, agora, três minutos?

Parou tudo. Resolveu observar a situação. O que seu tio (seu mentor na profissão) lhe havia dito? Parar, respirar e observar. Afinal, dizia ele, “a sorte sempre ajuda os bons repórteres”.

Ela ainda não se sentia uma repórter. Não tinha o diploma de jornalista e estava no último ano da faculdade de direito. Não tinha nada. Apenas o seu olhar. E resolveu utilizá-lo.

O telefone tocou. Era o produtor do programa, já a colocando na linha para falar com o apresentador.

- Carol, está pronta? O Avalone vai te chamar e você diz a hora e fala o que aconteceu, tá?

Pensou: - Claro! Mas é obvio. Basta dizer o que aconteceu. E ela contou o que sabia. Uma árvore caiu em cima de um carro e matou o motorista.

O apresentador perguntou:

- Onde você está?

- Estou na rua Tutóia, na região do parque Ibirapuera. Ainda não se tem informação sobre a identidade do motorista.

- Ok. Então, daqui a pouco, mais informações com a repórter Carolina Nomura.

E desligou.

“Ai, meu Deus. Melhor apurar logo isso. Que vergonha! Que merda!”

Não demorou para identificar seus pares. Todos com telefone celular na mão e um bloquinho. Ela ficou um pouco envergonhada de estar com um caderno universitário, três canetas que não funcionavam e aquela cara de quem madrugou.

Mas a preocupação com o próximo boletim lhe fez perder a timidez. Chegou perto dos colegas e disse:

- Oi, gente. Sou da Bandeirantes. O que aconteceu?

E, para a sua surpresa, os repórteres, muito solícitos, lhe contaram tudo, deram os dados do homem que morreu, disseram que a esposa estava no banco do passageiro e havia sido encaminhada para o hospital, e que logo, logo os bombeiros iam falar. “Uau.”

Um repórter lhe emprestou uma caneta e, dessa vez, ela escreveu um boletim completo. Depois de entrar no ar ao vivo, mais calma, ouviu o apresentador dizer que daqui a pouco daria mais informações.

“Meu Deus, vou ficar aqui o dia inteiro?”, pensou. Passada a adrenalina, resolveu ligar para o chefe.

- Joaquim, er... eu ainda estou aqui, mas não chegou ninguém.

- Ah, Carol, muito bem! Gostamos muito da sua atitude. Agüenta mais um pouco aí, fala com o bombeiro e tenta ouvir a prefeitura...daqui a pouco a gente manda alguém.

Na terceira vez que o telefone tocou, ela não estava mais nervosa. Já sabia de cor e salteado o que tinha acontecido, o nome do motorista, da mulher, se eles tinham filhos, netos, cachorros, e tudo mais.

Já eram duas da tarde e nada de alguém vir lhe render. Mas ela continuava firme e forte, fazendo seu papel de repórter. Às três, já havia entrado no ar mais umas cinco vezes. E nada de aparecer alguém. Eram quase quatro horas quando começou a chover. Ela logo se juntou com o pessoal da Globo --eles são super-equipados-- e tinham guarda-chuvas para a repórter e o câmera. Mas o espaço foi ficando pequeno e ela ficou debaixo de uma árvore mesmo.

Estava mais do que cansada. Eram quase 17 horas de trabalho, sendo que 12 à noite. De repente, a chuva caía à sua frente, mas não sobre ela. Olhou para trás e viu sua mãe --soube que a filha estava na rua de baixo e lhe levou um guarda-chuva e um sanduíche. A repórter começou a rir. Sua primeira reação foi achar que aquele gesto de amor e mimo lhe tiraria toda a garra da profissão. Pensou: “Ah, mãe, repórter tem que sofrer mesmo, ficar na lama, esperar cinco horas para falar com alguém...tem que ser carrancudo”. Mas, diante daquele sorriso materno, a única coisa que ela conseguiu fazer foi agradecer.

Já passava das cinco quando ligaram pedindo que fosse até a rádio gravar um boletim que iria ser exibido no programa nobre do dia seguinte, às 7 da manhã.

- O quê? São quase cinco horas, eu estou trabalhando desde as 11 horas da noite passada e você quer que eu pegue meu carro, pegue uma hora de trânsito para chegar aí só para fazer um boletim? Você quem sabe, disse um dos repórteres da rádio. Lá foi ela, com as olheiras que estavam pretas.

Chegando lá, mais uma hora para preparar o boletim, passar as entrevistas para o som da rádio, separar as falas, encaixá-las com as falas dela e pronto.

- Aí está, Joaquim. Acho que vou ficar direto para o trabalho, o que você acha?

- Há há há. Boa idéia. Bom trabalho, garota. Até amanhã.

- Até amanhã.

“Ufa”, pensou. “Ganhei a moral com o chefe”.

Voltou para a casa toda contente, sentindo como se houvesse ganhado um prêmio. Que a sua reportagem era a melhor, que como ela era boa, que de produtora passaria a ser repórter instantaneamente. Dormiu três horas e voltou para rádio. Quando chegou lá, para sua surpresa e frustração, descobriu que o chefe da noite havia pegado as falas dos entrevistados e retirado as falas dela. Quem leria o que ela escrevera seriam os locutores do “primeira hora”.

Nem preciso dizer que ela ficou arrasada e se segurou para não chorar. “Quase 20 horas de trabalho, chuva, fome, estresse, sono, cansaço, para nada? Para vir um idiota e pegar o meu trabalho sem me dar nenhum crédito?” Mas conteve-se. Perguntou com um sorriso cínico: Por quê? E o chefe, sem nenhuma cerimônia, disse: - Você não está preparada.

E ele tinha razão.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h25

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Novata no meio das feras

Novata no meio das feras

Minha leitora Gisele, de São José dos Campos, conta que sua faculdade vai selecionar alguns alunos para a cobertura do papa. E pergunta: Como os alunos (ou estagiários) devem se comportar numa ocasião como esta? Estaremos cercados de jornalistas do mundo todo, acho que isso pode causar medo, tanto de errar e mesmo de... sei lá... estar no meio de tanta gente experiente e nós meros aprendizes.

A resposta começa com dois exemplos:

Exemplo 1
-- Por que há tantas operárias mulheres na fábrica?

-- Porque elas são mais cuidadosas.

-- Não é porque o salário delas é menor que o dos homens?

-- Não. Nós pagamos por cargo. Num mesmo cargo, homens e mulheres ganham a mesma coisa.

Exemplo 2
--
Por que nem todas as operárias estão usando máscaras?

-- As máscaras estão disponíveis. Mas, como não são obrigatórias, nem todas usam.

-- Mas essa poeira não provoca danos na saúde?

-- A informação que temos é que não. É poeira vegetal, por isso é eliminada normalmente pelo organismo.

As duas situações acima são reais. Elas deixam bem claro uma qualidade e uma fraqueza das repórteres que lançaram as perguntas.

A qualidade, fundamental em jornalismo, é observação crítica. Repórter tem que estar de olho no que está à sua volta. Se não for para observar, questionar-se e contar para o leitor o que leu, melhor ficar na Redação e fazer tudo por telefone.

E o problema, qual é? Falta de informação. Informação é o ouro desse negócio. Como resolver?

1) Antes de sair para uma pauta, o repórter deve fazer o possível para ter informação sobre o que vai cobrir. Pesquisar banco de dados, ouvir quem entende do ramo, consultar colegas que já cubram a área.

2) Mesmo assim, às vezes a observação crítica nos leva a dúvidas novas, como nos exemplos lá em cima. As repórteres fizeram duas hipóteses de pauta: na primeira, era "Salário mais baixo faz mulheres dominarem fábrica"; na segunda, "Fábrica exige 100% de pureza no produto, mas operários são expostos a risco".

Até aí, está tudo certo. Mas da hipótese à notícia há um longo caminho, que às vezes derruba a pauta. Por isso, é preciso refletir um pouco sobre o que perguntar.

Veja: as duas repórteres não têm informação, até porque as hipóteses vieram da observação, do inesperado. Se não têm informação, estão em desvantagem em relação aos diretores da fábrica. A pergunta "É por que elas ganham menos?" já entrega, para a fonte, que a gente não tem a informação. Pior, mostra para ele que temos um "pré-conceito".

Na fábrica, então, o que dá para fazer?

Perguntar o salário médio dos operários, a diferença de salário entre homens e mulheres (é uma pergunta neutra, diferente da do exemplo), se possível, entrevistar as mulheres e homens que trabalham. Claro que há sempre a possibilidade de já nesse momento ele informar que há uma diferença, e aí podemos aproveitar para entender o porquê.

Depois a repórter precisa ouvir o sindicato, outras associações, secretaria do Trabalho da cidade: é de lá que pode sair a informação que comprova sua tese. Aí, sim, se houver mesmo diferença, podemos voltar ao diretor e questioná-lo.

Em resumo, Gisele, o que estudantes e estagiários podem fazer para compensar a inexperiência numa cobertura:

  • pesquise: arquivos de jornais, artigos do entrevistado ou sobre ele, biografias, documentos sobre o tema que vai cobrir (essa parte, pelo que você me conta, você já fez)
  • consulte especialistas: pesquisadores, professores universitários, autores dos artigos que você leu, profissionais da área (no seu caso, bispos, padres da sua região) podem ajudá-la
  • peça ajuda a colegas: jornalistas experientes sempre dão boas dicas, até mesmo práticas. Minha experiência mostra que eles gostam muito de ajudar
  • defina pautas: saiba qual o seu objetivo na cobertura. Se tiver um foco, garanta essas informações, mas, claro, esteja atenta ao inesperado (a tal da observação crítica de que falamos lá em cima). Se for escolhida por seu professor, não saia sem ter certeza absoluta do que ele espera de você nesse exercício.
  • olhos abertos: na rua, o repórter precisa observar e descrever. Anote detalhes, histórias de personagens, conte, meça, compare, contraponha. Você será os olhos, ouvidos, nariz e boca do leitor. Se cumprir bem essa parte, já terá feito um ótimo serviço
  • não tenha vergonha de perguntar: mas não se deixe inibir pela inexperiência. Se tiver conseguido se preparar antes, estará bem informada e vai se sentir mais segura. Prepare perguntas antes, com a ajuda das fontes que você consultou na fase de pesquisa (os especialistas, repórteres etc.). Não fique com dúvidas. Sua função é perguntar
  • fique atenta a perguntas e respostas: quando alguém estiver sendo entrevistado, grave. Ninguém é obrigado a fazer perguntas, e não há mal nenhum em usar no seu texto o resultado da apuração feita por jornalistas mais experientes
  • pegue telefones e contatos de todas as pessoas que entrevistar. Às vezes surgem dúvidas ou novas idéias na hora de escrever. Ou seu editor pode querer a foto de um bom personagem, e o telefone permite agendá-la

São algumas idéias básicas, mas o pessoal mais "quilometrado" talvez tenha outras sugestões para você. Vamos ver.

URUBUS

Nessa história que o Vinicius conta ("Não somos urubus!!" Somos?) cabe também perguntar: que informações são fundamentais pra nossa história e quem pode fornecê-las. Nem sempre é preciso ligar para os pais do bebê que morreu, como na história do Chuck Palahniuk.

Se a polícia, que é um órgão público, divulgasse as informações do BO, que é um documento público, 90% do problema estaria resolvido.
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h54

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Dicionário de frases

Dicionário de frases

Ricardo Meirelles, que sabe tudo de onde achar informação, deu esta dica na lista da Abraji:

Dicionário Eletrônico Português-Espanhol da Universidade Federal de Santa Catarina, ainda em versão teste.
 
Ele não dá a definição de um termo, mostra frases traduzidas em que a palavra aparece. São 25.000 frases traduzidas.
 
Ricardo fez um teste com a palavra "presunto":
 
Português
Español
    O presumido pai biológico da menor negou a paternidade.
    El presunto padre biológico de la menor negó la paternidad.
    O suposto pai biológico da menor negou a paternidade.
    El presunto padre biológico de la menor negó la paternidad.
 

CAMINHO INVERSO

E pra não esquecer que jornalista tem que ler jornal, vai abaixo uma outra "técnica" que segue o caminho inverso da minha.

Minha sugestão até agora tinha sido: leia tudo o que importa e depois, se der tempo, leia mais.

ÓSCAR CURROS, meu colega na Folha, faz diferente:

1) Tiro os cadernos que não costumo ler porque não se correspondem com as minhas áreas de interesse/trabalho/especialização e dou uma olhada nas matérias muito rapidamente (título, fotografia e o lead).

2) Vou na informação geral do jornal (capa, cadernos diários etc.) e leio com maior ou menor profundidade em função do meu conhecimento do assunto.

Por exemplo, se já dediquei um domingo a estudar muito material sobre a crise aérea, a minha leitura na segunda-feira sobre o assunto também será "aérea".

3) Finalmente, me debruço sobre os artigos de opinião e os cadernos mais reflexivos (como o Mais!), que requerem de atenção redobrada e, com freqüência, da leitura prévia da informação contida no restante do jornal.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h33

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Pisamos em cadáveres; fizemos disso nosso ganha-pão

Sobre o caso abaixo, meu leitor Diogo sugere a leitura de "Abutres ou Heróis", de Dorrit Harazim, de quem sou fã de carteirinha.

Dorrit é com certeza uma das melhores jornalistas do Brasil.

Diogo destaca: "‘As vezes nos sentíamos como urubus. Pisamos em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém. Acredito que salvamos algumas vidas", começa o artigo, citando uma frase do fotojornalista Greg Marinovich, responsável pela cobertura de guerras civis africanas.

Obrigada pela sugestão!

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h34

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``Nós não somos urubus!´´ Somos?

Caio Guatelli/Folha Imagem - 20.06.2000

Urubus sobrevoam o centro da cidade de São Paulo

O repórter VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO conta como foi (mal)tratado na cobertura da morte de uma administradora no Alto de Pinheiros. E pergunta: como reagir?

Cobertura de morte sempre é difícil. A família está consternada, o clima é pesado e ainda assim temos de fazer nosso trabalho jornalístico, que é informar os leitores com distanciamento e sem envolvimento emocional, por mais que o caso te sensibilize. No caso de ontem, o assassinato foi na porta de casa, às 17h, em circunstâncias banais que podem acontecer com qualquer um de nós.
 
Os familiares foram agressivos. Chamaram os repórteres de inadequados, inconvenientes, "urubus". É preciso ressaltar que o foco da cobertura, nas entrelinhas, não é a morte de Ana Virgínia Miranda Nichols. Poderia ser Maria, Pedro, José, Roberto. O que interesse é relatar a banalização da violência e o desamparo que a população vive diante do crime, mesmo em bairro nobres e em que moradores poagam a mais pela segurança. O foco é a segurança pública.
 
É mais do que compreensível que os familiares, ainda assustados, não queiram falar. Mas não podemos retornar à Redação com informações vazias, imprecisas, sem fatos
. Somos pagos (e cobrados) para informar. Então como e com quem apurar? Os policiais são brutos e declaradamente dizem que não gostam da imprensa. No DP, o delegado diz que não passa informações. Por quê? "Porque sim!" Os vizinhos temem aparecer com receio de retaliação (da família e dos bandidos).
 
Ontem, fui agredido verbalmente por um irmão da vítima. Os familiares não entendem (nem têm que entender) que, se falarem, ainda que brevemente, as circunstâncias do crime e informações básicas sobre a vítima, a "corja" (foi assim que nos chamaram) vai embora, não insiste mais. A discussão é: como reagir?
 
Não podemos nos contentar com informações superficiais. Ontem, vizinhos e vigias falavam da vida sexual da vítima e da situação financeira da família,
informações que não têm nenhuma relevância jornalística nessa cobertura.
Descobrimos o telefone da casa, via site da Telefônica. Ligamos, insistimos. É parte do nosso dever profissional, por mais que seja inconveniente.

Como colegas agem nessa situação? O que leitores acham? O que os familiares têm a dizer, a seu ver, de abordagens incovenientes de jornalistas?

Sobre como agir, os próprios repórteres parecem ter algumas respostas. O texto que fizeram é informativo e sóbrio. Como eles conseguiram as informações? Havia muita gente na casa. Na saída, alguns pessoas, que se diziam parentes, falavam uma coisa ou outra. Uma irmã diz que ela vinha do banco. E só. Outro irmão disse que ela era administradora. E só. Um policial militar falou das circunstâncias do crime e da abordagem dos bandidos. A SSP comentou outros detalhes. O vigia da turma do apito disse outras coisas. Fomos comendo pelas beiradas, como se diz...

Não há fórmula mágica. É preciso respeitar a família, tentar dar a ela algum controle da informação (falei sobre isso em outro post) e, com certeza, insistir. Mas vamos ver o que outros respondem.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h56

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NInguém na sala

Meu leitor R., da Bahia, conta o seguinte caso sobre "apropriação de documentos alheios".

Hoje, estive em uma situação bem parecida com a de alguns comentários deste blog. Sou estagiário, repórter de esporte. Estava hoje no centro de treinamento de um clube, como sempre costumo fazer. Em um determinado momento, fui à sala do assessor de imprensa para tirar uma dúvida.

Bati na porta, nenhuma resposta.

Então girei a maçaneta e abri. Não tinha ninguém na sala, todas as luzes ligadas, mas ninguém estava lá, nem por perto.

Dei uma rápida olhada no ambiente e vi alguns documentos e DVDs de jogadores em uma mesa próxima a mim. Rapidamente anotei os nomes destes jogadores.

Não tive coragem de mexer em nada e não me arrependo disso. Afinal, o assunto não justificava eu cometer o crime.

Mas é claro que eu não poderia deixar de anotar os nomes dos jogadores que estavam nos DVDs.

E você, o que acha? O que faria? Responda à enquete do blog.

O blog consultou vários repórteres e fez uma lista de sugestões sobre casos como este.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h42

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Ricardo responde

Ricardo responde

Leitores comentam a atuação de RICARDO GALLO no dia em que jornalistas destruíram obras de arte. O repórter responde.

Ítalo: o repórter avisou ao fotógrafo da Folha o foco da matéria? Entrevistou ele ou aquela aspa foi uma conversa na volta do carro que, só depois, o fotógrafo viu que virou matéria? Ou seja, como foi "entrevistar" o colega de jornal?

Ricardo: Não lembro se foi algo deliberado ou não, mas não avisei o fotógrafo do foco da matéria. Tanto que ele foi um dos profissionais a manusear as obras. Meu editor sugeriu que ouvíssemos o Gaudério --de fato, soaria algo estranho criticar a imprensa mas omitir que um profissional da Folha também havia mexido nos livros. Não o ter alertado foi um erro, porque não fosse o fotógrafo do Agora ter registrado as imagens, a pauta perderia muito em força.

Roberto: Fiquei na dúvida, "Antônio" chegou a avisar aos "colegas" q estavam destruindo uma obra rara? Ou o delegado sobre a necessidade de cuidados especiais no manuseio do livro? 

Ricardo: Não avisei o delegado nem aos colegas. Eu não quis interferir naquela cena. Ouvi depois o delegado, por telefone. Se eu expusesse a todos a minha perplexidade diante do absurdo, revelaria aos colegas qual ângulo eu abordaria da pauta. Mais tarde, o delegado disse (até saiu no título de uma das matérias): a imprensa parecia "urubu".

Salvatore Oi, Ana! Lendo a crônica de Ricardo, comecei a pensar em uma coisa que já rondou minha cachola algumas vezes. "Tipo assim" : o fotógrafo salva a moça que vai ser queimada viva ou deixa ela morrer para poder tirar a foto da moça queimando enquanto os bombeiros calçam as botas? Com minha paixão por arte e história, não sei se teria controlado o berro e evitado algo do tipo "isso não é uma revista semanal, não". Acho complicado...

Ricardo: Oi, Salvatore, tudo bem? Você tem razão, a sua interpretação é bem possível diante do fato narrado. Bom, eu não quis interferir no fato que acontecia ali. É um pouco de conjectura, mas, se eu dissesse a 20 jornalistas "não mexam, vejam o que vocês estão fazendo", adiantaria? Certo ou não, quis ser neutro e assumir a posição de observador, não de agente da história. E expor, por meio de uma reportagem, o absurdo da situação a um grande número de pessoas pode, de certa forma, ajudar a evitar a recorrência de casos do tipo, em que o delegado e a imprensa demonstram despreparo para lidar com obras raras.

Ana: Lendo as perguntas e respostas, percebo que há assunto para dois posts. Um sobre intervir ou não no fato e outro sobre como agir em coletivas. Ficam para outro dia, porque hoje vamos passar o dia na rua, em fábricas, ônibus e avião.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h06

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Rumo ao Pan, às eleições, à visita do papa, à Copa do Mundo...

Rumo ao Pan, às eleições, à visita do papa, à Copa do Mundo...

Fábio Santos, meu leitor de Belo Horizonte, pede que eu escreva sobre a cobertura de grandes eventos: "O Pan está chegando e seria interessante abordar a metodologia utilizada em coberturas assim".

O assunto é amplo. No post de hoje, vou falar mais sobre a preparação para que a cobertura funcione.

O que fazer no calor do evento fica para um outro dia.

Outra ressalva é que estou falando aqui de grandes eventos com data marcada. Há outros inesperados --geralmente tragédias-- em que a preparação terá que ser diferente. Mas, mesmo nas emergências, perder dez minutos planejando como agir fará muita diferença no resultado final.

EDITORES

planejamento - como diz meu colega Steve Buttry, nenhum vai garantir todos os detalhes, pois cada história é uma, mas o planejamento geral evita erros. Na Folha, coberturas como a do Pan começam a ser planejadas com pelo menos um ano de antecedência.

comece pelo fim - o bom planejamento começa no final de uma grande cobertura: reúna toda a equipe, levante o que deu errado e como poderia ter sido evitado, faça uma lista do que funcionou e do que precisa ser melhorado. Faça mesmo e faça logo. Não ache que você vai se lembrar daqui a alguns meses.

adapte o cobertor - defina os recursos que terá (quantos repórteres, fechadores, fotógrafos, quantas páginas por dia, horários de fechamento etc.) e adapte a eles seu projeto de cobertura. Propor-se uma cobertura extensiva com equipe limitada é meio caminho andado para fracasso e decepção. Estabeleça prioridades, atenha-se a elas e distribua bem os recursos --o que inclui programar bem horários de trabalho, folgas da equipe etc.

defina quem decide - cada pessoa da equipe deve saber exatamente quem é o responsável em cada etapa: quem decide pauta, quem pega retorno, quem fecha cada assunto. Distribua uma lista com telefones e celulares de todos. Se a cobertura é fora da sede, provavelmente é bom ter alguém chefiando no local: neste caso é fundamental definir bem quem decide o que, para evitar ordens desencontradas. Por exemplo, repórteres não ligam para a sede e sim consultam o chefe no local. Este, se tiver dúvidas, consulta o chefe na sede.

não se esqueça das ilustrações - o planejamento tem que abranger arte e fotografia. Antecipe chassis de mapas e gráficos. Quando for o caso, mande seu infografista ao local, para inspirar e dar mais veracidade aos desenhos. Paute fotos com antecedência. Inclua chefes da arte e da foto nas reuniões de planejamento.

conecte repórteres e fotógrafos - eles devem passar informações uns aos outros. Garanta que a lista de telefones inclua os fotógrafos e seja distribuída também a eles.

mantenha contato - planejamento é fundamental, mas não deve engessar a cobertura. Depois do fechamento, reúna a equipe e discuta pautas, ângulos e outros aspectos relevantes.

delegue e fiscalize - cada repórter e redator da sua equipe deve ter os recursos sugeridos abaixo. O editor tem duas opções: centralizar o planejamento e fornecer à equipe manuais, telefones etc. ou orientá-los a fazer isso (e acompanhar a execução). Eu prefiro a segunda opção, mas cada um tem seu estilo.

REPÓRTERES
assuma responsabilidades - coberturas grandes exigem que todos trabalhem em equipe. Leia os passos acima e assuma responsabilidade no bom andamento de cada um deles.

arquivo básico - se já sabe que setor vai cobrir, faça seu próprio banco de dados: cronologia, recordes, tabelas. Faça um bom índice que lhe permita achar rapidamente os dados na hora do fechamento.

use planilhas - Crie planilhas de Excel (ou outro equivalente) que lhe permitam comparar rapidamente novos fatos com os antigos. Se não dominar o Excel, peça ajuda para quem conhece o programa. Na sua empresa alguém deve conhecer, mesmo que seja no departamento financeiro.

use os favoritos - organize no seu computador os sites com informações sobre a área que cobre. Não é só colocar nos favoritos. É organizar, mesmo, para que seja fácil achá-los na hora da pressa.

arrume a agenda - prepare com antecedência a lista de fontes que podem ser úteis na cobertura. Ligue para elas, restabeleça contatos, atualize os números. Pergunte se elas topam ajudá-lo durante o evento e peça os celulares.

domine os equipamentos - a cobertura vai exigir uso de laptops, transmissão por celular ou alguma outra tecnologia? Faça testes até ter certeza de que está dominando os recursos. Matéria boa é matéria que sai no jornal. Não adianta muito fazer a melhor cobertura do mundo e não conseguir mandá-la a tempo.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 06h51

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Música para ler

Música para ler

A dica é do meu leitor Diogo: "quem quiser LER sobre música erudita precisa dar uma olhada em "Notas Musicais", de Arthur Nestróvski [nota da Ana - esgotado na editora]. Aproveito para sugerir o prefácio do livro, que fala sobre Jornalismo Cultural".

Veja outras sugestões de leitura sobre jornalismo cultural

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h00

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Não é só o Gaspari. Você também pode

Pode parecer um bicho de sete cabeças, mas o mais difícil em montar um banco de dados como o do Gaspari é começar.

Depois do primeiro passo, em pouco tempo ele começa a render contexto pras matérias, e em poucos meses começa a render pautas.

O congresso da Abraji terá uma mesa com Fernando Rodrigues e Marcelo Soares sobre como repórteres podem usar bancos de dados disponíveis. Quem for pode aproveitar para pedir dicas a eles de como montar o seu.

O curso de Excel avançado vai mostrar as vantagens e desvantagens do Excel em relação a um banco de dados. José Roberto de Toledo vai mostrar um exemplo de banco de dados que montou sobre os municípios brasileiros.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h19

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O ministro, o corrupto e o arquivo

veja correção no pé.

Uma nota na coluna do Gaspari de ontem dá um exemplo claro de como o arquivo joga a favor do repórter

Até imagino o colunista trabalhando: Mangabeira Unger virou ministro e ele foi imediatamente levantar nas suas fichas o que Unger já tinha dito sobre o governo Lula. Acha um artigo em que o novo ministro chama de "o mais corrupto da história" o governo em que agora vai trabalhar.

Bingo! É notícia.

--Mas não precisa de arquivo para isso. Basta fazer uma pesquisa no Google.

Parece simples, mas não é bem assim. Primeiro porque no seu próprio arquivo a pesquisa é certeira e rápida. Segundo porque, no caso do novo ministro, ele havia retirado de seu site o tal artigo em que pichava o governo.

O arquivo rendeu então uma notícia melhor ainda. Veja o resultado abaixo.

O CORRUPTO SUMIU
O professor Roberto Mangabeira tem dois códigos no seu DNA. Um é a impaciência. O outro é o respeito pela opinião alheia, exigido por 37 anos de magistério em Harvard.
Se ele se relacionar com o Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada, o Ipea, com o DNA de Harvard, a administração pública sai ganhando.
Se prevalecer o código da egolatria, vai haver confusão, da boa. No Ipea, é feio um acadêmico sumir com textos que pareceram oportunos quando foram publicados e, com o tempo, tornam-se inconvenientes.
No dia 15 de novembro de 2005, Mangabeira publicou na Folha seu conhecido artigo-manifesto intitulado "Pôr fim ao governo Lula". Pegava pesado: "Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. (...) Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente".
O professor mudou de opinião, mas não lhe fica bem o sumiço desse texto na coleção de quase 300 artigos que mantêm na internet.

CORREÇÃO: em agosto de 2007, em conversa com o Gaspari, descobri que havia sido traída por minha imaginação. Embora essa seja uma boa descrição de como o banco de dados pode ser usado no jornalismo, a nota em questão não foi fruto do arquivo do Gaspari. Ele não precisou recorrer ao arquivo para se lembrar de que Unger havia criticado o governo Lula. A nota surgiu, na verdade, de um "palpite": ele teve a intuição de que, se fosse olhar no site, o artigo teria sido retirado.


Veja outras formas de não depender das fontes

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h23

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Blog vai ao mundo do fumo

Até amanhã à noite, eu e a turma de treinamento estamos em Santa Cruz do Sul (RS) em visita ao mundo do tabaco.

Jornalisticamente, a viagem é legal por mostrar um mundo que a maioria de nós conhece pouco: o da produção. Dos sítios, das fábricas.

A maior parte dos jornalistas costuma conhecer bem o mundo das idéias, mas não o da "economia real".

A viagem que fizemos com a turma anterior rendeu várias reportagens interessantes, que iam do esporte a turismo, mas também falavam de problemas sociais e de economia. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h15

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Dois dias na selva

Ricardo lembra que um texto semelhante ao que ele fez na oficina de texto está publicado na Folha de hoje. O correspondente HUDSON CORRÊA relata o percurso que fez, com o fotógrafo JORGE ARAÚJO, até os restos do boeing da GOL.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h29

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O dia em que jornalistas estragaram obras de arte

O dia em que jornalistas estragaram obras de arte


Desenho que faz parte da obra "Ornithologie Brésilienne",
de Jean-Théodore Descourtilz

O repórter de Cotidiano RICARDO GALLO conta abaixo, em formato de crônica, como surgiu a matéria Exibidas pela polícia, obras raras rasgam durante entrevista.

Está em terceira pessoa porque foi um exercício na oficina de texto que alguns repórteres do jornal fazem. Mostra como algumas pautas podem surgir quando tudo parece estar perdido.

por RICARDO GALLO

"Vira o livro para mim, vai. Isso, isso..."
"Tá bom assim?"
"Tá ótimo... Beleza!"
"Ei, doutor, vou colocar o livro aqui na mesa, tá bom? Fica melhor pra filmar"
"Tudo bem..."
"Deixa eu dar uma olhada... de que ano é mesmo, doutor?"

Antônio [N. da Ana - o próprio Ricardo] observava, curioso, a voracidade de fotógrafos e cinegrafistas na acanhada sala da Delegacia Seccional Centro, em São Paulo, naquela manhã de outubro. Repórter de um jornal diário, ele preferia deter-se à movimentação dos profissionais de imagem a prestar atenção no que dizia, em entrevista coletiva, o representante da polícia aos jornalistas.

Não que o assunto não fosse importante. Na realidade, era: tratava-se do anúncio da  recuperação, pela polícia, de obras raras furtadas dez meses antes. Mas o jornal em que o repórter trabalhava já havia antecipado a notícia na edição do dia. Não existia, portanto, novidade nenhuma nas palavras ditas pelo policial. Pelo menos não para Antônio e para o jornal dele. "Humpf..."

Àquela altura, o melhor era encontrar algum outro assunto logo. Ou então ir embora para a Redação.  E chegar lá de mãos vazias. E com ar de fracassado. E ter de encarar o Guto, o pauteiro da editoria, invariavelmente insatisfeito se a reportagem "morre" -mesmo quando ela é natimorta. "Não mesmo", pensou.

Daí o interesse do repórter na briga dos câmeras e fotógrafos pela primazia de manusear e filmar os livros expostos sobre o velho sofá azul da sala da entrevista. Estava lá na reportagem antecipada pelo jornal dele: aquelas páginas amareladas eram um manuscrito 1791 de Dona Maria 1ª, a "rainha louca", e o livro "Ornithologie Brésilienne", de 1855. Coisa rara. Raríssima. Ali, na mão da imprensa, eram folheadas com avidez semelhante à de uma Playboy com a última eliminada do BBB na capa.

Ora ou outra, atolado em perguntas sobre o material (a preciosidade, os donos, a operação policial para encontrar as obras) e pedidos recorrentes de entrevista ("Doutor, o senhor pode repetir tudo para eu gravar pra TV?"), o policial, um delegado de 50 e poucos anos, dizia um "peraí, gente, cuidado aí". Mas, solícito, logo voltava a atenção aos jornalistas, cerca de 20 na salinha apertada.

Não fosse trágica, a cena seria bem cômica. Até repórter da Globo, jornalistas desses que a gente vê na tevê todo o dia, enfiava a mão indiscriminadamente em livros os quais experientes restauradores manuseiam apenas com luvas. O resultado, diante dos olhos de Antônio: parte dos papéis centenários se esfarelou no sofá. Pior: um investigador, nada sutil, recolheu os fragmentos das obras com a mão e os colocou sobre a mesa do delegado. "Aí, Doutor, tá tudo aqui."

Antônio pensou na sanha dos colegas. Associou-a à raridade do material exposto e ao despreparo da polícia para lidar com exemplares que exigiam cuidado especial. Tudo acontecendo ali, na sua frente. Bem, não era necessário ser expert em livros raros para concluir que aquilo era anormal. "Aí tem pauta", imaginou, sorrindo por dentro. Foi além: enquanto via o ataque às obras, pensou até no título da reportagem -- "Jornalistas destroem obras raras diante da polícia". Absurdo, absurdo!! (nota do autor: Antônio até colocou "absurdo" no texto final, mas o editor cortou). 

Pronto. Agora era contar ao Guto que havia história, e das boas. Antônio consultou, por precaução, um dos repórteres mais experientes do jornal, especialista em artes. "A história vale, sim." À namorada (agora ex), também com bom conhecimento no meio cultural, escreveu um torpedo de celular: "Você cairia dura se visse o que acabei de ver".

Finda a entrevista, voltou a pé da delegacia para o jornal, pela avenida Rio Branco, com o ventinho fresco do início da tarde a soprar-lhe rosto. Sorria sozinho pela rua enquanto lembrava o que vira na polícia. Chegou na redação entusiasmado, e falou convicto, com uma certeza dessas que poucas vezes se tem, que a reportagem era boa.

Mas... sempre tem um "mas".

"Tem foto do pessoal avançando nas obras raras, né?", falou o Guto, pergunta retórica, enquanto olhava para o computador.
"Aãããããã..." Antônio travou. Não havia feito o óbvio: orientado o fotógrafo que o acompanhara a registrar imagens dos colegas bárbaros.
"Você sabe, né? Sem foto a pauta enfraquece muito..."
"É?" O repórter não tinha o que falar. Emudeceu. "Burro, burro. Como sou burro", pensou.

Mas eis que, inesperadamente, fez-se a luz. O jornalista lembrou-se de Diego, amigo de longa data que encontrara na entrevista. Repórter-fotográfico do Agora, do mesmo grupo ao qual pertencia o jornal de Antônio, Diego poderia ter feito as fotos dos manuscritos, já que estava na salinha também. "Será????????" Ato contínuo, o repórter pega o telefone e liga para o amigo-salvador.

"Diego, você alguma foto que mostrava o pessoal avançando nas obras?"
"Fiz"
"Fez?????????????????????????????????
"Fiz."
"Sério????"
"Sim! Fiz."

Antônio vibrou como se tivesse feito um gol na prorrogação na final da Copa. Publicada em outubro de 2006, a reportagem já virou embrulho de peixe há meses, está mal-escrita, mas figura no rol das suas preferidas até hoje...

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h36

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Jornalismo gráfico

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Vão até 15/5 inscrições para o treinamento em jornalismo gráfico que a Folha fará no segundo semestre.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h14

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, por Cristina Moreno de Castro e pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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