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Música e literatura
O compositor, cantor e pianista José Miguel Wisnik e o violonista e articulista da Folha Arthur Nestrovski darão uma aula-show hoje formação do cancioneiro brasileiro e da relação entre literatura e música em obras de autores como Machado de Assis e Guimarães Rosa.
Será às 18h, no palco da biblioteca Alceu Amoroso Lima (av. Henrique Schaumann, 777, tel. 0/xx/11/3082-5023).
Entrada franca.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h27
Para editar mais rápido
Na tarde de quinta, trainees se queixavam de dor no pescoço, tensão, aflição. Tinham feito um exercício em que era preciso reduzir um texto várias vezes, até que ele tivesse pouco mais de 5 cm.
Dessa experiência ficam algumas dicas para ganhar tempo quando o tempo é curto:
1. Leia o texto do começo ao fim, para entender do que se trata.
2. Decida qual é a informação principal e garante que ela esteja no lide. (Importante: cada minuto que você usa pensando economiza cinco minutos que você gastaria fazendo)
3. Se o texto acusa alguém, certifique-se de que o outro lado esteja claramente resumido no começo do texto.
4. Isso feito, corte primeiro blocos de informação redundantes ou menos relevantes.
5. Aspas são quase sempre redundantes ou desnecessárias. Quando não são, podem ocupar metade do espaço em discurso indireto.
6. Deixe o texto com poucos centímetros a mais que o necessário e, só então, faça o pente fino.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h31
Moral da história
Um resumo da discussão de hoje:
Seis perguntas que o repórter deve fazer antes de pegar um documento sem que a fonte saiba:
1. A informação que ele traz é suficientemente relevante para justificar um crime? (sim, alguém pode acusá-lo de furto, o que é crime)
2. São informações públicas?
3. É fundamental ter o documento ou basta anotar em detalhes as informações que ele tem?
4. É possível copiá-lo sem levá-lo embora?
5. Não há outro meio de obter essa informação? (conseguir cópia com outra fonte, por exemplo, ou por meio de entrevistas?)
6. A fonte a quem ele pertence pode ter algum interesse não confesso em vê-lo divulgado?
Três coisas que nunca se deve fazer antes de pegar o papel:
1. Não aja sem respaldo de seu chefe.
2. Quando for impossível consultá-lo, só faça se a resposta for "sim" nas três primeiras perguntas acima e "não" nas três últimas.
3. Não arrombe portas, revire gavetas, abra documentos de computador ou invada locais privados.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h23
Contra a inexperiência
Cinco dicas de Marcelo Beraba para que está começando:
1. Cole nos repórteres experientes. Observe como eles trabalham.
2. Leia o jornal com muita atenção.
3. Guarde uma cópia do texto que você passou para o editor e, no dia seguinte, compare com o que foi publicado.
4. Compare sua reportagem com a dos concorrentes. Que informação eles têm e você não? Como eles conseguiram? Que providência você pode tomar?
5. Leia muito e não só livros de reportagem. Livros de Gabriel Garcia Máquez - como "Relatos de um náufrago", "Notícias de um sequestro" e "Crônica de uma morte anunciada" - ajudam tanto no aprendizado da apuração como do texto.
[Estes dois posts foram inspirados por uma conversa com minha chefe Ligia, uma das jornalistas mais diretas e precisas que eu já conheci.]
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h19
Os textos abaixo foram motivados pelo pedido do meu leitor Luiz de que comentasse o caso em que o presidente do Corinthians acusa um repórter de ter furtado um documento.
Pergunta o Luiz: se o repórter tivesse mesmo furtado, seria defensável? Há casos em que se justifica?
Jornalistas com experiência em áreas e veículos diversos respondem abaixo.
Mas peço atenção pra primeira resposta, que fala em "vazamentos estudados": às vezes o repórter acha que está sendo esperto quando pega o documento, mas na verdade está sendo usado pela fonte.
Mesmo que pareça que você conseguiu algo que a fonte queria esconder, desconfie. Cheque.
Em jornalismo, desconfie até da sua mãe.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h04
Pedi a repórteres experientes que respondessem se, no caso mais recente do Corinthians, valia a pena furtar o documento. E se, na opinião deles, há casos em que isso se justifica.
Por decisão minha, os consultados não vão ser identificados aqui.
A resposta abaixo é de um jornalista com décadas de experiência em reportagens e em chefia, em todas as áreas do jornal.
1 - Eu acho que é legítimo se apropriar de documentos cujas informações sejam de interesse público e que os interessados em camuflá-lo procuram de todas as maneiras esconder. Claro que há limites. Por exemplo: não se pode arrombar durante a madrugada o gabinete do cartola e furtar o contrato. Mas depois que inventaram xerox e e-mail, boa parte dos documentos supostamente sigilosos se tornaram de acesso bem maior. Mesmo de formas oficiosas. Caso uma fonte o entregasse a mim, eu o publicaria. Consultaria meus superiores e tentaria argumentar que se trata de uma boa notícia.
2 - Já, sim. Durante a CPI do PC Farias muita gente no Congresso (jornalistas, procuradores que assessoravam deputados e senadores e os próprios parlamentares) tiveram acesso a extratos bancários, contas de manutenção da Casa da Dinda, escrituras, origem do dinheiro que havia comprado o Escort da primeira-dama etc. etc. Em geral os jornalistas poderiam agilizar o processo de apuração, porque o procurador não precisava esperar dias e dias até que determinado juiz autorizasse a divulgação de determinado documento. O "vazamento" era então algo propositalmente estudado.
Nenhum deles se deu com objetivos escusos, como chantagear os envolvidos ou obter vantagens partidárias. Acredito, de certo modo, que os chamados "buracos" que existiam na representação do então procurador-geral, Aristides Junqueira, correspondiam a saltos de procedimento provocados por esses vazamentos.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h54
Pedi a repórteres experientes que respondessem se, no caso mais recente do Corinthians, valia a pena furtar o documento. E se, na opinião deles, há casos em que isso se justifica.
Por decisão minha, os consultados não vão ser identificados aqui.
A resposta abaixo é de um jornalista com anos de experiência na reportagem, que já foi editor, mas voltou à reportagem como função principal.
1) neste caso específico do Corinthians, em que a notícia é o salário do técnico e o valor da comissão do intermediário, se você fosse o repórter e tivesse a oportunidade de pegar o documento, pegaria??
Resposta: Se o papel estivesse em cima de uma mesa, bem na minha frente, com certeza pegaria. Acho que não há o menor problema.
Primeiro porque há interesse geral e jornalístico a respeito da contabilidade dos clubes de futebol --essas agremiações são notórias devedoras do governo (não pagam INSS e outras taxas). A segunda razão é que o repórter deve ter curiosidade para perscrutar tudo o que vê.
Seria, evidentemente, algo condenável se o jornalista tivesse de arrombar portas ou entrar sem permissão em algum local. Repórter não é policial.
O que não fica claro nesse episódio --possivelmente nunca ficará-- é em que circunstância se deu o acesso ao documento. Dessa forma, é difícil julgar. Algumas perguntas a serem respondidas são: 1) foi roubo; 2) foi furto (furto é diferente de roubo); 3) foi algum funcionário do Corinthians o responsável pelo vazamento deliberado? Não se sabe.
2) já houve um caso em que vc pegou um documento sem pedir? Pode contar qual foi, como foi e o que vc concluiu depois. Achou que estava correto ou se arrependeu?
Resposta: Sim, houve vários casos na minha vida de repórter. Nunca me arrependi. Em todas as ocasiões foram obras de observação e do acaso, sem romper a legalidade. Sempre fui beneficiado pela desídia do guardião do documento. Às vezes, o papel ou documento fica largado em algum canto. Ninguém diz para não pegar. Está tudo ali, na minha frente. Eu pego. Já passei por várias circunstâncias semelhantes.
Mas é preciso usar um jargão muito comum no meio futebolístico: cada caso é um caso. Todas as vezes em que me deparei com esse tipo de situação e fui adiante havia interesse público envolvido. Não creio que devesse, por exemplo, subtrair algum documento de um local (mesmo que estivesse na minha frente) se o assunto envolvido fosse estritamente de caráter privado.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h45
Pedi a repórteres experientes que respondessem se, no caso mais recente do Corinthians, valia a pena furtar o documento. E se, na opinião deles, há casos em que isso se justifica.
Por decisão minha, os consultados não vão ser identificados aqui.
A resposta abaixo é de um jornalista com experiência na cobertura de cidades, política e economia, inclusive como correspondente, hoje em cargo de chefia:
1 - Eu não conheço os detalhes desse caso específico, não posso aqui analisar o mérito dele. Tudo depende das condições.
Uma hipótese: se o repórter está numa sala esperando a fonte e se depara com um documento privado de valor jornalístico, acho aceitável que o repórter pegue o papel para si, ou copie seus dados. Literalmente, ele esbarrou na notícia. O que não seria aceitável: aproveitar a ausência da fonte e fuçar as gavetas, abrir arquivos de computador etc. Isso é crime.
Mas há muitos cenários possíveis. Numa CPI realmente investigativa, sempre há uma sala-cofre onde ficam concentrados os documentos. Por regra, há repórteres que ficam "urubuzando" no local, esperando algum técnico e/ou deputado vazar alguma informação. Digamos que algum desses técnicos esqueça (de propósito ou não) a porta aberta. Lá dentro repousa uma pilha de documentos sigilosos de inegável interesse público. Não conheço repórter que não vá entrar e dar uma olhada, tirar cópia _mas levar a pilha para casa é outra história, embora isso já tenha acontecido recentemente no jornalismo de Brasília.
Como se vê, a linha é bem tênue. Jornalista não é nem policial, nem promotor. Isso é algo que muitos repórteres da área autodenominada "investigativa" não conseguem entender. Se fosse necessário estabelecer uma regra geral, eu votaria pelo excesso de cautela. Subtração de documento, ainda que a bem do interesse público, é crime se você não tem um mandado judicial. E pauteiro não é juiz.
2 - Já aconteceu uma ou outra vez comigo, mas não era nada tão relevante que eu me lembre os detalhes.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h31
Pedi a repórteres experientes que respondessem se, no caso mais recente do Corinthians, valia a pena furtar o documento. E se, na opinião deles, há casos em que isso se justifica.
Por decisão minha, os consultados não vão ser identificados aqui.
A resposta abaixo é de um jornalista com muitos anos de experiência na cobertura de cidades e de política, hoje em cargo de chefia:
Sobre o Corinthians, não posso falar. Evito o noticiário sobre esse time (risos).
Quando era repórter de cidades, fazia uma vez uma cobertura da comissão que decidia legislação urbana. É uma área em que há muita corrupção.
As reuniões do conselho eram abertas, mas eles falavam numa linguagem ininteligível. Desci para a sala dos conselheiros para ver se entrevistava alguém, a sala estava vazia e o processo estava em cima da mesa.
Peguei. Mas me arrependi. Hoje não faria, porque furtar é crime.
Podia ter sentado, olhado o documento, até tirado uma cópia, mas levar, só se fosse algo de segurança nacional, se o Brasil estivesse construindo uma bomba atômica, algo assim.
E, nessa hipótese em que se justificasse furtar, acho que o texto teria que deixar isso claro. Sou a favor sempre da transparência absoluta.
Neste caso específico, o agravante é que o salário do técnico é um assunto particular, da vida privada dele.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h26
Pedi a repórteres experientes que respondessem se, no caso mais recente do Corinthians, valia a pena furtar o documento. E se, na opinião deles, há casos em que isso se justifica.
Por decisão minha, os consultados não vão ser identificados aqui.
A resposta abaixo é de um jornalista com muitos anos de experiência na cobertura esportiva:
1) Neste caso específico eu não pegaria o documento pq as duas informações poderiam ser publicadas sem a necessidade de mostrá-lo. Tanto que a própria Folha, no Painel FC, deu no mesmo dia a informação de que havia um intermediário com dinheiro a receber no caso do Carpegiani. Tínhamos conhecimento das cláusulas contratuais, isso bastou. Não se tratava de uma acusação grave, mas de um acordo comercial.
O que eu quero dizer é que considero a informação muito irrelevante para correr tal risco. O salário do treinador não é, convenhamos, uma info essencial e bombástica, a não ser que fosse biliardário _o Corinthians está afogado em dívidas. Assim como a grana do intermediário.
2) Ainda repórter, houve uma briga num jogo Santos x Corinthians em 2003 que foi parar na delegacia.
Alguns jogadores foram prestar depoimento, e a avalanche de repórteres saiu do estádio para o 34º DP, na Vila Sônia.
Pois bem: quando o goleiro Fábio Costa, último a depor, deixou a sala do depoimento, foi rodeado por todos os jornalistas.
Eu, que estava em dupla no local, decidi entrar na sala, já vazia. Pois lá estava o boletim de ocorrência (ou uma cópia dele), no chão, com todos os detalhes que só seriam divulgados no outro dia, no cartório do DP (o B.O. é um documento público, mas nem sempre está disponível na hora em que precisamos dele). Aliás, é um hábito antigo: eu costumo "visitar" os locais onde ficaram confinados personagens do noticiário (numa delegacia ou reunião ministerial, por exemplo, em busca exatamente de coisas "esquecidas", como anotações).
Peguei sem pestanejar e publicamos um texto que trazia mais detalhes dos xingamentos entre as partes.
Sem falso moralismo: peguei e pegaria quantas vezes fossem necessárias. Sempre tendo em mente se a relevância da info justifica meus atos.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h18
Um dos principais problemas dos jornais, eu acho, é falta de humor.
Se você também acha, divirta-se com o blog do repórter Octavio Guedes, do "Extra".
Se mesmo assim não tiver achado graça, veja este vídeo do YouTube que meu colega EDUARDO KNAPP mandou há alguns dias (de preferência, com som).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h39
Não tem a ver diretamente com jornalismo, mas acho que todo exercício de narrativa contribui muito para quem trabalha em jornal.
Estão abertas inscrições para workshop com Miguel Machalski, consultor, supervisor, editor e tradutor de roteiros. Colaborou com Ingmar Bergman (Sarabanda), Carlos Saura (Tango e Goya), Brian De Palma (Femme Fatale), Nagisa Oshima (Tabu), Clint Eastwood (Menina de Ouro) e David Cronenberg (Spider - Desafie Sua Mente).
O curso vai ser de 21 a 25 de maio.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h18
Meu leitor Luiz chama a atenção para este caso em que o Corinthians foi à polícia dizendo que o contrato do novo técnico havia sido roubado [na verdade, furtado]. O clube acusa o jornal Lance!, que nega. Diz que o documento foi entregue por uma fonte.
A discussão é boa. Quando é o caso de pegar um documento sem a autorização do dono? Vou perguntar a repórteres experientes e conto depois.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h09
Pra minha sorte, Beraba conta abaixo que uma das coisas que fazia para driblar a falta de experiência, quando começou, era ler os jornais direito.
-- Ai, mas dá uma preguiça...
Tudo bem, eu acredito, mas é como ginástica. Se você começar, dá cada vez menos preguiça.
E não precisa ler todos os textos. Só os importantes pra entender os rumos do país e do mundo, mais os que te interessarem por qualquer motivo.
Hoje, por exemplo, eu não perderia estes:
- O artigo Primavera em Tóquio, na página 3.
- A seção Erramos (nunca deixo de ler, pra evitar repetir erros já cometidos).
- O abre do Painel --toca num dos principais embates do país no próximo ano: desenvolvimento X segurança ambiental.
- O "saiba mais" sobre bingos, explicando direito o que diz a legislação
- A arte "Organograma do Hurricane" --comece sua leitura do noticiário por ela, principalmente se ainda não estiver por dentro do imbroglio.
- O noticiário sobre o escudo antimísseis que os EUA querem fazer na Europa.
- Eleições na França --um dos três principais países da Europa.
- O abre de ciência sobre o debate no Supremo a respeito de quando começa a vida --não só porque tem implicações práticas na pesquisa com células-tronco, mas porque coloca uma questão interessante sobre o fato de a discussão estar sendo feita no campo da biologia e não no da filosofia.
- A capa de Cotidiano sobre a lotação do metrô --e leia o texto todo, pois há um questão interessante no final, que envolve política de transportes.
- Matéria sobre corregedoria da polícia.
- O texto da Simone Iglesias sobre decisão judicial que permite a uma mulher visitar seu filho com a parceira de quem se separou.
- A arte do gol histórico do Massa {ops! que Massa, nada! é Messi. obrigada pelo aviso, gente}.
- Noticiário sobre a eleição de Paulo Skaf e artido de Luiz Carlos Mendonça de Barros, para entender o jogo de forças dos desenvolvimentistas.
- Noticiário sobre crescimento chinês e coluna de Vinicius Torres Freire, para entender os novos passos da economia global e como economia tem a ver com política.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h26
Aproveitando o congresso da Abraji, uma entrevista rápida com MARCELO BERABA, ex-ombudsman da Folha e presidente da associação:
Novo em Folha - Como e onde você começou a trabalhar como jornalista? quantos anos você tinha? Marcelo Beraba - Comecei a trabalhar no "Globo", no Rio, em fevereiro de 1971. Tinha 19 anos. NF - Quando você começou, o que fez para driblar a falta de experiência? Beraba - Observava os colegas mais experientes, lia o jornal com grande atenção, lia os outros jornais e revistas, comparava as reportagens que escrevia com o texto que saía no jornal depois de passar pelo editor, copy e revisor e comparava as minhas reportagens com as feitas pelos colegas de outros jornais em busca das minhas falhas e deficiências. NF - Das várias oficinas e palestras do congresso da Abraji, quais você recomenda especialmente para jornalistas que estão começando? Por quê? Beraba - O congresso vai oferecer várias mesas que tratarão dos fundamentos da reportagem, do jornalismo investigativo, do texto, do trabalho em equipe, da construção de bancos de dados, do uso dos recursos do computador e da internet. Não são módulos voltados apenas para os que estão começando, mas podem ajudá-los. NF - Para um jovem jornalista que quer fazer carreira como repórter, que livros você recomenda? Beraba - Sugiro que leia muito, e não só livros de reportagem. Acho que alguns livros de Gabriel Garcia Máquez - como "Relatos de um náufrago", "Notícias de um sequestro" e "Crônica de uma morte anunciada" - ajudam tanto no aprendizado da apuração como do texto.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h11

Nesta semana os trainees tiveram um curso de Excel, programa de planilhas que ajuda muito a trabalhar com dados, a descobrir a notícia nos números, fazer cálculos com eles et.
Um dos cursos do congresso da Abraji será justamente sobre como usar o programa na investigação jornalística.
Quem não tem o software pode usar planilhas gratuitas do Google. Clicando nesse link você escolhe se quer escrever um texto um montar/editar uma planilha.
É preciso ter uma conta no gmail, ou no orkut para poder se logar e usar.
José Roberto de Toledo, um dos intrutores da associação, avisa também que o programa agora permite criar gráficos.
As opções são ainda limitadas a barras, colunas, pizzas e gráficos de dispersão.
Diz Toledo: Você publica seu gráfico on-line e depois pode colocá-lo em qualquer página de internet -e ele permanece atualizado. Ou seja, você mexe nos números da planilha, publica e o gráfico se altera automaticamente.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h57
Os artigos mencionados por Clóvis Rossi em sua coluna de hoje podem ser lidos em PDF no site do Le Figaro. Começam na página 35 da edição de 19/4.
As edições da véspera estão sempre abertas. Para ler edições anteriores, basta se cadastrar. É de graça.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h50
Geopolítica
por FERNANDO BUENO
Para quem se interessa por geopolítica e pelo noticiário internacional: "Genocídio - A retórica norte-americana em questão", Samantha Power, Companhia das Letras.
Nota da Ana: entrevista com a autora, reproduzida no site do Ministério das Relações Exteriores
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h02
Crise de 29
A aula de hoje do curso de história foi sobre a revolução russa e a crise de 29.
Para quem se interessa por história econômica, o professor sugeriu "Viagem pelo Tempo Econômico", de John Kenneth Galbraight.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h40
por JOHANNA NUBLAT
Já ouvi muito se dizer que jornalismo é uma atividade de equipe. Tudo bem, o jornal é, necessariamente, uma combinação de texto, foto, arte - além de todo o trabalho desenvolvido fora da Redação. Oposto a isso, eu vejo (e posso estar muito errada) que o trabalho do repórter é extremamente solitário. Ele liga para as fontes, ele vai até o local, ele conversa com as pessoas, ele escreve (ok, orientado pelo editor). Se, por um lado, a solidão limita o trabalho do repórter -impedindo discussão, maior reflexão e, conseqüentemente, percepção maior do que acontece-, por outro, ela dá total controle sobre o que está sendo feito. O repórter segue a linha que ele mesmo traça no início do trabalho. E quando é necessário trabalhar em dupla? Isso pode ser complicado. Foi o que aconteceu na matéria que eu fiz na sexta-feira, com um colega trainee. Nada contra o trabalho dele, mas me senti totalmente perdida, nervosa com o andamento da matéria e influenciada pelo que ele fazia. Achei que meu trabalho rendeu pouco e fiquei bem insatisfeita.

Minha conclusão é que as tarefas deveriam ter sido bem determinadas no início do dia - o que não aconteceu. Manteríamos contato durante o dia, mas cada um correndo atrás de uma coisa só sua. Vou tentar isso da próxima vez.
Sobre a dúvida da Johanna, pedi dicas para EDUARDO SCOLESE, repórter da Sucursal de Brasília que faz com freqüência trabalhos em duplas, vários deles premiados. Veja abaixo a resposta.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h00
Em dupla pode render mais
Este post responde à pergunta feita acima pela Johanna

por EDUARDO SCOLESE
Olá Johanna, td bem?
vamos dividir em dois tipos as apurações em dupla: as impostas e as espontâneas.
Vamos começar pelas IMPOSTAS. Em primeiro lugar, não adianta tapar o sol com a peneira. Em muitos casos é difícil mesmo trabalhar em dupla, principalmente quando a pauta e o colega de dupla são impostos pela chefia. Nesses casos, é preciso logo de cara jogar limpo com o colega de pauta e, o quanto antes possível, definir o que cada um deve fazer. Isso evita a chamada "bateção de cabeça" e que, ao final do dia, ambos tenham apurações iguais e que nada acrescentem uma a outra.
Quando a chefia opta por uma dobradinha é porque avalia que possa haver uma soma de esforços para um produto final de qualidade. Exemplos: numa pauta sobre um novo programa de governo, um repórter entra com o bastidor político e outro com a questão técnica do assunto; numa pauta de manifestação de perueiros, um repórter vai às ruas fazer o clima e outro se dedica a obter declarações de autoridades diversas. No final, a dupla assina junto o material.
É óbvio que, nas redações, há jornalistas com enorme dificuldade para trabalhar em dupla. Aqueles que, mesmo pautados para uma dobradinha, tentam abocanhar toda a apuração, compram briga para ter seu nome no topo das assinaturas e dão retorno de cinco em cinco minutos à chefia para dar a impressão que está à frente de seu colega na apuração.
Isso é normal. Mas é preciso saber lidar com isso. Como? Ao ser pautado para a dobradinha, saiba que, a partir dali a responsabilidade da história está com os dois repórteres. A chefia está interessada no produto final, e não interessa a ela ser informada sobre eventuais intrigas e "bateções de cabeça" entre seus profissionais. Por isso, logo de cara, chame o colega para definir as estratégias de apuração. Procure deixar MUITO BEM CLARO o que cada um irá fazer e QUANDO voltarão a conversar. É importante definir etapas e prazos, para que a pauta não morra por conta de problemas em apenas um lado da apuração.
Lembre-se que o "outro lado" do colega pode derrubar toda a matéria. E é melhor derrubá-la mesmo. O desgaste de um "Erramos" pode demorar muito tempo para cicatrizar.
Nas redações há repórteres de todos os tipos. Gente fominha, estressada, pilhada, desanimada, empolgada. Por isso, não dê oportunidade para intrigas. Quando avançar em sua apuração, dê retorno primeiro ao colega de dupla, depois aos editores. Não se precipite, querendo mostrar serviço à chefia e deixar seu colega em segundo plano. Isso pode provocar um desgaste desnecessário na dupla. Outra dica: em caso de reportagens especiais, com mais tempo de apuração, mande relatórios aos editores sempre com cópia ao seu parceiro de pauta.
Muitas das dicas acima são descartáveis quando você é pautado para trabalhar com alguém já entrosado com você. Nesses casos, a pauta flui tranquilamente e quem ganha é o jornal e os leitores. Nos demais casos, não faça disso um pesadelo. Ao trabalhar em dupla, você acaba desenvolvendo habilidades importantes a um jornalista, como organização (definição de diretrizes e prazos) e liderança (ser profissional e esquecer as vaidades).
Em seu e-mail, você se disse "perdida" e "nervosa" com o andamento da reportagem. Às vezes, numa apuração em dupla, é preciso admitir ao colega e à chefia que, no seu lado da apuração, não houve avanços e que "rendeu pouco". E que, neste caso, o colega está livre para assinar sozinho o material ou, se assim preferir, a chefia derrubar toda a história. Numa apuração, sozinha ou em dupla, não se preocupe em comprovar teses. Comunique os fatos.
Vamos às duplas ESPONTÂNEAS. Eu gosto muito desse tipo de trabalho. Ganhei um Prêmio Folha de Jornalismo com uma série de reportagens em dupla com o colega Rubens Valente. Recentemente escrevi um livro ("Viagens com o Presidente") numa parceria com o colega Leonencio Nossa, do Estadão.
Em Brasília, se não gostasse de trabalhar em dupla, eu seria obrigado a fazê-lo de qualquer forma. Isso porque, como setorista do Palácio do Planalto, trabalho 12 horas por dia ao lado do colega Pedro Dias Leite. Fazemos quase tudo em dupla. Desde de discursos do presidente a apurações de reportagens especiais. Qual é a receita? Dividir opiniões em tudo, cumprir o horário de trabalho para não sobrecarregar o outro, discutir o que deve ser vendido antes de dar retorno à chefia e dividir as pautas "roubadas" (como portarias no Alvorada e entrevistas com figuras diversas que aparecem no Planalto).
Muitas vezes tenho ciência que uma apuração minha dificilmente se tornará uma boa matéria sem a ajuda de colegas.
Exemplos: em 2004, assim que cheguei à Sucursal de Brasília, uma fonte me passou uma dica sobre problemas nas estradas federais. Procurei o setorista de transportes, o repórter Humberto Medina, e propus uma dobradinha (nem conhecia ele direito). Com a experiência e os contatos dele, emplacamos a manchete do jornal (Chuvas esburacam 32.000 km de estradas, 09 de fevereiro de 2004).
No ano passado, outro exemplo. Num final de tarde, numa conversa com o ministro do Desenvolvimento Agrário, ele me deixou escapar a informação de que o governo estudava dar o Bolsa Família aos acampados da reforma agrária. Liguei imediatamente para a setorista social da Folha, Luciana Constantino, para que tocasse comigo a matéria. Cravei a idéia do governo no lide, e ela explicou tudo sobre o Bolsa Família no restante da matéria. Resultado: manchete do jornal no dia seguinte (Governo planeja conceder Bolsa-Família a acampados, em 30 de maio de 2006).
Esses são exemplos de que, em dupla, a pauta pode render muito mais. No primeiro caso, avalio que sem o Humberto Medina eu não conseguiria fechar o material. No segundo, sem a Luciana Constantino, não teria como, num final de tarde, dar qualidade e contextualização a uma matéria que virou manchete do jornal.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h00
Alguns leitores me lembraram de sugerir o site do Newseum, que tem primeiras páginas de jornais de vários países.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h57
"A história, nestas situações, poucas vezes nasce de uma pergunta do repórter, mas de um comentário do entrevistado que deve ser pescado pelo repórter."
"No caso do João Hélio, foi o primeiro gol que ele havia marcado dois dias antes do crime bárbaro. E o pai fora ver, pela primeira vez, ele jogar futebol."
"São detalhes que caberiam em duas frases: "João Hélio marcou, há dois dias, o primeiro gol de sua vida". Mas todo pai sabe que é muito mais do que isso."
ITALO NOGUEIRA, repórter da Sucursal do Rio, fez parceria com Talita Figueiredo na cobertura dos tiroteios no Rio, na terça. Não estava na linha de tiro, como Ana Carolina, mas no hospital para onde eram levados mortos e feridos. Abaixo ele fala dessa cobertura. E também da que considerou uma das mais difíceis em sua vida, a do menino João Hélio.
Novo em Folha - Como você foi chamado para fazer a cobertura? Onde estava, que horas eram e o que já sabia sobre o que estava acontecendo? O que o pauteiro lhes disse e o que pediu?
Italo Nogueira - Eu estava em casa e fui enviado logo para o Souza Aguiar. Já sabia o que estava acontecendo porque acompanhei pela TV e vi algo na internet. Nada detalhado, mas o suficiente para enteder o caso. A idéia era ir ao hospital e ouvir os familiares tanto das vítimas de supostas balas perdidas com dos supostos traficantes, se fosse possível.
NF - Na hora em que foi pautado, você hesitou? Ou nem teve dúvida em ir para a cobertura?
Nogueira - Não tive dúvida por dois motivos: aos poucos aqui no Rio você se acostuma a esse tipo de cobertura, infelizmente. E jornalismo é jornalismo, principalmente na sucursal, onde, mesmo com uma certa divisão de editorias, é bom estar preparado para tudo.
NF - O que você viu quando chegou ao local? Era pior ou melhor do que o que esperava?
Nogueira - Quando cheguei, a única familiar que falou o dia todo estava com a imprensa toda. Depois, mais um blindado do Bope chegou com mais três corpos. Todos carregados pelos braços ou em cobertores. "Pouco" sangue em comparação ao último, com sete corpos, mas que não vi, pois ainda não tinha chegado. Não imaginava essa situação, mas também não foi surpresa.
NF - Usou algum tipo de proteção (colete, capacete, essas coisas)? [quando mandei essa pergunta para ele, ainda não sabia que ele tinha feito a cobertura no hospital e não no tiroteio]
Nogueira - No meu caso, a princípio, não era necessário. Mas vale mencionar que o cheiro nos hospitais públicos do Rio, em uma situação como essa (muitos corpos), só perde para o IML.
NF - Viveu alguma situação de risco real na terça?
Nogueira - Não.
NF - Com que freqüência você faz coberturas de risco?
Nogueira - Uma vez por semana, em média? Acho que isso.
NF - Vocês têm instruções específicas sobre como agir em situações de risco? Quais?
Nogueira - No caso dos hospitais, em que temos que entrevistar os familiares, a "recomendação" é entender a situação dessas pessoas: tanto de constante ameaça do tráfico como de parentes de baleados. O mesmo serve para familiares de supostos bandidos.
NF - Teve algum tipo de formação especial (cursos? leituras?) para enfrentar essas situações? Quais?
Nogueira - Não.
NF - Do ponto de vista da informação, de conseguir informação, o que complica sua vida? Tem algum exemplo pra contar?
Nogueira - Informação oficial, por exemplo, foi a contagem de corpos. Oficial foram 13, embora diversos policiais dissessem que havia ainda "uns 8" em cima do morro em locais de difícil acesso. Boatos sempre surgem, como "corpos estão entrando por outro lado do hospital", ou coisa do tipo.
NF - Do ponto de vista pessoal, qual a principal dificuldade? Tem algum exemplo pra contar?
Nogueira - A principal dificuldade neste tipo de cobertura é tentar contar a vida das vítimas, principalmente quando são moradores de favelas. A dificuldade inicial óbvia é a dor que a pessoa está sentindo na hora. A última prioridade dela é dar atenção à imprensa. São pessoas que viam a violência pela TV e, no dia seguinte, são os personagens do dia. O melhor é sempre conversar com parentes mais "distantes" (primos, amigo da família) para saber um pouco da situação da família, quem era a vítima etc.
A "pior" cobertura para mim foi o enterro do João Hélio, onde a maior dificuldade inicial, por incrível que pareça, era saber quem de fato conhecia a família, tendo em vista o número imenso de curiosos. Depois tentar tirar algum detalhe da vida dessas pessoas que, como disse, ontem viam tudo o que vivem naquele momento pela TV. A melhor forma é conversar aos poucos, sem tentar tirar um lide logo na primeira frase.
Até porque a história, nestas situações, poucas vezes nasce de uma pergunta do repórter, mas de um comentário do entrevistado que deve ser pescado pelo repórter que, depois, tenta mais detalhes. No caso do João Hélio, a história da Folha foi o primeiro gol que ele havia marcado dois dias antes do crime bárbaro. E o pai fora ver, pela primeira vez, ele jogar futebol. São detalhes que caberiam em duas frases como "João Hélio marcou, há dois dias, o primeiro gol de sua vida". Mas todo pai sabe que é muito mais do que isso.
No caso de vítimas moradores de comunidades, o que complica ainda mais é tanto o medo de ameaça do tráfico como desconfiança da imprensa. Ainda não desenvolvi um "método" para conseguir informação neste tipo de situação, embora a educação na abordagem seja sempre o primeiro passo essencial.
NF - Como é o contato com a Redação durante a crise? Fica permanentemente em contato ou não?
Nogueira - A idéia é sempre "vender" matéria para a Redação, assim que consegue uma boa história. Ainda mais em sucursal, onde é necessário um passo a mais. Nem sempre é possível, pois: 1) temos sempre que ficar atentos ao que está acontecendo 2) se temos uma história exclusiva, é bom ficar de olho para ver se coleguinhas não pescam o que você está falando.
NF - Como fazem se a situação se prolonga? Deixam o local e voltam para escrever? Ou ditam o texto por telefone?
Nogueira - Depende das "perspectivas". A intuição/experiência (no meu caso ainda pouca) muitas vezes conta nessa hora. O texto por telefone sempre perde um pouco do clima local e, pessoalmente, nunca é o ideal. Mas, se é necessário para o jornal fechar e continuar acompanhando os acontecimentos, não há o que fazer.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h56
Na linha de fogo
Fotos Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem - 17.abr.2007
 Policiais militares armados procuram, dentro da capela 4 do velório, suspeitos que se esconderam no cemitério do Catumbi, no Rio; por causa da confusão, o corpo de Sebastiana Araujo Siva, 94, teve que ser abandonado por seus parentes
ANA CAROLINA FERNANDES, repórter-fotográfica da Sucursal do Rio da Folha, passou o dia de ontem cobrindo os tiroteios do Rio.
Não foi um dia incomum: a profissão exige que, com freqüência, ela esteja na linha de fogo.
Abaixo, ela responde a algumas perguntas minhas sobre como trabalha um repórter em situações arriscadas e como ela se sente nessas coberturas.
Mãe desesperada em meio ao tiroteio
Ouvi a notícia na rádio JB, dentro de um táxi, às 8h30. Liguei imediatamente para o Sergio Costa [pauteiro da sucursal] que disse: "Estava justamente pensando em vc...".
Tudo o que eu sabia é que estava havendo um intenso tiroteio no morro da Mineira e que o túnel Santa Barbara estava fechado. O pauteiro mandou o motorista me buscar com o equipamento e eu não hesitei em nenhum momento.
Não tive a menor dúvida em ir, muito pelo contrário, pensei: "Que bom , estamos chegando cedo". Mas isso não era bem verdade, já que o tiroteio pior (aquele que todo mundo viu na televisão) já tinha acontecido quando eu cheguei, às 9h40.
Quando eu cheguei no local a situação era tensa, mas relativamente calma. Pior ou melhor? Não vou ser hipócrita, para mim quanto pior melhor.
Sim, eu estava de colete à prova de balas e não vivi nenhuma situação de risco real, apesar de que nessas situações o risco nem sempre é visível (balas perdidas , por exemplo), há que se estar sempre muito atento e concentrado.
Eu faço esse tipo de cobertura com bastante freqüência.
Temos as normas de segurança da Folha: não entrar em favelas se não tiver polícia ou no meio de tiroteio, usar colete etc. Fiz também um curso dado por uma capitão do Exército britânico ano passado aqui no Rio. Era um curso promovido pela Sociedade Internacional de Jornalismo.
Sinceramente o que mais complica a minha vida é que rarissimamente eu sou pautada cedo. Geralmente sou a última a chegar, quando sou pautada. As agências internacionais (que, por incrível que pareça, têm todas dois fotógrafos no Rio, enquanto a Folha só tem uma) sempre chegam antes de mim.
Para conseguir informações no local é bastante complicado. Por razões óbvias, os moradores não falam e a polícia tampouco. Depois da morte do Tim Lopes, somos vistos como inimigos pela comunidade e como estando do lado da comunidade pela polícia.
Do ponto de vista pessoal, não tenho nenhuma dificuldade, tenho coragem, um ótimo preparo físico, confio em Deus, aguento horas no sol, sem comer e, sinceramente, gosto muito da adrenalina dessas coberturas, mas, estou sempre procurando poesia e arte dentro de tanta violência.
Talvez essa seja a maior dificuldade pessoal, ver a vida como ela é realmente e ver o pior do Brasil in loco.
A corrupção da polícia, a cidade tomada pelo tráfico, um arsenal de guerra e pouca perspectiva de que isso possa mudar. E é muito triste ver tanta gente inocente, honesta e trabalhadora vivendo no meio da guerra, como a mãe da menina Alana. E a energia desses lugares muito violentos, com sangue, armas e drogas é muito pesada.
Durante as pautas, estou sempre em contato com a Redação.
Quando tem gente ferida ou morta é complicado, tem que saber a hora de não fotografar também. Eu procuro antes de mais nada respeitar as pessoas e suas dores, não importando se são bandidos, policiais ou pessoas da comunidade.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h28
Saiu ontem o resultado do Pulitzer, um dos mais prestigiosos prêmios de jornalismo do mundo.
O site do prêmio tem links para os trabalhos vencedores e os motivos pelos quais eles foram escolhidos.
"O Globo" publica hoje uma entrevista com Lawrence Wright, premiado por seu livro sobre o 11 de Setembro. A entrevista (acessível para quem se cadastrar no site) aborda o ataque terrorista, a al-Qaeda e os EUA, mas destaco aqui o que tem a ver com treinamento, que foi o que mais me interessou no caso:
- Wright conhece bem a cultura árabe. Estudou na American University, no Cairo (Egito).
- O livro levou cinco anos para ser feito e começou com uma extensa pesquisa sobre Bin Laden e Al-Zawahiri.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h09
Você quer mesmo ganhar a vida fazendo isto?
Os trechos abaixo são do segundo capítulo de um livro de ficção chamado "Cantiga de Ninar", de Chuck Palahniuk, o mesmo autor de "Clube da Luta". Quem me mostrou pela primeira vez foi NILSON CAMARGO, diretor de Redação do jornal "Agora". É ficção, mas incrivelmente real. Tirem cinco minutos do seu dia para ler. Vale a pena. O livro foi publicado no Brasil pela Rocco.
Eles só fazem uma pergunta a você. Pouco antes da sua formatura na faculdade de jornalismo, eles mandam você imaginar que é um repórter.
Imagine que você trabalha num jornal diário de uma cidade grande e que, em certa véspera de Natal, o editor manda você investigar uma morte. Os policiais e enfermeiros estão lá. Os vizinhos, de robe e chinelos, entopem o corredor do prédio vagabundo. Dentro do apartamento, um jovem casal soluça ao lado da árvore de Natal. O bebê deles morreu sufocado por um enfeite. Você pega o que precisa: o nome do bebê, a idade e o resto todo. Volta para o jornal por volta da meia-noite e escreve a matéria a tempo de cumprir o prazo final. Mostra a reportagem ao editor e ele a rejeita porque você não disse qual era a cor do enfeite. Era vermelho ou verde? Você não viu e não pensou em perguntar. Com a gráfica urrando pela primeira página, as suas opções são: ( ) Ligar para os pais do bebê e perguntar qual era a cor do enfeite. ( ) Recursar-se a ligar e perder o emprego.
Isso era o Quarto Poder. Jornalismo. E na minha faculdade, essa era a única pergunta da prova final do curso de Ética. Só havia essas duas opções. Minha resposta foi ligar para os enfermeiros. Itens como esse sempre são catalogados. Provavelmente o enfeite fora guardado, fotografado e arquivado como evidência. De jeito algum eu iria ligar para os p ais depois de meia-noite na véspera de Natal.
A faculdade deu conceito D para minha ética.
Em vez de ética, aprendi a só dizer às pessoas o que elas querem ouvir. Aprendi a anotar tudo. E aprendi que os editores podem ser uns babacas totais.
Desde então, continuo me perguntando qual era o objetivo daquela prova. Hoje sou repórter de um jornal diário numa cidade grande e não preciso imaginar coisa alguma.
Minha primeira matéria com um bebê de verdade aconteceu numa manhã de segunda-feira em setembro. Não havia enfeites de Natal. Não havia uma multidão de vizinhos em torno da casa-trêiler no subúrbio. Um dos enfermeiros estava sentado com os pais na quitinete, fazendo as perguntas costumeiras. O outro me levou até o quarto do bebê e me mostrou o que eles geralmente encontram no berço.
As perguntas costumeiras que os enfermeiros fazem incluem: Quem encontrou a criança morta? Quando a criança foi encontrada? O corpo da criança foi deslocado de lugar? Quando a criança foi vista com vida pela última vez? A criança era amamentada no peito ou com mamadeira?
Parecem perguntas aleatórias, mas tudo que os médicos podem fazer é reunir estatísticas, na esperança de que um dia algum padrão emerja disso tudo.
O quarto era amarelo, com cortinas azuis floridas nas janelas e uma cômoda de vime ao lado do berço. Havia uma cadeira de balanço pintada de branco. Acima do berço ficava um móbile de borboletas amarelas de plástico. Sobre a cômoda de vime via-se um livro aberto na página 27. No chão, havia um tapete trançado azul, e numa das paredes uma tapeçaria emoldurada que dizia: A criança de quinta-feira vai longe. O aposento recendia a talco.
E talvez eu não tenha aprendido ética, mas aprendi a prestar atenção. Todo e qualquer detalhe deve ser notado, por menor que seja. O livro aberto chamava-se "Poemas e rimas ao redor do mundo" e pertencia à biblioteca municipal.
O plano do meu editor era fazer uma série de cinco reportagens sobre a síndrome de morte súbita infantil. Todo ano, sete mil bebês morrem sem causa aparente. Dois em cada mil bebês simplesmente adormecem e nunca mais acordam.
(...)
Tudo que sabemos sobre a morte súbita infantil é que se trata de algo sem padrão. A maioria dos bebês morre sozinha entre a meia-noite e o amanhecer, mas alguns também morrem dormindo ao lado dos pais. Outros morrem no banco do automóvel ou dentro do carrinho. Alguns morrem até nos braços das mães.
“Há tanta gente com crianças à sua volta”, disse meu editor. Esse é o tipo de matéria que todo pai, mãe, avô ou avó tem medo de ler e medo de não ler. Na realidade, não há informações novas, mas a idéia era traçar o perfil de cinco famílias que houvessem perdido uma criança. Mostrar como as pessoas lidam com isso. Como elas tocam a vida para a frente. Aqui e ali, poderíamos salpicar os fatos mais comuns sobre o fenômeno da morte no berço. Poderíamos mostrar a profunda reserva interna de força e compaixão que cada pessoa dessas descobre. Esse ângulo. Como esse tipo de reportagem não está ligado a qualquer evento específico, é o que chamamos de matéria de fundo. A série seria publicada com destaque na seção de estilos de vida.
À guisa de ilustração, poderíamos mostrar fotos sorridentes de bebês saudáveis que houvessem morrido.
Mostraríamos que a coisa pode acontecer a qualquer um.
A jogada dele era essa, o tipo de reportagem investigativa que se faz em busca de prêmios. Já estávamos no final do verão e as notícias andavam escassas. Era o período anual em que havia mais recém-nascidos e grávidas prestes a parir.
Meu editor teve a idéia de me enviar junto com os enfermeiros.
A história do Natal, o casal soluçante, o enfeite: àquela altura eu já estava trabalhando havia tanto tempo que esquecera o bagulho todo.
Aquela pergunta hipotética sobre ética: eles precisam perguntar aquilo ao final do curso de jornalismo porque então já é tarde demais. Você tem grandes empréstimos estudantis para pagar. Hoje, anos e anos mais tarde, acho que o que eles estão perguntando, na verdade, é: Você quer mesmo ganhar a vida fazendo isto?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h28
Escreve minha leitora Fabiana, de Recife, sobre o programa de leitura:
Ana, é engraçado notar que quanto mais você lê mais sente a "necessidade" de ler mais, saber mais, pesquisar mais... Desde a adolescência sempre gostei muito de ler jornal e talvez por conta disso tenha escolhido jornalismo (profissão na qual atuo hoje em dia, mais especificamente como repórter de TV). Mesmo assim, decidi seguir o seu programa de leitura e notei como lia pouco (na verdade, apenas os jornais locais). Hoje, leio diariamente um jornal local, sempre dou uma olhada em um jornal nacional e já passei a assinar uma revista semanal! Abraços e obrigada pelas dicas valiosas!!!
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h25
Investigação jornalística
Estão abertas as inscrições para o 2º Congresso Internacional da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).
São cursos e palestras em várias áreas de investigação jornalística, de ambiente a crime organizado, de eleições a empresas privadas.
Quem gosta de jornalismo ou vive disso não deveria perder.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h05
Se você seguiu o programa de leitura, faz um mês que está lendo as principais reportagens do jornal.
Notou como leva menos tempo para ler agora?
Sente-se mais bem informado? Sua vida na faculdade ou no trabalho melhorou?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h51
O editor de Esporte da Folha, José Henrique Mariante, fala nesta quarta de manhã sobre jornalismo esportivo, na Cátedra de Jornalismo Octavio Frias de Oliveira.
A aula será das 10h às 11h30, no auditório Ulysses Guimarães do campus Liberdade (rua Taguá, 150, Liberdade).
As palestras da cátedra são abertas e gratuitas. Interessados devem enviar um e-mail para jornalismo@fiamfaam.br, com nome, telefone e nome da faculdade, empresa ou instituição a que pertencem.
O programa deste ano abordará também reportagem em política, economia, ciência e cultura.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h08
por VERENA FORNETTI
Já tinha sugerido duas pautas no estilo: "Vamos entrevistar um monte de gente e...". Sexta-feira aconteceu de apurar uma pauta assim. Percebi que, nesses casos, para quem não cobre a área e não conhece tudo do assunto, falta foco, leva tempo e é muito difícil fechar a matéria em um dia.
No começo da manhã, eu e a Veri começamos as entrevistas. Ouvimos muita gente e conseguimos um ótimo material, mas por um momento não víamos como juntar tudo aquilo. Às cinco da tarde, dissemos uma para a outra, chateadíssimas: "A pauta caiu, não sai matéria daqui". Paramos a apuração e fomos tomar um café.
Quando voltamos, com a cabeça mais fria, conseguimos fechar um foco e tocar o texto -- que só ficou pronto às 11 da noite.
Para mim, ficou a lição de não começar uma pauta sem ter apurado antes os dados, definido um plano de trabalho e uma hipótese para a matéria. Do contrário, ainda é pré-pauta. Como nos disse o repórter Evandro Spinelli: "Só venda a pauta depois que você tiver a matéria".
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h56
O Ministério da Saúde lançou uma cartilha para jornalistas sobre o SUS: informações básicas, perguntas e respostas, glossário e organograma do sistema.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h15

A repórter DANIELA TÓFOLI lança no sábado, 21/4, livro escrito em parceria com Júlio Maria sobre a vida de frei Galvão.
Será das 17h às 19h, no mosteiro da Luz (av. Tiradentes, 676).
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h25
Leo Drummond

O fotógrafo LEO DRUMMOND começou ontem seu projeto de percorrer estradas de Minas.
Saiu de BH com destino a São Paulo, mas teve de voltar. O pai do Nem, seu motorista, havia sido atropelado.
Como em jornalismo a sorte aparece para quem fica de olho aberto, na volta ele topou com dois personagens incríveis: "o Ailton, caminhoneiro que perdeu seu filho de forma trágica, em um acidente próximo à cidade onde estávamos, e o Francisco, um andarilho que percorre o país há mais de 10 anos".
E ainda fotografou a tempestade da foto acima, em Betim.
Leo, repórter-fotográfico muito talentoso, vai contar sua viagem no blog que tem o nome do projeto: Beira de Estrada. Se você gosta de jornalismo e fotografia, acompanhe.
LEO DRUMMOND foi trainee da Folha no único programa que incluiu fotografia [na foto abaixo, ele fotografa Tarso Genro, na época ministro da Educação, para um caderno especial sobre escola pública feito pela 39ª turma].

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h09
Reféns do outro lado
Lalo de Almeida/Folha Imagem - 21.jan.2004
 Labirinto de espelhos construído para a exposição de Pablo Picasso, na Oca do parque Ibirapuera, SP
Muito repórter já viveu este roteiro:
- Jornalista tem uma boa história na mão, mas ela é desfavorável a um órgão público (empresa, pessoa física etc.).
- Jornalista liga para a assessoria (advogado, o próprio acusado etc.) pedindo uma resposta oficial.
- Assessoria pede que você mande por e-mail.
- Jornalista manda por e-mail, mas não obtém resposta.
- Jornalista telefona de novo.
- Assessor diz que está tentando conseguir a resposta e vai ligar depois.
- Jornalista espera, nada de resposta, liga de novo.
- As cenas 6 e 7 repetem-se indefinidamente até a hora do fechamento.
Foi o que aconteceu com a Clara e o Gustavo no exercício que fizeram na sexta.
E aí? O que fazer?
Há algumas maneiras de não depender da boa vontade da assessoria:
- cultive boas fontes nos órgãos que você cobre. Faça reportagens bem apuradas, isentas, sem erros, mostre para elas que você é de confiança. Quando precisar de um dado, talvez ela o passe diretamente a você (com a condição de anonimato que, claro, deve ser respeitada). - crie e mantenha seu próprio banco de dados. Vai cobrir transportes e espera que o departamento de trânsito te entregue estatísticas de todos os acidentes provocados por caminhão na sua cidade, com causas e conseqüências? Esquece. Na maior parte das vezes, o órgão não tem esses dados organizados. Quando tem, muitas vezes não tem interesse em passar. - vá, veja e vença. Moradores de um bairro avisam que todas as ruas estão sem luz. Uma coisa é ligar para a assessoria e dizer "recebemos a informação de que... É verdade?". Outra é ir ao bairro e checar. A história muda de figura: "Constatamos que todas as ruas do bairro estão sem luz. Qual a posição da companhia?".
Quando esperar pela resposta:
- se você não checou os dados pessoalmente e, portanto, não pode garantir que eles sejam verdadeiros, precisa ouvir o órgão responsável. Seus dados podem estar errados. - se a matéria é exclusiva e não há risco de ser furada, você pode esperar mais pela resposta. - nos dois casos acima, acerte um prazo para a resposta: "Vamos esperar até amanhã às 18h. Se não houver resposta, vamos publicar e avisar ao leitor que o órgão não quis se manifestar". - acerte prazos factíveis. Se você precisa de um levantamento detalhado e trabalhoso, não é justo exigi-lo para dali a poucas horas.
Não perca tempo discutindo: - sim, há informações que são públicas, e é irritante quando um assessor nos impede de obtê-las. Mas discutir, ameaçar ou implorar não resolve. Se você não tem fontes lá dentro nem pode obter os dados por conta própria, a alternativa é pedir os dados na Justiça (seu jornal pode avaliar quando é o caso de fazer isso).
O que fazer se o outro lado não responde:
- se o caso é urgente e já veio a público ou se, por qualquer justificativa jornalística, seu veículo decide publicar sem esperar pelo outro lado, deixe bem claro no texto quantas vezes você tentou obtê-lo e qual a resposta: "a reportagem ligou oito vezes para a assessoria, entre 10h e 18h. Os responsáveis disseram não ter nada a declarar."
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h30
por CLARA FAGUNDES
“Sem outro lado, não há história.” Pensei que esta máxima jornalística, entoada como mantra religioso no treinamento, já estava bem guardada na minha mente.
Mas e quando o outro lado não fala? Não responde e-mails, telefonemas que prometera retornar, e você já começa a desconfiar que seu telefone esteja gravado no identificador de chamadas para denunciar suas tentativas de persona non-grata?
Ainda assim, não há história. Aprendi isso ontem, numa silenciosa batalha com órgãos públicos. Sem um grande furo, um documento auto-explicativo, não dá para deixar de ouvir outras versões. As peças que faltam num quebra-cabeça nem sempre podem ser substituídas pelo "procurado pela reportagem, não quis se pronunciar”.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h55
No calor dos tiros
Eric Brady/"The Roanoke Times"/Associated Press
 Repórter e câmera da TV japonesa Asahi fazem a cobertura do tiroteio no campus da Virginia Tech
Casos quentes e trágicos como o do tiroteio em Virgínia ontem podem precipitar erros jornalísticos.
Bob Steele, professor do Poynter, dá algumas dicas para evitá-los:
Testemunhas - verifique a identidade de quem diz ter presenciado o evento. Indague-se sobre a veracidade do relato. Se possível, contraponha a outros depoimentos.
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