Novo em Folha - O blog do programa de treinamento da Folha
 

Quando a fonte ferroa

Associated Press

Tudo começou quando LUÍS FERRARI, repórter de Esporte, ficou indignado com respostas grossas do técnico Leão e me pediu que escrevesse sobre o que fazer quando a fonte é estúpida.

É o caso de responder? Defender um colega atacado? Virar as costas e ir embora?

De lá pra cá, o treinador até já deixou o Corinthians, mas repórteres ainda têm ótimos casos para contar sobre fontes que rugem, estrilam e, no caso abaixo, "ferroam".

MARIO CESAR CARVALHO, repórter especial da Folha que já editou a Ilustrada e dá furos em várias editorias, de polícia a economia, fala de um em que a situação azedou:

A única experiência do gênero que tive foi numa coletiva da Anistia Internacional, na qual a estrela era Sting [N. da Ana: ferrão, em inglês], em 1988. A Anistia promovia uma turnê internacional com Sting, Peter Gabriel e Youssou N´Dour, entre outros, que passou pelo Parque Antarctica.

A coletiva veio abaixo quando perguntei a Sting se ele participava de shows desse tipo para aliviar a culpa de ganhar dinheiro de um modo fácil, como ocorre com pop stars.

Ele ficou furioso _disse que eu não tinha direito de fazer perguntas desse gênero. Repeti a pergunta e aí ele começou a gritar comigo, furioso. Não houve clima para mais nada. Perguntei ainda se o comportamento autoritário dele não era sinal de culpa pelo dinheiro fácil do pop. Aí retiraram Sting de um salão no antigo Hilton Hotel do centro paulistano.

Acho que, por mais ofensivo que seja o xingamento (ou a proposta) o repórter não pode abandonar o barco. A razão é simples: é o seu trabalho.

É mais ou menos como o garçom que é ofendido pelo freguês. No caso do jornalismo, não é que a fonte tenha sempre razão. Mas o público tem o direito de saber como homens públicos _e grossos_ se comportam.

Leia o que responderam:
Josias de Souza
Fernando Canzian

Antonio Gois
Rubens Valente  

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h55

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Garrincha, vestiário e fama

Por pura coincidência, vi hoje um filme que toca em dois dos assuntos recentes: "Garrincha, Alegria do Povo", de Joaquim Pedro de Andrade (1962).

O primeiro é "vestiários": há cenas engraçadas dos jogadores à espera de um jogo do Botafogo e até imagens deles nus (calma, nada explícito) num "spa". Vale mais como curiosidade, pra quem nasceu depois do tempo em que repórteres entravam em vestiários de futebol.

O segundo assunto é "fama": o diretor põe uma câmera numa janela de prédio e faz Garrincha atravessar a multidão no centro do Rio. Ele vai a pé até uma agência bancária. Ninguém o reconhece. Quando ele sai, no entanto, uma roda se forma a seu redor, como seria de se esperar. Como diz o narrador, não se sabe por que tudo mudou de um momento para outro.

Não tem nada a ver com jornalismo, mas, se tivesse, a ida dele ao banco seria muito mais notícia que a volta. =)

Pra quem não viu o documentário, vale a pena pelas cenas dele em família e pelas boas imagens de torcida na parte final, em que procura fazer uma análise "fenomenológica" do futebol no Brasil.

Como disse o professor Carlos Calil, que me mostrou o filme, não é um programa para boleiros --há ótimas cenas de jogadas e gols, mas não tantas nem tão bem filmadas que entusiasmem os fanáticos pelo esporte.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h37

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Meninas no vestiário


                                      Ayrton Vigonla/Folha Imagem - 6.jan.2006

Vestiário do Bragantino (com cestos no lugar de armários)

Na quarta à noite, VERENA FORNETTI foi ao jogo do Palmeiras. Era o segundo jogo de sua vida e o primeiro em que iria "fazer o vestiário".

A estréia foi motivo de brincadeiras do colega, mas a experiência foi menos misteriosa do que poderia parecer:

Ontem acompanhei os repórteres da Folha no jogo Palmeiras X São Bento em Sorocaba. Pela primeira vez, acompanhei as entrevistas no vestiário, onde os jogadores e a comissão técnica, às vezes, recebem os jornalistas depois do jogo.
 
Descobri que "fazer o vestiário" é um jargão do jornalismo esportivo. A expressão vem do tempo em que o jornalista realmente entrava no vestiário para entrevistar os atletas enquanto eles estavam trocando de roupa. Agora não é mais assim, os repórteres ficam na porta do vestiário e vão abordando os jogadores à medida que eles vão saindo a caminho do ônibus ou conversam com quem o assessor de imprensa convocou para a coletiva.
 
Essas entrevistas acontecem muito rápido. Aparece alguém e um bolinho de repórteres se forma em volta da pessoa. Com os jogadores é mais fácil reconhecer quem é quem, mas com os dirigentes que quase nunca aparecem na TV, complica. Quem é importante? Quem fala sobre o quê? Conhecer o rosto das pessoas-chave para a área que você cobre é fundamental, senão você fica perdido. Comentei essa dificuldade que eu tive com o repórter Paulo Galdieri na saída do estádio. Ele completou: "É isso mesmo, mas ser conhecido por essas pessoas é igualmente importante". Do contrário, quem vai virar fonte e passar boas histórias?

Mas nem sempre foi assim, como conta abaixo RICARDO PERRONE

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h18

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Mais mulheres, menos pelados

Nem sempre foi assim. RICARDO PERRONE um dos repórteres que há mais tempo cobre futebol na Folha, tem várias histórias pra contar do tempo em que se entrava no vestiário.

As moças na reportagem eram poucas. Algumas entravam e fingiam que não estavam vendo nada. Outras ficavam na porta; só partiam pras entrevistas quando um colega viesse lá de dentro garantir que a barra estava limpa: todos minimamente vestidos.

Perrone diz que, em geral, jogadores e repórteres agiam normalmente. Mas uma garota foi supreendida após um jogo por um atacante são-paulino que, ao vê-la entrar no vestiário, tirou de propósito a toalha.

Mesmo para os homens, não devia ser nada agradável ter que entrevistar jogadores pelados, que se enxugavam em pé em cima dos bancos.

O fato é que no final dos anos 90 a coisa começou a mudar. O Palmeiras passou a organizar coletivas na saída do vestiário, proibir a entrada de jornalistas, e aos poucos todos os times foram aderindo.

Perrone acha que o crescimento no número de repórteres mulheres pode ter contribuído para isso. Outro motivo pode ser as placas de patrocinadores plantadas atrás dos escalados para as coletivas.

No fechar das portas, FLAVIA MARREIRO, trainee na virada do século, ainda pegou um dia de vestiário aberto. Leia abaixo a sua história.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h17

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Não, eles não passam de toalha no corredor

 
por FLAVIA MARREIRO
 
A data _que eu acabo de confirmar no Folio_ é 4 de abril de 2002. Não me lembro bem se era um exercício obrigatório ou uma benesse de fim do dia da Ana, que de vez em quando distribuía entrada de imprensa para os jogos.
O fato é que ganhei eu, fui ao Morumbi, com o repórter Ricardo Perrone, para São Paulo X  Figueirense. Placar de 6 X 0. Seis gols vistos da tribuna de imprensa, que é muito mais sem graça que a arquibancada, que no caso do Morumbi não tem visão boa do campo.
Mas mais espetacular que o placar, depois de um jejum do São Paulo e eu nem sou são-paulina, é que ainda era a "Era Kaká".
Desci de acompanhante do Perrone, para esperar as entrevistas de fim de jogo. Eu pensei: é agora que é o vestiário. Não era. Há uma sala própria, ao lado dos vestiários, para entrevistas. Não tinha ninguém circulando de toalha. No máximo, porta entreaberta, vê-se os jogadores de longe, enxugando o cabelo. 
Entrevistas vão e vem, incluindo as emocionadíssimas de rádio, notei o quanto o repórter esportivo é um criador dramatúgico: ele inventa um roteiro _que geralmente inclui um herói, um antagonista e alguma tragédia no meio do destino do jogo_ e vai perguntando para quem aparece se corroboram ou não. Arte difícil.
(O que vem agora não tem exatamente mais a ver com meu trabalho de trainee-acompanhante. E obviamente não foi revelado à Ana na época. O problema é que o Kaká não foi um dos escolhidos para a coletiva. Uma lástima. Bom, em algum momento, me separei do Perrone e segui um grupo de adolescentes de cabelo escovado e caderninhos na mão. Elas, e eu com elas, sim, quase entramos no vestiário. Interceptamos o Kaká em uma das portas de saída. Sem nem me apresentar direito, eu ensaiei uma pergunta séria, não respondida (tenho dúvidas se foi ouvida). Indistintamente, ele distribuiu autógrafos.
- Para quem?
- Para o Ricardo.
E eu sai de lá com um autógrafo endereçado a meu amigo são-paulino e mais fã do Kaká do que eu, e no sentido amplo: futebolístico e, como dizer, humano.)
Afora o sentido catártico de fazer uma confissão de uma miniconfusão de papéis (repórter versus fã versus torcedora) para a Ana, bom poder dizer também que as idas aos jogos, além de sensacionais _eu gosto de futebol_, vieram contar de verdade no ano passado, quando eu tive de cobrir jogos na Argentina. Já saber algo da rotina da cobertura, dos horários de entrevistas e que não se entrevista quem quer, mas quem a assessoria escolhe, depois do jogo, ajuda a se programar. Cobri São Paulo X Estudiantes, pela Libertadores. Já sem o Kaká. Mas dessa vez entrevistei, e de verdade, outro craque, como dizer, completo: o zagueiro uruguaio Diego Lugano.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h16

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PL - última fase

Reta final: leia o jornal como ontem e acrescente os editoriais e os colunistas.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h13

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Videoblog sobre eleições americanas

Bruno Hoffman faz mestrado em marketing político pela Universidade George Washington (EUA).
 
Faz "estágio" numa consultoria política. Não ganha nada, mas aproveita a chance para aprender e usar a estrutura da empresa em seu favor.
 
Produz semanalmente um vídeo onde comenta a corrida presidencial nos EUA.
 
 
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h44

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Clássicos

Minha colega BRUNA MARTINS FONTES sugere esta biblioteca on-line, com clássicos da literatura e das ciências humanas.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h36

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Túnel do tempo

Reprodução

Cena do seriado "Túnel do Tempo", produzida de 1966 a 1967

A turma de treinamento conversou ontem com Vaguinaldo Marinheiro, secretário de Redação --cargo de chefia que coordena o trabalho dos editores. Ele é o responsável pela produção, pela pauta do jornal. Já foi editor de Cotidiano e editor-chefe da Folha Oline.

Um dos temas da conversa foi o futuro dos jornais:

Johanna - Até hoje, tínhamos ouvido de vários editores e repórteres da Folha que o jornal impresso está em crise e que o papel é um recurso caro - ou seja, se sua matéria não for excelente, ela não vai estar no jornal do dia seguinte. Um diagnóstico, no mínimo, sombrio. E aí? É para continuamos aqui?
 
De acordo com o Vaguinaldo Marinheiro, secretário de Redação, sim, este é um ótimo momento para entrar no meio. "O jornal está em crise, buscando caminhos novos. É o momento da virada. Em 5 anos, os jornais serão outros", ele disse.
 
Mas como seriam os novos jornais? Preenchidos por textos interpretativos, já que a internet, na véspera, teria alimentado o público com os fatos. Essa visão do futuro não é nova para nós, trainees. Em uma conversa anterior, já tinham nos falado sobre essa provável mudança de conteúdo no jornal. Isso nos deixou com outra dúvida. Quem vai conseguir fazer esse jornal? Quem vai dar conta de interpretar bem as notícias?
 
Quem tem background e experiência. Ok, não somos nós, jornalistas novíssimos. Por que, então, entramos no momento certo? Vaguinaldo responde. "Você aprende fazendo. Quando entrar no jornal, tem que ver onde você se encaixa melhor e tem que agregar valores a você. Em um tempo curto, vai poder escrever com propriedade sobre o assunto. A cada dia que você trabalha, você fica menos ignorante."
 
Gustavo -  A conversa com o Vaguinaldo, secretário de Redação, foi reveladora no sentido de nos aproximar da visão da "instância máxima" do jornal. A Secretaria é quem decide o que será publicado e em que grau de importância, definindo a primeira página e a matéria dos demais cadernos. Pensei que haveria uma defesa do jornalismo tradicional, das matérias mais "sérias" como política, economia, etc.
 
Mas não, os jornais de todo o mundo passam por uma crise de identidade e a Folha obviamente não escapa a regra. É necessário contar histórias interessantes e pitorescas que chamem a atenção do leitor. A Folha busca, assim, integrar o tradicionalismo a matérias mais palatáveis que já vêm com o delicioso nome de caramelo!
 
O jornal perde leitores com a concorrência de novas tecnologias e não acha uma linguagem adequada para tempos tão fluidos. O que fazer? Alguns jornais optam por nada fazer, continuando com velhos hábitos sob um layout mais moderno, com fotos e artes coloridas. Outros buscam publicar textos mais interpretativos, seguindo a linha de revistas semanais como a The Economist.
 
Mas seria viável tal modelo no jornalismo diário? Os jornais e os jornalistas estariam preparados para essa mudança? Ninguém encontrou a resposta, e nós, trainees, estamos neste turbilhão e devemos contribuir para uma saída.
 
Fernando - A conversa com o Vaguinaldo foi interessante pois ele falou bastante sobre os erros e acertos do novo projeto gráfico da Folha. Dentro da questão do novo projeto gráfico, reside também a dificuldade de transformar o jornal - e a primeira página - em um meio de comunicação mais leve, sem sair do jornalismo hardnews, sem perder a "seriedade", e virar um veículo de "fatos curiosos" e fofocas.
 
Com a pouca quantidade de papel, fica cada vez mais difícil dosar entre o que é mais voltado para o prazer do leitor, de conteúdo leve, e o material que DEVE estar no jornal.
 
Enfim, as questões em torno do projeto gráfico refletem também o dilema que o jornal impresso como um todo enfrenta atualmente. Qual o caminho a seguir? Como dosar o divertido e o imprescindível? O que o leitor realmente espera do impresso? O que ele quer ler no impresso, e o que ele quer ler na internet? Tais questões foram abordadas em quase todas as conversas que tivemos aqui na Folha. Mas, por hora, seguem sem resposta. Não por isso o debate deixe de ser interessante, pelo contrário - quanto mais reflexão, e opiniões diferentes, melhor.   

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h17

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Fracasso de audiência?

Meu amigo Alec, que entende tudo de internet, também comentou a pauta do violinista:

A pauta, feita em jornal, tem característica de matéria de TV. Levar alguém a algum lugar é muito TV. Legal quando um jornal se dispõe a fazê-lo. Mas é provável que na Internet o texto fosse um fracasso de audiência...

Sinceramente, não sei. A mais recente pesquisa de hábitos de leitura feita pelo Poynter mostra que, se o leitor gosta da história, vai até o final... E, neste caso, é importante justamente ser na internet, para poder ver os vídeos mais de uma vez (há um motivo para vê-los mais de uma vez, explicado na reportagem).

E só pra repetir, não é uma matéria do tipo "Gênio do violino é ignorado no metrô". Tanto que eles nem te dizem o que aconteceu com o gênio de cara. Um dos méritos do texto é até jogar com o suspense --um recurso difícil de usar, mas que achei bem apropriado neste caso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h06

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Balanço parcial

Para completar os comentários dos trainees sobre as três semanas de treinamento:

Fernando - Acho que uma das principais lições que aprendi, até agora, é o extremo cuidado que devemos ter com a informação. Cuidado no sentido de apuração profunda: procurar todos os lados e com a apresentação das informações no texto também. Creio que a minha experiência anterior, num site, não tenha me fornecido esses elementos --eu trabalhava apenas com material de agência, sem apurar nada, e escrevendo sempre para antes de ontem, muitas vezes sem nem reler.

Gustavo - De início, o que me chamou mais a atenção foi a estrutura de um jornal diário: pequenas Redações com jornalistas jovens e inexperientes.  A velocidade também é marcante para quem veio basicamente do mundo acadêmico. Mas acabo de perceber que meu maior desafio é e será o domínio da linguagem jornalística. Nada de textos longos, inversões, condicional etc. Uma linguagem direta, cortante sem nenhum rebuscamento. O jornal não pode se apartar de seus leitores, que mais e mais exigem informações rápidas e relevantes. O mundo pede mais gracilianos e mauriacs!

Veridiana - Uma outra dica que achei muito importante foi a do repórter de Cotidiano Evandro Spinelli de conhecer os nomes completos, cargos e rostos dos principais agentes do setor que você cobre. Com isso, é possível identificar, por exemplo, casos de nepotismo, entre outras irregularidades. Se você cobre administração pública, como é o caso dele, é importante saber reconhecer os donos de empresas de ônibus, construtoras, seus assessores, seus lobistas... Se você trombar com um deles saindo da prefeitura um dia, pode ser o ponto de partida para desvendar um importante esquema de corrupção.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h30

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Programa de leitura - última fase

Tuca Vieira/Folha Imagem

vista do alto, escadaria da torre da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo

Se está seguindo o programa de leitura de jornais, parabéns! Está praticamente emancipado das tarefas diárias e pronto para decidir sozinho o que e como ler.

Dia 26
Leia a Primeira Página e folheie todo o jornal. Se você seguiu à risca o cronograma, está suficientemente bem informado sobre os principais assuntos factuais e já pode escolher a quais assuntos vai dedicar mais tempo de leitura. Faça isso: leia as reportagens que julgar relevantes para continuar bem informado.

Se ainda não começou, aproveite, comece hoje! Leia o programa todo e veja aqui como dar o primeiro passo.

Não sabe por que nem para que ler jornais? Veja o que eu acho sobre isso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h19

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Literatura de graça em inglês

Meu blogbudsman Roberto Takata avisa:

Além do Domínio Público, há, em inglês, o Projeto Gutenberg

E Gustavo, repórter de Informática, completa: o Gutenberg tem também uma seção em português.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h07

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A árvore e a floresta

Amigos meus --e minha chefe Lígia-- criticaram a matéria do Washington Post que eu sugeri abaixo, dizendo que é um clichê, que músico no metrô não é novidade, que não pararam porque música tem todo dia, que nem na Alemanha as pessoas ligam pra música erudita etc. etc.

Acho que eles estão olhando para a árvore e deixando passar a floresta.

O sensacional da pauta não é o fato de ele ter sido ou não reconhecido. Músico erudito, mesmo um gato como ele, não é pop star. Não é notícia que ninguém tenha se dado conta de que aquele era um dos "gênios" do violino.

O que a matéria mostra, na minha opinião, é que um dos principais musicistas do mundo tocando obras-primas não atrai ninguém na capital do império. A qualidade daquela música --pela qual ele pode cobrar US$ 1.000 por minuto-- não chama mais a atenção que a de qualquer amador.

Para mim, é uma ironia ao mesmo tempo forte e sutil, que põe em questão o valor da arte e nosso tipo de vida. Se você realmente ler o texto até o fim, vai ver que ele não é sobre um virtuose ignorado no metrô. É sobre muito mais que isso.

É por isso que eu adorei a pauta. Porque ela parte de um caso isolado, quase banal, para falar de algo bem maior e bem mais importante. Será que viajei muito?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h57

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Afinado como uma orquestra

Afinado como uma orquestra

Chris Lee

O violinista norte-americano Joshua Bell


Agradeço a PAULA LEITE, repórter de Informática, por me mostrar esta história do Washington Post.
Não deixem de ler. É sensacional. De dar inveja. Uma daquelas histórias que qualquer jornalista daria tudo pra ter tido a idéia de fazer. Um exemplo de pauta, reportagem e edição (e ainda vem com o "making of"):

O repórter levou Joshua Bell, um violinista aparentemente reconhecido como um dos melhores do mundo, para tocar no metrô de Washington com seu Stradivarius na hora do rush. Não vou contar o que aconteceu para não estragar a matéria, mas vale a pena ler. No site tem também vídeos que eles fizeram da apresentação e um link para ouvir Bell tocando no metrô.
 
É interessante que, num chat com o autor da reportagem, ele conta que o mais difícil não foi convencer Bell, como ele esperava, mas sim conseguir autorização do metrô para fazer o "experimento". Acabou conseguindo autorização de uma empresa privada, que administra uma galeria do metrô onde acabou acontecendo a apresentação.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h42

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Literatura de graça

        Adriana Zebrauskas/Folha Imagem - 7.nov.94

Torre de livros do artista eslovaco Matej Kren, na Bienal
de Artes Plásticas de São Paulo de 94

O site Domínio Público tem em PDF obras de Machado de Assis, Fernando Pessoa, Shakespeare em português e outras.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h10

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PL - fase 3 - último dia

David Gray/Reuters                                                                                                                                                                 

Ler jornal é como escovar os dentes: tem que fazer todos os dias.
Falta de tempo nunca é uma justificativa aceitável

Se está seguindo o programa de leitura de jornais, parabéns! Termina hoje a fase 3.

Dia 25
Leia a Primeira Página com atenção e, ao terminar, rememore o que foi destacado. Depois, leia as capas de cada caderno (ou principais notícias de cada editoria, se o jornal não for dividido em cadernos). Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu. Volte à Primeira Página, veja que chamadas não se referem a capas de caderno e leia as reportagens correspondentes. Perceba que você já está lendo as principais matérias do jornal todos os dias. 

Se ainda não começou, aproveite, comece hoje! Leia o programa todo e veja aqui como dar o primeiro passo.

Não sabe por que nem para que ler jornais? Veja o que eu acho sobre isso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h08

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Prefira os erros novos

"Por que repetir erros antigos se há tantos erros novos a escolher?"
Bertrand Russel
 
 por VERENA FORNETTI 
Não cometa o mesmo erro duas vezes. A gente ouve muito essa frase no treinamento. Parece óbvio, é verdade, mas é difícil seguir o conselho.
 
Corro o risco de virar neurótica além do normal, mas tive de fazer uma listinha na última página do meu bloco de anotações com os erros a não cometer mais: 1) Fazer uma coisa pensando na próxima que tenho que resolver e não me concentrar; 2) Deixar de anotar comandos do editor de texto; 3) Descrever com muitos adjetivos...
 
Mesmo ouvindo a frase o tempo todo, às vezes continuo cometendo o mesmo erro duas vezes. Como ontem em um exercício, em que esqueci que "não se pode fazer títulos que sejam prejulgamentos" e escrevi: "controladores civis reclamam de salário antes mesmo da posse". O comentário da Ana: "Deveriam reclamar só depois? Por quê?".

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h41

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Balanço de três semanas

Meu pedido aos trainees: contem uma coisa que aprenderam nessas primeiras três semanas.

As respostas:

Verena - ter mais segurança, principalmente na hora de defender as pautas. Na reunião da Redação que acompanhamos, vi que faz muita diferença a pessoa vender a pauta com firmeza e objetividade. E, lembrando da Renata Lo Prete, percebi que a segurança de que ela está fazendo o trabalho dela direito é o que mais admiro nela.

Rafael - acho que a maior lição, nessas três semanas de trainee, foi uma frase do Fernando Barros. Nunca tinha parado para pensar nela, mesmo sendo meio óbvia: a que o jornalista deve ter, consigo mesmo, um pacto contra a ingenuidade. A frase se explica por si só –que jornalista ingênuo consegue fazer qualquer coisa que seja? Às vezes a gente coloca as coisas no automático, até por conta do tempo que se tem pra fazer as coisas. “OK, ouvi fulano, ele é bom, vamos embora.” Dificilmente alguém é bom o suficiente para ter uma informação que não precise ser checada.

Silas - Preste sempre atenção nas letras miúdas. É uma lição que vale ao ler o Diário Oficial, sem dúvida. Mas vale também para o jornal inteiro. Nem sempre a pauta está na manchete nem na notícia que abre a página. Muitas notinhas que passam despercebidas no Painel, na coluna da Monica Bergamo ou colunas da concorrência, como o César Giobbi, são pontapés iniciais para grandes matérias. Também percebi que em coletivas e anúncios oficiais de qualquer coisa, ou até mesmo em entrevistas com fontes, vale a pena notar todos os aspectos paralelos. É bom prestar atenção nas conversas telefônicas do entrevistado com outros contatos, olhar os papéis sobre a mesa, os quadros na parede, recibos, notas. Tudo pode ser informação relevante e útil para a pauta em questão ou até mesmo um ponto de partida para outra matéria.

Clara - A grande questão que pairou sobre nossas conversas com profissionais experientes nessas primeiras semanas foi a origem das matérias, dos furos jornalísticos. 
Ao contrário dos bebês, cada reportagem nasce de um modo muito peculiar: dos passeios na rua, dos levantamentos de documentação online ou in loco, das longas leituras do diário oficial, dos desdobramentos das notícias de ontem... E, claro, das famosas “fontes” _ essas que eu ainda não tenho e tento, sem sucesso, não superestimar. 
Lembro de Renata Lo Prete repetir que toda fonte é interessada. As informações que passam são apenas pontos de partida, e só o confronto entre dados complementares e contraditórios pode determinar a credibilidade do que dizem. 
Tento me armar para esse "confronto" de dados com as informações de interesse público que se escondem em editais de letras miúdas, artigos, sites... As altas fontes permanecem misteriosas, num Himalaia exclusivo. Mas há outras trilhas.

Mariana - O que eu aprendi nessas primeiras semanas de treinamento? Humm... tudo o que sei até agora sobre jornalismo... Aprendi o que são pautas, lide, linha fina, lupa, módulos, retrancas...  Aprendi que "fonte é um investimento", que "quem não se pauta é pautado",  que "furo a gente não reclama, vai lá, recupera e dá melhor", que "não existe fonte desinteressada", que "o que interessa ao público nem sempre é de interesse público", entre mil outros detalhes de como fechar um texto, como usar o hermes, como gravar entrevistas pelo telefone, como ter fontes, como trabalhar sem fontes, como fazer investigações etc. etc.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h38

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Zoológico?

Juan Antonio Giner, de uma das principais consultorias de mídia do mundo, mostra (e critica) a nova Redação do "New York Times".

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h22

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História geral - século 20

História geral - século 20

A turma de treinamento terá um curso de cinco aulas sobre história geral do século 20. O professor, João Bonturi, indica abaixo livros para quem quiser se aprofundar nos estudos.

Só para lembrar, cursos são bons para despertar curiosidades ou relembrar fatos. Mas, para estudar de verdade, é preciso ler. Mais que isso, é preciso ler com concentração e reflexão.

BARRACLOUGH, Geoffrey  e PARKER, Geoffrey – Atlas da história do mundo, São Paulo, Empresa Folha da Manhã, 1995

BENZ, Wolfgang e GRAML, Hermann – Europa después de la Segunda Guerra Mundial: 1945 – 1982, Madrid, Siglo XXI, 1990, 3Vols

BRAILLARD, Philippe e SENARCLENS, Pierre – O imperialismo, Lisboa, Public. Europa-América, s/d   

BRENER, Jayme – Tragédia na Iugoslávia : guerra e nacionalismo no Leste europeu, São Paulo, Ed. Atual, 1993

BRENNER, Jaime e CAMARGO Cláudio - Guerra e paz no oriente médio, São Paulo, Contexto, 1995

CORDELLIER, Serge – Le dictionaire historique et géopolitique du 20eme siècle, Paris, Éditions La Découverte, 2002

DROZ, Bernard e ROWLEY, Anthony – História do Século XX, Lisboa, Dom Quixote, 1993, 4 vols.

DUBY, Georges – Atlas histórico mundial, Madrid, Editorial Debate, 1997 

DUROSELLE, J.B e RENOUVIN, P. – Introdução à história das relações  internacionais, São Paulo, Difel, s/d

FERRO, Marc – A revolução russa de 1917, São Paulo, Ed. Perspectiva, s/d 

FERRO, Marc – História da Segunda Guerra Mundial, São Paulo, Ed. Ática, 1995

FERRO, Marc – História das colonizações: das conquistas às independências: Séculos XIII a XX, São Paulo, Cia. das Letras, 1996

FLORENCIO, Rafael Nunes – Sociedad y política en el siglo XX: viejos y nuevos movimientos sociales, Madrid, Editorial Síntesis, s/d

GALBRAITH, John Kenneth – Uma viagem pelo tempo econômico: um relato em primeira mão, São Paulo, Pioneira, 1994

HOBSBAWN, Eric – Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991, São Paulo,  Cia. Das Letras, 1995

HOBSBAWN, Eric – Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990

MAGNOLI, Demétrio – O mundo contemporâneo: relações internacionais 1945 - 2000, São Paulo, Ed. Moderna, 2001.

MOMMSEM, Wolfgang J. – La época del imperialismo: Europa 1885 – 1918, Madrid, Siglo XXI, 1995

PALMER, Alan – Dictionary of twentieth-century history, London, Penguin, 1999  

PALMOWSKY, Jan – Dicionário de historia universal del siglo XX, Madrid, Complutense, 1998

PARIS, Robert – As origens do fascismo, São Paulo, Ed. Perspectiva, 1976

PARKER, R.A.C. – El siglo XX: Europa 1918 – 1945, Madrid, Siglo XXI, 1987

PAZZINATO, A.L. e SENISE, M.H. – História moderna e contemporânea, São Paulo,  Ed. Ática, 1995

PRADA, Valentin Vazquez de – História económica mundial, Porto, Livraria Civilização Editora, s/d, 2 vols.

RATTNER, Henrique (org) – A crise da ordem mundial, São Paulo, Símbolo, 1978

REIS Fº, Daniel (org) – O século XX, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, 3 vols.

RÉMOND, René – Introdução à história do nosso tempo: do Antigo Regime aos nossos dias, Lisboa, Gradiva, 1994

SAID, Edward – Cultura e imperialismo, São Paulo, Cia. das Letras, 1999

SALOMONI, Antonella – Lenin e a Revolução Russa, São Paulo, Ed. Ática, 1995

STONE, Norman – La Europa transformada: 1878 – 1919, Madrid, Siglo XXI, 1995

THOMSON, David – Pequena história do mundo contemporâneo, Rio de Janeiro,  Zahar, s/d, 3ª. ed.

WERNET, Augustin – A primeira Guerra Mundial, São Paulo, Contexto, 1991

WISKEMANN, Elizabeth – La Europa de los dictadores, Madrid, Siglo XXI, 1992

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h11

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Cruzando a linha?

 Al Tompkins conta em sua coluna no Poynter o caso de uma repórter de TV que está sendo processada por seqüestro por causa de uma reportagem em que tentava mostrar o nível de segurança de maternidades.

Ela não chegou a encostar em criança nenhuma, mas entrou em áreas restritas do hospital. A TV defende a estratégia de reportagem.

Repórter que trabalha disfarçado tem que ter cuidado: discutir o caso antes com o editor, consultar advogados, armar esquemas de segurança e planos B. Mesmo assim, pode dar errado, como mostra essa história.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h55

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jornalismo on-line

jornalismo on-line

O Terra e o Comunique-se fazem a partir de 2 de maio um curso de jornalismo on-line.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h54

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PL - fase 3

David Gray/Reuters                                                                                                                                                                 

Ler jornal é como escovar os dentes: tem que fazer todos os dias.
Falta de tempo nunca é uma justificativa aceitável

Se está seguindo o programa de leitura de jornais, amanhã é o útimo dia desta fase 3:

Dia 24
Leia a Primeira Página com atenção e, ao terminar, rememore o que foi destacado. Depois, leia as capas de cada caderno (ou principais notícias de cada editoria, se o jornal não for dividido em cadernos). Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu. Volte à Primeira Página, veja que chamadas não se referem a capas de caderno e leia as reportagens correspondentes. Perceba que você já está lendo as principais matérias do jornal todos os dias. 

Se ainda não começou, aproveite, comece hoje! Leia o programa todo e veja aqui como dar o primeiro passo.

Não sabe por que nem para que ler jornais? Veja o que eu acho sobre isso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 07h53

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Deu vontade de voltar para casa

Rogerio Cassimiro/Folha Imagem - 13.11.06

O colunista da Folha Clóvis Rossi em seu escritório

Johanna contou abaixo que ontem, quando tudo que ela fez deu errado, teve vontade de voltar pra casa.

Fez-me lembrar do Edmundo, que, mesmo sendo o quase único craque do Palmeiras, disse a mesma coisa depois de perder o pênalti com o Ipatinga e empatar com o São Bento (ops, quero dizer, com o Guaratinguetá).

Aí pensei em pedir a um jornalista de sucesso acima de qualquer suspeita pra contar como isso acontece com todo mundo.

Meu professor CLÓVIS ROSSI atendeu ao meu pedido:

Eu tinha 23 anos de idade, um ano e meio de jornalismo, trabalhava no “Estadão”, como redator das capas (capa e contra-capa, que, naquela época, era fortemente noticiosa). Algum maluco me indicou para ser chefe de Reportagem e editor de Geral (incluía tudo o que não fosse Política, Economia, Cultura, Esportes).

Outro maluco, eu mesmo, topou o convite.

O primeiro dia de trabalho foi também o primeiro dia do ano, um sábado. Todos os meus subordinados eram mais jovens do que eu. Ainda por cima, tinha que participar da diagramação das páginas que me tocava editar. Um denso mistério para mim (e para qualquer outro estudante de jornalismo daquela época; não sei se, hoje, ensinam diagramação na faculdade).

Apesar do feriado reduzir o volume de notícias e a pressão permanente que é o trabalho em jornal, me sentia morto e um incompetente total. Ainda por cima, o carro que levava os editores para casa parou numa esquina da avenida Rebouças, para deixar um de meus companheiros. Na hora em que o jeep (sim, era um jeep) parou, da padaria da esquina saíram dois tipos correndo. O de trás atirou no da frente, que caiu junto ao pneu do jeep.

Recolhemos o jovem e o motorista se prontificou a levá-lo para o hospital. Fiz o resto do percurso a pé, umas cinco quadras.

Cheguei em casa e disse pra minha mulher (era, além de tudo, recém-casado): “Nunca mais volto ao jornal. Não sirvo para isso”.

Passei o domingo ainda decidido a não voltar mesmo. Nem para receber o salário. Queria mesmo era sumir.

Chegou a segunda, minha mulher me convenceu a pelo menos me apresentar pessoalmente para pedir demissão. Fui, conversa-vai-conversa-vem, me convenceram a ficar. Fiquei. Estou na profissão faz exatos 44 anos.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h05

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Notícias regionais

Nos Estados Unidos há muitos e bem feitos jornais locais (de cidades ou mesmo regiões) e um movimento forte para favorecer notícias locais e regionais.

O site Topix é um dos mecanismos de incentivo desse olhar para sua própria "comunidade".

Alec Duarte me avisa que eles procuram editores voluntários para o noticiário sobre o Brasil.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h53

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Como ganhar um prêmio de investigação

Como ganhar um prêmio de investigação

No ano passado, 13 mineiros morreram presos numa mina de carvão nos EUA.

Jornais de todo o mundo fizeram a cobertura.

Três dias antes, um mineiro havia morrido sozinho, num acidente de trabalho. Só um repórter contou a história, e por ela levou o prêmio de uma das principais organizações de jornalismo dos EUA, a Investigative Reporters and Editors.

Leann Frola, bolsista do Poynter, entrevistou o repórter, Ken Ward Jr., e conta como a história surgiu e como foi apurada.

Vale a pena ler a entrevista toda; exemplos concretos são muito mais legais.

Abaixo, resumo algumas lições gerais do caso:

- conheça o assunto: como cobria segurança em minas, Ken pôde colocar o acidente numa perspectiva mais ampla
- convença seu editor a lhe dar tempo para conhecer o assunto: frase do repórter a seu editor: “Viu como valeu a pena eu ficar aquele tempo todo lendo relatórios e não escrevendo nada?”
- aposte em boas histórias e brigue por elas: Ken acha que muito repórter não tem liberdade para fazer boas reportagens porque não quer. Em vez de propor uma boa pauta e convencer o editor a apurá-la, prefere ficar nas pautas pequenas do dia-a-dia
- invista tempo: a história surgiu de um levantamento próprio que tomou duas semanas –ele pesquisou dados de 320 mineiros mortos entre 1996 e 2005, em 290 acidentes.
- cheque e verifique: o repórter leu todos os dados três vezes –uma para ter uma idéia global, outra para detector tendências e a terceira para fazer sua própria base de dados
- saiba usar um banco de dados:  Ken usou Access e Excel –também usados por alguns repórteres que conheço
- saiba consultar bibliotecas e arquivos: a reportagem andou bem e rápido porque o repórter sabia onde achar os dados oficiais de que precisava
- não tenha medo da linguagem jurídica: ler processos, do começo ao fim, rende muita informação e até boas frases. Se tiver dificuldades para entender, faça cursos de direito para jornalistas ou tenha uma boa fonte na área que possa ajudá-lo
- ganhe a confiança dos bons técnicos: mesmo nos EUA, onde há mais acesso a informação, órgãos oficiais relutam em fornecer os dados. Ken conseguiu muita coisa com funcionários que confiavam nele e queriam ver a história no jornal.
- respeite as vítimas: “As famílias sabem como chegar à mídia se quiserem falar. Nunca ligo diretamente para elas. Há outras formas de fazê-las saber que gostaríamos de entrevistá-las –advogados, por exemplo”. Se eles quiserem falar, ouça, em vez de tentar arrancar uma declaração assim ou assado.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h29

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Segurança internacional

Segurança internacional

A USP faz de 14/4 a 30/6, aos sábados, um curso sobre segurança internacional e defesa.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h17

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visita do papa e igreja latino-americana

visita do papa e igreja latino-americana

A PUC-SP faz no dia 11, às 14h30, um debate sobre a visita do papa e a 5ª Celam.

Vão falar os professores Luiz Eduardo W. Wanderley e Fernando Altemeyer Junior.

Informações: 0/xx/11/3670-8517

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h10

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Quem é Bento 16

Quem é Bento 16

Painel discute quem é Bento 16 no dia 16/4, às 20h, no auditório do Mosteiro de São Bento.

Da mesa participarão três teólogos: frei Carlos Josaphat, da Escola Dominicana de Teologia, e os professores Fernando Altemeyer Junior e Luiz Felipe Pondé, da PUC-SP.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h10

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Tudo errado

por JOHANNA NUBLAT

Ontem foi o primeiro dia da quarta semana de treinamento. Pela primeira vez desde que cheguei a SP, me senti no lugar errado, fazendo a coisa errada. Só fazendo coisas erradas.

Não deixei de fazer nada do que me pediram, não deixei de ler o jornal, não cheguei atrasada. Mas errei a mão em tudo. Ou, pelo menos, fiquei com essa impressão.

Saí da Folha arrasada, louca para ficar o mais longe possível de tudo. Descendo as escadas do prédio, pensei: "Será que eu quero ir embora e largar tudo?". A resposta veio rápida e surpreendente. "Não. É só um dia ruim. Não vou largar essa oportunidade por um dia assim. Amanhã tudo vai ser diferente." É o que eu espero.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h04

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Para além do pacto contra a ingenuidade

De que um jornalista precisa para trabalhar com política ou no caderno Brasil?

Antônio Gaudério/Folha Imagem - 9.set.2002
por FERNANDO de BARROS e SILVA, editor de Brasil

Diante da pergunta na lata dos trainees _expressão de uma curiosidade legítima para quem procura encontrar sua vocação e seu lugar no mundo profissional_, não soube responder de maneira satisfatória.

Tergiversei e acabei recomendando de maneira meio lacônica um "pacto contra a ingenuidade". Fiquei um tanto frustrado. Talvez eu tivesse na cabeça a lembrança difusa ou meio inconsciente da frase que serve de epígrafe ao livro de memórias de Paulo Francis, "O Afeto que se Encerra". Cito de cabeça: "A inocência é uma forma de insanidade" (Graham Greene).

Sempre gostei dessa frase, do sentimento anti-rousseauísta que ela evoca mas, ao mesmo tempo, do resumo extremo que ela faz do próprio rousseauísmo: uma filosofia da bondade humana (ou da inocência do "homem selvagem") que desemboca na insanidade de seu autor.

De fato, acredito que certas pessoas não têm na sua personalidade a gota de veneno (ou a dose de ceticismo e de incredulidade) que o jornalismo, para ser bem feito, muitas vezes solicita.

Mas também não devemos transformar isso num dogma, como se certas pessoas fossem de saída e irremediavelmente ineptas para trabalhar com isso ou aquilo. Darwinismo tem limites... E há técnicas profissionais contra as várias formas de ingenuidade [ouvir os outros lados, por exemplo].

Isso tudo, de qualquer forma, são divagações muito pessoais e talvez pouco úteis para um curso de treinamento. Temos lições mais objetivas a aprender, certo?

Se fosse responder aos trainees de forma mais pedagógica, no bom sentido, poderia dizer o seguinte: o jornalista que quer se ocupar de
política num jornal como a Folha deve, em primeiro lugar, buscar se aprimorar intelectualmente.

Aproveitem para estudar porque a vida passa rápido e a hora de aprender ainda é agora. Estudar história, do Brasil e geral, com algum método e disciplina, e ler bons autores, gente que sabe escrever português. Machado de Assis, Graciliano, mas também Antonio Candido, Paulo Emílio, Gilberto Freyre e Sergio Buarque.

Isso basta? Não, não basta, mas ajuda a evitar danos futuros. Se não servir para a profissão, serve para a vida. Jornalistas não são escritores _sabemos disso_, mas a palavra escrita é seu instrumento de trabalho. A elite adora tripudiar sobre os erros de Lula. Mas a elite brasileira, que estuda em escola cara e cursa faculdade pública, não sabe escrever, com raras, muito raras exceções.

Observem os médicos, os advogados, os intelectuais das ciências humanas, os próprios jornalistas. Escrevemos muito mal no Brasil. É um dado e um sintoma da nossa má formação histórica. O Antonio Candido disse certa vez que pulamos do mundo rural para o mundo pós-letrado da TV sem passar pelo aprendizado da escrita. É fato: até 1930 éramos pouco mais que um "fazendão"; nos modernizamos e nos urbanizamos desde então muito rapidamente, sob a influência central da TV a partir dos anos 60. O resultado _desolador_ é o que vemos hoje.

Poderia expandir as áreas de estudo, enumerar minhas próprias lacunas como contra-exemplo, mas acho que já falei demais e muito mais do que
imaginava quando comecei.

Eduardo Knapp/Folha Imagem - 22.ago.2002

O editor de Brasil (à direita) e o então secretário de Redação, Fernando Canzian, antes da sabatina de Paulo Maluf, à época candidato do PPB ao governo de São Paulo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h24

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PL- fase 3

David Gray/Reuters                                                                                                                                                                 

Ler jornal é como escovar os dentes: tem que fazer todos os dias.
Falta de tempo nunca é uma justificativa aceitável

Se está seguindo o programa de leitura de jornais:

Dia 23
Na edição de hoje, a maior das chamadas de Primeira Página se refere a capas de caderno. Por isso, vamos adaptar a tarefa do dia: leia todas as chamadas. Depois, leia todas as capas de caderno (ou principais notícias de cada editoria, se o jornal não for dividido em cadernos). Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu. Leia os textos sobre os outros poucos assuntos destacados na Primeira Página e que não são capa de caderno.

Se ainda não começou, aproveite, comece hoje! Leia o programa todo e veja aqui como dar o primeiro passo.

Não sabe por que nem para que ler jornais? Veja o que eu acho sobre isso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h23

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Os mais visitados

A sempre antenada Daniela Arrais manda a lista dos jornais mais visitados nos Estados Unidos.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h17

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China

China

O analista Arthur Kroeber, editor do China Economic Quarterly, fala no Instituto Fernando Braudel sobre "O Futuro da China". A palestra, em inglês, será no dia 16 de abril.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h16

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Títulos sem mico

Títulos sem mico

Michael Hughes/Associated Press/Times-Standard - 4.abr.2000

Mico leão dourado Vern e sua irmã Greta, no zoológico Sequoia Park, em Eureka, Califórnia (EUA)
 

O que o macaco tem a ver com a história? Eu conto no pé da mensagem. Antes, cinco recomendações para um bom título (algumas inspiradas por minhas colegas Anne Glover, do "St. Petersburg Times", e Sharon Burnside, do "Toronto Star").

a) Pergunte sempre “Qual é a notícia deste texto?”. Se tiver problemas para descobrir, falta foco ao texto. Consulte o autor do texto, pergunte que título ele daria, ou qual a notícia principal.

b) Para atrair o leitor, pense nesta pergunta “Por que alguém deveria ler este texto?”. Por exemplo, se o Congresso aprova nova lei sobre trânsito que torna obrigatório recadastramento de todos os motoristas, o título não deve ser “Congresso aprova nova lei sobre trânsito”, mas “Nova lei obriga todo motorista a se recadastrar”.

c) Quanto mais específico, melhor. Presidente se reúne com ministros poderia ser um título para n situações. O título tem que ser "Presidente avisa a ministros que reduzirá gastos", ou algo que tenha saído da reunião. Prefeito inaugura hospital é um título que não diz nada. "Prefeito abre hospital incompleto" ou "Prefeito prioriza hospitais na zona sul" são títulos que avançam.

d) Olhe as artes e fotos. Se possível, faça um título que converse com o material iconográfico.

e) Não esfrie a história no título. Tente evitar formulações secas e burocráticas em textos que transmitem algum tipo de emoção, que relatam tragédias ou histórias que provocam empatia.

O caso do macaco tem a ver com esta última recomendação:

Leia o título sugerido por um trainee na tarde de hoje e, depois de ler o texto, imagine o que foi que eu comentei sobre ele:

Padre causa polêmica com
plano de acabar com pombos
DA FOLHA RIBEIRÃO
O padre Francisco Moussa, da Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto, anunciou ontem que pretende, ainda nesta semana, soltar gaviões, falcões e macacos nas árvores da praça das Bandeiras, no centro. O objetivo é eliminar os pombos que vivem no local, já que esses animais são seus predadores naturais.

Títulos mais específicos informam mais
Análise de casos: quando um título é bom?
Exercício de título, propostas e comentários

 

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h49

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Específico é mais jornalístico

Vejam essas duas soluções feitas por trainees para o texto abaixo:

opção 1
Congresso abre brecha na
Lei de Crimes Hediondos

opção 2
Liberdade provisória volta
a valer em crime hediondo

O texto era este:
GILMAR PENTEADO
DA REPORTAGEM LOCAL
A recente mudança na Lei de Crimes Hediondos, votada às pressas no Congresso Nacional para dar uma resposta ao clamor popular pelo endurecimento da legislação penal, aprovou uma antiga reivindicação de setores mais progressistas sem que boa parte dos parlamentares percebesse isso.
A nova lei, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último dia 28, endureceu os critérios para a progressão de pena nos crimes hediondos (como transferência do regime fechado para um mais brando, como o semi-aberto). E retirou a proibição da concessão de liberdade provisória para acusados por esses crimes.
O texto, aprovado na Câmara e no Senado, restituiu legalmente ao acusado de crime hediondo o direito de esperar o julgamento em liberdade, caso preencha os requisitos -não represente risco à sociedade ou à realização do processo e não apresente perigo de fuga.

Os dois títulos estão corretos, mas o segundo é melhor. Por quê? Porque é mais específico e, por isso, tem mais informação.

O específico informa mais que o geral, e essa regra vale para títulos e para o texto. Reflita sobre o quanto você fica informado após ler esta frase:
Governador de SP dá entrevista coletiva em Brasília
Agora passe para a frase seguinte:
Governador de SP fala sobre segurança em Brasília
Pense agora sobre esta:
Governador de SP diz que falta verba para segurança
As três são verdadeiras e ocupam mais ou menos o mesmo espaço, mas a terceira informa mais e torna as duas primeiras dispensáveis.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h51

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Repórter-fotográfico

 por VERENA FORNETTI

Na sexta-feira da outra semana, o editor de fotografia Toni Pires falou sobre reportagem fotográfica no bate-papo com os trainees. "O repórter-fotográfico não é ilustrador de matéria", disse. Ele deve entender a história e transformá-la em uma imagem.
 
A pauta fotográfica tem mão dupla. O repórter precisa passar informações que ajudem o fotógrafo a seguir a pista certa. Também acontece o contrário: a equipe de fotógrafos é a única em um jornal que faz 100% do trabalho na rua. É a chance de descobrir coisas novas e pautar o repórter.

Fotos Marlene Bergamo/Folha Imagem

Assentamento de sem-teto em Itapecerica
 
A matéria "Em 2 semanas, sem-teto erguem favela" foi o exemplo que o Toni nos deu de reportagem fotográfica com começo, meio e fim e de trabalho conjunto entre fotógrafo e repórter. A repórter-fotográfica Marlene Bergamo passou cinco noites dormindo em um acampamento para contar como 10 mil pessoas invadiram um campo de golfe e construíram 3.500 mil barracos. Assinou a matéria junto com Laura Capriglione.
 
 

[Silas Martí, da turma de treinamento, passou uma tarde com Marlene no acampamento. Veja o relato abaixo]
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h43

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Marlene Bergamo/Folha Imagem

Ocupação em campo de golfe em Itapecerica da Serra, SP

No dia 26/3, SILAS MARTÍ acompanhou o trabalho de Marlene Bergamo num acampamento sem-teto:

Do centro até Itapecerica da Serra, a cidade vai perdendo a cara de cidade e o concreto dá lugar à terra vermelha. A temperatura aumenta e o trânsito travado não dá trégua. Nenhuma nuvem no céu e pagode no rádio do carro da Folha. Tentava ler uma reportagem da "Vanity Fair" sobre São Paulo, a cidade do medo. A metrópole do texto pouco tinha a ver com a outra São Paulo que conheci, quando fui encontrar a fotógrafa do jornal Marlene Bergamo num assentamento de sem-tetos formado há uma semana na periferia ao sul da capital.
 
Encontrei outro motorista do jornal no acampamento. Ele disse que Marlene já tinha sumido no meio dos barracos há algumas horas e não tinha voltado. Com fama de louca, ela não atende o celular e não volta de uma pauta até conseguir uma boa história pra contar ou foto que sirva de emblema para uma situação. Estava dentro da tenda central dos moradores quando a encontrei e já havia dormido dois dias no assentamento esta semana. Falava com uma militante anarquista e outros do movimento.
 
O que parecia a princípio uma ruela com tendas armadas nas laterais era na verdade só a borda de um imenso terreno. Lá embaixo estavam centenas de outras barracas com famílias acampadas. Encontramos outras lideranças do movimento e acompanhamos a construção de um banheiro. Primeiro são fincados pedaços de pau, que servem de estrutura para a construção. Depois chapas de compensado são pregadas ao redor e um vaso sanitário comum é instalado sobre um buraco cavado com uma enxada. Parece muito simples não fosse o calor de 32ºC agravado pelas lonas pretas que cobrem grande parte das tendas.
 
Dentro delas, famílias preparam como podem o que comer. Tudo é improvisado. Helena, uma jovem militante, explica como a água de uma parte do terreno é filtrada para consumo. Universitários estão a caminho para ajudar no projeto.
 
A invasão ocorreu há uma semana e a pauta de hoje era acompanhar a manifestação dos sem-teto rumo ao palácio dos Bandeirantes. Pouco antes da minha chegada, alguém da secretaria da Habitação havia passado por lá e acalmado as lideranças. A manifestação está suspensa até segunda ordem.
 
Marlene e eu deixamos o assentamento e demos uma volta de carro em torno do terreno. As dimensões assustam. Além do vale ocupado pelas famílias, vastos trechos de mata permanecem desocupados. A intenção dos acampados não é permanecer no local. Não há infra-estrutura para nenhum projeto habitacional a curto prazo. Segundo os sem-teto, a chuva transforma o local num mar de lama e à noite o frio é glacial. A ocupação, impressionante pelo número de famílias acampadas, serve como forma de pressão, mas o governo precisará encontrar outra solução para providenciar moradia a tanta gente. 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 12h42

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Jornalismo e ambiente

Jornalismo e ambiente

Acontece dia 19 de maio o 2º fórum paulista de jornalismo ambiental

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h50

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Quero mudar de área

Quero mudar de área

Raphael tem 26 anos e é publicitário recém-formado.

Pergunta o seguinte:

Estou te escrevendo pra pedir algum tipo de dica ou orientação a respeito de mudança de área de atuação, mais especificamente para o jornalismo. Quando prestei vestibular, pensei em ser jornalista, mas abandonei a idéia em função de uma lenda urbana, que dizia que o mercado estava saturado. Sei que foi uma coisa idiota, afinal, qual mercado não está, no mínimo, sobrecarregado hoje em dia? Claro, a não ser que você trabalhe com micro-biologia-digital-moleculo-celular e seja indiano.

Mas o caso é que tenho muito interesse em atuar na área, onde acho que vou ser mais feliz, vou trabalhar com algo que tem mais a ver com as coisas que eu gosto, enfim. Sou um leitor compulsivo. E um escritor vacilante, mas que acredita no próprio potencial. Tenho consciência que leio mais que a média e que tenho capacidade de trabalhar como jornalista. Só não sei como começar, pois já mandei várias vezes meu currículo para jornais, sites etc., mas nunca recebi resposta.


O que você sugere? Preciso de uma faculdade nova? Ou alguma extensão? Será que vou ter que ser estagiário de novo, e começar do zero, mesmo já tendo acumulado boa experiência em outra área?

Minha resposta:

Você deve estar encontrando dificuldades por dois motivos: 1) há, mesmo, muita gente para poucas vagas, e 2) a maioria dos veículos exige diploma de jornalismo.
Sugiro três coisas:
1) inscreva-se no programa de treinamento da Folha, que não exige o diploma.
2) pense em fazer a faculdade de jornalismo, mesmo que aos poucos, demorando mais tempo pra terminar. Que leve seis ou sete anos; parece muito agora, mas você é novo e será jovem ainda até lá.
3) tente sugerir pautas para revistas especializadas. Talvez as da sua área (publicidade) ou de algum outro assunto que você domine.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h58

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PL - fase 3

David Gray/Reuters                                                                                                                                                                 

Ler jornal é como escovar os dentes: tem que fazer todos os dias.
Falta de tempo nunca é uma justificativa aceitável

Se está seguindo o programa de leitura de jornais, a tarefa de hoje é:

Dia 22
Leia a Primeira Página com atenção e, ao terminar, rememore o que foi destacado. Depois, leia as capas de cada caderno (ou principais notícias de cada editoria, se o jornal não for dividido em cadernos). Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu. Escolha sete assuntos destacados na Primeira Página e que não são capa de caderno e leia as reportagens correspondentes.

Se ainda não começou, aproveite, comece hoje! Leia o programa todo e veja aqui como dar o primeiro passo.

Não sabe por que nem para que ler jornais? Veja o que eu acho sobre isso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 08h53

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Não consigo dormir sem teu braço

Não consigo dormir sem teu braço

No comentário, minha leitora Bruna pede: Que tal mostrar para os leitores do blog que existe uma luz no fim do túnel e jornalismo diário também é lugar para inovar no título?

OK, Bruna, vamos tentar. Um dos meus exemplos preferidos é este:

Metade dos separados rola sozinha na cama

Era uma pesquisa Datafolha sobre insônia. Poderia ter um título bem banal, algo como "48% dos divorciados e desquitados têm insônia". Mas foi buscar um verso de Lupicínio Rodrigues para atrair o leitor: "Quantas noites não durmo/A rolar-me na cama (...) Não consigo dormir sem teu braço/Pois meu corpo está acostumado" (da canção "Volta", escrita nos anos 50).

O título é bom porque atrai o leitor sem apelar. A imagem de Lupicínio ilustra de forma precisa a conclusão da pesquisa: os separados não conseguem dormir porque seus corpos estavam acostumados à companhia que agora perderam.

Mas não é fácil e nem sempre possível fazer isso todo dia, com toda matéria.

O que é título bom? Só dá pra responder se soubermos qual era o objetivo da reportagem.

Por exemplo, títulos de jornal são diferentes dos de revista, certo? Porque jornais pretendem informar rapidamente e revistas presumem que o leitor, já previamente informado do básico, procura algo diferente.

Mesmo entre jornais, há diferenças, por causa dos projetos editoriais e manuais de estilo.

E dentro de um mesmo jornal, as qualidades de um bom título mudam. Há reportagens cujo objetivo é informar rapidamente e outras que contam histórias. O título adequado a cada uma será necessariamente diferente.

É impossível dar regras gerais para títulos (e para qualquer outra coisa em jornalismo). Precisa olhar cada caso e pensar sobre ele.

Vamos pensar abaixo sobre alguns exemplos do jornal de hoje:

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h16

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O santo expulso

O santo expulso

Bruna pede títulos mais inovadores no jornal. Será que dá pra fazer isso sempre? Alguns exemplos do jornal de hoje:

1. matérias factuais

Visita a preso em SP ocorre normalmente - qual era o objetivo da reportagem? Agentes penitenciários haviam na véspera anunciado que, em protesto, impediriam as visitas de familiares aos presídios. O protesto fracassou. O título cumpre seu objetivo? Mais ou menos. Funciona perfeitamente para quem estava acompanhando o assunto e sabia que havia o risco de um bloqueio das visitas. Pra quem não sabia, é estranho: o que ocorre normalmente, em princípio, não é notícia. Qual seria uma opção? Protesto falha e visita é normal em presídios. Daria para inovar? Acho difícil. Poderíamos tentar chamar a atenção do leitor com uma palavra inusitada. Por exemplo: Sindicato não evita que "jumbo" entre nas cadeias. Para mim, é um título pior por dois motivos: a) é cifrado. Pode até despertar a curiosidade do leitor, mas não cumpre o objetivo inicial de informar rapidamente o que ocorreu; b) tem um tom popularesco, sensacionalista

No CE, caminhão perde a direção, atropela romeiros e mata oito - qual era o objetivo da reportagem? Contar o acidente. O título cumpre seu objetivo? Sim. Tudo o que importa está lá: o acidente, sua causa e suas conseqüências. Daria para inovar? Acho difícil. Qualquer idéia um pouco diferente me parece grotesca: "Caminhão faz romaria terminar no cemitério"? Nem pensar, né?

Palmeiras faz "final" para evitar férias - qual era o objetivo da reportagem? Dizer que, se o Palmeiras não vencer hoje, ficará mais de um mês sem jogos oficiais. O título cumpre seu objetivo? Sim, embora de maneira um pouco cifrada, já que "inova", como pede a Bruna. Qual seria uma opção? A opção menos "inovativa" seria "Se perder, Palmeiras fica um mês sem jogar". Prefiro a escolha do jornal.

2. reportagens  

São Paulo expulsou seu santo para o Rio - qual era o objetivo da reportagem? Contar que frei Galvão foi expulso de São Paulo em 1780. O título cumpre seu objetivo? Sim, de uma maneira que atrai o leitor. Qual seria uma opção? A versão menos inovativa seria "Frei Galvão foi expulso de São Paulo em 1780". Informa mais, mas é mais chata. Prefiro a escolha do jornal.

3. suplementos

Churrasco fora do ponto - qual era o objetivo da reportagem? Mostrar como evitar erros ao fazer churrasqueiras na varanda de apartamentos. O título cumpre seu objetivo? Sim. Faz um trocadilho com a palavra "ponto", que no título quer dizer o local da churrasqueira, mas cuja primeira leitura é o cozimento da carne. Qual seria uma opção? A mais comum seria "Evite erros ao fazer churrasqueira". Chata, né? Prefiro a do jornal.

O que os exemplos mostram?

1. Quanto mais quente, mais factual for a matéria, mais difícil é sair da informação pura no título.

2. Se a matéria é quente, factual, talvez o título informativo seja mesmo o mais adequado.

3. Quanto mais "inovador" for o título, menos evidente será a informação que ele quer comunicar. Ou seja, ganha-se em atração, perde-se em utilidade --é o custo/benefício que o jornalista terá que avaliar toda vez.

4. Quanto mais frio o assunto, ou o caderno, mais espaço há para títulos cifrados, sem verbo, provocativos.

No caso de matérias quentes, que são matérias-primas por excelência do jornal diário, eu pessoalmente acho que o segredo do bom título está na precisão vocabular --escolher a palavra precisa, a mais densa: "com mais informação por letra"-- e, principalmente, na escolha do verbo correto. Do verbo mais específico, mais forte, mais informativo, menos geral. Mas isso é tema para outro dia.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h15

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PL - fase 3

David Gray/Reuters                                                                                                                                                                 

OK, eu sei que é feriado! Mas ler jornal é como escovar os dentes: tem que fazer todos os dias.
Falta de tempo nunca é uma justificativa aceitável

Se está seguindo o programa de leitura de jornais, a tarefa de hoje está aí embaixo. Mas, como é domingo, sempre sobra um tempinho a mais, que tal ler o jornal inteiro?

Dia 21
Leia a Primeira Página com atenção e, ao terminar, rememore o que foi destacado. Depois, leia as capas de cada caderno (ou principais notícias de cada editoria, se o jornal não for dividido em cadernos). Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu. Escolha seis assuntos destacados na Primeira Página e que não são capa de caderno e leia as reportagens correspondentes.

Se ainda não começou, aproveite, comece hoje! Leia o programa todo e veja aqui como dar o primeiro passo.

Não sabe por que nem para que ler jornais? Veja o que eu acho sobre isso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h12

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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