
Quando voltamos para o Treinamento, depois da virada do ano, havia um embrulho à nossa espera. Uma verdadeira preciosidade, enviada por um leitor que preferiu não se identificar: 28 fascículos de um curso de jornalismo por correspondência, que ele fez em 1968.
Pedi para ele contar um pouquinho como foi essa experiência de estudar jornalismo à distância, naquela época. Segue o relato:
"Tenho 61 anos. Optei por fazer o curso por correspondência por dois motivos: tinha a disponibilidade e queria aproveitar o tempo, e jornalismo era o único curso compatível com um prazer meu, o prazer da escrita. O ano era 68, época difícil e turbulenta e eu tinha outros projetos para o futuro que não incluíam o jornalismo, que estudei por talvez seis meses. Guardei apenas dados sobre onde, quando, como, e por quê, e como relatar sem opinar e pirâmide invertida. Desse conhecimento, passei a fazer uso apenas como observador de jornais por mais de quarenta anos. Sempre fui colaborador em pequenos jornais em seções de opinião e crônicas.
Quando mudei para a cidade onde moro hoje, percebi a necessidade de um jornal para a cidade – um jornalzinho para informar, divertir, unir, esclarecer e educar –, mas a idéia nunca foi posta em prática. Até que parei com um comércio que eu tinha e, na condição de desocupado, ajudei a dar forma ao jornal que se iniciou. Da experiência advinda do curso, comecei a observar jornais e percebi que, apesar de um jornalista dever relatar apenas fatos sem opinar, muitos opinam no momento em que escolhem os fatos que vão informar."
Reparem que o leitor não exerceu profissionalmente o jornalismo, mas o curso foi útil para apurar sua visão de leitor de jornais ao longo de toda a sua vida.
Os fascículos que ele me enviou não estão datados (em nenhum dos dois sentidos da palavra
), mas o leitor disse que são de 1968. Foram produzidos por um Instituto Técnico Profissional, do Rio de Janeiro.
Selecionei alguns trechos que acho importantes ainda hoje, outros um pouco pitorescos. Atualizei a ortografia daquela época. É só um resumo, o material é bem maior, mas já vai deixar este post gigante. Mesmo assim, recomendo a leitura, que achei deliciosa e com algumas partes de importância histórica:
1ª semana - "Um texto noticioso deve ser escrito de tal forma que todos os leitores do jornal, desde professores de faculdade até aqueles que possuem capacidade intelectual limitada, possam entendê-lo com facilidade."
"'O homem mediano tem um vocabulário de cerca de 7.500 palavras (...) e ele não pode exprimir verbalmente a diferença entre 'pobreza' e 'miséria'. (...) Possui conhecimento rudimentar de geografia local, sabe um pouquinho de história e uns poucos fatos elementares de fisiologia. Acredita (...) que o sereno cai, que a moral era mais pura há vinte anos e que os invernos eram mais longos quando ele era menino.' O redator de notícias, entretanto, deve alcançar a compreensão não apenas do homem médio mas também a de seus semelhantes menos afortunados."
"O texto simples é necessário para obter a clareza e a facilidade de leitura que exige o grande público leitor de jornal. A redação rebuscada é motivo não de elogio, mas de zombaria.
2ª semana - "A notícia deve ter o tamanho de uma saia de mulher, curta bastante para atrair a atenção e bastante longa para cobrir o assunto."
"O ideal jornalístico de honestidade exige não apenas que o repórter, ao colher e selecionar suas notícias, deva procurar contar ambas as versões da história, mas requer também que o fraseado do seu relato não seja influenciado pelas suas opiniões."
"Os lugares-comuns compostos de uma ou várias palavras estão entre os maiores inimigos do interesse. A redação de notícias, no seu nível mais baixo, está cheia dos clichês de repórteres desmazelados e plagiários."
3ª semana - "Aritmética das notícias:
- 1 homem comum + 1 aventura extraordinária = NOTÍCIA
- 1 homem comum + 1 vida comum = 0
- 1 homem comum + 1 esposa comum = 0
- 1 marido + 3 esposas = NOTÍCIA
- 1 caixa de banco - 200 mil cruzeiros = NOTÍCIA
- 1 corista + 1 presidente de banco - 1 milhão de cruzeiros = NOTÍCIA
- 1 homem + 1 carro + revólver + 1 outro personagem = NOTÍCIA
- 1 homem comum + 1 vida comum de 70 anos = 0
- 1 homem comum + 1 vida comum de 100 anos = NOTÍCIA"
4ª semana - "Os jornais são grandemente lidos porque o leitor individual se vê constantemente no jornal. Não quero dizer que ele veja seu próprio nome, mas sim que lê coisas acontecidas com seus semelhantes e que poderiam ter acontecido com ele. Os tópicos intimamente relacionados com o leitor, sua família, seus passatempos e seus negócios constituem a aproximação mais natural aos seus interesses."
5ª semana - "O lead deve ser uma promessa de grandes coisas e a promessa deve ser cumprida."
6ª semana - "Os relatos de discursos são um dos tipos mais comuns de notícias. Para os não iniciados, a tarefa de relatar um discurso parece um trabalho simples. Mas a simplicidade aparente da incumbência é enganadora. Relatar um discurso, de modo que as pessoas que não o ouviram percebam fielmente seu teor e sua significação, requer habilidade em alto grau."
7ª semana - "Cada cópia de um jornal cuidadosamente editado serve como guia de estilo a ser seguido. Quando em dúvida, um repórter deve ser capaz de procurar qualquer número de seu jornal e encontrar resposta às perguntas sobre estilo e forma. O repórter esperto, ao iniciar-se na profissão, faz sempre um estudo detalhando os hábitos do seu jornal."
8ª semana - "O lead pode ser comparado a uma flecha onde cada elemento que prende a atenção é uma farpa introduzida na consciência do leitor." 
9ª semana - "As narrações sobre crimes têm um lado técnico, como todas; mas se referem também a fatos de acentuada importância moral e social, e, quem escreve, não pode perder de vista suas responsabilidades em relação a estes aspectos."
10ª semana - [Sobre vários tipos de lides]
11ª semana - "O lead deve ser conciso, limitado a poucas linhas datilografadas. Quando é longo, cheio de parágrafos, vírgulas e explanações que poderiam esperar para ser contadas mais tarde, torna a leitura difícil e desinteressa o leitor."
12ª semana - "O redator deve estar alerta para descobrir os 'leads enterrados' – isto é, dar no início da história os fatos importantes que às vezes estão perdidos no corpo da história."
"O interesse cada vez maior do público pelo football tem obrigado os jornais a dedicarem todos os dias espaço mais amplo para as notícias sobre esse esporte." 
13ª semana - "Na ligação entre os vários parágrafos, são usadas também palavras, frases ou expressões, sempre com o objetivo de dar continuidade à história noticiosa e manter o leitor atento. (...) Eis algumas delas:
- Tratando-se de tempo: entrementes, por fim, agora que, primeiramente, ao mesmo tempo etc.
- Para apontar: aqui, neste caso, em tais casos, por isso, nisto etc.
- Para citar: por exemplo, o caso em discussão é, segundo etc.
- Para inferir: consequentemente, assim, portanto, como resultado, sendo este o caso etc. (...)"
14ª semana - "'Naturalmente, a história é importante: você deve ter algo a dizer. Mas, muitas vezes, não é tanto a história que importa: é a maneira pela qual é escrita.'"
15ª semana - "Qualquer repórter necessita de conhecimentos de política e economia, mas o redator de notícias financeiras ou de negócios deve ser um especialista."
16ª semana - [Faltou]
17ª semana - "O interessante e bizarro da ciência é escrito para a mente das massas, mais ligadas ao misterioso e trivial do que ao fato importante. Mas, mesmo quando escritos em estilo para consumo popular, tais relatos científicos ou pseudocientíficos devem conter informação valiosa. Se não devotado demais ao sensacional, os artigos valem ainda pelo aumento do vocabulário dos leitores e o ensino de conhecimentos, dado de modo simples."
18ª semana - "Inúmeros relatos que são programados para determinado tamanho nas edições matutinas devem ser reduzidos para dar lugar a outras notícias nas edições vespertinas."
19ª semana - "Repórteres competentes dos negócios municipais vão além da tarefa comum de coleta de notícias. Eles examinam folhas de pagamentos e fichas de contabilidade, listas de taxações, os métodos usados pelos municípios, nas compras, a solução dada aos casos relatados pelo promotor municipal etc."
20ª semana - "'Só a experiência dá ao repórter aquele sexto sentido de que ele necessita para distinguir, no meio de tantos fatos, aquele que se deve colocar no alto de uma notícia'. Mas (...) há um princípio que ajuda bastante os que se iniciam na profissão: colocar-se no lugar do leitor."
21ª semana - "Entre os fatores que operam para obstruir e limitar a ação dos correspondentes estrangeiros, estão:
- Os escritórios de Propaganda e Censura (...)
- A rapidez (...)
- O custo (...)
- Hábitos de leitura (...)"
22ª semana - "Sendo um profissional experimentado, nunca declarará simplesmente que o carro de Bishop abalroou o outro, mas dirá que os dois automóveis colidiram. Mencionará as acusações da polícia, deixando bem claro que elas partem da polícia e não são suas ou do jornal. Com tais cuidados, o repórter atinge dois objetivos:
- Relembra aos seus leitores que as acusações da polícia não representam um fato já consumado (...);
- Protege-se a si mesmo e ao seu jornal, no caso de alguma ação judicial movida pelos acusados."
"Há uma infinita variedade na publicação de assuntos especializados, e um grande número deles trata de produtos ou de interesses de especial atração para as mulheres. Para citar alguns: melhores casas e jardins, cozinha, uso diário para mulheres, educação da infância, loja moderna de beleza." 
23ª semana - "Há ocasiões em que a apresentação pura e simples de um fato não dá ao leitor, logo à primeira vista, toda a sua verdadeira importância. É preciso, nesses casos, procurar um lead interpretativo para a notícia."
"Uma tendência quase geral dos repórteres esportivos é a de dramatizar certas passagens, ao descreverem uma partida. (...) Se a 'terrível emoção' ou a 'angústia inaudita' foram usadas quando o extrema esquerda do time adversário escapou com a bola, que palavras se há de empregar quando uma cidade espera que joguem sobre ela uma bomba atômica? Não deve o jornalista, deixar-se envolver pelas paixões da multidão."
"Embora alguns empregos, sobretudo nas agências telegráficas e em uma ou outra seção de jornais diários, continuem sendo monopolizados pelos homens, a última guerra mundial provou que as mulheres podem trabalhar em qualquer campo dentro do jornalismo."
24ª semana - "De um modo geral, os tópicos que constituem as notícias estão incluídos num destes itens: guerra, política, esportes, interesse humano, trabalho, ciência, mortes, crimes, acidentes, temperatura, divertimentos, modas, sociedade."
25ª semana - "Os títulos, tal como os conhecemos hoje, não existiram sempre. (...) Há cem anos, a coisa mais parecida a um título, num jornal norte-americano, era o rótulo, uma expressão convencional como Notícias do Estrangeiro ou Assuntos Oportunos."
26ª semana - "O principal objetivo da coluna humorística é entreter. Num grau menor, isso é também verdade com relação aos outros dois tipos, a de ensaios e a de assuntos da cidade. Por isso, sempre que qualquer das três formas de colunismo deixa de entreter, quando se torna monótono, cessa sua utilidade para o jornal."
27ª semana - "O feature (pronuncia-se fitchur) é o nome que o jornalismo americano dá a um certo tipo de história noticiosa em que predomina o interesse humano. (...) O desenvolvimento de um feature tem grande semelhança com a narrativa dos romances."
28ª semana - "De um modo geral, quanto maior o título mais fácil é de ser escrito. Num título em várias colunas, o redator encontra mais recursos para jogar com as palavras e não se vê a braços com o problema de colocar duas ou três palavras de oito ou dez letras cada, numa linha em que só cabem onze ou doze letras."
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h42