Desenvolvimento humano
Quero ver a ´´lôra´´ no morro
Um comentarista havia perguntado, no post sobre os limites da infiltração, se uma mulher correria menos riscos que um homem numa cobertura de favela, ou se seria ainda pior.
Respondi: "Impossível saber o que vai pensar ou fazer um bandido desses".
Minha leitora Mariana, de Minas, que já passou pelo aperto, conta o episódio:
Já fiz reportagem em favelas durante anos, na cobertura esportiva de futebol amador (várzea), com policiamento. Mas surgiu uma pauta muito legal e como disse meu chefe: "quero ver a Lôra no morro", fiz a cobertura da Copa do Mundo dentro de três favelas.
Tudo combinado, comecei com uma reportagem sobre os preparativos. Nos três primeiros dias foi tudo bem, nem ligava para armas que nem apareciam mas sabia que estavam ali.
Mas no quarto dia, na Vila Cabana, onde tinha feito o melhor preparo, combinado com o líder comunitário, passei por um sufoco.
Ao chegar no local montado para a festa, sentei com as crianças. Aliás, essa é uma boa dica para as mulheres em favelas: ficar próxima das crianças. Quando olhei para trás, estavam os chefões do tráfico apontando arma para meu companheiro repórter fotográfico. Descemos a favela na correria, ouvindo tiros, e tivemos que sair da região escoltados pela PM. Todo cuidado é pouco.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h02
Sorte deles
Certas coisas só colunistas podem fazer.
Uma delas é tomar emprestados, com um pretexto jornalístico, versos como estes, de Manuel Bandeira (como fez ELIO GASPARI no domingo):

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h27
Desenvolvimento humano
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h21
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Bastidores de um repórter não identificado
Bastidores de um repórter não identificado

O repórter RAPHAEL GOMIDE conta como surgiu a pauta sobre o treinamento da polícia fluminense, a que mais mata e mais morre no país, e como foi o dia-a-dia da apuração.
Novo em Folha - Como você teve a idéia de fazer essa reportagem?
Raphael Gomide - Sempre quis fazer uma matéria em que acompanhasse a primeira semana de treinamento de fuzileiros navais, mais pelo militarismo, pela pressão que imaginava existir nesse ambiente. Mas não podia, por já ter ultrapassado o limite de idade. Cheguei a pedir para a Marinha para acompanhar como jornalista, mas não tive autorização.
Novo em Folha - Sua pauta é um exemplo de história que não poderia ser feita se você se declarasse repórter. Como foi essa decisão?
RG - Havia lido o livro do Celso Castro, diretor CPDOc, chamado "O Espírito Militar". Ele é filho de oficial do Exército e acompanhou durante muitos meses a Aman (Academia Militar das Agulhas Negras). Achei superinteressante, mas ele foi lá como pesquisador, antropólogo; era sempre um diferente numa escola de formação de oficiais.
O resultado foi excelente, mas havia sempre esse aspecto de as fontes estarem falando com alguém de fora, embora ele fosse filho de oficial.
Eu queria mostrar a formação de PMs a partir da base da pirâmide, sendo um deles, para evitar os filtros maiores: alguém não permitir as entrevistas, ou mesmo a autocensura ao dar uma entrevista. Se fosse como jornalista, haveria tantos filtros que não conseguiria apurar o que apurei.
Novo em Folha - Mesmo assim, imagino que não tenha sido simples decidir publicar informações sobre colegas que não sabiam que você estava fazendo uma reportagem. Que cuidados você tomou?
RG - Tinha muita preocupação em não publicar foto e nome dos colegas de curso. No seminário de jornalismo investigativo de que participei no Equador levei este projeto e debatemos sobre isso. A conclusão foi que deveria tomar cuidado para não parecer uma traição aos colegas e também para a segurança deles.
Percebi o medo que eles tinham de aparecer como polícia, poderia colocar muitos deles em risco.
Não quis pôr o nome de ninguém também porque o que realmente importava era a história. Queria mostrar a polícia como instituição, não tanto os personagens em si.
Novo em Folha - Você tinha uma hipótese quando pensou nessa cobertura?
RG - Não era exatamente uma hipótese. Tinha perguntas. Por causa da exacerbação da violência no Rio, queria entender onde começava isso, porque é a polícia carioca a que mais mata e mais morre no país. Quem é o jovem que quer ser policial e por que esse desejo? Já chega lá querendo matar? É para ganhar dinheiro com propina?
Um episódio que me marcou foi quando um motorista que me levava a uma pauta disse que estava fazendo concurso para a Polícia Civil. Comentei que o salário era baixo e ele respondeu: "O salário a gente ganha na rua". Retruquei: "Pô, depois reclama do policial que te extorque na rua. Mas você vai tirar dinheiro do cidadão que tá errado ou do bandido para não prendê-lo". Aquilo me chamou a atenção. Queria entender se todo mundo já entrava assim na PM.
Novo em Folha - Quando foi isso?
RG - Isso aconteceu há dois anos e meio, estava no jornal "O Dia" ainda.
Novo em Folha - A BBC fez uma reportagem parecida com a sua (http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/magazine/3210614.stm). Você já conhecia esse trabalho?
RG - Quando estava começando a preparar minha matéria, alguém comentou comigo sobre essa matéria. Procurei, não encontrei e acabei me esquecendo. Já estava bem avançado na minha apuração. Depois que a matéria saiu, vi repercussões sobre o vídeo, sobre o fato de o repórter ter sido preso e depois solto.
Novo em Folha - Como era a apuração, no dia-a-dia?
RG - Enquanto eu estava no treinamento, escrevia tudo. Não gravei nada, deliberadamente, tinha medo que alguém visse.
Durante a seleção, todo momento que eu tinha usava para anotar num papel. Não usava o bloquinho, ia anotando em pedaços de papel.
Já no treinamento, Comprei um caderno e anotava tudo durante as aulas e o que lembrava das aulas externas, práticas. Quando chegava em casa, exausto, sabia que tinha que escever a quente, para não esquecer. Se dava, fazia à noite, ou nos finais de semana. Escrevi 50 folhas de Word. Depois editei para a reportagem.
Novo em Folha - No texto você relata de forma detalhada e transparente como preparou a reportagem. Você não usou identidade falsa nem mentiu sobre o emprego. Usou o nome da Empresa Folha da Manhã na ficha. A reportagem também é assinada. No entanto, sua foto com a farda, publicada no Mais!, está alterada digitalmente. Esses aspectos todos me fazem pensar na sua segurança, nem tanto durante a apuração, mas depois de publicado o texto. Você chegou a refletir sobre assinar ou não a reportagem? Teve algum receio de retaliação?
RG - Não pensei em deixar de assinar, não.
Novo em Folha - E por que sua foto foi alterada?
RG - Resolvemos alterá-la digitalmente por uma questão de segurança. Era difícil saber qual seria a reação das pessoas.
Novo em Folha - Você achava que estava correndo risco?
RG - Sim, mas um risco controlado. Minha família tinha medo. Eu tinha noção do risco, mas achava que era controlado, porque já havia definido não mostrar nomes nem fotos e fazer uma análise da instituição como um todo. Alguns poderiam ficar incomodados, mas não a ponto de ameaçar a minha vida.
Novo em Folha - Mas então por que não publicar sua foto?
RG - Porque não sabia como seria a repercussão. Achei que alguns poderiam incitar a reação dos colegas e poderia ser mal recebido de dentro da corporação. Eu tenho a visão de um jornalista, mas um policial poderia tomar a matéria como algo pessoal, ou, por amor à corporação, se ofender.
Tinha medo não [tanto] dos meus colegas, que me conheciam, mas de uma outra pessoa desavisada que pudesse ter uma reação individual, isolada. Com minha foto no jornal, com o jornal na mão, seria mais fácil difundir algum tipo de reação.
Novo em Folha - Mas achei seu relato muito equilibrado. Você mostra discursos variados, tanto da parte dos instrutores quanto da parte dos alunos. Parece muito correto que você tenha deixado claro, na descrição e no relato, que não há diversidade de ideologias e caráter. Mas, como leitora, senti falta de uma conclusão, para além do relato. Depois de um mês convivendo diariamente com os personagens, qual foi a sua impressão? Embora haja discursos discordantes, o que incentiva a violência é predominante? Ou é desviante? Os exemplos que você dá de alunos que querem ser corruptos são exceções? Raridades? Mais comuns do que você esperava? Ou são maioria?
RG - Minha avaliação é que há um germe que já vem antes e há de fato uma tolerância quanto ao abuso da violência já durante a formação dos policiais. Talvez não no discurso oficial, mas a formação é bastante irregular. Eles dão o discurso oficial, mas dizem "você sabe que na rua é assim". Dizem qual deve ser a atitude correta, mas acabam legitimando quando descrevem a situação na rua.
Novo em Folha - E isso acontece com todos os professores?
RG - São vários que falam, é a maioria. Isso é o discurso extra-oficial, mas muito forte.
Novo em Folha - Você chegou a pensar em fazer um texto mais subjetivo? Mais conclusivo?
RG - Optei por não fazer uma conclusão. Os fatos vão levando para um caminho, que é mais aberto do que seria uma conclusão. É interessante que cada pessoa entende de uma forma. Recebi cumprimentos de dois coronéis, meus colegas PMs todos adoraram a matéria.
Muita gente elogiou justamente esse equilíbrio, porque relatei os fatos sem tomar partido. Um promotor que foi oficial da PM disse que foi a primeira vez que viu uma matéria sobre a polícia que não fazia julgamentos.
Achei que seria mais correto e mais jornalístico não fazer uma conclusão.
Novo em Folha - Não pensou talvez em dar uma conclusão baseada em fatos, do tipo "de cada 10, 8 diziam tal coisa"?
RG - Tentei fazer equilibrado, embora ache que relato mais pontos negativos que positivos --que refletiriam proporcionalmente as opiniões dos colegas e minhas impressões. Posso não ter sido tão claro, mas seria difícil retratar isso sem ser de forma subjetiva. Sseria difícil mensurar quantidades de opiniões ouvidas no período.
Novo em Folha - E você teve medo em algum momento?
RG - Só agora, com a visita da polícia a meu prédio.
Novo em Folha - Nem uma vez durante a apuração?
RG - O pior momento foi quando foram em casa antes de começar o curso. Quando voltei de viagem e o porteiro me disse que policiais haviam perguntado por mim e que ele havia dito que eu era jornalista, pensei se valeria mesmo a pena seguir em frente. Porque é muita invasão na minha vida pessoal, na vida da minha família.
Agora tudo parece um mar de flores. Mas foi muito desgastante. Durante o período da seleção, estava fazendo matéria todo dia e a seleção ao mesmo tempo. É um desgaste físico e psicológico muito grande.
Os policiais foram na minha casa, na minha vizinhança, sabia que todo mundo ia estranhar.E não podia contar para ninguém o que estava fazendo, para que outros não tivessem que mentir.
Naquele momento fiquei preocupado, mas não tive medo. Tinha medo da reação dos meus colegas, se iam me ver como um traidor, e da reação da corporação, não institucionalmente, mas dos integrantes.
Ainda bem que fui em frente, porque a parte da seleção já foi muito rica, mas muito mais rico foi o período que fiquei lá.
Novo em Folha - E esses policiais que foram fazer a pesquisa social e ouviram do seu porteiro que você era jornalista não se deram conta?
RG - É que a Folha aqui no Rio é menos conhecida. Se fosse "O Globo" eles iam se tocar, mas aqui no Rio, PM que trabalha no centro de recrutamento não sabe o que é a Folha.
Novo em Folha - Nem mesmo com o porteiro dizendo que você era um repórter famoso (risos)?
RG - Claro que tive sorte. Quando o porteiro me contou, achei que daria tudo errado.
Novo em Folha - Quando você contou a seus colegas que era jornalista?
RG - Liguei para os colegas na véspera, no sábado à noite. Para os colegas mais próximos e as principais lideranças, para que não se sentissem traídos. Seria ruim se eles só vissem o jornal no dia seguinte, sem aviso.
Por sorte, um deles estava de serviço. Ele pôs o celular no viva-voz para os outros ouvirem; os caras adoraram. Um deles falou "você nunca me enganou!!".
Novo em Folha - Você até conta na matéria que, durante o treinamento, eles diziam que você iria para a P2 (serviço de inteligência da PM), não é?
RG - Vários falaram "o que você tá fazendo aqui?", achavam que eu não combinava com o tipo de aluno.
Novo em Folha - então a reação dos colegas de curso não foi ruim.
RG - A recepção deles foi muito boa. Um candidato me escreveu dizendo que espera que, depois da reportagem, as condições melhoram. Pela minha experiência, é difícil que isso aconteça. Mas, se puder muder, claro que eu ficaria satisfeito.
Novo em Folha - e não houve nenhuma ameaça?
RG - Não, nada. O que aconteceu foi desagradável, os caras que não identificaram que eu era jornalista na época da seleção foram na minha casa de novo para dar um recado, para mostrar que era a PM, para intimidar.
Foi desagradável, mas não foi um risco.
Novo em Folha - Na retranca do "outro lado", vc diz que, quando pediu entrevista à PM, não mencionou a participação no treinamento. Por quê?
RG - As perguntas que fiz eram sobre formação e a polícia em geral. Mandei dia 12 de março. Pedi por telefone, mas mandaram enviar por e-mail. Do dia 12 ao dia 30, eu ligava todo dia para pedir respostas. No final já nem me atendiam. Mandavam recado.
Novo em Folha - E quando você avisou que estava fazendo uma matéria sobre o treinamento?
RG - Voltei de férias, liguei de novo e avisei da matéria. Avisei que era uma matéria extensa sobre a formação dos PMs e gostaria de fazer uma entrevista com a corporação. Não disse que tinha participado do treinamento, porque queria falar isso durante a entrevista.
Ligava para lá duas vezes por dia.
Novo em Folha - E que resposta tinha?
RG - Não davam resposta nenhuma. Por sorte apareceu uma matéria com o secretário de Segurança. Eu fui e contei sobre a matéria, disse que precisava falar com a PM, contei que eles não me recebiam. Ele respondeu que iam falar comigo, que a PM falaria comigo. Mas não falou.
Raphael Gomide fala sobre os limites da infiltração
Na seção Como foi Feito, jornalistas falam sobre seu trabalho
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 13h28
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Limites da infiltração
Limites da infiltração
No dia 19 de maio, a Folha publicou uma longa reportagem de meu colega RAPHAEL GOMIDE, que participou do treinamento de policiais militares no Rio, sem se identificar como jornalista.
Logo depois, fiz uma também longa entrevista com ele, sobre os bastidores da apuração, seu método de trabalho e sua carreira como jornalista.
E me enrolei tanto para editá-la que acabou acontecendo a tragédia com os repórteres do "O Dia" (lembram-se de nossas conversas sobre o trabalho que dá editar uma entrevista? E olha que eu nem usei o gravador, em!? Entrevistei por telefone e fui escrevendo conforme ele respondia).
Pois bem, encurtando a história, achei que não dava pra publicar a conversa anterior sem tratar também desse caso, já que ambas as reportagens eram "infiltrações" --embora infinitamente diferentes. Achei que era fundamental deixar clara essa diferença.
Vou começar pelo final, então:
Novo em Folha - Quando eu te entrevistei logo depois da sua matéria sobre o curso de formação dos PMs, ainda não havia acontecido o caso do "O Dia". Nós até comentamos os riscos de fazer reportagens em favelas, você falou sobre o perigo de entrar junto com a polícia, mas nem chegamos a cogitar a idéia de se infiltrar num lugar como esse. Quando o caso do "O Dia" foi divulgado, você fez alguma relação com a sua experiência?
Raphael Gomide - Fiz, direto.
NF - Mas não porque achou que poderia ter acontecido a mesma coisa com você, né?
RG - Não, porque eu estava dentro de uma instituição do Estado. Em último caso eu poderia recorrer às instituições, ao Estado. Eu tinha algum tipo de proteção num mundo que respeita as leis.
É diferente das favelas, que são zonas de exclusão constitucional. Quem manda ali é o tráfico ou a milícia.
Novo em Folha - Ou seja, na hora de avaliar se é ou não o caso de fazer uma reportagem "infiltrado", sem se identificar, é preciso pensar também nisso: se há Estado constituído naquele lugar ou não.
RG - Sim, a segurança do repórter é o ponto inicial, o ponto número 1. Eu nunca teria feito uma reportagem como a do "O Dia"; 99% dos repórteres que conheço não teriam feito.
Todo mundo aqui no Rio tem noção de que hoje em dia não é possivel fazer esse tipo de reportagem em favela.
Como as circunstâncias todas da reportagem do "Dia" não foram esclarecidas, não houve transparência, não se sabe o que aconteceu. Mas, em princípio, não poderia ter sido feita.
É curioso, assim que eu publiquei a matéria da PM, falaram pra mim: "A próxima vai ser numa milícia!". Respondi: "Deus me livre! A milícia é igual ao tráfico. É pedir pra morrer!".
Poucos dias depois houve esse episódio.
Novo em Folha - Você já cobriu guerra?
RG - O máximo que eu fiz foi no Haiti. (leia aqui)
Novo em Folha - Mas chegou a passar perigo?
RG - Houve uma operação grande, mas sem troca de tiros. Eram 800 militares justamente quando tomaram o último reduto das gangues. Mas elas já sabiam e já tinham ido embora.
Antes disso, no Haiti, houve muito tiro. Eu usava capacete e colete à prova de bala o tempo todo.
Novo em Folha - Outra diferença é que você estava identificado como repórter, não é?
RG - Justamente. Não existe isso de jornalista infiltrado em favela. Todo mundo conhece o caso Tim Lopes. Depois da morte do Tim Lopes, houve um grande debate nos jornais sobre segurança e os jornais passaram a adotar medidas de segurança.
É preciso estar claramente identificado ao entrar em favela.
Por exemplo já fiz matérias sobre a milícia, mas me identifiquei como jornalista, fui levado por um cara de dentro e disse pro chefe da milícia que o ele falasse eu ia escrever. Ele pediu offs, mas sabia que era uma entrevista.
É preciso sempre falar claramente: sou jornalista, estou fazendo reportagem. Não dá pra entrar simplesmente na favela.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h58
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Tango argentino
E já que o assunto é pauta [resolvam a charada do post abaixo], dêem seu palpite sobre o que escreve meu leitor João:
O diário X... publicou hoje, em uma página, uma matéria cuja pauta era idêntica a uma que eu pensava em fazer há tempos.
Era sobre {... um assunto de futebol}.
Tive a idéia em março, como você pode ver no e-mail abaixo. Pensei nela para uma disciplina na faculdade, mas queria vendê-la para alguma publicação. Só não a fiz por falta de grana & tempo.
A matéria publicada no jornal é mais simples do que eu havia imaginado. A minha idéia era fazer algo mais alentado, com muitas páginas, fotos e tudo o mais. Meus colegas acham que eu devo insistir na pauta, acrescentar dados que não estão no X, mas realmente não sei...
Fato é que, depois de dar dois ou três furos num pequeno jornal em que estagiava, fui furado. Senti a desolação moral do fracasso. É horrível.
O que você acha? Devo prosseguir na pauta? ou agora só me resta mesmo tocar um tango argentino?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 09h57
O que elas têm em comum?
O que elas têm em comum?
Uma charada para vocês matarem:
O que esta pauta do "New York Times" (clique para ler) tem em comum com esta outra, da Folha?

Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 19h15
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Me chamaram para uma entrevista. E agora?
Meu leitor M. pediu que escrevesse sobre entrevistas de seleção e me contou que participara de várias delas.
Eu já tratei do assunto aqui, mais de uma vez, mas essa era uma ótima chance de publicar um novo olhar sobre o assunto.
Afinal, se M. participou de tantas entrevistas, tem "vasta experiência" e boas histórias pra nos contar:
Depois de cinco anos no jornalismo, trocando de estágio e de trabalho no mesmo ritmo que se toma banho no verão nordestino, passei a observar que o grande segredo para não pagar mico num processo de seleção e garantir o pão nosso de cada dia ou a mensalidade da facul é se preparar e se preparar bem. Vejam algumas dicas que passei a tomar nota:
- Pesquise na internet tudo sobre a empresa, o veículo, os concorrentes, o perfil da audiência (leitor, ouvinte, etc.);
- Pergunte como será composto o processo de seleção e quantas etapas terão;
- Se houver um teste, seja de português, inglês ou conhecimentos gerais, relembre aquelas dúvidas pontuais que sempre surgem, esqueça a preguiça, abra o livro e as esclareça;
- Se o teste for para escrever uma reportagem, esqueça um pouco o Gay Talease e o sonho do jornalismo literário, e aposte na simplicidade, na concisão e na objetividade. Recolha o maior número de informações (verdadeiras) e siga o basicão, lead, começo, meio e fim. Vale a regra: “não enrole, informe”
- Entenda o seu cargo, seja para ser repórter, estagiário, redator, etc, pergunte a quem te ligar marcando a entrevista como é a função para qual te contratarão, o que você vai fazer, etc. Assim fica mais fácil se preparar;
- Se houver dinâmica de grupo evite os excessos, não seja muito tímido, não fique muito isolado, evite aquela empolgação desnecessária, não seja excessivamente mandão, apresente opiniões nas horas certas, respeite o espaço de todos;
- Quando marcarem a entrevista com o selecionador, reserve algumas horas do dia para pensar o que poderá ser perguntado e o que você, dentro das suas qualidades e experiências, tem para oferecer a empresa e a função. Lembre-se, é preciso justificar a razão para contratarem você e não o outro candidato;
- Evite se achar a última bolacha do pacote só porque você fala inglês, espanhol, italiano, arranha o alemão, já morou na França e trabalhou na Austrália, ou algo similar. Se isso não agregar à função, você perderá seu tempo e o do selecionador. Ou seja, apresente exemplos de como essas qualidades são vantajosas para o cargo que ocupará. Exemplos são sempre melhores do que o blá, blá, blá;
- Muitos selecionadores seguem como roteiro de entrevista o currículo do candidato, então o mínimo que deve saber é o que há nesse currículo, para que nenhuma pergunta te pegue de surpresa. Por isso, evite colocar no currículo que você já fez reportagens em Marte, porque pode não colar e, ao ser questionado, um gago esquizofrênico descerá em você;
- Evite os clichês básicos: eu gosto de desafios, sucesso é o meu objetivo, quero ser o próximo Clovis Rossi, sempre sonhei trabalhar aqui, meu coração diz que vou trabalhar aqui. Para algumas áreas pode até ser bonitinho coisas desse tipo, mas no jornalismo essas plumas e paetês não colam, principalmente se não vierem com sinceridade;
- Na entrevista, mostre interesse em relação à empresa ou ao veículo, questione, afinal você também está escolhendo a empresa que pretende trabalhar;
- Não se intimide. Se o selecionador estiver te provocando com perguntas sobre ética jornalística ou comportamento na redação, não mostre fraqueza nem agressividade, mantenha o mesmo tom e responda as perguntas com sinceridade;
- Se o mesmo selecionador está fazendo aquela cara de pouco caso, tente despertar a atenção dele. Essa é uma boa hora para fazer aquelas perguntas sobre a empresa e o cargo.
- Por fim: “DESLIGUE O CELULAR!" (hahahaha). E boa sorte para nós!
Duas dúvidas sobre seleção
Um roteiro para se preparar para entrevistas de seleção
Como é a seleção para o programa de treinamento
Mais perguntas e respostas sobre seleção
Currículos: o nome da faculdade importa?
Mandar currículos por e-mail adianta?
O que é fundamental ter no currículo?
Que tipo de experiência conta mais num currículo?
Especialização é importante no currículo?
Como fazer frilas
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h41
A marca da política
Como é ano de eleição, vale a pena estender a vocês a pergunta de minha leitora F.: jornalista pode fazer assessoria política, campanha, e depois voltar a cobrir a área com isenção?
Escrevo este e-mail porque gosto de jornalismo político, mas acho essa área uma das mais complicadas na profissão. Acho muito interessante o trabalho do jornalista e do assessor politico, mas tenho a impressão de que as carreiras não devem ou não podem se cruzar.
Quero dizer: será que um jornalista que já trabalhou na assessoria de algum político consegue cobrir a mesma área em algum jornal ou fica 'marcado' por essa experiencia e dificilmente conseguiria continuar a carreira?
Sinceramente, acho muito válida a experiência na assessoria de um político --é uma boa forma de conhecer 'por dentro' como funciona a
rotina do assessorado e dos demais politicos--, além de garantir contatos na area --fundamentais para conseguir boas pautas.Imagino ser bem interessante acompanhar uma campanha eleitoral ou as discussões em alguma CPI, por exempo. Por outro lado, que
credibilidade o jornalista tem para cobrir um escândalo ou uma denúncia envolvendo alguém com quem ele ja trabalhou ?Conheço jornalistas que fizeram assessoria política e que depois voltaram para o jornal, sem problemas, mas não sei se esses casos são
exemplo de sorte ou são rotina...
É curioso ver que a pergunta da F. já vem cheia de respostas:
quais os prós de trabalhar com políticos?
-
conhecer o assunto por dentro
-
fazer contatos
quais os contras?
-
ter sua isenção questionada
-
ficar identificado com o político a quem assessorou
é possível ir e voltar?
-
sim. Conheço ao menos um exemplo, meu amigo KENNEDY ALENCAR. F. diz que conhece vários outros.
voltar é questão de sorte? Ou exige algo especial?
Essa é a parte que eu deixo para vocês responderem. Algum dos leitores já esteve nos dois lados e quer comentar? Que cuidados seria preciso tomar para voltar à reportagem sem ver questionada sua capacidade crítica e investigativa?
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h51
Salto alto na zona de conflito
Pois fui viajar para a Suécia e me esqueci de publicar todos os comentários dos meus trainees sobre o congresso da Abraji.
Retomo agora com a PATRICIA GOMES. No pé, vocês encontram os links para os outros relatos da turma.
PALAVRA DE GENERAL
Talvez por herança dos meus tempos de France Presse, as duas primeiras palestras que escolhi foram sobre conflitos armados.
Como representantes de instituições com funções sociais diferentes, os palestrantes protagonizaram uma conversa extremamente polifônica, com opiniões divergentes.
O coronel Carbonell, que esteve no Haiti e participa da formação de jornalistas para situações de conflito, falou da dificuldade de produzir notícias que não estejam carregadas de opiniões e sentimentos quando se está em campo. Falou ainda da extrema necessidade de conhecer história, as normas do direito internacional de conflitos armados, as estruturas militares e de não ir de sapato de salto para a área de conflito. Ele jura que aconteceu isso no Haiti.
MÁFIA DAS FUNERÁRIAS
Da série “Boas Histórias” preparada pela Abraji, esta era sobre a Máfia das Funerárias, matéria exibida no Fantástico e feita por Eduardo Faustini.
Algumas frases dele:
- “Tenho microcâmera, uso e não abro mão” _com a ressalva de que optar por usá-la implica um amplo debate e sempre exige responsabilidade
- “jornalismo investigativo custa dinheiro, tempo e nem sempre é publicável”
- “o grande parceiro do jornalismo investigativo é o departamento jurídico”
LAVAGEM DE DINHEIRO
Não sobrou lugar nem nas cadeiras, nem no chão. Estavam todos ali para ver Rodrigo Gomes, delegado da Polícia Federal, e Amaury Ribeiro Jr, jornalista do Correio Braziliense, falarem sobre lavagem de dinheiro.
Imbuído da tarefa de explicar o que é e o que não é lavagem de dinheiro, o delegado apresentou as realidades nacional e internacional. Foi interessante entender os procedimentos mais usados pelos criminosos e perceber que são os infratores os que mais conhecem a lei. Embora o tema seja recorrente nos noticiários, fiquei impressionada com o aparato de ações coordenadas existente tanto no Brasil quanto no exterior para impedir que dinheiro de origem ilícita possa circular.
Já Amaury, que falou na seqüência, se deteve em mostrar formas de tentar detectar e rastrear dinheiro sujo. Por considerar que “a maior parte dos investimentos no Brasil têm origem em dinheiro sujo”, Amaury sugeriu a utilização de bancos de dados, a busca de informações em cartórios de títulos de documentos e nas execuções ordenadas pela Justiça para identificar ações ilícitas.
O jornalista ainda justificou a dificuldade de se provar o crime de lavagem de dinheiro, por dois motivos. O primeiro é que quem planeja esse tipo de ação entende muito de legislação trabalhista. O outro é que, para poder se chegar à lavagem, é preciso provar um crime precedente, que deu origem ao dinheiro.
FINANCIAMENTO DE CAMPANHA
Rubens Valente e Lúcio Vaz falaram sobre financiamento ilícito de campanhas eleitorais. Além de citarem exemplos de apurações próprias e de terem apresentado de situações irregulares nas campanhas de parlamentares conhecidos nossos, foi muito interessante a discordância a respeito da formas que consideram ideais para financiamento de campanha.
Enquanto Rubens está certo de que o financiamento público de campanha aumentaria o caixa 2, Lúcio defende que esta é a única saída para ter um controle mais claro das doações. Tão bons foram os argumentos de ambas as partes, que fiquei sem ter uma opinião própria.
Indicações de leitura do congresso da Abraji
Fundamentos do jornalismo - e links para outros posts que comentam o congresso
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 20h24
Não há garantias na vida
- experiência em internet é muito importante. O jornalismo digital só tende a crescer
- é bom aprender a trabalhar num meio diferente. Uma das principais coisas para quem está começando é aprender, aprender, aprender
- não obrigatoriamente você não pode fazer outros frilas. Converse com seu editor. Talvez para revistas que não sejam concorrentes do site não haja problema. Pelo menos pergunte --a gente nunca perde nada perguntando. O máximo que pode acontecer é ouvir não
- se não puder fazer os frilas, talvez possa criar um blog que te permite manter as fontes que fez na área. Vc pode continuar falando com elas de vez em quando e alimentando seu blog com informações que recolher
- não se sinta culpada por ter carteira assinada e benefícios. Não há nada de errado nisso. =)
- se você realmente odiar o trabalho, sempre pode se demitir e voltar à condição original de frila
- você também pode se colocar um limite de médio prazo: fica seis, nove, 12 meses no site, pra ganhar experiência em on-line, faz uma boa poupança e depois tenta algo mais jornalístico ou até mesmo volta aos frilas
Pensei muito, conversei com pessoas e resolvi seguir aquilo que, no fundo, eu queria.Na minha decisão eu levei em consideração o crescimento da internet, a importância disso na carreira, no jornalismo, mas também levei em consideraçao o que de fato eu iria produzir no site.Um dos motivos que me levou a sair de uma revista em que trabalhava antes foi justamente o enfoque das matérias que eu produzia não combinarem muito comigo. Eu sofria muito para pensar em pautas, e além disso, escrevia muito pouco (na minha concepção), por ser um revista mensal.Quando os assuntos abordados não batem, você não consegue sugerir pautas, procurar temas que se encaixem na revista etc.No site iria escrever exatamente sobre o mesmo assunto, ou seja, voltaria ao que estava fazendo antes.Era uma oportunidade legal, eu sei, hoje em dia está difícil achar trabalho na área, eu também sei. Mas acho que ia ser a repetição daquilo que via na revista.Essas matérias que estou fazendo para o jornal na condição de frila têm me ensinado muito. Estou fazendo um curso de redação jornalística também que tem me ajudado.Não sei se tomei a melhor decisão, nem se estou fazendo a escolha mais certa, mas por enquanto é isso que eu quero. Estou procurando outros lugares, e continuarei fazendo frilas até que algo bacana apareça.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 21h33
Para cobrir a Amazônia
Para cobrir a Amazônia
O projeto Repórter do Futuro abriu inscrições, até 4/7, para o módulo Descobrir a Amazônia, Descobrir-se Repórter.
O curso vai debater questões relevantes sobre a Amazônia e terminará com uma viagem –-realizada em parceria com o Exército-– à região.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 10h16
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No funeral dos famosos
Pobre do meu trainee MAURICIO HORTA. É a terceira ou quarta vez em que, como exercício, vai parar num velório ou enterro ou missa de sétimo dia.
Mas sorte nossa, porque cada experiência dessas rende mais um inspirado "guia Horta de como cobrir tragédias".
Neste capítulo, ele dá dicas que descobriu ontem, no velório de Ruth Cardoso:
MORTE DE FAMOSOS. Sabe as dicas para velórios que dei semana passada, na cobertura da morte de um engenheiro morto em sua própria casa? Esqueçam-nas todas quando o morto for uma figura pública. São situações completamente diferentes --velórios de famosos são profissionalmente organizados contando com a certeza de que a imprensa estará lá. Alguns dos presentes não apenas estão acostumados com a imprensa como podem coreografar suas ações em função das câmeras. Prepare-se para coletivas, assessores, áreas restritas para imprensa e tudo mais que é presente em eventos públicos. Prepare-se até mesmo para os presentes darem as costas ao velado.
- - FAÇA OS CONTATOS. Descubra quem assessora a imprensa, tenha seu contato e saiba onde encontrar essa pessoa. Sempre surgirá alguma dúvida como a origem da bandeira dobrada à direita do braço do corpo, o horário de chegada de algum visitante específico ou a causa da ausência de um dos parentes ou amigos;
- - saia da redação também com o contato de visitantes que forem importantes para a pauta e/ou de seus assessores;
- - PESQUISE. Saiba muito sobre a vida do morto --onde nasceu, onde estudou, quais são seus círculos sociais, se tem filhos ou netos, quantos são, como são, como se chamam, onde moram;
- - DÊ RETORNO constantemente. E, se você vir algo estranho, como o comediante Tom Cavalcante ficar quase uma hora entre amigos e familiares de Ruth Cardoso, não tenha medo de perguntar ao editor se isso faz algum sentido;
- - SAIBA A FISIONOMIA de todos, absolutamente todos os prováveis presentes. Essa é principalmente para quem se informa só pelo impresso e acaba não ligando caras a nomes. No caso do velório de Ruth Cardoso, era necessário reconhecer na primeira piscadela professores da FFLCH-USP da geração dela, todos os ministros dos governos Lula e FHC e as principais figuras do Senado e da Câmara, assim como as do PSDB, do DEM e do PT. Na hora, não vai dar para conferir se aqueles cabelos grisalhos são do Arthur Virgílio. E não adianta perguntar para o colega do lado, pois muitos não vão saber informar;
- - ANTECIPE-SE. Se a pauta incluir uma declaração de um político específico --do Lula, digamos--, entre em contato com a assessoria para saber exatamente qual o passo-a-passo que ele tomará. Sabendo esse passo-a-passo, antecipe-se sempre. Assim que, digamos, o Lula for deixar os pesares e seguir em direção a um lugar onde deverá dar uma coletiva, corra ao lugar antes da chegada dos cinegrafistas --e para isso, saiba antes onde será esse lugar. O Brasil tem muitos telejornais e as muralhas de câmeras impedem que se possa sequer ouvir a fala do entrevistado;
- - RESPEITE O FOTÓGRAFO. Vai dar raiva o fato de cinegrafistas e fotógrafos ocuparem os lugares com as melhores vistas, mas tenha em mente a importância de uma boa imagem no jornal ou na tela. Sem boa foto, não há abre de página. O repórter pode abrir mão da melhor visão para correr atrás de informações que não podem ser captadas numa fotografia. Além do mais, é importante manter a camaradagem com os fotógrafos pois, caso você não se lembre de quem é aquela careca feia, ele, que vive na rua, mais provavelmente saberá e poderá ajutar-te.
- - SEJA MULTIFOCAL. Em velório de pessoas públicas, mil histórias acontecem paralelamente. O Alckmin vai ficar num canto e o miolão brasiliano, noutro. A Marta vai cumprimentar o Serra. O Serra vai beijar a testa da Ruth Cardoso. O Maluf vai ficar estrategicamente ao lado do Fleury e dos lanceiros do regimento Nove de Julho da PM. E tudo pode acontecer ao mesmo tempo;
- - LEIA SINAIS. Tudo citado acima tem significados. Enterros de pessoas públicas são coreografados. Todos sabem que estão sendo observados --mesmo Lula, que pode amarrar o cinto da primeira-dama Marisa como se estivesse num lavabo. O que for intencional, é informação; o que não for será saia-justa --logo, informação também;
- - VEJA O OUTRO LADO. Não, não se trata do "o outro lado" padrão da Folha, mas daquilo tudo que está além das cenas. Quais empresas e quais políticos enviaram coroas de flores? Como são essas coroas de flores? Como é o ambiente físico onde acontece o velório? Quem são os visitantes "do público"? Como são? Por que vieram ao velório, se não são parentes nem amigos? Vieram ver Ruth Cardoso ou o Lula? O que acharam do velório? O que lhes chamou a atenção? Como a segurança se comporta? E o mais importante --não busque adjetivos para responder a essas perguntas, mas sim informações nomeáveis, quantificáveis e possíveis de serem confirmadas;
- - e, claro, RESPEITE as pessoas que estiverem fragilizadas e não quiserem dar declarações. No caso do velório de Ruth Cardoso, uma coisa é um acadêmico ou um político dar uma declaração de pesar numa coletiva; outra coisa é uma filha chegar fragilizada do exterior, depois de um vôo dolorido, talvez solitário, longe de outros parentes. Em velórios, o bom entrevistado não é o que vai chorar, mas, sim, o que estiver disposto a passar boas informações.
MEUS ERROS:
- - quando for conversar com algum visitante "do público", não basta perguntar seu nome completo e idade. Pergunte sua profissão, o bairro onde mora e todas as questões que possam localizar socialmente essa pessoa. Não é possível no jornal dizer que a pessoa é "simples", "sofisticada", "ignortante", "educada", "pobre" nem "rica", mas é possível dizer se é uma empregada doméstica ou uma professora de ensino médio; se mora em Brasilândia ou no Jardim Paulistano. Isso faz toda a diferença na hora de colocar suas aspas justificando a visita ao enterro. Não é jornalístico dizer que uma "mulher de 55 anos e três dentes visitou o velório de Ruth Cardoso para ver Marta Suplicy e Lula", mas é jornalístico dizer que "uma costureira de 55 anos veio a pé da Barra Funda ao velório de Ruth Cardoso, na Sala São Paulo, para ver Marta Suplicy e Lula".
- - se você quiser saber o preço da coroa de flores enviadas por Lula, não tenha receio de perguntá-lo à floricultura que a enviou. No entanto, comece com perguntas genéricas. Disque para o número do estabelecimento, que geralmente consta na faixa de mensagem de pêsames, pergunte qual a faixa de preço de coroas de flores dentro das mesmas características da enviada pela Presidência (de 1,8 m por 1 m dá quanto? E com palmas, crisântemos e antúrios, mas sem orquídeas?). Então, comente que você gostou muito da enviada pela Presidência e pergunte quanto custaria, mais ou menos, uma igual. No final, pergunte quanto custou para o Lula. Não precisa mentir --pode dar seu nome real, dizer que gostaria de saber o preço. Só não estrague tudo falando de cara que é do veículo tal, querendo saber quanto o Lula pagou por 1,8m² de flores.
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Menos é mais
O professor PAULO RAMOS comenta o exercício da semana passada.
Esta versão?
Isso significa que, a partir do próximo vestibular, a instituição, que não pretende recorrer da decisão judicial, será obrigada a tomar algumas providências, como indicar a condição de candidato com deficiência e, no momento da avaliação, garantir que haja intérpretes e professores preparados para viabilizar a compreensão dos comandos da prova pelo deficiente.
Ou esta?
Isso significa que a instituição, que não pretende recorrer da decisão judicial, será obrigada a tomar algumas providências a partir do próximo exame vestibular. Duas delas: 1) indicar a condição de candidato com deficiência; 2) no momento da avaliação, garantir que haja intérpretes e professores preparados para viabilizar a compreensão dos comandos da prova pelo deficiente.
Qual você escolheria para figurar numa página de jornal, se fosse o editor do caderno?
Eu tenderia a ficar com a segunda versão.
Por mais que não tenhamos aqui o contexto dessa notícia, o texto tende a ficar mais claro por causa da divisão das informações em frases e tópicos.
Essa é apenas uma forma de reescrever o primeiro trecho, que existiu mesmo, não foi nenhuma invenção.
Alguns leitores do “Novo em Folha” arriscaram soluções na semana passada, todas muito boas.
O segredo –se é que isso seja um segredo- é que o texto jornalístico flui melhor com frases mais curtas.
Não se trata de impor um estilo aos jornalistas. Nada disso.
É que construções menores tendem a tornar a leitura mais clara e contínua (e, de quebra, reduzem os problemas de vírgula e concordância).
Com isso, aumentam muito as chances de o leitor não desistir da matéria e de entender o conteúdo da notícia –real objetivo do texto jornalístico.
É um exercício contínuo –e louvável- nos policiarmos na hora de construir as frases. Estão suficientemente claras? O trecho ficou muito longo e de difícil leitura?
Quem agradece é o leitor, muitas vezes esquecido pelo jornalista no momento da redação da matéria.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 14h06
Bancos de dados podem morder

É mais ou menos isso o que diz o especialista Mark Nichols, nesta entrevista ao Indystar.com, que devo a meu professor Marcelo Soares.
Faço um resumo abaixo, mas sacudam a preguiça e leiam a entrevista no original:
- bases de dados podem ter erros. Se algo parecer estranho, desconfie. Confira.
- se vai colocar a base na internet, tenha ainda mais cuidado. Principalmente se a base citar pessoas nominalmente.
- os dados foram compilados por um ser humano, o que pode provocar erros de digitação, enganos etc.
- saiba tudo o que puder sobre seus dados: a amostra é representativa? quando foram coletados? que limites têm? pode ter havido falha na metodologia?
Mark também fala sobre como está o acesso a informação pública hoje nos EUA.
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 18h10



