Programa de Treinamento

Novo em Folha

 

Livros de ciência

Livros de ciência

René Decol reproduz em seu blog Lingua Franca a lista dos dez melhores livros de ciência, segundo a britânica Royal Institution.

A instituição tem 200 anos e se dedica a divulgar ciência.

Como diz Decol, os livros foram escolhidos também pelo valor literário, ou seja, interessam a todo mundo, não só a quem cobre ciência.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h49

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No país sem números

BRUNO LIMA, 28, é o correspondente da Folha em Buenos Aires. Participou da 33ª turma do programa de treinamento.

                                                                                         arquivo pessoal

Imagem de TV mostra transatlântico cheio de brasileiros encalhado no
rio da Prata em janeiro deste ano

Qual foi sua principal dificuldade (em termos gerais) quando começou a trabalhar como correspondente? O que você fez para resolvê-la?

Os colegas de Londres e Nova York contaram da dificuldade de conseguir entrevistas por trabalharem para um veículo latino-americano cujo nome ninguém sabe pronunciar direito. Na Argentina, ao contrário, a Folha de S.Paulo é considerada um grande veículo. É reconhecida pelas fontes, tem peso político, é requisitada. Meu telefone não pára de tocar. Recebo convites para festas e recepções importantes e faz parte da minha rotina atender ligações de assessores de imprensa (quase sempre de grandes empresas e eventos), como acontece na Redação no Brasil. Mas as semelhanças terminam por aí.

A maior dificuldade por aqui tem a ver com o fato de Argentina ser um país sem números. Explico. O governo não divulga estatísticas regulares de criminalidade e violência, por exemplo. Mas isso não é privilégio da polícia. Não há dados sobre praticamente nada: os números ou não existem ou não são públicos. Quantidade de processos na Justiça? Beneficiados por programas sociais? Multas de trânsito? Número de vôos que saíram com atraso? Sem chance. Não está tudo nos sites como é comum nos EUA ou até no Brasil. Para completar, os dados do Indec (o IBGE argentino) referentes a indicadores como taxa de inflação e desemprego estão sob suspeita de fraude e manipulação pelo governo (mas aí a notícia é outra).

O desafio é fazer jornalismo sem números. Ou revirar o mundo em busca de alguma coisa, alguma maneira de dizer o mesmo, sem o número. Já levei mais de um mês para conseguir um número para aí fazer matéria. Não é fácil e, em geral, na lógica do jornalismo diário, não há tempo para esperar. O único jeito é buscar especialistas e o relato de personagens, ouvindo todos os lados e buscando fatos para compensar o mero “achismo”. Os problemas, porém, não terminam aí.

 É normal escutar mais de dez pessoas para uma matéria sem que nenhuma delas autorize que seu nome saia publicado no jornal. A alegação é quase sempre o receio de sofrer retaliações. A matéria, assim, sai às vezes sem aspa nenhuma!

 Entrevistas com gente do governo? Na Argentina, o governo, como regra, não dá entrevistas. Jornais mais críticos como o semanal argentino “Perfil” (www.perfil.com) são “punidos” e não recebem nem um tostão sequer do orçamento da publicidade oficial. O presidente Néstor Kirchner tem uma relação tensa com a imprensa, e os funcionários do governo são ameaçados de demissão se falam com determinados veículos. Toda essa paranóia cria a idéia de que o melhor é não falar com ninguém. Até as “coletivas” dos ministros de Estado costumam ser mais pronunciamentos e, ao contrário do Brasil, são raríssimas as oportunidades de fazer perguntas.

 No caso de um veículo brasileiro, a tarefa pode ser mais penosa. Somos avaliados pelo governo como uma imprensa “perigosa” por ser crítica, interessada em meandros da política argentina e bem mais livre para escrever (sem as amarras da publicidade oficial ou das alianças políticas que travam boa parte da imprensa local). Além disso, o que escrevemos pode realmente ter algum impacto no país. Isso faz com que conseguir uma entrevista seja ainda mais difícil. E, em geral, temos menos fontes que os jornais locais para burlar as amarras e checar informações por canais que não sejam os oficiais.

 De certo modo, porém, senti que isso até me ajudou quando comecei. Já que todos são barrados, mesmo os que são correspondentes há uma década, o jogo fica um pouco mais equilibrado para o correspondente iniciante.

 O silêncio forçado do governo, somado a uma cultura do medo de falar que remete aos tempos da ditadura militar, faz com que na Argentina quase todas as informações sejam “off”, até mesmo o assunto mais banal.

 Quando um transatlântico cheio de brasileiros encalhou no rio da Prata em janeiro deste ano, fui a Puerto Madero buscar as autoridades da Prefeitura Naval, responsável por resgatar os passageiros, se necessário. Encontrei um simpático assessor de imprensa, que me atendeu com aparente boa vontade, dizendo estar à disposição.

 Fiz uma pergunta simples, que iniciou um diálogo quase surreal:

 - Quantas pessoas estão a bordo?

 A resposta veio quase como se o assunto fosse um plano para assassinar o presidente Kirchner:

 - São 1.600, mas isso é “off”, sim?

 - Como assim?

 - É, não fomos nós que passamos, não fui eu que passei.

 - Mas você não é o assessor da Prefeitura Naval?

 - Sim.

 - Não posso dizer “segundo a Prefeitura Naval...”?

 - Não.

 - Mas por quê? É só o número de passageiros, não é propriamente uma informação confidencial, é?

 - Não fui eu que passei.

 O mesmo aconteceu quando, na correria do fechamento de uma matéria sobre inflação, eu precisava do dado de 2005 para uma comparação. Uma assessora do Ministério da Economia me passou, “off the record”, que a taxa de inflação registrada em 2005 havia sido 12,3%. No fim da ligação, a fatídica frase: “Não fui eu que passei, tudo bem?”


As Mães da Praça de Maio

continua

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h17

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Funeral de um ditador

continuação


 
fechando matéria de um café de Buenos Aires

De todas as crises que você enfrentou, qual foi a que mais te ensinou?

 O trabalho mais difícil e também o mais emocionante foi a cobertura da morte do ditador chileno, Augusto Pinochet em 10 de dezembro. Era domingo e eu tinha acabado de chegar do aeroporto (estava voltando de Mendoza, onde fui fazer uma matéria para o caderno Turismo), abri a mala, pus umas roupas sujas na máquina de lavar, quando o telefone de casa tocou. Do outro lado da linha, Ana Estela, de plantão em SP, disse: “O Pinochet morreu. Você vai pra Santiago”. Eu nem tinha dormido direito, tinha ido a uma festa na noite anterior... Saí como estava, de volta para o aeroporto.

 No caminho, fui rindo de mim mesmo. Que vida louca, que vida boa, a cobertura que me esperava. Eu nunca tinha ficado tão feliz com a morte de alguém. “Que bom que o Pinochet morreu na minha gestão”, era o que eu pensava dentro do táxi. Na Folha, os correspondentes-bolsistas, como eu, ficam só nove meses no posto.

 Cheguei a Santiago no início da noite, a tempo de ver protestos e manifestações pelas ruas. Passei a madrugada inteira conversando com gente que comemorava e gente que chorava a morte do general. Acompanhei a remoção do corpo do hospital para a escola militar onde seria velado. Conversei horas com inúmeras pessoas, até encontrar os depoimentos mais emocionados e representativos. Não dormi. Eu estava muito agitado pra isso. No outro dia, velório o dia inteiro. Quando fui dormir, já era madrugada. Acordei cedinho e fui para o funeral. Foi incrível. Milhares de pessoas choravam, gritavam pelo general e insistiam em chamá-lo “presidente”, condição que a atual presidente chilena, Michelle Bachelet, não reconheceu ao vetar as honras de chefe de Estado para Pinochet. Fiquei no sol forte, sem protetor solar, sem água e sem comida por quase todo o dia. Não havia como sair dali _bom, até havia, mas eu não queria. Não senti fome nem sono. Não dava pra reclamar, era o funeral do Pinochet e era eu quem estava ali pra contar isso ao leitor.

 No fim da cobertura, eu estava tão cansado _estava um caco, na verdade_ que desmaiei no avião. Desmaiei mesmo, não foi só de sono, não. A pressão foi lá pra baixo. Foi questão de segundos e logo fiquei bem. Eu fiz tudo errado, não tinha me alimentado direito. Fiquei tão absorvido pelo trabalho que me esqueci de mim. Mas a paixão pelo jornalismo tem mesmo dessas coisas, acho. A gente se submete a tudo.


após passar mal no avião, completamente destruído,
abatido e com olheiras depois de "enterrar"
[na verdade, ele foi cremado] Pinochet

 Ser correspondente internacional é um desejo de muitos jornalistas. O que você sugere para quem está no começo de carreira e tem esse sonho?

 Sou o mais jovem entre os correspondentes dos veículos brasileiros na Argentina. Tenho 28 anos. Participei da seleção interna do jornal e vim para Buenos Aires com o respaldo da Folha. Mas não é impossível cavar um espaço como correspondente sem estar contratado por um grande veículo. Tenho dois colegas aqui (os correspondentes de um grande jornal e de uma rede de televisão brasileira) que vieram com a cara e a coragem e depois se estabilizaram. Um deles, que está aqui há cerca de dois anos, ainda ganha por trabalho, mas está tendo a experiência internacional que queria.

 A Argentina não é um mercado fácil, já está bem coberta por correspondentes fixos. Mas quem está começando pode identificar oportunidades em países que se tornarão mais importantes no cenário mundial nos próximos anos. Acho totalmente possível buscar contatos para frilas em internet, jornais, revistas, rádio ou TV, depois fazer as malas e ir.

 
Cobrindo protesto anti-Bush liderado por Chávez em
um estádio de futebol em Buenos Aires

Você fez alguma preparação especial para trabalhar como correspondente internacional? Qual?

 Não fiz nenhuma preparação especial para trabalhar como correspondente. Na verdade, acho que ter cara-de-pau e gostar de aprender e escrever sobre assuntos diversos são os principais requisitos. Hoje, boa parte do meu tempo é dedicado a estudar a história argentina. É um prazer ler um montão de livros sobre isso, mas é também parte do meu trabalho, já que não há um só dia por aqui sem que uma referência histórica apareça em algum discurso ou seja crucial para explicar ao leitor uma notícia quente.

 Um antropólogo argentino que entrevistei me disse que, se o Brasil é o país do futuro, a Argentina é o país do passado. A teoria é que os “hermanos” cultuam seu passado de forma tão fantasiosa e idealizada como os brasileiros enxergam seu futuro.

 Na Argentina, as pessoas são capazes de se matar por coisas que aconteceram há 40, 60 anos. A remoção dos restos mortais do presidente Juan Domingo Perón para um museu, por exemplo, terminou em tiroteio e violência generalizada. Foi preciso entender e explicar isso. A política de direitos humanos de Kirchner, que impulsiona a condenação de ex-presidentes e repressores da última ditadura militar argentina (sim, foram várias), gera notícias que sempre precisam muita contextualização.

 É claro que a história é essencial para entender qualquer país, mas, na Argentina, praticamente não há notícia que comece hoje. Tudo vem de longa data. Para um novo correspondente, isso dificulta bastante o trabalho e exige ainda mais dedicação.

 Qual era sua formação quando você começou?

 Comecei na Folha como trainee na 33ª turma em 2001, após estudar direito e jornalismo e ter trabalhado com publicidade. Fui repórter das editorias de Cotidiano, Dinheiro, Negócios e Empregos. Também atuei como redator em Brasil e como editor-assistente de cadernos especiais de Suplementos. Antes de ser correspondente, já havia colaborado para quase todas as editorias do jornal.


A 33ª turma (Bruno está de camisa marrom, à esquerda)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h16

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Comentários e contexto

Nem bem tinha dado a mancada com meus leitores , recebi um e-mail de minha amiga Heloísa sobre o mesmo assunto.

Falava dos comentários ao texto do em que Pedro Dias Leite conta como não entrevistou Bush.

Alguns leitores criticaram o Bush, um detonou meu título, outros só comentaram. Um deles criticou o texto do Pedro.

Confesso que pensei bastante antes de deixar passar.

Uma coisa é eu levar as pauladas; outra é expor alguém que convidei, que me fez uma gentileza.

Achei melhor manter a decisão que tinha tomado desde o começo: publicar todo comentário que tenha a ver com o blog e não seja ofensivo.

Na coluna feita pelo Pedro, eu deveria ter explicado melhor como ela surgiu: ele tinha acabado de chegar da rua e estava me contando como os seguranças trogloditas tinham avançado para cima dele quando tentou fazer uma pergunta. Na hora pensei que era uma história que merecia ser contada, já que a maioria de nós nunca teve nem terá a chance de cobrir o presidente dos Estados Unidos.

Não era para ser, portanto, um ensaio profundo. Era só para contar um dia na vida de um repórter. Mas não deixei isso claro no post.

Está aqui, de novo, a questão do contexto. Ele é fundamental em jornalismo. Explicar o contexto coloca a informação no seu lugar correto, dá a ela o devido peso.

Nesse dilema dos comentários, pelo menos não estou sozinha. Graças à sugestão da Helô, li esta coluna do Tutty Vasques. No bom extrato feito por minha amiga, ele diz o seguinte:

"[...] Detonar de vez essa porcaria e voltar ao tempo em que jornalista escrevia, leitor lia, o resto era papo de botequim, onde todo mundo tem direito de dizer bobagens. Cá pra nós, seria a derrota da interatividade, que encontrou na Internet o primeiro veículo vocacionado para exercê-la."

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h40

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Desculpem, leitores

Acabei de fazer uma trapalhada!

Na hora de aprovar os comentários, sem querer, apaguei quatro deles.

Peço mil desculpas aos leitores que tinham se dado ao trabalho de comentar e prometo tomar muito mais cuidado no futuro.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h31

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Você contrataria um assaltante como segurança?

Texas State Historical Association/Associated Press

Você teria aulas de português com um professor que diz “pra mim fazer”?

Consultaria um dentista que não escova os dentes?

Contrataria um segurança assaltante?

Jornalista que não lê jornal é um absurdo tão grande quanto qualquer dos três acima.

Não é exagero.

Dá para ser jornalista sem ler jornal? Não. Dá para ser apertador de botão, capivara com gravador, moleque de recados da fonte. Nada disso é jornalismo. Impossível propor uma pauta sem saber se ela é inédita, impossível entrevistar alguém sem entender o contexto em que ele está.

Mas alguns não lêem. Quer ver um bom (?) exemplo? Coordeno uma disciplina sobre jornalismo diário --um estudo de caso baseado na experiência da Folha.

A disciplina é optativa, ou seja, faz quem quer. Não é fácil de passar: tem que fazer trabalho e a cobrança é rígida. Então, supõe-se, o aluno que está lá não quer ganhar uns créditos fáceis. Está lá porque se interessa por jornalismo diário. No primeiro dia, pergunto quem lê jornal diário todos os dias. Sabe quantos levantam a mão? Menos de dez por cento.

Só para repetir, são estudantes de jornalismo de uma das principais universidades brasileiras, numa disciplina optativa sobre jornal diário. E não lêem jornal.

Alguma coisa está errada com eles e com os jornais, certo?

Sobre os jornais, já se fala bastante. Vou deixar essa parte para o ombudsman e falar sobre nós, jornalistas.

Por que, então, os estudantes não lêem?

Acho que pelos mesmos motivos de quem não faz ginástica: falta de tempo, falta de hábito e preguiça. Os três fatores alimentam um ao outro e acabam imobilizando a pessoa.

Como na ginástica, é preciso começar devagar e aumentar progressivamente. Quanto mais você progride, mais fácil fica. Ao longo dos dias, mais informado, você leva menos tempo para ler as principais reportagens.

Como isso faz de você um estudante melhor, um jornalista melhor e uma pessoa mais cheia de assunto, você começa a se sentir bem e tem menos preguiça de continuar lendo.

Como na ginástica, é preciso força de vontade e disciplina no começo. Proponho, então, abaixo um roteiro para começar a ler jornais:

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h24

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Passo a passo para ler jornais em 31 dias

Tuca Vieira/Folha Imagem

Escadaria da torre da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo

Aquecimento
Pegue sua agenda e separe 30 minutos por dia.
Esse tempo você terá que tirar de algum lugar: acorde mais cedo, deixe de ver um seriado, use o trajeto do ônibus.  O ideal é ler de manhã, mas pode ser a qualquer momento do dia, desde que você assuma o compromisso de dedicar  meia hora à leitura de jornais.
 Se não conseguir reservar esse tempo na sua agenda, reavalie seu interesse pela profissão.

Ler jornal é como escovar os dentes: tem que fazer todos os dias. Falta de tempo nunca é uma justificativa aceitável

Primeiro dia
Leia a Primeira Página, com atenção --leia todas as chamadas, gravando as informações. Quando terminar, tente se lembrar de que notícias foram destacadas pelo jornal naquele dia. Escolha a que mais chamou a sua atenção e leia a reportagem interna, prestando atenção nas informações. Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu.

Dia 2
Repita o procedimento do primeiro dia, mas leia duas reportagens.

Dia 3 ao dia 10
Repita o procedimento anterior e aumente uma reportagem por dia. No décimo dia, você deverá estar lendo todos os textos que tenham sido destacados na Primeira Página.

Dia 11 ao 15
Leia a Primeira Página com atenção e, ao terminar, rememore o que foi destacado. Depois, leia as capas de cada caderno (ou principais notícias de cada editoria, se o jornal não for dividido em cadernos). Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu. Reflita sobre que reportagens foram destacadas na Primeira Página e quais foram escolhidas para abrir cada editoria. NOTA: nestes cinco dias você só precisa ler integralmente as principais reportagens de cada editoria. Não precisa ler todas as reportagens chamadas na Primeira Página, apenas os abres das editorias.

Dia 16
Leia a Primeira Página com atenção e, ao terminar, rememore o que foi destacado. Depois, leia as capas de cada caderno (ou principais notícias de cada editoria, se o jornal não for dividido em cadernos). Quando terminar, feche o jornal e rememore o que leu. Escolha um assunto que foi destacado na Primeira Página e não é capa de caderno e leia a reportagem correspondente.

Dias 17 a 25
Repita o procedimento do dia 16, mas acrescente a cada dia a leitura de uma reportagem que tenha sido destacada na Primeira Página, além das capas de cada caderno. No dia 17, portanto, você vai ler todas as capas mais duas reportagens; no dia 18, todas as capas mais três reportagens, e assim sucessivamente até que esteja lendo todas as reportagens destacadas pela Primeira Página e todas as capas de caderno.

Dia 26
Leia a Primeira Página e folheie todo o jornal. Se você seguiu à risca o cronograma, está suficientemente bem informado sobre os principais assuntos factuais e já pode escolher a quais assuntos vai dedicar mais tempo de leitura. Faça isso: leia as reportagens que julgar relevantes para continuar bem informado.

Dias 27 a 30
Repita os procedimentos do dia 26, mas leia também os editoriais e todos os colunistas fixos do jornal.

Dia 31
Fique feliz. Você agora gasta muito menos tempo para ler o jornal e está muito mais bem informado.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h24

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Pronto para disparar

Eram 7h quando Henrique Esteves ouviu os tiros.

Olhou em volta e viu um rapaz correndo.

Já estava longe. Não dava mais tempo de disparar.

-- Fui baleada, fui baleada! -- Gritava, pela janela, uma moça.

-- Pára o carro! Pediu Henrique ao motorista.

-- Pô, aqui? Não vai dar não.

-- Pára logo, vai, respondeu Henrique, já saindo pelo meio do acesso da Linha Amarela, no Rio, com a câmera engatilhada.

O resultado está abaixo:
                                                                               Henrique Esteves/AgifPress







Gabriele de Lemos Vera, 35, é atingida no braço por bala perdida na Linha
Amarela; seu marido, Irlan Rodrigues, ampara a mulher e depois faz um
torniquete com a camisa (as fotos foram publicadas na Folha de hoje)


Novo em Folha - Como é que você estava ali bem na hora dos tiros?

Henrique Esteves - Precisava fazer uma pauta na Reduque, e o caminho que o motorista da refinaria estava fazendo estava congestionado. Sugeri uma alternativa que sempre pego, pela Linha Amarela, para chegar à av. Brasil. Quando íamos pegar o o acesso à Linha Amarela, ouvimos os estampidos.

Novo em Folha - Você viu o quê?

Esteves - Começamos a procurar e vimos um rapaz correndo, mas já estava bem longe, não dava mais para fotografar.

Novo em Folha - Você estava com a câmera pronta?

Esteves - Quando saio, sempre levo a câmera na mão ou no colo, sempre ligada.

Novo em Folha - E como você viu a moça ferida?

Esteves - Começamos a ouvir buzinas insistentes e vimos um carro prata tentando passar, com o pisca alerta ligado, mas os outros carros não davam passagem. Então a moça pôs a cara para fora do vidro e começou a gritar "fui baleada, fui baleada". Pedi na hora para o motorista parar, saí no meio dos carros e comecei a fotografar. Pediram que eu me retirasse, mas continuei fotografando. Foi instintivo.

Novo em Folha - Quem pediu que você saísse?

Esteves - O pessoal da concessionária, que estava parado perto do acesso. O marido da moça parou o carro onde eles estavam para pedir ajuda.

Novo em Folha - Por que eles queriam que você saísse?

Esteves - Estava no meio da via, os carros passando do meu lado.

Novo em Folha - Você é fotógrafo há muitos anos?

Esteves - Trabalho com fotografia há dez anos, mas, com fotojornalismo, comecei há dois.

Novo em Folha - Já tinha feito algo parecido?

Esteves - Já tinha feito seqüências emocionantes, casos em que alguém já estava morto e os parentes chegavam, mas um flagrante como este, não.

Novo em Folha - Sentiu algo diferente?

Esteves - Me senti impotente. Porque eu queria ajudar, mas não tinha recursos.

Novo em Folha - O casal reclamou das fotos?

Esteves - Na hora a moça pediu que eu não tirasse, mas foi instintivo. É o meu trabalho. Por conta disso, as pessoas ficaram vendo o que é o Rio de Janeiro, que você pode ser baleado às 7h, indo para o trabalho.

Novo em Folha - E depois disso você ainda conseguiu ir fazer sua pauta na Reduque.

Esteves - Fui, porque tinha me comprometido e eles queriam que fosse eu o fotógrafo. Não podia faltar. Mas até comentei com meu repórter que a cena não saía da minha cabeça. Fiquei o dia todo com a cena na cabeça.

Novo em Folha - Você lembrava de quê?

Esteves - Meu repórter foi tentar ajudar a moça, e ela pedia "Moço, me ajuda, pelo amor de Deus, não quero morrer". Nessa noite eu nem dormi.
Podia ter sido com a minha mulher, a gente sempre passa por ali.

Novo em Folha - Quantos anos você tem?

Esteves - 40.

Novo em Folha - Que equipamento você usa?

Esteves - Uma Canon 10D, lentes 16-35, 28-70 e 70-300 e flashes.

Novo em Folha - Você me disse que sempre deixa a câmera engatilhada. Com que lente ela fica?

Esteves - Com a grande angular, a 16-35.

Novo em Folha - Para fotografar mais de perto?

Esteves - Porque ela tem mais abrangência, pega um ângulo maior. Depois, se precisar aproximar mais, ou se precisar ficar numa posição mais discreta, troco para a zoom [70-300].

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h57

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Correspondentes

Correspondentes

A Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil vai fazer uma mesa redonda com correspondentes de veículos como "Financial Times", Reuters e "The Independent", no dia 29/3.

Leia entrevistas com os correspondentes da Folha em Nova York e Londres

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h32

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Avise os colegas

Sergio Moraes/Reuters - 2.jun.2004

Ronaldo dribla dois argentinos no Mineirão, em Belo Horizonte (MG)

A dica de hoje para driblar o QI é de Juliana Rose, repórter do jornal "Diário do Pará", de Belém.

Após me formar pela Universidade Federal do Pará (início de 2005), fiquei cerca de cinco meses em desespero. Se a nossa colega do RN reclama que lá tem poucas ofertas de trabalho, em Belém é pior ainda.

O que recomendo é: união. Me uni a uma amiga de curso e decidimos espalhar currículos. Um dia ela me liga e diz: "Juliana, estão fazendo testes para repórter no Diário do Pará. Vou fazer o meu esta semana". Não perdi tempo: liguei para a redação, pedi para fazer um teste. Depois dos testes, fiquei sabendo que metade de minha turma da Federal estava no mesmo processo seletivo.

Após mais uma semana, minha amiga me ligou para dizer que foi chamada para trabalhar no jornal. Fiquei feliz por ela mas, lógico, também fiquei triste, pois pensava que só havia uma vaga. Eis que ela me dá a boa notícia: "Parece que vão te chamar no próximo mês".

Mas, quem disse que chamaram? Decidi ligar e pedir mais uma chance. De lá me disseram: de novo? Mas você já fez dois! Respondi: Mas o que que custa? Lá estava eu na redação no dia seguinte. Ai sim, pouco tempo depois, fui convocada para ser repórter do Diário do Pará.

Um dos grandes problemas, acredito eu, hoje em dia, é o medo que os próprios colegas de curso têm do currículo do outro. Dificilmente uns avisam aos outros onde há vagas. Mas nunca fui assim, pois sempre confiei em minha formação e procuro, sempre que possível, alertar sobre vagas e concursos aos meus colegas. Se minha amiga não pensasse assim também, provavelmente eu estaria desempregada hoje.

Dentro do Diário pude realizar um dos meus desejos de carreira: ser repórter de cultura. Esta conquista não caiu do céu, mas dependeu um pouco da sorte. Eu era repórter de geral e precisei resolver uma matéria com a chefia de Redação, com a qual nunca havia tido contato direto antes. Após resolver o problema, conversei com o chefe informalmente e expressei minha vontade de trabalhar no Caderno D (o caderno cultural do Diário). Naquele momento não havia vagas, mas cerca de um mês depois surgiu a oportunidade. E o chefe lembrou de minha conversa e me convocou.

Desta minha experiência, recomendo que os novos percam a vergonha e tentem sim ir às redações e pedir uma chance, mas tendo o cuidado de não parecer chato. Não há nada a perder.

Se o assunto o interessa, coloquei num post abaixo dicas para quem está procurando o primeiro trabalho.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h03

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investigação

investigação

De 24 a 27 de maio, no Canadá, jornalistas de mais de 30 países participam da Conferência Global de Jornalismo Investigativo.

Inscrições já estão abertas. O site fala em bolsas para jornalistas de países em desenvolvimento, mas não há informações precisas sobre isso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h06

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Imigrantes

Associated Press

Raio X mostra imigrantes ilegais em caminhão no porto de Calis, na França

 O Internacional Center for Journalists recebe até 19 de março inscrições para um curso sobre cobertura de imigração.

É dirigido a jornalistas da América Latina e dos EUA, será em abril, em Washington, e os selecionados terão as despesas pagas.

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h47

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O estado da mídia

O estado da mídia

A Universidade Columbia (EUA) faz anualmente, desde 2004, um extenso relatório sobre a mídia americana.

Acabou de sair o de 2007.

É muito completo, com os dados mais atualizados, organizado por tipo de veículo.

Leitura obrigatória para quem estuda jornalismo.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h19

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Viagem com Bush

Texto curioso do correspondente em Washington do "La Vanguardia" sobre a viagem com Bush.

Faz par com o relato do Pedro sobre a cobertura em SP.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h11

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Outras línguas

Outras línguas

A dica é de uma aluna do oitavo semestre do Mackenzie:

Era uma das estudantes "revoltadas", que achava que o QI era a única solução.

Correr atrás do prejuízo é um dos meus novos lemas. “Quer? Então faça por merecer.”

Decidi fazer aulas de árabe e até consegui um curso gratuito. Sei que o domínio de tal língua abrirá muitas portas de emprego no futuro para mim. E se não abrir, sem problemas. Não vou morrer por causa disso.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h25

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Para saber se há novos posts

Para saber se há novos posts

Associated Press

Acabo de aprender com a Dani Arrais, que foi da 42ª turma (e é blogueira), que leitores podem ser avisados quando há novos posts no blog.

Pela cara que ela fez quando disse que não sabia, imagino que eu seja um dinossauro internético. Devo ter alguns leitores dinossáuricos também, por isso essa dica é para eles.

Vários sites usam o formato RSS (geralmente, os sites que têm RSS são identificados por um quadradinho laranja, em que pode vir escrito "XML", como o que você pode ver aqui no blog, no menu da direita, lá embaixo).

Clicando ali, você pode se inscrever e receber "feeds" (resumos atualizados, com os títulos das novas notícias).

Se o leitor tiver um agregador (programa que busca esses feeds), toda vez que o blog é atualizado, ele recebe uma notificação.

Ou seja, em vez de lembrar do site, de ter que abrir o explorer e digitar o endereço, os posts já aparecem automaticamente.

A Daniela usa o www.feedreader.com: "O programa é leve, menos de 5mb _ou pouco maior do que uma música em MP3). Outro muito usado, diz ela, é o www.bloglines.com, que permite que você visualize as atualizações na web, como em um webmail. E o  www.rssreader.com/, que é gratuito.

Juliana Laurino/Folha Imagem

Daniela e Salvatore, da 42ª turma, em reportagem em Santa Cruz do Sul

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h47

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Quem quer ler tudo isso?

Quem quer ler tudo isso?

                Marcelo Ximenez/Folha Imagem

Meu leitor mais crítico acabou de me ligar e comentou:
 
-- Estou gostando do blog. Mas os textos estão muito longos.

Tentei me defender. Fui abrir o blog para argumentar e vi que ele tinha razão. As mensagens estão quilométricas.

Ninguém mais tem tempo para ler tanto. E sempre dá para editar (este, aliás, é um exercício que faremos no programa de treinamento). 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 16h27

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Dez semanas na ONU

Dez semanas na ONU

A ONU vai selecionar jornalistas que tenham entre 25 e 35 anos para um programa de dez semanas em Nova York.

Inscrições vão até 17/4.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h49

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Como driblei o QI (Quem Indique)

Como driblei o QI (Quem Indique)


Na semana passada, quando escrevia dicas para minha leitora baiana que quer começar a trabalhar como jornalista, tentei encontrar uma lista de jornais com estágio.

Tentei na lista de discussão da Abraji, da qual participa gente de todo o Brasil interessada em investigação jornalística.

Não achei.

Minha colega Emídia Felipe, repórter de economia e do blog Mercado.com, do jornal Tribuna do Norte  (RN), passou os contatos de jornais potiguares (no pé deste post) e comentou: "Eu, que não tinha QI, precisei me virar".

Pedi que ela contasse a história, para incentivar quem está hoje naquele ponto do caminho. Como ela mesmo diz, não é uma receita de bolo. É um depoimento. Cada um vai achar seu próprio rumo.

Quem tiver outras dicas sobre como driblar o QI, me escreva, que vou colocando no blog.

EMÍDIA FELIPE
Repórter de economia da Tribuna do Norte (RN)

O mercado aqui é restrito. Temos dois grandes jornais, dois menores e um menor ainda. Uma TV "padrão globo", duas secundárias e três bem menos populares.  Empresa de grande porte de assessoria só uma. Bom, ninguém disse que era fácil. Parecia ainda mais difícil quando estava estudando (2001 a 2006) e o curso da federal não tinha sequer um jornal laboratório de vergonha. Trabalhar me pareceu o melhor caminho para praticar o jornalismo.

Sempre escuto e leio em "fóruns" (como as comunidades de jornalismo potiguar do Orkut) que aqui é complicado arrumar uma vaga, porque todo mundo tem que ter QI (Quem Indique) e as "panelinhas" deixam os bons de fora. Mas eu não podia ficar esperando que a situação mudasse. Depois do meu primeiro estágio*, que consegui indo até a empresa e mostrando que estava disposta a aprender, o segundo demorou três meses para aparecer. Deixava meus currículos, sem resposta. Até que, na penúltima tentativa, resolvi fazer diferente: abri o site do jornal e cliquei na seção "Expediente", observando a hierarquia até chegar em "Diretor de Jornalismo". Liguei para lá e pedi para falar com ele.
- Quem gostaria?
- É Emídia, da UFRN.
Disse quem eu era, que queria estagiar, e ele me mandou levar o currículo para a chefia de redação. Dois dias depois, me chamaram. Depois de dois meses, fiz três anos e oito meses de estágio remunerado. Fui contratada - com carteira assinada - um mês antes de ser convidada para outro jornal. E, quando ainda estava no primeiro emprego, um assessor de uma secretaria estadual - que até então me conhecia só de "pauta e texto" me chamou para trabalhar com ele, um ano antes de o meu editor me convidar para fazer a assessoria de uma instituição onde trabalho até hoje.

Sorte? Bênção? Provavelmente. Sou cristã e agradeço sempre a Deus pelas oportunidades que ele me dá. Não estou dando receitinha básica para conseguir trabalho. Mas ficar esperando, reclamando e não tentar torna as coisas ainda mais difíceis. Quando estava estagiando, ouvi críticas como "Como você pode se deixar explorar assim? Eu nunca faria isso!". Para elas, eu disse que, de fora, eu não conseguiria mudar a situação. É preciso entrar no sistema e, lá dentro, fazer algum esforço para mudanças futuras.

*Na minha família, na época, a única pessoa que tinha feito jornalismo antes de mim era uma prima, mas ela não chegou a exercer a profissão. Entre os amigos dos meus pais - um mecânico e uma ex-professora -, tios e parentada em geral também não havia jornalistas. No terceiro período do curso, depois de trabalhar dando aulas de informática, resolvi bater à porta do
Cabugi.com - site que era da filiada da Globo daqui. Consegui o estágio, mesmo tendo que, com a ajuda do coordenador do curso, começar a estagiar um ano antes do permitido. Motivos pessoais meus e mudanças da empresa se uniram e resultaram em minha demissão 11 meses depois. Passei três meses parada, só estudando e procurando outro estágio.

Fotos Marcelo Sayao/EFE - 27.jun.2006

O atacante Ronaldo dribla o goleiro Kingson antes de marcar durante a vitória
da seleção brasileira por 3 a 0 sobre a seleção de Gana, em partida válida
pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 2006, em Dortmund, na Alemanha

JORNAIS DO RIO GRANDE DO NORTE QUE TÊM ESTÁGIO:
Tribuna do Norte (www.tribunadonorte.com.br)
Diário de Natal (www.diariodenatal.com.br)
Jornal de Hoje (www.jornaldehoje.com.br)
Correio da Tarde (www.correiodatarde.com.br)
JH 1ª Edição (sem site)

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h39

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Esqueceram-se de mim

Esqueceram-se de mim

Tive uma conversa hoje com alunos de jornalismo da USP. O professor pediu que eles escrevessem um texto de 20 linhas, por isso vários colocaram um gravador na minha frente e outros anotaram.

Terminado o encontro, todo mundo foi saindo, alguns já tinham ido embora, quando uma colega do jornal veio de dentro da sala com três gravadores na mão e um papel dobrado --as anotações de alguém.

Foi o motivo de eu começar hoje a escrever sobre instrumentos básicos do jornalista.

As primeiras dicas serão sobre anotações:

1. prefira usar um bloco. Folhas soltas se perdem, saem da ordem, fazem você perder um tempão na hora de decifrar o que anotou. Folhas soltas, só em emergências (minha amiga Claudia Collucci é uma das únicas pessoas que eu conheço capazes de anotar entrevistas em guardanapos de papel, no meio do almoço, de forma organizada e compreensível. Mas ela desenvolveu uma técnica especial pra isso).

2. se usar folhas soltas, numere-as. Assim que puder, grampeie todas na ordem.

3. coloque seu nome e telefone no bloco ou nas folhas. Vai que você as perde ou esquece, como fez a aluna de hoje... pelo menos ainda há uma chance de elas serem devolvidas.

4. anote na capa do bloco as pautas que ele contém e as datas em que foram feitas.

5. guarde os blocos por pelo menos seis meses, para o caso de alguma informação ser contestada. Esse é um dos momentos em que ter as pautas anotadas na capa ajuda muito.

6. reveja as anotações o mais rápido que puder e certifique-se de que você consegue entender tudo o que anotou. Em caso contrário, ligue para a fonte e repasse as dúvidas.

7. passe os contatos e telefones anotados no bloquinho para sua agenda telefônica ao final de cada dia. Sem essa disciplina, você acaba perdendo os contatos. Quando precisar falar de novo com aquela fonte, vai ser quase impossível localizar o telefone em meio aos bloquinhos.

Obervação adicional, motivada pelo comentário que copio abaixo: fitas gravadas são sempre o melhor instrumento na hora de provar que alguém realmente disse algo. Mas nem sempre é possível usar o gravador e, nesses casos, os blocos podem servir como prova num processo.

Para isso, claro, é importante que as anotações estejam legíveis e que você consiga encontrar o bloco quando precisar dele.

Ana, bem legal esse post. Pode parecer bobagem, mas pensar em detalhes como esses faz toda a diferença. Só tenho uma dúvida: no caso de a informação ser contestada por alguém, será que o bloquinho pode "provar" alguma coisa? Ou só o gravador mesmo? Eu, particularmente, sou adepta dos blocos, mas não sei se eles ajudam nesse caso.
Renata | renatamaral@hotmail.com | Recife - PE |  13/03/2007 23:21

 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h39

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repórteres, cientistas, blogueiros

repórteres, cientistas, blogueiros

Cada uma das sugestões veio de uma fonte diferente.

Pela manhã, o professor Dirceu Lopes, da ECA-USP, sugeriu a seus alunos do segundo ano de jornalismo que leiam "Repórteres", livro organizado pelo jornalista Audálio Dantas, com a história de repórteres experientes. É da editoria Senac. Dirceu coordena a Agência Universitária de Notícias, produzida por seus alunos. O conteúdo deveria estar disponível on-line neste site, mas agora há pouco, quando tentei acessar, não consegui.

À tarde, o editor de Ciência da Folha, Claudio Angelo, deu uma aula para repórteres da Folha sobre como entender pesquisas (como saber se elas foram bem feitas, se os resultados são confiáveis etc). E sugeriu a leitura de "O Mundo Assombrado pelos Demônios", de Carl Sagan (Companhia das Letras), para ajudar a duvidar de muita coisa.

Agora à noite, o editor-assistente de Esporte Alec Duarte, também professor de jornalismo online, sugeriu "Blog - Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo", de Hugh Hewitt (Editora Thomas Nelson). Alec escreveu por muito tempo a coluna Papo de Esporte.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h27

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Fiquei a quatro metros de Bush,...

...mas não o entrevistei.

                                                                                                Juliana Laurino

PEDRO DIAS LEITE participou da 28ª turma de treinamento (é o menino de camisa listrada azul na foto abaixo, tirada em 1998, no final do curso). Foi correspondente da Folha em Nova York e hoje é repórter da Sucursal de Brasília.

Abaixo ele conta como não entrevistou o presidente americano em sua passagem relâmpago por São Paulo na semana passada.

A cobertura do homem mais poderoso (e odiado) do mundo

A primeira aparição de George W. Bush na sexta-feira era apenas às 10h30, em Guarulhos, mas o dia começou muito mais cedo para quem fora escalado para fazer a cobertura do presidente dos Estados Unidos. Às 8h, todos os jornalistas tinham de estar reunidos num hotel próximo ao aeroporto, para receber as instruções de como seria o evento na Transpetro, uma espécie de grande posto de gasolina, onde caminhões são abastecidos com o combustível que levam ao posto.
 
Estranhei. Imaginei agentes norte-americanos nos revistando já no lobby do hotel, nossos laptops cheirados e babados por cachorros treinados para farejar bombas, mas nada. Só pães de queijo, sucos de caju e de laranja e docinhos.
 
Pouco antes do momento de entrar nos ônibus que nos levariam à Transpetro, um funcionário do Itamaraty me chamou e pediu que fosse a um local reservado do hotel. Fui escolhido, por ser repórter da Folha de S.Paulo, para estar num "pool" que poderia chegar muito mais próximo de Bush, enquanto outros colegas ficariam a dezenas de metros do norte-americano.
 
A explicação é longa, mas vale a pena: quando Ronald Reagan sofreu um atentado, nos anos 80, não havia repórteres com condições de obter informações sobre o presidente, porque não havia ninguém perto o suficiente para fazer a matéria.

Por meia hora, os EUA não souberam o paradeiro de seu presidente.

Depois disso, o Congresso aprovou uma lei que tornava obrigatório que a imprensa acompanhasse todos os deslocamentos do seu líder. Foi então criado o "White House Press Pool", em que 15 jornalistas de veículos importantes acompanham de perto as viagens do presidente. (E pagam por isso. Para cobrir a viagem à América Latina, foram US$ 20 mil por veículo).

De volta ao que motivou a explicação, o governo brasileiro poderia, para ficar em pé de igualdade com os americanos, escolher 15 jornalistas para ficarem mais próximos de Bush.
 
Cheguei à Transpetro numa van separada, com outros 14 jornalistas, e nova surpresa. Mais uma vez, nenhum agente norte-americano. Apenas um pórtico com o detector de metais, o mesmo usado nas viagens de Lula pelo Brasil.

O grau de segurança para ver Bush era exatamente o mesmo para ver Lula em Cruz das Almas (BA). Até os seguranças eram os mesmos do Palácio do Planalto, que chamam pelo nome quem estão cansados de ver todo dia em Brasília.

A única diferença era um pequeno aparelho, com um visor com uma agulha, que era usado para medir a radiação. Nada demais.
 
Lula chegou, de helicóptero, às 10h10. Bush, de carro, às 10h20. Os repórteres norte-americanos, que vieram no comboio do norte-americano, apareceram logo depois. Mas os dois presidentes foram para uma tenda, com ar-condicionado, enquanto esperávamos sob o sol, diante de um cenário bem simplesinho, montado para fazer uma foto: cestos com sementes de mamona, de cana de açúcar, de soja, tudo usado para fazer biocombustível, e uma pequena maquete.
 
Eram 11h10 quando Bush e Lula surgiram. Os dois sem gravata, Bush anda como se tivesse os braços longos demais, e, apesar do clichê, a descrição é essa mesma: parece um caubói de filme antigo norte-americano, andando com os braços com os cotovelos curvados para fora e as pernas meio abertas.

Fora isso, sua figura é até simpática. Vi o norte-americano a uns quatro metros de distância.
 
Depois da "photo-op" _montada para estar nas capas dos jornais do dia seguinte_ fomos todos para outra tenda, onde os dois discursaram por dez minutos cada um. Atalhei a história para chegar ao ponto mais importante: como eu não entrevistei George W. Bush.

Ao final do evento, os dois se aproximaram da platéia, para cumprimentar conhecidos, distribuir comentários, o de sempre. Como já fiz em uns 15 países, sempre em viagens seguindo Lula, na América do Sul e na África, tentei me aproximar: "Mister president, an interview for Brazilian media", disse, a menos de um metro de Bush.

A maioria sempre diz uma ou duas frases, suficientes para uma matéria, uma gracinha.

Foi então que vi respondida a pergunta que eu fizera desde as 7h30: onde estava a segurança norte-americana? Surgiram uns cinco seguranças, aparelho de comunicação no ouvido, e formaram uma barreira.

"Ele não vai falar com a imprensa agora. Para trás, para trás. De volta para o seu lugar". Não deu nem para discutir. Uma colega que me seguiu ainda tentou a velha desculpa de "eu não falo sua língua", mas não teve jeito. Bush não ia falar.
 
Ainda tive de esperar quase mais uma hora para entrar no ônibus que me levaria de volta ao hotel. Mais de uma outra hora para chegar à Redação. Não, não entrevistei George W. Bush. E ainda fiquei com o rosto um pouco vermelho _esqueci de passar o protetor solar, que (quase) nunca esqueço.
 

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 17h28

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Não consigo começar a trabalhar

Não consigo começar a trabalhar

Anna Carolina Negri/Folha Imagem - 05.10.2006

Ana, o que desejo é ler algumas das suas palavras de incentivo. Concluí a graduação em jornalismo em 2005 e até hoje não comecei minha carreira.

Identifico-me com a área, sinto-me feliz com todo o idealismo e a racionalidade que ser jornalista propõe.

Entretanto, integro aquele grupo da sociedade brasileira em que as oportunidades são agarradas a unha (blablabla - a intenção não é choramingar para você). Tenho muita vontade, Ana, sei que só isso não basta, contudo sei que é um começo.

Quando fui chefe de reportagem de um jornal laboratório da faculdade --e líder da equipe--, às vezes pensava que não conseguiria vencer, mas acabei vendo que podemos ir longe quando lutamos: (Expocom - categoria jornal impresso).

Ainda conservando essa consciência, sinto-me triste por não ser contratada como jornalista, nem poder desempenhar o que tanto almejei enquanto estudante praticante.

Por isso, peço as suas palavras!


A mensagem foi mandada por uma moça recém-formada em jornalismo na Bahia e acho que reflete a situação de muita gente pelo Brasil a fora.

Não vou perder tempo escrevendo sobre a falta de vagas, o excesso de cursos etc., mas tentar organizar um pouco o que ela pode fazer.

Há um chavão que explica o sucesso profissional como resultado de 10% de sorte, 10% de talento e 80% de esforço. Não sei se as porcentagens estão certas –devem variar de pessoa para pessoa. E não vou falar sobre sorte e talento –são condições sobre as quais não há muito o que fazer.

Resta o esforço, e ele pode fazer diferença se for usado na direção correta.

Não há caminho mágico nem garantido e não pretendo esgotar o assunto neste post; dou algumas sugestões a partir da minha experiência

Em geral, há quatro maneiras de começar a trabalhar num veículo grande:

1. Inscreva-se em programas de treinamento ou estágios

A Folha faz duas vezes por ano, em geral, o Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha. A partir de 19 de março, as atividades da 43ª turma poderão ser acompanhadas neste blog.

Há programas também em outros veículos: Curso Abril de Jornalismo;
Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do “Estado de S.Paulo”;
Programa Multimídia e Primeiros Passos da Infoglobo - “O Globo”, “Extra”, Globo On Line, rádios CBN e Globo AM (quando há vagas, as inscrições são feitas no site da Globo ou no do sistema de rádios) e Programa Estagiar da Rede Globo

Os programas são muito concorridos (o da Folha recebe 2.000 inscrições para dez vagas), mas os critérios de seleção são bem variados e ninguém perde nada por tentar.

A Folha, por exemplo, valoriza não só candidatos com currículos excepcionais mas também os que têm experiências ricas de vida e sabem se expressar de forma interessante e articulada.

Não conheço uma central que informe todos os estágios disponíveis, mas eles costumam ser acordos feitos entre veículos, universidades e sindicatos. Informe-se na sua escola e no sindicato da sua cidade.

2. Participe de concursos

A Folha e o “Agora São Paulo” publicam anúncios quando têm vagas

Em geral, é preciso mandar currículo e um texto ou reportagens já publicadas.

12.mar.2007

O coordenador da Agência Folha, Julio Veríssimo, analisa os mais de 500 currículos
que recebeu para uma vaga de repórter

O editor avalia os currículos e seleciona cerca de dez para um teste. De três a cinco candidatos fazem ainda uma entrevista com o editor, a Secretaria de Redação e a Editoria de Treinamento.

Não vale a pena sair distribuindo currículos a torto e a direito. Editores são superatribulados e não vão olhar mensagens de quem não conhecem ou currículos que não pediram.

Para participar de um concurso, prefira um currículo conciso e direto: dados pessoais, formação escolar (faculdade, curso e ano de conclusão), experiência profissional (veículo, cargo e data), idiomas que domina. Não mande certificados nem inclua informações irrelevantes.

Se nunca tiver trabalhado, escreva um parágrafo no início explicando por que o editor deveria chamá-la para uma conversa, apesar da sua falta de experiência –ou seja, que qualidades você tem que compensam a inexperiência.

Não recorra a sentimentalismos. Não peça “uma chance” nem diga que precisa trabalhar pelo-amor-de-deus. Seja objetiva, descreva suas qualidades, seus pontos fortes e seus projetos. Mostre que você conhece o projeto do jornal e como pode contribuir com ele. Mas seja breve.

continua abaixo

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 15h17

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"Não consigo começar a trabalhar"

continuação

3. Ofereça boas pautas, como free-lancer, para mostrar seu trabalho e ganhar a confiança dos editores

Todo editor adora uma boa pauta. Se tiver uma sugestão, procure o editor e convença-o a contratá-la como frila, para que ele veja do que você é capaz.

Se não der certo da primeira vez, descubra por que sua oferta foi recusada: a pauta é ruim? Inadequada para o projeto do veículo? O editor não tem verba no momento?

Insista para obter uma resposta, pois você precisará tomar atitudes diferentes dependendo do motivo.

Por mais chato que seja receber críticas ou ser recusada, deixe sempre claro que você quer ter uma avaliação honesta da sua proposta, que você agüenta o tranco e está preparada para aprender com ele.

4. Faça (e mantenha) contatos

Jornais que não fazem concursos públicos recorrem muitas vezes a pessoas indicadas. Isso não acontece por amor às panelinhas, mas porque, para o editor, é mais seguro chamar quem já é conhecido de alguém que contratar um desconhecido total.

Embora eu considere essa forma de seleção precária e limitada, ela existe, e há uma maneira honesta e séria de fazê-la funcionar a seu favor.

Faça parcerias durante a faculdade, empenhe-se nos trabalhos em grupo, leve os jornais laboratório a sério, participe de grupos de estudo, colabore de boa vontade com seus colegas, ensine-os e aprenda com eles, compartilhe informação.

Um jornal que recorre a indicações  vai pedi-las a seus próprios jornalistas e, às vezes, a professores da universidade. Não há nada de errado em você ser indicado por suas boas qualidades profissionais, por seu talento e por seu empenho.

Eu diria para minha amiga baiana que ela está no bom caminho. Não só porque tem muita vontade –o que, por incrível que pareça, não é tão comum em jovens jornalistas quanto possa parecer--, nem só porque coordenou uma equipe do jornal da faculdade cujo trabalho foi premiado. Mas porque tem duas qualidades importantes: escreve direito e parece persistente.

Só para ressalvar, ter vontade não implica imediatamente ser persistente. Tem gente que tem muita vontade de trabalhar, mas fica parada esperando as coisas caírem do céu. Em jornalismo, quase nada cai do céu. É preciso ir atrás, procurar, insistir, persistir.

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h43

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Ana Estela de Sousa Pinto O blog Novo em Folha é uma extensão do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha. É produzido pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, por Cristina Moreno de Castro e pelos participantes do treinamento e pela Redação.

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